O futebol como solução

Charge sobre o futebol no século 18
 
O futebol como solução

Albenísio Fonseca

Certamente inspirado na Copa América, nos Jogos Panamericanos e no propósito de promover a Copa do Mundo no Brasil, mas principalmente na sua maior vocação não realizada, o presidente Luis Ignácio Lula da Silva propôs ao ex-revolucionário e agora presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, celebrar um jogo de futebol amistoso entre os chefes de Estado da América do Sul e seus colegas da América Central e do Caribe.
 
A partida já estaria programada para outubro, no Chile, conforme sugerido pelo próprio Lula. Em sua viagem pela região o mandatário brasileiro foi contemplado, no México e na Jamaica, com  camisas de futebol, número 10 e a identificação Lula da Silva nas costas.
 
Nossa política de embananamentos futebolares ganha muitos pontos com isso. Resgata – ao menos simbolicamente – o episódio do conflito entre ingleses e escoceses, em 1297, cujos soldados, à revelia dos seus generais, decidiram a peleja numa pelada.
 
Não ficou clara a intenção do presidente brasileiro, mas parece ser a de promover a paz entre os povos. Lula foi até distinguido com a medalha Martin Luther King, na Nicarágua. Poderia levar a crer, contudo, o desejo de converter o planeta, que é redondo qual uma bola, numa espécie de Granja do Torto.
 
Lula já promete – em tom de grande desafio – um jogo contra os chefes de Estado da Europa. Sugerimos que ocorra no Maracanã. Será a grande oportunidade de o presidente fazer calar a torcida com a exuberância dos seus dribles e chutes certeiros.
 
O futebol é sim, um jogo revolucionário. Talvez por isso o apego do presidente. Senão vejamos: é jogado com os pés, numa contrapartida às atividades sociais organizadas e praticadas sob controle das mãos. Por ser um esporte coletivo e, desse modo, contrariar os esportes individualistas das elites patriarcais dominantes. E, ainda, por dirigir as emoções do povo para uma disputa que tende sempre a terminar bem, ao contrário daqueles torneios da antiguidade que importava a
morte de um dos contendores.
 
Ora, como ocorre de perdermos a identificação com os mandatários, nos maravilharemos tendo-os como jogadores nesse ritual dramático. Sentiremos que farão por nós proezas
físicas e psíquicas, as quais partilharemos ao usufruirmos.  
Sim, os jogadores de futebol são heróis do povo e o goleador o maior deles. Será a grande chance do presidente Lula, melhor que JK, realizar seus oito anos de governo em apenas 90 minutos.
 
O exercício da ética no futebol é tão evoluído, presidente, que trouxe até mesmo a codificação de não se marcar uma falta que beneficie o adversário. Observe o bandeirinha, também há o impedimento, que proíbe receber a bola por trás da defesa. É visível o quanto as emoções elaboradas pelos jogadores, do mesmo modo que a dos chefes de Estado, correspondem, simultaneamente, às vividas pelos torcedores.
 
Há a hipótese de o futebol ter se originado do costume primitivo de chutar a cabeça dos inimigos para comemorar vitórias. Tornou-se num símbolo transfigurado do processo de luta pela vida, para atingir nossas metas. O que está em jogo, no entanto, é a disputa com o petróleo da Venezuela,
de Hugo Chavez, pela definição de um modelo energético para a região.
 
Chávez também esteve visitando aliados essa semana. Lula, na Nicarágua, não convenceu o presidente Ortega da opção pelo etanol, mas acordou o financiamento brasileiro para  projetos de hidroelétricas. No México, obteve um aceno de adesão para o Mercosul. Na Jamaica, bateu o martelo de mais uma usina com álcool e tecnologia Made in Brazil.
 
Ele passou, ainda, por Honduras e Panamá, acompanhado de 50 empresários, com o propósito de estreitar laços comerciais. Os da chuteira já estão bem ajustados. A viagem de Lula, quiçá para a FIFA, já é um sucesso.
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De Volta à Origem


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Mosaico criado por Charles Tsevis para artigo sobre Darwin, na Times


De volta à Origem

Albenísio Fonseca


Sob a incerteza dos tempos de agora. De volta à Origem. Das Espécies. 1859.
Contra o Anjo Caído das religiões e a imagem do hercúleo Atlas sobre
tartarugas a sustentar o planeta, o naturalista Charles Darwin publicava o resultado dos seus estudos na África, Austrália, América Latina, pelo Brasil e por Salvador inclusive, revelando que nós somos frutos de um processo seletivo natural.

