Sob a lógica do salve-se quem puder

 Resultado de imagem para mercosul alba

Albenísio Fonseca

 

No pós 2ª Guerra Mundial, surgiram na América Latina teorias que se propunham a analisar a economia local e sua relação com o resto do mundo. Até a década dos 60, intelectuais brasileiros, reunidos em entidades como Iseb, Cepal e na USP, divergiam nos conceitos que fundamentavam as teses de desenvolvimento para a região. A Teoria da Dependência tornou-se uma das mais emblemáticas.

O arcabouço teórico buscava entender a reprodução do capitalismo na periferia do sistema e concluía que a economia dos países periféricos era condicionada pela expansão dos ditos de centro. Defendia a industrialização para o avanço dos subdesenvolvidos, no afã de um desenvolvimento autóctone, divergindo quanto à existência de uma elite formada por industriais vinculados ao capital internacional.

Da busca de nova ordem mundial com o Brics, bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, reverte-se em adesão submissa à política estadunidense, como demonstra a tendência do governo eleito em 2018.

Nos anos 40, dos 51 países que criaram a ONU, 20 eram da latino-américa. Hoje, quando a composição alcança 193 membros, vê-se a região perder relevância como bloco e não só político, mas econômico. Conforme a Cepal, a participação regional nas exportações, em 1955, era de 12%. Em 2016, caiu a 6%.

Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a solicitação de patentes, provenientes da América Latina, em 2006, era de 3% e se reduziria a 2%, em 2016. Na Ásia, chegara a 49,7% e aumentaria para 64,6%.

O investimento na pesquisa, em porcentagem do PIB, na região, diz o Banco Mundial, chegava a 0,6%, em 2000, e passa a 0,7%, em 2014. Na Ásia, de 2,25% passaria a 2,49%. No que tange ao poderio militar, dispara a Global FirePower, Brasil, México e Argentina, ocupavam, em 2006, as posições de 8º, 19º e 33º. Em 2018, o Brasil está em 14º, México em 32º e Argentina em 37º.

Com a China forçando a primarização das economias e após a “maré rosada” dos governos de centro-esquerda, assistimos ao retrocesso dos governos de direita, com desinteresse por ações coletivas, optando por saídas unilaterais, sob uma administração em Washington disposta a recuperar a dependência regional, em meio ao apogeu do rentismo no âmbito global, em detrimento do investimento produtivo e da distribuição de renda.

Frente ao estancamento das ações regionais de integração – Mercosul, Comunidade Andina de Nações, Aliança do Pacífico, Alba, Celac e Unasul – instaura-se a lógica do “salve-se quem puder”. As desintegrações conduzem os latinos à acentuada dependência externa, seja do poder declinante dos Estados Unidos, seja do auge da China, enquanto seguimos sob acelerada irrelevância, e sem tréguas, na política mundial.

——————-

albenisio@yahoo.com.br

No sobe e desce da cidade, ladeiras atravessam a história

Imagem relacionada
Salvador no século XIX. Sinalização do traçado original da Ladeira da Misericórdia

Albenísio Fonseca

Mais antiga cidade e capital do país, Salvador foi fundada em 1549 sob o signo bélico das fortificações, tendo em vista o controle do território pelos colonizadores portugueses. O critério militar era estrategicamente defensivo. Da Cidade Alta – como se diria de um mirante – era dada a observação permanente da entrada da Baía de Todos os Santos, no propósito de precaver e dificultar o acesso de invasores ao “coração” da cidade. Mas havia, também, o caráter logístico, na medida em que se constituía como porto de abastecimento para as frotas portuguesas a meio caminho do Atlântico Sul.

A escarpa da falha geológica de Salvador possibilitaria a divisão da cidade em dois planos e, a um só tempo, repartiria as atividades: no cume, a Cidade Alta se consolidaria em local de moradia, do comércio a varejo e das atividades político administrativas. No sopé da encosta, a Cidade Baixa, era onde se desenvolviam os locais de trabalho, do comércio por atacado e das intensas atividades portuárias. Ao longo do seu desenvolvimento e expansão demográfica, ocorreria, não sem diversos e graves acidentes decorrentes dos deslizamentos de terra, a ocupação das áreas da própria escarpa, principal elo entre as áreas alta e baixa.

Tal divisão geomorfológica, todavia, implicaria um impedimento à articulação entre os dois níveis, com transtornos à mobilidade da população e, em particular, à elite que habitava a parte alta da cidade, mas mantinha atividades empresariais na parte baixa. Era evidente a necessidade de criar meios de comunicação e deslocamento entre as autoridades governamentais, que ocupavam o topo da escarpa, e as atividades comerciais, abaixo da montanha; e de transporte para os mais variados tipos de mercadorias que chegavam ao porto, ou nele seriam embarcadas.

Para vencer o desnível imposto pela geomorfologia do terreno, foram construídos pelos jesuítas os primeiros guindastes (que se tornariam nos recém recuperados planos inclinados) movidos, então, pelo esforço da mão de obra escrava e abertos tortuosos caminhos e ladeiras, além de rampas e escadarias que possibilitariam, ao longo da encosta, as rotas para o percurso da população, de escravos e dos homens de negócios. Obtinha-se, desse modo, o resultado necessário ao primeiro sistema de circulação e transporte de pessoas e mercadorias na Salvador do século XVI.

Resultado de imagem para Jorge Dias foi quem construiu a ladeira da preguiça
Ladeira da Conceição, uma das primeiras da cidade, em gravura de 1625

As primeiras ladeiras de Salvador

Conforme diversos historiadores (tomando por objeto de estudo muito mais a iconografia, face à ausência de documentos), as primeiras construções em Salvador foram estabelecidas na Praia, também chamada Ribeira (parte baixa), onde foram erguidos barracões, um armazém e a pequena ermida, consagrada à Nossa Senhora da Conceição. Na parte alta, o mestre Luís Dias faria edificar uma muralha a fim de cercar o núcleo urbano inicial. Desde então, mesmo bastante íngremes, duas ladeiras se mostrariam indispensáveis para os trabalhos de construção do núcleo matriz e para a comunicação de pessoas e movimentação de mercadorias, interligando as partes baixa e alta da Cidade:

A Ladeira da Conceição, construída por Filipe Guilhem, em 1549, tinha início na Praça do Palácio – hoje, Praça Municipal ou Tomé de Sousa, na qual ainda podem ser observados diversos estilos arquitetônicos – descia pela encosta até o ponto correspondente ao Baluarte (ou Forte) de São Tomé, onde mudava de direção, continuando até um ponto próximo à ermida (hoje igreja) da Conceição.

Foto: Brenda
IMG_0943
Ladeira da Preguiça em 2014. Casarões do lado esquerdo foram demolidos em 2015

A outra, a Ladeira da Preguiça, ou Caminho do Carro, com declive menor, empreitada pelo mestre Jorge Dias. Partia da Porta de Santa Luzia (atual Praça Castro Alves) e seguia até a Ribeira dos Pescadores que conhecemos hoje por Praia da Preguiça. A cidade extrapolaria rapidamente os muros iniciais, fixados entre a praça dos prédios da Casa de Câmara e Cadeia e do Governo Geral (Praça Tomé de Souza) e a porta de Santa Luzia, alcançando o monte Calvário, ao norte, e avançando pelo caminho que levava à Vila do Pereira (Porto da Barra), ao sul.

No início do século XVII, já seriam quatro as ladeiras da Cidade. A primeira, a Ladeira da Misericórdia, partia originalmente da Praça do Palácio indo até a fonte do Pereira. No final do século XIX, vale ressaltar, tal acesso foi transferido para o lado da Santa Casa da Misericórdia, da qual herdaria o nome. As duas outras partiam das portas de Santa Luzia, na altura da atual Praça Castro Alves e se bifurcavam a meia encosta. Um dos caminhos dirigia-se à Ribeira do Góes e o outro para o local onde se havia erguido a ermida da Conceição da Praia, ou seja, as ladeiras da Preguiça e da Conceição. A quarta era a Ladeira do Carmo, que ficava ao norte e daria origem à Ladeira do Taboão.

Essas ladeiras, durante algum tempo verdadeiros caminhos escadeados, visavam, sobretudo, a facilitar a subida. Por serem íngremes, provocaram a necessidade da criação de meios “mecanizados” que resultariam nos atuais planos inclinados, através dos quais se possibilitou levar da praia à Cidade Alta as pessoas e os volumes descarregados dos navios e barcos. No século XVIII, o escritor português Luiz Vilhena já registrava sete ladeiras entre as Cidades Baixa e Alta, considerando as bifurcações: Ladeira da Preguiça, Ladeira da Conceição, Ladeira da Misericórdia, Ladeira do Taboão, Ladeira do Pilar, Ladeira da Água de Meninos e mais uma, logo à frente da de Água de Meninos, a atual Ladeira do Canto da Cruz.

A imagem pode conter: atividades ao ar livre
Detalhe da Ladeira da Montanha em 2013

Na segunda metade do século XIX, se destacaria uma nova ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa com a construção da Ladeira da Montanha (ou Ladeira Barão Homem de Mello), aberta à circulação em 1881. Com declive menos acentuado, facilitaria a comunicação entre a cidade administrativa e seu laborioso porto. No final do século XIX contaríamos com a implantação do sistema de transporte urbano sobre trilhos, modernização e eletrificação de ascensores e a expansão da cidade sobre o mar com o aterro do comércio.

Novas ligações viárias no início do século XX 

Já no início do século XX, exatamente sob os Governos J.J.Seabra (1912-1916 / 1920-1924) aconteceria a modernização da Cidade, fundamentada nas políticas do “progresso, circulação, higiene e estética”. Com as intervenções urbanas promovidas por Seabra (para muitos um “crime contra o patrimônio arquitetônico colonial” da primeira capital do país) seriam implementadas diversas transformações físicas e viárias na velha São Salvador. Ocorreram demolições totais ou parciais de edificações; abertura e alargamento de ruas; nivelamento de ladeiras, descaracterizando parte da região; modernização do porto; abertura de novas ruas e criação da Avenida Sete de Setembro, entre outras. Muitas casas térreas foram reformadas, passando a sobrados e prédios altos.

A descrição dos mais diversos historiadores sobre o processo de ocupação da escarpa de Salvador está baseada, principalmente, na observação da iconografia da época. Para suas conclusões, utilizaram desenhos dos frontispícios, mapas e plantas que abrangem o período que vai do século XVII ao XX.

No sobe e desce das ladeiras – artérias pulsantes do coração da soterópolis – e mesmo ressaltada sua importância histórica e contemporânea, a capital baiana traz na sua dinâmica interior graves problemas sociais e ambientais típicos de um espaço desigual na periferia do capitalismo mundial. É possível, no entanto, identificar na Salvador do século XXI marcas, heranças e legados dos séculos passados convivendo com as novas formas e tecnologias produzidas pela sociedade contemporânea. Mas as ladeiras permanecem fundamentais no cotidiano dos que atravessam a Cidade da Bahia.

 

À deriva, Forte de São Marcelo será privatizado

O forte de São Marcelo está fechado a visitações há sete anos e reformas continuam pendentes

Albenísio Fonseca

Signo bélico e exótico, o Forte de São Marcelo, na Baía de Todos os Santos, permanece à deriva. O acesso a visitas continua impossibilitado há mais de sete anos, em decorrência da ausência de manutenção. Após a reforma na estrutura submersa, ou roca, o Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Bahia, deu por concluída a obra em novembro de 2016, inclusive com festa e anúncio da transferência do equipamento à gestão da Prefeitura, após o restauro que durou dois anos e custou R$ 7,5 milhões.
Acreditou-se até que, finalmente, o equipamento histórico, arquitetônico e turístico, um dos mais emblemáticos cartões postais da cidade, fosse deixar de estar, senão invisibilizado, inacessível ao público. 
Mas a verdade é que isso não aconteceu até o momento. De acordo com o secretário Municipal de Cultura, Cláudio Tinôco, “ainda faltam proceder as reformas hidráulica e elétrica, estimada em R$ 10 milhões, além de outros acabamentos para que possa entrar em atividade”.
De todo modo, ainda segundo Tinôco, “mesmo sem ter assumido a gestão do equipamento, a Secult vem procedendo estudos de alternativas para sua ocupação”. Ele ressalta a necessidade de garantias para o deslocamento de visitantes, apesar da distância de apenas 300 metros para o cais e adoção de critérios de viabilidade econômica que possibilitem a auto sustentabilidade do forte – único em formato circular das Américas.
Ressalte-se que o Memorial do Frontispício, que também passou por obra de restauro a cargo do Iphan, por meio do PAC Cidades Históricas, foi entregue depois do Forte São Marcelo e já está aberto à população, após ser transformado em tempo-relâmpago na Casa do Carnaval.
Cláudio Tinôco adianta já existir uma empresa interessada em gerir o espaço, “de forma direta”, o que compreenderá a privatização ou terceirização do patrimônio junto à iniciativa privada, embora ainda não esteja definido se, para isso, a Prefeitura lançará ou não edital de concorrência pública. 
O secretário avalia como “muito ruim” o fato do forte permanecer fechado, “tanto para a cidade como para a Baía de Todos os Santos”. Ele destacou as “simbologias arquitetônica, histórica e o caráter bélico do São Marcelo, como das demais fortificações existentes na faixa litorânea do município, como responsáveis pelo status de cidade-fortaleza que durante séculos caracterizou Salvador”. Assinalou, também, a localização estratégica, na entrada do porto, e a proximidade com outros equipamentos turísticos como o Elevador Lacerda, a Fonte de Mário Cravo, Mercado Modelo e o Terminal Náutico.

Estudos buscam alternativas
de uso do equipamento 

Imagem relacionadaEspaço poderá voltar a dispor de restaurante

Uma das hipóteses cogitadas pela Prefeitura é a de instalar ali o Memorial da Baía, diz Tinôco, “de modo que permita contar a história dos inúmeros naufrágios ocorridos nas águas da Baía de Todos os Santos, os sistemas de transporte já adotados para o transporte de pessoas e mercadorias junto aos 18 municípios do entorno, além da disposição de restaurante e espaço para contemplação da capital naquele trecho”. Entre outras alternativas, há propostas como base para turismo subaquático; ponto de percurso turístico com instalação de barracas para comercialização de souvenirs, além da realização de eventos, como já contemplado naquele espaço.
A iniciativa de revitalizar o São Marcelo navega com dificuldade junto às da implantação do Museu da Música (no casarão dos azulejos azuis), integrado ao do novo prédio para o Arquivo Público Municipal (no outro casarão em ruínas ao lado). As obras estão estipuladas em R$ 40 milhões, além da requalificação da Praça Cayru, orçada em R$ 7,5 milhões, com recursos do Ministério das Cidades e do PAC-Cidades Históricas. O lançamento da licitação para as restaurações arquitetônica e viabilização do acervo museológico do Museu da Cidade, conforme o secretário, estava prevista para janeiro de 2018. Agora, a municipalidade acena com entrega dos equipamentos, mesmo sem qualquer iniciativa para deflagração de obras, em 2020. 

Prodetur não sai do papel

Resultado de imagem para baía de todos os santos
Vista da Baía de Todos os Santos da Praça Municipal de Salvador
Prodetur para a Baía
de Todos os Santos
não sai do papel
 
Albenísio Fonseca
 

As águas da BTS-Baía de Todos os Santos são claríssimas em seu tom verde azulado, mas a transparência do Prodetur-Programa de Desenvolvimento do Turismo, sob gestão do Governo do Estado, é completamente obscura.

Há cinco anos à deriva ou dormitando no cofre, nada menos que US$ 84,7 milhões (cerca de R$ 250 milhões), viabilizados junto ao BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento para o programa, permanecem sem destinação. Sob dados defasados no site do programa na Internet, as únicas aplicações do recurso, até o momento, envolveu a contratação de um consórcio para viabilizar como aplicar o dinheiro e reuniões com setores e municípios sem que a iniciativa se concretize.

Entre outras ações e sem direito a comemorações nos 517 da descoberta da BTS, o Prodetur-Bahia envolve a construção e recuperação de atracadouros, assim como a construção de nove bases náuticas e pontos de apoio; revitalização de museus, qualificação de mão de obra, além da construção de um SAC náutico, que permita agilizar os trâmites das embarcações, em um universo que compreende 18 municípios, quase todos no entorno da BTS. 

 

Em ritmo de Roteirização

 

A primeira etapa, denominada por ‘Roteirização”, envolveu reuniões com os setores diretamente interessados em um novo cenário para dinamização do turismo na Baía. A primeira delas aconteceu em Cachoeira com a participação de municípios vizinhos. Uma segunda, sob o mesmo critério de participações, em Itaparica, e uma terceira, em Madre de Deus. A atividade tem como objetivo apresentar, ou indicar espacialmente, a nova roteirização para a integração dos atrativos constantes do patrimônio da BTS.


Acidente com a lancha Cavalo Marinho I causou a morte de 19 pessoas

 

Frente ao naufrágio da lancha “Cavalo Marinho I”, com 19 mortes, em 24 de agosto de 2017, na Baía de Todos os Santos, o Governo do Estado parecia permanecer sem projetos para executar ações de infraestrutura e transportes no amplo universo náutico que circunda o Recôncavo baiano.  Tem, até então, acenado unicamente com a construção de uma ponte ligando a capital à Ilha, como se esse caríssimo empreendimento negociado com os chineses, fosse abolir do cenário o transporte marítimo e a potencialidade turística e cultural da BTS. Diante de vazamento de substância oleosa no Rio São Paulo, município de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, em 13 de junho de 2018, integrantes do Conselho Estadual do Turismo aprovaram moção de protesto para cobrar da Petrobras providências urgentes, a fim de assegurar a plena recuperação da área atingida. A empresa informou que cerca de 90% da área atingida pelo vazamento foi limpa por sua equipe de contingência.

A estratégia de produto turístico, vislumbrada sob os milhões de dólares do BID, tem o objetivo de desenvolver novas opções nos segmentos náutico e cultural, com vistas a ampliar a demanda e a competitividade da BTS nos mercados nacional e internacional. Nesse sentido, tem ainda como desafios: possibilitar o aumento do fluxo turístico (atraindo aquele com maior propensão a gastar); proporcionar melhor aproveitamento turístico ao acervo cultural; desconcentrar a atividade turística no Estado; e, com isso, “minimizar impactos de fatores macroeconômicos externos na economia regional”.

Foto: Tatiana Azeviche/Setur

O Museu Wanderley de Pinho, em Candeias, também ganhará intervenções

Requalificações e capacitações

 

Entre as linhas gerais do projeto consta a proposta de criação de um programa integrado de intervenção, com implantação de receptivos turísticos em bases náuticas e pontos de apoio ao turista. Como parte da recuperação do patrimônio cultural, há previsões de intervenções que visam, também, à requalificação do entorno da Rua Chile, a exemplo das ruas Rui Barbosa, D’Ajuda, Tesouro e transversais, inclusive com criação de um estacionamento na Rua do Tesouro, não se sabe ao certo se na área do Muncab-Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, e uma Feira de Antiguidades, na Rui Barbosa, onde já se concentra o maior número de lojas do ramo. Está prevista, ainda, a recuperação das instalações físicas do Museu Wanderley de Pinho, em Candeias.

O Prodetur na Bahia, conforme revelado, deve ir além das obras físicas. Contará com medidas voltadas para capacitação de microempresários, inclusive artesãos, e desenvolvimento de políticas econômicas locais, a exemplo do sistema de transporte. Há, do mesmo modo, intervenções cogitadas para a implantação de sinalizações rodoviária, turística e marítima nos municípios envolvidos no programa.

O pacote prevê, inclusive, obras de urbanização na orla de São Félix e a construção do Centro de Documentação e Memória da Cultura Negra do Recôncavo, em Cachoeira. No que tange à infraestrutura com foco ambiental, os projetos incluem a implantação de um plano de gestão integrada de resíduos sólidos e o desenvolvimento de uma central de captação de dejetos produzidos pelas embarcações em toda a área da baía.

 

Ex-secretário diz ter deixado tudo pronto

 

De acordo com Domingos Leonelli, secretário de Turismo no Governo Jaques Wagner, “trabalhamos na Setur. com uma excelente equipe coordenada por Clarissa Amaral e realizamos todos os procedimentos e prazos exigidos pelo BID, para a captação do recurso visando a  requalificação da Baia de Todos os Santos para o turismo náutico, inclusive prevendo a criação de novos atracadouros na ilha de Itaparica”. 

Leonelli lembra ter saído da Secretaria em dezembro de 2013, e salienta ter “deixado uma equipe com treinamento do próprio BID”. Ele ressaltou que Pedro Galvão, seu sucessor, foi à Brasília, em 2014, assinar o termo do financiamento para o contrato e inicio das obras. De acordo com o ex-secretário, “soube depois que, no governo de Rui Costa, quando o titular da Setur era Nelson Pellegrino, estranhamente, em que pese a qualificação, toda a equipe foi substituída” e houve uma tentativa de mudar o projeto para contemplar os litorais de Ilhéus e Itacaré, o que acarretou um atraso de 18 meses para viabilizar a nova proposta”, afinal, recusada pelo BID.

Segundo Clarissa Amaral, que coordenou a elaboração do projeto, “começamos a negociar com o BID em março de 2011. Em 2012, depois de três missões do banco, concluímos o projeto que foi autorizado pelo Governo Federal, avalista do empréstimo, em 2013. Como o Governo do Estado, naquela época, estava sem capacidade de endividamento, o contrato só veio a ser assinado em abril de 2014″.

Ela destacou a relevância e grandiosidade do projeto “dada as ações que vão desde implantação e recuperação de infraestrutura náutica à recuperação de patrimônio histórico-cultural, qualificação de recursos humanos, visando capacitar e ampliar a cadeia produtiva do turismo, além do fortalecimento institucional das instâncias de governança, preservação do meio ambiente e modernização tecnológica”.

Através da Setur-Secretaria Estadual de Turismo, sabe-se apenas que ainda não se conseguiu definir como se constituirá a implantação de um  sistema de governança para o Programa. É visível, também, o quanto permanece sem divulgação pública os itens que comporão o “Portfólio de Produtos Culturais Criativos”, tampouco como se dará a “qualificação profissional” para os “Produtores Culturais Criativos”, ou quanto à adoção de empresas incubadoras para tais produtos. Mas é certo que a etapa seguinte, cuja última data anunciada para início das intervenções seria o início do segundo semestre de 2018, consistirá na abertura de licitações para obras físicas, em um conjunto de ações estruturantes para o desenvolvimento do turismo náutico e cultural na BTS. 

Consideremos então que, embora com disponibilidade de recursos, a “maré” empreendedora do Governo do Estado permanece baixa, o que nos leva a navegar sob a expectativa de que não entre água nessa importante iniciativa cujos municípios a serem beneficiados são: Aratuípe, Cachoeira, Candeias, Itaparica, Jaguaripe, Madre de Deus, Maragojipe, Muniz Ferreira, Muritiba, Nazaré, Salinas da Margarida, Santo Amaro, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz, além de Salvador. #

O Brasil não é para amadores. Só para profissionais. Mas a Estética é a da Fome, Severina.

Resultado de imagem para power to the people

O Brasil, tão estúpido, foi mesmo

capaz de eleger Bolsonaro, como mostravam os memes.

O antipetismo é um equívoco social e político.

Ao tentar segregar, a direita busca impor uma hegemonia fascista, sob economia de lesa-pátria

O eleitorado, induzido à granel e por atacado.

Do ponto de vista institucional e midiático, com o mercado (templo do capitalismo) na balança, sob uma conjuntura global de guerra econômica, em meio ao jugo pesado da águia e do urso, players do imperialismo, sob desvantagem educacional e cultural, analfaômega – os poderes se apoderaram da legitimação com suas jurisprudências de pensamento único, Congresso sem foco, Executivo desvirtuado, judiciário partidarizado, militares policializados, bem entendido, o Brasil parece ter trocado a vocação antropofágica pela autofagia.
À Tropicália pelo credo no engôdo.

A ruptura operada pelo golpe na vida, se preferir no imaginário, nacional, rompendo o contrato de legitimação da eleição de 2014 e aprisionando o ex-presidente Lula, poderia ser suturado nessa nova eleição. Com o resgate da linha evolutiva política da Nação. Em tempo: vale lembrar que Movimentos (termo caro às tendências artísticas), em política designam insurreições voltadas para compromissos com os setores excluídos, e não para o entreguismo, militar inclusive, de excluir ainda mais. Reformas? Só as de base.

O povo no poder – “Power to the people” – foi uma bandeira dos anos 60, tremulada por John Lennon.
Agora, mais que reivindicação, o embate é no âmbito de uma esfera pública digital.

e-D.

O poder em rede. Ciberativismo. “Não toquem na minha Internet”, exclamariam.

Mas o ambiente ainda é analógico. Na Terra em Transe vivemos sob o confronto
entre o dragão da maldade contra o santo guerreiro ou de Deus e o diabo na terra do Sol.

Mas a alegria dos palhaços é ver o circo pegar fogo, à moda dos museus.
Ensandecidos contra a Arte. Reacionários de toda performance, reprimidos da sexualidade
passeiam à tarde entre os girassóis. E nós? Os mutantes são demais. Face a face com o imutável.

Afinal, até quando a mazela política há se de sobrepor às manifestações culturais?

À maravilha das expressões artísticas, da pesquisa, da inovação, em regime de economia criativa, sob o zelo do patrimônio histórico e natural, dada a cidadania a atuar pela gestão da riqueza de que o país é dotado, digo, El-Dourado, com o intuito de contemplar toda à população?

No país dos sonhos

ocorre uma Democracia Participativa.

Por norma, não se transfere a representatividade.

Mas o cenário que se abrirá com um novo presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais eleitos, inaugurará nova correlação de forças no campo político, entre articulações desvairadas, não digo que devastadas, sob enorme clamor & silêncio da mídia, suponho, assegurada ainda mais a insegurança jurídica, sob o velho signo dominante, de classe, digo, castas, cara a cara com a nossa indigitada miséria histórica.

Regidos pela tecnologia do compartilhamento na era industrial da remoção de conteúdos.

E olha que não sou nada religioso,

mas dei para evocar:

– Deus me livre! E guarde!

Materialista, ainda bato na madeira: toc toc toc.

Albenísio Fonseca

Transporte coletivo em Salvador: Do bonde ao trólebus, da marinete ao metrô.

Imagem incorporada
Salvador com serviço de transporte por bondes elétricos no final do século XIX 

Bondes permaneceram preferidos frente aos ônibus até meados do século XX

Sob tração animal, Gondolas inauguram o sistema de transporte coletivo em Salvador

Albenísio Fonseca

A história do transporte urbano que atravessa Salvador começa em meados de 1845, há 173 anos. Uma lei municipal concedia o privilégio de se estabelecer companhias de ônibus ou gôndolas (espécie de diligências, como vemos nos filmes de bang-bang, porém maiores e puxadas por quatro animais). Sobre um dos animais ia sempre o cocheiro. O preço da passagem era de uma pataca ou 320 réis. As cadeiras de arruá – que conduzia os aristocratas no período colonial, até podem ser arroladas na história dos sistemas de transporte, mas sem as características de condução em massa.

Os antigos guindastes, criados pelos jesuítas, que faziam o transporte de cargas e mercadorias, também no período colonial, foram transformados em planos inclinados e passaram a transportar passageiros – como o Guindaste dos Padres, transformado no Plano Inclinado Gonçalves. Somente seis anos depois de aberto a concessões, já em 1851, teria início o serviço regular de bondes com duas linhas: uma da Cidade Alta até a Barra e outra, das Pedreiras até o Bonfim.

Em 1864 foram criadas novas linhas sobre trilhos e aprovadas concessões para os serviços de passageiros entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, mas o primeiro bonde movido a energia elétrica somente viria a ser lançado em 1897. Vale destacar o quanto a cidade já era servida pelo transporte vertical, com os planos inclinados, fundamentais para a criação de um sistema moderno, numa rede de transportes urbanos integrada com os novos bondes, vez que as antigas ladeiras eram tidas como “resquícios antiquados da labiríntica cidade colonial”.
Imagem incorporadaElevador do Taboão, conhecido por “Balança”, também segue abandonado
 

Um elevador incrustado na rocha

As concessões foram transferidas, logo em seguida, para o negociante Antônio Francisco de Lacerda. Ele fez mais que explorar tal sistema. Decidiu implantar um elevador ligando as duas partes da cidade. Para tanto, importou material da Inglaterra e montou os elevadores, que funcionariam através de sistema hidráulico, cuja inauguração ocorreria em dezembro de 1873. É claro, em meio a uma grande festa popular – não esqueça que estamos em Salvador.

O Elevador Hidráulico da Conceição, conhecido popularmente como “Parafuso”, por ter sido construído “incrustrado” na rocha, seria o primeiro elevador da cidade e, para alguns, pioneiro em todo o mundo, consolidando-se em marco técnico desta rede de transportes e símbolo do processo de modernização urbana. O Elevador do Taboão, denominado de “Balança”, além de passageiros, transportava cargas e seria construído em ferro 23 anos depois, mas permanece desativado há décadas.

Imagem incorporada Imagem incorporada
Elevador Lacerda era conhecido por “Parafuso” e o Guindaste dos Padres, transformado em plano inclinado

Revolução Industrial e eletricidade alteraram
os sistemas de transportes no mundo

O aparecimento do transporte público de modo quase simultâneo em várias cidades do mundo decorreu da revolução Industrial. A produção de bens, até então feita de forma artesanal ou semiartesanal, nas próprias casas dos trabalhadores e com ferramentas rudimentares, passou a ser realizada com a ajuda de máquinas e ferramentas especiais que ficavam nas fábricas, obrigando os operários a se deslocarem diariamente de suas casas para o novo ambiente de trabalho.

Com o advento da eletricidade, o mundo mudaria ainda mais, proporcionando enorme propulsão ao desenvolvimento do transporte coletivo. Em 1897, Salvador seria contemplada com a revolução energética, possibilitando a substituição da tração animal pela eletrificação nos bondes, quando foi inaugurada, também festivamente, a primeira linha de bondes elétricos, explorada pela Companhia de Veículos Econômicos, ligando a região do Comércio a Itapagipe. É importante salientar que Salvador foi a segunda cidade do país a dispor do sistema eletrificado. Até então, o serviço fora adotado apenas no Rio de Janeiro, então capital federal.

O Elevador Lacerda também sofreria mudanças em seu mecanismo hidráulico, substituído por um elétrico em 1908. Após a inauguração do serviço elétrico na Cidade Baixa, a Cia. Linha Circular foi autorizada a utilizar o mesmo sistema na Cidade Alta. A partir daí, o traçado dessas linhas passou a determinar o direcionamento da expansão urbana na primeira capital do país. Em 1910, Salvador contava com considerável quantidade de linhas eletrificadas que atendiam às partes Alta e Baixa da cidade. Em 1911, surge o bonde-salão, um veículo de luxo para recepções a altas autoridades em visita à cidade, casamentos, batizados e solenidades diversas. Surgiram, também, os carros fúnebres e o bonde-assistência, utilizado para o transporte de doentes.

Imagem incorporada
Quebra-bondes, em 1930, resultou na queima de 87 bondes por populares 

1912 e 1930 são anos marcantes na história da capital

Ano marcado pelo bombardeio da cidade por ordem do presidente Hermes da Fonseca em decorrência da competição pela sucessão no Governo do Estado entre Rui Barbosa e J.J. Seabra – em 1912 tem início, ainda que de modo precário, a operação dos ônibus em Salvador. O bonde, todavia, permanecia como a melhor alternativa de transporte. Porém, as companhias que operavam o modal dependiam da importação de materiais e componentes e sofreriam grande abalo no período da I Guerra Mundial, de 1914 a 1918, o que acarretou considerável queda nos serviços e fortes críticas da imprensa. Em Salvador, as intervenções urbanas promovidas por J.J. Seabra, visavam “apagar os rastros da cidade escravocrata”, promover uma “higienização”, torná-la em uma pretensa urbis moderna.

