Jardim Botânico de Salvador está ameaçado

                                                                                                                                                   Foto: Albenísio FonsecaDuas trilhas, a do Pau Brasil e dos Oitis podem ser visitadas, há outras com acesso restrito

ALBENÍSIO FONSECA

 

ATÉ QUANDO AS MAZELAS POLÍTICAS VÃO SE SOBREPOR ÀS NARRATIVAS CULTURAIS NO BRASIL?

                                                                                                               Arte: Oswaldo Guayasamín

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Albenísio Fonseca

Desde que entendida por gente, a sociedade brasileira convive de modo “natural” com extremos de desigualdade social e econômica a compor (com todos os seus artifícios) abismos intransponíveis entre os cidadãos em camuflada luta de classes. O mais emblemático dos sintomas a recordar é termos sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão. E não se pode deixar de recordar em quais condições a exploração da mão de obra escrava, de negros e negras importados da África, teve consumada sua abolição, após mais de 300 anos. Deixados ao léu.

Desde o osso do eixo da história brasileira, constata-se o sentimento antipopular das elites e das velhas camadas de oligarquias provenientes da classe média. Sim, vem desde o período colonial e com esse mesmo espírito chegaram ao século XXI. Sem temer o excesso, pode-se afirmar que a indisposição para a solidariedade só piorou diante do avanço do individualismo, onde a cultura da indiferença é regra e, por que não enfatizar, ninguém se sente verdadeiramente responsável por nada. Tendemos a transferir para outros a solução de nossos problemas; no caso do governo, que aja como um Mecenas a nos bancar a sopa e a cuia.

Em meio à controversa conjuntura de “marchadeiros e paneleiros”, “coxinhas e mortadelas” da atualidade, o suposto desejo de assumir as rédeas da sociedade revela, nitidamente – como delineado no golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2015 – o propósito de recapturar o Estado para recolocá-lo a seu serviço, no berço esplêndido das suas recompensas e malversações.

Mesmo com o golpe militar que levou à proclamação da República, o Brasil continuou a ter um sistema político regido por uma elite econômica. As restrições à participação eleitoral, até a Revolução de 1930, mostram que o “direito ao voto” alcançava não mais que percentuais pífios de “homens de bem”, algo entre 2% e 5% da população. Após a restauração da democracia em 1945, a proporção subiu, mas permaneceria em cerca de 15%, já computados os votos do eleitorado feminino. O cenário sobre o qual se consolida o golpe de 1964 – há 53 anos – era composto por apenas um terço da população adulta com representação política ou, diga-se, dois terços sem nenhuma representatividade.

Por todo o século XX, a normalidade democrática no país foi exceção. A sociedade brasileira foi submetida a duas longas ditaduras e sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado, considerando os bem e os malsucedidos. Oficiais das Três Armas não titubearam em deixar os quartéis para derrubar governos eleitos ou impedir a posse do vencedor, movidos por apelos de civis inconformados com a democracia, como revisto nos dois últimos anos. Não é difícil concluir o quanto o golpismo está inscrito nos genes da cultura política brasileira.

Aqui, a tendência antidemocrática é alimentada, sobretudo, pela aversão à presença do povo no centro da vida política nacional. Continuamos no limite tênue dos quadrados da Casa Grande e da Senzala, oh Gilberto Freire. Uma das características mais destacáveis na elite e legitimada pela classe média é o culto à excepcionalidade, ou pretensa meritocracia, a exigir líderes “notáveis” e a excluir o cidadão comum como inapto para ocupar “cargos elevados”, em particular a Presidência da República. Lula da Silva é o mais reconhecido exemplo.

Se, afinal, é sutilmente visível o quanto nossos problemas envolvem graves e históricas desigualdades social e econômica, diria mesmo, como um paradoxo, que são culturais antes de serem políticos, até quando as mazelas políticas vão se sobrepor às narrativas culturais no Brasil de tanta e fascinante diversidade?

Sim, mas, do mesmo modo, até quando a cultura servirá apenas como artifício de sedução a embalar o sono da pachorrenta rotina?
A Arte é subversiva por nos tirar do imobilismo. A Cultura é revolucionária, como ente social agitado contra a passividade, que serve sempre àqueles que defendem a perpetuação do status quo.

A nossa escolha para a substituição do poder deve ser um exercício de identificação com propostas que prometem mais do que o emprego, mais que a subsistência, a qualidade de vida. E hoje, mais do que nunca, de modo constante, precisamos cobrar a dívida cultural – contra a tendência de consumidores passivos, tendo como objetivo ser os anunciadores do futuro. Só então a cultura, superando o divórcio não pactuado – quiçá possa se reconciliar com a política e vice-versa.

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

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A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

Lagoa é aterrada e via interditada em Stella Maris

         Fotos: Albenísio Fonseca
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Nenhum órgão tem conhecimento e não há mesmo qualquer placa para licenciamento da obra
ALBENÍSIO FONSECA

Há mais mistérios entre os bairros de Stella Maris e Flamengo do que sonha nossa vã cidadania e a atividade jornalística ousa constatar. A lagoa perene existente no limite entre os dois locais e que, como se diria mesmo de um rio, deságua na praia de Stella, foi bloqueada com o barro retirado da única passagem para pedestres e automóveis que interliga os dois bairros ao Norte da cidade, inviabilizando, também, qualquer fluxo ali, face à cratera aberta. O local da intervenção, sem qualquer placa de licença, fica exatamente em frente ao Restaurante do Lôro, cujo proprietário adotou a louvável iniciativa de revitalizar e proporcionar caráter paisagístico àquele trecho, ainda que para benefício próprio. 

Mas, segundo Tiago, gerente do empreendimento, o empresário – que não respondeu diretamente à demanda sobre a questão encaminhada pela Tribuna – também teria sido “surpreendido com a obra” e “se sente prejudicado com o problema gerado para a mobilidade dos seus clientes e o acesso ao restaurante e bar”. O gerente disse “acreditar que a escavação foi realizada à noite, sem que ninguém percebesse”. Por duas vezes em períodos recentes, um trecho ali próximo (a cerca de 50 metros) foi motivo de reação da comunidade contra a tentativa de cercar o terreno até a borda da praia. Tiago negou enfaticamente que o bloqueio da lagoa e da passagem tenham sido feitas por eles.

Do mesmo modo, a Conder, através da assessoria, disse “desconhecer o fato” e que “realizamos um trabalho de urbanização em Ipitanga, já no município de Lauro de Freitas”. O Inema também nega qualquer intervenção e até traçou um histórico da fiscalização por demandas naquela área. A assessoria do órgão encaminhou nota relatando que, “em 2015, foi formado e atendido o processo de denúncia 2015-000705, que tratava de suposto aterro e barramento na lagoa de Stella Maris. Após inspeção técnica na área, a situação não foi identificada em campo, tendo sido constatado o histórico de uso e ocupação do solo por residências na Área de Preservação Permanente do citado corpo hídrico”.

Em 2016, também conforme o Inema, “foi formado e atendido o processo de denúncia 2016-002358, que relatava o despejo de esgoto no mar, por empreendimentos locais. Foi realizada inspeção técnica no Grand Hotel Stella Maris, assim como na Estação Elevatória de Esgoto da Embasa. No momento da inspeção não foi verificado nenhum lançamento de esgoto na área da praia de Stella Maris”. Na avaliação do órgão ambiental do estado, “a área em questão vem sofrendo novas intervenções recentes, que acreditamos ser da autoria da Prefeitura Municipal de Salvador” e se comprometeu em “agendar nova inspeção no local para verificação da problemática junto à Prefeitura Municipal e/ou Embasa”. O agendamento, anunciado desde o dia o último dia 3, ainda não foi cumprido, diga-se.

Nenhum texto alternativo automático disponível.Gerente do Lôro disse “acreditar que escavação foi feita sem que ninguém percebesse”

À reportagem, a Embasa respondeu que “com relação à praia de Stella Maris, esclarecemos que a estação elevatória de esgoto existente no local está operando normalmente. O questionamento dos moradores, em maio de 2016, esteve relacionado a falhas no fornecimento de energia elétrica pela Coelba, que afetaram o funcionamento da estação na época”. Assegura, ainda, que “desde então, a Embasa tem participado de diversas reuniões com a comunidade sobre o assunto” e que “atualmente, a empresa aguarda que o projeto para instalação de gerador de energia elétrica na estação seja autorizado pela Secretaria do Patrimônio da União, responsável pela gestão do uso do solo em terrenos de marinha”, negando o barramento da lagoa e da via de acesso entre os dois bairros.

O titular da Secis-Secretaria Municipal Cidade Sustentável, André Fraga, por sua vez, garantiu não haver ainda nenhuma atuação da Prefeitura nesse local. “Pelo contrário, estamos com grande expectativa em relação à urbanização da Orla de Stella Maris e Flamengo, a exemplo das já promovidas em outras extensões de Orla da Cidade”, enfatizou. Ele também chegou a sugerir tratar-se de “alguma possível intervenção da Embasa”, o que já foi demonstrado que não pela Empresa de Água e Saneamento da Bahia. O certo é que, com o barramento no curso para o mar, a qualquer chuva mais forte nesse Verão, como é natural da Estação, centenas de residências e condomínios, que têm a lagoa no limite lateral ou de fundo, poderão sofrer uma inundação devastadora. Não sabemos, como o Hamlet, de Shakespeare, se diante de uma tragédia consumada, haverá tempo ou necessidade de desvendar o mistério do aterramento e o impedimento de uma via pública em um cenário digno de uma terra de ninguém.

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Publicado originalmente na Tribuna da Bahia em 27.01.2017

Banho em Pituaçu gera controvérsias

                                                                                                                                                                                                                                                                          Fotos: Mônica Bitencourt
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Crianças tomam banho em área considerada imprópria na Lagoa de Pituaçu

 
ALBENÍSIO FONSECA

Desde há exatamente um ano, o Inema-Instituto de Recursos Hídricos vem informando sobre condições “próprias” de balneabilidade para a Lagoa do Parque Metropolitano de Pituaçu. Os boletins emitidos pelo órgão em 2016 consideraram a água “imprópria” apenas em duas segundas-feiras, 22 de fevereiro e 16 de maio. Conforme Paulo Canário, integrante do grupo Viva o Parque de Pituaçu, mantido em rede social e em encontros presenciais, o entendimento é que a balneabilidade foi atestada como uma consequência da entrada em funcionamento da Elevatória de Tempo Seco do Rio Pituaçu, [mantida pela Embasa] na altura da recém-implantada Avenida Gal Costa e que foi recentemente canalizado. Isso retirou, nesta época de seca, a contribuição dos esgotos lançados no rio e que são despejados na lagoa do Parque”.

A questão é controversa na medida em que a coleta da água para análise é feita em apenas um ponto da lagoa, exatamente na área em que ficam os pedalinhos, considerando a dimensão da lâmina de água daquele manancial, embora comprovado por laudo laboratorial e segundo critérios adotados pelo Conama-Conselho Nacional de Meio Ambiente. De acordo com o coordenador de Monitoramento do Ibama, Eduardo Topázio, “o método é o mesmo aplicado na coleta e análise das condições da água das praias”. Mas, ainda segundo ele, “é fato que com chuvas fortes o rio extravasa da elevatória e conduz resíduos sólidos para a lagoa”. Ou seja, acrescentou, “os rios que são contribuintes do de Pituaçu e, portanto, vão entrar na lagoa, já vêm poluídos de áreas densamente povoadas e sem rede de esgotos”.

Gera estranheza a comunicação de “própria para banho”, quando isso deveria ser assegurado apenas na área da coleta, em que pese os seguranças do parque serem orientados a alertar banhistas, notadamente em outros trechos (ainda que próximos da área “liberada”),  para a proibição do banho. Do mesmo modo, a administradora do equipamento metropolitano, Bernadete Bittencourt, solicitou ao Inema e, de acordo com a assessoria do órgão ambiental, “já está sendo programada”, a “instalação de novas placas alertando para a proibição do acesso à água na lagoa”. Conforme o Inema “as placas existentes e que também sinalizam a proibição estão corroídas por salitre”. Segundo Topázio, “estão aguardando apenas obter algum patrocínio para a instalação”.

Vale salientar, além do mais, que o “local dos pedalinhos” (onde se dá a coleta de água pelo Inema para análise) foi transferido da frente do píer para um ponto em frente, levando à perda do conforto para embarque e desembarque dos usuários, notadamente nos finais de semana. A mudança decorreu da “ameaça da queda de galhos” de uma árvore frondosa naquele pequeno cais, agora isolado por tapumes, à espera de uma licitação para promover a poda no vegetal, o que, convenhamos, é um inaceitável absurdo. A situação, aliás, é similar à em que se encontra o pórtico do parque – até então ocupado pelo artista plástico Mário Cravo Jr. por doação do Estado durante o Governo Antonio Carlos Magalhães – em obra de reforma, mas paralisada. O pórtico é defendido por representantes da comunidade como “local apropriado para a realização de cursos e oficinas destinados às crianças e jovens das famílias mais carentes do bairro”.

 

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Tapumes e avisos improvisados isolam o pier na lagoa do Parque Metropolitano

Ex-administrador critica tapumes e falta de salva vidas

Ex-administrador do parque, César Menezes disse de outra pesquisa da qualidade da água, realizada por estudantes da UCSal-Universidade Católica de Salvador e por integrantes da Ong SOS Mata Atlântica, que também constatou condições de balneabilidade no trecho da lagoa próximo à área doada pelo Estado à Universidade. De todo modo, ele defendeu a necessidade de se promover uma pesquisa de qualidade das condições da água por uma entidade independente. Após três anos e meio à frente do equipamento, Menezes considera “uma temeridade liberar o banho ali, tanto pelo comprometimento da água quanto pela ausência de salva vidas quanto pela existência de jacarés (dois já foram vistos ali) e cobras sucuris (que já comeram cachorros, aves), e assemelham-se a um coqueiro boiando na superfície do lago”.

Ele também mencionou a Elevatória de Tempo Seco e o encapsulamento do Rio Pituaçu na Avenida Gal Costa, bem próximo à Avenida Paralela, como, a um só tempo, vetor de contenção e condução de lixo e esgoto. “Durante as chuvas as comportas são abertas e leva muito lixo para a lagoa”. Ele apontou, ainda, a “redução no número de visitantes” e criticou a permanência dos tapumes na entrada do parque em frente à Orla. “A sensação para quem passa e vê, além da cerca, tapumes, é a de que o Parque Metropolitano não está funcionando. Aliás, nem mesmo o nome do parque consta mais”, ressaltou. Cézar Menezes disse da “existência de registros de afogamentos na lagoa e a dificuldade em impedir o acesso, principalmente por crianças que desobedecem aos alertas dos seguranças, mas há também a imprudência de jovens e adultos”.

Vendedor de água e guloseimas, há 17 anos no parque, Pequeno (que é como ele prefere ser chamado) disse ter “muito receio de tomar banho atualmente porque a qualidade da água já não é a mesma de anos atrás, quando não só eu, mas toda a comunidade se banhava na lagoa”. Carlos Roberto Aguiar, fisioterapeuta, disse que “por nenhum dinheiro do mundo tomaria banho ali”. A avaliação dele é a de que “a aparência da água é de sujeira, mesmo que garantam estar própria para um mergulho”.


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Mais para esporte que busca de alimento, a pesca segue como opção na outrora piscosa lagoa

Local tem previsão de Parque Olímpico em 16 hectares

Dos 660 hectares (ha) que dispunha quando da inauguração, a poligonal do parque foi reduzida para 352 ha, em dezembro de 2006, no apagar das luzes do Governo Paulo Souto e teve reintegrados 40 ha, em maio de 2013, pelo Governo Jaques Wagner. Ou seja, mede hoje 392 ha. Os governantes alegavam “dificuldades para pagar indenizações a proprietários de áreas”. Existe uma programação de que o equipamento abrigue um Parque Olímpico, no entorno do Estádio Roberto Santos, com 16 ha reservados.

O Governo Jaques Wagner doou 41 ha para a UCSal-Universidade Católica de Salvador  e outros 10 ha para a Uneb-Universidade Estadual da Bahia, em trecho que incluiu o Museu de Ciência e Tecnologia, na área limite com a Avenida Jorge Amado, no Imbuí. A construção de um Quartel da Polícia de Eventos, em fase de conclusão, dentro da poligonal, é apontada por ex-dirigentes do equipamento como “decorrente de invasão”. É, também, extremamente visível o impacto causado pelas inúmeras torres construídas no entorno do Parque pela Construtora Odebrecht. 

MAB já prepara comemoração dos 100 anos

                                                                                                                                                                                                          Foto: DivulgaçãoNenhum texto alternativo automático disponível.Dias 11, 18 e 15 de janeiro acontece um seminário para pensar o acervo do MAB
ALBENÍSIO FONSECA
 

Detentor do principal acervo museológico do estado, o MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em pleno coração da cidade, já deu início aos preparativos para as comemorações do centenário, em 23 de julho de 2018, com o lançamento do concurso, de âmbito internacional, visando a escolha da logomarca da efeméride. Para tanto, as inscrições estão abertas até 1º de fevereiro e o prêmio é de R$ 5 mil. O sociólogo, fotógrafo, curador e mestre em Artes Visuais, Pedro Archanjo, diretor da instituição, revelou a “estimativa de R$ 3 milhões para as comemorações, dos quais R$ 1, 8 milhão a serem obtidos junto à iniciativa privada para a requalificação do acervo”.

Archanjo anunciou, também, a realização nos próximos dias 11, 18 e 25 de janeiro, no auditório do museu (com capacidade para 190 pessoas), de um “grande seminário para pensar o acervo de 13.686 peças, com o levantamento inicial de subsídios teóricos e informações técnicas para a requalificação do patrimônio artístico existente”. Para tanto, constituiu uma equipe externa, composta por profissionais como os museólogos, Joseania Freitas, Suely Cerávola; o doutor em Arte Visuais, Luís freire; o antropólogo, artista plástico eprofessor de Comunicação, Renato da Silveira, todos da UFBA, cujo relatório final deve estar concluído em junho.

Conforme o diretor do MAB, “não queremos fazer apenas atividades comemorativas, mas implementar ações estruturantes”. Entre as já cogitadas ele cita a “realocação da biblioteca, disponibilização de Internet livre e em tempo real além de um restaurante-café, a ser terceirizado, na área que dá acesso ao Vale do Canela, onde já funcionaram repartições da Secretaria da Saúde e uma agência do Baneb. Vamos tornar esse espaço em área de convivência, dentro do propósito de viabilizar dotações de recursos que permitam a sustentabilidade do equipamento e a oferta de mais atrativos para o público”.

Com o calendário do centenário já vigindo desde o dia 1º de dezembro, quando foi lançado o concurso para a escolha da logomarca, o MAB planeja adotar neste primeiro semestre de 2017 programas como o Museu Escola Família, a partir de convênio a ser firmado com a Secretaria Estadual de Educação e o Irdeb, no qual alunos das redes pública e privada passarão um dia inteiro no Museu,  acompanhados por equipe do MAB. “Caberá aos estudantes definir o que pretendem filmar, para o que participarão de uma oficina de vídeo com laboratório digital para edição, tendo à disposição câmeras, microfones e spots para iluminação, além de transporte e alimentação”. O projeto tem custo estimado em R$ 110 mil, conforme o diretor.  Archanjo mencionou, ainda, a “criação de um caleidoscópio gigante que percorrerá bairros populares, não só em Salvador, mas em outros municípios”.

 
Telas de Van Gogh serão expostas por 3 meses
 

Dentre as atividades comemorativas, a serem deflagradas a partir de julho, quando festejará os 99 anos, estão sendo programadas a exibição de dois quadros do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), durante três meses – sob custo de R$ 600 mil, incluídos os seguros das duas obras pertencentes ao Masp-Museu de Arte de São Paulo – e a participação do cantor e compositor Caetano Veloso, que proferirá a palestra já intitulada “O mundo não é chato”.

Conforme o diretor, “haverá, também, uma exposição de Arte Moderna com obras de alguns dos principais artistas modernistas brasileiros que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, da Universidade de Fortaleza (CE). Segundo ele, “fotografias da Bahia antiga também deverão ganhar espaço nobre e temos, ainda, em andamento, um projeto multimídia que promoverá intervenções de fotos e vídeos, em 3D, a serem acionados por sensores de presença, dialogando com o acervo tradicional, multiplicando a capacidade expositiva e surpreendendo os visitantes”, revelou.

Pedro disse pretender “que a equipe externa envolvida com os estudos sobre a requalificação do acervo desenvolva, também, uma tarefa arqueológica, visando identificar quem foram os negros escravizados responsáveis pelos trabalhos de marcenaria, carpintaria e ourivesaria nas diversas peças existentes no MAB”. Criador da Bienal do Recôncavo, Archanjo fez ver a riqueza de detalhes de enormes pulseiras e braceletes de ouro usadas por negras ganhadeiras como símbolos da ostentação de status, poder e liberdade, lamentando o desconhecimento, até agora, sobre os criadores das peças.

                                                                                                 Foto: Divulgação
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Pedro Archanjo, diretor do MAB
Diretor deu nova face e dinâmica ao museu
 

Desde que assumiu a direção do MAB, mesmo sem dotação orçamentária, Pedro Archanjo adotou uma dinâmica intensa de atividades com aproximadamente 20 eventos mensais. A média de público que era de 14 pessoas/dia passou à média de 90 frequentadores diários e é meta da diretoria alcançar 150 pessoas diariamente até o final do primeiro semestre de 2017 e 200 até o final do ano. Em 2016, entre as iniciativas da programação constaram exposições, lançamentos de livros, palestras, debates, seminários, cursos e oficinas.

Criamos projetos como o “Diálogos Contemporâneos“, cuja programação nas primeiras quartas-feiras de cada mês, envolveu temas diversos, desde as religiões de matriz africana à discussão da PEC 421/55, à filosofia das Artes e políticas culturais, possibilitando interação com novas ideias. “Tivemos até de instalar um telão para contemplar o público, estimado em 400 pessoas, em um dos eventos”, lembrou. De acordo com Pedro, “este foi um ano muito importante para o MAB, na medida em que pudemos conciliar questões clássicas da museologia com os desafios da contemporaneidade”, avaliou.

No momento, o MAB exibe mostras como a “Florata”, de Alba Vasco (até 3.02) e integra o Circuito das Artes, envolvendo coletivo de artistas, sob curadoria de Alejandra Muñoz e Eneida Sanchez, além de abrigar as exposições permanentes – da Escola Baiana de Pintura – com obras de Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho, entre outros (a exigir novo projeto de iluminação). Também as coleções de pintura do Conselheiro Jonatas Abbott, dos séculos XVII e XVIII, de origem europeia, onde se destaca  o quadro “David com a Cabeça de Golias”, da Escola de Caravaggio. Desde 1943, a do ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon, que reúne importantes conjuntos de artes decorativas, notadamente mobiliário de época e porcelanas orientais, como o conjunto de “louça histórica” que pertenceu a vários representantes da aristocracia brasileira.

No térreo do antigo solar, que pertencera a um rico comerciante de escravos, encontram-se, ainda, gravuras que possibilitam passeios pela Salvador dos séculos XVII, XVIII e XIX, entre mapas e aspectos da urbanização à época da invasão holandesa, em 1624. O museu conserva, além do mais, uma considerável coleção de imagens religiosas e objetos da liturgia católica como lampadários, castiçais e cruzes. Conforme Pedro Archanjo, “nosso projeto maior é o de entregar à cidade um novo museu, que dialogue com as demandas artísticas da contemporaneidade sem perder suas características históricas e as comemorações do centenário serão fundamentais para consolidarmos essa tendência”.

 

Biblioteca Central tenta sair do caos

                                                                                                                                                   Foto: Albenísio Fonseca

Aos 205 anos, Biblioteca Pública vive piores transtornos

ALBENÍSIO FONSECA

O cenário de abandono – com ar-condicionado quebrado, grades oxidadas, falta de assinaturas de periódicos e setores funcionando precariamente – que passou a incidir este ano sobre a Biblioteca Central, nos Barris, está com os dias contados. É o que garante Zulu Araújo, diretor-geral da FPC-Fundação Pedro Calmon, instância da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, à qual a Biblioteca está subordinada. Na última quinta-feira ele assinou contrato para o conserto do sistema de climatização ao custo de R$ 200 mil, verba de custeio liberada em caráter de urgência pela Sefaz-Secretaria Estadual da Fazenda através da Secult. Segundo Zulu, “a central de ar – tecnologia mais avançada à época – foi instalada há 20 anos e não permite funcionamento em setores isolados, acarretando enorme custo de energia nos finais de semana quando apenas um dos setores está em funcionamento, além da própria defasagem do artefato”.

Conforme Araújo, “o conserto do ar será realizado com a biblioteca em funcionamento, afim de que no Verão o problema esteja sanado”. Defendeu a necessidade de implantar um novo sistema de ar, mas lamentou que “um equipamento que atenda a todas as exigências técnicas tenha custo estimado em cerca de R$ 1 milhão”. Ele adiantou, todavia, “projeto para captação de energia solar como fonte alternativa de energia”. Quanto às assinaturas de periódicos, assegurou que em janeiro já estarão regularizadas; avaliou tratar-se de “algo momentâneo em razão de os novos contratos dependerem de processo licitatório”, mas que “o empenho dos recursos para isso já foi efetuado”. Ao desmitificar a concepção de que o segundo maior equipamento cultural do estado (o primeiro é o Teatro Castro Alves) tenha sido transformado em um complexo – na medida em que abriga, além da própria biblioteca em si, o Espaço Xisto Bahia, Galeria Pierre Verger e as salas de Cinema Walter da Silveira e Alexandre Robatto – Zulu assegurou que “isto não chegou a ocorrer de forma organizada, institucional, em que pese ter permanecido com programações desarticuladas”.

Ele disse da posse da nova diretora da Biblioteca Pública, Lívia Freitas, em 25 de novembro e adiantou a realização de convênio com a Faculdade de Arquitetura da UFBA, visando adequações arquitetônicas e espaciais, além da aquisição de mobiliário mais confortável para os usuários junto à empresa 3M, com expertise na área de bibliotecas, ao acenar com nova concepção de funcionamento e gestão, a de “biblioteca-parque”. Para qualificar a iniciativa, a FPC traz a Salvador em janeiro, para uma palestra, a filósofa Vera Saboya que esteve à frente do desenvolvimento de uma nova política de leitura no estado do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. Vera é apontada como uma “profissional focada em resultados, com larga experiência em administração, comércio, franquias, planejamento estratégico e análise na área da cultura”.

Ideia é converter espaço em um polo cultural

O conceito contemporâneo de biblioteca, já adotado por vários desses equipamentos em alguns estados do País, consiste em “espaço adaptado, não apenas para garantir livre acesso à informação, leitura, pesquisa ou realização de deveres escolares, mas enquanto polo de atividades culturais, informações e lazer, ambiente de convivência e convergência, que fomentem o desenvolvimento de linguagens e promovam a produção de conteúdos e técnicas em base multimídia, impressa, audiovisual e digital, além de buscar ser um lócus para encontros e desenvolvimento de atividades conjuntas”.

Conforme documento que conceitua a conversão, a biblioteca parque envolve, ainda, “oferta diária de diversas modalidades de oficinas, cursos, seminários, workshops de formação e capacitação; cursos livres (abertos a todos) de curta e média duração, voltados a ampliar o escopo da leitura, da literatura e do conhecimento. Aliás, destinados não apenas a educadores, professores, bibliotecários, agentes e mediadores de leitura, mas, sobretudo, para o público em geral”. Entusiasmado e tendo 2018 como horizonte, Zulu reforça o propósito estipulando a “criação de áreas temáticas para crianças e pessoas especiais (cegos, surdos, mudos), com o conforto de atividades culturais agregadas à função precípua do estímulo à leitura”.

Para garantir a consolidação da iniciativa, o diretor da FPC diz ser “fundamental a criação da Associação de Amigos da Biblioteca”, ainda sem caráter jurídico definido, mas visando uma gestão compartilhada no futuro. Um edital visando a implantação da entidade, segundo ele, será lançado no primeiro semestre de 2017. “O objetivo é obter apoio de setores da sociedade e recorrer a programas de estímulo como a Lei Rouanet, o FazCultura e mesmo à articulação junto à Assembleia Legislativa visando à proposição de emendas de bancadas que possibilitem o levantamento de recursos da ordem de R$ 10 milhões, ainda que em etapas”.

Prestes a assinar portaria criando uma comissão interna que vai gerir o plano de trabalho a ser cumprido, Zulu garante já dispor de uma “lista com 20 nomes de celebridades baianas que passaram pela biblioteca”. Ele mencionou a presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel; o próprio secretário de Cultura, Jorge Portugal, além de citar outros envolvidos na tarefa de resgatar a estrutura física e organizacional do equipamento, como o arquiteto Nivaldo Andrade e Armando Almeida, ex-assessor especial do MinC-Ministério da Cultura nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira durante os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Conforme o dirigente cultural, “precisamos criar uma ação macro para corresponder aos 17 mil m² de área construída da Biblioteca Central”. Com 205 anos de criada e há 46 ocupando a enorme área nos Barris, como se diria de um elefante branco, o equipamento não dispõe de orçamento específico e a própria FPC, como de resto as demais instituições culturais baianas, vive as agruras da crise econômico-financeira que atravessa o Brasil, sob os limites dos contingenciamentos determinados pelo Executivo sobre os recursos estaduais.

Em ruína, Cine Jandaia é doado ao Estado

                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Carol Garcia/Secom-BAA deplorável situação de abandono a que chegou o Cine Teatro Jandaia

ALBENÍSIO FONSECA

O Cine Jandaia é nosso. Bem entendido, passa ao controle do Estado a partir do próximo dia 17 quando representantes da Casa Civil e do Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural confirmarão ao promotor de Justiça do Meio Ambiente, instância do MPE-Ministério Público do Estado, Antonio Sergio Mendes, a decisão de aceitar a doação do imóvel em ruínas, conforme proposta da Savinal S/A Comércio e Indústria, pertencente a Cláudio Valansi, proprietário do equipamento. Inaugurado em 1931, o Jandaia detém relevante importância histórica e arquitetônica, em seus 1.200 m² de área construída, por suas influências das artes Nouveau e Déco e pela extensa lista de artistas locais, nacionais e internacionais que se apresentaram no local.

Até então, a propriedade é de Valansi, herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, empresa nacional, que atua no ramo de exibição cinematográfica com mais de 60 salas de projeção em diversos estados do País e sede no Rio de Janeiro. Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, as negociações com o proprietário, visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014.

Após manifestação pública, há exatamente um ano, convocada pelo fotógrafo e produtor cultural Dimitri Ganzelevitch, através de redes sociais na Internet, em ato que envolveu um “abraço” ao prédio em ruínas, na Baixa dos Sapateiros, o governador Rui Costa optou por baixar decreto tornando o antigo “Palácio das Maravilhas”, de “utilidade pública para fins de desapropriação”. Segundo a assessoria do Ipac, “já existe um pré-projeto para contenção imediata da estrutura” que se encontra sob ameaça de desabamento, embora não haja, ainda, recursos alocados para a intervenção. “Nosso objetivo é que o novo centro seja voltado para a promoção de artistas locais”, disse o governador.

A decisão de proceder a doação ocorreu no início de setembro, quando da última audiência promovida pelo MPE com o proprietário e representantes do Estado. Considerando a decisão de “aceitar a doação”, confirmada à Tribuna pela assessoria da Casa Civil, o promotor Sérgio Mendes disse que “caberá elaborar a documentação necessária”. Mendes adiantou “já dispor de uma minuta pronta para tal propósito que envolverá, ainda, um TAC-Termo de Ajuste de Conduta a ser firmado pelas partes envolvidas no processo”. Cláudio Valansi não aceitou participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento.

Em estado deplorável internamente, o imóvel vem sendo ocupado, sob respaldo do proprietário, há mais de 20 anos pelo ferreiro Valdemir Nascimento Costa. Ele tem oficina na Ladeira do Alvo, ao lado do cine-teatro e mesmo dispondo da chave que dá acesso às instalações, só permite a entrada de pessoas previamente autorizadas por Cláudio Valansi. O ferreiro disse ser “remunerado para manter o espaço sob controle”, embora garantisse não receber qualquer valor há bastante tempo. “O que me interessa é garantir a moradia. Para me tirarem daqui terão que oferecer algum lugar para morar, seja o dono ou o Estado”. Conforme Nascimento, “muitos estudantes universitários vêm aqui querendo conhecer a estrutura interna, mas como não têm autorização não libero a chave”, disse.


Vitral foi retirado pelo temor de desabamento do prédio

O vitral da fachada do Cine Teatro Jandaia, de 5 x 3,5 metros, foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, dado o risco de desmoronamento do prédio e face ao extraordinário valor artístico da peça a ser restaurada. “Parte dos vitrais chegaram intactos, outra parte recuperamos”, revelou Kathia Berbert, coordenadora de Restauro de Elementos Artísticos do órgão. A remoção foi orientada pelo professor da Universidade Federal da Bahia, José Dirson Argolo. As partes que compõem o vitral foram forradas com isopor e permanecem acondicionados em caixas de madeira. A peça artística foi idealizada pelo fundador do Jandaia, João Oliveira, tendo uma ave, a jandaia, em uma das mãos de uma figura feminina típica da Art nouveau

O prédio do Cine Jandaia é uma exemplar referência da arquitetura proto-moderna na Bahia. Concebido a partir de elementos da Art Déco, suas linhas seguem uma simetria com integração e articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Na decoração interna, alguns elementos decorativos recorrem, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia. A edificação foi erguida em estrutura de concreto armado, com fachadas revestidas em pó de pedra, sob grande quantidade de janelas venezianas, com bandeiras de vidro. Art Decó consiste em conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coeso, que se iniciou na Europa e se difundiu pelas Américas do Norte e do Sul, chegando ao Brasil, a partir da década de 20.

Os espaços internos registram a preocupação com a ornamentação estética do cine-teatro. O foyer recebeu revestimento de mármore rosa nas paredes, com moldura em mármore preto, guarda-corpo com desenhos em ferro, camarotes com contorno circular em metais e colunas, além de painéis em gesso com figuras mitológicas. A área da audiência possui grande rosácea no centro do forro e figuras femininas nas laterais do palco. Desde sua fundação, o Cine Teatro Jandaia foi palco de significativos eventos culturais, tanto na área da música quanto na do teatro, com apresentações de renomados artistas nacionais e estrangeiros, apesar da discriminação manifestada então pela elite soteropolitana, em decorrência de sua localização na Baixa dos Sapateiros (Rua J. J. Seabra), considerada de natureza popular quando confrontada com a Rua Chile, lugar elegante e preferido à época.

