Admirável estado novo

 

Admirável estado novo, ou 
 
 
estou tergiversando?                   
Albenísio Fonseca

Ao cravar o conceito de “aldeia global” para o novo universo de comunicações que se instaurava no planeta, em meados da década de 60, o canadense Marshall McLuhan tinha como paradigma a televisão, então sendo integrada via satélite. A futurologia dele, somente agora se consolida no nosso dia a dia, com a simultaneidade multidirecional dos celulares, da Internet, e da televisão em modo interativo.
A aldeia sugerida por McLuhan sinalizava muito mais os “impactos sensoriais” dos meios de comunicação sobre as pessoas que o conteúdo ideológico neles embutido. Importava as novas tecnologias enquanto extensões do corpo, o mundo interligado por estreitas relações econômicas, políticas e sociais, fruto da evolução das tecnologias da informação e da comunicação, nas quais supunha meio e mensagem se identificando.
A globalização, convenhamos, é um dos ciclos de expansão e reprodução típicos do capitalismo, inclusive na dimensão excludente verificável nas populações à margem de todo esse processo, ainda que afetadas por ele, os não-contemporâneos desse mesmo momento histórico.
Na medida em que a reprodução ampliada do capital se intensifica e generaliza, o que põe em causa é exatamente a concepção de estado, bem entendido: fronteiras, códigos, constituições, moedas, estilos de gestão, soberania de um povo. Consideremos que o estado-nação, como o conhecemos, e considerando sua vulnerabilidade para com a ação das novas tecnologias da informação e da comunicação, tende a sofrer uma metamorfose de sociedade nacional em sociedade global.
Mais que metáfora, a noção de um estado supranacional é uma instância já expressa dessa sociedade global em formação. Seja na Matrix, dos irmãos Wachowski, ou no Leviatã, de Thomas Hobbes; também nas ficções, que se converteram nos principais paradigmas da sociedade pós-moderna, contida nos livros 1984, de George Orwell, criador do Big-brother e sua polícia do pensamento; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, com o condicionamento biológico e psicológico dos indivíduos; e Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, satirizando a violência dos sujeitos e do Estado.
O que está em jogo, portanto, é a própria noção de Estado, resultante de um processo histórico, produto do embate das forças sociais, da sociedade civil, no interior de um território, sem localização antropológica precisa, mas decorrente dos propósitos de soberania.
Muitas das prerrogativas tidas como do estado-nação estão, hoje, empunhadas nas decisões e atividades de empresas multinacionais e organizações multilaterais. Não há mais pré-requisito de nacionalidade, controle da tecnologia, à exceção do comprometimento ecológico, a estas empresas, se elas têm gama significativa de empregos a oferecer.
Como o singelo bater de asas de uma borboleta sobre o mar, em uma dada região, é capaz de gerar maremotos em outra parte da esplendorosa aldeia global, no fantástico (ou terrível) cotidiano em que transitamos, já vivemos sob este “efeito borboleta”. Para citar um exemplo recente, uma mera crise hipotecária de imóveis nos Estados Unidos é capaz de gerar  instabilidade nas economias mundo afora.
Em suma, a nova realidade do planeta nos leva de roldão, como surfistas numa mesma onda. Mas sob a sensação de que “alguma coisa está fora da ordem na nova ordem mundial” neste não-lugar de um estado desterritorializado.
Albenísio Fonseca, jornalista
albenísio@yahoo.com.

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