Dois fatos são extremamente marcantes em 1930: a reforma do Elevador Lacerda que impingiria sua atual forma monumental – com uma nova torre externa em concreto, traços verticais art déco e duas novas cabines mais rápidas, ligada por uma ponte de acesso em aço sobre a Ladeira da Montanha e o “quebra-bonde”, promovido por usuários e populares em protesto contra os maus serviços e reajuste na tarifa. Durante dois dias, tocam fogo em cerca de 87 bondes em diversos locais da cidade. A empresa acionaria o governo pelos prejuízos e, mesmo obtendo ganho da causa não coloca mais bondes em serviço. Com isso, durante bastante tempo Salvador foi uma das cidades mais mal servidas de transportes urbanos do Brasil.

O futurismo do elevador Lacerda e as marinetes

O arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo, em seu parecer como membro do conselho consultivo do patrimônio histórico e artístico nacional do IPHAN, que tomba o elevador Lacerda como patrimônio nacional em 2006, enfatizaria: “O novo elevador Lacerda parece inspirado no Movimento Futurista, que buscava uma estética da máquina e da velocidade. A visita do poeta italiano Marinetti ao Brasil, exatamente em 1927, provocou um grande reboliço no Sul e em especial no Nordeste, onde os recém-lançados ônibus passaram a ser conhecidos como marinetes. O tratamento art déco dado à torre, inspirado nos princípios aerodinâmicos dos aviões, expressa bem a velocidade do elevador que fazia o percurso de 60 metros em apenas 17 segundos”.

Necessário lembrar que o primeiro manifesto futurista, o Manifesto del Futurismo, foi publicado em 1909 no tradicional jornal francês Le Figaro. O texto ressalta a velocidade, a juventude e o futuro: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. […] O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo o absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente. […] nós não queremos mais nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas. […] Olhem para nós! Ainda não estamos extenuados! Nossos corações não sentem cansaço algum, porque se alimentaram de fogo, ódio e velocidade!…”

Imagem incorporadaCerca de 600 ônibus foram depredados contra reajuste na tarifa

Novo quebra-quebra danifica 600 ônibus e tem 10 incendiados

Somente em 1955, 25 anos após a crise de 1930, a Prefeitura baixaria decreto considerando “em crise” os serviços de transporte urbano. Seis anos depois, já em 1961, os bondes começam a entrar em extinção, sendo paulatinamente substituídos pelos ônibus. Em 1957 é inaugurado o serviço de trólebus – ou ônibus elétricos – na Cidade Baixa, em tentativa de substituição aos bondes, mas, já nessa época, a participação da iniciativa privada através de lotações e ônibus se fazia fortemente presente no atendimento à demanda de passageiros.

A expansão do sistema de transporte coletivo por ônibus se expandiria nos anos seguintes, mas a regulamentação do serviço de transporte coletivo só viria a ocorrer em 1971 e, somente a partir daí se desenvolveriam estudos, planos e projetos de transporte para a cidade. Em 1981 é iniciada a construção da Estação da Lapa. Em agosto daquele ano, a exemplo do ocorrido em 1930 com os bondes, também por conta de reajuste na tarifa, acontece o “quebra-quebra” de ônibus em Salvador, deixando um saldo de três mortos, dezenas de feridos, 600 ônibus danificados e 10 incendiados.

Como reflexo da reação popular, em novembro é criada a STU-Secretaria de Transportes Urbanos e estabelecida uma tarifa única para o serviço de ônibus. Em 1984 é implantado o sistema tronco-alimentador de integração fechada no Terminal EVA que, dois anos depois, em 1986, é substituído pela centralização com a Estação Nova Esperança. Também neste ano é lançado o projeto Bonde Moderno que teve algumas estruturas iniciadas, mas não chegaria a ser concluído.  Ainda assim, já entre 1989 e 1992, adota tráfego exclusivo por vias como Bonocô/Vasco da Gama, viadutos Posto São Jorge, Raul Seixas e Chico mendes e erguidas as primeiras passarelas de acesso ao sistema nas avenidas Bonocô e Vasco da Gama, entre outras.

Adoção da tecnologia dos cartões inteligentes

Rumo ao final do século, em 1992, o sistema de transporte por ônibus passa por intensa renovação da frota, com as empresas adquirindo novos e modernos veículos, inclusive os “duplicados” e os com ar-condicionado que ganham o apelido de “frescões”. Em 1995 é construída a Estação Pirajá e reformulado o sistema tronco-alimentador na região das Cajazeiras, por onde a cidade se expandia. Um ano depois é implantado o processo de bilhetagem eletrônica, com a adoção da tecnologia do cartão inteligente, ou Smart Card. Inicialmente era destinado aos estudantes que ganham o direito à meia-passagem; aos beneficiados pela gratuidade no transporte e, já no século 21, entraria em operação o vale-transporte.

A exemplo do ocorrido no final dos anos 60, quando a cidade passou a ser servida por kombis para o transporte coletivo, em 1998 é implantado o subsistema de transporte complementar operado por vans. Em 1999 é realizada a concorrência pública para a construção do metrô de Salvador que, após controvérsias judiciais e inúmeras paralisações nas obras, teria sua primeira etapa inaugurada em 2014. Evidentemente, a expansão do serviço de transporte por ônibus deve-se ao aumento da demanda e, ainda, à sua maleabilidade operacional, com melhor adaptação às grandes transformações ocorridas nas cidades brasileiras e, especialmente, em Salvador. Mas é certo que a alimentação por combustível derivado do petróleo vem relegando o modal à condição de um sistema ultrapassado, como se pode constatar na tentativa da Municipalidade em construir um BRT (sistema de ônibus rápidos), com grave impacto ambiental,  a cidade segue de metrô enquanto aguarda o VLT-Veículo Leve sobre Trilhos.
Resultado de imagem para metrô de salvadorMetrô, inaugurado após muitas interrupções e denúncias nas obras

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

O NÃO-LUGAR DO PALÁCIO THOMÉ DE SOUZA

Resultado de imagem para palácio thomé de souzaConstrução se mantém por uma espécie de usucapião à moda do poder público
Albenísio Fonseca
Em 16 de maio, o Palácio Thomé de Souza, isto é, a versão contemporânea da sede da Prefeitura de Salvador, completou 32 anos de “edificado”, pelo ex-prefeito Mário Kertész, com base em projeto do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. As obras foram iniciadas oficialmente em 2 de maio de 1986 e concluídas em 16 do mesmo mês.
Há alguns anos teve a luminária frontal, expositora do dístico e logomarca do município, queimada por curto circuito; desagravo térmico e visual do escapamento do ar condicionado sob a edificação; esgotamento sanitário comprometido, desgaste dos sistemas elétricos, telefônicos e de captação da água pluvial, além de infiltrações que encharcaram carpetes e despacharam o Executivo, a Casa Civil e a Secretaria de Comunicação para outros prédios. “A cavaleiro do Atlântico”, como consta na placa inaugural – o palácio parecia não resistir até o final da gestão João Henrique…
Em 1986, o prefeito Mário Kertész relocou a Prefeitura, do Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, para a Praça Thomé de Souza (também chamada de Praça Municipal), primeira praça da cidade. Erguido em 15 dias, com pré-moldados, sobre a ignomínia da demolição dos prédios da Biblioteca Pública e da Imprensa Oficial, e em cujo vazio construiu-se uma praça e um estacionamento subterrâneo, cognominado “Cemitério de Sucupira”, o prédio contrasta seu estilo contemporâneo frente à arquitetura neoclássica do Palácio Rio Branco, a art decó do Elevador Lacerda e o caráter neocolonial da Câmara de Vereadores.
Resultado de imagem para palácio thomé de souza
Sob projeto arquitetônico de Lelé Filgueiras, Palácio foi erguido em 15 dias, com pré-moldados

A locação seria temporária, segundo solicitação do ex-prefeito ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Kertész argumentava que o destino final da sede do Executivo seria um dos casarões abandonados do Centro Histórico. Sob tal condição, sem parecer mais detalhado, construiu-se o Palácio Thomé de Souza.

Em 2004, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública denunciando a intervenção arquitetônica e acusando o IPHAN de omissão. O juiz deu ganho de causa, obrigando a retirada do prédio em 60 dias a contar da posse do novo prefeito.
Omisso ao longo desses 13 anos, o IPHAN falhou ao não usar os atributos e responsabilidades que a União lhe outorga, e falha a Prefeitura, seus velhos e novos ocupantes, ao desrespeitar decisão judicial, por prescindir da mesma como se acima destas questões, e dando a construção por sancionada pelo tempo, em uma espécie de usucapião à moda do poder público.
Resultado de imagem para palácio thomé de souza Imagem da Praça Municipal com o jardim anterior à instalação do Palácio
O efeito das chuvas sobre o Palácio contaria com laudo técnico estimando a restauração em dois meses, período em que o prefeito João Henrique permaneceu ao abrigo da Secretaria da Educação, em Brotas; a Casa Civil em prédio da Procuradoria Geral do Município, na Ajuda; e a Secretaria de Comunicação, no Edifício Oxumaré, na Ladeira de São Bento, onde funciona sua redação.
Sob as asas da pomba, nosso simbolismo reverência (sic) à Arca de Noé, no limite do Sítio Histórico de Salvador, declarado patrimônio nacional em 1959, e da Humanidade, em 1985, resta citar nosso dístico para gastar o latim: Sic illa ad arcam reversa est (“Assim ela retornou à arca”).
Resultado de imagem para praça tome de souzaAntigo prédio, entre a Imprensa Oficial e a Biblioteca Pública, era réplica da Public Library de Nova Iorque
——————————–
Albenísio Fonseca é jornalista (MTE: 2834 – DRT/BA),
autor de “Jornalismo Cultural em Transe – Épocas em cena” (Ed. Boa Ideia, 2017).

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Biblioteca Pública da Bahia faz 207 anos

ALBENÍSIO FONSECA

                                                                                        Foto: Divulgação                                              
                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 207 anos neste domingo, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Em meio a grave crise de manutenção, nenhuma atividade está programada para marcar a data.
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

JOVENS PARA SEMPRE OU, A DANAÇÃO DA JUVENTUDE

Resultado de imagem para juventude brasileira no seculo xxi


Albenísio Fonseca

 Filhos de casais separados, de mães solteiras chefes de famílias, boa parte dos jovens brasileiros são verdadeiros rebeldes sem causa ou, paradoxalmente, cheios delas. Esta juventude – e considere-se aqui uma faixa etária entre 15 e 27 anos – foi tolhida em algumas das suas mais vitais capacidades de vir a oferecer contribuições eficazes, seja na resolução de suas vidas, seja no próprio desenvolvimento da sociedade brasileira como um todo.

 

Embora “ser jovem”, diferentemente da adolescência (dos 12 aos 18 anos), refira-se a um período não necessariamente delimitado pela idade, trata-se de grupo geracional no qual estão inseridos valores bem próprios, mas que compreende outros fatores relacionados a intensas transformações biológicas, psicológicas, sociais e culturais, que variam de acordo com as diferentes classes sociais, culturas, épocas, etnias, gênero, dentre outros determinantes.

Nascida em meio a crises econômicas, sob o signo da Internet e de uma “Constituição Cidadã”, essa geração tem como parâmetros em termos comportamentais certa indignação, mas sob uma distância abismal entre a representação ideal da juventude e as diversas realidades em que se encontra a maioria dos jovens do Brasil. É visível – como se diria de saltar aos olhos – o quanto para os jovens negros e pobres resta o estigma da marginalidade e associação à violência e criminalidade. Para os demais, prevalece certa ótica progressista, embasada na ilusória liberdade individual.

Seguem com direito a políticas de cotas, a extraordinário acervo de informações do repertório global da humanidade, mas é fascinada apenas pelos tipos moldados pelo sistema cíclico da moda e da mídia. Como seres emblemáticos da Civilização da imagem, odeiam a leitura.

Há perguntas sem respostas imediatas: Os tempos de mudança estariam de volta, quer a história repita-se (como farsa, tragédia) ou não? Há uma nova onda reativando as cabeças, redimensionando as aptidões? O certo é que, para a maioria dos que transitam nessa geração, quase não há mais tempo para reflexões e sim para respostas na ponta da língua, ainda que não percebam o quanto entrar na vida é ter que dar respostas ao fato de estarmos inseridos num sexo, numa cultura, numa classe social, num regime político, em um sistema econômico. E a crise, cultural antes de ser política, mais pessoal que do campo das idéias, mantém-se como inescapável expressão das individualidades.

O sistema fascina seus olhos, narinas e bocas com a glamourosa tentação de que se adapta aos seus desejos, quando na realidade são todos os seus desejos que se adaptam perfeitamente aos ditames das regras sociais, à voracidade do capitalismo e seu apetite de avestruz. Sim, fazendo-os ingerir a coca-cola  com casco e tudo no burburinho dos fast foods.

A juventude, “made in Brazil”, desde a primeira década do século 21, tende a encarar a existência muito mais como “suporte” que como linguagem. Corações e mentes tatuados em invólucros de games, celulares, amizades via redes sociais, no cuidado excessivo com a aparência e sob o desejo de replicar tudo o que seja sucesso, seguem pelos “shoppings” preocupados com o que transcorre nas novelas da vida de personalidades estampadas na mídia.

Nesse jogo de espelhos, não é tanto a busca de identidade quanto a de uma imagem o que os jovens pretendem discernir, na superfície áspera da sociedade de consumo com seus dedos pegajosos. E, “lost”, poucos buscam investir na tarefa de suscitar a si próprios enquanto experimentação social. Assim, a velocidade da modernização econômica e a ênfase no imediatismo têm gerado o que se pode supor como um novo conteúdo para a representação social da experiência de “ser jovem”.

A questão juventude será sempre um tema em evidência. Mais que um blábláblá, o que permanece em toda polêmica sobre o tema é uma ira quase incontível. Sim, em meio à dificuldade de esboçar um raciocínio, formular pensamentos lógicos e escrever com sintaxe e semântica corretos, tampouco demonstram buscar qualquer sentido para a existência além de um exibicionismo qualquer ditado pela indústria cultural. Como se disséssemos de objetos, mais que de sujeitos, em uma sociedade de consumo ostentatória.

Longe das escolas, as primeiras hordas lotam as ruas e casas de recolhimento. A violência, as drogas, a falta de empregos e de políticas públicas, um ensino caótico, são obstáculos a serem transpostos. Que as propostas de retomar o debate sobre a condição da juventude, seja em Salvador ou qualquer outra cidade brasileira, sejam bem mais que um retoque no batom ou um filete de sangue a escorrer das esquinas nas nossas faces. ##

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

178 ANOS DEPOIS Para que serve e para onde vai a arte da fotografia

Está cumprido o vaticínio do pintor belga Antoiene Wiertz no início dos anos 40 do século 19: “Tem pouco tempo de idade a glória de nossa época, uma máquina que dia a dia nos surpreende. Dentro de um século ela será o pincel, a paleta e as cores, a habilidade, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o verniz, o esboço e a arte final. Quando este bebê gigante crescer, quando todo o seu poder e sua arte estiverem desenvolvidos, o gênio vai aparecer de repente, agarrá-lo pelo colarinho e dizer: Ouça bem, de hoje em diante você me pertence. Vamos trabalhar juntos”.


Albenísio Fonseca

A câmera fotográfica – como se diria de um artefato selvagem que aponta e dispara – completa 178 anos de inventada em 2017. O dia oficial de nascimento da fotografia – e que assinala a data comemorativa, em âmbito mundial – é 19 de agosto de 1839. Naquele dia o primeiro daguerrótipo foi apresentado à Academia de Ciências de Paris. Louis Jacques Mandé Daguerre, que o patenteou, lançou mão das pesquisas de muitos que o antecederam, inclusive as de Joseph Nicephore Niépce, seu sócio, que morreria pouco antes do projeto estar inteiramente pronto.


O princípio da câmera escura

O princípio da câmera escura, por exemplo, já era conhecido há séculos, usado por desenhistas e astrônomos, entre os quais o multiartista Leonardo da Vinci. Considerando a ambiência histórica, vale registrar também a contraposição à fotografia levada a efeito pelo poeta francês Charles Baudelaire: “Se se permitir que ela tome lugar ao lado da arte, logo irá suplantá-la e corrompe-la pela aliança natural que fará com a burrice das massas. É preciso que ela volte para o seu verdadeiro lugar que é o da mais humilde serva das ciências e das artes”, reagiria.

Nos próximos dias 20 e 21 de setembro, no Palacete das Artes, na Graça, em iniciativa conjunta da Escola de Belas Artes e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, acontece a exposição das fotos vencedoras, palestras e debates que marcarão o I Colóquio de Fotografia Pierre Verger. Como diagnostica a iniciativa o professor de Filosofia Antônio Saja, “vivemos em um entreato, numa intermitência histórica. Num período de rupturas estéticas, de quebra de paradigmas, de abandono de referenciais prévios. Estamos em uma época de mudança e numa mudança de época”.

Um evento para além da imagem

Afinal, conforme o professor José Mamede, da Escola de Belas Artes da UFBA, “como compreender a fotografia neste contexto de incertezas? De uma prática solidamente legitimada no território da Comunicação, a fotografia expandiu-se pelos universos da Arte e da Cultura”, contextualiza. O I Colóquio é definido, também por Mamede, como uma “ação que visa interrogar a imagem fotográfica da perspectiva dos seus usos sociais, artísticos e culturais”.

— Que Fotografia é essa que hoje se propaga por redes sociais, festivais, feiras, museus, galerias, editais e prêmios? Quais gêneros de trabalhos fotográficos estão sendo selecionados para Festivais de Fotografia e Bienais de Arte? E nos editais, as políticas públicas estão legitimando que tipo de foto? Tais questões estarão no centro do I Colóquio de Fotografia da Bahia.

Vale ressaltar, ainda, o quanto os aparelhos celulares absorveram a tecnologia das câmeras fotográficas digitais e, mesmo inferiores em termos de resolução, praticamente as levaram à obsolescência. O certo é que, 178 anos depois, a presença das fotos e vídeos (com áudio), em formato digital, invadiu nossas vidas e consolidou, em grande parte, a instauração da civilização da imagem.

Desde o advento do celular e sua popularização nas duas últimas décadas do século 20, e já em plena era do selfie, do narcisismo inescapável a um click, ou dos efeitos photoshop de que nos tornamos ardilosos produtores de imagens, a humanidade orbita, agora, seu olhar telescópico, com o Humbble, universo adentro.

—————————————-

Albenisio Fonseca é jornalista

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Da bienal ao caos. Ou, deixe para amanhã, você está no MAM!

 

                                                                                                                   Fotos: Albenísio Fonseca
Parque das Esculturas, como o Solar, permanece relegado ao abandono e interditado ao público

 


Em plena Baía de Todos os Santos, também exangue, espaços nobres do MAM estão à revelia

Equipamento construído no século XVI, de fundamental importância histórica, turística e cultural para Salvador, o Solar do Unhão, na Avenida Contorno, onde está instalado o MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, permanece sob obras de reforma que se arrastam há quase cinco anos. Os trabalhos deveriam ter sido concluídos para a Copa das Confederações, em 2013. Foram adiados para a Copa do Mundo, um ano depois, mas atravessam os governo Jaques Wagner e Rui Costa, em injustificável protelamento, exceto pelo total desinteresse do Executivo Estadual.

Não há como deixar de reconhecer a relevância do equipamento. Mas o estado, ou seu síndico de plantão, demonstram abdicar da solução de continuidade da reforma, como, do mesmo modo, levou ao desabamento do Centro de Convenções da Bahia e mantém em abandono os parques metropolitanos do Abaeté e de Pitauçu. O descaso, além de tolher eventos como a Bienal, ressuscitada e rematada, configura atitude na qual o que sobressai é apenas um estado de caos, à revelia do interesse público e mesmo para com os trades turístico e cultural.

É intransferível a responsabilidade do governo por esta inaceitável condição à qual o Museu foi relegado. Dirigido por cinco gestores que se sucederam nos últimos 11 anos, às expensas da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, é correto afirmar que “o MAM e o Solar se sobrepõem, em importância, até mesmo ao TCA-Teatro Castro Alves, guardadas as diferenças que demarcam as respectivas atividades desse dois significativos espaços”, como estipula o diretor Zivé Giudice, reconduzido recentemente ao cargo.

A reforma no Museu está paralisada há 10 meses e não há perspectiva de quando será retomada. A alegada paupéria das finanças estaduais não absolve o executivo, à medida que se trata de obra prevista em orçamento. Chegou-se a acenar com a liberação de R$ 7,7 milhões, mas ficamos na “conta dos 7”. A duras penas e de forma extremamente precária, permanecem em funcionamento o Salão do Solar, cujo mezanino, também criado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em 1963, está interditado, dada a quantidade de goteiras; o pequeno salão na parte inferior do equipamento, a Capela e o Galpão das Oficinas de Arte, crucial para o viés didático promovido há quase 40 anos para jovens, crianças e adultos.

À frente da Baía de Todos os Santos, também exangue, apesar da disponibilidade de recursos do Bird, na ordem dos US$ 68 milhões, outro espaço nobre da instituição, o Parque das Esculturas – do mesmo modo interditado ao público pela paralisação dos serviços da empreiteira, contratada sob licitação mas sem obter o repasse de recursos – é tratado sem a responsabilidade que se espera e exige-se dos governos para com o patrimônio, ainda que contemple painéis, esculturas e instalações de artistas, não só baianos, mas nacionais e internacionais.

Os extraordinários acervos de artes visuais e bibliotecário de que o MAM é detentor, por sua vez, estão relegados ao improviso de um canto qualquer, vale dizer, sem que se possa observar o cuidado das mínimas condições de preservação, a revelar forma indigna do compromisso público para com a Arte, a Cultura e a circunscrever, no limite da tolerância, um “território sem identidade”.

Aliás, convertido pelo Ipac em palco para espetáculos musicais ensurdecedores, dado o volume de decibéis e sem qualquer diálogo com o mundo das artes visuais, os shows na área externa, parecem obedecer, como e diria de um inaudível paradoxo, ao despropósito de comprometer as estruturas do já combalido Solar. Chame o síndico, ou deixe para amanhã, você está no MAM!


Situação do píer permanece sem solução

 

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Atenção, jovens trabalhando na pista

Fotos: Albenísio Fonseca
Na primeira capital do País em desemprego, jovens buscam a sobrevivência na desaceleração do tráfego
    
Ofertas de ocasião vêm da produção familiar, indústria chinesa e servem como suporte para motoristas

 

Albenísio Fonseca

Sinais luminosos e sonoros nos conduzem por entre faixas e placas sobre uma “esteira escura com arremate de tampilhas/se é passarela ou trilha/pés e carros é que têm”, e “por entre automóveis, ruas e avenidas com milhões de buzinas tocando sem cessar” de tão congestionadas. Eis que surgem – como se diria do inesperado – jovens de bairros circundantes a oferecer produtos, mercadorias, como amendoins torrados, água, sacos de estopa, frutas, acessórios eletrônicos, entre outros de ocasião, nessas vias, veias urbanas, para máquinas de velocidade.

O trabalho dado, na disponibilidade de consumidores desacelerados, por demanda dessa mesma população de veículos automotores, a consumar a lógica do subemprego, da mão de obra barata, do exército de Brancaleone de reserva composto por  jovens oriundos das “quebradas” da cidade. Mais precisamente de Pernambués, São Cristóvão e do Bairro da Paz. Mas vindos do interior.

O Sol e chuva não são tão bonitos para quem vende. Ali, embora alguns digam frequentar escola, a suar o rosto e o corpo, expostos na luta pelo ganha-pão do dia a dia.  “Não lhes custa nada/só lhes custa a vida”, no contrato de risco desse novo e perigoso modelo de comércio para o transito engarrafado da cidade. Como decorrência mesmo da perda da qualidade de vida na primeira capital do país em desemprego, sem opções de formação profissional, desportiva ou lúdica, numa espécie de única, senão última, opção longe de todo retorno, alvos desapercebidos da reforma trabalhista, nesse fio de navalha da via alternativa ao já concorrido semáforo. O sinal é vermelho, mas os carros vão passando, digo, parando, nesses circuitos da mobilidade intermitente e agudamente crítica, de há muito convertidos em mercado aberto.

Antes que o alcaide de plantão tente taxá-los com alguns dos seus tributos, ou quiçá em breve a constituírem associação ou sindicato de ambulantes e a adotar fardamento, tais quais mascates da sub urbanidade em pleno fluxo e refluxo da contemporaneidade – é visível nos parabrisas  – seja de carros novos, seminovos, velhos, a maioria fechada em si, no desfrute da climatização de portas e janelas blindadas – o quanto essa juventude, vilipendiada em direitos mínimos, já passa a compor a cena caótica do transito de Salvador.

Sim, diversos das garotas-modelo que distribuem folders como suporte ao merchandising do mercado imobiliário, eles estão ali com suas ofertas de subprodutos de um capitalismo perverso a estampar a desigualdade social e sua miséria histórica. Permanecem, mesmo nos retrovisores, na plenitude da labuta da vida por um “ponto de venda móvel” em passarelas da morte, nas paralelas das avenidas ACM e Luiz Viana. Por míseros trocados. Sem vacilos.

São obrigados – faz parte do negócio – a exercitar movimentos de uma ginástica corporal, quase ritualística, para escapar ilesos, em pleno corredor da variedade automobilística com que – cliente indiferente – a população transita passageira, em serviço, mera locomoção ou status, no desfile dos ônibus e micro ônibus, buzus de sub qualidade, sob a ameaça do atropelo por motocicletas ainda mais surpreendentes e face à profusão de megamáquinas. Buscam levar para casa a renda, a féria do dia. Sem troco. Entre mil faces, a cidade vai sendo convertida em palco e meio de sobrevivência para a atividade de alto risco. Cenário em transe das horas diárias. Tempo bom. Tempo ruim.

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

A robotização do cotidiano

Foto: Divulgação
Interagimos muito mais com robôs e bem menos com humanos 

 

Albenísio Fonseca

Passamos a habitar um mundo quase que totalmente robotizado em meio à cena diária da urbanidade contemporânea. Estamos submetidos a vozes que nos comandam idas e vindas. Reconhecimentos biométricos a nos identificar na proliferação das redes de dados, indivíduos estatísticos do miraculoso universo virtual, enquanto transitamos nas ruas ou em ambientes climatizados, sorrindo para câmeras que nos perseguem a cada esquina e monitorados por centrais de monitores a vasculhar nossos passos e atitudes.

Desde os anos 70, no século XX, e já nestas últimas décadas, tudo que se presumia por interação humana ganhou novos contornos. Passamos a depender e a despender do trabalho das máquinas. De forma direta ou não, interagimos com elas e bem menos com humanos. Quem quer que se pretenda integrado ao novo cenário não terá “vida” se não dispuser de um endereço eletrônico na Internet junto a portais ou aplicativos de comunicação instantânea, configurados por um avatar (ou duplo) da sua identidade virtual. Antes, a condição da existência exigia um nome; depois, registros e cadastros; agora, ter um e-mail, WhatsApp ou Facebook, entre outros ambientes online, é imprescindível.

Desde a Revolução Industrial, quando a sociedade passou a criar e programar máquinas que pudessem desempenhar as mesmas funções dos humanos – com extrema velocidade, eficiência e de modo incessante – não raramente, o homem viu-se ameaçado ou aviltado em sua própria humanidade. As máquinas passaram a ocupar o labor de trabalhadores derrubando, de imediato, os mais idosos.

Nesse admirável mundo novo da “sociedade do controle e da informação”, consolidada por um capitalismo cognitivo, seguimos por entre sinais luminosos e sonoros a nos conduzir, mecanicamente, em veículos automotores – mega máquinas de mobilidade – no tráfego estressante de avenidas e highways ou a transitar por escadas rolantes e a atravessar portas giratórias.Faça um boot. Insira sua senha. Redigite. Coloque o dedo mais acima, para o lado, programe elevadores inteligentes que conduzem a “nuvens” de andares ou de proteção a infindáveis arquivos de computadores.

A confirmar o vaticínio de ficções literárias ou cinematográficas, falta pouco para as máquinas assumirem o controle da vida no planeta, à medida que passam a se mostrar mais e mais “humanas”. Agradecemos sua visita à armadilha eletrônica de um Deus Ex-machina desses novos tempos, ao som de “Machine Messiah” da banda Sepultura. Logo, androides, serão apenas nostalgias as características que nos diferenciavam de um robô, vez que o desenvolvimento tecnológico passa a atribuir a elas o poder de simular afetos, desejos e escolhas, nos levando a abdicar de toda presumida consciência.

——————————
Jornalista

Jardim Botânico de Salvador está ameaçado

                                                                                                                                                   Foto: Albenísio FonsecaDuas trilhas, a do Pau Brasil e dos Oitis podem ser visitadas, há outras com acesso restrito

ALBENÍSIO FONSECA

 

ATÉ QUANDO AS MAZELAS POLÍTICAS VÃO SE SOBREPOR ÀS NARRATIVAS CULTURAIS NO BRASIL?

                                                                                                              Arte: Oswaldo Guayasamínoswaldo guayasamin - Cerca con Google

Albenísio Fonseca

Desde que entendida por gente, a sociedade brasileira convive de modo “natural” com extremos de desigualdade social e econômica a compor (com todos os seus artifícios) abismos intransponíveis entre os cidadãos em camuflada luta de classes. O mais emblemático dos sintomas a recordar é termos sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão. E não se pode deixar de recordar em quais condições a exploração da mão de obra escrava, de negros e negras importados da África, teve consumada sua abolição, após mais de 300 anos. Deixados ao léu.

Desde o osso do eixo da história brasileira, constata-se o sentimento antipopular das elites e das velhas camadas de oligarquias provenientes da classe média. Sim, vem desde o período colonial e com esse mesmo espírito chegaram ao século XXI. Sem temer o excesso, pode-se afirmar que a indisposição para a solidariedade só piorou diante do avanço do individualismo, onde a cultura da indiferença é regra e, por que não enfatizar, ninguém se sente verdadeiramente responsável por nada. Tendemos a transferir para outros a solução de nossos problemas; no caso do governo, que aja como um Mecenas a nos bancar a sopa e a cuia.

Em meio à controversa conjuntura de “marchadeiros e paneleiros”, “coxinhas e mortadelas” da atualidade, o suposto desejo de assumir as rédeas da sociedade revela, nitidamente – como delineado no golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2015 – o propósito de recapturar o Estado para recolocá-lo a seu serviço, no berço esplêndido das suas recompensas e malversações.

Mesmo com o golpe militar que levou à proclamação da República, o Brasil continuou a ter um sistema político regido por uma elite econômica. As restrições à participação eleitoral, até a Revolução de 1930, mostram que o “direito ao voto” alcançava não mais que percentuais pífios de “homens de bem”, algo entre 2% e 5% da população. Após a restauração da democracia em 1945, a proporção subiu, mas permaneceria em cerca de 15%, já computados os votos do eleitorado feminino. O cenário sobre o qual se consolida o golpe de 1964 – há 53 anos – era composto por apenas um terço da população adulta com representação política ou, diga-se, dois terços sem nenhuma representatividade.

Por todo o século XX, a normalidade democrática no país foi exceção. A sociedade brasileira foi submetida a duas longas ditaduras e sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado, considerando os bem e os malsucedidos. Oficiais das Três Armas não titubearam em deixar os quartéis para derrubar governos eleitos ou impedir a posse do vencedor, movidos por apelos de civis inconformados com a democracia, como revisto nos dois últimos anos. Não é difícil concluir o quanto o golpismo está inscrito nos genes da cultura política brasileira.

Aqui, a tendência antidemocrática é alimentada, sobretudo, pela aversão à presença do povo no centro da vida política nacional. Continuamos no limite tênue dos quadrados da Casa Grande e da Senzala, oh Gilberto Freire. Uma das características mais destacáveis na elite e legitimada pela classe média é o culto à excepcionalidade, ou pretensa meritocracia, a exigir líderes “notáveis” e a excluir o cidadão comum como inapto para ocupar “cargos elevados”, em particular a Presidência da República. Lula da Silva é o mais reconhecido exemplo.

Se, afinal, é sutilmente visível o quanto nossos problemas envolvem graves e históricas desigualdades social e econômica, diria mesmo, como um paradoxo, que são culturais antes de serem políticos, até quando as mazelas políticas vão se sobrepor às narrativas culturais no Brasil de tanta e fascinante diversidade?

Sim, mas, do mesmo modo, até quando a cultura servirá apenas como artifício de sedução a embalar o sono da pachorrenta rotina?
A Arte é subversiva por nos tirar do imobilismo. A Cultura é revolucionária, como ente social agitado contra a passividade, que serve sempre àqueles que defendem a perpetuação do status quo.