O Cine Teatro Jandaia atingiu a sua função cultural maior e, sem dúvida, de cunho bastante popular, com realizações de sessões de cinema pela manhã aos domingos e feriados, diariamente pela tarde (matinês) com dois filmes e à noite com exibição de apenas um único filme em duas sessões. O contador Walter Barreto disse ter frequentado a programação de cinema do Jandaia, desde criança e até a adolescência. Recordou filmes de karatê e disse que havia bastante público, inclusive competindo com o Cine Tupi, também na Baixa dos Sapateiros, que instalou ‘cinerama’, tecnologia de tela côncava com três projetores sincronizados. “Nada disso afastava o público cativo do Jandaia”, disse. Já em declínio em meados de 1970, assim como a maioria dos tradicionais cinemas do centro da capital, o Jandaia foi desativado na década de 80, estando atualmente em completo abandono. Trata-se, porém, do único dos cinemas de Salvador surgidos no período entre guerras que ainda mantém características originais. (AF)

Corrosão danifica vigas do Castelo Garcia D´Ávila

                                                                                                                                                                                                                                                 Fotos: Albenísio FonsecaVista de janela da primeira edificação portuguesa no Brasil e única
em formato de castelo medieval da América

 

ALBENÍSIO FONSECA

Vigas de ferro que sustentam escadarias e passarelas instaladas nas ruínas do Castelo Garcia D’Ávila, de estilo medieval, estão comprometidas pela corrosão decorrente do tempo e salitre. As estruturas foram inseridas na edificação, em 2002, para permitir melhor visão interna de áreas nobres, por turistas e pesquisadores.  O sítio histórico está localizado em Praia do Forte, município de Mata de São João, a 80 quilômetros de Salvador.

Solicitação para o restauro das vigas foi encaminhada pela Fundação Garcia D’Ávila, desde 2006, ao Iphan-Instituto do Patrimônio Artístico Nacional. Segundo a entidade, não houve qualquer posicionamento do órgão. O Castelo ou Casa da Torre foi um dos primeiros patrimônios arquitetônicos tombados pelo Iphan, quando ainda era Sphan, em 1937. O Castelo da Torre de Garcia D’Avila é considerado a primeira grande edificação portuguesa construída no Brasil e exemplar único de Castelo em estilo medieval construído na América.

De acordo com a funcionária da Fundação, Vanessa Rode, “mesmo com a estrutura estando em situação precária, merecendo restauro, não há nada que possa provocar acidentes”. Ela informou, todavia, que o número de visitantes nas passarelas, a cada tour, foi reduzido de 20 para 14. “Sempre que temos eventos e a presença de grupos maiores o acesso é limitado por questões de segurança”. O Castelo dispõe de 12 funcionários e suas ruínas são mantidas em ótimas condições de higiene e limpeza.

A Casa da Torre foi construída entre 1551 e 1624, a 73 metros acima do mar, no ponto mais alto de toda a região, até Sergipe. O acesso ao equipamento, a 3 quilômetros da entrada de Praia do Forte, vem sendo pavimentado pela prefeitura local. A Fundação Garcia D’Ávila administra, também, a Reserva de Sapiranga, na região de Praia do Forte. São 533 hectares de terra, caracterizados como uma área secundária de Mata Atlântica, por ter sido devastada para o plantio da monocultura do coco e para a prática de pecuária extensiva durante a colonização portuguesa. Hoje, a Mata Atlântica vem se recompondo de forma natural e exuberante na reserva.

As vigas que sustentam as passarelas estão corroídas e comprometem a segurança de visitantes

Sítio histórico será museu a céu aberto

A visita à Casa da Torre ocorre de domingo a domingo, com ingressos a R$ 10, e meia-entrada para idosos, professores e estudantes. A taxa é avaliada como “a título de contribuição, cuja arrecadação é destinada à manutenção e proteção das ruínas, gerando empregos para a população nativa”. A Casa da Torre dispõe de uma maquete de como poderia ter sido a edificação, a um só tempo residência e fortificação militar. Ganhou um Centro de Visitação com 1.700 metros quadrados, formado por um amplo salão onde está exposta a maquete do Castelo e espaços com salas para exposições históricas e arqueológicas, loja, salão para áudio visual, belvedere e centro administrativo.

Dispõe, ainda, de laboratório de arqueologia que reúne pedras, louças, materiais em estilo barroco, cerâmicas portuguesa, chinesa e indígena, além de crânios encontrados no cemitério que existia ao lado da Capela erguida em louvor a Nossa Senhora da Conceição e que passou a louvar a Todos os Santos.

O projeto de converter o espaço em um “museu a céu aberto” já deveria ter sido concluído desde 2010, conforme narrativa no vídeo exibido no local sobre a história do Castelo. As peças vêm sendo catalogadas e restauradas. Há quadros e painéis pintados pelo artista plástico argentino Mariano Artega adornando o salão.

Conforme o site da Fundação Garcia D’Ávila, o equipamento foi tornado em Parque Histórico e Cultural, “um complexo que compreende as ruínas da Casa da Torre ou o Castelo e um sítio arqueológico na área do seu entorno”. O Parque oferece espaço para eventos, como cerimônias de casamentos, comemorações, aniversários, exposições e festas de empresas, sob regras comportamentais estabelecidas pelo Iphan e pela Fundação e dos quais são obtidos recursos para a manutenção do Castelo e outras ações da entidade.


Maquete de como poderia ter sido o Castelo ou Casa da Torre, de Garcia D’Ávila

 

Sede de latifúndio do bastardo de Tomé de Souza

A propriedade era a sede do imenso latifúndio adquirido e ampliado por Garcia de Sousa D’Ávila (São Pedro de Rates, 1528 – Salvador, 20 de maio de 1609), filho bastardo de Tomé de Souza, a quem acompanhou na vinda ao Brasil como primeiro governador-geral e fundador de Salvador, em 29 de março de 1549. D’Ávila foi nomeado, em 1º de junho daquele ano, como “feitor e almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfândega”, um cargo sem ordenado, arriscando-se a viver dos azares do negócio, tendo apenas “os prós e percalços que lhes diretamente pertencerem”.

Como os soldos e serviços eram pagos geralmente em mercadorias e muito raramente em dinheiro, Garcia D’Ávila recebeu, em 15 de junho, seu primeiro pagamento – duas vacas -, assim começando sua longa jornada de sucesso. Trabalhou com esforço austero e inexcedível energia durante a construção de Salvador e instalou-se inicialmente em Itapagipe, depois em Itapuã, vindo a se tornar o primeiro “bandeirante” do Norte. Tomé de Sousa doou a Garcia d’Ávila 14 léguas de terras de sesmaria que lhe haviam sido outorgadas pelo rei Dom Sebastião.

As terras iam de Itapuã até o Rio Real e Tatuapara, pequeno porto 50 metros sobre o nível do mar. Foi lá que Garcia D’Ávila, após derrotar tribos indígenas existentes ao norte de Salvador, ergueu sua Casa da Torre, em 1550. Em 1557 já era o homem mais poderoso da Bahia.

Grande desbravador, no final do século 16  sua propriedade já era a maior do Brasil, a se estender do Rio Itapicuru, no Norte, ao Rio Jacuípe, no Sul. Administrava seu latifúndio da Casa da Torre em Tatuapara, arrendando sítios a terceiros e fazendo uso de procuradores e ameríndios aculturados e libertos. Coube a ele ter trazido para o Brasil o gado nelore. Seu latifúndio ia de Praia do Forte até o Maranhão, perfazendo um total de 800 mil km², correspondentes a 1/10 do atual território brasileiro e com área equivalente à soma dos territórios  de Portugal, Espanha, Holanda, Itália e Suíça.

Seu herdeiro foi o neto Francisco Dias D’Ávila Caramuru, primogênito de sua filha Isabel D’Ávila (uma índia) e de Diogo Dias, filho de Genebra Álvares e Vicente Dias, neto de Diogo Álvares, o Caramuru, e Paraguaçu. Francisco foi o responsável pela conclusão da Casa da Torre, em 1624. A edificação tornou-se fundamental na defesa da costa e nas lutas contra os invasores holandeses e franceses, além de ponto de partida para os sertanistas que viriam a colonizar o Nordeste. A construção foi realizada por malfeitores (ladrões e assassinos) portugueses. O Castelo foi abandonado no final do século 19 e sua restauração iniciada em 1999.

IAB aponta lacunas no PDDU e Sucom reage

                                                                                           Foto: ArquivoÁrea da Borda Atlântica, em Stella Maris, ainda sem as construções verticais
 
Albenísio Fonseca
 
Através de uma “Nota Técnica”, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia – CAU/BA, o Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Bahia – IAB-BA e o Sindicato dos Arquitetos do Estado da Bahia – Sinarq “questionaram o que entendem por “gritantes vícios da nova e recém-sancionada Louos – Lei de Ordenamento de Uso e Ocupação do Solo – Lei 9.148/2016”. Ao salientar que a lei, na sua essência, deve regulamentar o novo PDDU-Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano nos seus aspectos de parcelamento, uso e ocupação do solo, as entidades buscam demonstrar o que avaliam como “severas inconsistências na sua regulamentação através da nova Louos”.
As três entidades representativas dos arquitetos e urbanistas baianos enfatizam itens como “a falta da visão a médio e longo prazo da cidade pretendida; a falta de uma política urgente de reestruturação econômica do município; falta de uma estratégia de redução de desigualdades dos seus bairros e da territorialização, em relação à capacidade de suporte da sua infraestrutura, das densidades máximas (habitacionais, de postos de trabalho e de usos não residenciais)”.
O IAB, CAU e Sintarq estipulam que tais quesitos compreendem “lacunas fatais” para a definição da Política de Desenvolvimento e Expansão Urbana, objeto principal de um Plano Diretor Municipal. Asseguram, ainda, que “as deficiências no PDDU têm trágicos reflexos na sua regulamentação, por meio desta Louos ou dos demais planos setoriais (mobilidade urbana, saneamento básico), por não fornecerem base técnica essencial e possibilidade de compatibilização intersetorial”.
As entidades signatárias do documento reiteram que, “com suas graves deficiências, o Plano Diretor não oferece os subsídios essenciais para a Louos, não contribuindo para superar a situação alarmante de desigualdade dos direitos sociais de cidade no município, nem para reduzir a pobreza e a precariedade do uso e ocupação do solo”. Expõem, ainda que a recém-aprovada e sancionada Louos, “não atende às expectativas da sociedade ou aos requisitos técnicos indispensáveis”.
Entre os diversos pontos criticados pelas entidades está o que envolve a liberação de gabarito na Orla Atlântica da cidade, que entendem estar “em desacordo com o conceito descrito no Anexo 1 do PDDU (que define como limite continental as “primeiras colinas ou maciços”), que estaria sendo “desrespeitado a partir do Rio Vermelho, reduzindo drasticamente a percepção da ‘silhueta da cidade’ como paisagem urbana, para avançar com a verticalização sem limite até 300m da praia”. Os signatários da nota técnica estipulam que “a Louos de hoje vai gerar parcelamento e construções com reflexos para os próximos 50 a 100 anos da cidade. Se forem feitos sem visão de futuro gerará resultados irreversíveis sem mínima garantia de sustentabilidade”.
Assinada pelos presidentes das entidades – CAU/BA, arquiteto e urbanista Guivaldo D’Alexandria Baptista; IAB-BA, arquiteta e urbanista Solange Souza Araújo, e Sinarq, arquiteta e urbanista Gilcinéa Barbosa da Conceição – a nota sustenta que “com a verticalização (Gabarito de Altura ou GA) numa forma escalonada dentro das três faixas sucessivas de distância (0 a 60, 60 a 90, 90 a 120 e 120m ao limite da ABM-Área de Borda Marítima), passou a permitir gabaritos de 12, 15, 20 e 25 andares, sendo que após o limite da ABM inexiste limitação do gabarito”.
Para os arquitetos e urbanistas, “isto significa que a topografia natural não é mais perceptível, contrariando o que por décadas foi um conceito básico da preservação da paisagem urbana característica da cidade. Abandona-se este conceito sem a mínima justificativa ou tentativa de sua preservação parcial, gerando enormes e irreversíveis problemas climáticos de ventilação da cidade, que apresenta uma predominância, durante 83% do ano, do vento quadrante leste, proveniente, portanto, da orla atlântica”.
Através da nota emitida, fazem ver, ainda, que “conforme a Constituição baiana, (Artigo 214 inciso IX) nos primeiros 60m a partir da linha de preamar máxima não pode haver edificação, onde, agora, a Louos passou a permitir edificações de 12 andares”. Com isso, dizem, “se veda o sombreamento da praia somente em horário reduzido (antes de 8h às 16h, agora de 9h às 15h), inclusive permitindo o sombreamento da praia no horário indicado pela medicina e saúde pública para frequentar a praia e aproveitar a faixa de radiação saudável do sol para tomar banho de sol”.
“O PDDU e a Louos não têm conteúdos para Planos de Mobilidade, Saneamento, e Infraestrutura de Serviços Públicos”. Tais planos, segundo os arquitetos, “precisam ser alimentados pelo PDDU e compatibilizados com o parcelamento, uso e ocupação do solo na Louos. Precisam ter definidas as densidades limite: habitacionais, de postos de trabalho e de atividades econômicas e sociais, já territorializadas no zoneamento”. Embora sejam tidos como “dados essenciais” mostram que “o novo PDDU não fornece, nem por fase temporal ou por porção territorial e, mais grave ainda, nem a Louos ou mesmo seu zoneamento fornecem estes conteúdos, essenciais para definir prioridades de adensamento em função das capacidades ociosas de infraestrutura e serviços existentes”.
Sucom rebate críticas dos arquitetos
 
O secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Guanabara reagiu, à nota técnica divulgada pelo CAU-BA, IAB e Sinarq  afirmando que os dirigentes das entidades dos  arquitetos “fizeram críticas equivocadas, infundas e inverídicas à nova legislação urbanística de Salvador”. Para ele, “com um discurso eminentemente político, as entidades consideram ‘sem base técnica’ um processo que durou dois anos – com intensa discussão pública e o desenvolvimento de estudos técnicos nas mais diversas áreas”, ressaltou. 
Ainda sobre a alegada “ausência” de base técnica, Guanabara afirmou tratar-se de “afirmação tendenciosa e irresponsável em criticar um processo amplamente divulgado e discutido com a população, além de envolver profissionais renomados de vários campos de atuação, como urbanistas, advogados, engenheiros, biólogos, sociólogos, economistas e até mesmo arquitetos ligados às entidades que, agora, fazem críticas à legislação”. Para o secretário, o Plano Diretor “estabeleceu um modelo de cidade que desconcentra as atividades econômicas, buscando aproximar a moradia do emprego e do consumo de bens e serviços, evitando, desta forma, grandes deslocamentos, o que contribui com a mobilidade urbana sustentável”.
De acordo com Guanabara, “a legislação estabelece um modelo de cidade em rede e de cidade compacta, focada nos pedestres, no transporte público de qualidade e na acessibilidade universal, ao instituir claramente a rede viária e de transporte existentes e planejadas, bem como a previsão de maiores densidades construtivas e populacionais ao longo dos corredores de transporte de alta e média capacidade”.
Ele destacou, ainda, que as entidades representativas dos arquitetos “estão propagando inverdades acerca da nova legislação urbanística no que tange à verticalização e barreiras de ventilação”.  Conforme Guanabara, as regras quanto ao gabarito na ABM-Área de Borda Marítima “nunca foram tão criteriosas e objetivas como as que constam na nova Louos e novo PDDU”. Segundo o secretário, qualquer nova construção na Orla Atlântica “deverá obrigatoriamente realizar estudo de sombreamento para que a altura máxima do empreendimento seja estabelecida respeitando o não sombreamento das praias. As novas construções deverão atender também recuos e afastamentos entre prédios cerca de 30% maiores do que no restante da cidade para salvaguardar a ventilação e o conforto ambiental urbano”, enfatizou.
O secretário fez ver que “todas as contribuições e críticas fundamentadas sempre foram bem-vindas e ajudaram a aperfeiçoar o processo de construção da legislação urbanística. Mas, infelizmente, durante a elaboração das novas legislações as entidades que fizeram o comunicado preferiram participar parcialmente sem encaminhar qualquer proposição técnica que contribuísse com a cidade e o bem-comum”, alfinetou.
Salvador é dividida em 12 trechos nas duas bordas marítimas
 
A orla marítima de Salvador é banhada pelo Oceano Atlântico com frentes para a Baía de Todos os Santos (Oeste) e para o “mar aberto”, chamado de Orla Atlântica (Sul e Sudeste). Em relação aos aspectos urbanísticos, o PDDU de 2008 dividiu a orla da Cidade em 12 trechos e estabeleceu os limites para a “Área de Borda Marítima”. À época, o gabarito fixado foi de três andares para a a área da Costa Atlântica. Conforme o Artigo 235, “a Área de Borda Marítima-ABM, é a faixa de terra de contato com o mar, compreendida entre as águas e os limites por trás da primeira linha de colinas ou maciços topográficos que se postam no continente, em que é definida a silhueta da Cidade”. Em parágrafo único fora definido, então, que “para efeito desta Lei, a Área de Borda Marítima compreende dois ambientes distintos, subdivididos nos trechos:
I – Borda da Baía de Todos os Santos, compreendendo: a) Trecho 1 – Canal de Cotegipe até a Enseada do Cabrito; b) Trecho 2 – Enseada dos Tainheiros até a Calçada; c) Trecho 3 – São Joaquim até a rampa do antigo Mercado Modelo; d) Trecho 4 – Conceição até a Encosta da Vitória; e) Trecho 5 – Encosta da Ladeira da Barra até o Farol da Barra.
 II – Borda Atlântica, compreendendo: a) Trecho 6 – Praia do Farol da Barra até o Centro Espanhol; b) Trecho 7 – Ondina até a Praia da Bacia das Moças; c) Trecho 8 – Alto da Sereia até Amaralina; d) Trecho 9 – Pituba até Armação; e) Trecho 10 – Boca do Rio até Jaguaribe; f) Trecho 11 – Piatã até Itapuã; g) Trecho 12 – Stella Maris até Ipitanga.

Salvador vira uma cidade sem rios


Sem campanhas educativas, população usa os rios como esgotos

 ALBENÍSIO FONSECA

 Frente à tendência de cidades como São Paulo, México e Seul (Coreia do Sul), que passaram a desenterrar rios, cursos d´água e córregos canalizados para conter enchentes e abrir caminhos para avenidas, em meio à crise de mobilidade urbana, em Salvador a opção tem sido a de “encapsular” os rios, também para criação de áreas de convívio e lazer. Naqueles casos, o que era visto como fator de progresso passou a ser condenado por urbanistas e o movimento agora é pela reabertura dos canais que viraram rede de esgoto e desenterrar os rios.
Conforme avaliação do engenheiro sanitarista Eduardo Topázio, coordenador de Monitoramento dos Recursos Ambientais e hídricos do Inema-Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, “já estamos ficando sem rios para analisar porque estão todos sendo encobertos”. Ele mencionou o caso do Rio das Pedras, no Imbuí, lamentando “que não se tenha optado pelo saneamento”. Disse que “as águas dos rios correm e, ao se deixar de poluí-las, permite-se que eles se recuperem rápida e naturalmente”. Para ele, “como estamos hoje, com os rios poluídos, há um enorme impacto ambiental e na saúde pública, destacando que onde temos praias poluídas é porque existem rios poluídos”.
PACTO DAS ÁGUAS – Para Topázio, “o problema maior é o lixo lançado por moradores nesses mananciais, dado o baixo índice de educação da população, independente do poder aquisitivo e do bairro em que residam”. Segundo ele, “em razão da ocupação irregular do solo, promovida por invasões e construções irregulares e sem controle do poder público municipal, são péssimas as condições das bacias hidrográficas de Salvador”. Nesse sentido, defendeu um “pacto das águas” na capital, “com empoderamento do Comitê de Bacias que, além dos poderes públicos estadual e municipal, tem participações de usuários representados por entidades como o Cofic-Comitê de Fomento Industrial de Camaçari, a Fieb-Federação das Indústrias do Estado, a Embasa, entidades ambientalistas e mesmo colônias de pescadores, entre outros. Ou seja, “a reponsabilidade é colketiva e envolve as políticas de Saneamento e do Meio Ambiente
A iniciativa coincide com a renovação eleitoral dos membros dos 12 comitês de bacias hidrográficas do estado, ocorrida em julho, e que reafirma a gestão participativa das águas da Bahia. O monitoramento de 134 rios, além de corpos d’água, foi expandido de 315 para 417 pontos de amostragem, sem ainda alcançar a meta estipulada, para 2015, de 566 pontos. No site do Inema, o último relatório de monitoramento publicado data de 2011. De acordo com o coordenador de Monitoramento do órgão, “falta infraestrutura como a disponibilidade de laboratórios para análise da qualidade das águas, somente disponível pela Embasa, em Salvador, onde a demanda dessas análises é maior. O Inema dispõe de um laboratório contratado.
Rio das Pedras, na Boca do Rio, tomado por ocupações irregulares

80% dos rios da cidade estão contaminados

Eduardo Topázio confirma que “todos os rios estão recebendo esgotos, embora em alguns trechos, a exemplo do Rio Cascão, na Baixa do Cobre, em cerca de 20% esteja em condições de razoável a boa. Mas 80% estão contaminados, não só por esgotos, mas principalmente por lixo que tem afetado as praias de Salvador. Ele enfatizou que “a cidade tem crescido sem planejamento, sem cumprir as regras urbanísticas adequadas e sem autorização da Prefeitura: Há moradias que têm a rede de esgoto na porta, mas os moradores não realizam a conexão, preferem ligar na rede pluvial que, aliás, é gerida pelo poder municipal”.
Ele citou o caso do canal do Rio de Pedras, na Boca do Rio, “que se encontra, mais acima e mais abaixo, com os rios Cascão e Pituaçu, como exemplo da presença de construções irregulares, não só às margens, mas sobre o fluxo da água”. Demonstrou que “quem pretender subir navegando pelo canal não conseguirá por conta de construções de moradias naquela área”, lembrando que “o bairro foi denominado Boca do Rio exatamente pela presença do Rio de Pedras”. Topázio salientou que, “no Brasil adotou-se o separador absoluto com canalizações específicas, uma para rede pluvial e outra para o esgotamento, ao mencionar o caso do Rio Camaragibe – maior bacia genuinamente soteropolitana – que nasce na região do Alto de Pirajá e deságua na praia do Stiep. Antes, seguia em direção ao Rio Vermelho, encontrava com o Rio Lucaia, mas sofreu intervenção que criou um canal e deslocou o curso para o Stiep”. Disse que “até os anos 90, o Camaragibe conduzia só esgotos. Com o advento do Bahia Azul, passou a ser canalizado para o Emissário Submarino do Rio Vermelho a fim de impulsionar a carga, inclusive porque está previsto na legislação que os rios também podem ser utilizados como esgotos, revelou.
De modo geral, ele enfatizou que “não basta que o estado coloque rede de esgotos, mas de fazer com que as pessoas façam a ligação do sistema de suas casas com a rede, inclusive porque pagam 80% de tarifa pelo uso da rede esgotamento na conta de fornecimento da água, mas não o fazem por comodidade e até porque as multas aplicadas são de baixo custo”. Atualmente, Salvador abriga mais de 600 mil habitantes (o equivalente à população de Feira de Santana, segunda maior cidade do estado) sem acesso ao esgotamento sanitário. Ele estipula que “a recuperação dos rios de Salvador é um sonho porque teríamos que mexer em todo o tecido urbano e com deslocamento de comunidades inteiras”. Topázio faz ver, inclusive, que “em breve deverão cobrir o braço do Rio Camaragibe que divide a Avenida Juracy Magalhães para adoção de um novo corredor de tráfego”. Citou, ainda, o Rio Jaguaribe como o mais atingido atualmente – “ano após ano se mostrando pior” – comprometendo a bacia hidrográfica e impactando nas praias.

 Prefeitura tem projeto para recuperar Bacia do Mané Dendê

O titular da Secretaria Cidade Sustentável, André Fraga, também admitiu que “os rios da cidade estão todos convertidos em esgoto”. Ele mencionou a criação da Arsal-Agência Reguladora e Fiscalizadora de Serviços Público em Salvador, após estudo feito pela Fipe-Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas apontar que a atual agência reguladora do serviço, a Agersa-Agência Reguladora de Saneamento Básico da Bahia ter realizado apenas cinco fiscalizações em 2012 e não ter aplicado nenhuma multa à Embasa, entre outras denúncias de inoperância da Agersa e má qualidade no serviço prestado pela empresa. “Ou seja, aqui temos o estado fiscalizando o próprio estado”, disse.
Ele adiantou que a Prefeitura decidiu por adotar o estudo promovido pela UFBA-Universidade Federal da Bahia, “Caminhos das Águas”, que define a existência de 163 bairros na cidade, a partir das 12 bacias hidrográficas e após ouvir as comunidades, embora existam pontos controversos. A decisão, contudo, ainda depende do envio de projeto de lei à Câmara Municipal para avaliação dos vereadores. Fraga informou, também, já estar em fase de conclusão o projeto de recuperação da Bacia Hidrográfica do Mané Dendê, no Subúrbio Ferroviário, com investimento de US$ 135 milhões, sob dotação do BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento e que “transformará o local em um parque linear, seguindo o desenho do rio”. Fraga criticou a Embasa “por não promover investimentos na cidade visando a ampliação das redes de distribuição de água e das de captação e destinação do esgotamento”.

 Embasa questiona falta de fiscalização do uso do solo

De acordo com a Embasa, o SES-Sistema de Esgotamento Sanitário de Salvador possui 4.200 quilômetros de rede e atende a 83,48% dos domicílios da cidade. Segundo a empresa, “a maioria dos habitantes que ainda não estão ligados ao sistema, lança indevidamente seus esgotos nos córregos e rios da cidade, enquanto outra parte tem fossa séptica, atenuando o problema”. Em busca da universalização do serviço, a empresa garante implantar, “a cada ano, uma média de 25 mil novos ramais domiciliares, que possibilitam atender ao crescimento ocupacional da cidade e aumentam a cobertura no município”. A assessoria da empresa destaca que, “além do esgoto, outros fatores causam a poluição dos rios urbanos, como o descarte indevido de lixo e a sujeira das ruas, que a água da chuva leva para os rios, canais e córregos da cidade”.
Para a Embasa, “em diversas áreas de ocupação espontânea da cidade, a ampliação da cobertura do esgotamento sanitário é um desafio, pois esses locais não contam com a infraestrutura urbana mínima para implantação de redes de esgotamento sanitário, como macro e micro drenagens de águas pluviais, arruamento, pavimentação e contenção de encostas”. Além disso, garante “existir imóveis erguidos em APP-Áreas de Preservação Ambiental Permanente, que não deveriam ser ocupadas, e nas quais não é possível implantar rede de esgoto, como é o caso de casas situadas sobre as nascentes dos principais rios da cidade”. 
Para a solução desse problema, conforme a empresa, “são necessárias ações de urbanização, macro e micro drenagens, reassentamento da população que habita áreas de preservação, além da expansão dos serviços de saneamento básico, a saber, abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais e manejo de resíduos sólidos”. Além disso, considera ser “preciso desenvolver ações de fiscalização do uso e ocupação do solo, evitando que a ocupação desordenada continue produzindo novas áreas que inviabilizem a infraestrutura urbana no território municipal, aliadas a políticas habitacionais voltadas para a população de baixa renda. Quanto ao abastecimento de água, informa que a cobertura do serviço é de 98,22%, em Salvador.

Imagem histórica do Rio Vermelho

Dois (de muitos) rios atravessam a história da capital

Salvador sempre foi beneficiada por diversos rios que, ao longo do tempo, foram transformados em canais de esgoto. Alguns permanecem, mas correndo através de canalizações de concreto, isto é, em baixo da terra. Com registros históricos centenários, desde antes mesmo da fundação da cidade, há o Rio das Tripas, que nasce nas encostas da Barroquinha e do São Bento e o Rio dos Seixos, com nascente na chamada Fonte de Nossa Senhora da Graça, no bairro da Graça.
O Rio das Tripas foi canalizado em meados do século XVIII e, sobre ele, surgiu a Rua da Vala, posteriormente Rua Dr. J. J. Seabra, atual Baixa dos Sapateiros. A obra se estendeu desde a Barroquinha até praticamente o Largo das 7 Portas. Em 1970 a antiga canalização foi substituída. Ao que se sabe, não houve nenhuma reação popular contra essa canalização. O rio praticamente era um esgoto a céu aberto. Não havia como recuperá-lo.
Já o Rio dos Seixos tem como primeiro registro histórico um mapa onde se mostra os limites da Vila do Pereira, do donatário Francisco Pereira Coutinho, datado de 1536, antes da fundação de Salvador, em 1549, e que despejava suas águas próximo ao atual Morro do Cristo, na Barra. Para a construção do túnel que liga o Dique do Tororó ao Chame-Chame a fim de se construir a atual Avenida Centenário, entre 1959 e 1960, durante o Governo Juracy Magalhães, também seria encoberto. Em consequência houve um “boom” imobiliário, tomando de assalto o Vale do Chame-Chame e seu entorno. As laterais do Rio dos Seixos foram cimentadas, diminuindo a largura. Sem que fosse feito qualquer saneamento básico na área, os dejetos das residências eram jogados no canal. Não era mais um rio e, até recentemente, quando chovia, todo o Chame-Chame era inundado. Há poucos anos, foi totalmente encoberto e construída uma ampla praça no local.
Hoje, o Rio dos Seixos está ligado ao emissário submarino do Rio Vermelho, construído em 1975 com capacidade para processar 8,3 mil litros por segundo. Após tratamento, o esgoto captado é lançado ao mar, por meio de difusores localizados a 2,35 Km da costa e profundidade de 27 metros. Vale lembrar que Salvador dispõe de dois emissários submarinos. O segundo é o emissário submarino da Boca do Rio, que integra o Sistema de Disposição Oceânica – SDO Jaguaribe. Foi inaugurado em 2011 e tem capacidade para dispersar no oceano 5,9 mil litros de efluente por segundo, a 45 metros de profundidade. De acordo com a Embasa, “o processo de tratamento não gera nenhum impacto ambiental capaz de causar incômodos à vizinhança e o efluente final não representa risco de degradação ambiental das praias e ecossistemas marinhos”.

Quiosques são abandonados em Stella Maris

Parcialmente construído, quiosque é guarnecido por cães amarrados às colunas

Albenísio Fonseca

Dois quiosques de 30 e 50 metros quadrados, dos 13 previstos para serem instalados na Praia de Stella Maris – entre os 120 programados para toda a Orla de Salvador – chegaram a ter boa parte da estrutura construída, mas estão há mais de dois meses completamente abandonados. Localizados na frente e ao lado do Gran Hotel Stella Maris, a implantação dos equipamentos já gerou demanda junto ao Ministério Público Estadual por parte de moradores do bairro que acreditavam tratar-se de invasão.
O primeiro, já com estrutura de vidros instalada, vem sendo ocupado por ambulantes que comercializam bebidas junto aos que vendem vestes e acessórios de praia para os hóspedes do hotel. O segundo, também com alvenaria construída e madeiras dispostas, mas ainda sem uso, é guarnecido por  cães amarrados nas colunas da edificação. As peças metálicas já apresentam ferrugem pela ação do salitre e evidente falta de manutenção. Os animais são alimentados com pedaços de carne lançados ao chão, também disputados por pombos, em um quadro dantesco. Uma vasilha para água que permitiria saciar a sede dos animais estava revirada durante todo o dia de ontem.
As obras não dispõem de placas de licenças ambiental ou construção e tendem a provocar outras controvérsias pelo fato de acontecerem antes de iniciado o projeto de revitalização da Orla naquele trecho. Com base na licitação transcorrida em julho de 2014, quatro anos após a demolição das tradicionais barracas de praia, a área de Stella Maris será contemplada com o segundo maior número de quiosques, depois de Itapuã, que tem 18 desses equipamentos, 12 na região da Sereia e outros seis no Farol de Itapuã. A localização dos quiosques é definida pela FMLF-Fundação Mário Leal Ferreira, conforme previsto nos contratos de concessão.
De acordo com o secretário de Cultura e Turismo, Érico Mendonça, “o projeto para a revitalização da Orla de Stella Maris já está pronto”. Segundo ele, “a assinatura do convênio com o Prodetur-Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo, para a liberação de recursos pelo órgão, todavia, tem apenas esta semana para ser firmado. Do contrário e com base na legislação eleitoral, somente poderá ser feito após o pleito. A liberação da verba está pendente junto à STN-Secretaria do Tesouro Nacional”. Durante a entrevista por telefone, o secretário alegou não dispor dos dados que permitissem informar os valores a serem investidos na obra.
Em frente ao Grand Hotel, equipamento é explorado por ambulantes
A propósito da paralisação na construção dos dois quiosques, Érico Mendonça afirmou que teria havido “problemas na infraestrutura o que levou à suspensão das obras. Arguiu, ainda, sobre “problemas para instalação dos fornecimentos de energia e água”. Quanto ao fato das construções ocorrerem antes da intervenção urbana naquela praia, disse “decorrer do verificado em Piatã, quando tiveram o piso estragado, entre outras peças pré-moldadas utilizadas na edificação, por terem sido instalados após as obras de revitalização”.
As empresas vencedoras da licitação pagaram um valor fixo pela concessão por 15 anos. A  Saneando Projetos e Engenharia ficou com três lotes, por R$ 2,94 milhões; a Holz Engenharia, também responsável pela construção dos quiosques, venceu  dois, por R$ 1,61 milhão; e o Consórcio RPH tem um ao custo de R$ 600 mil. Cada lote conta com 20 quiosques, que variam entre 30, 50 e 100 metros quadrados. Cada lote tem um quiosque na Barra, outro em Ondina e dois em outra praia “para evitar o domínio de uma empresa num mesmo lugar”, conforme justificado à época.
A exceção é o lote dos quiosques das ilhas. Nesse caso, todos serão concedidos ao Consórcio RPH, em que pese o fato de, nas ilhas, ser preciso atravessar de barco e ter uma base operacional lá. Se uma empresa cuidasse só de dois quiosques, poderia abandonar o negócio, segundo estipulado para a elaboração dos editais. Os quiosques, a depender da localização e tamanho, têm sido terceirizados por valores entre R$ 5 mil e R$ 10 mil mensais.

