Criminalidade difusa

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Criminalidade difusa

Albenísio Fonseca

No momento em que todos mantemos a atenção voltada para os acontecimentos em São Paulo, Paraná e Mato Grosso, e sob o impacto estarrecedor das ações da facção criminosa PCC-Primeiro Comando da Capital, em acintoso desafio ao Estado e à própria capacidade de organização da sociedade, ainda que tarde, vale a pena refletir sobre toda esta megarebelião nos presídios, e quanto à existência de uma superpopulação carcerária no Brasil.

Por mais complexa que seja, a gravidade de todo este indesejável cenário decorre, sem dúvida e a um só tempo, das visíveis distorções na (má) distribuição de renda, dos insuficientes investimentos em educação, saúde, moradia, emprego e ausência de uma política de segurança no país como um todo.

Em toda a prática de criminalidade difusa levada a efeito por este grupo, e outros como o CV-Comando Vermelho, o Terceiro Comando e falanges vermelhas, o crime organizado desenvolve acumulações de bens com poder econômico, bélico, alto poder de corrupção, e formas não esclarecidas de legalizar ou “lavar” lucro obtido ilicitamente, com alto poder de intimidação, roubos e seqüestros, em meio às suas conexões locais e internacionais. Consolidaram o tráfico de drogas como apenas um dos seus “empreendimentos”, o mais rentável, como é fácil presumir – e tudo, absurdamente, “orquestrado” por lideranças em regime prisional e sob o beneplácito propinado de policiais corruptos.

Há no histórico dessas organizações alusões de que teriam se constituído sob inspiração de presos políticos, e adotado técnicas de guerrilha empregadas por estes contra as forças do regime militar (1964-1985), durante convívio nas prisões. É evidente, contudo, que essas facções criminosas, sem qualquer viés ideológico, obtiveram um sonho acalentado pelos militantes da guerrilha: o apoio dos segmentos populares de baixa renda, aos quais supre necessidades que constitucionalmente caberia ao Estado prover. Pior, tornaram-se grupos com poder de fogo sofisticado e tecnologicamente superior ao das forças de repressão e investigação.

A sociedade brasileira talvez ainda não tenha se dado conta da horda de bárbaros que cultiva.  Quantos jovens criminosos sem pais, sem paz, sem país, são “qualificados” nas Febens desse modelo reformatório, digo, civilizatório? Futuramente, quantos serão? três, quatro milhões de adolescentes somados a quantos mais, oito, dez, milhões de desempregados em armas?

Sem um projeto amistoso de progresso e futuro, reservando tantos lugares para criminosos em seu tecido social, e mantidos pelos próprios cidadãos-contribuintes, os que sobreviverem poderão constatar uma organização social feita exclusivamente de bandidos ou, de outro modo, vendo restar apenas policiais indo e vindo para a glória da nossa incansável força pública.

Ah! os que sobreviverem verão! Mas é aos legisladores e governantes de agora que cabe a adoção de medidas urgentes tanto para coibir a existência desses grupos, quanto para punir, ou melhor, inseri-los socialmente antes dos apelos da delinqüência. Afinal, os bandidos têm a mão no gatilho, mas é o sistema que os arma.

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