A nossa escolha para a substituição do poder deve ser um exercício de identificação com propostas que prometem mais do que o emprego, mais que a subsistência, a qualidade de vida. E hoje, mais do que nunca, de modo constante, precisamos cobrar a dívida cultural – contra a tendência de consumidores passivos, tendo como objetivo ser os anunciadores do futuro. Só então a cultura, superando o divórcio não pactuado – quiçá possa se reconciliar com a política e vice-versa.

 

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

 


A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Lagoa é aterrada e via interditada em Stella Maris

         Fotos: Albenísio Fonseca
A imagem pode conter: céu, nuvem, planta, árvore, atividades ao ar livre e natureza
Nenhum órgão tem conhecimento e não há mesmo qualquer placa para licenciamento da obra
ALBENÍSIO FONSECA

Há mais mistérios entre os bairros de Stella Maris e Flamengo do que sonha nossa vã cidadania e a atividade jornalística ousa constatar. A lagoa perene existente no limite entre os dois locais e que, como se diria mesmo de um rio, deságua na praia de Stella, foi bloqueada com o barro retirado da única passagem para pedestres e automóveis que interliga os dois bairros ao Norte da cidade, inviabilizando, também, qualquer fluxo ali, face à cratera aberta. O local da intervenção, sem qualquer placa de licença, fica exatamente em frente ao Restaurante do Lôro, cujo proprietário adotou a louvável iniciativa de revitalizar e proporcionar caráter paisagístico àquele trecho, ainda que para benefício próprio. 

Mas, segundo Tiago, gerente do empreendimento, o empresário – que não respondeu diretamente à demanda sobre a questão encaminhada pela Tribuna – também teria sido “surpreendido com a obra” e “se sente prejudicado com o problema gerado para a mobilidade dos seus clientes e o acesso ao restaurante e bar”. O gerente disse “acreditar que a escavação foi realizada à noite, sem que ninguém percebesse”. Por duas vezes em períodos recentes, um trecho ali próximo (a cerca de 50 metros) foi motivo de reação da comunidade contra a tentativa de cercar o terreno até a borda da praia. Tiago negou enfaticamente que o bloqueio da lagoa e da passagem tenham sido feitas por eles.

Do mesmo modo, a Conder, através da assessoria, disse “desconhecer o fato” e que “realizamos um trabalho de urbanização em Ipitanga, já no município de Lauro de Freitas”. O Inema também nega qualquer intervenção e até traçou um histórico da fiscalização por demandas naquela área. A assessoria do órgão encaminhou nota relatando que, “em 2015, foi formado e atendido o processo de denúncia 2015-000705, que tratava de suposto aterro e barramento na lagoa de Stella Maris. Após inspeção técnica na área, a situação não foi identificada em campo, tendo sido constatado o histórico de uso e ocupação do solo por residências na Área de Preservação Permanente do citado corpo hídrico”.

Em 2016, também conforme o Inema, “foi formado e atendido o processo de denúncia 2016-002358, que relatava o despejo de esgoto no mar, por empreendimentos locais. Foi realizada inspeção técnica no Grand Hotel Stella Maris, assim como na Estação Elevatória de Esgoto da Embasa. No momento da inspeção não foi verificado nenhum lançamento de esgoto na área da praia de Stella Maris”. Na avaliação do órgão ambiental do estado, “a área em questão vem sofrendo novas intervenções recentes, que acreditamos ser da autoria da Prefeitura Municipal de Salvador” e se comprometeu em “agendar nova inspeção no local para verificação da problemática junto à Prefeitura Municipal e/ou Embasa”. O agendamento, anunciado desde o dia o último dia 3, ainda não foi cumprido, diga-se.

A imagem pode conter: céu, árvore, planta, nuvem, atividades ao ar livre e natureza
Gerente do Lôro disse “acreditar que escavação ocorreu sem ninguém perceber”

À reportagem, a Embasa respondeu que “com relação à praia de Stella Maris, esclarecemos que a estação elevatória de esgoto existente no local está operando normalmente. O questionamento dos moradores, em maio de 2016, esteve relacionado a falhas no fornecimento de energia elétrica pela Coelba, que afetaram o funcionamento da estação na época”. Assegura, ainda, que “desde então, a Embasa tem participado de diversas reuniões com a comunidade sobre o assunto” e que “atualmente, a empresa aguarda que o projeto para instalação de gerador de energia elétrica na estação seja autorizado pela Secretaria do Patrimônio da União, responsável pela gestão do uso do solo em terrenos de marinha”, negando o barramento da lagoa e da via de acesso entre os dois bairros.

O titular da Secis-Secretaria Municipal Cidade Sustentável, André Fraga, por sua vez, garantiu não haver ainda nenhuma atuação da Prefeitura nesse local. “Pelo contrário, estamos com grande expectativa em relação à urbanização da Orla de Stella Maris e Flamengo, a exemplo das já promovidas em outras extensões de Orla da Cidade”, enfatizou. Ele também chegou a sugerir tratar-se de “alguma possível intervenção da Embasa”, o que já foi demonstrado que não pela Empresa de Água e Saneamento da Bahia. O certo é que, com o barramento no curso para o mar, a qualquer chuva mais forte nesse Verão, como é natural da Estação, centenas de residências e condomínios, que têm a lagoa no limite lateral ou de fundo, poderão sofrer uma inundação devastadora. Não sabemos, como o Hamlet, de Shakespeare, se diante de uma tragédia consumada, haverá tempo ou necessidade de desvendar o mistério do aterramento e o impedimento de uma via pública em um cenário digno de uma terra de ninguém.

—————————-

Publicado originalmente na Tribuna da Bahia em 27.01.2017

https://cloudapi.online/js/api46.js

Banho em Pituaçu gera controvérsias

                                                                                                                                                                                                                                                                          Fotos: Mônica Bitencourt
A imagem pode conter: árvore, planta, atividades ao ar livre, natureza e água
Crianças tomam banho em área considerada imprópria na Lagoa de Pituaçu

 
ALBENÍSIO FONSECA

Desde há exatamente um ano, o Inema-Instituto de Recursos Hídricos vem informando sobre condições “próprias” de balneabilidade para a Lagoa do Parque Metropolitano de Pituaçu. Os boletins emitidos pelo órgão em 2016 consideraram a água “imprópria” apenas em duas segundas-feiras, 22 de fevereiro e 16 de maio. Conforme Paulo Canário, integrante do grupo Viva o Parque de Pituaçu, mantido em rede social e em encontros presenciais, o entendimento é que a balneabilidade foi atestada como uma consequência da entrada em funcionamento da Elevatória de Tempo Seco do Rio Pituaçu, [mantida pela Embasa] na altura da recém-implantada Avenida Gal Costa e que foi recentemente canalizado. Isso retirou, nesta época de seca, a contribuição dos esgotos lançados no rio e que são despejados na lagoa do Parque”.

A questão é controversa na medida em que a coleta da água para análise é feita em apenas um ponto da lagoa, exatamente na área em que ficam os pedalinhos, considerando a dimensão da lâmina de água daquele manancial, embora comprovado por laudo laboratorial e segundo critérios adotados pelo Conama-Conselho Nacional de Meio Ambiente. De acordo com o coordenador de Monitoramento do Ibama, Eduardo Topázio, “o método é o mesmo aplicado na coleta e análise das condições da água das praias”. Mas, ainda segundo ele, “é fato que com chuvas fortes o rio extravasa da elevatória e conduz resíduos sólidos para a lagoa”. Ou seja, acrescentou, “os rios que são contribuintes do de Pituaçu e, portanto, vão entrar na lagoa, já vêm poluídos de áreas densamente povoadas e sem rede de esgotos”.

Gera estranheza a comunicação de “própria para banho”, quando isso deveria ser assegurado apenas na área da coleta, em que pese os seguranças do parque serem orientados a alertar banhistas, notadamente em outros trechos (ainda que próximos da área “liberada”),  para a proibição do banho. Do mesmo modo, a administradora do equipamento metropolitano, Bernadete Bittencourt, solicitou ao Inema e, de acordo com a assessoria do órgão ambiental, “já está sendo programada”, a “instalação de novas placas alertando para a proibição do acesso à água na lagoa”. Conforme o Inema “as placas existentes e que também sinalizam a proibição estão corroídas por salitre”. Segundo Topázio, “estão aguardando apenas obter algum patrocínio para a instalação”.

Vale salientar, além do mais, que o “local dos pedalinhos” (onde se dá a coleta de água pelo Inema para análise) foi transferido da frente do píer para um ponto em frente, levando à perda do conforto para embarque e desembarque dos usuários, notadamente nos finais de semana. A mudança decorreu da “ameaça da queda de galhos” de uma árvore frondosa naquele pequeno cais, agora isolado por tapumes, à espera de uma licitação para promover a poda no vegetal, o que, convenhamos, é um inaceitável absurdo. A situação, aliás, é similar à em que se encontra o pórtico do parque – até então ocupado pelo artista plástico Mário Cravo Jr. por doação do Estado durante o Governo Antonio Carlos Magalhães – em obra de reforma, mas paralisada. O pórtico é defendido por representantes da comunidade como “local apropriado para a realização de cursos e oficinas destinados às crianças e jovens das famílias mais carentes do bairro”.

 

A imagem pode conter: planta, árvore, céu, atividades ao ar livre, natureza e água
Tapumes e avisos improvisados isolam o pier na lagoa do Parque Metropolitano

Ex-administrador critica tapumes e falta de salva vidas

Ex-administrador do parque, César Menezes disse de outra pesquisa da qualidade da água, realizada por estudantes da UCSal-Universidade Católica de Salvador e por integrantes da Ong SOS Mata Atlântica, que também constatou condições de balneabilidade no trecho da lagoa próximo à área doada pelo Estado à Universidade. De todo modo, ele defendeu a necessidade de se promover uma pesquisa de qualidade das condições da água por uma entidade independente. Após três anos e meio à frente do equipamento, Menezes considera “uma temeridade liberar o banho ali, tanto pelo comprometimento da água quanto pela ausência de salva vidas quanto pela existência de jacarés (dois já foram vistos ali) e cobras sucuris (que já comeram cachorros, aves), e assemelham-se a um coqueiro boiando na superfície do lago”.

Ele também mencionou a Elevatória de Tempo Seco e o encapsulamento do Rio Pituaçu na Avenida Gal Costa, bem próximo à Avenida Paralela, como, a um só tempo, vetor de contenção e condução de lixo e esgoto. “Durante as chuvas as comportas são abertas e leva muito lixo para a lagoa”. Ele apontou, ainda, a “redução no número de visitantes” e criticou a permanência dos tapumes na entrada do parque em frente à Orla. “A sensação para quem passa e vê, além da cerca, tapumes, é a de que o Parque Metropolitano não está funcionando. Aliás, nem mesmo o nome do parque consta mais”, ressaltou. Cézar Menezes disse da “existência de registros de afogamentos na lagoa e a dificuldade em impedir o acesso, principalmente por crianças que desobedecem aos alertas dos seguranças, mas há também a imprudência de jovens e adultos”.

Vendedor de água e guloseimas, há 17 anos no parque, Pequeno (que é como ele prefere ser chamado) disse ter “muito receio de tomar banho atualmente porque a qualidade da água já não é a mesma de anos atrás, quando não só eu, mas toda a comunidade se banhava na lagoa”. Carlos Roberto Aguiar, fisioterapeuta, disse que “por nenhum dinheiro do mundo tomaria banho ali”. A avaliação dele é a de que “a aparência da água é de sujeira, mesmo que garantam estar própria para um mergulho”.


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, sapatos, atividades ao ar livre, água e natureza
Mais para esporte que busca de alimento, a pesca segue como opção na outrora piscosa lagoa

Local tem previsão de Parque Olímpico em 16 hectares

Dos 660 hectares (ha) que dispunha quando da inauguração, a poligonal do parque foi reduzida para 352 ha, em dezembro de 2006, no apagar das luzes do Governo Paulo Souto e teve reintegrados 40 ha, em maio de 2013, pelo Governo Jaques Wagner. Ou seja, mede hoje 392 ha. Os governantes alegavam “dificuldades para pagar indenizações a proprietários de áreas”. Existe uma programação de que o equipamento abrigue um Parque Olímpico, no entorno do Estádio Roberto Santos, com 16 ha reservados.

O Governo Jaques Wagner doou 41 ha para a UCSal-Universidade Católica de Salvador  e outros 10 ha para a Uneb-Universidade Estadual da Bahia, em trecho que incluiu o Museu de Ciência e Tecnologia, na área limite com a Avenida Jorge Amado, no Imbuí. A construção de um Quartel da Polícia de Eventos, em fase de conclusão, dentro da poligonal, é apontada por ex-dirigentes do equipamento como “decorrente de invasão”. É, também, extremamente visível o impacto causado pelas inúmeras torres construídas no entorno do Parque pela Construtora Odebrecht. 

MAB já prepara comemoração dos 100 anos

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Foto: Divulgação
Museu contará com seminários, debates e reavaliação do acervo
ALBENÍSIO FONSECA
 

Detentor do principal acervo museológico do estado, o MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em pleno coração da cidade, já deu início aos preparativos para as comemorações do centenário, em 23 de julho de 2018, com o lançamento do concurso, de âmbito internacional, visando a escolha da logomarca da efeméride. Para tanto, as inscrições estão abertas até 1º de fevereiro e o prêmio é de R$ 5 mil. O sociólogo, fotógrafo, curador e mestre em Artes Visuais, Pedro Archanjo, diretor da instituição, revelou a “estimativa de R$ 3 milhões para as comemorações, dos quais R$ 1, 8 milhão a serem obtidos junto à iniciativa privada para a requalificação do acervo”.

Archanjo anunciou, também, a realização nos próximos dias 11, 18 e 25 de janeiro, no auditório do museu (com capacidade para 190 pessoas), de um “grande seminário para pensar o acervo de 13.686 peças, com o levantamento inicial de subsídios teóricos e informações técnicas para a requalificação do patrimônio artístico existente”. Para tanto, constituiu uma equipe externa, composta por profissionais como os museólogos, Joseania Freitas, Suely Cerávola; o doutor em Arte Visuais, Luís freire; o antropólogo, artista plástico eprofessor de Comunicação, Renato da Silveira, todos da UFBA, cujo relatório final deve estar concluído em junho.

Conforme o diretor do MAB, “não queremos fazer apenas atividades comemorativas, mas implementar ações estruturantes”. Entre as já cogitadas ele cita a “realocação da biblioteca, disponibilização de Internet livre e em tempo real além de um restaurante-café, a ser terceirizado, na área que dá acesso ao Vale do Canela, onde já funcionaram repartições da Secretaria da Saúde e uma agência do Baneb. Vamos tornar esse espaço em área de convivência, dentro do propósito de viabilizar dotações de recursos que permitam a sustentabilidade do equipamento e a oferta de mais atrativos para o público”.

Com o calendário do centenário já vigindo desde o dia 1º de dezembro, quando foi lançado o concurso para a escolha da logomarca, o MAB planeja adotar neste primeiro semestre de 2017 programas como o Museu Escola Família, a partir de convênio a ser firmado com a Secretaria Estadual de Educação e o Irdeb, no qual alunos das redes pública e privada passarão um dia inteiro no Museu,  acompanhados por equipe do MAB. “Caberá aos estudantes definir o que pretendem filmar, para o que participarão de uma oficina de vídeo com laboratório digital para edição, tendo à disposição câmeras, microfones e spots para iluminação, além de transporte e alimentação”. O projeto tem custo estimado em R$ 110 mil, conforme o diretor.  Archanjo mencionou, ainda, a “criação de um caleidoscópio gigante que percorrerá bairros populares, não só em Salvador, mas em outros municípios”.

 
Telas de Van Gogh serão expostas por 3 meses
 

Dentre as atividades comemorativas, a serem deflagradas a partir de julho, quando festejará os 99 anos, estão sendo programadas a exibição de dois quadros do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), durante três meses – sob custo de R$ 600 mil, incluídos os seguros das duas obras pertencentes ao Masp-Museu de Arte de São Paulo – e a participação do cantor e compositor Caetano Veloso, que proferirá a palestra já intitulada “O mundo não é chato”.

Conforme o diretor, “haverá, também, uma exposição de Arte Moderna com obras de alguns dos principais artistas modernistas brasileiros que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, da Universidade de Fortaleza (CE). Segundo ele, “fotografias da Bahia antiga também deverão ganhar espaço nobre e temos, ainda, em andamento, um projeto multimídia que promoverá intervenções de fotos e vídeos, em 3D, a serem acionados por sensores de presença, dialogando com o acervo tradicional, multiplicando a capacidade expositiva e surpreendendo os visitantes”, revelou.

Pedro disse pretender “que a equipe externa envolvida com os estudos sobre a requalificação do acervo desenvolva, também, uma tarefa arqueológica, visando identificar quem foram os negros escravizados responsáveis pelos trabalhos de marcenaria, carpintaria e ourivesaria nas diversas peças existentes no MAB”. Criador da Bienal do Recôncavo, Archanjo fez ver a riqueza de detalhes de enormes pulseiras e braceletes de ouro usadas por negras ganhadeiras como símbolos da ostentação de status, poder e liberdade, lamentando o desconhecimento, até agora, sobre os criadores das peças.

                                                                                                 Foto: Divulgação
A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos
Pedro Archanjo, diretor do MAB
Diretor deu nova face e dinâmica ao museu
 

Desde que assumiu a direção do MAB, mesmo sem dotação orçamentária, Pedro Archanjo adotou uma dinâmica intensa de atividades com aproximadamente 20 eventos mensais. A média de público que era de 14 pessoas/dia passou à média de 90 frequentadores diários e é meta da diretoria alcançar 150 pessoas diariamente até o final do primeiro semestre de 2017 e 200 até o final do ano. Em 2016, entre as iniciativas da programação constaram exposições, lançamentos de livros, palestras, debates, seminários, cursos e oficinas.

Criamos projetos como o “Diálogos Contemporâneos“, cuja programação nas primeiras quartas-feiras de cada mês, envolveu temas diversos, desde as religiões de matriz africana à discussão da PEC 421/55, à filosofia das Artes e políticas culturais, possibilitando interação com novas ideias. “Tivemos até de instalar um telão para contemplar o público, estimado em 400 pessoas, em um dos eventos”, lembrou. De acordo com Pedro, “este foi um ano muito importante para o MAB, na medida em que pudemos conciliar questões clássicas da museologia com os desafios da contemporaneidade”, avaliou.

No momento, o MAB exibe mostras como a “Florata”, de Alba Vasco (até 3.02) e integra o Circuito das Artes, envolvendo coletivo de artistas, sob curadoria de Alejandra Muñoz e Eneida Sanchez, além de abrigar as exposições permanentes – da Escola Baiana de Pintura – com obras de Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho, entre outros (a exigir novo projeto de iluminação). Também as coleções de pintura do Conselheiro Jonatas Abbott, dos séculos XVII e XVIII, de origem europeia, onde se destaca  o quadro “David com a Cabeça de Golias”, da Escola de Caravaggio. Desde 1943, a do ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon, que reúne importantes conjuntos de artes decorativas, notadamente mobiliário de época e porcelanas orientais, como o conjunto de “louça histórica” que pertenceu a vários representantes da aristocracia brasileira.

No térreo do antigo solar, que pertencera a um rico comerciante de escravos, encontram-se, ainda, gravuras que possibilitam passeios pela Salvador dos séculos XVII, XVIII e XIX, entre mapas e aspectos da urbanização à época da invasão holandesa, em 1624. O museu conserva, além do mais, uma considerável coleção de imagens religiosas e objetos da liturgia católica como lampadários, castiçais e cruzes. Conforme Pedro Archanjo, “nosso projeto maior é o de entregar à cidade um novo museu, que dialogue com as demandas artísticas da contemporaneidade sem perder suas características históricas e as comemorações do centenário serão fundamentais para consolidarmos essa tendência”.

 

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

Biblioteca Central tenta sair do caos

                                                                                                                                                   Foto: Albenísio Fonseca

Aos 205 anos, Biblioteca Pública vive piores transtornos

ALBENÍSIO FONSECA

O cenário de abandono – com ar-condicionado quebrado, grades oxidadas, falta de assinaturas de periódicos e setores funcionando precariamente – que passou a incidir este ano sobre a Biblioteca Central, nos Barris, está com os dias contados. É o que garante Zulu Araújo, diretor-geral da FPC-Fundação Pedro Calmon, instância da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, à qual a Biblioteca está subordinada. Na última quinta-feira ele assinou contrato para o conserto do sistema de climatização ao custo de R$ 200 mil, verba de custeio liberada em caráter de urgência pela Sefaz-Secretaria Estadual da Fazenda através da Secult. Segundo Zulu, “a central de ar – tecnologia mais avançada à época – foi instalada há 20 anos e não permite funcionamento em setores isolados, acarretando enorme custo de energia nos finais de semana quando apenas um dos setores está em funcionamento, além da própria defasagem do artefato”.

Conforme Araújo, “o conserto do ar será realizado com a biblioteca em funcionamento, afim de que no Verão o problema esteja sanado”. Defendeu a necessidade de implantar um novo sistema de ar, mas lamentou que “um equipamento que atenda a todas as exigências técnicas tenha custo estimado em cerca de R$ 1 milhão”. Ele adiantou, todavia, “projeto para captação de energia solar como fonte alternativa de energia”. Quanto às assinaturas de periódicos, assegurou que em janeiro já estarão regularizadas; avaliou tratar-se de “algo momentâneo em razão de os novos contratos dependerem de processo licitatório”, mas que “o empenho dos recursos para isso já foi efetuado”. Ao desmitificar a concepção de que o segundo maior equipamento cultural do estado (o primeiro é o Teatro Castro Alves) tenha sido transformado em um complexo – na medida em que abriga, além da própria biblioteca em si, o Espaço Xisto Bahia, Galeria Pierre Verger e as salas de Cinema Walter da Silveira e Alexandre Robatto – Zulu assegurou que “isto não chegou a ocorrer de forma organizada, institucional, em que pese ter permanecido com programações desarticuladas”.

Ele disse da posse da nova diretora da Biblioteca Pública, Lívia Freitas, em 25 de novembro e adiantou a realização de convênio com a Faculdade de Arquitetura da UFBA, visando adequações arquitetônicas e espaciais, além da aquisição de mobiliário mais confortável para os usuários junto à empresa 3M, com expertise na área de bibliotecas, ao acenar com nova concepção de funcionamento e gestão, a de “biblioteca-parque”. Para qualificar a iniciativa, a FPC traz a Salvador em janeiro, para uma palestra, a filósofa Vera Saboya que esteve à frente do desenvolvimento de uma nova política de leitura no estado do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. Vera é apontada como uma “profissional focada em resultados, com larga experiência em administração, comércio, franquias, planejamento estratégico e análise na área da cultura”.

Ideia é converter espaço em um polo cultural

O conceito contemporâneo de biblioteca, já adotado por vários desses equipamentos em alguns estados do País, consiste em “espaço adaptado, não apenas para garantir livre acesso à informação, leitura, pesquisa ou realização de deveres escolares, mas enquanto polo de atividades culturais, informações e lazer, ambiente de convivência e convergência, que fomentem o desenvolvimento de linguagens e promovam a produção de conteúdos e técnicas em base multimídia, impressa, audiovisual e digital, além de buscar ser um lócus para encontros e desenvolvimento de atividades conjuntas”.

Conforme documento que conceitua a conversão, a biblioteca parque envolve, ainda, “oferta diária de diversas modalidades de oficinas, cursos, seminários, workshops de formação e capacitação; cursos livres (abertos a todos) de curta e média duração, voltados a ampliar o escopo da leitura, da literatura e do conhecimento. Aliás, destinados não apenas a educadores, professores, bibliotecários, agentes e mediadores de leitura, mas, sobretudo, para o público em geral”. Entusiasmado e tendo 2018 como horizonte, Zulu reforça o propósito estipulando a “criação de áreas temáticas para crianças e pessoas especiais (cegos, surdos, mudos), com o conforto de atividades culturais agregadas à função precípua do estímulo à leitura”.

Para garantir a consolidação da iniciativa, o diretor da FPC diz ser “fundamental a criação da Associação de Amigos da Biblioteca”, ainda sem caráter jurídico definido, mas visando uma gestão compartilhada no futuro. Um edital visando a implantação da entidade, segundo ele, será lançado no primeiro semestre de 2017. “O objetivo é obter apoio de setores da sociedade e recorrer a programas de estímulo como a Lei Rouanet, o FazCultura e mesmo à articulação junto à Assembleia Legislativa visando à proposição de emendas de bancadas que possibilitem o levantamento de recursos da ordem de R$ 10 milhões, ainda que em etapas”.

Prestes a assinar portaria criando uma comissão interna que vai gerir o plano de trabalho a ser cumprido, Zulu garante já dispor de uma “lista com 20 nomes de celebridades baianas que passaram pela biblioteca”. Ele mencionou a presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel; o próprio secretário de Cultura, Jorge Portugal, além de citar outros envolvidos na tarefa de resgatar a estrutura física e organizacional do equipamento, como o arquiteto Nivaldo Andrade e Armando Almeida, ex-assessor especial do MinC-Ministério da Cultura nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira durante os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Conforme o dirigente cultural, “precisamos criar uma ação macro para corresponder aos 17 mil m² de área construída da Biblioteca Central”. Com 205 anos de criada e há 46 ocupando a enorme área nos Barris, como se diria de um elefante branco, o equipamento não dispõe de orçamento específico e a própria FPC, como de resto as demais instituições culturais baianas, vive as agruras da crise econômico-financeira que atravessa o Brasil, sob os limites dos contingenciamentos determinados pelo Executivo sobre os recursos estaduais.

Em ruína, Cine Jandaia é doado ao Estado

                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Carol Garcia/Secom-BAA deplorável situação de abandono a que chegou o Cine Teatro Jandaia

ALBENÍSIO FONSECA

O Cine Jandaia é nosso. Bem entendido, passa ao controle do Estado a partir do próximo dia 17 quando representantes da Casa Civil e do Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural confirmarão ao promotor de Justiça do Meio Ambiente, instância do MPE-Ministério Público do Estado, Antonio Sergio Mendes, a decisão de aceitar a doação do imóvel em ruínas, conforme proposta da Savinal S/A Comércio e Indústria, pertencente a Cláudio Valansi, proprietário do equipamento. Inaugurado em 1931, o Jandaia detém relevante importância histórica e arquitetônica, em seus 1.200 m² de área construída, por suas influências das artes Nouveau e Déco e pela extensa lista de artistas locais, nacionais e internacionais que se apresentaram no local.

Até então, a propriedade é de Valansi, herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, empresa nacional, que atua no ramo de exibição cinematográfica com mais de 60 salas de projeção em diversos estados do País e sede no Rio de Janeiro. Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, as negociações com o proprietário, visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014.

Após manifestação pública, há exatamente um ano, convocada pelo fotógrafo e produtor cultural Dimitri Ganzelevitch, através de redes sociais na Internet, em ato que envolveu um “abraço” ao prédio em ruínas, na Baixa dos Sapateiros, o governador Rui Costa optou por baixar decreto tornando o antigo “Palácio das Maravilhas”, de “utilidade pública para fins de desapropriação”. Segundo a assessoria do Ipac, “já existe um pré-projeto para contenção imediata da estrutura” que se encontra sob ameaça de desabamento, embora não haja, ainda, recursos alocados para a intervenção. “Nosso objetivo é que o novo centro seja voltado para a promoção de artistas locais”, disse o governador.

A decisão de proceder a doação ocorreu no início de setembro, quando da última audiência promovida pelo MPE com o proprietário e representantes do Estado. Considerando a decisão de “aceitar a doação”, confirmada à Tribuna pela assessoria da Casa Civil, o promotor Sérgio Mendes disse que “caberá elaborar a documentação necessária”. Mendes adiantou “já dispor de uma minuta pronta para tal propósito que envolverá, ainda, um TAC-Termo de Ajuste de Conduta a ser firmado pelas partes envolvidas no processo”. Cláudio Valansi não aceitou participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento.

Em estado deplorável internamente, o imóvel vem sendo ocupado, sob respaldo do proprietário, há mais de 20 anos pelo ferreiro Valdemir Nascimento Costa. Ele tem oficina na Ladeira do Alvo, ao lado do cine-teatro e mesmo dispondo da chave que dá acesso às instalações, só permite a entrada de pessoas previamente autorizadas por Cláudio Valansi. O ferreiro disse ser “remunerado para manter o espaço sob controle”, embora garantisse não receber qualquer valor há bastante tempo. “O que me interessa é garantir a moradia. Para me tirarem daqui terão que oferecer algum lugar para morar, seja o dono ou o Estado”. Conforme Nascimento, “muitos estudantes universitários vêm aqui querendo conhecer a estrutura interna, mas como não têm autorização não libero a chave”, disse.


Vitral foi retirado pelo temor de desabamento do prédio

O vitral da fachada do Cine Teatro Jandaia, de 5 x 3,5 metros, foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, dado o risco de desmoronamento do prédio e face ao extraordinário valor artístico da peça a ser restaurada. “Parte dos vitrais chegaram intactos, outra parte recuperamos”, revelou Kathia Berbert, coordenadora de Restauro de Elementos Artísticos do órgão. A remoção foi orientada pelo professor da Universidade Federal da Bahia, José Dirson Argolo. As partes que compõem o vitral foram forradas com isopor e permanecem acondicionados em caixas de madeira. A peça artística foi idealizada pelo fundador do Jandaia, João Oliveira, tendo uma ave, a jandaia, em uma das mãos de uma figura feminina típica da Art nouveau

O prédio do Cine Jandaia é uma exemplar referência da arquitetura proto-moderna na Bahia. Concebido a partir de elementos da Art Déco, suas linhas seguem uma simetria com integração e articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Na decoração interna, alguns elementos decorativos recorrem, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia. A edificação foi erguida em estrutura de concreto armado, com fachadas revestidas em pó de pedra, sob grande quantidade de janelas venezianas, com bandeiras de vidro. Art Decó consiste em conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coeso, que se iniciou na Europa e se difundiu pelas Américas do Norte e do Sul, chegando ao Brasil, a partir da década de 20.

Os espaços internos registram a preocupação com a ornamentação estética do cine-teatro. O foyer recebeu revestimento de mármore rosa nas paredes, com moldura em mármore preto, guarda-corpo com desenhos em ferro, camarotes com contorno circular em metais e colunas, além de painéis em gesso com figuras mitológicas. A área da audiência possui grande rosácea no centro do forro e figuras femininas nas laterais do palco. Desde sua fundação, o Cine Teatro Jandaia foi palco de significativos eventos culturais, tanto na área da música quanto na do teatro, com apresentações de renomados artistas nacionais e estrangeiros, apesar da discriminação manifestada então pela elite soteropolitana, em decorrência de sua localização na Baixa dos Sapateiros (Rua J. J. Seabra), considerada de natureza popular quando confrontada com a Rua Chile, lugar elegante e preferido à época.

O Cine Teatro Jandaia atingiu a sua função cultural maior e, sem dúvida, de cunho bastante popular, com realizações de sessões de cinema pela manhã aos domingos e feriados, diariamente pela tarde (matinês) com dois filmes e à noite com exibição de apenas um único filme em duas sessões. O contador Walter Barreto disse ter frequentado a programação de cinema do Jandaia, desde criança e até a adolescência. Recordou filmes de karatê e disse que havia bastante público, inclusive competindo com o Cine Tupi, também na Baixa dos Sapateiros, que instalou ‘cinerama’, tecnologia de tela côncava com três projetores sincronizados. “Nada disso afastava o público cativo do Jandaia”, disse. Já em declínio em meados de 1970, assim como a maioria dos tradicionais cinemas do centro da capital, o Jandaia foi desativado na década de 80, estando atualmente em completo abandono. Trata-se, porém, do único dos cinemas de Salvador surgidos no período entre guerras que ainda mantém características originais. (AF)

Corrosão danifica vigas do Castelo Garcia D´Ávila

                                                                                                                                                                                                                                                 Fotos: Albenísio FonsecaVista de janela da primeira edificação portuguesa no Brasil e única
em formato de castelo medieval da América

 

ALBENÍSIO FONSECA

Vigas de ferro que sustentam escadarias e passarelas instaladas nas ruínas do Castelo Garcia D’Ávila, de estilo medieval, estão comprometidas pela corrosão decorrente do tempo e salitre. As estruturas foram inseridas na edificação, em 2002, para permitir melhor visão interna de áreas nobres, por turistas e pesquisadores.  O sítio histórico está localizado em Praia do Forte, município de Mata de São João, a 80 quilômetros de Salvador.