Obras de Mário Cravo sob ameaça

As obras têm sido recolhidas à Oficina no Parque  de Pituaçu

 

 ALBENÍSIO FONSECA
Último modernista baiano vivo, o escultor, gravador, desenhista, pintor e ex-professor, Mário Cravo Jr., 93 anos, permanece lúcido e produtivo. Sua obra, no entanto, sob abandono, está sob ameaça de ser perdida na esvaziada contemporaneidade baiana. Nas mil e uma faces da sua produção, como se diria de um verdadeiro “rei da sucata”, Cravo tem trajetória marcante pelo reaproveitamento de materiais, como as madeiras do século XIX, provenientes do incêndio que destruiu o Mercado Modelo, no final dos anos 60 – com que produziu uma “via sacra”; cerâmica, ferro e outros metais, oriundos de desmontagens do Polo Petroquímico de Camaçari, que lhe inspirariam a Fonte da Rampa do Mercado Modelo ou o Exu mola de jipe, no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre centenas de exemplos.
O comodato firmado com o Governo da Bahia, em 1994, quando o governante era Antônio Carlos Magalhães, já se esgotou, mas envolveu a doação de 800 peças, entre esculturas expostas no Parque Metropolitano de Pituaçu, na Orla de Salvador, em cuja entrada foi criado o Parque Mário Cravo Jr, e o que ele denomina de “computações plásticas”. Há três anos, conforme o filho do artista Ivan Ferraz Cravo, 66, “a Sema-Secretaria Estadual do Meio Ambiente, responsável pela área, deixou de efetuar qualquer manutenção nas obras ou fornecer materiais, sequer a tinta para recuperação das peças”. O Museu e sua reserva técnica, na entrada do Parque, onde permanecem as obras em papel, estão se deteriorando nas gavetas ou algumas esculturas, expostas às infiltrações, sem nenhum cuidado de conservação. Segundo o filho do artista, que já presidiu a Fundação Mário Cravo Jr., “estamos buscando desesperadamente apoios para salvar o acervo”.
Agora, segundo ele, “parece que a montanha se moveu”. Convocado por Ferraz, o Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Dimus-Divisão de Museus da Fundação Cultural do Estado, decidiram proceder a um levantamento do acervo do modernista. A visita inicial de técnicos contou com a participação do diretor do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro. Embora o órgão só deva iniciar o cadastro das obras após os festejos juninos e sob a perspectiva de conclusão “até o final do ano”, já se cogita de transferir as instigantes peças – impressas e esculpidas – para ambientes climatizados no Palacete das Artes (Rua da Graça), Museu de Arte Moderna (na Ladeira da Contorno) e Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória). “O trabalho demanda minúcias e será procedido com todo o critério requerido por museólogos do Ipac”, sinaliza a assessoria do órgão.
As condições de trabalho do artista também se defrontam com as demissões dos seis funcionários que, há 12 anos, finalizam as obras criadas pela mente inquieta de Mário. “A Sema rompeu contrato com a terceirizada Preze, no final de março, exclusivamente para o fornecimento do pessoal para a Oficina de Cravo. Também o servidor João Alberto, da Conder-Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado, precisa ser transferido para a Sema para poder permanecer cuidando da Oficina”, diz Ivan. Há dois meses e de modo informal, o escultor mantém os trabalhadores que capacitou para as atividades. Muitas das peças boiam nas águas poluídas da Lagoa de Pituaçu que já abasteceu Salvador. Outras sucumbem sob a ação do salitre, escondidas em meio à vegetação sem poda do parque metropolitano.
Mário Cravo Jr, conforme o filho, se mantém com a economia de recursos provenientes da venda de suas criações. Uma de suas esculturas monumentais foi adquirida por um dos sócios da Ambev, cujo nome não recorda. Uma réplica em fibra de vidro de “Antonio Conselheiro”, permanece em meio a outras para restauração e ferramentas como tornos e soldas na Oficina. “O original está em Canudos”, enfatiza Cravo. Boa parte de sua produção dialoga com a cidade. A Sereia, em Itapuã; O Exu Mensageiro, em frente à sede central dos Correios, na Pituba; a homenagem a Clériston Andrade (na Avenida Anita Garibaldi)   e a Cruz Caída, na Praça da Sé, que toma emprestado o nome do episódio da via crucis para proceder uma crítica à derrubada da Igreja de São Pedro, demolida em 1915 pelo governador José Joaquim Seabra em sua sanha higienista da cidade e no afã de criar novas avenidas na primeira capital do País.
Frente a uma peça em fase conclusão – material procedente de equipamento para contração de temperatura para óleo – o artista decidiu dar nome ao trabalho. “Vai se chamar ‘dinâmica espacial’, batizou. Para Mário Cravo Jr., “não existe trabalho, mas diversão”. Ele reclama da “dificuldade para chegar até o Governador Rui Costa”. Sua última exposição “Esculturas” aconteceu durante o governo Jaques Wagner, em 2013 no Palacete das Artes – museu mais qualificado para absorver a extensa produção do artista.
 
A0s 93 anos, Mário Cravo permanece lúcido e produtivo

O que disseram dele Jorge Amado e Carybé

Sobre ele, Jorge Amado afiaria o teclado da velha máquina datilográfica para cravar a legenda: “Ferreiro coberto de fogo e aço, comido goiva e aço, os bigodes arrogantes, devasso, quase agressivos, os olhos de insônia, a boca em gargalhada, eis o guerreiro Mário Cravo em luta com o ferro bruto, a madeira pesada ilustre, a pedra morta, para sempre morta, mas de repente viva em sua mão, em seu talho, em sua forja, em seu destino deslumbrado e louco, em seu criar sem descanso (…)”. 
Carybé revelaria que “…a Bahia deve a Mário Cravo a recuperação do Solar do Unhão e a instalação nele dos museus de arte moderna e de arte popular. Foi por insistência dele que a arquiteta Lina Bo Bardi desistiu da construção de um prédio específico e tratou da restauração do Solar”. No refinado catálogo produzido para a sua última mostra o então secretário de cultura, Albino Rubim, salienta o quanto “o modernismo demorou a aparecer na Bahia. Terra de profundas e fundadas tradições, a Bahia resistiu longo tempo à modernidade cultural”. 
Lembra, ainda, que “a primeira geração, nos anos 20, inventou o modernismo no Brasil. A segunda, na década de 30, consolidou o modernismo através do regionalismo e da ampliação do seu público. Orgulhosa de sua cultura, a Bahia se mantinha contrária à modernidade. Só no final dos anos 40 o modernismo vai acontecer na Bahia. Mário Cravo, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho são protagonistas desta mudança. A obra dele está disseminada nas ruas e prédios de Salvador e de outras cidades. Encontra acolhida em relevantes museus no Brasil e no mundo”. 
Espera-se que este emblemático modernista permaneça vivo para assistir senão à criação de um museu para sua obra, que ao menos possa ver confirmado o resgate das peças sob a ameaça de um injustificado abandono em Pituaçu, no coração da Orla.

Biblioteca Pública da Bahia faz 205 anos

ALBENÍSIO FONSECA

                                                                                        Foto: Divulgação                                              
                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
 Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 205 anos nesta sexta-feira, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Para marcar a data, acontece a exposição “Viagem a Timbuktu – Fotografias de Edmond Fortier – Da costa da Guiné às margens do Saara em 1906”, do fotógrafo francês Edmond Fortier (1862-1928), aberta à visitação até 22 de junho.  
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

Invasão holandesa completa 392 anos

                                                                                                                                                                                                        Fotos: ReproduçõesPintura de Hassel Gerritsz sobre a invasão a Salvador em 1624

 

Albenísio Fonseca

Salvador, 9 de maio de 1624. A cidade amanhece sob o domínio e os efeitos do bombardeio de uma esquadra holandesa composta por 26 navios, sob o comando de Jacob Willekens. Na véspera, mesmo sob fogo cruzado do Forte de Santo Antônio, eles conseguem alvejar os canhões da Ponta do Padrão e desembarcam no Porto da Barra. Grupamentos de vanguarda seguem pela Ladeira da Barra e despenhadeiros até alcançarem a Porta de São Bento. Passam a madrugada no Mosteiro “ao sabor de vinhos e confeitos” que encontram no local. Ali, esperam o dia amanhecer e tomam o centro da cidade.
Conforme Ricardo Behrens, no livro ‘Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625’, “relatos portugueses e holandeses contam que o confronto teve início no dia anterior quando os da cidade receberam com disparos um batel com bandeira de paz enviado pela frota, antes mesmo de ouvirem a embaixada. Em resposta, os invasores descarregaram seus canhões no costado da cidade, nos fortes e nos navios que estavam no porto”. A visão da armada, por si só, provoca pânico e correria na maioria dos habitantes. Por mais que soubessem da probabilidade dos ataques, a cidade não dispunha de nenhuma estratégia especial. D’El Rey não estabelecera nenhum recurso para armamentos. 
Já os holandeses – cuja armada partiu do porto de Texel em dezembro e a viagem durara, portanto, quase seis meses – estavam imbuídos do propósito de invadir a capital do Reino do Brasil e com bastante munição. Os arrasadores disparos de canhões e, depois, o vandalismo dos invasores, acarretam inúmeros prejuízos à cidade, inclusive ao prédio da Câmara onde estava instalado o Arquivo Histórico, cujos documentos são completamente destruídos pelo fogo.
De acordo com o historiador Affonso Rui, no livro ‘História política e administrativa da cidade de Salvador’ “os oficiais encarregados da documentação, como boa parte da população, fogem para Abrantes”, relata. Os 3.400 homens, entre aventureiros e mercenários que compunham a esquadra invasora, não encontram maiores resistências para render o governador-geral da colônia, D. Diogo Mendonça Furtado, e aprisioná-lo na chamada Casa dos Governadores (no que viria a ser o Palácio Rio Branco, na atual Praça Tomé de Souza), em pleno coração da urbe, uma das mais importantes cidades da América, então capital do Brasil.
O governante português houvera se mostrado preocupado com o despreparo bélico do Brasil e chegou a entrar em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade e Mendonça Furtado assina sua rendição um dia depois. É levado prisioneiro para Amsterdan, com outras 12 pessoas, entre auxiliares e jesuítas, de onde somente são libertados em 1626. Segundo Behrens em sua dissertação de Mestrado já convertida em livro, “há uma série de conferências publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 66, de 1940. Trata-se de uma publicação em comemoração à derrota de Maurício de Nassau ao tentar invadir a Bahia em 1638. Além das conferências, foram publicadas as sugestões feitas pelos membros do Instituto para comemorar a data, dentre as quais se destaca a ideia de confecção de uma série de placas comemorativas, a exemplo da que existe ainda na entrada do Mosteiro de São Bento”. 
A permanência dos holandeses em terras baianas duraria praticamente um ano. Cabe ao bispo Dom Marcos Teixeira, posteriormente denominado Bispo Guerreiro, promover a resistência. Através da tática de emboscadas impede os invasores de sair da cidade. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa-espanhola, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chega a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, obtêm a primeira rendição.
Colônia era controlado pelos espanhóis durante a União Ibérica
A colônia era controlada, então, por espanhóis, durante a denominada União Ibérica (1580-1640) que junta as duas coroas após o desaparecimento de Dom Sebastião de Avis, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, na guerra contra os mouros, em 1578, quando ambicionava a vitória sobre os muçulmanos para a glória do cristianismo. Vale entender mais: A “morte” de Dom Sebastião provoca uma crise sucessória em Portugal, tendo em vista que o rei não deixara herdeiros. Seu desaparecimento gera o “sebastianismo”, espécie de crença messiânica que estipulava seu retorno ao reino e que se estenderia por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
A solução encontrada para o trono é seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (Henrique I, de Portugal), que, já bastante idoso, falece em 1580, marcando o fim da dinastia de Avis. Com isso, o trono português passa a ser disputado por outras dinastias europeias, que reivindicavam ligação de parentesco com Dom Sebastião. O então rei da Espanha, Felipe II, um dos mais poderosos monarcas da época, era neto de Dom Manuel, O Venturoso, que, por sua vez, era tio de Dom Sebastião. Essa ligação parental é reivindicada por Felipe II e usada como legitimação para a invasão de Portugal pelos espanhóis em 1580, instaurando a monarquia dualista: duas coroas sob um mesmo monarca. Portugal só readquire a independência 60 anos depois quando tem início o reinado de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança. 
É no período da União Ibérica que ocorre também as invasões francesas. Holanda e França, que antes mantinham relação amistosa com Portugal, confrontam-se diretamente com a Espanha. A supremacia ibérica passa a ser questionada por aquelas nações europeias que desejavam também lucrar com o processo de colonização. E isso envolvia tanto razões de caráter econômico, no que pese o controle do comércio de açúcar e da extração de metais, quanto de ordem religiosa, na medida em que a Espanha era católica enquanto a Holanda e parte dos franceses haviam aderido ao protestantismo. O período conhecido como “Brasil Holandês”, em que vigorou uma sofisticada administração holandesa em parte da costa nordeste brasileira, ocorre exatamente nesse contexto. Não há registros de legados holandeses na Bahia, ao contrário dos verificados em Pernambuco, como os franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão.
Hessel GerritszDesenho de Hassel Gerritsz sobre a Baía de Todos os Santos durante a invasão holandesa

Primeira tentativa de invasão acontece em 1599

Outras tentativas de invasão dos holandeses já haviam sido registradas na Bahia, mas não foram bem sucedidas. Na impossibilidade de dominar a capital do Brasil, eles conseguiram se estabelecer em Pernambuco e estendem seus domínios por grande parte do Nordeste até serem expulsos, definitivamente, da Colônia, em 1654. A primeira tentativa holandesa de conquistar Salvador ocorre em dezembro de 1599, quando o almirante van Leynssen envia sete navios ao Brasil, comandados pelos capitães Hartman e Broer. Os ataques na Baía de Todos os Santos duraram quase dois meses. Os holandeses afundam várias embarcações portuguesas e pilham engenhos no Recôncavo. Mas fracassam no objetivo de conquistar a Cidade.
Nos anos seguintes, piratas holandeses continuam atacando navios espanhóis e portugueses nos oceanos Atlântico e Índico. Em 1604, tentam novamente conquistar Salvador, dessa vez com uma esquadra de seis navios comandada por Paulus van Caerden. O ataque, similar ao primeiro, tem como resultado o mesmo fracasso. Nos anos seguintes, dezenas de navios com cargas do Brasil, são atacados pelos holandeses. Em 1621, eles fundam a Companhia das Índias Ocidentais, empresa patrocinada pelo governo holandês com participação de investidores privados e que visava, principalmente, a exploração comercial da América. No século 16, Portugal mantinha boas relações comerciais com os holandeses, mas esse quadro muda com o advento da União Ibérica em 1580.
Um ano antes, em 1579, as províncias do norte dos Países Baixos haviam formado a União de Utrecht, documento assinado por diversos estados dos Países Baixos que se debatiam para obter a independência da Espanha. Em 1581, declaram formalmente sua independência. A Espanha, entretanto, só a reconheceria em 1648, 24 anos depois de a Companhia das Índias Ocidentais decidir por invadir Salvador sob a alegação de sentir-se prejudicada em seus negócios no Atlântico pelo domínio espanhol sobre Portugal.

A expulsão dos invasores no contexto internacional

Fevereiro de 1630. Navios e canhões holandeses entram de novo em águas brasileiras. Dessa vez invadem Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar na época. Desembarcam no litoral pernambucano e conquistam Olinda e Recife com relativa facilidade. O então governador Matias de Albuquerque retira-se para o interior com homens e armas e funda o Arraial do Bom Jesus, uma fortificação de onde partiam os ataques aos invasores.
Como na invasão da Bahia, os lusos-brasileiros adotam a guerra de emboscadas na tentativa de impedir os holandeses de penetrar nas terras onde estava a maioria dos engenhos. A resistência, no entanto, não contém o avanço holandês, que chega a receber apoio de moradores da região, como é o caso de Antônio Fernandes Calabar. A colaboração, muito mais que traição, visava livrar-se do domínio português. Derrotado, Matias Albuquerque manda incendiar os canaviais à sua volta e retira-se para Alagoas. Antes, porém, consegue prender Calabar e manda executá-lo.
Sete anos depois, em 1637, a Companhia das Índias Ocidentais decide reconstruir os engenhos com o objetivo de voltar a obter lucro com o açúcar brasileiro. Para liderar esse projeto, envia ao Brasil o conde João Maurício de Nassau-Siegen, com o título de governador-geral. A acumulação de riquezas da Companhia das Índias Ocidentais reflete-se na administração e na reconstrução de Recife, a capital do Brasil holandês. Nassau teve a habilidade de convidar alguns senhores de engenho para participar da administração.  Não lhes oferece cargos importantes, mas não ignora suas reivindicações. Mantém uma tolerância religiosa, sem obrigar os colonos luso-brasileiros a converterem-se ao protestantismo dos holandeses.
No afã compreender melhor o Brasil, Maurício de Nassau manda vir da Holanda 46 estudiosos, pintores e cientistas para estudar e registrar as características da terra,  dada a curiosidade despertada pela rica fauna e pelas belezas naturais da região. Os holandeses foram pioneiros nesse tipo de estudo sobre o Brasil. Os pintores Frans Post e Albert Eckhout deixam belíssimas pinturas da colônia holandesa nordestina. Os cientistas estudaram doenças tropicais e sua possível cura. O primeiro observatório astronômico das Américas foi construído em Recife. Maurício de Nassau tentou ainda dar maior autonomia econômica à colônia para não depender em demasia do mercado externo.
Em 1640, Portugal consegue independência da Espanha. Em agosto de 1645, os colonos luso-brasileiros conseguem importante vitória no Monte das Tabocas. O governo da Bahia envia auxílio e Recife é sitiada. A vitória, todavia, não conseguiu desalojar os holandeses, muito bem guarnecidos por mar. As lutas prosseguem por três anos. No final de 1648, os holandeses sofrem grande derrota na Batalha dos Guararapes. Ainda assim, Recife continua em poder da Companhia das Índias Ocidentais.
A situação internacional, contudo, ajuda a acabar com o impasse no conflito entre holandeses e colonos no Brasil. A Inglaterra declara guerra à Holanda, na disputa pela hegemonia dos mares. Os ingleses chegam a auxiliar os rebeldes anti-holandeses no Brasil. Os governantes portugueses aproveitam o enfraquecimento dos invasores e enviam um grande reforço para os colonos no Brasil, em fins de 1653. Finalmente, em janeiro de 1654, os holandeses se rendem. Terminava ali o período de domínio holandês no Brasil. Mas somente em 1661 o governo holandês reconhece que não tinha mais direitos sobre o Brasil.

Sinfônica da Bahia toca a “ópera da crise”

                     Fotos: Adenor Gondim/DivulgaçãoA Orquestra fantasiada de Super Heróis durante o Cine Conserto e para denunciar a grave condição do corpo artístico do TCA

 Albenísio Fonseca

Em busca de um novo prelúdio para a existência, a Osba-Orquestra Sinfônica da Bahia vem buscando atravessar a “ópera da crise” gerada pela grave situação que envolve sua manutenção há, pelo menos, 10 anos. Tal condição ainda tem se mostrado muito aguda. Mas a perspectiva é de que consiga superar a ameaça de um “grand finale” e alcance consagradora apoteose até o fim do ano. O maestro Carlos Prazeres e o secretário de Cultura Jorge Portugal têm audiência com o governador Rui Costa agendada para o próximo dia 4 de maio, quando apresentarão as demandas da Sinfônica.

O regente garante que a questão “tem recebido grande atenção por parte do governo”; que ele “tem consciência da crise” e que “quer ser parceiro na resolução das pendências e não um entrave”. Fez questão de acentuar, ainda, o quanto “temos sentido boa vontade por parte do governo e sabemos que não dá para virar uma Osesp-Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo da noite para o dia”. Lembrou, inclusive, que “já houve, em 2014, a iniciativa da gestão estadual em publicar no Diário Oficial um edital anunciando a intenção de publicizar a Osba, mas aí entrou a crise”, lamentou.

As dificuldades da Orquestra se agravaram em 2007, quando era regida pelo maestro Ricardo Castro e aventou-se a possibilidade da adoção do regime de “publicização”, uma espécie de PPP-Parceria Público Privado que consiste na  transferência  da gestão de serviços e atividades, não exclusivas do Estado, para o setor privado, assegurando à entidade autonomia administrativa e financeira. Os músicos, no entanto, não aderiram à novidade e a lenta agonia (quase em “moderato”, como diríamos de um andamento musical)  continuou pairando sobre esse corpo artístico do Teatro Castro Alves .

Em 2011, o maestro Carlos Prazeres assumiu a regência. O então secretário de Cultura, Albino Rubim, retomou a alternativa sobre o tema da publicização e promoveu seminários nos dois anos seguintes. Para tanto, trouxe a Salvador representantes de outras sinfônicas que haviam aderido a este tipo de gestão, como as de São Paulo, de Minas, Paraná e a da Petrobras, apontadas por Prazeres como “as maiores do País, juntamente com as de Porto Alegre e Brasília”. Os músicos da Osba acabaram convencidos de que a terceirização da gestão seria uma “tábua de salvação” no meio da oceânica tormenta, única forma capaz de proporcionar, digamos, um “allegretto” à orquestra criada em 1982, durante o primeiro governo Antônio Carlos Magalhães.

A Sinfônica durante apresentação no Casarão do MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia

Embora tenha gerado público e tornado suas apresentações bastante concorridas nesse meio tempo, a Sinfônica da Bahia, de acordo com o regente, “ainda que dispusesse de verba, carece de legislação que adeque o direcionamento para servir à música de concerto, desde as licitações em tempo hábil para aquisição de instrumentos de qualidade à disponibilidade da captação de recursos, mas a Osba não dispõe sequer de razão social própria”. Segundo Carlos Prazeres, “poderíamos até recorrer à Lei Rouanet, mas isso tende a chocar-se com outros projetos da Fceba-Fundação Cultural do Estado da Bahia, à qual a Sinfônica está subordinada”. Esse ano já promoveram a “Osba em Casa”, com o cantor e compositor Luiz Caldas e com a acordeonista Lívia Mattos, “trazendo a plateia para o palco do TCA, pois nossa capacidade sonora é similar à de um radinho de pilha”, ironiza.

Aporte de recursos – Acontece que a licitação para a publicização – que levará a Orquestra a ser gerida por uma OSIP-Organização Social de Interesse Público – requer aporte de recursos estimado em R$ 8 milhões e outros R$ 6 milhões para manter a sinfônica funcionando. Prazeres reconhece que “a crise financeira tem inviabilizado tais dotações” por parte do estado, mas garante que “vem sendo estudada uma redução nesses montantes”. De todo modo, destaca que “a organização que vier a assumir a gestão do corpo artístico é que vai dar as estimativas das  verbas  necessárias”.

Segundo o secretário de Cultura, Jorge Portugal, “a licitação será lançada ainda este ano. Já temos a Associação dos Amigos do Teatro Castro Alves como uma entidade interessada em assumir a Osba, embora isso vá depender das demais propostas a serem licitadas”. Conforme Jorge, “no atual modelo não podemos aceitar patrocínios de grandes empresas, enquanto com a publicização isso será viável, assegurará a orquestra e evitará o desembolso maior do estado”. Portugal salienta que “o Governo está sob contingência de verbas, operando no limite prudencial dos recursos no que pese a Lei de Responsabilidade Fiscal em decorrência mesmo da crise econômica e financeira em curso no Brasil”.

Orquestra permanece sem orçamento 

A área de Cultura vive sob certa penúria. A Osba permanece sem orçamento e a condição do Balé do TCA, outro corpo artístico do teatro e subordinado à Fceba, também é delicada, mas é certo que há ações estruturantes do governo no que tange às reformas e ampliações da Concha Acústica e da segunda etapa do TCA, além da aguardada conclusão das obras no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia (no Solar do Unhão).  O cenário esboçado pelo maestro Carlos Prazeres, todavia, ainda é o de que “a Osba hoje corre o risco de ter as apresentações inviabilizadas; de virar uma camerata [conjunto musical composto por poucos instrumentistas]. Dispomos de apenas 53 músicos, dos quais 10 são contratados através do Reda e já tendo que ser revalidados pois completaram os dois anos. O mínimo é que dispusesse de 80 integrantes e o ideal, 100”.

Ele demonstra que “atualmente, a estrutura da sinfônica envolve cinco flautas e quatro primeiros violinos, quando o normal, para poder tocar com cinco flautas, seria dispor de 12 a 14 violinos”. Isso significa, esclarece, que “não podemos tocar inúmeras peças. Os repertórios romântico e moderno que se toca com cinco flautas jamais pode ser feito com apenas quatro violinos”. A Sinfônica tem se mantido ativa, principalmente, com as criações de quatro cameratas, integradas por músicos da orquestra e com apresentações em diversos locais da cidade e no interior do estado até duas vezes ao mês.

Músicos recorrem à criatividade 

Para superar esse período, a orquestra tem recorrido à criatividade. Em outubro de 2015, quando viu a necessidade de dar visibilidade à condição da Sinfônica, adotaram fantasias de super-heróis quando da apresentação do Cine Concerto, em que tocaram temas de diversos filmes de sucesso. A última apresentação com estrutura completa da Sinfônica aconteceu em dezembro passado no “Natal para as Mulheres”. Antes, enfatizou, “tocamos na Praça das Mãos (na área do Taboão) para as pessoas em situação de rua, com uma tenda improvisada como palco e distribuímos plásticos para as pessoas não sentarem diretamente no chão”. Ou seja, defende o regente, “a orquestra tem saído do pedestal, dos espaços internos dos teatros, para ir aonde o povo está”.

Ele revelou as perspectivas que tem para o segundo semestre, “com projetos criativos mesmo com o corpo artístico deficitário”. Disse estar sendo preparada uma “peça-concerto” sobre “Gregório de Matos e a musicalidade barroca”, com participação do diretor teatral Gil Vicente Tavares e adiantou que  que vem mantendo conversas sobre o interesse em retomar o Sarau da Osba, com o diretor do MAM, Zivé Giudice, e que “envolve poesia, dança, teatro, literatura e a música clássica”. Acenou, também, com a “possibilidade de promover uma “feira expositiva” para crianças no Palacete das Artes (na Graça), já esboçada para o diretor Murilo Ribeiro, na qual seria “estimulada a interação delas com os instrumentos, inclusive com apoio de psicólogos, até desembocar em um concerto destinado ao público infanto-juvenil”.

Carlos Prazeres aludiu, além do mais, ao “estudo de projeto especial para uma ocupação do MAB-Museu de Arte da Bahia” (no Corredor da Vitória), também em conjunto com o diretor Pedro Archanjo, assegurando que “quando entramos em um espaço buscamos dialogar potencializando a capacidade daquele universo”.  Com a publicização ele planeja a interiorização. Prazeres disse querer formar plateias nas cidades da Bahia para a música erudita, inclusive tocando compositores da escola baiana como Lindemberg Cardoso, Walter Smetak, Ernst Widmer (já falecidos) e outros como Paulo Costa Lima, Alexandre Espinheira, Natan Albuquerque. “O desejo é proporcionar essas audições para as novas gerações e provar que a Bahia é uma grande reunião de culturas e de formas de expressão”.

A Osba já teve a regência de conceituados maestros, como Isaac Karabtchevsky, Jacques Morelenbaum, Osvaldo Colarusso, Alex Klein, Olivier Cuendel. Conta com apresentações ao lado dos balés Kirov, Bolshoi e da Cidade de Nova Iorque e já se apresentaram com a orquestra o tenor lírico Luciano Pavarotti, a soprano lírica Montserrat Caballé  e a mezzo soprano dramática Milla Edelman, além da brasileira Gal Costa, entre outros.

Pasquale de Chirico

As esculturas que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina são de 1909

PASQUALE DE CHIRICO

Escultor dos principais
monumentos 
de Salvador
é relegado ao esquecimento

Mesmo sendo o maior criador individual dos principais monumentos existentes em Salvador, o escultor italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) não mereceu, ainda, sequer ser lembrado como nome de rua ou praça da cidade. Após mais de um século das suas primeiras contribuições para o acervo artístico do mobiliário urbano da primeira capital do país e embora as monumentais intervenções estéticas dele componham os principais cartões portais desta urbe, o artista permanece banido do reconhecimento, seja pela Municipalidade ou demais órgãos responsáveis pelo patrimônio cultural e artístico, seja da maioria da população. Suas esculturas, vale ressaltar, não se restringem à capital da Bahia.

                                                                                                                                      Fotos: Albenísio Fonseca
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Monumento ao poeta Castro Alves na praça que o homenageia

São criações dele os monumentos a Castro Alves, de 1923, na praça que homenageia o poeta; ao barão do Rio Branco, inaugurada na Praça de São Pedro em 1915; o Relógio de São Pedro, de 1916, também naquela praça (na Avenida Sete); o extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru, na praça em frente ao Mercado Modelo, inaugurado em 1934; o Jesus Salvador, ou Cristo da Barra, de 1920, no Morro do Ipiranga, próximo ao Farol da Barra, anterior ao Cristo Redentor do Rio de Janeiroo busto do General Labatut, de 1923, no Largo da Lapinha; a fonte com um índio a enfrentar um dragão, no Largo dos Aflitos; as 13 esculturas a personalidades que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina, de 1909, apontadas como as primeiras obras de Pasquale na Bahia. 

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Detalhe do extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru

O amplo acervo, listado por Bartolo Sarnelli, neto de De Chirico, envolve, ainda, o monumento a Almeida Couto, inaugurado em 1924, em Nazaré (mas desaparecido); o conjunto em homenagem ao Barão de Macaúbas, também de 1924; o busto do médico Julio David e o seu mausoléu, de 1926; busto de Rui Barbosa, em Alagoinhas, de 1935; o busto ao Irmão Joaquim do Livramento, na Igreja dos Órfãos de São Joaquim, em 1936; busto ao padre Manoel da Nóbrega, em frente à Igreja da Ajuda; a estátua ao educador Góes Calmon, na Academia de Letras da Bahia, trabalho de 1938; o busto do benemérito Francisco Caminhoá, instituidor do Premio de Viagem Donativo Caminhoá, da então Academia de Bellas Artes da Bahia, através de verba testamentária, para proporcionar viagem de aperfeiçoamento à Europa, então centro de referência nas artes plásticas mundiais, de 1927. Há, também, quatro trabalhos no Palácio Rio Branco cujas datas não foram definidas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                           Foto: DivulgaçãoBartolo Sarneli, neto de Pasquale, ao lado da obra O Remorso

Em toda essa cartografia icônica das esculturas criadas por Pasquale de Chirico, há, ainda, “O Remorso”, com duas cópias originais: uma na Escola de Belas Artes da UFBA, no Canela e outra no MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Existe, também, o monumento ao Conde dos Arcos, inaugurado em 1932, na praça que tem o seu nome; figuras na fachada da Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus; o monumento a D. Pedro II, de 1937, sob restauração, na Praça Almeida Couto, em Nazaré; o Medalhão a Eurycles de Mattos, também daquele ano, que era incrustado em uma coluna de granito mas, desaparecido, parece ter sido furtado, no Rio Vermelho; busto de D. Pero Fernandes Sardinha, de 1942, na Praça da Sé; estátua de Thomé de Sousa, na Praça Municipal e a escultura do primeiro governador-geral desnudo, no Palácio Rio Branco (provavelmente por volta de 1919, ano da reinauguração do Palácio), além de outras como o Cristo, em Ilhéus e Nossa Senhora Aparecida, na Praça da Basílica, em Aparecida (SP).

 

Se é certo que as esculturas compõem um simulacro da corporeidade humana no corpo urbano, mais importante ainda é contatar o quanto elas estabelecem um diálogo com outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima do seu espaço circundante. Nesse sentido, como se disséssemos de um Auguste Rodin, oextraordinário legado de Pasquale de Chirico para Salvador, onde é mais notória e pública suas criações, constituem um ‘panteon’ significativo da memória da cidade, a requerer preservação e mesmo o tombamento como forma de ressaltar a face escultórica do patrimônio cultural, em seu aspecto material e, sobretudo, dado ao seu caráter estético e histórico.

 

O Relógio de São Pedro ocupa lugar da igreja demolida para abertura da Av. Sete

Quadros, maquetes, desenhos e bustos a serem listados

Sarnelli lamenta que “muitos trabalhos não puderam ser pinçados”. Entre os quais menciona quadros, desenhos, maquetes, como é o caso do monumento a Ruy Barbosa. Segundo o neto do escultor, “Pasquale venceu a concorrência para a execução do monumento em homenagem ao Águia de Haia, mas o trabalho não foi realizado por falta de verba”.

De todo modo, observou que a maquete ganhadora do concurso “existe e está exatamente na Casa de Rui Barbosa”, mantida pela ABI-Associação Bahiana de Imprensa, no Centro Histórico de Salvador. De acordo com Sarnelli, “há bustos, muitos bustos de personalidades espalhados pela cidade”, sobre os quais Bartolo disse ter enfrentado dificuldades para relacionar. Ele destacou, entre outros, o de Theodoro Sampaio, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

Por enquanto, a única homenagem ao velho mestre é proporcionada pela Universidade Federal da Bahia ao consagrar a ele o Salão Pasquale de Chirico, nome da sala onde os alunos da Escola de Belas Artes assistem às aulas de Escultura. Em suma, suas obras, notáveis e públicas, estão espalhadas pelos quatro cantos de Salvador e em outros pontos do estado, do país e mesmo na cidade natal dele.

 

Pasquale de Chirico

 Artista veio para Salvador em 1903, aos 30 anos

Escultor, desenhista e professor, o italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) nasceu na cidade de Venosa, Sul da Itália, emigrou para São Paulo aos 20 anos, em 1893, e ali viveu por dez anos com uma fundição que instalou, casou-se e teve duas filhas. Em 1903, mudou-se para Salvador a convite de Theodoro Sampaio (então engenheiro civil, urbanista, geólogo, cartógrafo, geógrafo, historiador e político) para confeccionar as esculturas da Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, que passava por reforma após um incêndio que atingiu a histórica edificação.

Aqui, montou ateliê na antiga Rua do Tijolo, atual 28 de Setembro, que dá acesso ao Viaduto da Sé, no Centro Histórico. De 1918 a 1942, foi professor de Escultura e Desenho na então Escola de Belas Artes da Bahia, onde atuou, inicialmente, como contratado até se tornar titular da instituição. Pasquale morou de aluguel por vários anos até construir sua casa própria no Rio Vermelho,  com projeto de sua autoria, onde hoje funciona o restaurante Sukiyaki e na qual veio a falecer em 31 de março de 1943.

