Pós-folia

 
 
Across the carnival

Albenísio Fonseca

Atravessando o carnaval. O título em inglês, permita, é uma paródia à música dos Beatles "Across the universe" que desde o dia 4 de fevereiro, numa estréia absoluta, vem sendo transmitida pela Nasa, como celebração aos 50 anos de sua fundação. Segundo a agência espacial americana, a transmissão é orientada na direção da estrela Polaris, a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra.  
Mas são os ecos da folia momesca que ainda atravessam a minha cabeça dura. O impactante documentário "Cordeiros" de Amaranta Cézar e Ana Rosa Marques, ao revelar trincheiras da luta pelo exíguo território das avenidas do carnaval, mostra o quanto a organização da festa envolve a divisão e a desigualdade na geografia urbana e na estrutura social de Salvador, em seu micro esplendor de sociedade do espetáculo. Urge que o documentário seja reexibido, inclusive pelos canais das TVs Câmara e Assembléia Legislativa, e  tendo os próprios parlamentares na audiência.
Através das imagens e vozes dos cordeiros, a corda torna-se um limite tênue, perturbador, por si só violento; um muro que explícita tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Mais que uma metáfora de navios negreiros, trios elétricos a singrar o Atlântico Sul dos circuitos de visibilidade do que se presumia, até então, apenas um grandioso festejo. O espetáculo submete a si os homens, depois que a economia já os arrasou completamente.
No mesmo universo, a iniciativa inteiramente legal da licitação de comercialização da festa, ganha pelo publicitário Nizan Guanaes pela soma de R$ 6 milhões, sabe-se agora, é válida por dois carnavais.
Em meio ao surto de consumo indevido com cartões corporativos por ministros do Governo Lula, outro fato estarrecedor, publicado no Diário Oficial da União de 20 de dezembro de 2007, na Seção 1, página 44: duas inexplicáveis doações do Ministério da Cultura à empresa Madeirada Produções e Eventos que somam R$ 2 milhões como patrocínio por seis shows da cantora Ivete Sangalo em vários estados do país, além de três apresentações, dela mesma, no trio-elétrico Corujas, no carnaval 2008.
Na página 89, outra doação: mais de R$ 400 mil, feita à mesma empresa, como patrocínio ao Bloco Cerveja & Cia para seu desfile pelo circuito Barra-Ondina.
Nada justifica tamanha discrepância. A mão-de-obra, negra e inculta – cerca de 80 mil “trabalhadores” – remunerada a R$ 10, duas garrafinhas de água mineral e dois pacotes de biscoito ao dia, para promover a segurança dos foliões – ricos, brancos, em esmagadora maioria, e o Minc a “carnavalizar” o dinheiro público.
 

Que universo é esse? Na canção de John Lennon a trafegar estrelas, o mantra repetido: “Nada vai mudar meu mundo” é bem sintomático. Por aqui, nada parece mudar o Brasil. Mas o carnaval baiano – como o país – precisa de um processo de organização que altere as graves distorções nas relações de trabalho que o perpassam. "Jai guru deva OM!". Ou melhor, valha-me meus orixás!
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Albenísio Fonseca é jornalista

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