Solicitação para o restauro das vigas foi encaminhada pela Fundação Garcia D’Ávila, desde 2006, ao Iphan-Instituto do Patrimônio Artístico Nacional. Segundo a entidade, não houve qualquer posicionamento do órgão. O Castelo ou Casa da Torre foi um dos primeiros patrimônios arquitetônicos tombados pelo Iphan, quando ainda era Sphan, em 1937. O Castelo da Torre de Garcia D’Avila é considerado a primeira grande edificação portuguesa construída no Brasil e exemplar único de Castelo em estilo medieval construído na América.

De acordo com a funcionária da Fundação, Vanessa Rode, “mesmo com a estrutura estando em situação precária, merecendo restauro, não há nada que possa provocar acidentes”. Ela informou, todavia, que o número de visitantes nas passarelas, a cada tour, foi reduzido de 20 para 14. “Sempre que temos eventos e a presença de grupos maiores o acesso é limitado por questões de segurança”. O Castelo dispõe de 12 funcionários e suas ruínas são mantidas em ótimas condições de higiene e limpeza.

A Casa da Torre foi construída entre 1551 e 1624, a 73 metros acima do mar, no ponto mais alto de toda a região, até Sergipe. O acesso ao equipamento, a 3 quilômetros da entrada de Praia do Forte, vem sendo pavimentado pela prefeitura local. A Fundação Garcia D’Ávila administra, também, a Reserva de Sapiranga, na região de Praia do Forte. São 533 hectares de terra, caracterizados como uma área secundária de Mata Atlântica, por ter sido devastada para o plantio da monocultura do coco e para a prática de pecuária extensiva durante a colonização portuguesa. Hoje, a Mata Atlântica vem se recompondo de forma natural e exuberante na reserva.

As vigas que sustentam as passarelas estão corroídas e comprometem a segurança de visitantes

Sítio histórico será museu a céu aberto

A visita à Casa da Torre ocorre de domingo a domingo, com ingressos a R$ 10, e meia-entrada para idosos, professores e estudantes. A taxa é avaliada como “a título de contribuição, cuja arrecadação é destinada à manutenção e proteção das ruínas, gerando empregos para a população nativa”. A Casa da Torre dispõe de uma maquete de como poderia ter sido a edificação, a um só tempo residência e fortificação militar. Ganhou um Centro de Visitação com 1.700 metros quadrados, formado por um amplo salão onde está exposta a maquete do Castelo e espaços com salas para exposições históricas e arqueológicas, loja, salão para áudio visual, belvedere e centro administrativo.

Dispõe, ainda, de laboratório de arqueologia que reúne pedras, louças, materiais em estilo barroco, cerâmicas portuguesa, chinesa e indígena, além de crânios encontrados no cemitério que existia ao lado da Capela erguida em louvor a Nossa Senhora da Conceição e que passou a louvar a Todos os Santos.

O projeto de converter o espaço em um “museu a céu aberto” já deveria ter sido concluído desde 2010, conforme narrativa no vídeo exibido no local sobre a história do Castelo. As peças vêm sendo catalogadas e restauradas. Há quadros e painéis pintados pelo artista plástico argentino Mariano Artega adornando o salão.

Conforme o site da Fundação Garcia D’Ávila, o equipamento foi tornado em Parque Histórico e Cultural, “um complexo que compreende as ruínas da Casa da Torre ou o Castelo e um sítio arqueológico na área do seu entorno”. O Parque oferece espaço para eventos, como cerimônias de casamentos, comemorações, aniversários, exposições e festas de empresas, sob regras comportamentais estabelecidas pelo Iphan e pela Fundação e dos quais são obtidos recursos para a manutenção do Castelo e outras ações da entidade.


Maquete de como poderia ter sido o Castelo ou Casa da Torre, de Garcia D’Ávila

 

Sede de latifúndio do bastardo de Tomé de Souza

A propriedade era a sede do imenso latifúndio adquirido e ampliado por Garcia de Sousa D’Ávila (São Pedro de Rates, 1528 – Salvador, 20 de maio de 1609), filho bastardo de Tomé de Souza, a quem acompanhou na vinda ao Brasil como primeiro governador-geral e fundador de Salvador, em 29 de março de 1549. D’Ávila foi nomeado, em 1º de junho daquele ano, como “feitor e almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfândega”, um cargo sem ordenado, arriscando-se a viver dos azares do negócio, tendo apenas “os prós e percalços que lhes diretamente pertencerem”.

Como os soldos e serviços eram pagos geralmente em mercadorias e muito raramente em dinheiro, Garcia D’Ávila recebeu, em 15 de junho, seu primeiro pagamento – duas vacas -, assim começando sua longa jornada de sucesso. Trabalhou com esforço austero e inexcedível energia durante a construção de Salvador e instalou-se inicialmente em Itapagipe, depois em Itapuã, vindo a se tornar o primeiro “bandeirante” do Norte. Tomé de Sousa doou a Garcia d’Ávila 14 léguas de terras de sesmaria que lhe haviam sido outorgadas pelo rei Dom Sebastião.

As terras iam de Itapuã até o Rio Real e Tatuapara, pequeno porto 50 metros sobre o nível do mar. Foi lá que Garcia D’Ávila, após derrotar tribos indígenas existentes ao norte de Salvador, ergueu sua Casa da Torre, em 1550. Em 1557 já era o homem mais poderoso da Bahia.

Grande desbravador, no final do século 16  sua propriedade já era a maior do Brasil, a se estender do Rio Itapicuru, no Norte, ao Rio Jacuípe, no Sul. Administrava seu latifúndio da Casa da Torre em Tatuapara, arrendando sítios a terceiros e fazendo uso de procuradores e ameríndios aculturados e libertos. Coube a ele ter trazido para o Brasil o gado nelore. Seu latifúndio ia de Praia do Forte até o Maranhão, perfazendo um total de 800 mil km², correspondentes a 1/10 do atual território brasileiro e com área equivalente à soma dos territórios  de Portugal, Espanha, Holanda, Itália e Suíça.

Seu herdeiro foi o neto Francisco Dias D’Ávila Caramuru, primogênito de sua filha Isabel D’Ávila (uma índia) e de Diogo Dias, filho de Genebra Álvares e Vicente Dias, neto de Diogo Álvares, o Caramuru, e Paraguaçu. Francisco foi o responsável pela conclusão da Casa da Torre, em 1624. A edificação tornou-se fundamental na defesa da costa e nas lutas contra os invasores holandeses e franceses, além de ponto de partida para os sertanistas que viriam a colonizar o Nordeste. A construção foi realizada por malfeitores (ladrões e assassinos) portugueses. O Castelo foi abandonado no final do século 19 e sua restauração iniciada em 1999.

IAB aponta lacunas no PDDU e Sucom reage

                                                                                           Foto: ArquivoÁrea da Borda Atlântica, em Stella Maris, ainda sem as construções verticais
 
Albenísio Fonseca
 
Através de uma “Nota Técnica”, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia – CAU/BA, o Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento da Bahia – IAB-BA e o Sindicato dos Arquitetos do Estado da Bahia – Sinarq “questionaram o que entendem por “gritantes vícios da nova e recém-sancionada Louos – Lei de Ordenamento de Uso e Ocupação do Solo – Lei 9.148/2016”. Ao salientar que a lei, na sua essência, deve regulamentar o novo PDDU-Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano nos seus aspectos de parcelamento, uso e ocupação do solo, as entidades buscam demonstrar o que avaliam como “severas inconsistências na sua regulamentação através da nova Louos”.
As três entidades representativas dos arquitetos e urbanistas baianos enfatizam itens como “a falta da visão a médio e longo prazo da cidade pretendida; a falta de uma política urgente de reestruturação econômica do município; falta de uma estratégia de redução de desigualdades dos seus bairros e da territorialização, em relação à capacidade de suporte da sua infraestrutura, das densidades máximas (habitacionais, de postos de trabalho e de usos não residenciais)”.
O IAB, CAU e Sintarq estipulam que tais quesitos compreendem “lacunas fatais” para a definição da Política de Desenvolvimento e Expansão Urbana, objeto principal de um Plano Diretor Municipal. Asseguram, ainda, que “as deficiências no PDDU têm trágicos reflexos na sua regulamentação, por meio desta Louos ou dos demais planos setoriais (mobilidade urbana, saneamento básico), por não fornecerem base técnica essencial e possibilidade de compatibilização intersetorial”.
As entidades signatárias do documento reiteram que, “com suas graves deficiências, o Plano Diretor não oferece os subsídios essenciais para a Louos, não contribuindo para superar a situação alarmante de desigualdade dos direitos sociais de cidade no município, nem para reduzir a pobreza e a precariedade do uso e ocupação do solo”. Expõem, ainda que a recém-aprovada e sancionada Louos, “não atende às expectativas da sociedade ou aos requisitos técnicos indispensáveis”.
Entre os diversos pontos criticados pelas entidades está o que envolve a liberação de gabarito na Orla Atlântica da cidade, que entendem estar “em desacordo com o conceito descrito no Anexo 1 do PDDU (que define como limite continental as “primeiras colinas ou maciços”), que estaria sendo “desrespeitado a partir do Rio Vermelho, reduzindo drasticamente a percepção da ‘silhueta da cidade’ como paisagem urbana, para avançar com a verticalização sem limite até 300m da praia”. Os signatários da nota técnica estipulam que “a Louos de hoje vai gerar parcelamento e construções com reflexos para os próximos 50 a 100 anos da cidade. Se forem feitos sem visão de futuro gerará resultados irreversíveis sem mínima garantia de sustentabilidade”.
Assinada pelos presidentes das entidades – CAU/BA, arquiteto e urbanista Guivaldo D’Alexandria Baptista; IAB-BA, arquiteta e urbanista Solange Souza Araújo, e Sinarq, arquiteta e urbanista Gilcinéa Barbosa da Conceição – a nota sustenta que “com a verticalização (Gabarito de Altura ou GA) numa forma escalonada dentro das três faixas sucessivas de distância (0 a 60, 60 a 90, 90 a 120 e 120m ao limite da ABM-Área de Borda Marítima), passou a permitir gabaritos de 12, 15, 20 e 25 andares, sendo que após o limite da ABM inexiste limitação do gabarito”.
Para os arquitetos e urbanistas, “isto significa que a topografia natural não é mais perceptível, contrariando o que por décadas foi um conceito básico da preservação da paisagem urbana característica da cidade. Abandona-se este conceito sem a mínima justificativa ou tentativa de sua preservação parcial, gerando enormes e irreversíveis problemas climáticos de ventilação da cidade, que apresenta uma predominância, durante 83% do ano, do vento quadrante leste, proveniente, portanto, da orla atlântica”.
Através da nota emitida, fazem ver, ainda, que “conforme a Constituição baiana, (Artigo 214 inciso IX) nos primeiros 60m a partir da linha de preamar máxima não pode haver edificação, onde, agora, a Louos passou a permitir edificações de 12 andares”. Com isso, dizem, “se veda o sombreamento da praia somente em horário reduzido (antes de 8h às 16h, agora de 9h às 15h), inclusive permitindo o sombreamento da praia no horário indicado pela medicina e saúde pública para frequentar a praia e aproveitar a faixa de radiação saudável do sol para tomar banho de sol”.
“O PDDU e a Louos não têm conteúdos para Planos de Mobilidade, Saneamento, e Infraestrutura de Serviços Públicos”. Tais planos, segundo os arquitetos, “precisam ser alimentados pelo PDDU e compatibilizados com o parcelamento, uso e ocupação do solo na Louos. Precisam ter definidas as densidades limite: habitacionais, de postos de trabalho e de atividades econômicas e sociais, já territorializadas no zoneamento”. Embora sejam tidos como “dados essenciais” mostram que “o novo PDDU não fornece, nem por fase temporal ou por porção territorial e, mais grave ainda, nem a Louos ou mesmo seu zoneamento fornecem estes conteúdos, essenciais para definir prioridades de adensamento em função das capacidades ociosas de infraestrutura e serviços existentes”.
Sucom rebate críticas dos arquitetos
 
O secretário municipal de Urbanismo, Sérgio Guanabara reagiu, à nota técnica divulgada pelo CAU-BA, IAB e Sinarq  afirmando que os dirigentes das entidades dos  arquitetos “fizeram críticas equivocadas, infundas e inverídicas à nova legislação urbanística de Salvador”. Para ele, “com um discurso eminentemente político, as entidades consideram ‘sem base técnica’ um processo que durou dois anos – com intensa discussão pública e o desenvolvimento de estudos técnicos nas mais diversas áreas”, ressaltou. 
Ainda sobre a alegada “ausência” de base técnica, Guanabara afirmou tratar-se de “afirmação tendenciosa e irresponsável em criticar um processo amplamente divulgado e discutido com a população, além de envolver profissionais renomados de vários campos de atuação, como urbanistas, advogados, engenheiros, biólogos, sociólogos, economistas e até mesmo arquitetos ligados às entidades que, agora, fazem críticas à legislação”. Para o secretário, o Plano Diretor “estabeleceu um modelo de cidade que desconcentra as atividades econômicas, buscando aproximar a moradia do emprego e do consumo de bens e serviços, evitando, desta forma, grandes deslocamentos, o que contribui com a mobilidade urbana sustentável”.
De acordo com Guanabara, “a legislação estabelece um modelo de cidade em rede e de cidade compacta, focada nos pedestres, no transporte público de qualidade e na acessibilidade universal, ao instituir claramente a rede viária e de transporte existentes e planejadas, bem como a previsão de maiores densidades construtivas e populacionais ao longo dos corredores de transporte de alta e média capacidade”.
Ele destacou, ainda, que as entidades representativas dos arquitetos “estão propagando inverdades acerca da nova legislação urbanística no que tange à verticalização e barreiras de ventilação”.  Conforme Guanabara, as regras quanto ao gabarito na ABM-Área de Borda Marítima “nunca foram tão criteriosas e objetivas como as que constam na nova Louos e novo PDDU”. Segundo o secretário, qualquer nova construção na Orla Atlântica “deverá obrigatoriamente realizar estudo de sombreamento para que a altura máxima do empreendimento seja estabelecida respeitando o não sombreamento das praias. As novas construções deverão atender também recuos e afastamentos entre prédios cerca de 30% maiores do que no restante da cidade para salvaguardar a ventilação e o conforto ambiental urbano”, enfatizou.
O secretário fez ver que “todas as contribuições e críticas fundamentadas sempre foram bem-vindas e ajudaram a aperfeiçoar o processo de construção da legislação urbanística. Mas, infelizmente, durante a elaboração das novas legislações as entidades que fizeram o comunicado preferiram participar parcialmente sem encaminhar qualquer proposição técnica que contribuísse com a cidade e o bem-comum”, alfinetou.
Salvador é dividida em 12 trechos nas duas bordas marítimas
 
A orla marítima de Salvador é banhada pelo Oceano Atlântico com frentes para a Baía de Todos os Santos (Oeste) e para o “mar aberto”, chamado de Orla Atlântica (Sul e Sudeste). Em relação aos aspectos urbanísticos, o PDDU de 2008 dividiu a orla da Cidade em 12 trechos e estabeleceu os limites para a “Área de Borda Marítima”. À época, o gabarito fixado foi de três andares para a a área da Costa Atlântica. Conforme o Artigo 235, “a Área de Borda Marítima-ABM, é a faixa de terra de contato com o mar, compreendida entre as águas e os limites por trás da primeira linha de colinas ou maciços topográficos que se postam no continente, em que é definida a silhueta da Cidade”. Em parágrafo único fora definido, então, que “para efeito desta Lei, a Área de Borda Marítima compreende dois ambientes distintos, subdivididos nos trechos:
I – Borda da Baía de Todos os Santos, compreendendo: a) Trecho 1 – Canal de Cotegipe até a Enseada do Cabrito; b) Trecho 2 – Enseada dos Tainheiros até a Calçada; c) Trecho 3 – São Joaquim até a rampa do antigo Mercado Modelo; d) Trecho 4 – Conceição até a Encosta da Vitória; e) Trecho 5 – Encosta da Ladeira da Barra até o Farol da Barra.
 II – Borda Atlântica, compreendendo: a) Trecho 6 – Praia do Farol da Barra até o Centro Espanhol; b) Trecho 7 – Ondina até a Praia da Bacia das Moças; c) Trecho 8 – Alto da Sereia até Amaralina; d) Trecho 9 – Pituba até Armação; e) Trecho 10 – Boca do Rio até Jaguaribe; f) Trecho 11 – Piatã até Itapuã; g) Trecho 12 – Stella Maris até Ipitanga.

Salvador vira uma cidade sem rios


Sem campanhas educativas, população usa os rios como esgotos

 ALBENÍSIO FONSECA

 Frente à tendência de cidades como São Paulo, México e Seul (Coreia do Sul), que passaram a desenterrar rios, cursos d´água e córregos canalizados para conter enchentes e abrir caminhos para avenidas, em meio à crise de mobilidade urbana, em Salvador a opção tem sido a de “encapsular” os rios, também para criação de áreas de convívio e lazer. Naqueles casos, o que era visto como fator de progresso passou a ser condenado por urbanistas e o movimento agora é pela reabertura dos canais que viraram rede de esgoto e desenterrar os rios.
Conforme avaliação do engenheiro sanitarista Eduardo Topázio, coordenador de Monitoramento dos Recursos Ambientais e hídricos do Inema-Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, “já estamos ficando sem rios para analisar porque estão todos sendo encobertos”. Ele mencionou o caso do Rio das Pedras, no Imbuí, lamentando “que não se tenha optado pelo saneamento”. Disse que “as águas dos rios correm e, ao se deixar de poluí-las, permite-se que eles se recuperem rápida e naturalmente”. Para ele, “como estamos hoje, com os rios poluídos, há um enorme impacto ambiental e na saúde pública, destacando que onde temos praias poluídas é porque existem rios poluídos”.
PACTO DAS ÁGUAS – Para Topázio, “o problema maior é o lixo lançado por moradores nesses mananciais, dado o baixo índice de educação da população, independente do poder aquisitivo e do bairro em que residam”. Segundo ele, “em razão da ocupação irregular do solo, promovida por invasões e construções irregulares e sem controle do poder público municipal, são péssimas as condições das bacias hidrográficas de Salvador”. Nesse sentido, defendeu um “pacto das águas” na capital, “com empoderamento do Comitê de Bacias que, além dos poderes públicos estadual e municipal, tem participações de usuários representados por entidades como o Cofic-Comitê de Fomento Industrial de Camaçari, a Fieb-Federação das Indústrias do Estado, a Embasa, entidades ambientalistas e mesmo colônias de pescadores, entre outros. Ou seja, “a reponsabilidade é colketiva e envolve as políticas de Saneamento e do Meio Ambiente
A iniciativa coincide com a renovação eleitoral dos membros dos 12 comitês de bacias hidrográficas do estado, ocorrida em julho, e que reafirma a gestão participativa das águas da Bahia. O monitoramento de 134 rios, além de corpos d’água, foi expandido de 315 para 417 pontos de amostragem, sem ainda alcançar a meta estipulada, para 2015, de 566 pontos. No site do Inema, o último relatório de monitoramento publicado data de 2011. De acordo com o coordenador de Monitoramento do órgão, “falta infraestrutura como a disponibilidade de laboratórios para análise da qualidade das águas, somente disponível pela Embasa, em Salvador, onde a demanda dessas análises é maior. O Inema dispõe de um laboratório contratado.
Rio das Pedras, na Boca do Rio, tomado por ocupações irregulares

80% dos rios da cidade estão contaminados

Eduardo Topázio confirma que “todos os rios estão recebendo esgotos, embora em alguns trechos, a exemplo do Rio Cascão, na Baixa do Cobre, em cerca de 20% esteja em condições de razoável a boa. Mas 80% estão contaminados, não só por esgotos, mas principalmente por lixo que tem afetado as praias de Salvador. Ele enfatizou que “a cidade tem crescido sem planejamento, sem cumprir as regras urbanísticas adequadas e sem autorização da Prefeitura: Há moradias que têm a rede de esgoto na porta, mas os moradores não realizam a conexão, preferem ligar na rede pluvial que, aliás, é gerida pelo poder municipal”.
Ele citou o caso do canal do Rio de Pedras, na Boca do Rio, “que se encontra, mais acima e mais abaixo, com os rios Cascão e Pituaçu, como exemplo da presença de construções irregulares, não só às margens, mas sobre o fluxo da água”. Demonstrou que “quem pretender subir navegando pelo canal não conseguirá por conta de construções de moradias naquela área”, lembrando que “o bairro foi denominado Boca do Rio exatamente pela presença do Rio de Pedras”. Topázio salientou que, “no Brasil adotou-se o separador absoluto com canalizações específicas, uma para rede pluvial e outra para o esgotamento, ao mencionar o caso do Rio Camaragibe – maior bacia genuinamente soteropolitana – que nasce na região do Alto de Pirajá e deságua na praia do Stiep. Antes, seguia em direção ao Rio Vermelho, encontrava com o Rio Lucaia, mas sofreu intervenção que criou um canal e deslocou o curso para o Stiep”. Disse que “até os anos 90, o Camaragibe conduzia só esgotos. Com o advento do Bahia Azul, passou a ser canalizado para o Emissário Submarino do Rio Vermelho a fim de impulsionar a carga, inclusive porque está previsto na legislação que os rios também podem ser utilizados como esgotos, revelou.
De modo geral, ele enfatizou que “não basta que o estado coloque rede de esgotos, mas de fazer com que as pessoas façam a ligação do sistema de suas casas com a rede, inclusive porque pagam 80% de tarifa pelo uso da rede esgotamento na conta de fornecimento da água, mas não o fazem por comodidade e até porque as multas aplicadas são de baixo custo”. Atualmente, Salvador abriga mais de 600 mil habitantes (o equivalente à população de Feira de Santana, segunda maior cidade do estado) sem acesso ao esgotamento sanitário. Ele estipula que “a recuperação dos rios de Salvador é um sonho porque teríamos que mexer em todo o tecido urbano e com deslocamento de comunidades inteiras”. Topázio faz ver, inclusive, que “em breve deverão cobrir o braço do Rio Camaragibe que divide a Avenida Juracy Magalhães para adoção de um novo corredor de tráfego”. Citou, ainda, o Rio Jaguaribe como o mais atingido atualmente – “ano após ano se mostrando pior” – comprometendo a bacia hidrográfica e impactando nas praias.

 Prefeitura tem projeto para recuperar Bacia do Mané Dendê

O titular da Secretaria Cidade Sustentável, André Fraga, também admitiu que “os rios da cidade estão todos convertidos em esgoto”. Ele mencionou a criação da Arsal-Agência Reguladora e Fiscalizadora de Serviços Público em Salvador, após estudo feito pela Fipe-Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas apontar que a atual agência reguladora do serviço, a Agersa-Agência Reguladora de Saneamento Básico da Bahia ter realizado apenas cinco fiscalizações em 2012 e não ter aplicado nenhuma multa à Embasa, entre outras denúncias de inoperância da Agersa e má qualidade no serviço prestado pela empresa. “Ou seja, aqui temos o estado fiscalizando o próprio estado”, disse.
Ele adiantou que a Prefeitura decidiu por adotar o estudo promovido pela UFBA-Universidade Federal da Bahia, “Caminhos das Águas”, que define a existência de 163 bairros na cidade, a partir das 12 bacias hidrográficas e após ouvir as comunidades, embora existam pontos controversos. A decisão, contudo, ainda depende do envio de projeto de lei à Câmara Municipal para avaliação dos vereadores. Fraga informou, também, já estar em fase de conclusão o projeto de recuperação da Bacia Hidrográfica do Mané Dendê, no Subúrbio Ferroviário, com investimento de US$ 135 milhões, sob dotação do BID-Banco Interamericano de Desenvolvimento e que “transformará o local em um parque linear, seguindo o desenho do rio”. Fraga criticou a Embasa “por não promover investimentos na cidade visando a ampliação das redes de distribuição de água e das de captação e destinação do esgotamento”.

 Embasa questiona falta de fiscalização do uso do solo

De acordo com a Embasa, o SES-Sistema de Esgotamento Sanitário de Salvador possui 4.200 quilômetros de rede e atende a 83,48% dos domicílios da cidade. Segundo a empresa, “a maioria dos habitantes que ainda não estão ligados ao sistema, lança indevidamente seus esgotos nos córregos e rios da cidade, enquanto outra parte tem fossa séptica, atenuando o problema”. Em busca da universalização do serviço, a empresa garante implantar, “a cada ano, uma média de 25 mil novos ramais domiciliares, que possibilitam atender ao crescimento ocupacional da cidade e aumentam a cobertura no município”. A assessoria da empresa destaca que, “além do esgoto, outros fatores causam a poluição dos rios urbanos, como o descarte indevido de lixo e a sujeira das ruas, que a água da chuva leva para os rios, canais e córregos da cidade”.
Para a Embasa, “em diversas áreas de ocupação espontânea da cidade, a ampliação da cobertura do esgotamento sanitário é um desafio, pois esses locais não contam com a infraestrutura urbana mínima para implantação de redes de esgotamento sanitário, como macro e micro drenagens de águas pluviais, arruamento, pavimentação e contenção de encostas”. Além disso, garante “existir imóveis erguidos em APP-Áreas de Preservação Ambiental Permanente, que não deveriam ser ocupadas, e nas quais não é possível implantar rede de esgoto, como é o caso de casas situadas sobre as nascentes dos principais rios da cidade”. 
Para a solução desse problema, conforme a empresa, “são necessárias ações de urbanização, macro e micro drenagens, reassentamento da população que habita áreas de preservação, além da expansão dos serviços de saneamento básico, a saber, abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais e manejo de resíduos sólidos”. Além disso, considera ser “preciso desenvolver ações de fiscalização do uso e ocupação do solo, evitando que a ocupação desordenada continue produzindo novas áreas que inviabilizem a infraestrutura urbana no território municipal, aliadas a políticas habitacionais voltadas para a população de baixa renda. Quanto ao abastecimento de água, informa que a cobertura do serviço é de 98,22%, em Salvador.

Imagem histórica do Rio Vermelho

Dois (de muitos) rios atravessam a história da capital

Salvador sempre foi beneficiada por diversos rios que, ao longo do tempo, foram transformados em canais de esgoto. Alguns permanecem, mas correndo através de canalizações de concreto, isto é, em baixo da terra. Com registros históricos centenários, desde antes mesmo da fundação da cidade, há o Rio das Tripas, que nasce nas encostas da Barroquinha e do São Bento e o Rio dos Seixos, com nascente na chamada Fonte de Nossa Senhora da Graça, no bairro da Graça.
O Rio das Tripas foi canalizado em meados do século XVIII e, sobre ele, surgiu a Rua da Vala, posteriormente Rua Dr. J. J. Seabra, atual Baixa dos Sapateiros. A obra se estendeu desde a Barroquinha até praticamente o Largo das 7 Portas. Em 1970 a antiga canalização foi substituída. Ao que se sabe, não houve nenhuma reação popular contra essa canalização. O rio praticamente era um esgoto a céu aberto. Não havia como recuperá-lo.
Já o Rio dos Seixos tem como primeiro registro histórico um mapa onde se mostra os limites da Vila do Pereira, do donatário Francisco Pereira Coutinho, datado de 1536, antes da fundação de Salvador, em 1549, e que despejava suas águas próximo ao atual Morro do Cristo, na Barra. Para a construção do túnel que liga o Dique do Tororó ao Chame-Chame a fim de se construir a atual Avenida Centenário, entre 1959 e 1960, durante o Governo Juracy Magalhães, também seria encoberto. Em consequência houve um “boom” imobiliário, tomando de assalto o Vale do Chame-Chame e seu entorno. As laterais do Rio dos Seixos foram cimentadas, diminuindo a largura. Sem que fosse feito qualquer saneamento básico na área, os dejetos das residências eram jogados no canal. Não era mais um rio e, até recentemente, quando chovia, todo o Chame-Chame era inundado. Há poucos anos, foi totalmente encoberto e construída uma ampla praça no local.
Hoje, o Rio dos Seixos está ligado ao emissário submarino do Rio Vermelho, construído em 1975 com capacidade para processar 8,3 mil litros por segundo. Após tratamento, o esgoto captado é lançado ao mar, por meio de difusores localizados a 2,35 Km da costa e profundidade de 27 metros. Vale lembrar que Salvador dispõe de dois emissários submarinos. O segundo é o emissário submarino da Boca do Rio, que integra o Sistema de Disposição Oceânica – SDO Jaguaribe. Foi inaugurado em 2011 e tem capacidade para dispersar no oceano 5,9 mil litros de efluente por segundo, a 45 metros de profundidade. De acordo com a Embasa, “o processo de tratamento não gera nenhum impacto ambiental capaz de causar incômodos à vizinhança e o efluente final não representa risco de degradação ambiental das praias e ecossistemas marinhos”.

Quiosques são abandonados em Stella Maris

                                                                                                                                                Foto: Albenísio Fonseca

Parcialmente construído, quiosque é guarnecido por cães amarrados às colunas

Albenísio Fonseca

Dois quiosques de 30 e 50 metros quadrados, dos 13 previstos para serem instalados na Praia de Stella Maris – entre os 120 programados para toda a Orla de Salvador – chegaram a ter boa parte da estrutura construída, mas estão há mais de dois meses completamente abandonados. Localizados na frente e ao lado do Gran Hotel Stella Maris, a implantação dos equipamentos já gerou demanda junto ao Ministério Público Estadual por parte de moradores do bairro que acreditavam tratar-se de invasão.
O primeiro, já com estrutura de vidros instalada, vem sendo ocupado por ambulantes que comercializam bebidas junto aos que vendem vestes e acessórios de praia para os hóspedes do hotel. O segundo, também com alvenaria construída e madeiras dispostas, mas ainda sem uso, é guarnecido por  cães amarrados nas colunas da edificação. As peças metálicas já apresentam ferrugem pela ação do salitre e evidente falta de manutenção. Os animais são alimentados com pedaços de carne lançados ao chão, também disputados por pombos, em um quadro dantesco. Uma vasilha para água que permitiria saciar a sede dos animais estava revirada durante todo o dia de ontem.
As obras não dispõem de placas de licenças ambiental ou construção e tendem a provocar outras controvérsias pelo fato de acontecerem antes de iniciado o projeto de revitalização da Orla naquele trecho. Com base na licitação transcorrida em julho de 2014, quatro anos após a demolição das tradicionais barracas de praia, a área de Stella Maris será contemplada com o segundo maior número de quiosques, depois de Itapuã, que tem 18 desses equipamentos, 12 na região da Sereia e outros seis no Farol de Itapuã. A localização dos quiosques é definida pela FMLF-Fundação Mário Leal Ferreira, conforme previsto nos contratos de concessão.
De acordo com o secretário de Cultura e Turismo, Érico Mendonça, “o projeto para a revitalização da Orla de Stella Maris já está pronto”. Segundo ele, “a assinatura do convênio com o Prodetur-Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo, para a liberação de recursos pelo órgão, todavia, tem apenas esta semana para ser firmado. Do contrário e com base na legislação eleitoral, somente poderá ser feito após o pleito. A liberação da verba está pendente junto à STN-Secretaria do Tesouro Nacional”. Durante a entrevista por telefone, o secretário alegou não dispor dos dados que permitissem informar os valores a serem investidos na obra.
A propósito da paralisação na construção dos dois quiosques, Érico Mendonça afirmou que teria havido “problemas na infraestrutura o que levou à suspensão das obras. Arguiu, ainda, sobre “problemas para instalação dos fornecimentos de energia e água”. Quanto ao fato das construções ocorrerem antes da intervenção urbana naquela praia, disse “decorrer do verificado em Piatã, quando tiveram o piso estragado, entre outras peças pré-moldadas utilizadas na edificação, por terem sido instalados após as obras de revitalização”.
As empresas vencedoras da licitação pagaram um valor fixo pela concessão por 15 anos. A  Saneando Projetos e Engenharia ficou com três lotes, por R$ 2,94 milhões; a Holz Engenharia, também responsável pela construção dos quiosques, venceu  dois, por R$ 1,61 milhão; e o Consórcio RPH tem um ao custo de R$ 600 mil. Cada lote conta com 20 quiosques, que variam entre 30, 50 e 100 metros quadrados. Cada lote tem um quiosque na Barra, outro em Ondina e dois em outra praia “para evitar o domínio de uma empresa num mesmo lugar”, conforme justificado à época.
A exceção é o lote dos quiosques das ilhas. Nesse caso, todos serão concedidos ao Consórcio RPH, em que pese o fato de, nas ilhas, ser preciso atravessar de barco e ter uma base operacional lá. Se uma empresa cuidasse só de dois quiosques, poderia abandonar o negócio, segundo estipulado para a elaboração dos editais. Os quiosques, a depender da localização e tamanho, têm sido terceirizados por valores entre R$ 5 mil e R$ 10 mil mensais.