Homenagem foi barrada pela legislação


Na tentativa de corrigir a injustiça para com o escultor italiano, em 2014 a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) conseguiu aprovar projeto de lei na Câmara Municipal com a indicação do nome de Pasquale de Chirico para redenominar a Praça da Santa Cruz, no Rio Vermelho. Mas ocorreu de a iniciativa ter sido vetada pela Sucom, com base no Artigo 5º da Lei 3.073/79, segundo o qual não é permitida a alteração de nomes de logradouros já oficializados.
A vereadora deverá encaminhar novo projeto visando a denominação de outro logradouro a fim de que a homenagem com o nome dele, 
em sua memória e no reconhecimento às suas monumentais contribuições artísticas para a cultura visual de Salvador sejam finalmente, reverenciadas. 

Mobilidade Urbana

“Quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro” 

Estacionamentos
Mais que um paradigma
da mobilidade urbana

ALBENÍSIO FONSECA
 
Com as áreas para estacionamentos ocupando espaços valiosos das cidades, afetando de forma negativa o planejamento urbano, a crise da mobilidade vivida nas capitais brasileiras tem um dos mais dramáticos exemplos em Salvador.
A questão torna visível, também, a desigualdade social em meio à disputa pela oferta de vagas, envolvendo a exploração do serviço pela iniciativa privada ou pela Municipalidade, nas zonas azuis, através de guardadores e lavadores de carros sindicalizados, e nos mais diversos locais da cidade por centenas (senão milhares) de “flanelinhas”. Os guardadores clandestinos têm assumido também a condição de manobristas, no afã de garantir a renda para a sobrevivência diária.
O certo é que os estacionamentos deixaram de ser um requisito cômodo para se tornar em mais um catalisador da problemática mobilidade urbana, no âmbito da civilização do automóvel, em um cenário que se repete na maioria das capitais e mesmo em cidades de médio porte: excesso de veículos nas ruas, congestionamentos, índices perigosos de poluição do ar e horas perdidas no transito atrás de uma vaga, mesmo frente à tendência de verticalização para esses equipamentos. 
A constatação, portanto, e os urbanistas não cansam de sinalizar, é que, como um paradoxo, “quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro particular nas grandes cidades”, aliás, com grande parte de suas áreas já comprometidas ou projetadas para este uso e, ainda assim, a sofrer a carência de vagas. E mais, sob o agravante de que a capacidade de criar vagas não aumenta na mesma razão em que novos carros chegam às ruas.
Do mesmo modo é visível o quanto os estacionamentos geram novos comportamentos nas cidades, na medida em que todos os que optam pelo carro como meio de transporte são, sob o custo do inevitável estresse, obrigados a pensar em locais para estacionar.
Trata-se, em suma, de um amplo mercado a fascinar o poder público, empresários, donos de terrenos baldios, administradores de shopping centers e outros centros de compras, além dos “flanelinhas” e dos guardadores sindicalizados, a buscar uma vaga ao Sol ou sob a chuva, nessa moderna forma de serviço a expandir-se como lucrativo comércio no universo da urbanidade motorizada.
É um senso comum afirmar que “por não termos sistemas eficientes de transporte público, continuamos a usar o carro e então precisamos de estacionamentos”, o que é uma verdade a exigir maior qualidade no planejamento. Mas é correto também ter em conta o quanto não se pode mais planejar apenas sob a perspectiva do uso do carro. 
O planejamento urbano passou a requerer estratégias e ferramentas dentro de uma visão mais abrangente, que inclua os pedestres, os ciclistas e a integração com os diferentes modais de transporte, de modo que o espaço da cidade seja mais bem aproveitado. Estacionamentos, portanto, foram convertidos em paradigmas não apenas da mobilidade e densidade urbanas, mas do planejamento e da qualidade de vida nas cidades.
 
Primeiros estacionamentos surgiram em 1920
 
Os primeiros estacionamentos surgiram nas décadas de 1920 e 1930, quando o número de motoristas começava a aumentar em escala global e os carros passaram a ocupar um tamanho precioso do espaço público – bem entendido, o espaço entre as casas e prédios, assim como o por onde as pessoas antes caminhavam e passavam o tempo livre.
A imposição do carro no domínio público passou a atrapalhar a segurança e a vitalidade das cidades. Por isso, criaram-se legislações obrigando a criação de estacionamentos para todo tipo de empreendimento imobiliário e destino que se podia imaginar.
Desde então, cada viagem começa e termina em algum estacionamento, seja no trabalho, na escola, hospital estádios ou shopping center. O problema é que, em geral, todos que dirigem planejam seus deslocamentos pensando na necessidade de estacionar, de preferência próximos ao seu destino, intensificando o tráfego nesses locais na dispendiosa busca (haja combustível e paciência) por uma vaga.
Mais recentemente, quando as cidades atingiram picos de motorização, as pessoas passaram a gastar grande parte do seu tempo e dinheiro atrás de vagas, aumentando os efeitos negativos do excesso de carros nas ruas, como congestionamentos e a poluição do ar. Os estacionamentos deixaram ser uma boa ideia para se tornarem em mais um desafio para a mobilidade urbana sustentável.

 

PDDU 2015

Projeções de slides criticaram a primeira versão da minuta do PDDU

PDDU
depois que o
Carnaval passar

ALBENÍSIO FONSECA
Sob inúmeras controvérsias e ao clamor da plenária a reivindicar a realização de “mais audiências”, o secretário Municipal de Urbanismo, Silvio Pinheiro, deu por encerrado, na segunda-feira (26), no Centro Cultural da Câmara, o ciclo de audiências promovidas pelo Executivo para elaboração da minuta que servirá de base para o Projeto de Lei do PDDU-Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano.
Fruto de acalorados debates e muitas contribuições, mas ainda envolto no mistério da redação de uma segunda minuta, a ser confeccionada após 15 meses e 14 audiências, o documento será remetido ao Conselho Municipal da Cidade, instância consultiva composta por 41 integrantes, de onde será encaminhado à Câmara Municipal “antes do final do ano”, conforme Pinheiro.
De acordo com os vereadores Gilmar Santiago (PT) e Hilton Coelho (PSOL) e conforme o regimento da Câmara, o projeto de Lei do novo PDDU obedecerá ao prazo máximo de 75 dias para tramitação em todas as comissões do legislativo municipal. Com isso, e considerando o período de recesso em janeiro, é possível antecipar, segundo Santiago, que a ida a plenário para votação “só acontecerá após o Carnaval do próximo ano”.
Gilmar também defendeu a promoção de mais audiências para o aperfeiçoamento da minuta e Hilton disse que a precipitação do envio do projeto de lei à Câmara pode significar o “conserto de um Frankstein”. Silvio Pinheiro, no entanto, sustentou que “a Câmara tem mais atribuições e competências que o Executivo, no sentido de promover novas audiências”.
Silvio concordou com intervenção de um líder comunitário de que “o PDDU não é um BaVi” e defendeu que, “esse não é um PDDU do prefeito ACM Neto, mas da Prefeitura”. O secretário admitiu ter enfrentado problemas com o calendário programado. Lembrou que “a elaboração da minuta estava prevista para junho, depois agosto e setembro”, mas somente em meados de novembro o esboço do projeto do Plano deverá estar concluído.
Para a ouvidora geral da Defensoria Pública, Vilma Reis, “não há como tirar a tensão da plenária porque a cidade está apreensiva”. Ela divergiu do secretário sob o argumento de que “o PDDU não é do prefeito nem da Prefeitura, mas dos 3 milhões de habitantes que não sabem o que acontecerá com eles”. Vilma criticou o fato de o “documento inicial trazido às audiências dedicar apenas três parágrafos sobre a comunidade negra quando 80% da população são constituídos por negros”. Houve queixas, ainda, frente ao fato de “boa parte do tempo das audiências ter sido gasto com a leitura de atas dos encontros anteriores”, pelo que se chegou a defender a promoção de outras sete audiências.
Já a partir de hoje, o Executivo passa a responder aos questionamentos e contribuições à minuta do PDDU que ainda permanecerá aberta a avaliações e sugestões no site http://www.plano500.salvador.ba.gov.br/, através de e-mail ou por ofícios, segundo Silvio Pinheiro. Ele fez ver que todas as intervenções foram gravadas em áudio e vídeo que integram as Atas das audiências e descartou a possibilidade uma nova audiência para aprovar a segunda minuta a ser elaborada.
Cidade terá 223 Zonas Especiais de Interesse Social
De acordo com Fernando Teixeira, da equipe do Salvador 500 e Tânia Scofield, da Fundação Mário Leal Ferreira, além de terem sido revisados os limites das 116 Zeis – Zonas Especiais de Interesse Social existentes, a cidade ganhou outras 107 alcançando 223 Zeis no anteprojeto do novo PDDU. Zeis são áreas da cidade destinadas à moradia popular e protegidas por regras especiais. Como exemplos de Zeis em Salvador, Pinheiro citou a Gamboa, o Nordeste de Amaralina, a Chapada do Rio Vermelho e o Calabar. A proposta, segundo ele, “é proteger e avançar em aspectos necessários ao
desenvolvimento dessas localidades”.
Para garantir que tais áreas tenham atividades econômicas formais, gerando emprego e renda, segundo o secretário de Urbanismo, “a Prefeitura vai propor no novo PDDU a flexibilização de algumas regras que impedem a concessão de alvará de funcionamento para esses locais”. Silvio Pinheiro, que também coordenará a elaboração da LOUOS, disse que “a ideia é permitir a instalação formal de pequenos negócios, como salão de cabeleireiro, mercearias, entre outros”. A regularização dessas atividades junto ao Município, segundo ele, “permitirá o recolhimento do ISS-Imposto Sobre Serviço e, o que é mais importante, o reconhecimento da cidadania”, estipulou.
Outro ponto destacado pelo secretário é a criação da Cota de Solidariedade, um fundo destinado à arrecadação de recursos a serem utilizados na construção de moradia popular. “A Cota funciona assim: novos empreendimentos com área a ser construída acima de 20 mil m² terão que destinar 5% do valor investido para habitação social”, disse. “Esses são apenas alguns avanços sociais desse PDDU. Há outros, bem como avanços em desenvolvimento e mobilidade, enfim, é um PDDU que resgatará Salvador e a tornará uma cidade melhor para seus moradores”, acenou.
Representantes do Movimento Rio Vermelho em Ação presentearam a mesa, presidida pelo secretário e pela presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, com um saco de cimento em alusão crítica às intervenções da Prefeitura sobre as calçadas da cidade antes pavimentadas com pedras portuguesas. Integrantes de movimentos sociais projetaram slides e filmes nas paredes do local do evento`tachando o PDDU de “racista” dada a falta de recortes sobre a questão étnica, notadamente negra, no que tange à maioria da população de Salvador.
Da audiência de ontem participaram representações de inúmeras comunidades, como as do Subúrbio, do bairro Cassange, que defende a definição da zona rural da capital e em que pese a existência naquela área das represas Ipitanga 1, 2 e 3; Comunidades do Centro Antigo de Salvador, Artífices da Ladeira da Conceição da Praia, Moradores da Gamboa de Baixo, Chácara Santo Antonio, da Ladeira da Preguiça, Vila Coração de Maria, Rio Vermelho em Ação, movimentos Nosso Bairro é 2 de Julho e dos Sem Teto da Bahia, entre outros.

MEMÓRIA AMEAÇADA

Monumentos degradados
viram objetos
não identificados

“Caravela”, homenagem a Vasco da Gama, de Chico Liberato
Monumentos são ‘tatuagens’ históricas no corpo das cidades. No caso de Salvador, primeira capital do Brasil, a homenagem perene a personalidades marcantes na memória da nossa urbanidade, seja em estátuas, bustos ou peças sob livre criação de artistas, tem sido alvo de degradação ou perda da sinalização identificadora, dada a falta de manutenção por parte do poder público; roubo, inclusive das placas de identificação, por viciados em crack para venda do bronze das esculturas em troca da droga e de pichadores, como se diria de um gesto de equivocado vandalismo ou estúpida rebeldia.
O certo é que se poderia traçar um verdadeiro ‘tour anti-cultural’ da cidade, seguindo o roteiro de constatação do abandono da cultura visual que caracteriza a expressão dessas peças e seu extraordinário valor icônico e simbólico, que sinalizam nosso decurso histórico, convertidas em objetos não identificados. Mas, de acordo com Cássio Ribeiro, sub-gerente de Espaços Públicos e Monumentos da FGM-Fundação Gregório de Mattos, a Prefeitura lançará nova licitação, em dezembro, para o resgate de sete peças, após a licitação que privilegiou as restaurações do Relógio de São Pedro e do Barão de Rio Branco, já reentregues à paisagem urbana, no Centro da cidade, faltando a de Dom Pedro II, na Praça Conselheiro Almeida Couto, em Nazaré.
  Ludwik Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, sem autoria
Segundo Ribeiro, as restaurações envolverão monumentos como os bustos de Ludwik Lejzer Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, instalado na Praça de São Bento e retirado para restauração; do cineasta Glauber Rocha (roubado recentemente), nos Dois Leões; o Cetro da Ancestralidade, de Mestre Didi (que teve as pombas roubadas), no Rio Vermelho; a de Mestre Bimba (também roubada), em frente ao quartel de Amaralina; da yalorixá Mãe Runhó no fim de linha da Federação e retirada para restauração, e o do padre Manoel da Nóbrega), em frente à Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no Centro, também sendo restaurado. Há, ainda, o busto de Almeida Couto (roubado já por duas vezes), na praça que leva seu nome, em Nazaré.
Cássio Ribeiro revelou que as novas peças e suas placas identificadoras passarão a ser confeccionadas em fibra de vidro como uma forma de evitar a ação dos “sacizeiros” (viciados em crack) que visam o alto valor do bronze. Segundo Ribeiro, “eles roubam as peças e derretem o bronze para levantar dinheiro visando a compra da droga”. Adiantou que “o lançamento da licitação depende, ainda, da elaboração do Termo de Referência”. Ele não soube informar o valor a ser despendido na restauração do patrimônio. Quanto à proteção dos monumentos históricos pela Guarda municipal, considerou “complicado, seja pela falta de contingente ou por envolver trabalho noturno”.
Busto de Glauber Rocha foi supostamente roubado por viciados em crack
A propósito de ícones de Itapuã, como o busto de Dorival Caymmi (criação de Márcia Magno), que ganhará novo pedestal e da Sereia (arte de Mário Cravo Jr), a ser mantida sobre a mesma pedra, garantiu que “permanecem em fase de restauração, mas retornarão aos locais de origem quando da inauguração das obras de intervenção na Orla do bairro”. O local será contemplado por uma nova homenagem a Caymmi, em tamanho natural, elaborada pelo artista Tati Moreno. Em Piatã, foi inserido um “pórtico” de autoria de Ray Vianna, autor de outra nova escultura, a que reverencia os mortos pela ditadura militar na Bahia, instalada no Campo da Pólvora – do total de 180 peças do mobiliário urbano da capital.
A propósito da escultura que homenageia os navegadores portugueses, notadamente Vasco da Gama, na Praça Wilson Lins, área do antigo Clube Português, na Pituba, da autoria de Chico Liberato, completamente abandonada e também merecedora de uma restauração, o sub-gerente da FGM, admitiu que “a instalação da peça, em ferro, naquele local em frente ao mar, foi um erro, por estar vulnerável à ação do salitre”, mas ressaltou que “o artista foi avisado de que não era um material adequado”.
A emblemática obra – doada à cidade por Liberato – estiliza uma caravela, sincretizando uma Cruz de Cristo, a ressaltar o predomínio ou hegemonia católica e o Opaxorô de Oxalá, a representar a diáspora africana. A escultura traz um importante texto – já quase ilegível – que remonta ao final da Idade Média, “quando os oceanos se apresentavam como rota comercial alternativa à rota da seda, comprometida pela tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453”. Cita a saga de seis dos mais importantes navegadores envolvidos com a descoberta do Novo Mundo e promove paradigma com o “desbravamento do espaço sideral”.
Sem identificação, a escultura de Kennedy dá asas à imaginação popular
Outra escultura de importante simbolismo é a “Duas Palmas”, que ganhou denominação popular a renomear como “Praça da Mãozinha” à Praça Marechal Deodoro da Fonseca, na Cidade Baixa, próxima ao Mercado do Ouro. Da autoria do artista Kennedy Salles, trata-se de uma homenagem prestada no ano 2000 à AICO-Associação Ibero Americana de Câmaras de Comércio. Foi confeccionado em fibra de vidro, em forma de duas mãos entrelaçadas, com mapas da América do Sul e Central em uma mão, em baixo relevo, e da Península Ibérica, na outra mão. Moldada em placas de granito e medindo 3,90m, carece de restauração e ser identificada.
Para o comerciante Antonio dos Santos, a “Duas Palmas” seria uma “homenagem aos escravos”. Segundo o vendedor Fernando Nascimento, “entendo apenas que serve para dar o nome à Praça da Mãozinha” e, conforme Robson Nascimento da Silva, camelô no local, “sei que a praça se chama Marechal Deodoro, não entendo a razão da arte ali, mas reconheço tratar-se de um patrimônio histórico da cidade que deve ser bem cuidado”. 

Cuba, liberdade de imprensa e a fome

Che Guevara lê “La Nacion” no início dos anos 6O

Cuba, liberdade de imprensa e a fome

 Albenísio Fonseca

Após mais de meio século sob bloqueio econômico que lhe cerceia o desenvolvimento, Cuba é uma ilha cercada por pressões políticas, econômicas e midiáticas por todos os lados. No momento em que presenciamos o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos, principal inimigo até então e o regime cubano, vale entender o quanto é fundamental conhecer um objeto, um país, mesmo um projeto ou período histórico, para nos qualificarmos a discorrer sobre eles e por maior que seja a presunção generalista.

No último dia 20 de julho, pouco antes do meio-dia, em cerimônia solene, a bandeira cubana foi içada na sede da Embaixada de Cuba em Washington.  Trata-se de um fato histórico e inesquecível, a demonstrar o quanto a resistência, a tenacidade e perseverança de um povo podem consolidar a liderança de um endereço patriótico e nos encher o peito e os olhos de emoção na superação de 53 anos de divergências políticas e ideológicas.

Ainda não conheço Cuba, mas sim a trajetória do regime revolucionário de linha marxista-leninista implantado desde 1959, a partir da luta iniciada em Sierra Maestra e que libertou os cubanos do governo ditatorial do sargento Fulgêncio Batista, subordinado aos interesses das oligarquias internacionais e dos investidores estrangeiros, entre 1933 e aquele ano.

Por mais que tenha posição contrária, é facilmente constatável ao longo da história o quanto em tempos de guerra, estado de sítio ou de extrema necessidade, tem sido facultado aos governos estabelecer limites às liberdades individuais, incluindo a de imprensa – como aconteceu nos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã, ou no Brasil sob regime militar, entre 1964 e 1985, por exemplos.

Resta claro, portanto, que em situações extremas a liberdade de imprensa é tolhida em prol do bem comum e, mesmo sem a existência dessa condição, a ação contrária à ordem estabelecida, ou de apoio ou auxílio a países inimigos, é comumente punida, mesmo no até recentemente principal inimigo de Cuba. Se diante de tais situações, a suspensão de liberdades é admitida nos mais diversos países, por que não deveria sê-lo no caso cubano?

Afinal, o bloqueio econômico, estendido por Washington a nações que mantivessem negociações com Havana, impunha a condição de um estado de sítio permanente, como se diria de uma guerra não declarada contra o povo cubano.

Como exigir, nesse sentido, que Cuba trate aqueles que dão apoio e auxiliam ao inimigo que está à sua porta, através de escritos ou outras ações, garantindo-lhes a liberdade de fazê-lo, quando nenhum outro Estado o faria, na mesma situação? A defesa da suspensão da restrição à liberdade de expressão em Cuba, sob esse ângulo, não é difícil concluir, nada mais é do que fazer o jogo do inimigo, no caso, a maior potência econômica e militar do planeta. Ao omitir o contexto no qual a referida restrição está inserida, tende-se a criar um mito sobre o qual a imprensa, supostamente livre, deixa de cumprir sua obrigação.

Sim, o que sabe o povo brasileiro sobre a realidade cubana? Quem foi informado pela imprensa de que há quase 50 anos Cuba já extinguiu o analfabetismo?  Quais reportagens da “mídia livre” enfatizaram o fato de que a Escola Latinoamericana de Medicina, em Cuba, já formou, gratuitamente, mais de cinco gerações de médicos de todos os países da América Latina, inclusive do Brasil e dos EUA, com a melhor medicina social do mundo e em caráter solidário?

A resposta do jornalista e escritor cubano Leonardo Padura à repórter da revista Veja, Nathalia Watkins, sobre a realidade de “miséria” em Cuba, no programa Roda Viva, da TV Cultura, foi a de que uma das coisas que ele tenta evitar sempre, quando lhe perguntam sobre as realidades de um país que visita, é dar sua opinião. “Porque uma realidade só pode ser conhecida por quem participa dela, vive nela. Em Cuba, é certo que há pobreza, não posso negar. Mas ninguém morre de fome em Cuba. De uma forma ou de outra, as pessoas comem e têm um teto. Há mais gente [com fome] na rua em um quarteirão aqui de São Paulo do que em toda Cuba”, reagiu.

A imprensa criou o mito de sua liberdade, mas até que ponto ela deixa de atender aos seus próprios interesses e agenda política? A experiência mostra que uma imprensa verdadeiramente livre jamais existirá de forma estável: sempre irá se degenerar e retornar à servitude. E sempre se corromperá, pois o poder corrompe e o poder da imprensa, convenhamos, é quase absoluto.

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Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
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Albenísio Fonseca é jornalista

Bem vindo à Era da Telemática total

The Jetsons, de 1963, já previa a comunicação por videofone. O que mudou?

Bem vindo à
Era da Telemática!

Albenísio Fonseca

No mundo hiperconectado em que passamos a habitar nos últimos 15 anos, uma nova revolução de aplicativos para celulares já teve início. Refiro-me às videochamadas. Inauguradas pelo Skype, com o sistema Voip (voz sobre Internet Protocolo), em 2001, para computadores fixos (desktops), laptops e, portanto, para webcam, foram recentemente estendidas para os celulares. O certo é que a comunicação instantânea por áudio e vídeo está se tornando acessível e disseminada em escala massiva.

Seja através do próprio Skype ou em redes sociais como as proporcionadas por aplicativos como o Whatsapp (que anunciou o lançamento do recurso para este mês), Viber (disponível desde 2014) e mesmo o Facebook (já adotada em alguns países e prevista para alguns meses no Brasil). Há, ainda, entre outros, o Imo e o Tango. A comunicação por videofone, contudo, extrapola a noção de mera visualização dos interlocutores para converter-se em uma extraordinária telemídia.

O termo “vídeo” aplicado nesse caso, diferentemente da concepção em voga, de uma gravação reproduzível de imagens, consiste, agora, no uso das câmeras embutidas nos celulares com transmissão em tempo real. Com isso, diferentemente do modelo vislumbrado na ficção The Jetsons (dos anos 60), sobre habitantes de um futurível ano 2.000, as videochamadas ampliam o diálogo e os acenos face to face para converter-se em tomadas dos ambientes.

De imediato e no âmbito do jornalismo televisivo, é possível perceber o quanto o trabalho dos cameramen está ameaçado. Pode-se ilustrar, ainda, com cirurgiões a conduzir procedimentos à distância.

O advento da videochamada, nesse sentido, redimensiona o contato telefônico com as imagens dos interlocutores para dotá-los da capacidade de apresentar todo o espaço circundante. Um celular, bem entendido, uma câmera na mão, e o mundo real (o ambiente circundante) estará disponível ao olhar perscrutador do outro.

No princípio, em 1973, era o verbo. Em 1988, os dados. Em 4G, logo teremos câmeras cada vez mais potentes e já considerados os videochats em grupos ou adequadas às transmissões por emissoras de TV e pela Internet.

A evolução tecnológica, notadamente o crescimento exponencial da capacidade de processamento dos circuitos integrados e o aumento da disponibilidade de banda propiciado pelas modernas redes de telecomunicações, têm sido os catalisadores do enriquecimento da comunicação eletrônica, num esforço de torná-la cada vez mais semelhante à interação pessoal.

O melhor exemplo desse enriquecimento é a crescente presença do vídeo nos meios de comunicação pessoais: sejam videoconferências em celulares, através dos messengers, como recursos cada vez mais comuns de comunicação. Nesse ambiente, as corporações se tornarão ainda mais atuantes, com visibilidade e mobilidade em full time.

Tornados cada vez mais plurais em sua singularidade, aplicativos com videochamada possibilitarão enorme gama de usos. Logo, as corporações e qualquer usuário, se apropriarão, em modos inusitados, das aplicações multimídia. Com as mídias de comunicação instaurando, de uma vez por todas, a nova fase da tecnologia da imagem, vale saudá-lo, mero portador de um dispositivo móvel, com um bem vindo à Era da Telemática total.

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Albenísio Fonseca é jornalista

 

Malha Ferroviária sob ameaça

Foto: Saulo Santos

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Máquina com vagões carregados atravessam a Ponte D. Pedro II, entre as cidades históricas de São Félix e Cachoeira, na Bahia

Fora dos trilhos

Ferroviários e empresários reagem
à Resolução 3.141 da ANTT

 

O Sindferro-Sindicato dos Ferroviários e Metroviários da Bahia e Sergipe deu entrada em representação junto aos Ministérios Públicos nos dois estados contra resolução datada de julho de 2013, da ANTT-Agencia Nacional de Transportes Terrestres, que determina à Ferrovia Centro-Atlântica a proceder a desativação e devolução de trechos ferroviários da malha explorada por esta concessionária.

O sindicato requer “instauração urgente de inquérito civil público para adoção das cautelas necessárias para suspender a destruição de parte da rede ferroviária”. Alegam, para tanto, o grave prejuízo ao patrimônio da União e atrofia do desenvolvimento do Nordeste. A entidade alega, ainda, que caso sejam retiradas esses trechos, tidos como economicamente viáveis – além dos já restituídos por falta de viabilidade econômica – “haverá demissão em massa, causando prejuízos às economias estaduais”, conforme enfatizou o dirigente do Sindferro Paulino Rodrigues de Moura.

Em atitude tida como “contrasenso” pelo Sindferro para a economia dos estados do Nordeste, a medida da ANTT determina, além do mais que valores devidos pela FCA, em função da degradação apresentada pela via férrea será convertido em investimentos na malha Centro-Leste (beneficiando os estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo), no montante de R$ 760 milhões, acrescidos de 15%, a título de ‘vantajosidade’ para o setor público, alcançando um dispêndio na ordem dos R$ 874 milhões “a serem classificados como doação”.

Segundo a FCA é importante ressaltar que “esses valores de investimento se referem à devolução de trechos antieconômicos”, também previstos na resolução, e que “devido à mudança do cenário do transporte de cargas, constatou-se a inviabilidade econômica e financeira do restabelecimento da parte não operacional da malha”

Com isso, FCA e Governo entraram em acordo de que seria “mais vantajosa a substituição do valor dos investimentos a serem gastos na recuperação destes trechos, redirecionando-os para regiões mais relevantes dentro do planejamento logístico nacional.

A concessão, implementada em 1996, durante o Governo FHC, estipulava um prazo de 30 anos para exploração, no caso da Ferrovia Centro-Atlântica, de oito mil quilômetros das malhas, em sete estados. Com o lançamento do PIL-Programa de Investimentos em Logística, pelo Governo do Federal, em 2012, o país passou a contar com um projeto da implantação de uma malha moderna. O PIL, no entanto, ainda permanece em fase de estudos.

De todo modo, os trechos concedidos à FCA, conforme a assessoria da empresa, à medida em que forem devolvidos ao governo, serão integrados ao PIL. Desse modo, a concessionária passará à condição de operadora, dentro do novo modelo de concessão, em que os concessionários serão gestores das ferrovias, responsáveis pela infra estrutura, sinalização e controle da circulação de trens. No momento, de acordo com a ferrovia, “não estão previstas demissões, vez que a empresa manterá seus negócios ativos nas regiões de influência dos trechos viáveis devolvidos”.

O Governo do Estado, através do secretário de Desenvolvimento, James Corrêa, salientou que a FCA é administrada pela VLI-Vale Logística Integrada, uma holding da Vale do Rio Doce, “que não consegue operar mais a malha com a configuração que tem hoje”. Corrêa disse da “importância estratégica da malha existente para o desenvolvimento do estado” e que “gestões serão feitas junto ao Governo Federal no sentido de que essas linhas economicamente viáveis não sejam desativadas”.

A malha total da FCA na Bahia tem 1.626 quilômetros. Ela está compreendida no corredor logístico Minas-Bahia, eixo de ligação ferroviária entre o Nordeste e Sudeste do País com acesso ao porto de Aratu, transportando cargas como minerais e madeira. Em 2014, a FCA transportou 1,5 milhão de toneladas de carga na Bahia.

 

Empresas reagem e exigem manutenção da malha

 “Não se pode desativar a malha ferroviária do estado sem ocasionar graves e irreversíveis danos à economia baiana, à logística das empresas e aos investimentos aplicados na construção de linhas e bases para carregar e descarregar vagões com produtos como minérios, petroquímicos, combustível e frutas”.

A posição, firmada ontem pelo diretor Executivo da Usuport-Associação dos Usuários de Portos da Bahia, Paulo Villa – enquanto representante dos interesses de empresas integrantes do Núcelo Feroviário da entidade – é mais uma dura reação à Resolução 4131 da ANTT. “A Usuport se posiciona contrária à desativação das ferrovias para o transporte de cargas e exige a manutenção da malha ferroviária no estado”, enfatizou.

Em ofício datado do último dia 9 e encaminhado ao diretor Geral da ANTT, Carlos Nascimento e ao secretário estadual de  Infraestrutura, Marcus Cavalcanti, as empresas BSC-Bahia Speciality Cellulose, Colomi, Cristal, Dow Brasil, Ferbasa, Magnesita e Paranapanema discordam da devolução e desativação de trechos, defendendo a “manutenção integral da malha ferroviária, como também o funcionamento de todos os serviços de transporte”.

Sustentam, ainda, que a concessionária “deve restabelecer as capacidades dos trechos, com a realização dos investimentos necessários ao bom funcionamento dos serviços”. Salientam, também, a “importância da reativação do trecho Senhor do Bonfim-Juazeiro”, considerando-o “estratégico” para a economia do estado e do Nordeste.

Em documento anterior, de agosto de 2014, as empresas integrantes do Núcleo Ferroviário da Usuport já haviam se posicionado no sentido de que “antes de determinar a devolução de trechos, a ANTT deveria ter contratado a nova infraestrutura e autorizado o novo operador ferroviário, para que a transição acontecesse sem a descontinuidade dos serviços”.

Conforme Paulo Villa,  “como os trechos e a logística da Bahia não estão sendo priorizados, entende-se que a Resolução ANTT no 4.131 foi precipitada”. Ele salienta que, na prática, “a resolução nada mais é que um cancelamento da concessão e tinha como horizonte a implementação do PIL-Programa de Investimento em Logística, lançado pelo Governo Federal em 2012, mas que não obteve continuidade”. Logo, conclui, “a Resolução perdeu o sentido e não há porque mantê-la”.

Villa acentua, do mesmo modo, que a vigência da Resolução “estimula a contínua redução dos serviços e da manutenção de vias, como já vem sendo demonstrado às usuárias pela concessionária”.

As empresas discordam, além do mais, da negociação realizada entre a ANTT e a FCA, que resultou em dois pontos prejudiciais ao Estado da Bahia e que devem ser revertidos: a) as multas decorrentes do contrato de concessão à FCA devem ser integralmente aplicadas na Bahia, se foram geradas neste Estado; b) a cessão gratuita do direito de passagem à FCA, no eventual futuro modelo nos trechos baianos, será uma barreira de entrada a novos operadores ferroviários do transporte de carga, já que estimularia a manutenção do mesmo monopólio de transporte.

O documento defende, do mesmo modo, a “elaboração de um Plano Estadual de Ferrovias, para servir de referência às ações de integração logística, focado no atendimento aos setores produtivos da Bahia, incluindo a transição para o novo modelo sem prejuízos aos usuários, assegurando a continuidade dos serviços e garantindo oferta de tarifas compatíveis com os padrões internacionais”.

Produtos e movimentações

Passando por estações ferroviárias em ruínas, locomotivas e vagões transportam por licenças especiais de 180 dias, os seguintes produtos e volumes de cargas:

Sínter (derivados siderúrgicos): O cliente é a Bamin-Bahia Mineradora. Movimenta 22 trens por mês transportando 40 mil toneladas de minérios de ferro extraídos em Caetité (BA). Sai de Brumado (BA) e segue para Capitão Eduardo (MG); outro carregamento segue para exportação pelo Porto de Aratu desde junho de 2014.

Toretes de eucalipto: O cliente é a Bahia Speciality Celulose. Movimenta 28 vagões com duas locomotivas, transportando 37 mil toneladas/mês. Sai de Esplanada (BA) e segue para Camaçari (BA). Antes da Resolução da ANTT, a carga compreendia 40 vagões, com 54 mil toneladas mensais. Os 12 vagões tornados ociosos foram levados para o corredor MG-RJ.

Cal:  O cliente é a Dow Química. Envolve três viagens por semana, com cerca de 17 mil toneladas/mês, saindo de Vespasiano ou Nova Granja (MG) e seguindo para exportação via o Porto de Aratu;

LAB (Linear AlkylBenzene): Atende à Deten. Com um trem por semana, transporta 3 mil toneladas/mês. Sai de Camaçari (BA) e segue para Vespasiano (MG);

Cromo: Atende à Ferbasa, com duas ou três locomotivas e até 26 vagões. Vem de Itiúba (BA) e de Campo Formoso (BA) e segue para Irapuí, em Pojuca (BA);

Combustível: Sai de Candeias e segue para Montes Claros (MG), com quatro trens por semana, em média, transportando 17,6 mil tonladas/mês. Vale salientar que dois trens que saiam da Refinaria Landulpho Alves, em Candeias, para Juazeiro deixaram de efetuar o transporte do produto por falta de segurança nas condições dos trilhos e presença de dormentes podres.

Tarugo: O cliente é a Gerdau. Dois trens de 20 vagões por semana, puxados por duas locomotivas com duas mil toneladas/mês. Sai do Parque Industrial de Minas Gerais, segue para o Complexo Petroquímico de Camaçari.

