A face subversiva da capoeira

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Mestre Bimba, com Getúlio Vargas, em 1932. O estado
reconhece a Capoeira como esporte
“genuinamente” brasileiro

A face subversiva da capoeira
Albenísio Fonseca

Abre a roda. Da história. Deixa o berimbau ecoar. Ícone por excelência da baianidade, a capoeira é o tema do Carnaval 2008, em Salvador. Ritual , dança, luta, malabarismo desenvolvido pelos negros africanos escravizados no Brasil, a capoeira revela, nas gingas do seu microcosmo, formas de resistência aos opressores, transmissão da cultura, melhora da moral subjugada, e distingui-se de outras lutas marciais pela presença da música a dar ritmo aos movimentos.

O termo “capoeira” é atribuído à vegetação rasteira que circundava engenhos de açúcar – habitat primordial do trabalho escravo. Seu lugar na história é registrado desde os séculos XVIII e XIX. No Rio, Recife e Salvador. Mas existe uma face subversiva da capoeira, a proibida e duramente reprimida.
Início do século XIX. Rio de Janeiro. Capital do Império. “Maltas de capoeiras” são acusadas de provocar inquietação e pavor na elite carioca. São constantes episódios de confrontos com a polícia. Mesmo sem ser considerada crime, pesava sobre a prática dos capoeiras a acusação de perturbação da ordem pública e porte de armas.
Os pedidos de criminalização surgem a partir de 1870. A “civilização” elabora a necessidade de extirpar a “barbárie”, isto é, a capoeiragem. Mas seria com a  República, através do Código Penal de 1890,  que ela é proibida. O capítulo 402 do novo código, “Dos vadios e capoeiras”, já explicitava o alvo da pena.
Sob a Monarquia, muitos foram presos e deportados para Fernando de Noronha ou Mato Grosso. Outros, recrutados para o serviço militar e lançados ao genocídio da Guerra do Paraguai (1865-70). A repressão, contudo, tendia a animar a indisciplina fundamental do guerreiro, o questionamento da hierarquia, a insurgência contra o poder.
 Capaz de suportar a pressão da violência do Estado durante décadas, a capoeira sobreviveria ao pesado investimento em dispositivos para aniquilar sua prática, durante o século XIX. Contava com aliados subterrâneos, apoios ocultos, como as casas de zungus – empreendidas por africanos libertos, e que desestabilizavam as relações de dominação durante a escravidão – lugares de acolhida e passagem, pontos de fuga para quilombos rurais.

A trégua entre os capoeiras e o Estado viria na década de 1930, com sua institucionalização como esporte nacional no governo Getúlio Vargas.  Em 1932, os capoeiras começam a tornarem-se capoeiristas. Mestre Bimba funda a primeira academia de capoeira, em Salvador. Acrescenta movimentos de artes marciais, cria a capoeira Regional. Mestre Pastinha, em contraponto, prega a tradição da capoeira como jogo matreiro, de disfarce e ludibriação, estilo que denominaria Angola. A capoeira deixava de ser marginalizada, se espalha da Bahia para todos os estados brasileiros, e hoje, praticada em 100 países, dá a volta ao mundo. Em 2008, Salvador abrigará uma Bienal da Capoeira e a arte será tombada como patrimônio cultural brasileiro. Abre a roda. Deixa o berimbau ecoar.

Tema do Carnaval

A capoeira foi escolhida pelo público como tema para o Carnaval 2008, em votação através da internet. Obteve 56,3% dos votos de 96.531 internautas que acessaram a página  www.carnaval.salvador.ba.gov.br . Ficou à frente dos dois outros temas sugeridos – a Revolta dos Búzios (43,4%) e a Chegada da Corte Portuguesa no Brasil (0,2%).
 
Edital, Bienal e Tombamento
O Ministério da Cultura (Minc) lançou, dia 10 de outubro, em Salvador, o novo edital do programa Capoeira Viva, que distribuirá um total de R$1,2 milhão a projetos de todo o Brasil que tenham como vértice a mistura de luta, dança e rito trazida ao Brasil pelos negros escravos, no final do século XVIII.
Realizada no Palácio Rio Branco, a solenidade homenageou o mestre capoeirista mais antigo ainda vivo, João Pequeno. Ele completa 90 anos em 27 dezembro. O ministro interino Juca Ferreira anunciou ainda que Salvador sediará, em 2008, a Bienal Mundial da Capoeira, que se converterá, também, em palco da festa de tombamento da arte como patrimônio cultural brasileiro.
O Minc premiará projetos ligados à Capoeira em quatro linhas: ações sócio-educativas de mestres capoeiristas com foco na recuperação da auto-estima, que podem receber de R$8 mil a R$18 mil cada um; projetos inéditos de pesquisa e documentação sobre o desenvolvimento da capoeira no Brasil e exterior, no valor máximo de R$20 mil; apoio a acervos documentais, cujo aporte chegará até R$50 mil; projetos de utilização de mídias e suportes digitais, eletrônicos e audiovisuais, que podem receber até R$30 mil.

Segundo o presidente da Fundação Gregório Matos, Paulo Costa Lima, “este projeto faz parte do intento do Minc em transformar a capoeira como instrumento de políticas públicas”. O órgão coordenará o processo do edital. As inscrições estão abertas até 17 de dezembro. O resultado da seleção sai em fevereiro. O valor destinado nesta edição é 29% superior ao anterior, quando foram premiados 74 projetos.
 