 

Obras de Mário Cravo sob ameaça

As obras têm sido recolhidas à Oficina no Parque  de Pituaçu

 

 ALBENÍSIO FONSECA
Último modernista baiano vivo, o escultor, gravador, desenhista, pintor e ex-professor, Mário Cravo Jr., 93 anos, permanece lúcido e produtivo. Sua obra, no entanto, sob abandono, está sob ameaça de ser perdida na esvaziada contemporaneidade baiana. Nas mil e uma faces da sua produção, como se diria de um verdadeiro “rei da sucata”, Cravo tem trajetória marcante pelo reaproveitamento de materiais, como as madeiras do século XIX, provenientes do incêndio que destruiu o Mercado Modelo, no final dos anos 60 – com que produziu uma “via sacra”; cerâmica, ferro e outros metais, oriundos de desmontagens do Polo Petroquímico de Camaçari, que lhe inspirariam a Fonte da Rampa do Mercado Modelo ou o Exu mola de jipe, no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre centenas de exemplos.
O comodato firmado com o Governo da Bahia, em 1994, quando o governante era Antônio Carlos Magalhães, já se esgotou, mas envolveu a doação de 800 peças, entre esculturas expostas no Parque Metropolitano de Pituaçu, na Orla de Salvador, em cuja entrada foi criado o Parque Mário Cravo Jr, e o que ele denomina de “computações plásticas”. Há três anos, conforme o filho do artista Ivan Ferraz Cravo, 66, “a Sema-Secretaria Estadual do Meio Ambiente, responsável pela área, deixou de efetuar qualquer manutenção nas obras ou fornecer materiais, sequer a tinta para recuperação das peças”. O Museu e sua reserva técnica, na entrada do Parque, onde permanecem as obras em papel, estão se deteriorando nas gavetas ou algumas esculturas, expostas às infiltrações, sem nenhum cuidado de conservação. Segundo o filho do artista, que já presidiu a Fundação Mário Cravo Jr., “estamos buscando desesperadamente apoios para salvar o acervo”.
Agora, segundo ele, “parece que a montanha se moveu”. Convocado por Ferraz, o Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Dimus-Divisão de Museus da Fundação Cultural do Estado, decidiram proceder a um levantamento do acervo do modernista. A visita inicial de técnicos contou com a participação do diretor do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro. Embora o órgão só deva iniciar o cadastro das obras após os festejos juninos e sob a perspectiva de conclusão “até o final do ano”, já se cogita de transferir as instigantes peças – impressas e esculpidas – para ambientes climatizados no Palacete das Artes (Rua da Graça), Museu de Arte Moderna (na Ladeira da Contorno) e Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória). “O trabalho demanda minúcias e será procedido com todo o critério requerido por museólogos do Ipac”, sinaliza a assessoria do órgão.
As condições de trabalho do artista também se defrontam com as demissões dos seis funcionários que, há 12 anos, finalizam as obras criadas pela mente inquieta de Mário. “A Sema rompeu contrato com a terceirizada Preze, no final de março, exclusivamente para o fornecimento do pessoal para a Oficina de Cravo. Também o servidor João Alberto, da Conder-Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado, precisa ser transferido para a Sema para poder permanecer cuidando da Oficina”, diz Ivan. Há dois meses e de modo informal, o escultor mantém os trabalhadores que capacitou para as atividades. Muitas das peças boiam nas águas poluídas da Lagoa de Pituaçu que já abasteceu Salvador. Outras sucumbem sob a ação do salitre, escondidas em meio à vegetação sem poda do parque metropolitano.
Mário Cravo Jr, conforme o filho, se mantém com a economia de recursos provenientes da venda de suas criações. Uma de suas esculturas monumentais foi adquirida por um dos sócios da Ambev, cujo nome não recorda. Uma réplica em fibra de vidro de “Antonio Conselheiro”, permanece em meio a outras para restauração e ferramentas como tornos e soldas na Oficina. “O original está em Canudos”, enfatiza Cravo. Boa parte de sua produção dialoga com a cidade. A Sereia, em Itapuã; O Exu Mensageiro, em frente à sede central dos Correios, na Pituba; a homenagem a Clériston Andrade (na Avenida Anita Garibaldi)   e a Cruz Caída, na Praça da Sé, que toma emprestado o nome do episódio da via crucis para proceder uma crítica à derrubada da Igreja de São Pedro, demolida em 1915 pelo governador José Joaquim Seabra em sua sanha higienista da cidade e no afã de criar novas avenidas na primeira capital do País.
Frente a uma peça em fase conclusão – material procedente de equipamento para contração de temperatura para óleo – o artista decidiu dar nome ao trabalho. “Vai se chamar ‘dinâmica espacial’, batizou. Para Mário Cravo Jr., “não existe trabalho, mas diversão”. Ele reclama da “dificuldade para chegar até o Governador Rui Costa”. Sua última exposição “Esculturas” aconteceu durante o governo Jaques Wagner, em 2013 no Palacete das Artes – museu mais qualificado para absorver a extensa produção do artista.
 
A0s 93 anos, Mário Cravo permanece lúcido e produtivo

O que disseram dele Jorge Amado e Carybé

Sobre ele, Jorge Amado afiaria o teclado da velha máquina datilográfica para cravar a legenda: “Ferreiro coberto de fogo e aço, comido goiva e aço, os bigodes arrogantes, devasso, quase agressivos, os olhos de insônia, a boca em gargalhada, eis o guerreiro Mário Cravo em luta com o ferro bruto, a madeira pesada ilustre, a pedra morta, para sempre morta, mas de repente viva em sua mão, em seu talho, em sua forja, em seu destino deslumbrado e louco, em seu criar sem descanso (…)”. 
Carybé revelaria que “…a Bahia deve a Mário Cravo a recuperação do Solar do Unhão e a instalação nele dos museus de arte moderna e de arte popular. Foi por insistência dele que a arquiteta Lina Bo Bardi desistiu da construção de um prédio específico e tratou da restauração do Solar”. No refinado catálogo produzido para a sua última mostra o então secretário de cultura, Albino Rubim, salienta o quanto “o modernismo demorou a aparecer na Bahia. Terra de profundas e fundadas tradições, a Bahia resistiu longo tempo à modernidade cultural”. 
Lembra, ainda, que “a primeira geração, nos anos 20, inventou o modernismo no Brasil. A segunda, na década de 30, consolidou o modernismo através do regionalismo e da ampliação do seu público. Orgulhosa de sua cultura, a Bahia se mantinha contrária à modernidade. Só no final dos anos 40 o modernismo vai acontecer na Bahia. Mário Cravo, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho são protagonistas desta mudança. A obra dele está disseminada nas ruas e prédios de Salvador e de outras cidades. Encontra acolhida em relevantes museus no Brasil e no mundo”. 
Espera-se que este emblemático modernista permaneça vivo para assistir senão à criação de um museu para sua obra, que ao menos possa ver confirmado o resgate das peças sob a ameaça de um injustificado abandono em Pituaçu, no coração da Orla.

Sinfônica da Bahia toca a “ópera da crise”

                     Fotos: Adenor Gondim/DivulgaçãoA Orquestra fantasiada de Super Heróis durante o Cine Conserto e para denunciar a grave condição do corpo artístico do TCA

 Albenísio Fonseca

Em busca de um novo prelúdio para a existência, a Osba-Orquestra Sinfônica da Bahia vem buscando atravessar a “ópera da crise” gerada pela grave situação que envolve sua manutenção há, pelo menos, 10 anos. Tal condição ainda tem se mostrado muito aguda. Mas a perspectiva é de que consiga superar a ameaça de um “grand finale” e alcance consagradora apoteose até o fim do ano. O maestro Carlos Prazeres e o secretário de Cultura Jorge Portugal têm audiência com o governador Rui Costa agendada para o próximo dia 4 de maio, quando apresentarão as demandas da Sinfônica.

O regente garante que a questão “tem recebido grande atenção por parte do governo”; que ele “tem consciência da crise” e que “quer ser parceiro na resolução das pendências e não um entrave”. Fez questão de acentuar, ainda, o quanto “temos sentido boa vontade por parte do governo e sabemos que não dá para virar uma Osesp-Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo da noite para o dia”. Lembrou, inclusive, que “já houve, em 2014, a iniciativa da gestão estadual em publicar no Diário Oficial um edital anunciando a intenção de publicizar a Osba, mas aí entrou a crise”, lamentou.

As dificuldades da Orquestra se agravaram em 2007, quando era regida pelo maestro Ricardo Castro e aventou-se a possibilidade da adoção do regime de “publicização”, uma espécie de PPP-Parceria Público Privado que consiste na  transferência  da gestão de serviços e atividades, não exclusivas do Estado, para o setor privado, assegurando à entidade autonomia administrativa e financeira. Os músicos, no entanto, não aderiram à novidade e a lenta agonia (quase em “moderato”, como diríamos de um andamento musical)  continuou pairando sobre esse corpo artístico do Teatro Castro Alves .

Em 2011, o maestro Carlos Prazeres assumiu a regência. O então secretário de Cultura, Albino Rubim, retomou a alternativa sobre o tema da publicização e promoveu seminários nos dois anos seguintes. Para tanto, trouxe a Salvador representantes de outras sinfônicas que haviam aderido a este tipo de gestão, como as de São Paulo, de Minas, Paraná e a da Petrobras, apontadas por Prazeres como “as maiores do País, juntamente com as de Porto Alegre e Brasília”. Os músicos da Osba acabaram convencidos de que a terceirização da gestão seria uma “tábua de salvação” no meio da oceânica tormenta, única forma capaz de proporcionar, digamos, um “allegretto” à orquestra criada em 1982, durante o primeiro governo Antônio Carlos Magalhães.

A Sinfônica durante apresentação no Casarão do MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia

Embora tenha gerado público e tornado suas apresentações bastante concorridas nesse meio tempo, a Sinfônica da Bahia, de acordo com o regente, “ainda que dispusesse de verba, carece de legislação que adeque o direcionamento para servir à música de concerto, desde as licitações em tempo hábil para aquisição de instrumentos de qualidade à disponibilidade da captação de recursos, mas a Osba não dispõe sequer de razão social própria”. Segundo Carlos Prazeres, “poderíamos até recorrer à Lei Rouanet, mas isso tende a chocar-se com outros projetos da Fceba-Fundação Cultural do Estado da Bahia, à qual a Sinfônica está subordinada”. Esse ano já promoveram a “Osba em Casa”, com o cantor e compositor Luiz Caldas e com a acordeonista Lívia Mattos, “trazendo a plateia para o palco do TCA, pois nossa capacidade sonora é similar à de um radinho de pilha”, ironiza.

Aporte de recursos – Acontece que a licitação para a publicização – que levará a Orquestra a ser gerida por uma OSIP-Organização Social de Interesse Público – requer aporte de recursos estimado em R$ 8 milhões e outros R$ 6 milhões para manter a sinfônica funcionando. Prazeres reconhece que “a crise financeira tem inviabilizado tais dotações” por parte do estado, mas garante que “vem sendo estudada uma redução nesses montantes”. De todo modo, destaca que “a organização que vier a assumir a gestão do corpo artístico é que vai dar as estimativas das  verbas  necessárias”.

Segundo o secretário de Cultura, Jorge Portugal, “a licitação será lançada ainda este ano. Já temos a Associação dos Amigos do Teatro Castro Alves como uma entidade interessada em assumir a Osba, embora isso vá depender das demais propostas a serem licitadas”. Conforme Jorge, “no atual modelo não podemos aceitar patrocínios de grandes empresas, enquanto com a publicização isso será viável, assegurará a orquestra e evitará o desembolso maior do estado”. Portugal salienta que “o Governo está sob contingência de verbas, operando no limite prudencial dos recursos no que pese a Lei de Responsabilidade Fiscal em decorrência mesmo da crise econômica e financeira em curso no Brasil”.

Orquestra permanece sem orçamento 

A área de Cultura vive sob certa penúria. A Osba permanece sem orçamento e a condição do Balé do TCA, outro corpo artístico do teatro e subordinado à Fceba, também é delicada, mas é certo que há ações estruturantes do governo no que tange às reformas e ampliações da Concha Acústica e da segunda etapa do TCA, além da aguardada conclusão das obras no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia (no Solar do Unhão).  O cenário esboçado pelo maestro Carlos Prazeres, todavia, ainda é o de que “a Osba hoje corre o risco de ter as apresentações inviabilizadas; de virar uma camerata [conjunto musical composto por poucos instrumentistas]. Dispomos de apenas 53 músicos, dos quais 10 são contratados através do Reda e já tendo que ser revalidados pois completaram os dois anos. O mínimo é que dispusesse de 80 integrantes e o ideal, 100”.

Ele demonstra que “atualmente, a estrutura da sinfônica envolve cinco flautas e quatro primeiros violinos, quando o normal, para poder tocar com cinco flautas, seria dispor de 12 a 14 violinos”. Isso significa, esclarece, que “não podemos tocar inúmeras peças. Os repertórios romântico e moderno que se toca com cinco flautas jamais pode ser feito com apenas quatro violinos”. A Sinfônica tem se mantido ativa, principalmente, com as criações de quatro cameratas, integradas por músicos da orquestra e com apresentações em diversos locais da cidade e no interior do estado até duas vezes ao mês.

Músicos recorrem à criatividade 

Para superar esse período, a orquestra tem recorrido à criatividade. Em outubro de 2015, quando viu a necessidade de dar visibilidade à condição da Sinfônica, adotaram fantasias de super-heróis quando da apresentação do Cine Concerto, em que tocaram temas de diversos filmes de sucesso. A última apresentação com estrutura completa da Sinfônica aconteceu em dezembro passado no “Natal para as Mulheres”. Antes, enfatizou, “tocamos na Praça das Mãos (na área do Taboão) para as pessoas em situação de rua, com uma tenda improvisada como palco e distribuímos plásticos para as pessoas não sentarem diretamente no chão”. Ou seja, defende o regente, “a orquestra tem saído do pedestal, dos espaços internos dos teatros, para ir aonde o povo está”.

Ele revelou as perspectivas que tem para o segundo semestre, “com projetos criativos mesmo com o corpo artístico deficitário”. Disse estar sendo preparada uma “peça-concerto” sobre “Gregório de Matos e a musicalidade barroca”, com participação do diretor teatral Gil Vicente Tavares e adiantou que  que vem mantendo conversas sobre o interesse em retomar o Sarau da Osba, com o diretor do MAM, Zivé Giudice, e que “envolve poesia, dança, teatro, literatura e a música clássica”. Acenou, também, com a “possibilidade de promover uma “feira expositiva” para crianças no Palacete das Artes (na Graça), já esboçada para o diretor Murilo Ribeiro, na qual seria “estimulada a interação delas com os instrumentos, inclusive com apoio de psicólogos, até desembocar em um concerto destinado ao público infanto-juvenil”.

Carlos Prazeres aludiu, além do mais, ao “estudo de projeto especial para uma ocupação do MAB-Museu de Arte da Bahia” (no Corredor da Vitória), também em conjunto com o diretor Pedro Archanjo, assegurando que “quando entramos em um espaço buscamos dialogar potencializando a capacidade daquele universo”.  Com a publicização ele planeja a interiorização. Prazeres disse querer formar plateias nas cidades da Bahia para a música erudita, inclusive tocando compositores da escola baiana como Lindemberg Cardoso, Walter Smetak, Ernst Widmer (já falecidos) e outros como Paulo Costa Lima, Alexandre Espinheira, Natan Albuquerque. “O desejo é proporcionar essas audições para as novas gerações e provar que a Bahia é uma grande reunião de culturas e de formas de expressão”.

A Osba já teve a regência de conceituados maestros, como Isaac Karabtchevsky, Jacques Morelenbaum, Osvaldo Colarusso, Alex Klein, Olivier Cuendel. Conta com apresentações ao lado dos balés Kirov, Bolshoi e da Cidade de Nova Iorque e já se apresentaram com a orquestra o tenor lírico Luciano Pavarotti, a soprano lírica Montserrat Caballé  e a mezzo soprano dramática Milla Edelman, além da brasileira Gal Costa, entre outros.

Pasquale de Chirico

As esculturas que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina são de 1909

PASQUALE DE CHIRICO

Escultor dos principais
monumentos 
de Salvador
é relegado ao esquecimento

Mesmo sendo o maior criador individual dos principais monumentos existentes em Salvador, o escultor italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) não mereceu, ainda, sequer ser lembrado como nome de rua ou praça da cidade. Após mais de um século das suas primeiras contribuições para o acervo artístico do mobiliário urbano da primeira capital do país e embora as monumentais intervenções estéticas dele componham os principais cartões portais desta urbe, o artista permanece banido do reconhecimento, seja pela Municipalidade ou demais órgãos responsáveis pelo patrimônio cultural e artístico, seja da maioria da população. Suas esculturas, vale ressaltar, não se restringem à capital da Bahia.

                                     Fotos: Albenísio Fonseca
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé, céu e atividades ao ar livre
Monumento ao poeta Castro Alves na praça que o homenageia

São criações dele os monumentos a Castro Alves, de 1923, na praça que homenageia o poeta; ao barão do Rio Branco, inaugurada na Praça de São Pedro em 1915; o Relógio de São Pedro, de 1916, também naquela praça (na Avenida Sete); o extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru, na praça em frente ao Mercado Modelo, inaugurado em 1934; o Jesus Salvador, ou Cristo da Barra, de 1920, no Morro do Ipiranga, próximo ao Farol da Barra, anterior ao Cristo Redentor do Rio de Janeiroo busto do General Labatut, de 1923, no Largo da Lapinha; a fonte com um índio a enfrentar um dragão, no Largo dos Aflitos; as 13 esculturas a personalidades que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina, de 1909, apontadas como as primeiras obras de Pasquale na Bahia. 

 A imagem pode conter: 1 pessoa, céu, nuvem e atividades ao ar livre
Detalhe do extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru

O amplo acervo, listado por Bartolo Sarnelli, neto de De Chirico, envolve, ainda, o monumento a Almeida Couto, inaugurado em 1924, em Nazaré (mas desaparecido); o conjunto em homenagem ao Barão de Macaúbas, também de 1924; o busto do médico Julio David e o seu mausoléu, de 1926; busto de Rui Barbosa, em Alagoinhas, de 1935; o busto ao Irmão Joaquim do Livramento, na Igreja dos Órfãos de São Joaquim, em 1936; busto ao padre Manoel da Nóbrega, em frente à Igreja da Ajuda; a estátua ao educador Góes Calmon, na Academia de Letras da Bahia, trabalho de 1938; o busto do benemérito Francisco Caminhoá, instituidor do Premio de Viagem Donativo Caminhoá, da então Academia de Bellas Artes da Bahia, através de verba testamentária, para proporcionar viagem de aperfeiçoamento à Europa, então centro de referência nas artes plásticas mundiais, de 1927. Há, também, quatro trabalhos no Palácio Rio Branco cujas datas não foram definidas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                           Foto: DivulgaçãoBartolo Sarneli, neto de Pasquale, ao lado da obra O Remorso

Em toda essa cartografia icônica das esculturas criadas por Pasquale de Chirico, há, ainda, “O Remorso”, com duas cópias originais: uma na Escola de Belas Artes da UFBA, no Canela e outra no MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Existe, também, o monumento ao Conde dos Arcos, inaugurado em 1932, na praça que tem o seu nome; figuras na fachada da Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus; o monumento a D. Pedro II, de 1937, sob restauração, na Praça Almeida Couto, em Nazaré; o Medalhão a Eurycles de Mattos, também daquele ano, que era incrustado em uma coluna de granito mas, desaparecido, parece ter sido furtado, no Rio Vermelho; busto de D. Pero Fernandes Sardinha, de 1942, na Praça da Sé; estátua de Thomé de Sousa, na Praça Municipal e a escultura do primeiro governador-geral desnudo, no Palácio Rio Branco (provavelmente por volta de 1919, ano da reinauguração do Palácio), além de outras como o Cristo, em Ilhéus e Nossa Senhora Aparecida, na Praça da Basílica, em Aparecida (SP).

Se é certo que as esculturas compõem um simulacro da corporeidade humana no corpo urbano, mais importante ainda é contatar o quanto elas estabelecem um diálogo com outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima do seu espaço circundante. Nesse sentido, como se disséssemos de um Auguste Rodin, oextraordinário legado de Pasquale de Chirico para Salvador, onde é mais notória e pública suas criações, constituem um ‘panteon’ significativo da memória da cidade, a requerer preservação e mesmo o tombamento como forma de ressaltar a face escultórica do patrimônio cultural, em seu aspecto material e, sobretudo, dado ao seu caráter estético e histórico.

 

O Relógio de São Pedro ocupa lugar da igreja demolida para abertura da Av. Sete

Quadros, maquetes, desenhos e bustos a serem listados

Sarnelli lamenta que “muitos trabalhos não puderam ser pinçados”. Entre os quais menciona quadros, desenhos, maquetes, como é o caso do monumento a Ruy Barbosa. Segundo o neto do escultor, “Pasquale venceu a concorrência para a execução do monumento em homenagem ao Águia de Haia, mas o trabalho não foi realizado por falta de verba”.

De todo modo, observou que a maquete ganhadora do concurso “existe e está exatamente na Casa de Rui Barbosa”, mantida pela ABI-Associação Bahiana de Imprensa, no Centro Histórico de Salvador. De acordo com Sarnelli, “há bustos, muitos bustos de personalidades espalhados pela cidade”, sobre os quais Bartolo disse ter enfrentado dificuldades para relacionar. Ele destacou, entre outros, o de Theodoro Sampaio, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

Por enquanto, a única homenagem ao velho mestre é proporcionada pela Universidade Federal da Bahia ao consagrar a ele o Salão Pasquale de Chirico, nome da sala onde os alunos da Escola de Belas Artes assistem às aulas de Escultura. Em suma, suas obras, notáveis e públicas, estão espalhadas pelos quatro cantos de Salvador e em outros pontos do estado, do país e mesmo na cidade natal dele.

 

Pasquale de Chirico

 Artista veio para Salvador em 1903, aos 30 anos

Escultor, desenhista e professor, o italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) nasceu na cidade de Venosa, Sul da Itália, emigrou para São Paulo aos 20 anos, em 1893, e ali viveu por dez anos com uma fundição que instalou, casou-se e teve duas filhas. Em 1903, mudou-se para Salvador a convite de Theodoro Sampaio (então engenheiro civil, urbanista, geólogo, cartógrafo, geógrafo, historiador e político) para confeccionar as esculturas da Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, que passava por reforma após um incêndio que atingiu a histórica edificação.

Aqui, montou ateliê na antiga Rua do Tijolo, atual 28 de Setembro, que dá acesso ao Viaduto da Sé, no Centro Histórico. De 1918 a 1942, foi professor de Escultura e Desenho na então Escola de Belas Artes da Bahia, onde atuou, inicialmente, como contratado até se tornar titular da instituição. Pasquale morou de aluguel por vários anos até construir sua casa própria no Rio Vermelho,  com projeto de sua autoria, onde hoje funciona o restaurante Sukiyaki e na qual veio a falecer em 31 de março de 1943.

Homenagem foi barrada pela legislação


Na tentativa de corrigir a injustiça para com o escultor italiano, em 2014 a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) conseguiu aprovar projeto de lei na Câmara Municipal com a indicação do nome de Pasquale de Chirico para redenominar a Praça da Santa Cruz, no Rio Vermelho. Mas ocorreu de a iniciativa ter sido vetada pela Sucom, com base no Artigo 5º da Lei 3.073/79, segundo o qual não é permitida a alteração de nomes de logradouros já oficializados.
A vereadora deverá encaminhar novo projeto visando a denominação de outro logradouro a fim de que a homenagem com o nome dele, 
em sua memória e no reconhecimento às suas monumentais contribuições artísticas para a cultura visual de Salvador sejam finalmente, reverenciadas. 

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Mobilidade Urbana

“Quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro” 

Estacionamentos
Mais que um paradigma
da mobilidade urbana

ALBENÍSIO FONSECA
 
Com as áreas para estacionamentos ocupando espaços valiosos das cidades, afetando de forma negativa o planejamento urbano, a crise da mobilidade vivida nas capitais brasileiras tem um dos mais dramáticos exemplos em Salvador.
A questão torna visível, também, a desigualdade social em meio à disputa pela oferta de vagas, envolvendo a exploração do serviço pela iniciativa privada ou pela Municipalidade, nas zonas azuis, através de guardadores e lavadores de carros sindicalizados, e nos mais diversos locais da cidade por centenas (senão milhares) de “flanelinhas”. Os guardadores clandestinos têm assumido também a condição de manobristas, no afã de garantir a renda para a sobrevivência diária.
O certo é que os estacionamentos deixaram de ser um requisito cômodo para se tornar em mais um catalisador da problemática mobilidade urbana, no âmbito da civilização do automóvel, em um cenário que se repete na maioria das capitais e mesmo em cidades de médio porte: excesso de veículos nas ruas, congestionamentos, índices perigosos de poluição do ar e horas perdidas no transito atrás de uma vaga, mesmo frente à tendência de verticalização para esses equipamentos. 
A constatação, portanto, e os urbanistas não cansam de sinalizar, é que, como um paradoxo, “quanto mais estacionamentos se criam, mais se prioriza o uso do carro particular nas grandes cidades”, aliás, com grande parte de suas áreas já comprometidas ou projetadas para este uso e, ainda assim, a sofrer a carência de vagas. E mais, sob o agravante de que a capacidade de criar vagas não aumenta na mesma razão em que novos carros chegam às ruas.
Do mesmo modo é visível o quanto os estacionamentos geram novos comportamentos nas cidades, na medida em que todos os que optam pelo carro como meio de transporte são, sob o custo do inevitável estresse, obrigados a pensar em locais para estacionar.
Trata-se, em suma, de um amplo mercado a fascinar o poder público, empresários, donos de terrenos baldios, administradores de shopping centers e outros centros de compras, além dos “flanelinhas” e dos guardadores sindicalizados, a buscar uma vaga ao Sol ou sob a chuva, nessa moderna forma de serviço a expandir-se como lucrativo comércio no universo da urbanidade motorizada.
É um senso comum afirmar que “por não termos sistemas eficientes de transporte público, continuamos a usar o carro e então precisamos de estacionamentos”, o que é uma verdade a exigir maior qualidade no planejamento. Mas é correto também ter em conta o quanto não se pode mais planejar apenas sob a perspectiva do uso do carro. 
O planejamento urbano passou a requerer estratégias e ferramentas dentro de uma visão mais abrangente, que inclua os pedestres, os ciclistas e a integração com os diferentes modais de transporte, de modo que o espaço da cidade seja mais bem aproveitado. Estacionamentos, portanto, foram convertidos em paradigmas não apenas da mobilidade e densidade urbanas, mas do planejamento e da qualidade de vida nas cidades.
 
Primeiros estacionamentos surgiram em 1920
 
Os primeiros estacionamentos surgiram nas décadas de 1920 e 1930, quando o número de motoristas começava a aumentar em escala global e os carros passaram a ocupar um tamanho precioso do espaço público – bem entendido, o espaço entre as casas e prédios, assim como o por onde as pessoas antes caminhavam e passavam o tempo livre.
A imposição do carro no domínio público passou a atrapalhar a segurança e a vitalidade das cidades. Por isso, criaram-se legislações obrigando a criação de estacionamentos para todo tipo de empreendimento imobiliário e destino que se podia imaginar.
Desde então, cada viagem começa e termina em algum estacionamento, seja no trabalho, na escola, hospital estádios ou shopping center. O problema é que, em geral, todos que dirigem planejam seus deslocamentos pensando na necessidade de estacionar, de preferência próximos ao seu destino, intensificando o tráfego nesses locais na dispendiosa busca (haja combustível e paciência) por uma vaga.
Mais recentemente, quando as cidades atingiram picos de motorização, as pessoas passaram a gastar grande parte do seu tempo e dinheiro atrás de vagas, aumentando os efeitos negativos do excesso de carros nas ruas, como congestionamentos e a poluição do ar. Os estacionamentos deixaram ser uma boa ideia para se tornarem em mais um desafio para a mobilidade urbana sustentável.

 

PDDU 2015

Projeções de slides criticaram a primeira versão da minuta do PDDU

PDDU
depois que o
Carnaval passar

ALBENÍSIO FONSECA
Sob inúmeras controvérsias e ao clamor da plenária a reivindicar a realização de “mais audiências”, o secretário Municipal de Urbanismo, Silvio Pinheiro, deu por encerrado, na segunda-feira (26), no Centro Cultural da Câmara, o ciclo de audiências promovidas pelo Executivo para elaboração da minuta que servirá de base para o Projeto de Lei do PDDU-Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano.
Fruto de acalorados debates e muitas contribuições, mas ainda envolto no mistério da redação de uma segunda minuta, a ser confeccionada após 15 meses e 14 audiências, o documento será remetido ao Conselho Municipal da Cidade, instância consultiva composta por 41 integrantes, de onde será encaminhado à Câmara Municipal “antes do final do ano”, conforme Pinheiro.
De acordo com os vereadores Gilmar Santiago (PT) e Hilton Coelho (PSOL) e conforme o regimento da Câmara, o projeto de Lei do novo PDDU obedecerá ao prazo máximo de 75 dias para tramitação em todas as comissões do legislativo municipal. Com isso, e considerando o período de recesso em janeiro, é possível antecipar, segundo Santiago, que a ida a plenário para votação “só acontecerá após o Carnaval do próximo ano”.
Gilmar também defendeu a promoção de mais audiências para o aperfeiçoamento da minuta e Hilton disse que a precipitação do envio do projeto de lei à Câmara pode significar o “conserto de um Frankstein”. Silvio Pinheiro, no entanto, sustentou que “a Câmara tem mais atribuições e competências que o Executivo, no sentido de promover novas audiências”.
Silvio concordou com intervenção de um líder comunitário de que “o PDDU não é um BaVi” e defendeu que, “esse não é um PDDU do prefeito ACM Neto, mas da Prefeitura”. O secretário admitiu ter enfrentado problemas com o calendário programado. Lembrou que “a elaboração da minuta estava prevista para junho, depois agosto e setembro”, mas somente em meados de novembro o esboço do projeto do Plano deverá estar concluído.
Para a ouvidora geral da Defensoria Pública, Vilma Reis, “não há como tirar a tensão da plenária porque a cidade está apreensiva”. Ela divergiu do secretário sob o argumento de que “o PDDU não é do prefeito nem da Prefeitura, mas dos 3 milhões de habitantes que não sabem o que acontecerá com eles”. Vilma criticou o fato de o “documento inicial trazido às audiências dedicar apenas três parágrafos sobre a comunidade negra quando 80% da população são constituídos por negros”. Houve queixas, ainda, frente ao fato de “boa parte do tempo das audiências ter sido gasto com a leitura de atas dos encontros anteriores”, pelo que se chegou a defender a promoção de outras sete audiências.
Já a partir de hoje, o Executivo passa a responder aos questionamentos e contribuições à minuta do PDDU que ainda permanecerá aberta a avaliações e sugestões no site http://www.plano500.salvador.ba.gov.br/, através de e-mail ou por ofícios, segundo Silvio Pinheiro. Ele fez ver que todas as intervenções foram gravadas em áudio e vídeo que integram as Atas das audiências e descartou a possibilidade uma nova audiência para aprovar a segunda minuta a ser elaborada.
Cidade terá 223 Zonas Especiais de Interesse Social
De acordo com Fernando Teixeira, da equipe do Salvador 500 e Tânia Scofield, da Fundação Mário Leal Ferreira, além de terem sido revisados os limites das 116 Zeis – Zonas Especiais de Interesse Social existentes, a cidade ganhou outras 107 alcançando 223 Zeis no anteprojeto do novo PDDU. Zeis são áreas da cidade destinadas à moradia popular e protegidas por regras especiais. Como exemplos de Zeis em Salvador, Pinheiro citou a Gamboa, o Nordeste de Amaralina, a Chapada do Rio Vermelho e o Calabar. A proposta, segundo ele, “é proteger e avançar em aspectos necessários ao
desenvolvimento dessas localidades”.
Para garantir que tais áreas tenham atividades econômicas formais, gerando emprego e renda, segundo o secretário de Urbanismo, “a Prefeitura vai propor no novo PDDU a flexibilização de algumas regras que impedem a concessão de alvará de funcionamento para esses locais”. Silvio Pinheiro, que também coordenará a elaboração da LOUOS, disse que “a ideia é permitir a instalação formal de pequenos negócios, como salão de cabeleireiro, mercearias, entre outros”. A regularização dessas atividades junto ao Município, segundo ele, “permitirá o recolhimento do ISS-Imposto Sobre Serviço e, o que é mais importante, o reconhecimento da cidadania”, estipulou.
Outro ponto destacado pelo secretário é a criação da Cota de Solidariedade, um fundo destinado à arrecadação de recursos a serem utilizados na construção de moradia popular. “A Cota funciona assim: novos empreendimentos com área a ser construída acima de 20 mil m² terão que destinar 5% do valor investido para habitação social”, disse. “Esses são apenas alguns avanços sociais desse PDDU. Há outros, bem como avanços em desenvolvimento e mobilidade, enfim, é um PDDU que resgatará Salvador e a tornará uma cidade melhor para seus moradores”, acenou.
Representantes do Movimento Rio Vermelho em Ação presentearam a mesa, presidida pelo secretário e pela presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, com um saco de cimento em alusão crítica às intervenções da Prefeitura sobre as calçadas da cidade antes pavimentadas com pedras portuguesas. Integrantes de movimentos sociais projetaram slides e filmes nas paredes do local do evento`tachando o PDDU de “racista” dada a falta de recortes sobre a questão étnica, notadamente negra, no que tange à maioria da população de Salvador.
Da audiência de ontem participaram representações de inúmeras comunidades, como as do Subúrbio, do bairro Cassange, que defende a definição da zona rural da capital e em que pese a existência naquela área das represas Ipitanga 1, 2 e 3; Comunidades do Centro Antigo de Salvador, Artífices da Ladeira da Conceição da Praia, Moradores da Gamboa de Baixo, Chácara Santo Antonio, da Ladeira da Preguiça, Vila Coração de Maria, Rio Vermelho em Ação, movimentos Nosso Bairro é 2 de Julho e dos Sem Teto da Bahia, entre outros.