 

Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

Rei do Rock’n’roll agora é o Rei Momo do Asilo

                                                                                                              Foto: Albenísio FonsecaPrecursor do Rock’n’roll na Bahia e radialista por 20 anos, Waldir Serrão, o Big Ben, vive há dois anos no Abrigo Dom Pedro II

Waldir Serrão
Rei do rock agora é o
Rei Momo do Asilo

ALBENÍSIO FONSECA
 Aos 74 anos, Waldir Serrão – precursor e Rei do Rock’n’roll na Bahia no início dos anos 60 – agora é  o Rei Momo do Carnaval no Asilo Dom Pedro II. Na terça-feira (10.02) ele comandou o Baile de Carnaval da instituição ao som da banda de Cristine e Coringa. Serrão, que boa parte do público conhece pelo nome artístico de Big Ben, está há dois anos nesse tradicional abrigo para idosos da cidade. “Mesmo sendo candidato único no concurso que o elegeu Rei Momo, para ele, ter sido eleito “foi uma surpresa”, brinca, garantindo que “quem foi rei sempre será majestade”.
Na segunda-feira (9) pela manhã, ele e a Rainha da Folia, Lúcia, comandaram o desfile de Carnaval no interior do abrigo, ao som da Banda da Guarda Municipal. Para Waldir Serrão, há uma “enorme diferença” entre Carnaval e Rock’n’roll. “Mesmo os festivais de rock eram completamente diferentes”. Segundo ele, “o Carnaval não tem a mesma variedade musical e cultural do rock. A turma do Carnaval só pensa em ganhar dinheiro, no ambiente do rock não é bem assim”, acredita.
Sem oportunidade de trabalho nas emissoras de rádio baianas, Serrão passou a enfrentar dificuldades. Graças a um irmão, conseguiu sua aposentadoria como radialista, ele que sempre foi um dublê de cantor e homem do rádio. Antes do Pedro II, passou uma temporada no Abrigo São José, na Ladeira dos Bandeirantes, de onde saiu para a casa de uma ex-namorada, Solange, no Dique do Tororó, a quem se diz muito grato. “Ela não admitia que eu viesse a passar fome e me proporcionou alimentação e abrigo durante uns oito meses”, ressaltou.
Cine Roma e Elvis Presley
“É uma enorme coincidência que eu esteja aqui, ao lado do Cine Roma, o principal palco da história do rock na Bahia. Estou no Pedro II graças à força de Carlos Pitta e Jerry Adriani. O Governo do Estado nunca me proporcionou nada”, afirma. Sobre o fato de ter não ter feito poupança para garantir um futuro tranquilo, Waldir Serrão – com a mesma voz que badalou por 18 anos o programa “O Som do Big Ben” em emissoras de rádio e tevê de Salvador – diz que gastava muito. “Banquei muitos shows que não deram o retorno imaginado. Passei um mês nos Estados Unidos. Conheci Memphis, no Tennesse, a terra em que Elvis Presley nasceu e um dos berços do rock’n’roll. Conheci a casa e o túmulo dele em Graceland. Elvis foi meu principal ídolo”, conta.
A paixão de Waldir Serrão por Elvis Presley sempre foi tanta que, pai de um casal de gêmeos, não hesitou em colocar o nome dos filhos, já com 39 anos, “Elvis” e “Sylvia” (título de uma canção, sucesso na voz do Rei do Rock mundial). Outra paixão dele foi a cantora norte-americana Barbra Streisand. “Tinha todos os discos dela”, revela. Do mesmo modo que a voz, a memória de Serrão também permanece acesa. Recordou de parceiros do tempo do Rádio, dos fã-clubes que ajudou a fundar na cidade. “Não era só de Elvis, tinha os de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Jerry Adriani”, lembra sem esforço.
Roqueiro cantando MPB
“Imagine, eu, roqueiro, agora estou cantando MPB no Coral Menino Jesus, cujas atividades estão suspensas por causa do Carnaval”. A conversa com Waldir Serrão é divertida e ele cobra a visita dos amigos roqueiros, “inclusive com doações para os demais idosos do Asilo Pedro II”. Ele revela que sempre que pode dá uma fugida. “Vou visitar meu filho Elvis, que também canta, mas na Igreja Batista de Pernambués. A mãe proibiu ele de cantar rock pois, segundo ela, é música do diabo”. Ele aproveita, também, para ir ver a namorada Nilda, “com quem mantenho uma relação afetiva há 10 anos”.
Sobre Raul Seixas, disse que “no início de toda essa aventura do rock’n’roll na Bahia, nós éramos ao mesmo tempo parceiros e concorrentes. Eu tinha a banda Waldir Serrão e seus Cometas e ele a Raulzito e seus Panteras. Tudo acontecia aqui entre Roma e a Boa Viagem. A Cidade Baixa era a capital do rock em Salvador. Tanto eu como Raul fomos influenciados pelo cinema em filmes como “Sementes do Ódio” (com James Dean) e “No balanço das horas” (com Billy Halley e seus Cometas). Tocávamos nos clubes sociais. Lembro sempre de uma apresentação nossa no Fantoches da Euterpe, no 2 de Julho”, recorda.
Pique para voltar ao rádio
Após ter atuado como radialista de 1964 a 1984, Serrão não titubeia: “Tenho pique para voltar a apresentar shows e programas de rádio. O Mário Kértesz prometeu me ajudar com um emprego na Rádio Metrópole, onde trabalhei 10 anos com o programa “Inclusão Social”, que tocava música gospel e country, mas até hoje não cumpriu a promessa”, cobrou.
Na rotina dos últimos dois anos, após o café da manhã no Pedro II, ele participa de atividades junto aos demais idosos. “Alguns preferem artesanato, aulas de canto, jogos. Eu gosto de desenhar e pintar. Aqui tenho liberdade e posso descansar, ouvir os pássaros cantando no jardim”, revela com o mesmo entusiasmo de sempre.

Rock’n’roll chega aos 60 anos

60 ANOS

O Rock’n’roll fica sex

Ora, quem diria, o eterno e atemporal rock and roll ficou sex. Sim, sexagenário. Ainda que várias incursões anteriores criassem as matrizes desse gênero musical que transformaria a cabeça e o corpo da juventude desde o final dos anos 40 – filho que é do pós-II Guerra – é a partir de 1954, com o surgimento de Elvis Presley, que o rock invade totalmente a cena e a face branca da sociedade norte-americana e chega, agora, aos 60 anos.

Os anos 50 marcam um período de grande efervescência nos Estados Unidos. Os sucessos da música negra – gospel, blues, jazz, folk – identificados de modo geral como rythm’n’blues (R&B), encontravam como único meio de penetração no mercado pop (composto pelo público branco) sua expressão através do cover (regravações de originais).

O interesse comercial está sempre dando as cartas e, para conquistar o mercado branco, o R&B passou a sofrer adaptações que iam desde a moderação no linguajar das letras à modulação das vocalizações, seguindo normas vocais e morais brancas. Em 1952 acontece, também, o fim do macartismo (política moralista defendida pelo senador McCarthy).

É nesse contexto, no início dos anos 50, que o cover emerge e, entre seus principais expoentes, destacam-se Dorothy Collins, Pat Boone e Bill Halley. Os dois primeiros se projetariam com “ballads”, mas Bill Halley se especializaria em covers. Após muitas audições de R&B, ele decide formar sua própria banda, a The Comets.

Nesse mesmo ano, Alan Freed, um Disc-Jockey (DJ) de Cleveland, cria o programa de rádio “Moondog’s Rock and Roll Party”, no qual tocava covers e alguns originais R&B. Tamanho foi o sucesso do programa que, no ano seguinte, Freed organiza uma série de shows com artistas negros, mas destinados aos jovens brancos. Em 1954 ele se instala em Nova Iorque e, junto a diversos outros DJ, passa a tocar sucessos negros aceitos pelos brancos.

Era a hora e vez de Bill Halley. Através da Decca, gravadora de âmbito nacional que o havia comprado da Essex, ele se mantém com “Shake rattle & roll”, durante todo aquele ano, na parada de sucessos, as dez mais – The top ten. Foi só esperar a primavera de 1955 para estourar a parada com “Rock around the clock” que, poucos sabem, é um cover de “Let’s rock awhile”, de Amos Millburn e, pasmem, datado de 1949. Vale lembrar que na gíria dos guetos, “to rock” designava o ato de fazer amor, do mesmo modo que “to jazz”.

Nova tecnologia: o disco de vinil

Havia, ainda, uma nova tecnologia invadindo o mercado e alterando os discos de gomalaca, em 78 rotações por minuto, desde 1948, para o de vinil, em 45 RPM, ampliando de forma maçiça o consumo de música nos States e mundo afora. A tecnologia – como vemos hoje – funcionara, por si só, como um novo dispositivo de marketing: oferecia-se à nova geração outra linguagem musical e dança, sob novo suporte para a audição e, incluída, várias tendências no vestuário, literatura, cinema, criando um novo tipo de consumidor.

Em 1955, explode o sucesso “Tutti frutti”, de Little Richard.  Uma nova cria de Sam Phillips, da lendária Sun Records, Carl Perkins ganha o primeiro disco de ouro do rockabilly (rock+Hill+Billy – mistura de rock com folk) com “Blue suede shoes”, já em 1956. Um desastre de automóvel seria fatal para Perkins. Jerry Lee Lewis, nova descoberta de Sam e que já se apresentou no Brasil, fazia loucuras com seu piano. Até hoje Lewis é apontado como a maior performance do rock’n’roll, embora sua popularidade esteja restrita a três hits: “Whole lotta shakin’going’on”, de 57, “Great balls of fire” e “Highschool confidential”, em 1958.

Dois anos antes, acontecem os esplendorosos sucessos dos rock baladas. Com os Platters, “Only you” e “The great pretender”. Dois anos depois, “Diana”, com Paul Anka, que venderia de saída nove milhões de cópias. Pintavam, ainda, no fim dos anos 50, promovida pela RCA e pela Columbia, a efervescência do calipso (oriundo da Jamaica) e do twisty, com Chubby Checker.

A partir de 1964 acontece a “invasão britânica”. Os sucessos de The Beatles e The Rolling Stones – e a minissaia, criada pela estilista Mary Quant, em 1964 – sacodem o planeta.  Em 65, surge, na Califórnia, o The Doors, liderado pelo gênio alucinado de Jim Morrison. Nessa época, as drogas eram comuns no rock e Morrison, como Brian Jones, dos Stones – vorazes consumidores – acabam morrendo de overdose, aos 27 anos. Americanos também foram fundo nas drogas e morreram de overdose, com a mesma idade: o gênio da guitarra Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin.

Se em 1967, com o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, os Beatles revolucionam a concepção musical do rock, em 69 o Festival de Woodstock mobiliza um público de 500 mil pessoas, em três dias de paz e amor, numa espécie de apogeu do universo rock.  Mas no dia 6 de dezembro daquele ano, em Altamont, na Califórnia, a apresentação dos Rolling Stones traz de volta o clima de violência. Um hells angels – grupo de motoqueiros contratados para a segurança do show – mata um jovem da plateia que teria derrubado sua moto.

Psicodelia, glamour e punk rock

Em meio à psicodelia, glamour e punk rock, a década de 70 estourou alguns movimentos que já estavam em prática nos anos 60. Um deles foi o rock progressivo, em composições que muitas vezes se aproximam da música erudita. Os músicos eram virtuoses e o som, viajante. A banda mais famosa dessa época é a Pink Floyd.

“Outra vertente do rock dos anos 70 tem o heavy metal e sua quase alma gêmea: o hard rock. Com roupas de couro pretas, cheias de tachinhas, cabelos compridos e guitarristas metidos a semideuses. Muitas bandas exploravam o tema do satanismo e arregimentava uma legião de fãs adolescentes. Foi daí que surgiram o Black Sabbath, de Ozzy Osbourne, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, Kiss, Alice Cooper, AC/DC e muitos outros. O Led Zeppelin também trafegava nessa praia, com um pouco mais de poesia, com a ótima parceria entre Robert Plant e Jimmy Page”, como descreve a jornalista Maira Cristina.

– De outro lado, surgia um rock glamouroso em que a androginia era parte do visual, ao carregar na maquiagem, roupas espalhafatosas de plumas e lamês. Era o glam rock ou glitter (purpurina). Aqui, aparece o camaleão do rock: David Bowie, que, em 1972, lança o personagem Ziggy Stardust e vira uma lenda da música pop. Dessa leva glam também vem o excêntrico Roxy Music, de Brian Ferry e Brian Eno; o T-Rex, de Marc Bolan, e os alucinados rapazes do New York Dolls, que se vestiam de mulher e tocavam como loucos.

Maira sinaliza a chegada dos anos 80 “com um restinho de onda punk. Mas o gosto de ressaca estava no ar”. A nova geração, segundo ela, “vinha cheia de melancolia, com uma rebeldia mais triste, sombria e solitária. Nas letras, muitas vezes niilistas, um lirismo que representava muito bem o sentimento dos jovens da época. Era o pós-punk. De Liverpool, vinha o Echo and The Bunnymen, e de Manchester, o Joy Division, com toda a tristeza do vocalista Ian Curtis, que se enforca, aos 22 anos de idade. O resto da banda formaria a New Order. Darks e góticos também eram bem representados pelo Sisters of Mercy, The Mission, The Cult e Bauhaus.

Na contramão de toda aquela badtrip, surge a “New wave”, com música alegre, para dançar. Trazia roupas coloridas, gel no cabelo e muita alegria, como o B’52 e o Talking Heads, de David Byrne. As três bandas mais famosas nos anos 80 foram The Cure, The Smiths e U2. Segundo Maira, o Cure tinha aquele visual dark, só usava roupa preta, batons escuros, maquiagem e cabelos arrepiados. Era a rapaziada liderada por Robert Smith. The Smiths, considerada por muitos como a melhor banda dos 80, apostava no lirismo das letras de Morrissey e nas guitarras de Johnny Marr. Os irlandeses da U2 desde o começo traziam uma preocupação política nas letras como em “Sunday blood sunday”.

Elvis, o primeiro superstar

Primeiro superstar do planeta, o furacão Elvis Presley (1935-1977) inicia sua ascensão, em 1954, com “Thats all right mama”. Tão logo a popularidade dele – que viria a tornar-se o Rei do Rock” – ultrapassa as fronteiras do Tennessee, a RCA Victor compra-o de Sam Phillips (da Sun Records) por nada menos que US$ 30 mil e mais um cadillac para o cantor. Em 1957, o “negócio Elvis”, administrado pelo “colonel” Parker já rendia US$ 20 milhões ao ano.

Elvis Presley

Também conhecido como Elvis The Pelvis, apelido pelo qual ficou conhecido na década de 50 por sua maneira extravagante e ousada de dançar, foi um dos pioneiros e principais idealizadores do rock and roll. Uma de suas maiores virtudes era a voz, devido ao alcance vocal, que atingia, segundo especialistas, notas musicais de difícil alcance para um cantor popular.

A crítica especializada reconhece seu expressivo ganho, em extensão, com a maturidade; além de virtuoso senso rítmico, força interpretativa e um timbre de voz que o destacava entre os cantores populares. Para muitos, ele é avaliado como o melhor cantor popular do século 20.

Um dos maiores ícones da cultura popular mundial do século passado, entre seus maiores sucessos musicais (ele atuaria também no cinema) podemos destacar “Hound Dog”, “Don’t Be Cruel”, “Love me Tender”, “All Shook up”, “Teddy Bear”, “Jailhouse rock” “It’s now or never”, “Can´t Help Falling In Love”, “Surrender”, “Crying In The Chapel”, “Mystery Train”, “In The Ghetto”, “Suspicious Minds”, “Don’t Cry Daddy”, “The Wonder Of You”, “An American Trilogy”, “Burning Love”, “My Way”, “My Boy” e “Moody Blue”. Se quiser re-ouvir, estão todas disponíveis no Youtube.

Rock’n’roll faz 50 anos na Bahia

 

Waldir Serrão e Os Jorman’s durante apresentação
50 anos na Bahia
O rock’n’roll invade a cena 
 
ALBENÍSIO FONSECA
O rock acontece na Bahia bem antes dos Beatles. Com Elvis Presley. Em 1965, todos os domingos pela manhã no Cine Roma, Waldir Serrão invade a cena badalando o som na Rádio Cultura. Começam a surgir bandas de rock, os conjuntos de iê iê iê (fenômeno ocorrido apenas no Brasil e que se apropria do refrão de “She Loves you”, dos Beatles). Serrão atribui a ele o uso inicial, em Salvador, de expressões como “banda” e “pauleira total”.

Entre os inúmeros conjuntos (que era o termo usual para designar as bandas), destacam-se: Waldir Serrão e seus Cometas (grupo de cover dublado), Raulzito e seus Panteras, The Gentleman,  (com Pepeu e os irmãos Jorginho e Carlinhos), Eles 4, 5 Loucos, The Jormans, The Jetsons, Brasa Bossa, Dedos de Ouro, Os Selvagens, Os Desafinados, MJ6. Apresentavam-se em bailes, nos diversos clubes sociais da cidade (Estância Campomar, Piatã Clube, Português, Baiano de Tênis, Associação Atlética da Bahia), também no Cinema Roma e em programas da TV Itapoan, produzidos por Domitila Garrido e Cid Seixas.

Só para Brotos. 1965. Aumente o rádio. Idealizado por Newton Moura Costa e apresentado por Waldir Serrão (que cedia os discos) o programava contava, também, com Jayme Fahel, Almir Duarte, Diniz Oliveira. “Entre 59 e 62 o que tocava era Elvis Presley, Cely Campelo, Neil Sedaka, Paul Anka, Little Richard, Carlos Gonzaga, Demétrius, Sergio Murilo, Ronny Cord”, recorda Waldir Serrão. Da origem, nos Estados Unidos, o rock’n’roll já comemora 60 anos de estrada.

“O programa funcionava com entrevistas, cartas, telefonemas”, explica Serrão. Com a explosão dos Beatles e da Jovem Guarda aconteceram muitos shows no Ginásio Antonio Balbino, o Balbininho. “O Big Boy é que me deu o toque para fazer um programa igual ao dele na Rádio Mundial, no Rio de Janeiro. Muito Elvis e Beatles, era a receita”, conta.

1966. Acontece o boom total, a Guaraná Platense promove shows de Roberto Carlos, Elis Regina, Zimbo Trio, Cauby Peixoto, Angela Maria, Wanderléa, Jair Rodrigues. O palco era sobre um caminhão, no estádio da Fonte Nova.

1967. Aos sábados, Elias Sobrinho comandava o “Sabatinas da Alegria”, programa com shows promovidos por Edmundo Viana e Waldir Serrão (Big Ben e a banda Bigbendes, desde então) no Cine Nazaré, com auditório lotado e transmissão ao vivo, pela TV Itapoan. Ao lado da cena rock, havia, ainda, a presença dos sambistas acontecendo simultaneamente: Tom e Dito, Antonio Carlos e Jocafi, Berimbau, Riachão, o maestro Carlos Lacerda. Era efervescente o cenário musical da cidade à época.

O Som do Big Ben passou para a Rádio Bahia, onde permaneceu por cinco anos. Depois na Tv Itapoan, rádios Sociedade, Excelsior, Cultura, Clube. E existiam também os fãs clubes: Elvis Rock Club, na Boa Viagem, onde se ensinava a dançar rock e twisty; Elvis Today Fã-clube; Imperial Rock Clube, na rua Saldanha da Gama.
São nomes marcantes desse período, ainda, as estrelas do iê iê iê: Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Os Vips, Leno e Lilian, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, todos em apresentações concorridas no Balbininho. Os superstars se hospedavam no Palace hotel e os fãs paravam a Rua Chile. Há que se mencionar, também, David Barauh, Plínio, irmão de Raul, Thildo Gama, Gino Frei, Bartilloti e Nilton Papaum, o primeiro beatnik baiano; Os Mustangs, Edy Star. Dos anos 70, emergem: Mar Revolto, Creme, 19º Colapso Nervoso, Pulsa, Armazens Gerais…Com um histórico repleto de nomes de peso nacional, a produção roqueira baiana não pararia mais: de Raul Seixas a Pitty, passando por Novos Baianos, Camisa de Vênus, Cabo de Guerra, Maria Bacana e Penélope, entre tantos outros. Era (e continua sendo) apenas rock’n’roll, mas todos gostam.

Apagão analógico

 

ERA DIGITAL

“Apagão analógico”

começa em novembro de 2015

 Albenísio Fonseca

Após países como Estados Unidos, alguns da Europa e o Japão, o Brasil inicia em 2015 o “apagão das transmissões para televisores analógicos”. O desligamento inicial, conforme cronograma do Ministério das Comunicações – MiniCom e da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, prevê a realização de projeto piloto na cidade de Rio Verde, interior de Goiás, em 29 de novembro do próximo ano.

A migração total para o sinal digital tem à frente um horizonte que se estende até 2018. A segunda cidade a contemplar o fim do sinal analógico, em 2016, é Brasília, dia 3 de abril.

Em São Paulo, maior praça do País, o sinal digital passa a predominar a partir de 15 de maio. Dia 26 de junho, Belo Horizonte. Em 28 de agosto, Goiânia e, a 27 de novembro, o Rio de Janeiro.

O switch off (desligamento, em inglês) está previsto para 25 de junho em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Em 30 de julho, também de 2017, o “apagão” acontece em Salvador e cidades da Bahia como Camaçari, Dias d’Ávila, Itaparica, Jaguaripe, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Salinas da Margarida, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz. Na mesma data, em Recife e Fortaleza. Já em Manaus, Belém, São Luis, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju, somente a partir do segundo semestre de 2018. Apenas no final daquele ano o apagão atinge o interior do País. Veja aqui quando o apagão analógico acontece em seu município.

A migração tecnológica deveria ter começado antes da Copa do Mundo. O prazo foi estendido devido a pedidos das emissoras abertas para conclusão de infraestrutura. A prorrogação para 2015 enfrentou decisão de suspensão, pelo TCU, do leilão da faixa dos 700 megahertz (MHz) – utilizada pelas transmissões analógicas e já destinada à frequência da tecnologia de quarta geração (4G) do serviço de telefonia móvel. Atualmente, a 4G opera somente na faixa de 2,5 gigahertz, leiloada em 2012. Com isso, o cronograma foi alterado.

O leilão aconteceu agora em setembro. Das operadoras, apenas a OI não mostrou interesse. O governo previa conseguir R$ 8 bilhões com a venda pública para as conexões em 4G na faixa dos 700 MHz, mas arrecadou menos, R$ 5,851 bilhões – com um ágio médio de 0,66% em relação ao preço mínimo.

Os vencedores da licitação – Vivo, Tim e Claro – terão de arcar com os custos de remanejamento e outras questões, como filtros para impedir interferência de sinal que podem gerar a “tela preta” nas captações da TV aberta.

Ainda estão sendo concluídos estudos de recanalização para os estados do Sudeste, Distrito Federal e Goiás, área habitada por 41% dos brasileiros.

Somente depois serão efetuados em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os estudos de recanalização do Norte, Nordeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já estão, praticamente, finalizados.

Segundo o MiniCom, o objetivo é reduzir ao máximo a quantidade de cidades onde será preciso desligar o sinal analógico e liberar a faixa de 700 Mhz.  

A perspectiva é desligar apenas 630 pontos, o que deve afetar 1200 cidades. Há um estudo que aponta 724 cidades onde o sinal analógico precisa ser desligado.

O processo não se resume a números e datas e promete ser complicado para o governo, a indústria de radiodifusão e, evidentemente, para a população. Além da superação do conflito no espectro com a TV aberta, o próprio cronograma é outro dos motivos de preocupação por parte dos radiodifusores:

Eles veem uma “curva muito acentuada no final do projeto”, ao invés de uma distribuição mais equilibrada durante os quatro anos de implementação. “Parece que o problema mais difícil será deixado para o final, e nós estamos falando de um universo de municípios enorme e de população pequena”, salienta Davi Britto, membro do conselho deliberativo do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital-SBTVD.

Agora – após o leilão da faixa dos 700Mhz – e ainda segundo o cronograma oficial, deverá ser montada a Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV – EAD e o órgão responsável pela sua governança, o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV – Gired.

Conforme a Anatel, o EAD será o órgão que adquirirá e instalará os equipamentos de infraestrutura de radiodifusão para os canais de TV e RTV, além de garantir linha de crédito de R$ 3,6 bilhões para auxiliar na atualização da infraestrutura do sistema. 

O órgão também será responsável por garantir a instalação de filtros em locais com interferências e de conversores de sinal para parte da população. A pedido do governo, cerca de 15 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família terão direito a uma set-top box gratuita (equipamento de conversão do sinal analógico para digital).

Para os demais cidadãos/telespectadores, a compra dos sistemas deverá ser feita livremente no mercado. Lembrando, contudo, que a maioria dos aparelhos digitais já vem com conversor embutido e que não há necessidade de adquirir canais por assinatura para assistir à TV aberta.

Mas fique certo que aquela velha relação que 95% dos lares brasileiros mantêm com a televisão, aliás, como nossas vidas, já estão sendo transformadas, em “um passo gigantesco”, digo, novos olhar, áudio e comportamento, frente à frente com a revolução advinda com as Smart TVs digitais, conectadas e interativas.

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Leia, também, “TV digital, revolução na plataforma”,  em   https://albenisio.wordpress.com/2011/11/01/299/

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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

 

Soci@lismo 2.0 e a história do voto no Brasil

  Ilustração: Karl Marx, por autor não identificado

Soci@lismo 2.0 e a história

do voto no Brasil

Albenísio Fonseca

Mesmo sob a necessidade de continuarmos a nos debruçar sobre o velho Karl Marx, criador da mais influente análise político-econômica que moldou as relações sociais no século XX, a Internet consolida o antigo e utópico sonho marxista do socialismo e em escala global. Mas trata-se do “Socialismo 2.0”.

A tese, com base no colaboracionismo instaurado na rede mundial de computadores, foi criada pelo escritor norte-americano Kevin Kelly, especialista em tecnologia. Para ele, o desenvolvimento de sites colaboracionistas, como a Wikipédia e milhares de outros, instauram uma espécie de socialismo atento ao mundo conectado e de livre acesso.

Sem mais Estado ou lutas sangrentas pela tomada do poder na perspectiva de replicar regimes comunistas a partir da importação de modelos como os da ex União Soviética, da própria Rússia, China, Cuba, Vietnã ou Albânia, encontra-se na Internet a grande pátria do socialismo, vinculada à cultura e à economia em versão digital.

Já a história do voto no Brasil não é nada recente. “Começa logo após Cabral desembarcar por aqui. Moradores da primeira vila fundada na colônia portuguesa – São Vicente, em São Paulo – convocados pelo donatário Martim Afonso de Souza, foram às urnas eleger o Conselho Municipal, em 23 de janeiro de 1532. Em votação indireta, o povo elegeu seis representantes que escolheriam os oficiais do conselho”. Quem conta é Antonio Carlos Olivieri, da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

– Em 1821 ocorre a primeira eleição brasileira nos moldes modernos. Foram eleitos 72 deputados do Brasil para as Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, após a Revolução Constitucionalista do Porto e a volta de dom João VI a Portugal, em 1820. Como se sabe, desde 1808, dom João governava o Império português a partir do Brasil, devido à invasão do país por Napoleão Bonaparte. À época Reino Unido a Portugal e Algarves, deixáramos a condição colonial. Desse processo resulta a proclamação de nossa Independência por dom Pedro I, em 1822. Com nova ordenação jurídica e política, novas regras eleitorais.

A primeira Constituição brasileira, outorgada por Pedro I, em 1824, define as normas iniciais do nosso sistema eleitoral. Institui a Assembleia Geral, órgão máximo do Poder Legislativo, composto por duas casas: o Senado e a Câmara dos Deputados, a serem eleitos pelos súditos do Império. O voto era obrigatório, mas censitário: só homens com mais de 25 anos e sob renda determinada tinham capacidade eleitoral. Estavam excluídos da vida política as mulheres, assalariados em geral, soldados, índios e escravos.

As votações ocorriam em quatro graus: cidadãos da província votavam em compromissários, que elegiam os votantes de paróquia. Estes, por sua vez, elegiam os eleitores da comarca, aos quais cabia eleger os deputados. Os senadores (como os “biônicos” no “pacote de abril”, em 1977, pelos generais) eram nomeados pelo imperador.

Com o advento da República, a primeira votação direta para presidente somente ocorreria em 1894. Prudente de Morais, primeiro mandatário civil, chega ao poder com cerca de 270 mil votos, 2% dos brasileiros à época. O voto feminino, adotado em 1932 é exercido em 1935. Com o Estado Novo (1937-1945), as mulheres só tornam a votar a partir de 1946. A ditadura Vargas e a dos militares (1964-1985) privaram o eleitorado de eleger o chefe da nação por nove vezes. Em 125 anos de República, sob controversa exatidão (28 ou 35 presidentes?), apenas 17 foram eleitos por votação direta.

Até 1987 o voto era um direito negado aos analfabetos, contingente significativo da população. Não há surpresa, portanto, no fato de presidentes eleitos com votação expressiva, como Jânio Quadros, em 1960, com seis milhões de votos, envolver meros 10% da população, ressalta Olivieri.

Com a Constituição de 88 o eleitorado aumenta consideravelmente e já chegamos à casa dos 141 milhões. Hoje, o voto é obrigatório para todo brasileiro maior de 18 anos e facultativo a analfabetos e aos com 16 e 17 anos ou mais de 70 anos. Estão proibidos de votar os estrangeiros e os que prestam serviço militar obrigatório. Agora, em segundo turno, é hora de voltarmos às urnas.

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Albenísio Fonseca é jornalista

5 de outubro – Canudos não se rende

Históricas fotos de Augusto Flávio de Barros

Misticismo, traição e morte:

A queda de Canudos

Albenísio Fonseca

O dia 5 de outubro data a queda do arraial de Canudos, no sertão da Bahia, sobre a qual Euclides da Cunha escreveria a tragédia inaugural da República brasileira e Cesar Zama desnudaria os fatores envolvidos para dizimar o povoado, erguido na fazenda abandonada de Garcia D’Ávila.

Se considerarmos as permanentes tentativas retrógadas frente ao duro avanço social no país, é correto afirmar o quanto a primeira crise da República está de volta. Canudos não se rende. O dramático extermínio da experiência pioneira de uma comunidade popular, sob o comando do beato Antônio Conselheiro, após rechaçar os ataques de três expedições do Exército, entre 1896 e 1897, levada a efeito pelo novo regime implantado no País, permanece irresolúvel na consciência dos brasileiros.

Com o relato de Euclydes da Cunha, ao narrar parte de toda a epopeia em Os Sertões, sendo contestado em inúmeros aspectos por diversos autores, é inevitável compreender o quanto, antes, o Brasil era Canudos. Hoje, Canudos é o Brasil. O território, palco daquela aventura mística e bélica, permanece vivo na contemporaneidade, ainda que submerso para dar lugar ao açude de Cocorobó, em 1966.

Quem quiser interpretar, à luz da história, a guerra travada em quatro intermitentes batalhas entre os seguidores do beato Antônio Conselheiro e os cinco mil soldados do Exército, precisará trazer à memória o mais sangrento dos conflitos já ocorridos no Brasil. Um episódio cujo paralelo histórico pode ser estabelecido na destruição de Cartago pelos romanos.

Há quem considere o desfecho das Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.) o maior caso de genocídio da Antiguidade. Se, em outros momentos, os romanos combinavam força militar e diplomacia, neste caso não tiveram qualquer clemência. A ordem, seguida na expressão latina “delenda est Carthago” (“Cartago deve ser destruída”) foi executada com tamanho rigor que as casas foram demolidas, grande parte da população foi morta, os sobreviventes transformados em escravos e, sobre o solo, depositado sal para que nada germinasse. Tamanho foi o estrago em Cartago que não sobraram muitos registros sobre sua civilização, convertendo-se em enorme desafio para historiadores e arqueólogos desvendarem, minimamente, o modo de vida que havia ali.

No caso de Canudos, ou Belo Monte, contudo, conforme o escritor César Zama, baiano de Caetité, no artigo publicado no Diário da Bahia, em 1899, “a justiça estadual não se ocupava dos habitantes daquele arraial. Contra eles não havia instaurado processo algum. Nos cartórios do Estado nenhum deles tinha o seu nome no rol dos culpados. Nada de extraordinário se passava com relação a Antonio Conselheiro e aqueles que o acompanhavam”.

Ao denunciar o genocídio, Zama faz ver o quanto “ninguém ignora que gênero de vida levavam os canudenses: plantavam, colhiam, criavam, edificavam e rezavam. Rudes, ignorantes, fanáticos talvez pelo seu chefe, que reputavam santo, não se preocupavam absolutamente com a política. Antonio Conselheiro, porém, confessava-se monarquista. Era seu direito, direito sagrado, que ninguém podia contestar em um regime republicano democrático. Não há ato algum por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir que ele tentasse contra o governo da República”.

As desobediências civis à cobrança de impostos e ao casamento civil instituído pela Constituição de 1891 faziam parte da sua pregação, iniciada por volta de 1870 ao promover mutirões para a construção de igrejas e cemitérios no interior do Nordeste. O atraso na entrega de madeira, adquirida em Juazeiro, para a construção do telhado de um templo no arraial, 26 anos depois, se converteria em revolta e no estopim para a mancha sangrenta que se incrustaria na história republicana.

As autoridades de Juazeiro se recusaram a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a igreja de Canudos; os “jagunços”, então, decidem tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de “banditismo”.

A primeira expedição contou com 100 homens, comandados pelo tenente Pires Peneira. Foram surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

A segunda expedição dispôs de 500 homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças. São emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos.

Entre os líderes da resistência destacam-se João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides da Cunha um gênio militar. Reduzidas a 100 homens, as tropas do governo decidem retornar.

A terceira expedição teve 1.300 homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp, importados da Alemanha, mas sem estratégia definida. Chegaram em fevereiro de 1897 e optaram por atacar o arraial de Canudos de frente, a partir do Morro da Favela. Protegidos pela irregularidade do relevo, os jagunços empreenderam a luta no corpo-a-corpo e desorganizaram as tropas, que na retirada desastrosa deixaram para trás armas, munições, os canhões Krupp e o próprio general Moreira César, morto após ter sido ferido em combate. Moribundo, cravou a máxima: “É tempo de murici, cada um que cuide de si”.

A quarta expedição, planejada no Rio de Janeiro, então capital federal, mobiliza cinco mil homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget. Contavam, ainda, com tropas da Bahia e da Paraíba. São divididos em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da Favela e tem de se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, mudara de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões.

Após três meses de cerco, as duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados, aos farrapos, sem distintivos, mal resistiam à fome e à sede. Em agosto de 1897, oito mil homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio ministro da Guerra, o marechal Carlos Bittencourt. O presidente da República era Prudente de Morais (1894-1898), primeiro civil a ocupar o cargo.

São cortadas as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido com a tomada da aguada a que tinha sido reduzido o rio Vaza-Barris. Um tiro de canhão atinge a torre da Igreja. Firmes, confiantes na salvação eterna, os sertanejos não se rendem. A maioria seria degolada após o assalto final. Perpetrava-se ali, dessa forma, o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que não conseguiu acompanhar o embate final, do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, mais tarde refundidas em Os Sertões.