Com sua Teoria da Evolução, Darwin nos lançaria à intempestiva constatação da origem comum. Deixávamos de ser o centro do universo: o homem, como os demais  seres vivos, é filho da Terra, oriundo da mesma célula embrionária que gerou todas as formas de vida neste planeta. A descoberta, polêmica desde então, derruba mitos e nos recoloca frente a frente com o velho dilema: “O que somos? A que nos destinamos?”. Ao mostrar como a vida evolui, CharlesDarwin dispensaria Deus da condição de criador. 

Nascido sob o signo das grandes revoluções – a francesa, a americana e a industrial – ao embarcar, com 23 anos, no Beagle, em 1831, em meio a uma expedição cartográfica, estava preparado como ninguém para o trabalho de pesquisa. A viagem duraria quatro anos. A paisagem infernal das ilhas Galápagos, ao final da viagem, tornara-se um paraíso para o obstinado caçador de besouros. Ali, teve a inspiração, tão decisiva quanto assustadora, da sua Teoria da Evolução. De volta à Inglaterra, debruçado sobre as 5.436 carcaças, peles e ossos colecionados ao longo da viagem no Beagle, concluiu que todas as espécies do mundo tinham passado por processos hereditários de adaptação.  

Na ilha, as mesmas aves com bicos ideais para quebrar nozes, ou pontiagudos para buscar comidas em frestas, permitiram-lhe a imaginação de terem se adaptado de algum modo. Sim: por um lento processo de seleção que levou gerações. Mesmo as asas dos pássaros, segundo Darwin, não nasceram prontas, mas fruto de uma mutação, “em conseqüência da natureza, da fome e da morte”, registraria no livro.  

Ora, os humanos, estipulou o atormentado inglês, não estávamos de fora. Nosso ancestral, um tipo parecido com os macacos foi desenvolvendo
cérebros cada vez maiores. Também esses “macacos” provinham de peixes
mutantes, nascidos com a capacidade de respirar fora da água, como sabemos hoje.

Defrontar-se com a certeza de que não éramos seres à “imagem e semelhança de Deus” levou-o a reter por 20 anos a publicação de sua ideia. Somente após a leitura de um artigo com uma teoria similar à da seleção natural, e o medo de ser passado para trás, o faria autorizar a edição. Sua tese, contudo, só viria a ser aceita no século 20, refinada por outros cientistas com base na genética.

Em 1930, uma nova revolução estava em curso, o neodarwinismo, com  detratores apenas nos círculos religiosos. Na sua partida do Brasil, anotou, “dou graças a Deus e espero nunca mais visitar um país de escravos…”. A propósito da sua teoria, a verdade é que continuamos pre-darwinistas, aliás, como nunca.

A Danação da Ética

No momento em que o Ministério da Saúde, a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) concordam na importância de estabelecer redução do horário de exibição de propagandas de bebidas alcoólicas para combater o que consideram um grave problema de saúde pública do País, vale a pena refletir sobre a postura ética da publicidade.
Regidos pelas três leis básicas da atividade – vender, vender, vender – publicitários são pedradores, por excelência. Se lhes fosse permitido, pregariam suas tabuletas de reclames por toda e qualquer paisagem,  atributo natural ou urbano. A publicidade é um dos setores com que podemos entender, desde já, a sociedade do espetáculo em que habitamos.
Fomentadora de comportamentos, criadora de necessidades para um mercado de produtos descartáveis ou não, sazonais ou não, rege opções, formas, gostos, imagens e atitudes, no varejo ou por atacado. Seus deslizes éticos são fiscalizados pelo Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar). A mera listagem do índice de casos julgados configura  a predominância de posturas antiéticas na atividade, em que pese o conjunto de princípios que norteia a vida em qualquer sociedade.
Não se trata de juízo conservador, mas de constatar a gravidade da tendência ao inescrupuloso. Não necessariamente a publicidade tem como regra o desvio do compromisso social. Mas já não tratamos de exceções. No Brasil, mesmo que agências e profissionais estampem seus troféus de criatividade dos concursos internacionais, parece inexistir qualquer propósito de preservar estruturas como a  família, ou a noção do coletivo.
O que está em julgamento, em centenas de casos, no Conar (vide www.conar.org.br), são itens como "respeitabilidade, decência, discriminação, indução a atos ilegais, denegrimento à imagem de produto ou marca de empresa e concorrência desleal". Há campanhas que beiram o absurdo. Várias, meros ardiz, e envolvendo produtos alimentícios para crianças. Algumas, de tão graves, como a que vinculava o uso de drogas injetáveis à ausência de carinho paterno, foram suspensas, pela agência e anunciante, como estratégia de escape à condenação: refazer a peça ou sustar a veiculação.
Para a venda de relés televisor, uma campanha propunha: "casamento devia ser assim: não gostou, trocou". Pouco importa se o casamento é uma instituição sólida ou em crise, tornam-na descartável. Que valor tem mesmo a campanha pela importância do aleitamento materno, se nos podem oferecer um lacticínio qualquer como "o melhor leite para seu filho", em meio a imagens de fêmeas animais amamentando suas crias, e uma mãe ao seu bebê? Com ilusionismo, surrealismo ou supra-realidades à solta, carregados de estímulo ao politicamente incorreto, outros anúncios exploram o medo para vender a esperança; a velocidade dos automóveis na contramão de campanhas contra acidentes no transito; cerveja em salas de aula.
Como parte integrante da atividade econômica, a publicidade está protegida na Constituição no título "Da Ordem Econômica e Financeira", e não sob o capítulo da comunicação social. Como um espelho mágico, contudo, infringir a ética tornou-se norma no universo da propaganda, mas sinaliza para a reprodução de algo anormal na sociedade. Pelo visto, a "Lei de Gerson" é a que impele a atividade. No mundo globalizado, em que a comunicação é o principal instrumento de transformação, ao  consumidor resta o direito de, ao sentir-se ofendido ou lesado por peça publicitária, recorrer ao dócil Conar.