MEMÓRIA AMEAÇADA

Monumentos degradados
viram objetos
não identificados

“Caravela”, homenagem a Vasco da Gama, de Chico Liberato
Monumentos são ‘tatuagens’ históricas no corpo das cidades. No caso de Salvador, primeira capital do Brasil, a homenagem perene a personalidades marcantes na memória da nossa urbanidade, seja em estátuas, bustos ou peças sob livre criação de artistas, tem sido alvo de degradação ou perda da sinalização identificadora, dada a falta de manutenção por parte do poder público; roubo, inclusive das placas de identificação, por viciados em crack para venda do bronze das esculturas em troca da droga e de pichadores, como se diria de um gesto de equivocado vandalismo ou estúpida rebeldia.
O certo é que se poderia traçar um verdadeiro ‘tour anti-cultural’ da cidade, seguindo o roteiro de constatação do abandono da cultura visual que caracteriza a expressão dessas peças e seu extraordinário valor icônico e simbólico, que sinalizam nosso decurso histórico, convertidas em objetos não identificados. Mas, de acordo com Cássio Ribeiro, sub-gerente de Espaços Públicos e Monumentos da FGM-Fundação Gregório de Mattos, a Prefeitura lançará nova licitação, em dezembro, para o resgate de sete peças, após a licitação que privilegiou as restaurações do Relógio de São Pedro e do Barão de Rio Branco, já reentregues à paisagem urbana, no Centro da cidade, faltando a de Dom Pedro II, na Praça Conselheiro Almeida Couto, em Nazaré.
  Ludwik Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, sem autoria
Segundo Ribeiro, as restaurações envolverão monumentos como os bustos de Ludwik Lejzer Zamenhof, filólogo polonês criador do Esperanto, instalado na Praça de São Bento e retirado para restauração; do cineasta Glauber Rocha (roubado recentemente), nos Dois Leões; o Cetro da Ancestralidade, de Mestre Didi (que teve as pombas roubadas), no Rio Vermelho; a de Mestre Bimba (também roubada), em frente ao quartel de Amaralina; da yalorixá Mãe Runhó no fim de linha da Federação e retirada para restauração, e o do padre Manoel da Nóbrega), em frente à Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no Centro, também sendo restaurado. Há, ainda, o busto de Almeida Couto (roubado já por duas vezes), na praça que leva seu nome, em Nazaré.
Cássio Ribeiro revelou que as novas peças e suas placas identificadoras passarão a ser confeccionadas em fibra de vidro como uma forma de evitar a ação dos “sacizeiros” (viciados em crack) que visam o alto valor do bronze. Segundo Ribeiro, “eles roubam as peças e derretem o bronze para levantar dinheiro visando a compra da droga”. Adiantou que “o lançamento da licitação depende, ainda, da elaboração do Termo de Referência”. Ele não soube informar o valor a ser despendido na restauração do patrimônio. Quanto à proteção dos monumentos históricos pela Guarda municipal, considerou “complicado, seja pela falta de contingente ou por envolver trabalho noturno”.
Busto de Glauber Rocha foi supostamente roubado por viciados em crack
A propósito de ícones de Itapuã, como o busto de Dorival Caymmi (criação de Márcia Magno), que ganhará novo pedestal e da Sereia (arte de Mário Cravo Jr), a ser mantida sobre a mesma pedra, garantiu que “permanecem em fase de restauração, mas retornarão aos locais de origem quando da inauguração das obras de intervenção na Orla do bairro”. O local será contemplado por uma nova homenagem a Caymmi, em tamanho natural, elaborada pelo artista Tati Moreno. Em Piatã, foi inserido um “pórtico” de autoria de Ray Vianna, autor de outra nova escultura, a que reverencia os mortos pela ditadura militar na Bahia, instalada no Campo da Pólvora – do total de 180 peças do mobiliário urbano da capital.
A propósito da escultura que homenageia os navegadores portugueses, notadamente Vasco da Gama, na Praça Wilson Lins, área do antigo Clube Português, na Pituba, da autoria de Chico Liberato, completamente abandonada e também merecedora de uma restauração, o sub-gerente da FGM, admitiu que “a instalação da peça, em ferro, naquele local em frente ao mar, foi um erro, por estar vulnerável à ação do salitre”, mas ressaltou que “o artista foi avisado de que não era um material adequado”.
A emblemática obra – doada à cidade por Liberato – estiliza uma caravela, sincretizando uma Cruz de Cristo, a ressaltar o predomínio ou hegemonia católica e o Opaxorô de Oxalá, a representar a diáspora africana. A escultura traz um importante texto – já quase ilegível – que remonta ao final da Idade Média, “quando os oceanos se apresentavam como rota comercial alternativa à rota da seda, comprometida pela tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453”. Cita a saga de seis dos mais importantes navegadores envolvidos com a descoberta do Novo Mundo e promove paradigma com o “desbravamento do espaço sideral”.
Sem identificação, a escultura de Kennedy dá asas à imaginação popular
Outra escultura de importante simbolismo é a “Duas Palmas”, que ganhou denominação popular a renomear como “Praça da Mãozinha” à Praça Marechal Deodoro da Fonseca, na Cidade Baixa, próxima ao Mercado do Ouro. Da autoria do artista Kennedy Salles, trata-se de uma homenagem prestada no ano 2000 à AICO-Associação Ibero Americana de Câmaras de Comércio. Foi confeccionado em fibra de vidro, em forma de duas mãos entrelaçadas, com mapas da América do Sul e Central em uma mão, em baixo relevo, e da Península Ibérica, na outra mão. Moldada em placas de granito e medindo 3,90m, carece de restauração e ser identificada.
Para o comerciante Antonio dos Santos, a “Duas Palmas” seria uma “homenagem aos escravos”. Segundo o vendedor Fernando Nascimento, “entendo apenas que serve para dar o nome à Praça da Mãozinha” e, conforme Robson Nascimento da Silva, camelô no local, “sei que a praça se chama Marechal Deodoro, não entendo a razão da arte ali, mas reconheço tratar-se de um patrimônio histórico da cidade que deve ser bem cuidado”. 

Cuba, liberdade de imprensa e a fome

Resultado de imagem para Che Guevara lê La Nacion
Che Guevara lê “La Nacion” no início dos anos 6O

Cuba, liberdade de imprensa e a fome

 Albenísio Fonseca

Após mais de meio século sob bloqueio econômico que lhe cerceia o desenvolvimento, Cuba é uma ilha cercada por pressões políticas, econômicas e midiáticas por todos os lados. No momento em que presenciamos o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos, principal inimigo até então e o regime cubano, vale entender o quanto é fundamental conhecer um objeto, um país, mesmo um projeto ou período histórico, para nos qualificarmos a discorrer sobre eles e por maior que seja a presunção generalista.

No último dia 20 de julho, pouco antes do meio-dia, em cerimônia solene, a bandeira cubana foi içada na sede da Embaixada de Cuba em Washington.  Trata-se de um fato histórico e inesquecível, a demonstrar o quanto a resistência, a tenacidade e perseverança de um povo podem consolidar a liderança de um endereço patriótico e nos encher o peito e os olhos de emoção na superação de 53 anos de divergências políticas e ideológicas.

Ainda não conheço Cuba, mas sim a trajetória do regime revolucionário de linha marxista-leninista implantado desde 1959, a partir da luta iniciada em Sierra Maestra e que libertou os cubanos do governo ditatorial do sargento Fulgêncio Batista, subordinado aos interesses das oligarquias internacionais e dos investidores estrangeiros, entre 1933 e aquele ano.

Por mais que tenha posição contrária, é facilmente constatável ao longo da história o quanto em tempos de guerra, estado de sítio ou de extrema necessidade, tem sido facultado aos governos estabelecer limites às liberdades individuais, incluindo a de imprensa – como aconteceu nos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã, ou no Brasil sob regime militar, entre 1964 e 1985, por exemplos.

Resta claro, portanto, que em situações extremas a liberdade de imprensa é tolhida em prol do bem comum e, mesmo sem a existência dessa condição, a ação contrária à ordem estabelecida, ou de apoio ou auxílio a países inimigos, é comumente punida, mesmo no até recentemente principal inimigo de Cuba. Se diante de tais situações, a suspensão de liberdades é admitida nos mais diversos países, por que não deveria sê-lo no caso cubano?

Afinal, o bloqueio econômico, estendido por Washington a nações que mantivessem negociações com Havana, impunha a condição de um estado de sítio permanente, como se diria de uma guerra não declarada contra o povo cubano.

Como exigir, nesse sentido, que Cuba trate aqueles que dão apoio e auxiliam ao inimigo que está à sua porta, através de escritos ou outras ações, garantindo-lhes a liberdade de fazê-lo, quando nenhum outro Estado o faria, na mesma situação? A defesa da suspensão da restrição à liberdade de expressão em Cuba, sob esse ângulo, não é difícil concluir, nada mais é do que fazer o jogo do inimigo, no caso, a maior potência econômica e militar do planeta. Ao omitir o contexto no qual a referida restrição está inserida, tende-se a criar um mito sobre o qual a imprensa, supostamente livre, deixa de cumprir sua obrigação.

Sim, o que sabe o povo brasileiro sobre a realidade cubana? Quem foi informado pela imprensa de que há quase 50 anos Cuba já extinguiu o analfabetismo?  Quais reportagens da “mídia livre” enfatizaram o fato de que a Escola Latinoamericana de Medicina, em Cuba, já formou, gratuitamente, mais de cinco gerações de médicos de todos os países da América Latina, inclusive do Brasil e dos EUA, com a melhor medicina social do mundo e em caráter solidário?

A resposta do jornalista e escritor cubano Leonardo Padura à repórter da revista Veja, Nathalia Watkins, sobre a realidade de “miséria” em Cuba, no programa Roda Viva, da TV Cultura, foi a de que uma das coisas que ele tenta evitar sempre, quando lhe perguntam sobre as realidades de um país que visita, é dar sua opinião. “Porque uma realidade só pode ser conhecida por quem participa dela, vive nela. Em Cuba, é certo que há pobreza, não posso negar. Mas ninguém morre de fome em Cuba. De uma forma ou de outra, as pessoas comem e têm um teto. Há mais gente [com fome] na rua em um quarteirão aqui de São Paulo do que em toda Cuba”, reagiu.

A imprensa criou o mito de sua liberdade, mas até que ponto ela deixa de atender aos seus próprios interesses e agenda política? A experiência mostra que uma imprensa verdadeiramente livre jamais existirá de forma estável: sempre irá se degenerar e retornar à servitude. E sempre se corromperá, pois o poder corrompe e o poder da imprensa, convenhamos, é quase absoluto.

————————————

Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
————————-
Albenísio Fonseca é jornalista

Bem vindo à Era da Telemática total

The Jetsons, de 1963, já previa a comunicação por videofone. O que mudou?

Bem vindo à
Era da Telemática!

Albenísio Fonseca

No mundo hiperconectado em que passamos a habitar nos últimos 15 anos, uma nova revolução de aplicativos para celulares já teve início. Refiro-me às videochamadas. Inauguradas pelo Skype, com o sistema Voip (voz sobre Internet Protocolo), em 2001, para computadores fixos (desktops), laptops e, portanto, para webcam, foram recentemente estendidas para os celulares. O certo é que a comunicação instantânea por áudio e vídeo está se tornando acessível e disseminada em escala massiva.

Seja através do próprio Skype ou em redes sociais como as proporcionadas por aplicativos como o Whatsapp (que anunciou o lançamento do recurso para este mês), Viber (disponível desde 2014) e mesmo o Facebook (já adotada em alguns países e prevista para alguns meses no Brasil). Há, ainda, entre outros, o Imo e o Tango. A comunicação por videofone, contudo, extrapola a noção de mera visualização dos interlocutores para converter-se em uma extraordinária telemídia.

O termo “vídeo” aplicado nesse caso, diferentemente da concepção em voga, de uma gravação reproduzível de imagens, consiste, agora, no uso das câmeras embutidas nos celulares com transmissão em tempo real. Com isso, diferentemente do modelo vislumbrado na ficção The Jetsons (dos anos 60), sobre habitantes de um futurível ano 2.000, as videochamadas ampliam o diálogo e os acenos face to face para converter-se em tomadas dos ambientes.

De imediato e no âmbito do jornalismo televisivo, é possível perceber o quanto o trabalho dos cameramen está ameaçado. Pode-se ilustrar, ainda, com cirurgiões a conduzir procedimentos à distância.

O advento da videochamada, nesse sentido, redimensiona o contato telefônico com as imagens dos interlocutores para dotá-los da capacidade de apresentar todo o espaço circundante. Um celular, bem entendido, uma câmera na mão, e o mundo real (o ambiente circundante) estará disponível ao olhar perscrutador do outro.

No princípio, em 1973, era o verbo. Em 1988, os dados. Em 4G, logo teremos câmeras cada vez mais potentes e já considerados os videochats em grupos ou adequadas às transmissões por emissoras de TV e pela Internet.

A evolução tecnológica, notadamente o crescimento exponencial da capacidade de processamento dos circuitos integrados e o aumento da disponibilidade de banda propiciado pelas modernas redes de telecomunicações, têm sido os catalisadores do enriquecimento da comunicação eletrônica, num esforço de torná-la cada vez mais semelhante à interação pessoal.

O melhor exemplo desse enriquecimento é a crescente presença do vídeo nos meios de comunicação pessoais: sejam videoconferências em celulares, através dos messengers, como recursos cada vez mais comuns de comunicação. Nesse ambiente, as corporações se tornarão ainda mais atuantes, com visibilidade e mobilidade em full time.

Tornados cada vez mais plurais em sua singularidade, aplicativos com videochamada possibilitarão enorme gama de usos. Logo, as corporações e qualquer usuário, se apropriarão, em modos inusitados, das aplicações multimídia. Com as mídias de comunicação instaurando, de uma vez por todas, a nova fase da tecnologia da imagem, vale saudá-lo, mero portador de um dispositivo móvel, com um bem vindo à Era da Telemática total.

————————————–

Albenísio Fonseca é jornalista

 

Malha Ferroviária sob ameaça

Foto: Saulo Santos

 photo P6240535.jpg

Máquina com vagões carregados atravessam a Ponte D. Pedro II, entre as cidades históricas de São Félix e Cachoeira, na Bahia

Fora dos trilhos

Ferroviários e empresários reagem
à Resolução 3.141 da ANTT

 

O Sindferro-Sindicato dos Ferroviários e Metroviários da Bahia e Sergipe deu entrada em representação junto aos Ministérios Públicos nos dois estados contra resolução datada de julho de 2013, da ANTT-Agencia Nacional de Transportes Terrestres, que determina à Ferrovia Centro-Atlântica a proceder a desativação e devolução de trechos ferroviários da malha explorada por esta concessionária.

O sindicato requer “instauração urgente de inquérito civil público para adoção das cautelas necessárias para suspender a destruição de parte da rede ferroviária”. Alegam, para tanto, o grave prejuízo ao patrimônio da União e atrofia do desenvolvimento do Nordeste. A entidade alega, ainda, que caso sejam retiradas esses trechos, tidos como economicamente viáveis – além dos já restituídos por falta de viabilidade econômica – “haverá demissão em massa, causando prejuízos às economias estaduais”, conforme enfatizou o dirigente do Sindferro Paulino Rodrigues de Moura.

Em atitude tida como “contrasenso” pelo Sindferro para a economia dos estados do Nordeste, a medida da ANTT determina, além do mais que valores devidos pela FCA, em função da degradação apresentada pela via férrea será convertido em investimentos na malha Centro-Leste (beneficiando os estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo), no montante de R$ 760 milhões, acrescidos de 15%, a título de ‘vantajosidade’ para o setor público, alcançando um dispêndio na ordem dos R$ 874 milhões “a serem classificados como doação”.

Segundo a FCA é importante ressaltar que “esses valores de investimento se referem à devolução de trechos antieconômicos”, também previstos na resolução, e que “devido à mudança do cenário do transporte de cargas, constatou-se a inviabilidade econômica e financeira do restabelecimento da parte não operacional da malha”

Com isso, FCA e Governo entraram em acordo de que seria “mais vantajosa a substituição do valor dos investimentos a serem gastos na recuperação destes trechos, redirecionando-os para regiões mais relevantes dentro do planejamento logístico nacional.

A concessão, implementada em 1996, durante o Governo FHC, estipulava um prazo de 30 anos para exploração, no caso da Ferrovia Centro-Atlântica, de oito mil quilômetros das malhas, em sete estados. Com o lançamento do PIL-Programa de Investimentos em Logística, pelo Governo do Federal, em 2012, o país passou a contar com um projeto da implantação de uma malha moderna. O PIL, no entanto, ainda permanece em fase de estudos.

De todo modo, os trechos concedidos à FCA, conforme a assessoria da empresa, à medida em que forem devolvidos ao governo, serão integrados ao PIL. Desse modo, a concessionária passará à condição de operadora, dentro do novo modelo de concessão, em que os concessionários serão gestores das ferrovias, responsáveis pela infra estrutura, sinalização e controle da circulação de trens. No momento, de acordo com a ferrovia, “não estão previstas demissões, vez que a empresa manterá seus negócios ativos nas regiões de influência dos trechos viáveis devolvidos”.

O Governo do Estado, através do secretário de Desenvolvimento, James Corrêa, salientou que a FCA é administrada pela VLI-Vale Logística Integrada, uma holding da Vale do Rio Doce, “que não consegue operar mais a malha com a configuração que tem hoje”. Corrêa disse da “importância estratégica da malha existente para o desenvolvimento do estado” e que “gestões serão feitas junto ao Governo Federal no sentido de que essas linhas economicamente viáveis não sejam desativadas”.

A malha total da FCA na Bahia tem 1.626 quilômetros. Ela está compreendida no corredor logístico Minas-Bahia, eixo de ligação ferroviária entre o Nordeste e Sudeste do País com acesso ao porto de Aratu, transportando cargas como minerais e madeira. Em 2014, a FCA transportou 1,5 milhão de toneladas de carga na Bahia.

 

Empresas reagem e exigem manutenção da malha

 “Não se pode desativar a malha ferroviária do estado sem ocasionar graves e irreversíveis danos à economia baiana, à logística das empresas e aos investimentos aplicados na construção de linhas e bases para carregar e descarregar vagões com produtos como minérios, petroquímicos, combustível e frutas”.

A posição, firmada ontem pelo diretor Executivo da Usuport-Associação dos Usuários de Portos da Bahia, Paulo Villa – enquanto representante dos interesses de empresas integrantes do Núcelo Feroviário da entidade – é mais uma dura reação à Resolução 4131 da ANTT. “A Usuport se posiciona contrária à desativação das ferrovias para o transporte de cargas e exige a manutenção da malha ferroviária no estado”, enfatizou.

Em ofício datado do último dia 9 e encaminhado ao diretor Geral da ANTT, Carlos Nascimento e ao secretário estadual de  Infraestrutura, Marcus Cavalcanti, as empresas BSC-Bahia Speciality Cellulose, Colomi, Cristal, Dow Brasil, Ferbasa, Magnesita e Paranapanema discordam da devolução e desativação de trechos, defendendo a “manutenção integral da malha ferroviária, como também o funcionamento de todos os serviços de transporte”.

Sustentam, ainda, que a concessionária “deve restabelecer as capacidades dos trechos, com a realização dos investimentos necessários ao bom funcionamento dos serviços”. Salientam, também, a “importância da reativação do trecho Senhor do Bonfim-Juazeiro”, considerando-o “estratégico” para a economia do estado e do Nordeste.

Em documento anterior, de agosto de 2014, as empresas integrantes do Núcleo Ferroviário da Usuport já haviam se posicionado no sentido de que “antes de determinar a devolução de trechos, a ANTT deveria ter contratado a nova infraestrutura e autorizado o novo operador ferroviário, para que a transição acontecesse sem a descontinuidade dos serviços”.

Conforme Paulo Villa,  “como os trechos e a logística da Bahia não estão sendo priorizados, entende-se que a Resolução ANTT no 4.131 foi precipitada”. Ele salienta que, na prática, “a resolução nada mais é que um cancelamento da concessão e tinha como horizonte a implementação do PIL-Programa de Investimento em Logística, lançado pelo Governo Federal em 2012, mas que não obteve continuidade”. Logo, conclui, “a Resolução perdeu o sentido e não há porque mantê-la”.

Villa acentua, do mesmo modo, que a vigência da Resolução “estimula a contínua redução dos serviços e da manutenção de vias, como já vem sendo demonstrado às usuárias pela concessionária”.

As empresas discordam, além do mais, da negociação realizada entre a ANTT e a FCA, que resultou em dois pontos prejudiciais ao Estado da Bahia e que devem ser revertidos: a) as multas decorrentes do contrato de concessão à FCA devem ser integralmente aplicadas na Bahia, se foram geradas neste Estado; b) a cessão gratuita do direito de passagem à FCA, no eventual futuro modelo nos trechos baianos, será uma barreira de entrada a novos operadores ferroviários do transporte de carga, já que estimularia a manutenção do mesmo monopólio de transporte.

O documento defende, do mesmo modo, a “elaboração de um Plano Estadual de Ferrovias, para servir de referência às ações de integração logística, focado no atendimento aos setores produtivos da Bahia, incluindo a transição para o novo modelo sem prejuízos aos usuários, assegurando a continuidade dos serviços e garantindo oferta de tarifas compatíveis com os padrões internacionais”.

Produtos e movimentações

Passando por estações ferroviárias em ruínas, locomotivas e vagões transportam por licenças especiais de 180 dias, os seguintes produtos e volumes de cargas:

Sínter (derivados siderúrgicos): O cliente é a Bamin-Bahia Mineradora. Movimenta 22 trens por mês transportando 40 mil toneladas de minérios de ferro extraídos em Caetité (BA). Sai de Brumado (BA) e segue para Capitão Eduardo (MG); outro carregamento segue para exportação pelo Porto de Aratu desde junho de 2014.

Toretes de eucalipto: O cliente é a Bahia Speciality Celulose. Movimenta 28 vagões com duas locomotivas, transportando 37 mil toneladas/mês. Sai de Esplanada (BA) e segue para Camaçari (BA). Antes da Resolução da ANTT, a carga compreendia 40 vagões, com 54 mil toneladas mensais. Os 12 vagões tornados ociosos foram levados para o corredor MG-RJ.

Cal:  O cliente é a Dow Química. Envolve três viagens por semana, com cerca de 17 mil toneladas/mês, saindo de Vespasiano ou Nova Granja (MG) e seguindo para exportação via o Porto de Aratu;

LAB (Linear AlkylBenzene): Atende à Deten. Com um trem por semana, transporta 3 mil toneladas/mês. Sai de Camaçari (BA) e segue para Vespasiano (MG);

Cromo: Atende à Ferbasa, com duas ou três locomotivas e até 26 vagões. Vem de Itiúba (BA) e de Campo Formoso (BA) e segue para Irapuí, em Pojuca (BA);

Combustível: Sai de Candeias e segue para Montes Claros (MG), com quatro trens por semana, em média, transportando 17,6 mil tonladas/mês. Vale salientar que dois trens que saiam da Refinaria Landulpho Alves, em Candeias, para Juazeiro deixaram de efetuar o transporte do produto por falta de segurança nas condições dos trilhos e presença de dormentes podres.

Tarugo: O cliente é a Gerdau. Dois trens de 20 vagões por semana, puxados por duas locomotivas com duas mil toneladas/mês. Sai do Parque Industrial de Minas Gerais, segue para o Complexo Petroquímico de Camaçari.

 

Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

Rei do rock tornou-se em Rei Momo no Asilo

                                                                                                              Foto: Romildo Jesus
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé e atividades ao ar livre
Precursor do Rock’n’roll na Bahia e radialista por 20 anos, Waldir Serrão, o Big Ben,
foi obrigado a ir viver no Abrigo Dom Pedro II, ao lado Cine Roma, um dos palcos em que reinou

Waldir Serrão

Rei do rock tornou-se em

Rei Momo no Asilo

ALBENÍSIO FONSECA
 Aos 74 anos, Waldir Serrão – precursor e Rei do Rock’n’roll na Bahia no início dos anos 60 – tornou-se em Rei Momo do Carnaval no Asilo Dom Pedro II. Na terça-feira (10.02.2015) ele comandou o Baile de Carnaval da instituição ao som da banda de Cristine e Coringa. Serrão, que boa parte do público conhece pelo nome artístico de Big Ben, está há dois anos nesse tradicional abrigo para idosos da cidade. “Mesmo sendo candidato único no concurso que o elegeu Rei Momo, para ele, ter sido eleito “foi uma surpresa”, brinca, garantindo que “quem foi rei sempre será majestade”.
Na segunda-feira (9) pela manhã, ele e a Rainha da Folia, Lúcia, comandaram o desfile de Carnaval no interior do abrigo, ao som da Banda da Guarda Municipal. Para Waldir Serrão, há uma “enorme diferença” entre Carnaval e Rock’n’roll. “Mesmo os festivais de rock eram completamente diferentes”. Segundo ele, “o Carnaval não tem a mesma variedade musical e cultural do rock. A turma do Carnaval só pensa em ganhar dinheiro, no ambiente do rock não é bem assim”, acredita.
Sem oportunidade de trabalho nas emissoras de rádio baianas, Serrão passou a enfrentar dificuldades. Graças a um irmão, conseguiu sua aposentadoria como radialista, ele que sempre foi um dublê de cantor e homem do rádio. Antes do Pedro II, passou uma temporada no Abrigo São José, na Ladeira dos Bandeirantes, de onde saiu para a casa de uma ex-namorada, Solange, no Dique do Tororó, a quem se diz muito grato. “Ela não admitia que eu viesse a passar fome e me proporcionou alimentação e abrigo durante uns oito meses”, ressaltou.
Cine Roma e Elvis Presley
“É uma enorme coincidência que eu esteja aqui, ao lado do Cine Roma, o principal palco da história do rock na Bahia. Estou no Pedro II graças à força de Carlos Pitta e Jerry Adriani. O Governo do Estado nunca me proporcionou nada”, afirma. Sobre o fato de ter não ter feito poupança para garantir um futuro tranquilo, Waldir Serrão – com a mesma voz que badalou por 18 anos o programa “O Som do Big Ben” em emissoras de rádio e tevê de Salvador – diz que gastava muito. “Banquei muitos shows que não deram o retorno imaginado. Passei um mês nos Estados Unidos. Conheci Memphis, no Tennesse, a terra em que Elvis Presley nasceu e um dos berços do rock’n’roll. Conheci a casa e o túmulo dele em Graceland. Elvis foi meu principal ídolo”, conta.
A paixão de Waldir Serrão por Elvis Presley sempre foi tanta que, pai de um casal de gêmeos, não hesitou em colocar o nome dos filhos, já com 39 anos, “Elvis” e “Sylvia” (título de uma canção, sucesso na voz do Rei do Rock mundial). Outra paixão dele foi a cantora norte-americana Barbra Streisand. “Tinha todos os discos dela”, revela. Do mesmo modo que a voz, a memória de Serrão também permanece acesa. Recordou de parceiros do tempo do Rádio, dos fã-clubes que ajudou a fundar na cidade. “Não era só de Elvis, tinha os de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Jerry Adriani”, lembra sem esforço.
Roqueiro cantando MPB
“Imagine, eu, roqueiro, agora estou cantando MPB no Coral Menino Jesus, cujas atividades estão suspensas por causa do Carnaval”. A conversa com Waldir Serrão é divertida e ele cobra a visita dos amigos roqueiros, “inclusive com doações para os demais idosos do Asilo Pedro II”. Ele revela que sempre que pode dá uma fugida. “Vou visitar meu filho Elvis, que também canta, mas na Igreja Batista de Pernambués. A mãe proibiu ele de cantar rock pois, segundo ela, é música do diabo”. Ele aproveita, também, para ir ver a namorada Nilda, “com quem mantenho uma relação afetiva há 10 anos”.
Sobre Raul Seixas, disse que “no início de toda essa aventura do rock’n’roll na Bahia, nós éramos ao mesmo tempo parceiros e concorrentes. Eu tinha a banda Waldir Serrão e seus Cometas e ele a Raulzito e seus Panteras. Tudo acontecia aqui entre Roma e a Boa Viagem. A Cidade Baixa era a capital do rock em Salvador. Tanto eu como Raul fomos influenciados pelo cinema em filmes como “Sementes do Ódio” (com James Dean) e “No balanço das horas” (com Billy Halley e seus Cometas). Tocávamos nos clubes sociais. Lembro sempre de uma apresentação nossa no Fantoches da Euterpe, no 2 de Julho”, recorda.
Pique para voltar ao rádio
Após ter atuado como radialista de 1964 a 1984, Serrão não titubeia: “Tenho pique para voltar a apresentar shows e programas de rádio. O Mário Kértesz prometeu me ajudar com um emprego na Rádio Metrópole, onde trabalhei 10 anos com o programa “Inclusão Social”, que tocava música gospel e country, mas até hoje não cumpriu a promessa”, cobrou.
Na rotina dos últimos dois anos, após o café da manhã no Pedro II, ele participa de atividades junto aos demais idosos. “Alguns preferem artesanato, aulas de canto, jogos. Eu gosto de desenhar e pintar. Aqui tenho liberdade e posso descansar, ouvir os pássaros cantando no jardim”, revela com o mesmo entusiasmo de sempre.

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Porque hoje é Dia de Rock

Ora, quem diria, o eterno e atemporal rock and roll ficou sex. Sim, em 2015 o ritmo que mudou o mundo e fez florescer outras tantas musicalidades ficou sexagenário.