Em meio ao disparate da mobilização das forças expedicionárias para combater a crença e a fé de uma comunidade que compunha a segunda maior concentração populacional da Bahia, após a capital, com cerca de 25 mil habitantes, vale, ainda, registrar o episódio da rendição de milhares desses habitantes durante o enfrentamento à quarta expedição. A iniciativa foi do braço direito de Conselheiro, o Beatinho.

Ergueu bandeira branca e dirigiu-se à negociação. Chegado à presença do general Arthur Oscar expôs-lhe o propósito: “venho declarar-vos que grande número de meus companheiros estão dispostos a render-se, contanto que V. Exa. lhes garanta a vida” foram a suma de suas palavras.

“Sob minha palavra de honra prometo que as suas vidas serão respeitadas: podem vir tranquilos”. Responde-lhe o chefe das forças legais. Mas o que ocorreria com a rendição, senão a degola de todos, idosos, mulheres, crianças, para consagrar um heroísmo desmerecido? Sim, Canudos permanece vivo.

Sob o manto do marketing político

A sociedade do espetáculo, mesmo na era do capitalismo cognitivo, vive sob o imperativo da mercadoria. Um fascinante universo em que tudo tende a se converter em produto. Quem opera na área de marketing sabe o quanto a eficácia de um produto está diretamente relacionada, mais que à sua utilidade ou ao seu conteúdo (porque existem diversos similares concorrendo entre si), à forma com que é apresentado. Por isso expande-se, a cada dia, o mercado produtor de embalagens.

Elas se tornaram determinante para o sucesso dos produtos em todos os setores da economia e, também, na esfera de campanhas eleitorais como a em que transitamos, via rádio e TV, desde 19 de agosto e até 2 de outubro. Convenhamos que, no marketing político, o ato de “estampar” os candidatos junto ao eleitorado potencial possui a mesma função, para efeito da publicidade, que a dos bens industrializados.

Isto é, produtos indiferenciados, políticos com as mesmas ideias e propostas, são apresentados como se diferentes fossem. Do mesmo modo, candidatos divergentes são convertidos em similares. Transformados em marcas, o objetivo é que 141,8 milhões de eleitores-consumidores, expropriados de sua real cidadania e injetados pelo recall (lembrança), votem (ou comprem) de acordo com a marca de sua predileção.

Tais ferramentas de sedução mobilizam sorrisos photoshop, emoções lacrimejantes, promessas irrealizáveis. Esbravejam denúncias, acenam novos compromissos sob a fiança de programas de governo, a assegurar a realização de direitos sociais, qualificação dos serviços públicos e expansão da gratuidade, nos casos dos cargos executivos, ou a defesa de demandas sociais sempre gritantes, no caso dos candidatos aos parlamentos, frente à sociedade exaurida a alimentar a esperança de um novo porvir.

Mas, afinal, de qual modo as campanhas políticas contribuem para a educação política dos cidadãos, para a compreensão das diferentes posturas ideológicas predominantes e que correspondem à existência de interesses sociais contraditórios?

A tendência da política como espetáculo consolidou-se no Brasil desde a campanha presidencial de 1989, case recorrente, com a eleição de Fernando Collor, levada a efeito pelo papel decisivo desempenhado pela Rede Globo e pela própria campanha do candidato valorizando a imagem de juventude, a alegada condição de não comprometido com os vícios (as corrupções) da política e para dar no que deu, o histórico impeachment.

A propaganda eleitoral de Lula da Silva, por seu turno e à época, parodiava programas da mesma Globo – a assegurar propostas de ruptura com o FMI (afinal realizada) e em defesa da reforma agrária (permanentemente adiada). Derrotada, a estratégia do PT passou a seguir caminho oposto, com adesão à ideologia neoliberal, conforme se verificaria no início do seu primeiro governo, em 2003.

Contrariando o filósofo Antonio Gramsci, há teóricos no espectro partidário da esquerda que acreditam ser possível, no marketing político, subordinar a “transmissão de conteúdos políticos transformadores da realidade social”, desde que as técnicas de marketing estejam sob controle das instâncias partidárias. Supõem poder separar forma e conteúdo. Ou seja, uma forma burguesa (o marketing) serviria para divulgação de conteúdos revolucionários (o socialismo). Conforme o poeta Vladimir Mayakovsky, “não há forma revolucionária sem conteúdo revolucionário”.

Para Gramsci, a ideologia da classe trabalhadora não difere da ideologia burguesa apenas no conteúdo, mas na forma como deve ser construída, com a “participação ativa dos trabalhadores”. Contudo, o que seria a construção de uma concepção de mundo oposta à visão burguesa, afastou-se numa representação. O espetáculo “é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (Guy Débord), submetendo o homem depois que a economia já o arrasou inteiramente.

E assim, nessa tênue democracia representativa, com 31 partidos em disputa, seguimos embrulhados, devidamente alienados dos nossos reais interesses, em favor de propósitos governantes a nos surrupiar a alma sob o manto do capitalismo. Até quando, Oscar Wilde?

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Albenísio Fonseca é jornalista

 

3ª BIENAL DA BAHIA, QUEM DIRIA, FECHA PARA A COPA

Foto: Albenísio Fonseca

Abandono do Pier reflete descaso com o Solar do Unhão, tombado como Patrimônio Nacional na década de 1940

PARADOXO III

BIENAL DA BAHIA, QUEM

DIRIA, FECHA PARA A COPA

Albenísio Fonseca

A reforma do Solar do Unhão – onde está instalado o Museu de Arte Moderna da Bahia – não foi concluída para a realização da 3ª Bienal do estado (sob um lema a indagar, “Tudo é Nordeste?”). As obras – “para a Copa” – conforme anunciado em 2013 e, agora, sob um improvável horizonte de conclusão no segundo semestre desse ano, seguem no MAM-BA e com os demais museus subordinados ao IPAC-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural fechando as portas nos dias de jogos. De acordo com o diretor da unidade, Marcelo Rezende, o fechamento desses equipamentos culturais não é apenas contraproducente, como ressaltei, mas “super contraproducente”, como deixou escapar.
A face nada oculta do abandono do equipamento, apesar da reforma, agride pelo inacreditável estado a que foi relegado, como se diria de uma “instalação do caos”, em se tratando de um ambiente voltado para a Arte Contemporânea. Era demasiadamente previsível que o MAM-BA, ainda convertido em canteiro de obras, não teria possibilidade de abrigar uma bienal. As mostras do evento estão distribuídas no ICBA-Instituto Cultural Brasil Alemanha, no Mosteiro de São Bento, Caixa Cultural e por 20 cidades do interior. 
É grave constatar que o Solar, convertido em um artifício (sedutor) de simulação, no afã de ocultar o descalabro, tem a 3ª Bienal como um viés de camuflagem. O fato de fechar para a visitação pública neste período de acentuada movimentação turística, dada a realização dos jogos da Copa,  apenas ressalta os equívocos de gestores, curadores e, evidentemente, do Governo do Estado.
O expressivo conjunto arquitetônico do Solar é um bem tombado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na década de 1940. Por mais relevante que seja sua restauração, vê-se com tristeza o quanto o descuido atenta, do mesmo modo, contra o empenho da arquiteta Lina Bo Bardi (cujo centenário transcorre este ano), para implantação do MAM, inaugurado em 1969 naquele espaço. Vale a postulação do artista belga Marcel Broodthaers, citada no projeto da bienal: “O museu normal e os seus representantes colocam em cena uma forma de verdade. Falar deste museu equivale a discorrer sobre as condições dessa verdade. Há uma verdade da mentira”.
O MAM conta com um acervo abrangente, cerca de duas mil obras. Destacam-se os trabalhos de Tarsila do Amaral, Portinari, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Rubem Valentim, José Pancetti, Carybé, Mário Cravo e Sante Scaldaferri, pouco mostrados. Há, ainda, o Parque das Esculturas, inaugurado em 1997, com exposição a céu aberto de artistas como Bel Borba, Chico Liberato, Emanoel Araújo, Fernando Coelho, Juarez Paraíso, Mário Cravo Júnior, Mestre Didi, Sante Scaldaferri, Siron Franco, Tati Moreno e Vauluizo Bezerra. Carybé é autor do gradil que cerca o espaço.
A senzala consolidou-se em restaurante, o pátio abriga Jam Sessions, mas o píer permanece à espera de licitação para ser restaurado. A Bienal – proposta para 100 dias, sob o “eclipse” do futebol – tende a cumprir um resgate histórico, mas não vinga o compromisso de estar inserida no espaço destinado à contemporaneidade artística. Algo como ter a carroça à frente dos bois e sob a legenda: fechada em copas.
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Albenísio Fonseca é Jornalista

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Dorival Caymmi, 100 anos e uma noite, na praça

Dorival Caymmi durante a inauguração da praça que leva seu nome, em Itapuã

Dorival Caymmi, 100 anos

e uma noite, na praça

Albenísio Fonseca

Na comemoração do centenário de Dorival Caymmi (30.04.1914-16.08.2008), que transcorre este ano – além da importância fundamental para a Música Popular Brasileira de todas as suas composições, notadamente as “canções praieiras”, aquelas em que cantou a Bahia, especialmente Salvador, Itapuã e o Abaeté – vale ressaltar, desde já, o que significou para este lugar, a cidade, o estado e o país, a inauguração da principal praça do bairro com seu nome.

O evento obteve repercussão nacional. A iniciativa da homenagem foi do vereador Osório Vilas Boas, cujo projeto de Indicação, após pressão favorável da opinião pública, em que pese tratar-se de pessoa viva, obteve aprovação por unanimidade. Afinal, ninguém havia oferecido  contribuição tão significativa sobre a Bahia e para todo o Brasil, quanto ele com suas canções sobre o mar, a praia, a lagoa do Abaeté, os coqueirais e a morena de Itapuã; as ruas antigas e os sobrados da velha São Salvador, as comidas, as igrejas, os orixás, as tradições e os costumes baianos, exaltando belezas que – hoje bem o sabemos e cantarolamos nas suas composições – só a Bahia tem.

A inauguração da Praça Dorival Caymmi reúne na antiga praça da Matriz, em 27 de junho de 1953, um sábado, nada menos que 10 mil pessoas, incluídas aí caravanas vindas de diversos locais do país, principalmente do Rio e São Paulo. A data foi sugerida pelos pescadores de Itapuã. Previram que não choveria. A placa da inauguração foi descerrada pelo governador Regis Pacheco e pelo prefeito Antonio Gordilho.

O ministro da Educação e Cultura, empossado na véspera e acumulando interinamente o Ministério da Saúde, também estava lá: era Antonio Balbino. Na primeira reforma ministerial do segundo governo Vargas, substituira Ernesto Simões Filho que dirigira, até então, a pasta da Educação e Saúde. Getúlio Vargas cometeria suicídio pouco mais de um ano depois. Balbino seria eleito governador da Bahia, daí a dois anos.

O presidente da Assembleia, deputados, vereadores e inúmeras outras autoridades também discursaram. Caymmi, com 39 anos, agradeceria em júbilo. Na plenitude da Era do Rádio, o extraordinário show da inauguração concentra verdadeira nata de cantores e grupos musicais de sucesso à época. Os casts de artistas da Rádio Tupi – Ademilde Fonseca, Dóris Monteiro, Odete Amaral, Leni Caldera, Trio Nagô, entre outros – e da Rádio Sociedade da Bahia, mais identificada naquele período pelo seu prefixo no dial, PRA-4, apresentam-se interpretando as belas canções de Caymmi. Nivaldo Rolemberg era um dos locutores.

O compositor e amigo Antonio Maria, o parceiro Carlos Guinle Filho nos samba-canções “Você não sabe amar” e “Tão só”, o cronista Rubem Braga, marcam presença. O jornalista Odorico Tavares noticiaria, em duas páginas na revista O Cruzeiro, a noite memorável. A TARDE e o Diário de Notícias já haviam dado matérias em destaque convocando os leitores para a efeméride.

No dia da festa, os pescadores se mobilizam na ajuda aos funcionários da Prefeitura encarregados de decorar a praça com bandeirolas coloridas, o cruzeiro adornado em flores, a igreja iluminada. O equipamento contemplava a urbanização do local – pouco mais que uma vila de pescadores, reduto ideal para veraneio, com casas típicas e fachadas pintadas em variadas cores.

A cidade estava vazia. Todos os caminhos levam a Itapuã. O lugar onde Dorival Caymmi buscou inspiração para algumas das suas principais canções fora tomado por boa parte da população. “De tudo quanto é canto tanta gente veio”. O sistema de transporte coletivo de Salvador, autorizado pela Prefeitura, circulava linhas especiais, dos cerca de 32 bairros da cidade, até a nova praça. Caymmi canta “Saudade de Itapuã” em dueto com sua mulher Stela Maris, acompanhados por um coro de 10 mil vozes.

A praça, hoje ocupada por um comércio ambulante, estava repleta e, no mar em frente, a praia, como nos atuais finais de semana, também fora tomada por tanta gente ávida em homenagear seu cantor. O farol piscava próximo e a lua cheia no alto do céu iluminava a noite radiante de Itapuã e de Dorival Caymmi, a estrela maior.

ABI-BA fará mesmo “revisão histórica” sobre omissão às atrocidades da ditadura

Foto: Albenísio FonsecaDiretoria da ABI-BA decidiu por revisão à omissão durante o regime ditatorial 

ABI-BA fará mesmo “revisão

histórica”sobre omissão às

atrocidades da ditadura

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa fará mesmo uma “revisão histórica” do comportamento da entidade durante o golpe de 1964 e no período da ditadura militar no país, que durou até 1985. A decisão foi tomada durante reunião de diretoria na manhã desta quinta-feira (10.04), após diversas análises do contexto político daquele período e sob intensos e acalorados pronunciamentos. Vários deles, a propósito, contrários à medida que envolverá pedido de “desculpas públicas” pela “omissão” da instituição frente às ações de censura contra os veículos de comunicação, dura repressão aos direitos civis e assassinatos de jornalistas.

Ficou definido, contudo, que a instituição somente emitirá uma nota pública e procederá ao registro em ata, na reunião programada para o dia 23. Até lá, uma comissão elaborará a redação da carta aberta à sociedade. A comissão será presidida pelo jornalista Samuel Celestino (em que pese ser o presidente da assembleia geral) e integrada pelos vice-presidentes Sergio Mattos, Ernesto Marques e pelos diretores Agostinho Muniz e Antonio Matos. O presidente da ABI-BA, Walter Pinheiro, considerou a reunião “extremamente importante, na medida em que envolveu a discussão sobre um tema polêmico, histórico e por deliberar sobre atos levados a efeito por diretorias anteriores”. O encontro contou com a participação de 17 dirigentes

Ex-presidente da entidade, por mais de 20 anos, Samuel Celestino estranhou que a proposta, elaborada por alguns dirigentes, tivesse vazado e sido veiculada no site “Bahia Notícias”, do qual é diretor, como uma deliberação já consumada e sem que ele tivesse conhecimento prévio. A nota, todavia, foi retirada do site algumas horas depois de publicada. Celestino considerou o pedido de desculpas uma atitude temerária: “Não quero ficar olhando para trás, mas seguir em frente”, disse.

A repressão militar, inclusive o assassinato do jornalista Wladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI, em São Paulo, e outros 10 assassinatos de jornalistas, na Bahia, durante o regime de exceção, conforme Agostinho Muniz, “não fizeram por merecer nenhuma manifestação da entidade, até então”. Ele ressaltou, contudo, que o único reconhecimento das “atrocidades” cometidas pela ditadura, no que tange à ABI-BA, foi adotada de forma “unimonocrática”, pelo então presidente Samuel Celestino, na introdução do libreto comemorativo dos 70 anos que, todavia, não chegou a circular publicamente. “Foi recolhido a arquivo”, criticou.

Para Ernesto Marques, a ABI “não se redimiu da posição de ter defendido o golpe, nem mesmo após a adoção do Ato Institucional nº 5”, em 1968, que implicou no recrudescimento das atitudes discricionárias no país. Segundo ele, “a omissão, com o silêncio adotado, converteu a instituição em cúmplice do regime”. Marques defendeu, ainda, a “abertura da instituição junto aos profissionais nas redações e estudantes de Jornalismo”.

Na análise da conjuntura do período, o jornalista Sérgio Mattos classificou o golpe como “civil, militar e midiático”, tendo em vista o amplo apoio da imprensa. O professor de Comunicação Aloísio da Franca Rocha salientou a existência de comissões da verdade, tanto nos estados quanto em âmbito federal e associou o “cenário de violência” predominante, hoje, no país, à manutenção de uma “estrutura policial militar herdada da ditadura”. No entendimento do diretor financeiro, Geraldo Vilalva, que à época era repórter do Jornal da Bahia e cobria a movimentação no cais de Salvador, “o golpe foi movido por interesses econômicos e articulado pelo governador de Minas Gerais e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto, junto a setores da sociedade civil e aos militares”.

O também diretor, Raimundo Marinho, criticou o “vazamento” da proposta para a Imprensa, considerando que tal atitude converteria a instituição em um “clube de esquina”. Ele salientou que a decisão da adesão ao golpe pelos dirigentes daquele período “ocorreu em meio ao clima de comoção política e social” vivida, então, no Brasil, “o que não chegava, portanto, a constituir um crime”. Marinho defendeu que a redação da nota pública “deva estar vinculada à passagem dos 50 anos do golpe”. Sua preocupação, conforme destacou, era no sentido de “evitar o comprometimento da imagem da ABI-BA”.

Outro a se pronunciar foi Romário Gomes, que atribuiu a um “possível instinto de sobrevivência” a adesão ao golpe pela diretoria da entidade à época, encabeçada por Ranulfo Oliveira, Jorge Calmon (de A Tarde) e Odorico Tavares (do Diário de Notícias). Romário citou nomes como o do jornalista Anísio Félix (que presidiu o Sindicato dos Jornalistas na Bahia no período ditatorial e falecido em 2007), por “ousar bater de frente com a ditadura” e do jurista Orlando Gomes que teria “aderido ao regime ditatorial”. Já Luis Guilherme Pontes Tavares, questionou a “moda dos pedidos de desculpas por adesões ao governo dos generais“ e, como tal, disse que a instituição teria, também, que “desculpar-se pelo fim da Caixa Previdenciária”.

—————————————- Albenísio Fonseca é jornalista

ABI PEDIRÁ “DESCULPAS” POR TER ADERIDO AO GOLPE DE 64

O professor e jornalista Nelson Cerqueira faz seu relato de época para um público diminuto, mas significativo, no auditório da ABI

 

ABI PEDIRÁ “DESCULPAS” POR

TER ADERIDO AO GOLPE DE 64

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa vai pedir “desculpas públicas” à categoria e à população por ter aderido (ou se mantido omissa) ao golpe de 1964. A decisão será tomada em reunião na próxima semana, três dias após a data (7 de abril) consagrada aos jornalistas.

A iniciativa foi anunciada durante o evento “Imprensa e Censura”, promovido pela entidade na manhã desta quinta-feira (3.04). A iniciativa envolveu depoimentos de Walter Lessa, Nelson Cerqueira, Emiliano José, Samuel Celestino e João Eurico Matta, sobre o golpe civil militar.

A proposta do “Mea Culpa” já estaria encampada por dirigentes como o presidente da ABI e diretor geral da Tribuna da Bahia, Walter Pinheiro, o vice, Ernesto Marques e o diretor Agostinho Muniz. À época, a associação era presidida por Ranulfo Oliveira, e tinha como diretores Jorge Calmon, também de A Tarde e Odorico Tavares, do Diário de Notícias.

Os dirigentes chegaram a publicar então, como matéria paga, uma convocação à sociedade para participar de ato público em homenagem ao golpe, programado para 17 de abril de 1964, conforme registro no livro comemorativo dos 50 anos da entidade, criada em agosto de 1930, pouco menos de um mês antes da Revolução deflagrada naquele ano.

DEPOIMENTOS

O repórter-fotográfico Walter Lessa narrou episódios sobre o governo Lomanto Júnior, empossado em 1963 e que se manteve no poder por adesão à ditadura, até 1967. O jornalista Nelson Cerqueira contou sobre sua trajetória no Jornal da Bahia e narrou ação de censura promovida por um oficial do Exército, poucos dias após a derrubada do presidente João Goulart, levando o jornal sair sem a manchete que anunciava um ato contra o regime, entre outras ameaças.

O professor e ex-deputado Emiliano José traçou toda sua trajetória de preso político e das torturas a que foi submetido, inclusive choques elétricos, no quartel do Barbalho. Mencionou nomes de torturadores como os dos coronéis Brilhante Ustra, Luiz Arthur de Carvalho e de desaparecidos como Gildo Macedo Lacerda, cunhado do jornalista Antonio Jorge Moura.

Ele citou, ainda, a estarrecedora declaração do general e presidente Ernesto Geisel (1974-1978) “nós precisamos continuar matando”, registrada no livro “A Ditadura Envergonhada”, de Élio Gáspari, e referiu-se à “crueldade do regime”, com base nos recentes depoimentos do coronel reformado Paulo Manhães às comissões da verdade do Rio de Janeiro e à federal.

Manhães revelou com detalhes as atrocidades cometidas contra prisioneiros do regime, como o corte dos dedos para “apagar” digitais; desfiguração de faces para não ter a arcada identificada e pedras amarradas aos corpos, de modo meticulosamente estudado para que não afundassem ou emergissem.

Emiliano José criticou, do mesmo modo, a cumplicidade dos jornais à época, “à exceção do Última Hora”; a adesão da CNBB à ditadura, embora ressaltando as ações de enfrentamento levadas a efeito pelos bispos Dom Helder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Waldyr Calheiros de Novaes. Para finalizar com a assertiva: “Não sou eu quem registra, é a história”.

Samuel Celestino, por sua vez, contou sobre o episódio em que estudantes de Direito foram presos, no início do fatídico abril de 1964 e lembrou o silêncio adotado pelo orador da turma de colação de grau, depois também jornalista, Gilson Nascimento, em meio às ameaças de agentes do Exército.

O presidente da ABI, Walter Pinheiro relatou situação envolvendo teaser criado pelo chargista Hélio Lage para o lançamento do suplemente “A Coisa” e que envolvia um vaso sanitário sob o texto “A Coisa vem aí”, editado ao lado de uma manchete com Ernesto Geisel chegando a Salvador.

O diretor da Tribuna teve que ir dar explicações ao SNI-Serviço Nacional de Informações, no estado. João Eurico da Matta também deteve-se em análises sobre o governo Lomanto Júnior e revelou decisão da Câmara Municipal de Chorroxó (a 510 km de Salvador) em recusar proposta de título de cidadania ao general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, já em 1970. ###

DIRETAS JÁ!

DIRETAS JÁ!

Derrota da emenda

amplia consciência

Albenísio Fonseca

A rejeição da emenda Dante de Oliveira, no início da madrugada de 26 de abril de 1984, pela ausência de parlamentares e voto contrário de deputados do PDS, deixaria entrever situações bastante sui-generis para os milhões de brasileiros que, nas capitais estaduais e municípios por todo o país, empenharam-se na luta pela aprovação da emenda que restabeleceria o direito de eleger o presidente da República ainda naquele ano.

A eleição para a presidência estava programada, mas seria realizada de modo indireto, através de Colégio Eleitoral. Para que o pleito transcorresse pelo voto popular, ou seja, de forma direta, era necessária a aprovação da emenda constitucional proposta pelo deputado Dante de Oliveira (PMDB – MT). A última eleição direta para presidente fora em 1960.

A cor amarela simbolizava a campanha iniciada em 1983. Após duas décadas de intimidação pela repressão, o movimento das Diretas Já ressuscitava a esperança e a coragem da população. A reivindicação sinalizava mudanças não só políticas, mas econômicas e sociais.

Dois comícios marcariam o processo: Na Candelária, no Rio de Janeiro, em 10 de abril, com um milhão de presentes e, em São Paulo, dia 16, aos gritos de “Diretas Já!” mais de 1,5 milhão de pessoas lota o Vale do Anhangabau, na capital paulista. Em Salvador, ocorrera em janeiro com 15 mil pessoas na praça Castro Alves. Entre as figuras de destaque do movimento, o deputado Ulysses Guimarães (PMDB-SP) chegou a ser apelidado de “o Senhor diretas”. Outros nomes emblemáticos foram a cantora Fafá de Belém (pela interpretação magistral do Hino Nacional) e o apresentador Osmar Santos.

Na noite de 25 de abril de 1984, o Congresso Nacional se reúne para votar a emenda que tornaria possível a eleição direta ainda naquele ano. A população não pode acompanhar a votação dentro do plenário. Temendo manifestações, o governo João Baptista Figueiredo reforça a segurança ao redor do Congresso Nacional. Tanques, metralhadoras e muitos homens deixavam claro que a proposta não interessava ao regime.

A expectativa era grande. Mas os 298 votos favoráveis seriam “subtraídos” por 112 deputados que não compareceram e frente aos apenas 65 contrários e três abstenções. Para a aprovação da emenda eram necessários 2/3 a favor ou 320 votos. Uma derrota por 22 votos.

As estruturas psíquicas de uma nação são capazes de resistir a golpes bem mais duros. Sobrevivem durante muitos anos, mesmo depois de mudanças infraestruturais profundas. Trata-se de uma agonia lenta para a qual não existe golpe de misericórdia capaz de destruí-las. Preservam-se, ainda que nos mais obscuros recantos do inconsciente coletivo. Fortes o suficiente para enfrentar ou empreender revoluções sociais e combater privilégios voltados a atender interesses de grupos, contra a maioria da população brasileira.

A nacionalidade é uma vinculação existencial inevitável. Não se trata de um ardil ou um álibi. Como hoje, obscuros legisladores nos leva(va)m de roldão – e então, já durante 20 anos após o golpe de 64 – sem se darem conta de que o desejo dos novos oráculos – aos milhões agora – são imediatos e práticos. A solidariedade (mais correto afirmar a cumplicidade) estabelecida em busca de eleições Diretas Já, se traduziria no plano da sublimação por um busca comum de novos valores. A luta, não só continua. Ela é contínua. Derrotava-se uma emenda, mas não a consciência do eleitor.

Vale lembrar o quanto as ações de entidades, organizações e comunidades, através de comitês organizados por todo o país, surpreenderam pela decidida forma com que compareceram aos eventos programados a favor da causa legítima, o direito de cada cidadão votar para eleger o seu mandatário máximo. O certo é que ali se tornou impossível aos que detinham o poder manter o povo brasileiro sob a acusação de subversão e à imposição de tirânicas leis de segurança e emergência, em meio a uma economia que asfixiava a todos os setores, indistintamente. O pleito seria consumado em janeiro de 1985 no colégio eleitoral. Tancredo Neves (PMDB) derrotaria Paulo Maluf (PDS) e um novo pesadelo atravessaria a noite no Brasil, mas aí já é outro capítulo da história.

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Albenísio Fonseca é jornalista (à época, Editor de Municípios na Tribuna da Bahia)

GOLPE DE 1964 – O calendário revisitado

Golpe de 1964, 

o calendário revisitado

Albenísio Fonseca

Entre os principais fatos que antecederam e foram utilizados como justificativa para o golpe de estado perpetrado por militares e setores da sociedade civil, em 1964, é possível traçar ou revisitar, de modo sintético, o calendário e episódios históricos, ilustrados com imagens e fac-similes de capas de jornais e revistas da época.

Agosto/1961 – Menos de sete meses após tomar posse, Jânio Quadros renuncia à Presidência da República. Alega que “forças terríveis” tinham se levantado contra ele. Analistas políticos creem que Jânio contava com o veto dos ministros militares ao vice-presidente, João Goulart, e com uma reação popular que o levasse de volta à Presidência, dessa vez com superpoderes.

Setembro/1961 – Depois das reações ao veto dos militares, uma solução de compromisso garante a posse de Goulart sob regime parlamentarista. Com a apressada emenda à Constituição, Goulart irá dividir o poder com o primeiro-ministro. Tancredo Neves é o primeiro a assumir o cargo.

Dezembro/1962 – Apresentação do Plano Trienal, elaborado pelo ministro Celso Furtado. Os objetivos centrais do plano eram o combate à inflação sem comprometer o crescimento econômico e buscar promover a realização das reformas necessárias para um desenvolvimento sustentado.

Janeiro/1963 – O sistema parlamentarista é derrotado em plebiscito e Goulart recupera os plenos poderes da Presidência.

Setembro/1963 – Após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) suspendendo o mandato dos sargentos eleitos no ano anterior, centenas de sargentos, fuzileiros e soldados se rebelam em Brasília. Tomam vários prédios públicos e prendem o presidente interino da Câmara dos Deputados e um ministro do STF. A rebelião é sufocada em poucas horas, com o saldo de um militar e um civil mortos. A quebra da disciplina e da hierarquia causa forte reação na alta oficialidade.

Outubro/1963 – Goulart pede ao Congresso autorização para decretar o estado de sítio por 30 dias. Não consegue apoio para a medida já que tanto as forças políticas de esquerda como as de direita temiam ser alvo dos poderes emergenciais.

Janeiro/1964 – Goulart regulamenta a Lei de Remessas de Lucros, que limitava as transferências de divisas para o exterior, contrariando os interesses dos investidores estrangeiros.

13 de março – Pelo menos 200 mil pessoas comparecem ao comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no que seria o início de uma nova campanha em favor das reformas sociais.

No comício Goulart assina dois decretos: o primeiro nacionalizava todas as refinarias de petróleo particulares, o segundo tornava sujeitas à desapropriação propriedades rurais numa faixa de 10 km à margem de rodovias ou ferrovias federais.

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19 de março – Milhares de pessoas participam da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada por várias entidades conservadoras, entre elas a SRB (Sociedade Rural Brasileira) e a UCF (União Cívica Feminina). Segundo fontes divergentes, os participantes ficaram entre 200 mil e 500 mil pessoas.

20 de março – O general Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército e um dos coordenadores da conspiração contra o governo democrático, lança uma circular reservada aos oficiais advertindo sobre o que considerava como perigo latente nas recentes medidas do presidente da República.

25 de março – Ministro da Marinha, Sílvio Mota, manda prender dirigentes da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais. A tropa enviada para fazer a prisão se recusa a atacar os colegas e vários fuzileiros se juntam aos insubordinados, no episódio conhecido como a Revolta dos Marinheiros.

Mota pede demissão. Após negociações, os marinheiros se entregam e são presos, mas logo depois são libertados e anistiados.

O episódio aumenta a irritação dos militares ainda legalistas com a quebra da hierarquia e disciplina.

30 de março – Goulart discursa em reunião de sargentos, no Automóvel Clube, no Rio de Janeiro.

31 de março – O general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora (MG), dá início ao golpe ao movimentar – antes do esperado pelos próprios conspiradores – suas tropas em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente. Goulart envia tropas do Rio para deter a sublevação e tenta articular apoio militar entre os comandantes do Exército.

1º de abril – Após a adesão aos revoltosos pelas tropas enviadas do Rio de Janeiro, Goulart decide deixar o Rio e ir para Brasília. Sem condições de organizar uma resistência efetiva, decide ir para Porto Alegre. O golpe seria perpetrado com os apoios do Congresso, através do anúncio do senador Aldo Moura Andrade, dando a vacância da presidência, embora Jango ainda estivesse no Brasil; pelo STF, reconhecendo o presidente da Câmara, deputado Ranieri Mazzili como novo presidente da República e com a mobilização da 4ª Frota dos Estados Unidos para a costa brasileira.

O presidente do STF, Álvaro Moutinho da Costa, filho de general e irmão de coronéis, foi à posse de Ranieri Mazzilli na noite de 1º de abril, rompendo, também, a constitucionalidade na medida em que João Goulart ainda estava em território brasileiro. No dia 17, 48 horas após a posse de Castelo Branco, Moutinho o receberia no Supremo. Em suma, o golpe decorreu de um cerco militar (interno e externo) sustentado pelo Congresso, pelo Judiciário e sob o apoio de setores da classe média e  da imprensa.

Dentre 19 periódicos oriundos de cinco Estados, 17 eram jornais diários, alguns dos quais já não circulam, e dois são revistas hoje extintas. Apenas três se pronunciaram em defesa da Constituição: “Última Hora”, “A Noite” e “Diário Carioca”. Nos idos de 1964, os dois últimos não tinham muitos leitores. Os outros 16, em diferentes tons, desfraldaram a bandeira golpista. photo

2 de abril – Desrespeitando a Constituição do país à época, já que Goulart se encontrava em território nacional, o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, declara vaga a Presidência e empossa interinamente no cargo o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli.

Em Porto Alegre, apesar dos apelos de seu cunhado e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para que resistisse,  Goulart percebeu que não havia mais condições para uma reação ao golpe.

4 de abril – Sem que houvesse renunciado ao cargo, Goulart deixa o Brasil e pede asilo no Uruguai.

11 de abril – Um Congresso Nacional já expurgado com as primeiras cassações elege “respeitosamente” o general Castelo Branco presidente da República.

O regime militar

O GOVERNO DO GENERAL CASTELO BRANCO

Em 1964, o Comando Supremo da Revolução, nos primeiros dias de abril, edita o Ato Institucional nº 1, suspendendo as garantias constitucionais estabeleceu eleições indiretas e o Executivo passou a ter direito de cassar mandatos políticos e decretar estado de sítio, sem consultar o Congresso.

Essas medidas atingiram principalmente os líderes do regime deposto e as organizações que exigiam as reformas de base como a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), a PUA (Pacto de Unidade e Ação) e as Ligas Camponesas. Após estas medidas foram instaurados inquéritos seguidos de processos políticos a cargo da Justiça Militar.

O movimento vitorioso justificava-se como restaurador da economia, abalada pelas constantes greves, e favorável à definição de um padrão de desenvolvimento baseado na livre empresa e associado ao capital estrangeiro.

Politicamente, o projeto do General Humberto de Alencar Castelo Branco, escolhido como presidente, incluía o fortalecimento do Executivo e a segurança do Estado, para os quais foram criados órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI). A segurança nacional foi o argumento usado para justificar as arbitrariedades praticadas.

  A repressão do regime militar configurou o nascimento de uma ditadura desde o dia 2 de abril de 1964, com a perseguição a todos que se opunham à nova ordem. Nessa data,  antes mesmo de João Goulart seguir para o exílio, foi organizado em regime de urgência o autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas”. 1965

Em 1965, realizaram-se eleições para governador em 11 estados e o governo perde em cinco deles. Em resposta, é editado o AI-2, decreto que permitia a intervenção do governo nos estados e municípios e que o Executivo legislasse através de “Decretos-Lei”. Também extingui os partidos políticos e cancela seus registros. A partir daí, passaram a existir apenas dois partidos, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

O

Ato Institucional nº 3 foi decretado logo em seguida, eliminando qualquer vestígio de democracia no país. Esse Ato estabelecia o fim das eleições diretas para governadores e prefeitos das capitais. A partir de então os governadores seriam indicados pelo presidente para a aprovação das Assembleias Legislativas. E os prefeitos seriam indicados pelos governadores.

