ACM, DARWIN E O CARNAVAL

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ACM, DARWIN E O CARNAVAL


Abril. 1978. O regime militar encena sua abertura democrática, lenta, gradual e insegura. O repórter plantonista da Rádio Cruzeiro da Bahia chega ao trabalho. É designado para cobrir a chegada de Antonio Carlos Magalhães, indicado para um segundo mandato como governador da Bahia. No Aeroporto 2 de Julho, a claque montada para recepcioná-lo envolve centenas de estudantes, torcedores de clubes, pessoas da classe média e representantes de uma elite interessada e subserviente. Junto, chega Lomanto Júnior, indicado senador “biônico”, denominação aos não eleitos pelo voto popular, e índice de controle do Congresso.

Do lado de fora do aeroporto, o jovem repórter assiste a impressionante demonstração de poder. A longa fila de ternos e bem-vestidas a cumprimentar os dois políticos, em infindável “beija-mão”, é replicada, por Antônio Carlos, como se diria de um afago, com tapas nos rostos de todos os homens, e apalpadas nas bundas em todas as mulheres.
 
– O que a Bahia pode esperar do seu novo mandato, governador? Todo o peso discricionário pousa no abraço sobre o ombro do repórter-plantonista, e a resposta: “Vamos retomar nossos projetos pra uma nova era de progresso, de desenvolvimento, que ficará gravada para sempre na história do povo baiano”.
 
Anos depois, o plantonista da rádio exerceria funções de chefia e edição na redação do jornal fundado pelo governador. Acompanharia seus pisoteios sobre pés de prefeitos com discursos “indevidos”, segundo a cartilha da obediência cega a ACM. Seus ponta-pés em repórteres, tapas na cara de correligionários por meros atrasos em reuniões do grupo; idas à praia sem que estes mesmos correligionários ousassem entrar na água ou tirar os olhos salva-vidas do chefe.
 
Tais imagens se diluiriam anos mais tarde. Como assessor de Comunicação Social de dinâmica prefeita, este jornalista assistiria a gestos corteses de um senador interessado em manter seus territórios político-eleitorais, viabilizando as demandas e reivindicações intermediadas por seu neto e herdeiro político. Se não se pode dizer de ACM que fosse um folião, deve-se a ele, entre seus tantos feitos e desfeitas – ocupação econômica do Oeste do estado; realização do congresso de reconstrução da UNE; intensificação da política habitacional – a extensão do Carnaval de Salvador de três para cinco dias.
 
O naturalista Charles Darwin, muitos anos antes, desde a partida da Inglaterra, em 1831, desembarcaria do Beagle, pela primeira vez, exatamente em Salvador.  Da Baía de Todos os Santos, viu a velha cidade, com seus ancoradouros malcheirosos e ruas estreitas, igrejas caiadas e pórticos imponentes, cintilando em meio à mata luxuriante. Era temporada de carnaval. Darwin, que criaria a Teoria da Evolução, se aventurou pelas ruas festivas, para bater em retirada apressada sob uma chuva de bolas de cera cheias de água fétida e o borrifar de esguichos de lata, em meio a batuques, danças e cantos dos negros. No porto, assistiria um senhor de escravos perguntar a seus servidores se eram infelizes e desejavam ser libertados. “Não!”, clamaram.
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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. mauro
    out 16, 2012 @ 19:04:13

    Seria melhor se desse nomes!!

    Responder

  2. Zuggi Almeida
    out 17, 2012 @ 21:49:13

    Valeu Zé. Você conseguiu produzir uma pérola em meio ao lodaçal midiático.

    Responder

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