Ainda que várias incursões anteriores criassem as matrizes desse gênero musical que transformaria a cabeça e o corpo da juventude desde o final dos anos 40 – filho que é do pós-II Guerra – é a partir de 1954, com o surgimento de Elvis Presley, que o rock invade totalmente a cena e a face branca da sociedade norte-americana e mundial.

Os anos 50 marcam um período de grande efervescência nos Estados Unidos. Os sucessos da música negra – gospel, blues, jazz, folk – identificados de modo geral como rythm’n’blues (R&B), encontravam como único meio de penetração no mercado pop (composto pelo público branco) sua expressão através do cover (regravações de originais).

O interesse comercial está sempre dando as cartas e, para conquistar o mercado branco, o R&B passou a sofrer adaptações que iam desde a moderação no linguajar das letras à modulação das vocalizações, seguindo normas vocais e morais brancas. Em 1952 acontece, também, o fim do macartismo (política moralista defendida pelo senador McCarthy).

É nesse contexto, no início dos anos 50, que o cover emerge e, entre seus principais expoentes, destacam-se Dorothy Collins, Pat Boone e Bill Halley. Os dois primeiros se projetariam com “ballads”, mas Bill Halley se especializaria em covers. Após muitas audições de R&B, ele decide formar sua própria banda, a The Comets.

Nesse mesmo ano, Alan Freed, um Disc-Jockey (DJ) de Cleveland, cria o programa de rádio “Moondog’s Rock and Roll Party”, no qual tocava covers e alguns originais R&B. Tamanho foi o sucesso do programa que, no ano seguinte, Freed organiza uma série de shows com artistas negros, mas destinados aos jovens brancos. Em 1954 ele se instala em Nova Iorque e, junto a diversos outros DJ, passa a tocar sucessos negros aceitos pelos brancos.

Era a hora e vez de Bill Halley. Através da Decca, gravadora de âmbito nacional que o havia comprado da Essex, ele se mantém com “Shake rattle & roll”, durante todo aquele ano, na parada de sucessos, as dez mais – The top ten. Foi só esperar a primavera de 1955 para estourar a parada com “Rock around the clock” que, poucos sabem, é um cover de “Let’s rock awhile”, de Amos Millburn e, pasmem, datado de 1949. Vale lembrar que na gíria dos guetos, “to rock” designava o ato de fazer amor, do mesmo modo que “to jazz”.

Nova tecnologia: o disco de vinil

Havia, ainda, uma nova tecnologia invadindo o mercado e alterando os discos de gomalaca, em 78 rotações por minuto, desde 1948, para o de vinil, em 45 RPM, ampliando de forma maçiça o consumo de música nos States e mundo afora. A tecnologia – como vemos hoje – funcionara, por si só, como um novo dispositivo de marketing: oferecia-se à nova geração outra linguagem musical e dança, sob novo suporte para a audição e, incluída, várias tendências no vestuário, literatura, cinema, criando um novo tipo de consumidor.

Em 1955, explode o sucesso “Tutti frutti”, de Little Richard.  Uma nova cria de Sam Phillips, da lendária Sun Records, Carl Perkins ganha o primeiro disco de ouro do rockabilly (rock+Hill+Billy – mistura de rock com folk) com “Blue suede shoes”, já em 1956. Um desastre de automóvel seria fatal para Perkins. Jerry Lee Lewis, nova descoberta de Sam e que já se apresentou no Brasil, fazia loucuras com seu piano. Até hoje Lewis é apontado como a maior performance do rock’n’roll, embora sua popularidade esteja restrita a três hits: “Whole lotta shakin’going’on”, de 57, “Great balls of fire” e “Highschool confidential”, em 1958.

Dois anos antes, acontecem os esplendorosos sucessos dos rock baladas. Com os Platters, “Only you” e “The great pretender”. Dois anos depois, “Diana”, com Paul Anka, que venderia de saída nove milhões de cópias. Pintavam, ainda, no fim dos anos 50, promovida pela RCA e pela Columbia, a efervescência do calipso (oriundo da Jamaica) e do twisty, com Chubby Checker.

A partir de 1964 acontece a “invasão britânica”. Os sucessos de The Beatles e The Rolling Stones – e a minissaia, criada pela estilista Mary Quant, em 1964 – sacodem o planeta.  Em 65, surge, na Califórnia, o The Doors, liderado pelo gênio alucinado de Jim Morrison. Nessa época, as drogas eram comuns no rock e Morrison, como Brian Jones, dos Stones – vorazes consumidores – acabam morrendo de overdose, aos 27 anos. Americanos também foram fundo nas drogas e morreram de overdose, com a mesma idade: o gênio da guitarra Jimi Hendrix e a cantora Janis Joplin.

Se em 1967, com o “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, os Beatles revolucionam a concepção musical do rock, em 69 o Festival de Woodstock mobiliza um público de 500 mil pessoas, em três dias de paz e amor, numa espécie de apogeu do universo rock.  Mas no dia 6 de dezembro daquele ano, em Altamont, na Califórnia, a apresentação dos Rolling Stones traz de volta o clima de violência. Um hells angels – grupo de motoqueiros contratados para a segurança do show – mata um jovem da plateia que teria derrubado sua moto.

Psicodelia, glamour e punk rock

Em meio à psicodelia, glamour e punk rock, a década de 70 estourou alguns movimentos que já estavam em prática nos anos 60. Um deles foi o rock progressivo, em composições que muitas vezes se aproximam da música erudita. Os músicos eram virtuoses e o som, viajante. A banda mais famosa dessa época é a Pink Floyd.

“Outra vertente do rock dos anos 70 tem o heavy metal e sua quase alma gêmea: o hard rock. Com roupas de couro pretas, cheias de tachinhas, cabelos compridos e guitarristas metidos a semideuses. Muitas bandas exploravam o tema do satanismo e arregimentava uma legião de fãs adolescentes. Foi daí que surgiram o Black Sabbath, de Ozzy Osbourne, Judas Priest, Scorpions, Iron Maiden, Kiss, Alice Cooper, AC/DC e muitos outros. O Led Zeppelin também trafegava nessa praia, com um pouco mais de poesia, com a ótima parceria entre Robert Plant e Jimmy Page”, como descreve a jornalista Maira Cristina.

– De outro lado, surgia um rock glamouroso em que a androginia era parte do visual, ao carregar na maquiagem, roupas espalhafatosas de plumas e lamês. Era o glam rock ou glitter (purpurina). Aqui, aparece o camaleão do rock: David Bowie, que, em 1972, lança o personagem Ziggy Stardust e vira uma lenda da música pop. Dessa leva glam também vem o excêntrico Roxy Music, de Brian Ferry e Brian Eno; o T-Rex, de Marc Bolan, e os alucinados rapazes do New York Dolls, que se vestiam de mulher e tocavam como loucos.

Maira sinaliza a chegada dos anos 80 “com um restinho de onda punk. Mas o gosto de ressaca estava no ar”. A nova geração, segundo ela, “vinha cheia de melancolia, com uma rebeldia mais triste, sombria e solitária. Nas letras, muitas vezes niilistas, um lirismo que representava muito bem o sentimento dos jovens da época. Era o pós-punk. De Liverpool, vinha o Echo and The Bunnymen, e de Manchester, o Joy Division, com toda a tristeza do vocalista Ian Curtis, que se enforca, aos 22 anos de idade. O resto da banda formaria a New Order. Darks e góticos também eram bem representados pelo Sisters of Mercy, The Mission, The Cult e Bauhaus.

Na contramão de toda aquela badtrip, surge a “New wave”, com música alegre, para dançar. Trazia roupas coloridas, gel no cabelo e muita alegria, como o B’52 e o Talking Heads, de David Byrne. As três bandas mais famosas nos anos 80 foram The Cure, The Smiths e U2. Segundo Maira, o Cure tinha aquele visual dark, só usava roupa preta, batons escuros, maquiagem e cabelos arrepiados. Era a rapaziada liderada por Robert Smith. The Smiths, considerada por muitos como a melhor banda dos 80, apostava no lirismo das letras de Morrissey e nas guitarras de Johnny Marr. Os irlandeses da U2 desde o começo traziam uma preocupação política nas letras como em “Sunday blood sunday”.

Elvis, o primeiro superstar

Primeiro superstar do planeta, o furacão Elvis Presley (1935-1977) inicia sua ascensão, em 1954, com “Thats all right mama”. Tão logo a popularidade dele – que viria a tornar-se o Rei do Rock” – ultrapassa as fronteiras do Tennessee, a RCA Victor compra-o de Sam Phillips (da Sun Records) por nada menos que US$ 30 mil e mais um cadillac para o cantor. Em 1957, o “negócio Elvis”, administrado pelo “colonel” Parker já rendia US$ 20 milhões ao ano.

Elvis Presley

Também conhecido como Elvis The Pelvis, apelido pelo qual ficou conhecido na década de 50 por sua maneira extravagante e ousada de dançar, foi um dos pioneiros e principais idealizadores do rock and roll. Uma de suas maiores virtudes era a voz, devido ao alcance vocal, que atingia, segundo especialistas, notas musicais de difícil alcance para um cantor popular.

A crítica especializada reconhece seu expressivo ganho, em extensão, com a maturidade; além de virtuoso senso rítmico, força interpretativa e um timbre de voz que o destacava entre os cantores populares. Para muitos, ele é avaliado como o melhor cantor popular do século 20.

Um dos maiores ícones da cultura popular mundial do século passado, entre seus maiores sucessos musicais (ele atuaria também no cinema) podemos destacar “Hound Dog”, “Don’t Be Cruel”, “Love me Tender”, “All Shook up”, “Teddy Bear”, “Jailhouse rock” “It’s now or never”, “Can´t Help Falling In Love”, “Surrender”, “Crying In The Chapel”, “Mystery Train”, “In The Ghetto”, “Suspicious Minds”, “Don’t Cry Daddy”, “The Wonder Of You”, “An American Trilogy”, “Burning Love”, “My Way”, “My Boy” e “Moody Blue”. Se quiser re-ouvir, estão todas disponíveis no Youtube.

Rock’n’roll faz 50 anos na Bahia

 

Waldir Serrão e Os Jorman’s durante apresentação
50 anos na Bahia
O rock’n’roll invade a cena 
 
ALBENÍSIO FONSECA
O rock acontece na Bahia bem antes dos Beatles. Com Elvis Presley. Em 1965, todos os domingos pela manhã no Cine Roma, Waldir Serrão invade a cena badalando o som na Rádio Cultura. Começam a surgir bandas de rock, os conjuntos de iê iê iê (fenômeno ocorrido apenas no Brasil e que se apropria do refrão de “She Loves you”, dos Beatles). Serrão atribui a ele o uso inicial, em Salvador, de expressões como “banda” e “pauleira total”.

Entre os inúmeros conjuntos (que era o termo usual para designar as bandas), destacam-se: Waldir Serrão e seus Cometas (grupo de cover dublado), Raulzito e seus Panteras, The Gentleman,  (com Pepeu e os irmãos Jorginho e Carlinhos), Eles 4, 5 Loucos, The Jormans, The Jetsons, Brasa Bossa, Dedos de Ouro, Os Selvagens, Os Desafinados, MJ6. Apresentavam-se em bailes, nos diversos clubes sociais da cidade (Estância Campomar, Piatã Clube, Português, Baiano de Tênis, Associação Atlética da Bahia), também no Cinema Roma e em programas da TV Itapoan, produzidos por Domitila Garrido e Cid Seixas.

Só para Brotos. 1965. Aumente o rádio. Idealizado por Newton Moura Costa e apresentado por Waldir Serrão (que cedia os discos) o programava contava, também, com Jayme Fahel, Almir Duarte, Diniz Oliveira. “Entre 59 e 62 o que tocava era Elvis Presley, Cely Campelo, Neil Sedaka, Paul Anka, Little Richard, Carlos Gonzaga, Demétrius, Sergio Murilo, Ronny Cord”, recorda Waldir Serrão. Da origem, nos Estados Unidos, o rock’n’roll já comemora 60 anos de estrada.

“O programa funcionava com entrevistas, cartas, telefonemas”, explica Serrão. Com a explosão dos Beatles e da Jovem Guarda aconteceram muitos shows no Ginásio Antonio Balbino, o Balbininho. “O Big Boy é que me deu o toque para fazer um programa igual ao dele na Rádio Mundial, no Rio de Janeiro. Muito Elvis e Beatles, era a receita”, conta.

1966. Acontece o boom total, a Guaraná Platense promove shows de Roberto Carlos, Elis Regina, Zimbo Trio, Cauby Peixoto, Angela Maria, Wanderléa, Jair Rodrigues. O palco era sobre um caminhão, no estádio da Fonte Nova.

1967. Aos sábados, Elias Sobrinho comandava o “Sabatinas da Alegria”, programa com shows promovidos por Edmundo Viana e Waldir Serrão (Big Ben e a banda Bigbendes, desde então) no Cine Nazaré, com auditório lotado e transmissão ao vivo, pela TV Itapoan. Ao lado da cena rock, havia, ainda, a presença dos sambistas acontecendo simultaneamente: Tom e Dito, Antonio Carlos e Jocafi, Berimbau, Riachão, o maestro Carlos Lacerda. Era efervescente o cenário musical da cidade à época.

O Som do Big Ben passou para a Rádio Bahia, onde permaneceu por cinco anos. Depois na Tv Itapoan, rádios Sociedade, Excelsior, Cultura, Clube. E existiam também os fãs clubes: Elvis Rock Club, na Boa Viagem, onde se ensinava a dançar rock e twisty; Elvis Today Fã-clube; Imperial Rock Clube, na rua Saldanha da Gama.
São nomes marcantes desse período, ainda, as estrelas do iê iê iê: Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Os Vips, Leno e Lilian, Renato e seus Blue Caps, Golden Boys, todos em apresentações concorridas no Balbininho. Os superstars se hospedavam no Palace hotel e os fãs paravam a Rua Chile. Há que se mencionar, também, David Barauh, Plínio, irmão de Raul, Thildo Gama, Gino Frei, Bartilloti e Nilton Papaum, o primeiro beatnik baiano; Os Mustangs, Edy Star. Dos anos 70, emergem: Mar Revolto, Creme, 19º Colapso Nervoso, Pulsa, Armazens Gerais…Com um histórico repleto de nomes de peso nacional, a produção roqueira baiana não pararia mais: de Raul Seixas a Pitty, passando por Novos Baianos, Camisa de Vênus, Cabo de Guerra, Maria Bacana e Penélope, entre tantos outros. Era (e continua sendo) apenas rock’n’roll, mas todos gostam.

Apagão analógico

 

ERA DIGITAL

“Apagão analógico”

começa em novembro de 2015

 Albenísio Fonseca

Após países como Estados Unidos, alguns da Europa e o Japão, o Brasil inicia em 2015 o “apagão das transmissões para televisores analógicos”. O desligamento inicial, conforme cronograma do Ministério das Comunicações – MiniCom e da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel, prevê a realização de projeto piloto na cidade de Rio Verde, interior de Goiás, em 29 de novembro do próximo ano.

A migração total para o sinal digital tem à frente um horizonte que se estende até 2018. A segunda cidade a contemplar o fim do sinal analógico, em 2016, é Brasília, dia 3 de abril.

Em São Paulo, maior praça do País, o sinal digital passa a predominar a partir de 15 de maio. Dia 26 de junho, Belo Horizonte. Em 28 de agosto, Goiânia e, a 27 de novembro, o Rio de Janeiro.

O switch off (desligamento, em inglês) está previsto para 25 de junho em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

Em 30 de julho, também de 2017, o “apagão” acontece em Salvador e cidades da Bahia como Camaçari, Dias d’Ávila, Itaparica, Jaguaripe, Lauro de Freitas, Madre de Deus, Salinas da Margarida, São Francisco do Conde, Saubara, Simões Filho e Vera Cruz. Na mesma data, em Recife e Fortaleza. Já em Manaus, Belém, São Luis, Natal, João Pessoa, Maceió e Aracaju, somente a partir do segundo semestre de 2018. Apenas no final daquele ano o apagão atinge o interior do País. Veja aqui quando o apagão analógico acontece em seu município.

A migração tecnológica deveria ter começado antes da Copa do Mundo. O prazo foi estendido devido a pedidos das emissoras abertas para conclusão de infraestrutura. A prorrogação para 2015 enfrentou decisão de suspensão, pelo TCU, do leilão da faixa dos 700 megahertz (MHz) – utilizada pelas transmissões analógicas e já destinada à frequência da tecnologia de quarta geração (4G) do serviço de telefonia móvel. Atualmente, a 4G opera somente na faixa de 2,5 gigahertz, leiloada em 2012. Com isso, o cronograma foi alterado.

O leilão aconteceu agora em setembro. Das operadoras, apenas a OI não mostrou interesse. O governo previa conseguir R$ 8 bilhões com a venda pública para as conexões em 4G na faixa dos 700 MHz, mas arrecadou menos, R$ 5,851 bilhões – com um ágio médio de 0,66% em relação ao preço mínimo.

Os vencedores da licitação – Vivo, Tim e Claro – terão de arcar com os custos de remanejamento e outras questões, como filtros para impedir interferência de sinal que podem gerar a “tela preta” nas captações da TV aberta.

Ainda estão sendo concluídos estudos de recanalização para os estados do Sudeste, Distrito Federal e Goiás, área habitada por 41% dos brasileiros.

Somente depois serão efetuados em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Os estudos de recanalização do Norte, Nordeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul já estão, praticamente, finalizados.

Segundo o MiniCom, o objetivo é reduzir ao máximo a quantidade de cidades onde será preciso desligar o sinal analógico e liberar a faixa de 700 Mhz.  

A perspectiva é desligar apenas 630 pontos, o que deve afetar 1200 cidades. Há um estudo que aponta 724 cidades onde o sinal analógico precisa ser desligado.

O processo não se resume a números e datas e promete ser complicado para o governo, a indústria de radiodifusão e, evidentemente, para a população. Além da superação do conflito no espectro com a TV aberta, o próprio cronograma é outro dos motivos de preocupação por parte dos radiodifusores:

Eles veem uma “curva muito acentuada no final do projeto”, ao invés de uma distribuição mais equilibrada durante os quatro anos de implementação. “Parece que o problema mais difícil será deixado para o final, e nós estamos falando de um universo de municípios enorme e de população pequena”, salienta Davi Britto, membro do conselho deliberativo do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital-SBTVD.

Agora – após o leilão da faixa dos 700Mhz – e ainda segundo o cronograma oficial, deverá ser montada a Entidade Administradora do Processo de Redistribuição e Digitalização dos Canais de TV e RTV – EAD e o órgão responsável pela sua governança, o Grupo de Implantação do Processo de Redistribuição e Digitalização de Canais de TV e RTV – Gired.

Conforme a Anatel, o EAD será o órgão que adquirirá e instalará os equipamentos de infraestrutura de radiodifusão para os canais de TV e RTV, além de garantir linha de crédito de R$ 3,6 bilhões para auxiliar na atualização da infraestrutura do sistema. 

O órgão também será responsável por garantir a instalação de filtros em locais com interferências e de conversores de sinal para parte da população. A pedido do governo, cerca de 15 milhões de famílias cadastradas no Bolsa Família terão direito a uma set-top box gratuita (equipamento de conversão do sinal analógico para digital).

Para os demais cidadãos/telespectadores, a compra dos sistemas deverá ser feita livremente no mercado. Lembrando, contudo, que a maioria dos aparelhos digitais já vem com conversor embutido e que não há necessidade de adquirir canais por assinatura para assistir à TV aberta.

Mas fique certo que aquela velha relação que 95% dos lares brasileiros mantêm com a televisão, aliás, como nossas vidas, já estão sendo transformadas, em “um passo gigantesco”, digo, novos olhar, áudio e comportamento, frente à frente com a revolução advinda com as Smart TVs digitais, conectadas e interativas.

———————————–

Leia, também, “TV digital, revolução na plataforma”,  em   https://albenisio.wordpress.com/2011/11/01/299/

———————————–

Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

 

Soci@lismo 2.0 e a história do voto no Brasil

  Ilustração: Karl Marx, por autor não identificado

Soci@lismo 2.0 e a história

do voto no Brasil

Albenísio Fonseca

Mesmo sob a necessidade de continuarmos a nos debruçar sobre o velho Karl Marx, criador da mais influente análise político-econômica que moldou as relações sociais no século XX, a Internet consolida o antigo e utópico sonho marxista do socialismo e em escala global. Mas trata-se do “Socialismo 2.0”.

A tese, com base no colaboracionismo instaurado na rede mundial de computadores, foi criada pelo escritor norte-americano Kevin Kelly, especialista em tecnologia. Para ele, o desenvolvimento de sites colaboracionistas, como a Wikipédia e milhares de outros, instauram uma espécie de socialismo atento ao mundo conectado e de livre acesso.

Sem mais Estado ou lutas sangrentas pela tomada do poder na perspectiva de replicar regimes comunistas a partir da importação de modelos como os da ex União Soviética, da própria Rússia, China, Cuba, Vietnã ou Albânia, encontra-se na Internet a grande pátria do socialismo, vinculada à cultura e à economia em versão digital.

Já a história do voto no Brasil não é nada recente. “Começa logo após Cabral desembarcar por aqui. Moradores da primeira vila fundada na colônia portuguesa – São Vicente, em São Paulo – convocados pelo donatário Martim Afonso de Souza, foram às urnas eleger o Conselho Municipal, em 23 de janeiro de 1532. Em votação indireta, o povo elegeu seis representantes que escolheriam os oficiais do conselho”. Quem conta é Antonio Carlos Olivieri, da Página 3 Pedagogia & Comunicação.

– Em 1821 ocorre a primeira eleição brasileira nos moldes modernos. Foram eleitos 72 deputados do Brasil para as Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, após a Revolução Constitucionalista do Porto e a volta de dom João VI a Portugal, em 1820. Como se sabe, desde 1808, dom João governava o Império português a partir do Brasil, devido à invasão do país por Napoleão Bonaparte. À época Reino Unido a Portugal e Algarves, deixáramos a condição colonial. Desse processo resulta a proclamação de nossa Independência por dom Pedro I, em 1822. Com nova ordenação jurídica e política, novas regras eleitorais.

A primeira Constituição brasileira, outorgada por Pedro I, em 1824, define as normas iniciais do nosso sistema eleitoral. Institui a Assembleia Geral, órgão máximo do Poder Legislativo, composto por duas casas: o Senado e a Câmara dos Deputados, a serem eleitos pelos súditos do Império. O voto era obrigatório, mas censitário: só homens com mais de 25 anos e sob renda determinada tinham capacidade eleitoral. Estavam excluídos da vida política as mulheres, assalariados em geral, soldados, índios e escravos.

As votações ocorriam em quatro graus: cidadãos da província votavam em compromissários, que elegiam os votantes de paróquia. Estes, por sua vez, elegiam os eleitores da comarca, aos quais cabia eleger os deputados. Os senadores (como os “biônicos” no “pacote de abril”, em 1977, pelos generais) eram nomeados pelo imperador.

Com o advento da República, a primeira votação direta para presidente somente ocorreria em 1894. Prudente de Morais, primeiro mandatário civil, chega ao poder com cerca de 270 mil votos, 2% dos brasileiros à época. O voto feminino, adotado em 1932 é exercido em 1935. Com o Estado Novo (1937-1945), as mulheres só tornam a votar a partir de 1946. A ditadura Vargas e a dos militares (1964-1985) privaram o eleitorado de eleger o chefe da nação por nove vezes. Em 125 anos de República, sob controversa exatidão (28 ou 35 presidentes?), apenas 17 foram eleitos por votação direta.

Até 1987 o voto era um direito negado aos analfabetos, contingente significativo da população. Não há surpresa, portanto, no fato de presidentes eleitos com votação expressiva, como Jânio Quadros, em 1960, com seis milhões de votos, envolver meros 10% da população, ressalta Olivieri.

Com a Constituição de 88 o eleitorado aumenta consideravelmente e já chegamos à casa dos 141 milhões. Hoje, o voto é obrigatório para todo brasileiro maior de 18 anos e facultativo a analfabetos e aos com 16 e 17 anos ou mais de 70 anos. Estão proibidos de votar os estrangeiros e os que prestam serviço militar obrigatório. Agora, em segundo turno, é hora de voltarmos às urnas.

 ——————–

Albenísio Fonseca é jornalista

5 de outubro – Canudos não se rende

Históricas fotos de Augusto Flávio de Barros

Misticismo, traição e morte:

A queda de Canudos

Albenísio Fonseca

O dia 5 de outubro data a queda do arraial de Canudos, no sertão da Bahia, sobre a qual Euclides da Cunha escreveria a tragédia inaugural da República brasileira e Cesar Zama desnudaria os fatores envolvidos para dizimar o povoado, erguido na fazenda abandonada de Garcia D’Ávila.

Se considerarmos as permanentes tentativas retrógadas frente ao duro avanço social no país, é correto afirmar o quanto a primeira crise da República está de volta. Canudos não se rende. O dramático extermínio da experiência pioneira de uma comunidade popular, sob o comando do beato Antônio Conselheiro, após rechaçar os ataques de três expedições do Exército, entre 1896 e 1897, levada a efeito pelo novo regime implantado no País, permanece irresolúvel na consciência dos brasileiros.

Com o relato de Euclydes da Cunha, ao narrar parte de toda a epopeia em Os Sertões, sendo contestado em inúmeros aspectos por diversos autores, é inevitável compreender o quanto, antes, o Brasil era Canudos. Hoje, Canudos é o Brasil. O território, palco daquela aventura mística e bélica, permanece vivo na contemporaneidade, ainda que submerso para dar lugar ao açude de Cocorobó, em 1966.

Quem quiser interpretar, à luz da história, a guerra travada em quatro intermitentes batalhas entre os seguidores do beato Antônio Conselheiro e os cinco mil soldados do Exército, precisará trazer à memória o mais sangrento dos conflitos já ocorridos no Brasil. Um episódio cujo paralelo histórico pode ser estabelecido na destruição de Cartago pelos romanos.

Há quem considere o desfecho das Guerras Púnicas (264 a.C.-146 a.C.) o maior caso de genocídio da Antiguidade. Se, em outros momentos, os romanos combinavam força militar e diplomacia, neste caso não tiveram qualquer clemência. A ordem, seguida na expressão latina “delenda est Carthago” (“Cartago deve ser destruída”) foi executada com tamanho rigor que as casas foram demolidas, grande parte da população foi morta, os sobreviventes transformados em escravos e, sobre o solo, depositado sal para que nada germinasse. Tamanho foi o estrago em Cartago que não sobraram muitos registros sobre sua civilização, convertendo-se em enorme desafio para historiadores e arqueólogos desvendarem, minimamente, o modo de vida que havia ali.

No caso de Canudos, ou Belo Monte, contudo, conforme o escritor César Zama, baiano de Caetité, no artigo publicado no Diário da Bahia, em 1899, “a justiça estadual não se ocupava dos habitantes daquele arraial. Contra eles não havia instaurado processo algum. Nos cartórios do Estado nenhum deles tinha o seu nome no rol dos culpados. Nada de extraordinário se passava com relação a Antonio Conselheiro e aqueles que o acompanhavam”.

Ao denunciar o genocídio, Zama faz ver o quanto “ninguém ignora que gênero de vida levavam os canudenses: plantavam, colhiam, criavam, edificavam e rezavam. Rudes, ignorantes, fanáticos talvez pelo seu chefe, que reputavam santo, não se preocupavam absolutamente com a política. Antonio Conselheiro, porém, confessava-se monarquista. Era seu direito, direito sagrado, que ninguém podia contestar em um regime republicano democrático. Não há ato algum por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir que ele tentasse contra o governo da República”.

As desobediências civis à cobrança de impostos e ao casamento civil instituído pela Constituição de 1891 faziam parte da sua pregação, iniciada por volta de 1870 ao promover mutirões para a construção de igrejas e cemitérios no interior do Nordeste. O atraso na entrega de madeira, adquirida em Juazeiro, para a construção do telhado de um templo no arraial, 26 anos depois, se converteria em revolta e no estopim para a mancha sangrenta que se incrustaria na história republicana.

As autoridades de Juazeiro se recusaram a mandar a madeira que Antônio Conselheiro adquirira para cobrir a igreja de Canudos; os “jagunços”, então, decidem tomar à força o que haviam comprado e pago. Avisado das intenções dos homens de Conselheiro, o governo do Estado manda que em Juazeiro se organize uma força que elimine o foco de “banditismo”.

A primeira expedição contou com 100 homens, comandados pelo tenente Pires Peneira. Foram surpreendidos e derrotados pelos jagunços no povoado de Uauá.

A segunda expedição dispôs de 500 homens, comandados pelo major Febrônio de Brito e organizados em colunas maciças. São emboscados pelos jagunços em terrenos acidentados, no Morro do Cambaio e em Tabuleirinhos.

Entre os líderes da resistência destacam-se João Grande e Pajeú, este último considerado por Euclides da Cunha um gênio militar. Reduzidas a 100 homens, as tropas do governo decidem retornar.

A terceira expedição teve 1.300 homens, comandados pelo coronel Moreira César, armados com canhões Krupp, importados da Alemanha, mas sem estratégia definida. Chegaram em fevereiro de 1897 e optaram por atacar o arraial de Canudos de frente, a partir do Morro da Favela. Protegidos pela irregularidade do relevo, os jagunços empreenderam a luta no corpo-a-corpo e desorganizaram as tropas, que na retirada desastrosa deixaram para trás armas, munições, os canhões Krupp e o próprio general Moreira César, morto após ter sido ferido em combate. Moribundo, cravou a máxima: “É tempo de murici, cada um que cuide de si”.

A quarta expedição, planejada no Rio de Janeiro, então capital federal, mobiliza cinco mil homens, comandados pelos generais Artur Oscar, João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget. Contavam, ainda, com tropas da Bahia e da Paraíba. São divididos em duas colunas. A primeira é cercada pelos jagunços no Morro da Favela e tem de se socorrer da segunda coluna que, vitoriosa em Cocorobó, mudara de estratégia, dividindo-se em pequenos batalhões.

Após três meses de cerco, as duas colunas tentam um ataque maciço. Conseguem tomar boa parte do arraial, mas os soldados, aos farrapos, sem distintivos, mal resistiam à fome e à sede. Em agosto de 1897, oito mil homens deslocam-se para a região, comandados pelo próprio ministro da Guerra, o marechal Carlos Bittencourt. O presidente da República era Prudente de Morais (1894-1898), primeiro civil a ocupar o cargo.

São cortadas as saídas de Canudos, o abastecimento de água é interrompido com a tomada da aguada a que tinha sido reduzido o rio Vaza-Barris. Um tiro de canhão atinge a torre da Igreja. Firmes, confiantes na salvação eterna, os sertanejos não se rendem. A maioria seria degolada após o assalto final. Perpetrava-se ali, dessa forma, o crime de uma nacionalidade inteira, no dizer de Euclides da Cunha, que não conseguiu acompanhar o embate final, do Morro de Uauá, de onde escrevia suas reportagens para o jornal A Província de São Paulo, hoje O Estado de São Paulo, mais tarde refundidas em Os Sertões.

Em meio ao disparate da mobilização das forças expedicionárias para combater a crença e a fé de uma comunidade que compunha a segunda maior concentração populacional da Bahia, após a capital, com cerca de 25 mil habitantes, vale, ainda, registrar o episódio da rendição de milhares desses habitantes durante o enfrentamento à quarta expedição. A iniciativa foi do braço direito de Conselheiro, o Beatinho.

Ergueu bandeira branca e dirigiu-se à negociação. Chegado à presença do general Arthur Oscar expôs-lhe o propósito: “venho declarar-vos que grande número de meus companheiros estão dispostos a render-se, contanto que V. Exa. lhes garanta a vida” foram a suma de suas palavras.

“Sob minha palavra de honra prometo que as suas vidas serão respeitadas: podem vir tranquilos”. Responde-lhe o chefe das forças legais. Mas o que ocorreria com a rendição, senão a degola de todos, idosos, mulheres, crianças, para consagrar um heroísmo desmerecido? Sim, Canudos permanece vivo.