Em 1966, o Congresso Nacional é fechado, o que provocou a reação de muitos que se identificavam com o movimento. As cassações de mandatos continuaram. Decretou-se também o Ato Institucional nº 4, que dava ao governo poderes para elaborar uma nova Constituição.

No início de 1967, O Congresso foi reaberto, desfalcado de alguns parlamentares, e aprovou uma nova Constituição elaborada por juristas do governo. As atribuições do poder Executivo foram consideravelmente aumentadas e a autonomia dos estados diminuída. O regime instituiu, ainda, um Tribunal Militar para julgar os civis.

Desta forma, o Marechal Castelo Branco pode contar com um Congresso bastante submisso. Foi essa submissão que possibilitou a aprovação de novos atos ditatoriais, como a limitação do direito de greve e a deposição dos governadores de Goiás, Amazonas e Rio de Janeiro.

Não foram apenas líderes políticos e sindicais os perseguidos pelo regime militar. Intelectuais, funcionários públicos, militares e artistas foram demitidos ou sofreram perseguições porque a ditadura os considerava perigosos. Acreditavam que impedindo essas pessoas de exercer sua profissão estariam combatendo o Comunismo. Ao final do governo Castelo Branco, quase quatro mil pessoas já haviam sido punidas.

Mesmo com a institucionalização da ”Revolução”, como desejava o presidente Castelo Branco, a democracia estava longe de ser garantida. Os partidos não representavam os diferentes interesses em jogo, dificultando a participação popular.

Ao nível econômico, o Governo Federal, procurou exercer controle sobre a inflação, incentivou as exportações e passou a atrair investimentos externos. Para controlar a inflação houve uma queda nos salários, o aumento das tarifas públicas e uma diminuição dos gastos do Estado. Essa política favoreceu a negociação do Governo com o FMI, obtendo empréstimos. Os EUA renegociaram a dívida externa do Brasil e várias empresas norte-americanas instalaram-se no país.

O desenvolvimento capitalista brasileiro, do qual se beneficiavam a burguesia e as empresas estrangeiras ou associadas ao capital estrangeiro, precisava das Forças Armadas e dos tecnocratas para exercer funções de controle no plano social e modernizadoras, no plano administrativo.

Ao final do governo Castelo Branco o Alto Comando Militar, escolheu como novo presidente o marechal Artur da Costa e Silva, que era o Ministro da Guerra. Essa escolha foi confirmada pelos membros da ARENA no Congresso Nacional. Para registrar seu protesto o MDB retirou-se do local da votação.

 

O GOVERNO DO MARECHAL ARTUR DA COSTA E SILVA

O Marechal Artur da Costa e Silva tomou posse em 31 de janeiro de 1967. No seu governo, foi criado o PED (Plano Econômico de Desenvolvimento), que continuaria a prática econômica do governo anterior, porem corrigindo os possíveis erros da política de combate à inflação. A política econômico-financeira era dirigida pelo ministro da fazenda Antonio Delfim Neto.

A partir de 1968 o governo Costa e Silva marcou-se pelo rigor com que reprimia as agitações. O então ministro da Justiça, Gama e Silva, desarticulou um movimento conhecido como Frente Ampla, composto por políticos cassados, representantes do MDB, do governo deposto em 64, estudantes e trabalhadores. O programa da Frente era exclusivamente político, exigindo anistia geral, elaboração de uma constituição democrática e restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis. Devido à sua diversidade, a coesão ficou dificultada, levando-a ao fracasso. Mas era um sintoma do descontentamento que havia em relação aos caminhos que o regime estava tomando.

No Rio de Janeiro, em 1968, mais de 100 mil pessoas saíram nas ruas em passeata, protestando contra o assassinato do estudante Edson Luís , de 18 anos, no restaurante Calabouço, pela polícia. Também surgiram greves operárias, como a de Osasco, em São Paulo, e Contagem, em Minas Gerais.

O Congresso Nacional foi fechado e, a 13 de dezembro de 1968, editado Ato Institucional nº 5, o mais severo de todos. O AI-5 dava ao presidente da República poderes totais para perseguir e reprimir as oposições. Podia decretar estado de sitio, intervir nos estados e municípios, cassar mandatos e suspender direitos políticos, demitir funcionários, confiscar bens.

Tamanho passou a ser o poder do presidente que seus atos não necesitavam sequer ser submetidos à apreciação do Judiciário. Utilizando o AI-5, o governo prendeu milhares de pessoas em todo o país, entre elas o ex-governador Carlos Lacerda, o marechal Lott e o ex-presidente Juscelino Kubistchek. Fechou o Congresso Nacional por prazo indeterminado. Cassou os mandatos de 110 deputados federais, 160 deputados estaduais, 163 vereadores, 22 prefeitos. Afastou quatro ministros do Supremo Tribunal Federal.

Mesmo sendo um militar linha-dura, Costa e Silva não queria passar para a história como o criador do AI-5. por isso, confiou ao seu vice-presidente Pedro Aleixo, que fora contrário ao AI-5, a missão de elaborar uma nova constituição que substituísse toda aquela legislação arbitrária.

A nova Constituição estava praticamente concluída, quando Costa e Silva ficou gravemente doente e afastou-se da presidência. Uma Junta militar, composta pelos ministros do Exército, da Marinha, e da Aeronáutica, impediu o vice–presidente Pedro Aleixo de assumir o poder. Não confiava no político civil. A Junta Militar governou durante dois meses, de 31 de agosto a 22 de Outubro de 1969.

Nesse curto período, alterou profundamente a Constituição de 1967, dando origem ao novo texto constitucional de 1969, que reforçava ainda mais o poder do Executivo, o mandato presidencial era de cinco anos, foram mantidos todos os atos institucionais decretados depois de 1967, foi estabelecida a pena de morte e o banimento do território nacional para os casos de subversão.

Reconhecendo a impossibilidade de Costa e Silva recuperar a saúde, a junta militar declarou a extinção de seu mandato. E indicou o seu sucessor: o general Emílio Garrastazu Médici. Em 22 de Outubro de 1969, o Congresso foi reaberto depois de 10 meses. Nele não mais estavam presentes os antigos deputados federais, pois haviam sido cassados pelo AI-5.

O GOVERNO DO GENERAL EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI

O general Médici foi eleito indiretamente, ou seja, escolhido pelo Congresso Nacional, tomando posse em 30 de Outubro de 1969. Seu mandato caracterizou-se pelo endurecimento político, com a implantação de censura. A censura tinha como objetivo impedir a divulgação de qualquer notícia que comprometesse a imagem do governo ou mostrasse os problemas do país.

Alguns jornais, como o Estado de São Paulo, por exemplo, não aceitavam a imposição da censura, e em vez de substituir matérias censuradas, deixavam o espaço em branco ou colocavam poesias, em sinal de protesto à decisão do governo. Os jornais que desobedecessem eram proibidos de circular. Dessa forma o povo tinha uma imagem falsa do país, e era levado a acreditar que vivíamos no melhor dos mundos e que seus governantes eram sábios e honestos.

A censura não atingiu somente os meios de comunicação. Também as artes sofreram nas mãos dos censores. Compositores como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e muitos outros, foram impedidos de gravar ou tiveram suas músicas proibidas de tocar no rádio e na TV. Vários filmes estrangeiros, que os militares consideravam subversivos, foram impedidos de ser exibidos. Textos de teatro foram vetados e montagens suspensas.

Até mesmo a TV sofreu cortes na programação. A censura não tinha limites. Sobre a classe operária, era exercida forte vigilância policial, a fim de evitar qualquer manifestação de protesto. Sobre os estudantes e professores, pairava o ameaçador decreto 477, mediante o qual o governo podia expulsar e demitir professores considerados “perigosos”.

Para estimular o patriotismo, o governo empreendeu agressivas campanhas publicitárias e introduziu no currículo escolar, matérias como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Estudo dos Problemas Brasileiros (EPB).

A ditadura não admitia criticas nem oposição pacifica. Em meio a isso, um setor da oposição partiu para o enfrentamento armado com o regime. Surgiram vários grupos clandestinos que praticavam ações armadas em algumas cidades. Entre esses grupos estava a Ação Libertadora Nacional (ANL) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Liderada por Carlos Marighella, e a Vanguarda Popular Revolucionaria (VRP), comandada por Carlos Lamarca. Um outro grupo, vinculado ao PC do B, organizou no inicio da década de 70 um movimento guerrilheiro no Araguaia, sul do Pará. Esses grupos realizaram diversos assaltos a bancos, em busca de dinheiro para financiar a luta política.

Sequestraram diplomatas estrangeiros para trocá-los por companheiros presos, que estavam sendo torturados nos porões dos órgãos de segurança. Todos os lideres desses grupos foram esmagados pela repressão militar. Os militares queriam passar a ideia de que eram patriotas.

O patriotismo foi usado como arma ideológica para combater as oposições. Foi o tempo do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. No plano econômico, o governo Médici foi marcado por um período de desenvolvimento que a propaganda oficial chamou de ”Milagre Econômico”. A base dele foi uma gigantesca expansão do setor industrial. Desde 1967, o governo já vinha tomando inúmeras medidas para promover o desenvolvimento econômico.

As industrias foram beneficiadas com isenções de impostos e a ampliação do credito para os consumidores. Com a redução dos custos e o aumento das vendas, as indústrias prosperavam, Além disso, o governo vendia títulos, e com o dinheiro arrecadado, financiava grandes obras. O setor da construção civil foi estimulado com a edificação de milhares de residências, através de financiamentos do Banco Nacional de Habitação (BNH).

Assim, desde o final de 1967, a economia brasileira vinha apresentando grandes índices de crescimento. Esse crescimento beneficiou enormemente os empresários de todos os setores. Mas beneficiou também a classe média, pois significou mais possibilidade de empregos e maiores salários. Com a ampliação dos lucros dos empresários e da renda da classe media, cresceu a demanda por bens industriais, especialmente automóveis.

A grande expansão das vendas no setor automobilístico teve efeitos sobre outros setores industriais. Mas, alem do crescimento recorde no setor industrial, um outro fator que contribuiu para o Milagre Econômico foi a construção de gigantescas obras publicas, como a ponte Rio-Niterói, a duplicação da ponte Ercílio Luz (SC), os metrôs do Rio e de São Paulo, o elevado Costa e Silva, a Rodovia dos Imigrantes, a Transamazônica e a Hidrelétrica de Itaipu.

A construção das grandes obras acelerou o ritmo da expansão econômica. As obras significaram emprego para milhões de pessoas e encomendas para as industrias e empresas de prestação de serviço. Mais gente empregada e mais lucro para as empresas significaram mais consumo p-ara a industria de bens de consumo duráveis, não-duráveis e para a agricultura.

O comércio também se expandiu. Os supermercados e os shoppings centers passaram a fazer parte do cenário das grandes cidades.

Se o comercio interno ia bem, o externo ia ainda melhor. O Brasil deixou de ser essencialmente um país exportador de produtos primários. Uma grande parte das nossas exportações era de manufaturados.

Evidentemente, com todos os setores da economia vivendo um período de grande expansão, o clima só poderia ser de euforia. Otimismo reforçado pela conquista, em 1970, do tricampeonato mundial de futebol.

 

Mas mesmo com todo o crescimento da economia, já havia, entre muitas pessoas, a percepção de que nem tudo andava bem. Afinal, foi o próprio presidente Médici quem afirmou que a economia ia bem, mas o povo ia mal.

A principal vitima do milagre econômico foi a classe operária. Durante o governo Médici, o arrocho salarial foi mantido. O governo manipulava os índices oficiais de inflação de modo que os aumentos salariais sempre ficassem bem abaixo da inflação real.

A região amazônica também foi outra grande vitima do milagre econômico. A pressa de fazer do Brasil uma grande potência levou o governo a permitir uma ocupação desordenada e predatória da região. O governo abriu a Amazônia aos grandes projetos agropecuários. Milhares de hectares da floresta foram queimados e deram origem à enormes propriedades onde o boi ocupava o espaço do homem.

Mas o milagre econômico trouxe problemas graves para a economia brasileira. O financiamento das grandes obras foi feito através de um crescente endividamento externo e interno. A divida externa, alem de aumentar o poder dos banqueiros internacionais sobre a economia brasileira, obrigava o país a consumir uma parcela enorme das suas receitas de exportação a titulo de pagamento de juros. Isso ia colocando obstáculos ao prosseguimento do nosso desenvolvimento.

O governo recorreu também ao endividamento interno. Como gastava bem mais do que arrecadava, freqüentemente tinha que lançar mão da venda de títulos ou emitir dinheiro. O resultado desses dois expedientes foi o retorno da inflação.

 Em 1947, já estava claro que o Brasil necessitaria de outro milagre para sair da crise provocada pelo primeiro.

 Euforia na ditadura

Em 1970, no domingo em que o capitão Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, na Copa do México, e deu à seleção a Taça Jules Rimet, e o cobiçado tricampeonato mundial, andar de carro nas ruas brasileiras sem uma bandeira verde-amarela tornou-se uma imprudência.

Os adesivos “Brasil: ame-o ou deixe-o” grudaram em todas as faces de um país em que o PIB subia 10% ao ano, as bolsas disparavam, as obras da Transamazônica começavam e 160 milhões de dólares eram torrados na compra de 16 aviões supersônicos Mirage.

O Brasil estava contagiado pela emoção. Mas o momento inesquecível de autoestima nacional estava aplicado sobre um fundo falso. O “Brasil Grande” era apenas imaginário. Assim, Médici chorou diante da seca nordestina, ao descobrir que a economia ia bem, mas o povo ia mal. A Transamazônica até hoje é uma miragem de empreiteiro.

A classe média, entretanto, comemorava as novas possibilidades de consumo. O paraíso nos anos 70 consistia em tirar o automóvel Corcel da garagem, fazer compras no supermercado, ver futebol na maravilha do ano, a TV em cores, e sonhar com a nova viagem à Bariloche, na Argentina.

GOVERNO GEISEL 1974-1979

O sucessor do presidente Médici foi outro general, indicado pelo alto comando militar e referendado pela ARENA. Ernesto Geisel integrava um grupo dos oficiais militares favoráveis à devolução gradual dos poderes aos covis. Quer dizer, o novo presidente estava disposto a promover conforme suas palavras, um processo gradual, lento e seguro de abertura democrática.

O governo começou sua ação democratizante diminuindo a severa ação de censura sobre os meios de comunicação. Depois garantiu a realização de eleições livres para senadores, deputados e vereadores em 1974. O MDB, único partido de oposição, alcançou uma vitória significativa sobre a ARENA, o partido do governo. Os militares de linha-dura assustaram-se com a vitória das oposições. Os comandantes dos órgãos de repressão do regime militar não suportavam a ideia de uma abertura democrática. Por isso, continuavam agindo com a mesma violência do período anterior.

Em São Paulo foram presos e mortos, nas dependências do II Exercito, o jornalista Vladimir Herzog (1975) e, posteriormente, o operário Manuel Fiel Filho (1976). A sociedade brasileira ficou escandalizada com os atos brutais dos órgãos militares, que diziam agir em nome da “Segurança Nacional”.

O presidente Geisel afastou o general comandante do II Exercito para por fim à onda de violência que indignava a nação. Em abril de 77, prevendo a derrota que o governo sofreria nas eleições de 1978, Geisel decretou um conjunto de medidas que ficou conhecido como Pacote de Abril, colocando o Congresso em recesso temporário, para que fossem feitas respostas políticas. Criou a figura do senador biônico, onde 1\3 do Senado passou a ser composto por senadores nomeados pelo presidente, como forma de garantir a maioria de votos favoráveis ao governo.

O pacote também aumentou o mandato presidencial para 6 anos. A política econômica de Geisel foi desenvolvimentista. Para isso recorreu-se, como de praxe, a empréstimos externos (o Brasil tornou-se um dos maiores devedores do mundo) e ao aumento de impostos, acentuando o descontentamento da população.

Em outubro de 1978, o presidente Geisel extinguiu o AI-5 e os demais atos institucionais que marcaram a legislação arbitrária da ditadura. Ao final do governo Geisel, pode-se dizer que houve certa disputa na eleição indireta para Presidente da República.

Em nome da ARENA disputaram os candidatos a presidente o general João Baptista de Oliveira Figueiredo e como vice Aureliano Chaves. Em nome do MDB, disputaram os candidatos a presidente o general Euler Bentes Monteiro e como vice Paulo Brossard. O Colégio Eleitoral conferiu 335 votos ao general Figueiredo contra 266 dados ao general Euler.

GOVERNO FIGUEIREDO 1979-1985

O presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo iniciou seu governo num momento em que crescia no país a critica política às decisões autoritárias e centralizadas do governo militar. Diversos setores da sociedade brasileira passaram a reivindicar ardentemente a redemocratização do país.

Diante das pressões de toda a sociedade, o presidente Figueiredo assumiu compromisso de realizar a abertura política e devolver a democracia ao Brasil.

Nesse clima de abertura democrática, os sindicatos voltaram a se fortalecer e ressurgiram as primeiras greves operarias contra o achatamento dos salários. Dentre elas, destacavam-se as greves dos operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo, sob a liderança sindical de Luis Inácio Lula da Silva.

A campanha da sociedade obteve os primeiros resultados positivos:

A Lei da Anistia, que como dizia o nome anistiava a todos aqueles que foram punidos pela ditadura militar. Assim, muitos cidadãos brasileiros que ainda estavam no exílio puderam, finalmente, regressar ao país. Pessoas que tiveram seus direitos políticos cassados foram reabilitadas na sua cidadania. Mas a anistia não foi irrestrita, milhares de militares punidos não puderam voltar normalmente às forças armadas.

E também o fim do bipartidarismo restrito à ARENA ao MDB. Foram criados novos partidos para disputar as próximas eleições. Surgiram então o PDS (no lugar da ARENA) e o PMDB (no lugar do MDB). Apareceram ainda partidos como o PT, PTB e outros. Foram restabelecidas as eleições diretas para governadores.

No plano econômico, o ministro do planejamento, Delfim Neto, procurou executar o III PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) que tinha como principais preocupações promover o crescimento da renda nacional, controlar a divida externa, combater a inflação e desenvolver novas fontes de energia.

Quanto ao setor energético, o governo buscou através do Proálcool (Programa Nacional do Álcool) substituir progressivamente petróleo importado por uma fonte de combustível nacional, o álcool.

Os outros grandes objetivos do III PND não foram alcançados de forma satisfatória como a Divida Externa e a Inflação. O Brasil, tinha feito empréstimos do FMI, teve que se submeter às exigências dos banqueiros internacionais que passaram a ditar regras de ajustamento da nossa economia.

Sem poder pagar os empréstimos obtidos, o Brasil caiu numa ciranda sem fim. Passou a pedir novos empréstimos pra saldar a divida anterior. Já a inflação foi provocada por uma serie de desequilíbrios econômicos, a inflação começou a explodir no governo de Figueiredo. Bateu recorde histórico, superando a cifra de 200% ao ano. A classe social mais prejudicada com a inflação foi a operária, que teve seu salário corroído dia a dia pela alta absurda do custo de vida.

Outro problema foi o desemprego foi o desemprego, provocado pela falta de investimentos no setor produtivo (expansão das empresas) resultou numa redução do crescimento econômico, cuja conseqüência social mais importante foi o aumento do desemprego.

Em 1983, os níveis de desemprego em são Paulo, Rio de Janeiro e outros estados atingiram uma situação desesperadora. Grupos de desempregados, para não morrer de fome, chegaram a saquear padarias e supermercados para conseguir comida para suas famílias.

Com o agravamento da crise econômica, cresceu também a insatisfação popular contra o governo. Nas eleições de 1982, o povo manifestou eu descontentamento elegendo um grande número de candidatos das oposições nos principais estados brasileiros.

Depois de 18 anos de ditadura, em 15 de março de 1983, assumiram o poder nos estados novos governadores eleitos diretamente pelo povo.

O regime militar se aproximava do fim. Com a renovada força, as oposições políticas passaram a exigir eleições diretas para a presidência da República. A Campanha pelas Diretas foi um dos maiores movimentos político-populares da nossa historia. Nas ruas, nas praças, multidões entusiasmadas, reunidas em grandes comícios, gritavam o lema DIRETAS JÁ! e cantavam o Hino Nacional.

Entretanto, uma serie de manobras de políticos ligados à ditadura militar impediu a realização das eleições diretas para presidente. O principal grupo que sabotou a emenda das diretas foi liderado pelo então deputado paulista Paulo Maluf.

Contrariada a vontade do povo brasileiro, teve prosseguimento o processo das eleições indiretas, criado pelo regime militar. Nessa fase, concorreram para a presidência dois candidatos, Paulo Maluf e Tancredo Neves.

Paulo Maluf era o candidato oficial do PDS, o partido do governo. Entretanto não contava com o apoio efetivo das forças tradicionais que estavam no poder.

Tancredo Neves então governador de Minas Gerais, era o candidato de uma confusa aliança política, composta por ex-integrantes do PDS e membros do PMDB, que se apresentava como a alternativa concreta para que a sociedade brasileira alcançasse o fim do regime militar.

Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral reuniu-se em Brasília para escolher entre Tancredo e Maluf. Resultado: 480 votos para Tancredo contra 180 para Maluf e 26 abstenções. O presidente eleito, todavia, há menos de 12 horas da posse, apresenta fortes dores abdominais, febre alta, dificuldade respiratória e tremores, Tancredo Neves é internado às pressas no Hospital de Base de Brasília.

Atônito, o país assiste pela TV ao comunicado do secretário de imprensa do novo governo, Antônio Britto, informando que o presidente sofrera uma cirurgia no intestino. Trinta e oito dias e sete cirurgias depois, morria, em São Paulo, o presidente Tancredo Neves. Em seu lugar assume o vice, José Sarney.

Somente em 1989 aconteceria a primeira eleição direta para a Presidência da República após a ditadura militar e desde 1960. O pleito foi disputado por 22 candidatos – entre eles, Fernando Collor, Lula, Leonel Brizola, Mário Covas, Paulo Maluf, Ulysses Guimarães, Aureliano Chavez, Guilherme Afif Domingos, Roberto Freire, Enéas e Fernando Gabeira. Lula e Collor se enfrentaram no segundo turno. Collor venceu.

Festa de Itapuã 2014

Foto: Albenísio Fonseca/2013
Cortejo das baianas no trajeto de Placafor até à Igreja em Itapuã

Todos os caminhos levam

à Festa de Itapuã 

Todos os caminhos levam à Itapuã nesta quinta-feira (20.02), onde acontece a 109ª edição da Festa do bairro. A expectativa, em ano de eleição, é que o evento reúna grande parte de candidatos à Assembleia Legislativa, Câmara Federal, Senado e mesmo ao Executivo estadual, antecipando o calendário eleitoral.
A festa, cujo ápice é a lavagem do adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, tem início previsto para às 11h30, quando dezenas de baianas, animadas pelo ritmo de alabês e percussionistas do afoxé Korin Nagô, seguidas por carro alegórico com os homenageados do bairro, centenas de foliões e turistas, se deslocam em cortejo, desde Placafor até Itapuã, aliando fé e ludicidade.
O desfile prossegue, por quase toda a tarde, com dezenas de grupos de samba, o bloco afro Malê Debale, que este ano comemora 35 anos de fundação e outras manifestações típicas do lugar, em contagiante animação a mobilizar uma multidão por todo esse trecho da Orla da cidade. A festa de Itapuã é a última do calendário de eventos populares de Salvador antes do Carnaval.
A animação local, contudo, começa nas primeiras horas da madrugada. Sob organização da professora Ronilda dos Santos, o Bando Anunciador – uma banda de sopro e percussão –  percorre  ruas do bairro com cerca de 500 foliões, convocando a comunidade para a festividade. Uma alvorada de fogos marca a abertura das comemorações e, sob o nascer do Sol, acontece a “lavagem nativa” do adro da igreja de N.Sra. da Conceição de Itapuã, organizada pelos filhos de D. Niçu (que promoveu a iniciativa há 25 anos), seguida de um concorrido samba de roda e de “café da manhã africano”, oferecido em congraçamento comunitário.
Após a tradicional lavagem, à tarde, há uma recepção de confraternização aos participantes, com uma feijoada para as baianas e convidados, demonstrando a “magnitude e relevância da festa”. Na segunda-feira (24), às 16h, na Enseadinha (Praia da Sereia), a festividade é encerrada, há 28 anos, com “o mais belo dos presentes à Iemanjá”, organizado por canoeiros e pela mãe pequena Gildete dos Santos.
Toda a estrutura para a realização do evento já está instalada e conta com equipamentos e efetivos da PM, Corpo de Bombeiros, Policia Civil, Transalvador e postos para atendimento de emergência, além das barracas de bebidas e comércio ambulante, no trecho entre a Sereia e a praça Dorival Caymmi. O transito, conforme acordado com a Transalvador junto os organizadores, será interditado para o acesso ao bairro, pela Orla, já na quarta-feira, à noite, com desvio para a avenida Paralela pela avenida Pinto de Aguiar. O transito volta à normalidade a partir das 16h de quinta-feira.
A Festa de Itapuã é organizada e executada pela própria comunidade com apoio da Prefeitura, através da Saltur.  A festividade proporciona, além de prazer, alegria e manutenção de uma tradição centenária, importante legado para a melhoria das condições de vida dos moradores e frequentadores do bairro, na medida em que mobiliza a gestão municipal a viabilizar operações de pavimentação, mais iluminação de ruas e coleta de lixo e entulhos, principalmente na áreas de trajeto dos cortejos e seus entornos.
Além do cantor e compositor Dorival Caymmi, cujo centenário de nascimento transcorre esse ano, a Festa homenageia o principal carnavalesco do bairro, Gilberto Menezes de Almeida (“seo” Menezes), 82 anos, e a ialorixá bantu, Zulmira de Santana França, 79 anos, que desfilarão em carro alegórico no formato de um saveiro.

A face invisível dos “rolezinhos”

Foto: Epitácio Pessoa/Estadão

Jovens da periferia promovem “occupy shopping” no Rio e São Paulo

A face invisível dos “rolezinhos”

Albenísio Fonseca

Vendo o quanto tantos ficaram na superfície do fenômeno dos “rolezinhos” – mobilização de jovens moradores de áreas periféricas em shopping centers do Rio e São Paulo – surfando na crista da onda sem ousar um mergulho mais profundo, vale refletir a questão sob a ótica não apenas do consumo, mas sob as faces políticas da excludente ideologia do consumo e da crítica à sociedade do espetáculo.

É inevitável partir da constatação de que a horda excluída também quer fazer valer o direito ao prazer do fascínio produzido em série e poder desfilar o glamour das marcas e seus mil e um acessórios “trade company” nestes templos das mercadorias ou “bunkers” do consumo. Não se dá conta de constituir-se uma espécie de subproduto da sociedade da abundância aparente (a sublimar seu viés proletarizante) – que nos transveste, excita e captura.

Não há o que estranhar no dilema de setores da elite nacional frente ao mais anarquista dos atos da contemporaneidade à brasileira. Impossível de camuflar, tal “estratégia de libertação urbana” evidencia uma nova forma da luta de classes, em pura e, ao mesmo tempo, bruta discriminação econômica, social, étnica e até estética. Ao judicializar os encontros dessa juventude, orquestrados via redes sociais, sem identificar como capitalizá-los, criminaliza-se a pobreza.

Não é meramente o espaço privado e supostamente público que se pretende interditar à circulação dos coletivos de jovens pobres e negros no universo refrigerado do império da moda: é o próprio território urbano de áreas nobres que se converte em locais de acesso proibido, em evidente segregação social, sob repaginado “apartheid”. Os “rolezinhos”, do mesmo modo, invertem a seta da “gentrificação” (enobrecimento) em voga.

Contra a mentalidade escravocrata ainda reinante, a “nova senzala” vinda das periferias quer desfrutar o sabor da “coca-cola, subway e Mcs” na Casa Grande. Sob a lógica da mercadoria ou da submissão inconsciente à mercatilização total das conciências, as meninas sacolejam bolsas assinadas por Louis Vuitton. Os garotões trazem gravada a moda surf na camiseta Mahalo e a estampar nos bonés: “fuck you”. Desembolsam suas rendas a caminhar firmes sobre Nikes, Adidas, Asics, Olympikus, indiferentes à farta exploração da mão de obra – na Índia, Paquistão ou China – embutida na produção de tais mercadorias. Organizados via Internet, os rolezinhos contrariam adesões partidárias ou a Ongs e surpreendem a segurança dos shopping e outros mecanismos de opressão.

“Ama teu rótulo como a ti mesmo”, sim, Joyce, diriam em paródia à estipulação cristã. Mas, ao levar o desejo a sobrevoar as asas da história, o que os “rolezinhos” denotam é uma desesperada e ingênua busca de visibilidade que, afinal, atenta contra a ordem e a assepsia da mentalidade pequeno-burguesa pretensamente hegemônica, no equívoco de que o acesso ao shopping constitua-se em acesso à cidadania. O verdadeiro, desde há muito, foi convertido, caro Débord, em um momento do falso.

Criados sob a segurança e a facilidade de encontrar tudo no mesmo lugar, aliando os conceitos de modernidade e progresso, os shopping converteram-se desde meados dos anos 1980 em locais privilegiados para compras e lazer. O modelo foi importado dos Estados Unidos e implantado nas cidades brasileiras sob os mesmos critérios e contornos da origem. Seus proprietários, geralmente, são grandes grupos de investidores, construtoras ou holdings.

O maior é o Aricanduva, em São Paulo, com 425 mil m². No Rio, o Center Norte tem 245.028 m². Na Bahia, o Salvador Shopping tem 82.500 m². Em 2013, as vendas do setor cresceram 10,65% e o faturamento alcançou R$ 119,5 bilhões. Em 2012 havia 495 shopping no país, quando apresentaram uma circulação média de 398 milhões de visitantes mensais. Novos 38 empreendimentos foram inaugurados em 2013, outros 40 estão previstos para 2014, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers. O setor contempla cerca de 900 mil empregos diretos.

Sem dispor de capital cultural, acesso a espaços de lazer, oferta de empregos e serviços públicos dignos, notadamente em educação e saúde, isto é, frente à ausência do estado, essa parcela de jovens a irromper em rolés segue entorpecida pelos efeitos sedutores e ilusionistas da publicidade. Todavia, de modo inequívoco, os pobres já estão inseridos na lógica dos centros comerciais: Constituem o corpo de serviçais encarregados da faxina dos corredores, toilettes e na segurança terceirizada.

O espetáculo submete a si os homens, depois que a economia já os arrasou completamente. Em todo esse happening juvenil impelido pela cultura de massa, paciência, Hamlet, agora, “to be or not to be, that is the fashion”. Mas, afinal, com que roupa eu vou ao “rolezinho” que um enorme grupo, pelas redes sociais, me convidou? #

Nova concepção de museu

A ministra da Cultura, Martha Suplicy, durante visita ao Muncab, acompanhada por José Carlos Capinan 

Muncab, uma nova

concepção de museu

Albenísio Fonseca

Uma nova concepção na atuação dos museus vem sendo adotada, já há alguns anos, tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo. Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso nos museus refletem elementos das novas demandas sociais decorrente, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.

As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não-formais ou informais. Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão e busca de conhecimentos.

Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e trocas de conhecimento. O museu deixa de ser um “mero” local de memória para se tornar referência na paisagem e no convívio urbanos, com oferta de atrativos que proporcionam interação e mobilidade, visando, com isto, não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse público nos espaços e eventos programados.

O Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira torna-se, portanto, um local que, ao construir e consolidar sua identidade com autonomia, não apenas guarda sua vocação acadêmica, mas institui um ambiente educativo informal, com prestação de serviços culturais e de lazer aos cidadãos de diferentes horizontes culturais.

Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações histórico-culturais de matriz afro-brasileira, o novo museu se propõe a viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, seminários, lançamentos literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária afro-brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e saberes em um universo aberto para a degustação de sabores e transito do passado, do presente e do futuro.

Em meio à nova concepção dos espaços internos e externos do museu, em desenvolvimento neste período de mutações e rupturas, o projeto para este nova década do milênio se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências e conhecimentos. O novo “estatuto” do Muncab, portanto, passa a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se em um território plural, em suma, um complexo de demanda e construção cultural.

Ao considerarmos a dimensão de Salvador – enquanto capital brasileira com maior contingente populacional negro fora da África – é importante destacar a existência de outros atrativos culturais de caráter étnico na cidade, concorrentes por estas demandas de público, local e turístico, em transito. Para fazer frente a esta concorrência, torna-se imprescindível estabelecer uma agenda positiva que viabilize programações dinâmicas, com eventos capazes de sensibilizar o interesse e a proporcionar fórum de debates.

Entre as ações capazes de consolidar este modelo deve-se vislumbrar programação de filmes tendo o negro como protagonista; espetáculos de Dança, com a presença dos inúmeros grupos existentes na cidade e cuja maioria de integrantes é negra; peças teatrais, sem custo de pauta, para espetáculos que priorizem aspectos da cultura negra. Musicais: shows de grupos com viés étnico, bate-papo musical, exposição de instrumentos musicais de origem negra; cursos sobre a história da cidade e o caráter antropológico da sua composição étnica.

Ressalte-se, além do mais, a permanente exposição do acervo do Muncab e a promoção de cursos, oficinas e mostras de artes visuais, de artesanatos, instrumentos musicais, entre outros passíveis de convênio. Vale mencionar, ainda, o propósito de estimular a criatividade, sensibilidade e percepção sonoro-musical, com a promoção de cursos para confecção e toque de instrumentos de percussão (inclusive com materiais reciclados), promovendo a inserção social de jovens moradores do Centro Antigo e de outros bairros de Salvador.

A localização estratégica do Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira possibilita, de modo peculiar, a facilidade para a atração de turistas em visita ao Centro Histórico de Salvador e considera o crescente número de desembarques na cidade com a ampliação da capacidade do porto e frente às realizações da 20ª Copa do Mundo de Futebol. Nesse sentido, viabilizamos a produção e distribuição de prospectos contendo informações sobre o espaço, acervo, programações e mapa localizador.

A Internet não pode ser um jardim murado

A Internet não pode ser
um jardim murado

Albenísio Fonseca

Em tramitação na Câmara Federal e sob votação adiada uma dezena de vezes, o marco civil da Internet – “mais governamental que Civil” – não pode se constituir em uma armadilha para a cidadania, a serviço de provedores, corporações e em função do poder econômico, quando o conhecimento colaborativo e a imaterialidade do trabalho se cristalizam. A neutralidade da rede – bit inegociável do projeto – importa em que a transmissão de informação pela internet permaneça a ser tratada em todos os dados, da mesma forma, sem distinção de conteúdo, origem e destino ou serviço, a resistir à conversão da rede mundial de computadores em um “jardim murado”, oh Tim Berners-Lee.

