Rebelião Malê

 

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A noite do poder

Albenísio Fonseca
 
Madrugada de 25 de janeiro de 1835. Denúncia dos libertos Domingos Fortunato e sua mulher, Guilhermina Rosa de Souza, mobiliza o aparato policial em Salvador. As autoridades tomaram conhecimento do plano, à noite, adotando de imediato medidas para a repressão. A rebelião dos escravos malês tendia a implantar um califado como regime de governo ao decidirem rebelarem-se na alvorada de 25 de janeiro de 1835. O movimento rebelde, contudo, e como todas as revoluções, acabara  traído, gerando o destroçamento dos revoltosos, surpreendidos pelas forças policiais do império em um casarão no Corredor da Vitória.
Alguns historiadores atribuem a data ao dia de Nossa Senhora da Guia, uma das comemorações de maior atrativo popular à época, quando uma multidão deslocava-se até o Bonfim (então um bairro rural). A cidade esvaziada seria presa fácil para a tomada de assalto. Outros realizaram a conversão do 25 de janeiro de 1835 da era Cristã para o calendário muçulmano, correspondendo ao final do mês do jejum do Ramadã, numa data inclusive muito próxima da festa do Lailat al-Qadr, expressão traduzida para os idiomas ocidentais ora como Noite da Glória, ora como Noite do Poder. A estratégia era um “folguedo” para matar todos os brancos.
Os cinco primeiros anos da década de 1830 na província foram marcados por distúrbios de rua, motins antilusos, saques, revoltas federalistas, quarteladas e revoltas escravas, em meio à crise econômica.
Com formação intelectual, ao contrário dos demais contingentes de escravos trazidos à Bahia, os malês liam e escreviam em árabe e dispunham de hierarquia social estruturada. O livro “Rebelião Escrava no Brasil” (Ed. Brasiliense), de João José Reis, é a maior referência de estudo sobre a rebelião. “Malês” seria um terno criado já na vivência em terras brasileiras e que designaria “aqueles que ensinam”.
Embora o islã não seja uma religião étnica – por se pretender universalizante – pode ter-se tornado exatamente isso no cenário histórico de janeiro de 1835. Pela devoção dos integrantes às escrituras sagradas do Alcorão, a rebelião dos malês é vista como uma “jihad”, uma guerra santa. Na Bahia, o islã estava identificado com certos grupos étnicos, como os nagôs e haussás. Segundo João José Reis, “os filhos de orixá reservaram um lugar especial para os filhos de Alá em sua mitologia”.
Grande parte da documentação dos malês foi destruída ou extraviada, até mesmo pela própria polícia da época que sequer sabia ler. Existem ainda, arquivadas, partes do Alcorão apreendidas em mãos dos revoltosos, e tabuletas que eram apenas exercícios de caligrafias.
Não há, no entanto, depoimento ou documento que sinalize o que significaria a tomada do poder sob uma hegemonia muçulmana. A herança da confluência de religião, política e festejo, contudo, esta ficou para sempre no espírito baiano. Se você veste branco às sextas-feiras; se você usa abadá no carnaval… tudo isso é herança malê.
 
Albenísio Fonseca – Jornalista
DRT-BA: 2834
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