Sob o manto do marketing político

A sociedade do espetáculo, mesmo na era do capitalismo cognitivo, vive sob o imperativo da mercadoria. Um fascinante universo em que tudo tende a se converter em produto. Quem opera na área de marketing sabe o quanto a eficácia de um produto está diretamente relacionada, mais que à sua utilidade ou ao seu conteúdo (porque existem diversos similares concorrendo entre si), à forma com que é apresentado. Por isso expande-se, a cada dia, o mercado produtor de embalagens.

Elas se tornaram determinante para o sucesso dos produtos em todos os setores da economia e, também, na esfera de campanhas eleitorais como a em que transitamos, via rádio e TV, desde 19 de agosto e até 2 de outubro. Convenhamos que, no marketing político, o ato de “estampar” os candidatos junto ao eleitorado potencial possui a mesma função, para efeito da publicidade, que a dos bens industrializados.

Isto é, produtos indiferenciados, políticos com as mesmas ideias e propostas, são apresentados como se diferentes fossem. Do mesmo modo, candidatos divergentes são convertidos em similares. Transformados em marcas, o objetivo é que 141,8 milhões de eleitores-consumidores, expropriados de sua real cidadania e injetados pelo recall (lembrança), votem (ou comprem) de acordo com a marca de sua predileção.

Tais ferramentas de sedução mobilizam sorrisos photoshop, emoções lacrimejantes, promessas irrealizáveis. Esbravejam denúncias, acenam novos compromissos sob a fiança de programas de governo, a assegurar a realização de direitos sociais, qualificação dos serviços públicos e expansão da gratuidade, nos casos dos cargos executivos, ou a defesa de demandas sociais sempre gritantes, no caso dos candidatos aos parlamentos, frente à sociedade exaurida a alimentar a esperança de um novo porvir.

Mas, afinal, de qual modo as campanhas políticas contribuem para a educação política dos cidadãos, para a compreensão das diferentes posturas ideológicas predominantes e que correspondem à existência de interesses sociais contraditórios?

A tendência da política como espetáculo consolidou-se no Brasil desde a campanha presidencial de 1989, case recorrente, com a eleição de Fernando Collor, levada a efeito pelo papel decisivo desempenhado pela Rede Globo e pela própria campanha do candidato valorizando a imagem de juventude, a alegada condição de não comprometido com os vícios (as corrupções) da política e para dar no que deu, o histórico impeachment.

A propaganda eleitoral de Lula da Silva, por seu turno e à época, parodiava programas da mesma Globo – a assegurar propostas de ruptura com o FMI (afinal realizada) e em defesa da reforma agrária (permanentemente adiada). Derrotada, a estratégia do PT passou a seguir caminho oposto, com adesão à ideologia neoliberal, conforme se verificaria no início do seu primeiro governo, em 2003.

Contrariando o filósofo Antonio Gramsci, há teóricos no espectro partidário da esquerda que acreditam ser possível, no marketing político, subordinar a “transmissão de conteúdos políticos transformadores da realidade social”, desde que as técnicas de marketing estejam sob controle das instâncias partidárias. Supõem poder separar forma e conteúdo. Ou seja, uma forma burguesa (o marketing) serviria para divulgação de conteúdos revolucionários (o socialismo). Conforme o poeta Vladimir Mayakovsky, “não há forma revolucionária sem conteúdo revolucionário”.

Para Gramsci, a ideologia da classe trabalhadora não difere da ideologia burguesa apenas no conteúdo, mas na forma como deve ser construída, com a “participação ativa dos trabalhadores”. Contudo, o que seria a construção de uma concepção de mundo oposta à visão burguesa, afastou-se numa representação. O espetáculo “é o momento em que a mercadoria chega à ocupação total da vida social” (Guy Débord), submetendo o homem depois que a economia já o arrasou inteiramente.

E assim, nessa tênue democracia representativa, com 31 partidos em disputa, seguimos embrulhados, devidamente alienados dos nossos reais interesses, em favor de propósitos governantes a nos surrupiar a alma sob o manto do capitalismo. Até quando, Oscar Wilde?

——————-

Albenísio Fonseca é jornalista

 

3ª BIENAL DA BAHIA, QUEM DIRIA, FECHA PARA A COPA

Foto: Albenísio Fonseca

Abandono do Pier reflete descaso com o Solar do Unhão, tombado como Patrimônio Nacional na década de 1940

PARADOXO III

BIENAL DA BAHIA, QUEM

DIRIA, FECHA PARA A COPA

Albenísio Fonseca

A reforma do Solar do Unhão – onde está instalado o Museu de Arte Moderna da Bahia – não foi concluída para a realização da 3ª Bienal do estado (sob um lema a indagar, “Tudo é Nordeste?”). As obras – “para a Copa” – conforme anunciado em 2013 e, agora, sob um improvável horizonte de conclusão no segundo semestre desse ano, seguem no MAM-BA e com os demais museus subordinados ao IPAC-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural fechando as portas nos dias de jogos. De acordo com o diretor da unidade, Marcelo Rezende, o fechamento desses equipamentos culturais não é apenas contraproducente, como ressaltei, mas “super contraproducente”, como deixou escapar.
A face nada oculta do abandono do equipamento, apesar da reforma, agride pelo inacreditável estado a que foi relegado, como se diria de uma “instalação do caos”, em se tratando de um ambiente voltado para a Arte Contemporânea. Era demasiadamente previsível que o MAM-BA, ainda convertido em canteiro de obras, não teria possibilidade de abrigar uma bienal. As mostras do evento estão distribuídas no ICBA-Instituto Cultural Brasil Alemanha, no Mosteiro de São Bento, Caixa Cultural e por 20 cidades do interior. 
É grave constatar que o Solar, convertido em um artifício (sedutor) de simulação, no afã de ocultar o descalabro, tem a 3ª Bienal como um viés de camuflagem. O fato de fechar para a visitação pública neste período de acentuada movimentação turística, dada a realização dos jogos da Copa,  apenas ressalta os equívocos de gestores, curadores e, evidentemente, do Governo do Estado.
O expressivo conjunto arquitetônico do Solar é um bem tombado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na década de 1940. Por mais relevante que seja sua restauração, vê-se com tristeza o quanto o descuido atenta, do mesmo modo, contra o empenho da arquiteta Lina Bo Bardi (cujo centenário transcorre este ano), para implantação do MAM, inaugurado em 1969 naquele espaço. Vale a postulação do artista belga Marcel Broodthaers, citada no projeto da bienal: “O museu normal e os seus representantes colocam em cena uma forma de verdade. Falar deste museu equivale a discorrer sobre as condições dessa verdade. Há uma verdade da mentira”.
O MAM conta com um acervo abrangente, cerca de duas mil obras. Destacam-se os trabalhos de Tarsila do Amaral, Portinari, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Rubem Valentim, José Pancetti, Carybé, Mário Cravo e Sante Scaldaferri, pouco mostrados. Há, ainda, o Parque das Esculturas, inaugurado em 1997, com exposição a céu aberto de artistas como Bel Borba, Chico Liberato, Emanoel Araújo, Fernando Coelho, Juarez Paraíso, Mário Cravo Júnior, Mestre Didi, Sante Scaldaferri, Siron Franco, Tati Moreno e Vauluizo Bezerra. Carybé é autor do gradil que cerca o espaço.
A senzala consolidou-se em restaurante, o pátio abriga Jam Sessions, mas o píer permanece à espera de licitação para ser restaurado. A Bienal – proposta para 100 dias, sob o “eclipse” do futebol – tende a cumprir um resgate histórico, mas não vinga o compromisso de estar inserida no espaço destinado à contemporaneidade artística. Algo como ter a carroça à frente dos bois e sob a legenda: fechada em copas.
———————————
Albenísio Fonseca é Jornalista

 ###

Dorival Caymmi, 100 anos e uma noite, na praça

Dorival Caymmi durante a inauguração da praça que leva seu nome, em Itapuã

Dorival Caymmi, 100 anos

e uma noite, na praça

Albenísio Fonseca

Na comemoração do centenário de Dorival Caymmi (30.04.1914-16.08.2008), que transcorre este ano – além da importância fundamental para a Música Popular Brasileira de todas as suas composições, notadamente as “canções praieiras”, aquelas em que cantou a Bahia, especialmente Salvador, Itapuã e o Abaeté – vale ressaltar, desde já, o que significou para este lugar, a cidade, o estado e o país, a inauguração da principal praça do bairro com seu nome.

O evento obteve repercussão nacional. A iniciativa da homenagem foi do vereador Osório Vilas Boas, cujo projeto de Indicação, após pressão favorável da opinião pública, em que pese tratar-se de pessoa viva, obteve aprovação por unanimidade. Afinal, ninguém havia oferecido  contribuição tão significativa sobre a Bahia e para todo o Brasil, quanto ele com suas canções sobre o mar, a praia, a lagoa do Abaeté, os coqueirais e a morena de Itapuã; as ruas antigas e os sobrados da velha São Salvador, as comidas, as igrejas, os orixás, as tradições e os costumes baianos, exaltando belezas que – hoje bem o sabemos e cantarolamos nas suas composições – só a Bahia tem.

A inauguração da Praça Dorival Caymmi reúne na antiga praça da Matriz, em 27 de junho de 1953, um sábado, nada menos que 10 mil pessoas, incluídas aí caravanas vindas de diversos locais do país, principalmente do Rio e São Paulo. A data foi sugerida pelos pescadores de Itapuã. Previram que não choveria. A placa da inauguração foi descerrada pelo governador Regis Pacheco e pelo prefeito Antonio Gordilho.

O ministro da Educação e Cultura, empossado na véspera e acumulando interinamente o Ministério da Saúde, também estava lá: era Antonio Balbino. Na primeira reforma ministerial do segundo governo Vargas, substituira Ernesto Simões Filho que dirigira, até então, a pasta da Educação e Saúde. Getúlio Vargas cometeria suicídio pouco mais de um ano depois. Balbino seria eleito governador da Bahia, daí a dois anos.

O presidente da Assembleia, deputados, vereadores e inúmeras outras autoridades também discursaram. Caymmi, com 39 anos, agradeceria em júbilo. Na plenitude da Era do Rádio, o extraordinário show da inauguração concentra verdadeira nata de cantores e grupos musicais de sucesso à época. Os casts de artistas da Rádio Tupi – Ademilde Fonseca, Dóris Monteiro, Odete Amaral, Leni Caldera, Trio Nagô, entre outros – e da Rádio Sociedade da Bahia, mais identificada naquele período pelo seu prefixo no dial, PRA-4, apresentam-se interpretando as belas canções de Caymmi. Nivaldo Rolemberg era um dos locutores.

O compositor e amigo Antonio Maria, o parceiro Carlos Guinle Filho nos samba-canções “Você não sabe amar” e “Tão só”, o cronista Rubem Braga, marcam presença. O jornalista Odorico Tavares noticiaria, em duas páginas na revista O Cruzeiro, a noite memorável. A TARDE e o Diário de Notícias já haviam dado matérias em destaque convocando os leitores para a efeméride.

No dia da festa, os pescadores se mobilizam na ajuda aos funcionários da Prefeitura encarregados de decorar a praça com bandeirolas coloridas, o cruzeiro adornado em flores, a igreja iluminada. O equipamento contemplava a urbanização do local – pouco mais que uma vila de pescadores, reduto ideal para veraneio, com casas típicas e fachadas pintadas em variadas cores.

A cidade estava vazia. Todos os caminhos levam a Itapuã. O lugar onde Dorival Caymmi buscou inspiração para algumas das suas principais canções fora tomado por boa parte da população. “De tudo quanto é canto tanta gente veio”. O sistema de transporte coletivo de Salvador, autorizado pela Prefeitura, circulava linhas especiais, dos cerca de 32 bairros da cidade, até a nova praça. Caymmi canta “Saudade de Itapuã” em dueto com sua mulher Stela Maris, acompanhados por um coro de 10 mil vozes.

A praça, hoje ocupada por um comércio ambulante, estava repleta e, no mar em frente, a praia, como nos atuais finais de semana, também fora tomada por tanta gente ávida em homenagear seu cantor. O farol piscava próximo e a lua cheia no alto do céu iluminava a noite radiante de Itapuã e de Dorival Caymmi, a estrela maior.

ABI-BA fará mesmo “revisão histórica” sobre omissão às atrocidades da ditadura

Foto: Albenísio FonsecaDiretoria da ABI-BA decidiu por revisão à omissão durante o regime ditatorial 

ABI-BA fará mesmo “revisão

histórica”sobre omissão às

atrocidades da ditadura

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa fará mesmo uma “revisão histórica” do comportamento da entidade durante o golpe de 1964 e no período da ditadura militar no país, que durou até 1985. A decisão foi tomada durante reunião de diretoria na manhã desta quinta-feira (10.04), após diversas análises do contexto político daquele período e sob intensos e acalorados pronunciamentos. Vários deles, a propósito, contrários à medida que envolverá pedido de “desculpas públicas” pela “omissão” da instituição frente às ações de censura contra os veículos de comunicação, dura repressão aos direitos civis e assassinatos de jornalistas.

Ficou definido, contudo, que a instituição somente emitirá uma nota pública e procederá ao registro em ata, na reunião programada para o dia 23. Até lá, uma comissão elaborará a redação da carta aberta à sociedade. A comissão será presidida pelo jornalista Samuel Celestino (em que pese ser o presidente da assembleia geral) e integrada pelos vice-presidentes Sergio Mattos, Ernesto Marques e pelos diretores Agostinho Muniz e Antonio Matos. O presidente da ABI-BA, Walter Pinheiro, considerou a reunião “extremamente importante, na medida em que envolveu a discussão sobre um tema polêmico, histórico e por deliberar sobre atos levados a efeito por diretorias anteriores”. O encontro contou com a participação de 17 dirigentes

Ex-presidente da entidade, por mais de 20 anos, Samuel Celestino estranhou que a proposta, elaborada por alguns dirigentes, tivesse vazado e sido veiculada no site “Bahia Notícias”, do qual é diretor, como uma deliberação já consumada e sem que ele tivesse conhecimento prévio. A nota, todavia, foi retirada do site algumas horas depois de publicada. Celestino considerou o pedido de desculpas uma atitude temerária: “Não quero ficar olhando para trás, mas seguir em frente”, disse.

A repressão militar, inclusive o assassinato do jornalista Wladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI, em São Paulo, e outros 10 assassinatos de jornalistas, na Bahia, durante o regime de exceção, conforme Agostinho Muniz, “não fizeram por merecer nenhuma manifestação da entidade, até então”. Ele ressaltou, contudo, que o único reconhecimento das “atrocidades” cometidas pela ditadura, no que tange à ABI-BA, foi adotada de forma “unimonocrática”, pelo então presidente Samuel Celestino, na introdução do libreto comemorativo dos 70 anos que, todavia, não chegou a circular publicamente. “Foi recolhido a arquivo”, criticou.

Para Ernesto Marques, a ABI “não se redimiu da posição de ter defendido o golpe, nem mesmo após a adoção do Ato Institucional nº 5”, em 1968, que implicou no recrudescimento das atitudes discricionárias no país. Segundo ele, “a omissão, com o silêncio adotado, converteu a instituição em cúmplice do regime”. Marques defendeu, ainda, a “abertura da instituição junto aos profissionais nas redações e estudantes de Jornalismo”.

Na análise da conjuntura do período, o jornalista Sérgio Mattos classificou o golpe como “civil, militar e midiático”, tendo em vista o amplo apoio da imprensa. O professor de Comunicação Aloísio da Franca Rocha salientou a existência de comissões da verdade, tanto nos estados quanto em âmbito federal e associou o “cenário de violência” predominante, hoje, no país, à manutenção de uma “estrutura policial militar herdada da ditadura”. No entendimento do diretor financeiro, Geraldo Vilalva, que à época era repórter do Jornal da Bahia e cobria a movimentação no cais de Salvador, “o golpe foi movido por interesses econômicos e articulado pelo governador de Minas Gerais e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto, junto a setores da sociedade civil e aos militares”.

O também diretor, Raimundo Marinho, criticou o “vazamento” da proposta para a Imprensa, considerando que tal atitude converteria a instituição em um “clube de esquina”. Ele salientou que a decisão da adesão ao golpe pelos dirigentes daquele período “ocorreu em meio ao clima de comoção política e social” vivida, então, no Brasil, “o que não chegava, portanto, a constituir um crime”. Marinho defendeu que a redação da nota pública “deva estar vinculada à passagem dos 50 anos do golpe”. Sua preocupação, conforme destacou, era no sentido de “evitar o comprometimento da imagem da ABI-BA”.

Outro a se pronunciar foi Romário Gomes, que atribuiu a um “possível instinto de sobrevivência” a adesão ao golpe pela diretoria da entidade à época, encabeçada por Ranulfo Oliveira, Jorge Calmon (de A Tarde) e Odorico Tavares (do Diário de Notícias). Romário citou nomes como o do jornalista Anísio Félix (que presidiu o Sindicato dos Jornalistas na Bahia no período ditatorial e falecido em 2007), por “ousar bater de frente com a ditadura” e do jurista Orlando Gomes que teria “aderido ao regime ditatorial”. Já Luis Guilherme Pontes Tavares, questionou a “moda dos pedidos de desculpas por adesões ao governo dos generais“ e, como tal, disse que a instituição teria, também, que “desculpar-se pelo fim da Caixa Previdenciária”.

—————————————- Albenísio Fonseca é jornalista

Sob o signo e o sangue das baleias

                                                                                                                                Foto: Instituto Baleia JubarteImagem relacionadaJubarte dá salto em plena Baía de Todos os Santos, à frente da Costa de Salvador

Albenísio Fonseca

Imagine Salvador e vilas do Recôncavo iluminadas durante o século XIX. As ruas têm os lampiões acesos e, nas residências, as luminárias flamejam. Mas qual combustível era esse que permitia tamanha luminosidade? Sim, em contraposição a ciclos econômicos dos períodos colonial (1500-1822) e imperial (1822-1889) proporcionados pela exploração do pau-brasil e das plantation de cana-de-açúcar e café, como nas minerações de ouro – o ciclo da pesca da baleia na Costa brasileira, notadamente na Baía de Todos os Santos, é um fato histórico da expansão exportadora que, embora de alta relevância, permanece submerso ou à deriva, relegado a parcas abordagens dos nossos historiadores.

A pesca das baleias e seus filhotes, por 300 anos – entre barcos fundeados na Baía – à média de 200 animais por ano e 10 mil litros de azeite por exemplar, consistia em dramático e trágico espetáculo assistido das balaustradas dos sobrados, subidas de morros, montanhas e praias, de onde se contemplava o embate excitante e o transbordar nas águas do sangue do pescado. Não raras vezes, estarrecidos com o naufrágio das embarcações e seus tripulantes, vencidos pela força do maior animal do planeta.

Arpoadas e rebocadas à praia ou às armações, as baleias eram retalhadas e delas extraídos os subprodutos. A carne, tida como ordinária, além de distribuída gratuitamente à gente pobre do lugar, era geralmente destinada a alimentar os escravos trabalhadores das armações e vendida às ganhadeiras, que as salgavam, moqueavam e saíam vendendo pelas ruas de Salvador e vilas do Recôncavo. Os ossos, empregados em obras ou suportes para lavagem de roupa. À beira mar, restos do “monstro” permaneciam fétidos.

                                                                                     Foto: Bona Beding/Mail Online O ritual secular da pesca de baleias ainda persiste entre orientais

A pesca da baleia consolida-se no século XIX como um sistema ecologicamente devastador para a produção do óleo ou azeite, extraído da gordura do cetáceo e que viabiliza por três séculos o combustível gerador da iluminação das cidades e residências, não só nesta capital e seus arredores como em Pernambuco, São Paulo, Rio, Santa Catarina e cidades europeias. A atividade foi introduzida na Bahia, nos primeiros anos do século XVII, quando da denominada União Ibérica – de Portugal e Espanha – entre 1580 e 1640. O rei Felipe III, em 9 de agosto de 1602, autoriza dois estrangeiros, os biscainhos (ou bascos) Pêro de Urecha e seu sócio Julião Miguel, a pescarem baleias nas costas brasileiras, pelo prazo de dez anos

Exímios pescadores de baleia, após as capturas do mamífero aquático, processavam a gordura em bases cujas localizações nunca foram identificadas e retornavam à Espanha levando o azeite do peixe e gêneros da Colônia. Antes, porém, abasteciam o Recôncavo com o combustível, conforme acerto em contrato. Entre 1602 e 1612, todavia, a Câmara Municipal de Salvador estimula a pesca do cetáceo junto aos habitantes da cidade. O episódio traz sérios prejuízos àqueles empreendedores, por conta do aumento da “produção caseira” de um azeite de baixa qualidade, resultando consequentemente em queda nos preços. Como decorrência, os biscainhos perdem o interesse em continuar pescando os cetáceos nas águas brasileiras.

A imagem pode conter: céu e atividades ao ar livreIlustração mostra pesca da baleia na Baía de Todos os Santos no século XIX

Na capital, Antonio da Costa obteria o primeiro contrato de concessão para pesca da baleia e exploração dos seus derivados, em 1614.  Detentor do monopólio, expande a atividade por todo o litoral da cidade. Instala armações na Pituba, no Rio Vermelho, nas proximidades do Forte de Santo Antônio da Barra, na Pedra Furada e em Itapuã. As armações consistiam em estrutura com embarcações, fábrica, alojamentos, armazéns, fornalhas, tanques, caldeiras, escravos, terras, apetrechos de pesca e as de manufatura do azeite.

Conforme minucioso estudo de Myriam Ellis, “A pesca da baleia no período colonial” (Ed. Melhoramentos, 1ª edição, 1959) – em todas as armações do litoral brasileiro predominava mão de obra escrava. As maiores indústrias de óleo chegavam a empregar mais de uma centena de cativos, além de trabalhadores livres, a labutar dia e noite em fornalhas que derretiam o espesso toucinho do animal. Findo o monopólio, as armações da Bahia, em Itaparica e Itapuã, são vendidas a particulares que continuaram a pescar baleias nas águas da Baía de Todos os Santos. As existentes no Sul do Brasil foram tomadas pela Coroa Real e desastrosamente administradas. Ao oferecê-las em concessão a particulares, 15 anos depois, já não encontraria interessados.

Afora a escassez da espécie, pela pesca predatória, havia a concorrência estrangeira. Americanos e ingleses desenvolveram tecnologia para processar a gordura e extrair o azeite no interior das próprias embarcações, em alto mar. O fim do ciclo decorre da descoberta do petróleo, em 1859, tornando o querosene como novo combustível para iluminação. Resta-nos, contudo, em Itapuã, alegorias das baleias a festejar a influência da pesca na formação social e econômica de Salvador.

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Videocolagens


Nuvens (2002). Cory Arcangel. Modded Super Mario Brothers cartucho e projeção Top – detalhes (Arcangel). Bottom, instalação tiro no Museu Whitney (Knudsen).

Videocolagens

Novel, novelo. Personagem de novela. Horário nobre das paixões. A tevê funciona como um espelho mágico. Cria toda uma simulação de que o drama vivido por personagens fictícios nos envolve. Paixões irradiantes. Alucinação colorida da contemporaneidade. Faz com que tornemo-nos narcisos eletrônicos. Real e ficção contornando a sala de estar. Com vale tudo é olho por olho. Ao contrário das manifestações culturais autênticas, a mídia impõe o seu repertório, proporciona o seu próprio manancial.

Móvel, modelo. História ingênua. O bem vencendo o mal. Olhar convexo da ira mórbida. As contradições do social sendo naturalizadas na tela quente. Como juntar as peças desse mosaico? O Brasil é mesmo isso, um enorme quebra-cabeça. E a televisão, no fundo, é apenas o dado sintomático do diagnóstico mais geral. Miséria de um cotidiano produzido em frente às câmeras. Zoom total do panorama fragmentário.

Personagem surpreendente. Vai ao restaurante natural e bebe Coca-Cola com casco e tudo. O espetáculo está em toda parte. Condensação do dia-a-dia, em capítulos. Trama hilariante das nossas próprias vidas. Reflexo vivo de uma economia em crise. O espetáculo é assim, submete os humanos depois que a economia já os arrasou inteiramente. Corta, entra comercial.

Manifestações na Venezuela ou Coréia do Sul. Anos depois de Paris, Caracas, Seul, Porto Alegre, Brasília. Cairo. Na geografia dos povos, como na arte, não há fronteiras. Europa 2011. E o mundo explode longe da nossa cama. A Bahia e o Oriente Médio incendeiam suas guerras santas em pleno início do século XXI. No século passado, uma luta de boxe se converteria no menor espetáculo da história. 13 segundos. Tela fria: “Em algum lugar do passado”, o filme, serve para demonstrar o caráter cíclico da moda. O personagem retorna um século, mas sua indumentária está defasada, ainda assim. Foi moda há 10 anos um século antes.

Peças de um mesmo jogo. Mosaico. Assassinato brutal. O vídeo derrama-se em sangue. O uso de drogas convertido em um acessório para prazer e tragédia do homem moderno. Videoclipe da ilusão. É o sentido de tudo o que há de ingovernável. Tábuas da lei. Ulisses seduzido pelo canto das sereias. Quanto nos custa dar a outra face da mesma moeda?

Novel modelo. Móvel novelo. A televisão funciona. Nós funcionamos via televisão. Telerrealidade. Psicosfera do reversível. VT. Condicionamento molecular. Programação em cores, preto-e-branco. Exclusivo. Desnoticiário.

Fomentar o consumo irrefreado nas crianças. Violência juvenil. O primeiro amor, o primeiro beijo, a última novela. João Gilberto faz assim: mantém um aparelho de tevê ligado ininterruptamente, mas sem som.  Já no filme The Wall, do Pink Floyd, uma das cenas de maior impacto é quando o personagem aturdido (leia, completamente pirado) destrói todo o apartamento e lança do último andar o aparelho de tevê.

Corte abrupto. Falta de energia. O mundo fora do ar. Recorte eletrônico. Assis Chateaubriand inaugura a TV Tupi quebrando a champanhe sobre uma das duas câmaras. Naum June Paik. Um tiro do videoasta alemão Wolf Vostell num aparelho de tv, há 200 metros, em 1963. Fera radical. Orgasmo duplo em transmissão simultânea, de Nova Iorque ao Xingu.

Manifestação instantânea de telespectadores: em lugar de coquetéis molotov lançam monitores. O imaginário explode em imagens. Corta. Entra transmissão em cadeia nacional. A lua brilha sobre a janela. Minha namorada adora dormir com o aparelho ligado, principalmente depois que a programação das emissoras chega ao fim. Puxo a tomada e, olhar de videoscope, vejo a parede vir junto. Desabo de sono.

O lugar do goleiro é um terreno minado

             Foto: Divulgação  
fotoLev Yashin (1929-1990), da Rússia, o “aranha negra”, maior goleiro de todos os tempos.
“…A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que 
joga na Seleção…”.

Como propunha Gilberto Gil no trecho citado na epígrafe, extraído da metafórica “Meio de campo”, canção do exílio (oh Gonçalves Dias) cuja letra/poema foi escrita na forma de uma carta ao inesquecível meia volante Afonsinho, nos idos dos anos 70 e refletindo sobre a “perfeição”, o lugar do goleiro é mesmo excepcional. Vale lembrar, ainda, que Afonsinho, foi o primeiro jogador a usar barba longa e rebelar-se contra a estrutura arcaica e autoritária do nosso futebol e a lutar pelo direito de trabalhar onde quisesse, ganhado o “passe livre” na Justiça.

Mas, entre todos os atletas que compõem uma equipe de futebol, somente ao goleiro é permitido o toque na bola com as mãos, como se a legitimar a prática desse esporte frente às demais modalidades esportivas praticadas com as mãos.

Todavia, a ação dos goleiros está restrita aos territórios da Pequena Área (onde é intocável) e da Grande Área, limite da sua atuação com as mãos. Na medida em que ultrapassa os limites dessas linhas, não mais lhe é permitido o toque na bola com as mãos, tornando-se idêntico aos demais, numa espécie de metamorfose por localização.

Os goleiros funcionam como os guardiães do reduto do gol. Primeira e última posição tocam-se (como extremos) na defesa da meta. Algo como a honra, a defesa da honra, é o que está colocado em jogo para o goleiro. Daí expressões como “caiu o véu da noiva”, entre tantas outras empregadas pelos locutores esportivos, a expressar o “desmascaramento” do lugar a ocultar, a proteger. Ao “arqueiro” cabe “fechar o gol”.

A codificação extremamente exigente, que rege os jogos de futebol, determina também a grande área como o espaço em que qualquer falta contra o adversário seja convertida em tiro livre (o pênalti), para o qual resta apenas a esperança de defesa pelo goleiro, num frente-a-frente irrecorrível.

Todo o campo – as quatro linhas em forma retangular, mais a linha divisória e seu grande círculo – tende a revelar-se como uma mandala, à medida em que o embate entre duas equipes é levado a efeito. O retângulo é uma forma inexistente na natureza. Diversas artes – como se costuma dizer também do futebol/arte – têm no retângulo a forma, o suporte, para sua realização, na pintura, no cinema, na fotografia.

A circularidade (o meio-de-campo, a meia-lua da grande área) e a face cabalística do número quatro (as quatro linhas que delimitam o campo), tendem a estabelecer uma relação com a origem do universo, pelo menos segundo a lógica dos místicos, mas a alquimia futebolística envolve a catarse coletiva de sentimentos que, em muitos casos, extrapola os interesses imediatos do que se desenrola no gramado.

No mais, é certo que a posição do goleiro, ali, no terreno minado “onde não nasce grama”, costuma ser aquela para a qual muita gente não gostaria de estar na pele, exceto os que, singularmente, nasceram com esta aptidão.  Por conta deles é que continua “nada fácil marcar um gol nessa partida, meu irmão”.

Entre a fome e o combustível


Entre a fome e o combustível
Albenísio Fonseca
Em meio ao anunciado fim da era do petróleo e da redenção energética através da biologia e da agricultura, o economista, engenheiro e diretor da École Supérieure d’Agriculture d’Angers, na França, Bruno Parmentier, um pesquisador  sobre o futuro da alimentação, vem tirando o apetite dos estrategistas europeus, desde que lançou o livro  Nourrir l’Humanité (Nutrir a Humanidade, ed. La
Découverte ).

No best-seller, ainda sem tradução em português, ele acena com uma “era da penúria” e parte do princípio de que garantir a nutrição de uma população fortemente expandida é uma novidade radical para a humanidade. Se até o século 16, a população mundial pouco evoluíra, e apresentou crescimento suave nos séculos 17 e 18, seguido de outro mais acentuado no 19, tocando mais a Europa e a Ásia, depois se espalhando para outras partes, em 1900 havia no planeta 1,8 bilhão de habitantes, 50% dos quais comiam satisfatoriamente. Mas contavam-se 800 milhões de mal nutridos. 
Há pouco mais de 50 anos, em 1950, éramos 2,8 bilhões e havia algo em torno de 800 milhões de pessoas com fome. Hoje, com a população mundial batendo no teto dos 6,3 bilhões continuamos encontrando algo como 800 milhões de famintos.

No viés otimista da leitura desses números, há a bela performance de que, em um século, a humanidade conseguiu dar o que comer a mais 4,5 bilhões de pessoas. Mas Parmentier nos leva a observar com certo pessimismo essa estranha “lei” fundamentada em um número persistente: Qualquer que seja a população do planeta há sempre algo como 800 milhões passando fome.

É imperativo encontrar alternativas. Mas as reservas de terras
disponíveis para agricultura são cada vez menores, boa parte por conta da urbanização. A mecanização da agricultura, a fabricação de
fertilizantes e outros modos de produção dependem de energia. Com o preço mundial do petróleo sob forte tendência de alta, será extremamente sensível o impacto psicológico da cotação rompendo o patamar dos US$ 100, já iminente. Isso complicará a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da mecanização do setor. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais trabalham com energia animal e 1 bilhão não têm nem animais nem tratores. Um bilhão de produtores estão completamente à margem!

Com cenários de números e estatísticas, ele se posiciona como defensor da produção de biocombustíveis, mas não com base em cereais, e questiona o fato de o Brasil, enquanto potência agrícola, ainda não ter solucionado a nutrição da sua população. Bruno Parmentier nos lança à reflexão frente à equação regida por uma coincidência: 800 milhões de pessoas sentem fome no planeta. Temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de caminhões. O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E agora?

 

Entradas Mais Antigas Anteriores