As cyberways do século 21, mesmo por atalhos, requerem tráfego em mão dupla. O advento e disseminação das redes sociais, um dos mais importantes eventos da Internet, consagra a “expressão individual”, não mais em relações hierarquizadas, mas através de conexões por pontos, na relação direta e múltipla entre as pessoas. Contra a hegemonia da construção de “realidades” por corporações da mídia, o saber compartilhado inviabiliza e transcende o monopólio da informação em mão única, da tipografia de Johannes Gutemberg à TV analógica.

Sob um cenário de vigilância, em singular “panopticon”, oh Michel Foucault, múltiplos dispositivos capturam as mensagens – como denunciado pelas mãos de tesoura de Edward Snowden e, logo, o pensamento, qual previra George Orwell e seu Big Brother, em “1984”. Embora domesticado já nos seja o desejo – devidamente cartografado, oh Gilles Deleuze. Frutos das campanhas de marketing e publicidade incutidas em nosso inconsciente – somos levados de roldão nessa “terceira onda”. Ainda que supostamente a escapar – indivíduos ou multidões rebeladas – em pranchas da inédita protagonização de desejos e devires, subordinados não mais a uma ideologia, mas sob os ditames das novas estratégias biopolíticas do “Império”, oh Antonio Negri.

 E assim, vamos surfando com Alvin Toffler, reféns da tecnologia da automação, cada vez mais desenvolvida e apropriada à sociedade de controle em que, homens-máquina, braços dados com autômatos, transitamos as pulsões dos nossos corpos sem órgãos, na “caosmose” de três ecologias (ambiental, social e subjetiva), Oh Felix Guatarri. Microeletronicamente digitalizados, Pierre Levy, qual geração supérflua, meu caro Nicholas Carr, temos cérebro e sistema nervoso central expandidos, a superar distâncias espaciais e intervalos temporais, abolindo o espaço e o tempo, oh Paul Virilio, nesse universo da terceira revolução tecnoindustrial, a la (seja louvado) Adam Schaff.

Que permaneçamos, então, oh cyberativistas, a evocar em black blocs ou serenamente a convicção de que a liberdade de expressão constitui uma das bases essenciais da sociedade democrática, condição intransferível para a concretização dos demais direitos humanos e liberdades fundamentais. A circulação livre de informação, nessa sociedade em rede, castelo de cartas marcadas, oh Manuel Castells, é fundamental para o acesso ao conhecimento e à cultura, herança comum de toda a humanidade a estar disponibilizada e tornada acessível para o beneficio de todos.

Hoje, ativos intangíveis como marcas e domínios têm valor superior aos dos bens móveis e imóveis – hegemonia possibilitada pelo acúmulo de visibilidade – como um “capital simbólico”, a estampar suas insígnias, oh Pierre Bourdieu. A etiqueta – digo, os titles tag, são os novos parâmetros de identidade, mesmo em protocolos uTorrents  – a submeter outros domínios, como o semântico e o imagético, em motores de busca, sob os índices das hashtags e Trending Topics, nos fluxos de um capitalismo cognitivo.

Sonhe: Baixe programas e filmes transmitidos em resolução 4K, quatro vezes mais alta que a Full HD. Acorde: ainda é necessária uma conexão que consiga se manter estável o suficiente para downloads sem engasgos, oh Bram Cohem. À mídia caberá render-se à disponibilização de conteúdos em multimídia, na crescente e irreversível tendência online. Mas, e nossa energia libidinal, humanoides, permanecerá contida neste lounge da cotidiana miséria simbólica? Afinal, se o futuro já passou, o que nos aguarda neste admirável mundo novo, oh Heródoto?

As ganhadeiras

Ganhadeiras e tocador de berimbau na aquarela de Jean-Baptiste Debret , em 1826.

A resistência das ganhadeiras

na reurbanização de Salvador

 Albenísio Fonseca

Discriminadas e relegadas à face obscura da história, as mulheres negras “ganhadeiras”, como se chamavam, circulavam a oferecer iguarias pelas ruas de vilas brasileiras no período colonial. Atravessaram freguesias durante o Império e mercadejaram variados tipos de comidas, doces, quitutes, carnes, frutas, louças, em tabuleiros, gamelas, cestos e quitandas nos movimentados centros urbanos da nascente República.

Exímias comerciantes, a maioria mercava de forma ambulante ou, ainda minoria, em pontos fixos na cidade. Os alimentos produzidos e comercializados por elas provinham da dieta e hábitos alimentares africanos, além dos temperados na senzala ou na Casa Grande. Com palavreado e gestos típicos, elas compuseram importante mão de obra explorada por seus senhores, ou libertas, a consolidar o incipiente mercado urbano à época.

As escravas ganhadeiras eram obrigadas a dar a seus senhores uma quantia previamente estabelecida em acordo informal. O excedente ao combinado era acumulado para gastar no seu dia a dia e, quiçá, comprar a liberdade. A partir da denominada Lei do Ventre Livre, de 1871, contudo, é facultado aos escravos o direito de acumular um pecúlio. Isso favorece aos escravos e escravas de ganho, que conseguem poupar, graças à ocupação e inseridos que estavam na economia do período.

Relatos de viajantes, como Johan Spix e Karl Von Martius, em “Viagem pelo Brasil – 1817/1820”, criticam a ganância dos senhores que impunham “tristíssima condição àquelas mulheres obrigadas a ganhar diariamente certa quantia”. Segundo a historiadora Maria Odila Dias, as ganhadeiras dispunham de uma espécie de “faro para o negócio”. Era preciso ser “muito ladina”, como exigia um anúncio no Correio Mercantil de 17.06.1840. Isto é, astuta, que falasse português e, evidentemente, dominasse o serviço.

Conforme Luís dos Santos Vilhena, em “A Bahia no século XVIII”, com frequência, as ganhadeiras se aliavam a outros escravos para receptar e revender produtos furtados. Na trama da especulação de mercado e atravessamento, a que denominavam carambola ou cacheteria, elas monopolizavam a distribuição de peixes, carnes, verduras e até produtos de contrabando.

Com trajes similares, mas em variadas tonalidades, coloriam o cenário urbano. Como na África, traziam os filhos atados às costas com “pano da Costa”, ou soltos entre tabuleiros, em meio a frutas e aves, a labutar sozinhas pela sobrevivência, como menciona a mestra em História, pela UFBA, Cecília Moreira Soares, citando relato de James Wetherell, em “Brasil: Apontamentos sobre a Bahia (1842-1857)”.

Logo após a abolição e depois do advento da República, a partir de 1912, as “mulheres de saião” (pejorativo difundido na imprensa para referir-se às trabalhadoras de rua) têm a atividade proibida, são perseguidas e até presas na Salvador do governo de José Joaquim Seabra. Não sem, antes, “rodar a baiana” contra os fiscais da municipalidade.

A “remodelação urbana” da capital, promovida por Seabra, destrói casarões coloniais e igrejas barrocas, para traçar avenidas, como a 7 de Setembro, sob críticas que permanecem. A ação envolve, ainda, tentativa de “desafricanização” de Salvador, estimulada, inclusive, por jornais de oposição ao seabrismo, como A Tarde, à época.

Se, por um lado, é possível identificar o recurso a conceitos de higienização, modernização e civilidade a incidir contra tabuleiros, gamelas e tudo que remetesse ao passado escravagista; por outro, visava à presença da mulher desvinculada do ideal de família, então em voga, cujo lugar estava restrito ao domínio das prendas do lar. Isto é, contrária à autonomia proporcionada pelo trabalho na rua e em deliberada busca de deter processos de ascensão popular.

A cidade, contudo, dispunha de características sociais e econômicas que extrapolavam as noções “civilizatórias” empreendidas por J.J.Seabra, sob alegado propósito modernizante. Hoje, seja na figura das baianas de acarajé ou cultuadas em Itapuã como um grupo cultural, as ganhadeiras perpetuam o eco do seu jeito de mercar pelas ruas de Salvador, em desobediência às posturas municipais dos seabristas e seus novos adeptos.

Tropicália, 45 anos luz

Capa do disco emblemático do movimento tropicalista, de 1968,
e detalhe da instalação “Tropicália”, de Oiticica, de 1967
 
     
Tropicália, 45 anos luz
 
Albenísio Fonseca
 
A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o disco emblemático. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.
 
Sob o céu anil, havia fortes influências da Pop Art norte-americana, do Cinema Novo de Glauber Rocha, das peças de Oswald de Andrade encenadas pelo Teatro Oficina. Havia o processo de industrialização brasileiro, o clima de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones. Chacrinha e a Jovem Guarda.
 
O choque do provincianismo com o moderno gerando uma síntese dialética, uma nova forma de pensamento. Há um corte e uma sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, a converter-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “Geléia geral”, diriam Gilberto Gil, Waly, Torquato Neto e Capinan.
 
Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada naquele efervescente momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e inter-influências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como a TV e o teatro; semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura,  música erudita.
 
Diante do establisment cultural erudito nacional e distinta da canção de protesto explícito, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico de Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, Poesia Concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão.
 
No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, sob a voz de Gal Costa, por exemplo, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira. Sob o fascínio dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial, satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade.
 
Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, certamente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar seqüência.
 
Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação  política pela esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil, desenhada por Rogério Duarte.
 
Agora, 45 anos depois, face à improbabilidade do horizonte em nosso triste trópico, pós-Gil no Minc, qual simbólica tomada do poder, quem sabe ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena banda larga?

Ciclo econômico à deriva

Foto: Bona Beding/Mail Online
    O ritual secular da pesca de baleias persiste entre orientais

Sob o signo das baleias

Albenísio Fonseca 

Imagine Salvador e vilas do Recôncavo iluminadas durante o século XIX. As ruas têm os lampiões acesos e, nas residências, as luminárias flamejam. Mas qual combustível era esse que permitia tamanha luminosidade? Sim, em contraposição a ciclos econômicos dos períodos colonial (1500-1822) e imperial (1822-1889) proporcionados pela exploração do pau-brasil e das plantation de cana-de-açúcar e café, como nas minerações de ouro – o ciclo da pesca da baleia na Costa brasileira, notadamente na Baía de Todos os Santos, é um fato histórico da expansão exportadora que, embora de alta relevância, permanece submerso ou à deriva, relegado a parcas abordagens dos nossos historiadores.

A pesca das baleias e seus filhotes, por 300 anos – entre barcos fundeados na Baía – à média de 200 animais por ano e 10 mil litros de azeite por exemplar, consistia em dramático e trágico espetáculo assistido das balaustradas dos sobrados, subidas de morros, montanhas e praias, de onde se contemplava o embate excitante e o transbordar nas águas do sangue do pescado. Não raras vezes, estarrecidos com o naufrágio das embarcações e seus tripulantes, vencidos pela força do maior animal do planeta.

Arpoadas e rebocadas à praia ou às armações, as baleias eram retalhadas e delas extraídos os subprodutos. A carne, tida como ordinária, além de distribuída gratuitamente à gente pobre do lugar, era geralmente destinada a alimentar os escravos trabalhadores das armações e vendida às ganhadeiras, que as salgavam, moqueavam e saíam vendendo pelas ruas de Salvador e vilas do Recôncavo. Os ossos, empregados em obras ou suportes para lavagem de roupa. À beira mar, restos do “monstro” permaneciam fétidos.

A pesca da baleia consolida-se no século XIX como um sistema ecologicamente devastador para a produção do óleo ou azeite, extraído da gordura do cetáceo e que viabiliza por três séculos o combustível gerador da iluminação das cidades e residências, não só nesta capital e seus arredores como em Pernambuco, São Paulo, Rio, Santa Catarina e cidades europeias. A atividade foi introduzida na Bahia, nos primeiros anos do século XVII, quando da denominada União Ibérica – de Portugal e Espanha – entre 1580 e 1640. O rei Felipe III, em 9 de agosto de 1602, autoriza dois estrangeiros, os biscainhos (ou bascos) Pêro de Urecha e seu sócio Julião Miguel, a pescarem baleias nas costas brasileiras, pelo prazo de dez anos

Exímios pescadores de baleia, após as capturas do mamífero aquático, processavam a gordura em bases cujas localizações nunca foram identificadas e retornavam à Espanha levando o azeite do peixe e gêneros da Colônia. Antes, porém, abasteciam o Recôncavo com o combustível, conforme acerto em contrato. Entre 1602 e 1612, todavia, a Câmara Municipal de Salvador estimula a pesca do cetáceo junto aos habitantes da cidade. O episódio traz sérios prejuízos àqueles empreendedores, por conta do aumento da “produção caseira” de um azeite de baixa qualidade, resultando consequentemente em queda nos preços. Como decorrência, os biscainhos perdem o interesse em continuar pescando os cetáceos nas águas brasileiras.

Na capital, Antonio da Costa obteria o primeiro contrato de concessão para pesca da baleia e exploração dos seus derivados, em 1614.  Detentor do monopólio, expande a atividade por todo o litoral da cidade. Instala armações na Pituba, no Rio Vermelho, nas proximidades do Forte de Santo Antônio da Barra, na Pedra Furada e em Itapuã. As armações consistiam em estrutura com embarcações, fábrica, alojamentos, armazéns, fornalhas, tanques, caldeiras, escravos, terras, apetrechos de pesca e as de manufatura do azeite.

Conforme minucioso estudo de Myriam Ellis, “A pesca da baleia no período colonial” (Ed. Melhoramentos, 1ª edição, 1959) – em todas as armações do litoral brasileiro predominava mão de obra escrava. As maiores indústrias de óleo chegavam a empregar mais de uma centena de cativos, além de trabalhadores livres, a labutar dia e noite em fornalhas que derretiam o espesso toucinho do animal. Findo o monopólio, as armações da Bahia, em Itaparica e Itapuã, são vendidas a particulares que continuaram a pescar baleias nas águas da Baía de Todos os Santos. As existentes no Sul do Brasil foram tomadas pela Coroa Real e desastrosamente administradas. Ao oferecê-las em concessão a particulares, 15 anos depois, já não encontraria interessados.

Afora a escassez da espécie, pela pesca predatória, havia a concorrência estrangeira. Americanos e ingleses desenvolveram tecnologia para processar a gordura e extrair o azeite no interior das próprias embarcações, em alto mar. O fim do ciclo decorre da descoberta do petróleo, em 1859, tornando o querosene como novo combustível para iluminação. Resta-nos, contudo, em Itapuã, alegorias das baleias a festejar a influência da pesca na formação social e econômica de Salvador.

MARCO CIVIL

Foto: Albenísio Fonseca       Evento foi promovido pela ABI com apoio da Brasken

OPERADORAS DE CABO QUEREM INTERVIR NA PRODUÇÃO DE CONTEÚDOS DA INTERNET

Durante o evento “O Marco Civil da Internet Brasileira e o jornalismo do século XXI”, promovido pela ABI-Associação Bahiana de Imprensa, dia 13.12, mediado pelo jornalista Bob Fernandes (do Terra Magazine e TV Gazeta), um dos palestrantes, o professor Sergio Amadeu da Silveira, da Universidade Federal do ABC (SP) e do Comitê Gestor da Internet no Brasil, revelou que o principal “lobbie” sobre a legislação, em trâmite na Câmara dos Deputados, é exercido pelas indústrias de telecomunicações e do copyright. O projeto já teve a votação adiada sete vezes.

Ele acentuou o fato de que as operadoras de cabos, por onde fluem os bits, querem intervir nos conteúdos veiculados no cyber universo, contrariando  a neutralidade com que deveriam se portar no sistema. “A quebra da neutralidade dá um poder descomunal às operadoras de telecomunicações”, ressaltou. Sergio Amadeu comparou a transmissão de informações pela Internet à da transmissão de energia pelas companhias de eletricidade – “é como se estas pudessem determinar qual o horário e o tempo de uso dos eletrodomésticos em nossas casas ou empresas” – e à Marinha Mercante ao transportar containners.

“As informações na Net são transmitidas por pacotes, com rótulos indicativos dos decodificadores”. Ou seja, ainda segundo Sérgio, “querem transformar a Internet em um sistema de TV a cabo, com a cobrança dos acessos. Querem pedagiar o caminho na Internet. E quem não aceitar – blogs, sites, portais, internautas – corre o risco de trafegar em baixa velocidade, pela ‘via esburacada’ da rede”.

Com as transformações no ecossistema comunicacional – das mídias de massa, quando lutávamos pelo direito de falar, à Internet, quando a luta é por quem ouvir, o professor paulista mencionou, ainda, as controvérsias sobre a remoção de conteúdos, conforme o Artigo 15 do Marco Civil. O artigo prevê que para algo ter acesso bloqueado é imperativa a existência de uma decisão judicial. Para Sergio, essa questão tende a converter-se em uma verdadeira “indústria de remoção de conteúdos”. Ele mencionou pesquisas que aferiram em 2009, 47% de downloads de música e, em 2010, quando o índice já alcançaria 52%.

“Art. 15. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e
evitar a censura, o provedor de aplicações de Internet
somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos
decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após
ordem judicial específica, não tomar as providências para,
no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro
do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo
apontado como infringente, ressalvadas as disposições
legais em contrário.”

A versão preferida pelos detentores de copyrights previa uma exceção específica à regra geral: “Na hipótese de conteúdo protegido por Direito Autoral, o provedor de aplicações de Internet será responsável por danos decorrentes de conteúdos postados por terceiros se for notificado e não tornar indisponíveis os conteúdos apontados, no âmbito do seu serviço e dentro do prazo máximo de 24 horas”.

Essa versão do texto, porém, não teve sucesso. Por conta de pressão do Ministério da Cultura – houve intervenção direta da ministra Marta Suplicy – o relator acabou adotando uma exceção aos direitos autorais. Dessa forma, o Artigo 15 ganhou um parágrafo que retira os direitos autorais da regra geral que exige decisão judicial. “O disposto neste artigo não se aplica quando se tratar de infração a direitos de autor ou a direitos conexos”, diz o texto, gerando ainda maior controvérsia. Para Sérgio Amadeu, a questão dos direitos autorais ainda está por ser solucionada ao salientar o quanto “a tecnologia digital é a técnica do compartilhamento”.

Sob o tema “Entre a lógica da liberdade e a lógica da permissão”, Sergio defendeu a regulamentação das exceções da neutralidade pela Presidência da República, através de decreto, e não pela Anatel, como vem sendo encaminhado”. O palestrante denunciou a existência no mercado de uma empresa inglesa, a Phorm, detentora de um software que efetua a captura de todos os dados do internauta, diferentemente do Google.

Outro palestrante do encontro, o professor Nelson Pretto, da Faculdade de Educação da UFBA, sustentou o bordão “Deixem minha Internet em paz”, contra as tentativas de controle da rede mundial de computadores. Para Pretto, “não haverá desenvolvimento científico e tecnológico com a apropriação da Net pelos grandes conglomerados. A liberdade de trafegar é essencial à produção de conhecimento”.

Já o jornalista Luiz Queiroz, do site Convergência Digital.Com, demonstrou as diferenças históricas e tecnológicas entre os sistemas de radiodifusão e das telecomunicações, tanto no aspecto econômico quanto político. Ao ressaltar as possibilidades do fazer jornalismo proporcionadas pela Internet, destacou os novos desafios profissionais e éticos que se impõem tanto aos profissionais quanto às empresas jornalísticas. E cravou outra máxima, para reflexão: “A imprensa não discute seu papel no universo online”.

Dos males, o menor

                           Foto: Dario Guimarães                           photo                                        Meninos de rua dormem, após uso de crack,
                                     em frente ao Juizado de Menores, no Pelourinho

Meninos de rua são vítimas do tráfico e da repressão policial

“Maus tratos dos pais, uso do crack e repressão policial são os maiores complicadores para o resgate das crianças e adolescentes das ruas”

Albenísio Fonseca

Dos males, o menor. A maioria dos meninos de rua presentes no Centro Histórico de Salvador mora em locais distantes. Geralmente, migram para esta região da cidade provenientes de bairros como Fazenda Coutos, Nova Constituinte, Mata Escura, Sussuarana e Vista Alegre, ou de áreas próximas como o Pelaporco, na antiga Rodoviária. Alguns são oriundos de cidades do interior ou de outros estados como Sergipe e Paraíba. O principal motivo da presença deles (em situação de abandono) nas ruas da capital decorre de conflito familiar, principalmente os maus tratos aplicados pelos pais.

Sem exceção e a um só tempo, longe de casa e da escola, as crianças transitam em ambientes de conflito frequentados por usuários, traficantes e sob a sedutora facilidade do acesso às drogas, notadamente o crack, que as transformam em “zumbis” pelas ruas do centro antigo. Segundo educadores do Projeto Axé, as maiores dificuldade enfrentadas junto aos meninos e meninas de rua, são o “enraizamento nas drogas” e a “terrível” relação repressiva exercida por policiais militares, “completamente despreparados para esse tipo de ação”, muito mais de cunho socioeducacional que criminalizante.

Foto: Albenísio Fonseca
O velho ônibus, adaptado e equipado com atrativos das linguagens artísticas e vídeo

Com o “Axé Buzu”, o projeto vem proporcionando o aceso das crianças e adolescentes em situação de rua a jogos lúdicos, desenhos, leitura e filmes. O velho ônibus, adaptado e equipado com atrativos das linguagens artísticas, inclusive vídeos, tem sido uma ferramenta fundamental no propósito de resgatar as crianças das ruas e do uso de drogas. O “buzu” circula semanalmente em locais do Centro e do Comércio de Salvador. Às segundas e quartas-feiras, permanece durante o dia nas praças das Mãos e do Mercado Modelo; às quintas-feiras no Terreiro de Jesus e, às sextas-feiras, na Calçada, sob o encargo de educadores de rua do projeto.

No Pelourinho, as crianças contam com aulas do professor de Arte Eliomar Tesbita, sob financiamento do Governo do Estado. Na última quarta-feira, 11 meninos e duas meninas, na faixa etária dos 12 aos 17 anos, participavam das atividades no “Axé Buzu”, no Terreiro de Jesus. Os educadores destacaram que “com o trabalho de sensibilização, os que estão mais vulneráveis ao efeito devastador do crack são encaminhados a instituições de saúde, como o Caps AD instalado na antiga Faculdade Medicina”, no Terreiro.

Foto: Albenísio Fonseca

Meninos e meninas participam de atividades no “Axé Buzu”, no Terreiro de Jesus

A abordagem social dos jovens e suas famílias consiste no método denominado “namoro pedagógico”. Ao estabelecer vínculos de amizade e confiança, crianças e adolescentes são estimulados a saírem das ruas e ingressarem nas unidades educativas. O trabalho dos educadores se estende a diversos outros bairros. Recentemente, 12 jovens do Projeto Axé participaram da tournée do show da cantora Fiorella Mannoia, na Itália, e retornaram a Salvador no dia 29 de maio – a tempo de estar presentes à celebração dos 22 anos de fundação da instituição, em 1º de junho.

Muitas das crianças alcançadas pelo “Axé” converteram-se em educadores do projeto. Nas áreas do Mercado Modelo e praça das Mãos, boa parte delas passou a frequentar as unidades educacionais. Segundo os educadores Leandro Rodrigues e Edenilda Rangel, cerca de 200 crianças vêm sendo atendidas em dois turnos. No Pelourinho, com aulas de artes visuais e música.

Na Baixa dos Sapateiros, ensino de dança e capoeira. Eles esclarecem que “as unidades são espaços pedagógicos onde se realizam atividades lúdicas, artísticas e culturais, baseadas nos princípios da ética e dos direitos humanos”, numa pedagogia que oferece, digamos, noções tanto do sujeito da cidadania (direitos e deveres), quanto do sujeito do desejo(sobre questões da subjetividade).

13 jovens são assasinados por dia no país

Informações do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA), de 2010, estima que 13 jovens sejam assassinados diariamente no país. A pesquisa, em 267 municípios com população superior a 100 mil habitantes, mostra que 2,03 em cada mil adolescentes brasileiros são vítimas de homicídio antes de completarem 19 anos. A Bahia ocupa o 7º lugar no rank de jovens assassinados no país

Na avaliação das 35 organizações que compõem a Rede de Monitoramento Amiga da Criança, “não houve, nos últimos 20 anos, no Brasil, nenhuma ação transformadora nas condições de vida das crianças em situação de rua ou abrigamento, nem de suas famílias”. Pelo contrário, “cada vez mais as ações se voltam para o aumento da capacidade desses abrigos e para tornar ainda mais severas as punições e os mecanismos repressores”.

Temos, portanto, além da rua, altos índices de jovens cumprindo medidas socioeducativas, sob privação da liberdade, em unidades de internação. Afinal, o que está em jogo nessa grave realidade não é só o futuro desses jovens, mas o da própria sociedade brasileira.

Videocolagens


Nuvens (2002). Cory Arcangel. Modded Super Mario Brothers cartucho e projeção Top – detalhes (Arcangel). Bottom, instalação tiro no Museu Whitney (Knudsen).

Videocolagens

Novel, novelo. Personagem de novela. Horário nobre das paixões. A tevê funciona como um espelho mágico. Cria toda uma simulação de que o drama vivido por personagens fictícios nos envolve. Paixões irradiantes. Alucinação colorida da contemporaneidade. Faz com que tornemo-nos narcisos eletrônicos. Real e ficção contornando a sala de estar. Com vale tudo é olho por olho. Ao contrário das manifestações culturais autênticas, a mídia impõe o seu repertório, proporciona o seu próprio manancial.

Móvel, modelo. História ingênua. O bem vencendo o mal. Olhar convexo da ira mórbida. As contradições do social sendo naturalizadas na tela quente. Como juntar as peças desse mosaico? O Brasil é mesmo isso, um enorme quebra-cabeça. E a televisão, no fundo, é apenas o dado sintomático do diagnóstico mais geral. Miséria de um cotidiano produzido em frente às câmeras. Zoom total do panorama fragmentário.

Personagem surpreendente. Vai ao restaurante natural e bebe Coca-Cola com casco e tudo. O espetáculo está em toda parte. Condensação do dia-a-dia, em capítulos. Trama hilariante das nossas próprias vidas. Reflexo vivo de uma economia em crise. O espetáculo é assim, submete os humanos depois que a economia já os arrasou inteiramente. Corta, entra comercial.

Manifestações na Venezuela ou Coréia do Sul. Anos depois de Paris, Caracas, Seul, Porto Alegre, Brasília. Cairo. Na geografia dos povos, como na arte, não há fronteiras. Europa 2011. E o mundo explode longe da nossa cama. A Bahia e o Oriente Médio incendeiam suas guerras santas em pleno início do século XXI. No século passado, uma luta de boxe se converteria no menor espetáculo da história. 13 segundos. Tela fria: “Em algum lugar do passado”, o filme, serve para demonstrar o caráter cíclico da moda. O personagem retorna um século, mas sua indumentária está defasada, ainda assim. Foi moda há 10 anos um século antes.

Peças de um mesmo jogo. Mosaico. Assassinato brutal. O vídeo derrama-se em sangue. O uso de drogas convertido em um acessório para prazer e tragédia do homem moderno. Videoclipe da ilusão. É o sentido de tudo o que há de ingovernável. Tábuas da lei. Ulisses seduzido pelo canto das sereias. Quanto nos custa dar a outra face da mesma moeda?

Novel modelo. Móvel novelo. A televisão funciona. Nós funcionamos via televisão. Telerrealidade. Psicosfera do reversível. VT. Condicionamento molecular. Programação em cores, preto-e-branco. Exclusivo. Desnoticiário.

Fomentar o consumo irrefreado nas crianças. Violência juvenil. O primeiro amor, o primeiro beijo, a última novela. João Gilberto faz assim: mantém um aparelho de tevê ligado ininterruptamente, mas sem som.  Já no filme The Wall, do Pink Floyd, uma das cenas de maior impacto é quando o personagem aturdido (leia, completamente pirado) destrói todo o apartamento e lança do último andar o aparelho de tevê.

Corte abrupto. Falta de energia. O mundo fora do ar. Recorte eletrônico. Assis Chateaubriand inaugura a TV Tupi quebrando a champanhe sobre uma das duas câmaras. Naum June Paik. Um tiro do videoasta alemão Wolf Vostell num aparelho de tv, há 200 metros, em 1963. Fera radical. Orgasmo duplo em transmissão simultânea, de Nova Iorque ao Xingu.

Manifestação instantânea de telespectadores: em lugar de coquetéis molotov lançam monitores. O imaginário explode em imagens. Corta. Entra transmissão em cadeia nacional. A lua brilha sobre a janela. Minha namorada adora dormir com o aparelho ligado, principalmente depois que a programação das emissoras chega ao fim. Puxo a tomada e, olhar de videoscope, vejo a parede vir junto. Desabo de sono.

O lugar do goleiro é um terreno minado

             Foto: Divulgação  
fotoLev Yashin (1929-1990), da Rússia, o “aranha negra”, maior goleiro de todos os tempos.
“…A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que 
joga na Seleção…”.

Como propunha Gilberto Gil no trecho citado na epígrafe, extraído da metafórica “Meio de campo”, canção do exílio (oh Gonçalves Dias) cuja letra/poema foi escrita na forma de uma carta ao inesquecível meia volante Afonsinho, nos idos dos anos 70 e refletindo sobre a “perfeição”, o lugar do goleiro é mesmo excepcional. Vale lembrar, ainda, que Afonsinho, foi o primeiro jogador a usar barba longa e rebelar-se contra a estrutura arcaica e autoritária do nosso futebol e a lutar pelo direito de trabalhar onde quisesse, ganhado o “passe livre” na Justiça.

Mas, entre todos os atletas que compõem uma equipe de futebol, somente ao goleiro é permitido o toque na bola com as mãos, como se a legitimar a prática desse esporte frente às demais modalidades esportivas praticadas com as mãos.

Todavia, a ação dos goleiros está restrita aos territórios da Pequena Área (onde é intocável) e da Grande Área, limite da sua atuação com as mãos. Na medida em que ultrapassa os limites dessas linhas, não mais lhe é permitido o toque na bola com as mãos, tornando-se idêntico aos demais, numa espécie de metamorfose por localização.

Os goleiros funcionam como os guardiães do reduto do gol. Primeira e última posição tocam-se (como extremos) na defesa da meta. Algo como a honra, a defesa da honra, é o que está colocado em jogo para o goleiro. Daí expressões como “caiu o véu da noiva”, entre tantas outras empregadas pelos locutores esportivos, a expressar o “desmascaramento” do lugar a ocultar, a proteger. Ao “arqueiro” cabe “fechar o gol”.

A codificação extremamente exigente, que rege os jogos de futebol, determina também a grande área como o espaço em que qualquer falta contra o adversário seja convertida em tiro livre (o pênalti), para o qual resta apenas a esperança de defesa pelo goleiro, num frente-a-frente irrecorrível.

Todo o campo – as quatro linhas em forma retangular, mais a linha divisória e seu grande círculo – tende a revelar-se como uma mandala, à medida em que o embate entre duas equipes é levado a efeito. O retângulo é uma forma inexistente na natureza. Diversas artes – como se costuma dizer também do futebol/arte – têm no retângulo a forma, o suporte, para sua realização, na pintura, no cinema, na fotografia.

A circularidade (o meio-de-campo, a meia-lua da grande área) e a face cabalística do número quatro (as quatro linhas que delimitam o campo), tendem a estabelecer uma relação com a origem do universo, pelo menos segundo a lógica dos místicos, mas a alquimia futebolística envolve a catarse coletiva de sentimentos que, em muitos casos, extrapola os interesses imediatos do que se desenrola no gramado.

No mais, é certo que a posição do goleiro, ali, no terreno minado “onde não nasce grama”, costuma ser aquela para a qual muita gente não gostaria de estar na pele, exceto os que, singularmente, nasceram com esta aptidão.  Por conta deles é que continua “nada fácil marcar um gol nessa partida, meu irmão”.

Entre a fome e o combustível


Entre a fome e o combustível
Albenísio Fonseca
Em meio ao anunciado fim da era do petróleo e da redenção energética através da biologia e da agricultura, o economista, engenheiro e diretor da École Supérieure d’Agriculture d’Angers, na França, Bruno Parmentier, um pesquisador  sobre o futuro da alimentação, vem tirando o apetite dos estrategistas europeus, desde que lançou o livro  Nourrir l’Humanité (Nutrir a Humanidade, ed. La
Découverte ).

No best-seller, ainda sem tradução em português, ele acena com uma “era da penúria” e parte do princípio de que garantir a nutrição de uma população fortemente expandida é uma novidade radical para a humanidade. Se até o século 16, a população mundial pouco evoluíra, e apresentou crescimento suave nos séculos 17 e 18, seguido de outro mais acentuado no 19, tocando mais a Europa e a Ásia, depois se espalhando para outras partes, em 1900 havia no planeta 1,8 bilhão de habitantes, 50% dos quais comiam satisfatoriamente. Mas contavam-se 800 milhões de mal nutridos. 
Há pouco mais de 50 anos, em 1950, éramos 2,8 bilhões e havia algo em torno de 800 milhões de pessoas com fome. Hoje, com a população mundial batendo no teto dos 6,3 bilhões continuamos encontrando algo como 800 milhões de famintos.

No viés otimista da leitura desses números, há a bela performance de que, em um século, a humanidade conseguiu dar o que comer a mais 4,5 bilhões de pessoas. Mas Parmentier nos leva a observar com certo pessimismo essa estranha “lei” fundamentada em um número persistente: Qualquer que seja a população do planeta há sempre algo como 800 milhões passando fome.

É imperativo encontrar alternativas. Mas as reservas de terras
disponíveis para agricultura são cada vez menores, boa parte por conta da urbanização. A mecanização da agricultura, a fabricação de
fertilizantes e outros modos de produção dependem de energia. Com o preço mundial do petróleo sob forte tendência de alta, será extremamente sensível o impacto psicológico da cotação rompendo o patamar dos US$ 100, já iminente. Isso complicará a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da mecanização do setor. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais trabalham com energia animal e 1 bilhão não têm nem animais nem tratores. Um bilhão de produtores estão completamente à margem!

Com cenários de números e estatísticas, ele se posiciona como defensor da produção de biocombustíveis, mas não com base em cereais, e questiona o fato de o Brasil, enquanto potência agrícola, ainda não ter solucionado a nutrição da sua população. Bruno Parmentier nos lança à reflexão frente à equação regida por uma coincidência: 800 milhões de pessoas sentem fome no planeta. Temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de caminhões. O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E agora?

 

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