 

ACM, DARWIN E O CARNAVAL

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ACM, DARWIN E O CARNAVAL


Abril. 1978. O regime militar encena sua abertura democrática, lenta, gradual e insegura. O repórter plantonista da Rádio Cruzeiro da Bahia chega ao trabalho. É designado para cobrir a chegada de Antonio Carlos Magalhães, indicado para um segundo mandato como governador da Bahia. No Aeroporto 2 de Julho, a claque montada para recepcioná-lo envolve centenas de estudantes, torcedores de clubes, pessoas da classe média e representantes de uma elite interessada e subserviente. Junto, chega Lomanto Júnior, indicado senador “biônico”, denominação aos não eleitos pelo voto popular, e índice de controle do Congresso.

Do lado de fora do aeroporto, o jovem repórter assiste a impressionante demonstração de poder. A longa fila de ternos e bem-vestidas a cumprimentar os dois políticos, em infindável “beija-mão”, é replicada, por Antônio Carlos, como se diria de um afago, com tapas nos rostos de todos os homens, e apalpadas nas bundas em todas as mulheres.
 
– O que a Bahia pode esperar do seu novo mandato, governador? Todo o peso discricionário pousa no abraço sobre o ombro do repórter-plantonista, e a resposta: “Vamos retomar nossos projetos pra uma nova era de progresso, de desenvolvimento, que ficará gravada para sempre na história do povo baiano”.
 
Anos depois, o plantonista da rádio exerceria funções de chefia e edição na redação do jornal fundado pelo governador. Acompanharia seus pisoteios sobre pés de prefeitos com discursos “indevidos”, segundo a cartilha da obediência cega a ACM. Seus ponta-pés em repórteres, tapas na cara de correligionários por meros atrasos em reuniões do grupo; idas à praia sem que estes mesmos correligionários ousassem entrar na água ou tirar os olhos salva-vidas do chefe.
 
Tais imagens se diluiriam anos mais tarde. Como assessor de Comunicação Social de dinâmica prefeita, este jornalista assistiria a gestos corteses de um senador interessado em manter seus territórios político-eleitorais, viabilizando as demandas e reivindicações intermediadas por seu neto e herdeiro político. Se não se pode dizer de ACM que fosse um folião, deve-se a ele, entre seus tantos feitos e desfeitas – ocupação econômica do Oeste do estado; realização do congresso de reconstrução da UNE; intensificação da política habitacional – a extensão do Carnaval de Salvador de três para cinco dias.
 
O naturalista Charles Darwin, muitos anos antes, desde a partida da Inglaterra, em 1831, desembarcaria do Beagle, pela primeira vez, exatamente em Salvador.  Da Baía de Todos os Santos, viu a velha cidade, com seus ancoradouros malcheirosos e ruas estreitas, igrejas caiadas e pórticos imponentes, cintilando em meio à mata luxuriante. Era temporada de carnaval. Darwin, que criaria a Teoria da Evolução, se aventurou pelas ruas festivas, para bater em retirada apressada sob uma chuva de bolas de cera cheias de água fétida e o borrifar de esguichos de lata, em meio a batuques, danças e cantos dos negros. No porto, assistiria um senhor de escravos perguntar a seus servidores se eram infelizes e desejavam ser libertados. “Não!”, clamaram.