Trechos de Lutas“Quando faziam uma qualquer marcha, que é um partido ir de encontro a outro para brigar, procedia-se sempre a um aviso à casa contrária, afim de que reunisse o bando. Na ocasião da ”pegada” (briga), era costume cantarem versos em uma toada sertaneja…
Manuel Preto foi um capoeira temível, chefe do bando de Santana. Os capoeiras que na ocasião da pegada fugiam por cobardia eram navalhados pelos próprios companheiros.
A notícia da saída de uma banda de música corre com rapidez de relâmpago entre os bandos de capoeiras. Desde logo, começam a reunir-se nas fortalezas à espera da hora em que devem tomar a frente do batalhão ou sociedade, e ali combinam o que devem fazer. Quase sempre a miuçalha é incumbida de levar as navalhas e mais armas…
Quando, por exemplo, a banda de música sai do centro da cidade, isto é, da terra dos guaiamus, e dirige-se para os lados da Lapa, ou Cidade Nova, os capoeiras que pertencem àqueles partidos acompanham o batalhão, prevenidos para o encontro com os nagoas, visto irem em terra alheia.
Estes já os esperam e, chegada a música ao local onde se acham, sai o carrapeta (pequeno, esperto e atrevido) de entre os companheiros com direção aos guaiamus e brada.
– É a Lapa !… é a Espada! Quando é daquela província.
– É a Senhora da Cadeira!… Quando é de Santana.
– É o Velho Carpinteiro… Quando é de São José. E assim por diante.
Então trava-se a luta.
…Houve festa na igreja de Santa Rita. Os nagoas “arrebentaram” por volta de uma hora da tarde naquele foco de guaiamus; estes os receberam na ponta da faca e destacando-se de entre eles Jorge, chefe da Marinha, agarrou um nagoa pelos cabelos e cravou-lhe por três vezes a faca no coração, deixando-o cair na calçada todo ensangüentado e de bruços”.(ABREU, Plácido de. Os capoeiras. Rio de Janeiro: Tip. da Escola Seraphim Alves de Brito, 1886. In: SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Op. cit.)

“Passava pouco das sete horas da noite de domingo, 8 de março de 1874, quando uma malta de capoeiras, composta de ‘crioulos, mulatos e brancos’ atravessava a rua da Lapa, vinda dos lados da Glória. Na frente da malta vinha o preto Oscar, escravo do Dr. Taylor, morador na Rua da Lapa 88… Entre outros se destacava no grupo o menor Isaías, escravo de Maria Taylor, filha do mesmo Dr. Taylor, copeiro, nascido na província do Rio, e Henrique, africano, com cerca de quarenta anos, cozinheiro…
A malta atravessou o largo da Lapa, onde ficou Isaías, na confeitaria do largo. Em seguida, o grupo atravessou a rua dos Barbonos, atual Evaristo da Veiga, subiu a rua da Ajuda, passou pelo largo da Carioca, e adentrou o território guaiamu, ao chegar à rua dos Ourives, em frente à igreja de Nossa Senhora do Bom Parto.
Uma malta contrária ali se colocara. Na esquina da rua São José, uma grande taverna seria palco do encontro. Em pouco tempo os dois grupos, tendo de uma lado as maltas da Marinha (região do cais Pharoux) e Santa Rita, e do outro a malta da Glória, se digladiavam, jogando cacos de garrafas uns nos outros. O conflito transbordou para a rua em frente, alarmando moradores e autoridades da área.
…Em minutos o som dos apitos era ouvido por toda a redondeza, mas tardou para surgir alguma autoridade policial. Quando começaram a aparecer policiais, os dois grupos se dispersaram. Enquanto a malta da Glória seguiu pela rua da Assembléia, os “partidos” de Santa Rita e Marinha foram em direção à rua dos Ourives, no sentido da Candelária.
Neste momento, um dos assistentes da cena da pancadaria, Nemésio Ferreira da Costa, da janela do Salão dos Acadêmicos, na rua São José, veio à rua para apitar, perseguindo um integrante do bando de Santa Rita, chamado Zeferino… Na esquina de Ourives com Assembléia, este desafiou o outro com o grito tradicional – entra! – e foi surpreendido com o gesto de prisão de Nemésio. De acordo com a testemunha, ele não resistiu a prisão.
Mas o desfecho do conflito já estava consumado. Oscar, chefe da malta da Glória, estava morto, vítima de uma perfuração no pulmão esquerdo. Quanto a Henrique, o africano de César Farani, acabou vítima de uma punhalada no estômago, dada pelo capoeira conhecido como Coruja, vendedor de pescados na praia do Peixe, reduto do lendário Manduca da Praia. Do lado dos guaiamus também houve baixas: ficou ferido no braço direito Raimundo, preto, escravo de…” (RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1987, p. 80. (Coleção Biblioteca Carioca v. 4). In: SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Op. cit.)

Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. MONIQUE
    nov 26, 2007 @ 19:38:24

    Olá Albenísio,
    Andei lendo seu post a respeito da capoeira.  Muito bom seu texto!
    Durante o final do meu curso de Jornalismo, produzir um vídeo-documentário sobre o Mestre Gigante, considerado por Mestre Bimba e Pastinha, o melhor tocador de berimbau da Bahia. Pois, não existe nenhum material publicado sobre o mesmo, nem mesmo na maior rede de informações do mundo, a internet. Se quiser alguma informação sobre Mestre Gigante entre em contato comigo.
    Recebi um convite para lançar este vídeo no Solar do Unhão, assim que eu organizar tudo, te convidarei para o evento.
    Ah! Passa no meu blog depois http://www.kamikasedoce.blogspot.com, aguardo seu comentário.
    Abraços,
    Obs: Sou amiga de Suzana Tavares
     

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