Visibilidade Máxima

 
 
 
Visibilidade máxima
 
Albenísio Fonseca
 
Entre as palavras da hora, visibilidade e velocidade. Nos últimos 40 anos o mundo tornou-se mais visível e veloz. As transmissões em tempo real alteraram a noção de fronteira nacional, ampliaram a capacidade dos estádios para milhões e milhões de telespectadores à distância, e refazem a própria concepção de urbanização e automobilidade.
Até o século 19, as sociedades eram fundadas no freio. Muralhas, leis, normas, interdições. Havia poucos meios a estimular a velocidade. Os navios desenvolveram-se muito pouco entre a antiguidade e a era de Napoleão, por exemplo. Dispunha-se de cavalos e de pombos-correio. O grande avanço, em termos de sofisticação, vai acontecer com a invenção do telégrafo ótico. A Revolução Industrial, ou Revolução dos Transportes, é que vai determinar a passagem da idade do freio para a da velocidade. Primeiro com o motor a vapor. Depois, com o motor à explosão. Com o século 20, a aeronáutica, a cosmonáutica e a informática.
Hoje, a produção de visibilidade é realizada por um conjunto de setores que compõem o mercado: o sistema da moda, agências de publicidade, a mídia, a indústria solar, o trade turístico, a Internet, radares, satélites, emissoras de TV, transmissões incessantes de dados, impressos, a sedução operando o fascínio de corpos femininos em profusão, capas de revista, placas de sinalização. O uso de cores, técnicas de iluminação. Um “voyerismo” total atravessa as sociedades contemporâneas. Panóptico. Câmeras a nos perseguir com seu olhar de Big-Brother.
Tudo o que pode ser olhado a todo o momento. Visibilidade máxima, exposição incessante. Ser visto é mais humano que ver. Evidência total. O que deve ser visto imediatamente como novo fato ou série de fatos. Dados. Imagens. E quanto mais visto (consumido, em leitura ótica, se me entendem), mais controlado. Situações de mercado que tendem a expressar a ambiência mundial informatizada em que vivemos.
 Enquanto estivermos atentos (visualizando tudo) nada nos acontecerá. Sob o signo da telemática. Olhos de raio laser. Tudo o que é possível ver em minimalismos cibernéticos, na arte primitiva, no artesanato, na decoração, nas vitrines e, em velocidade, no outdoor, no transdoor, na placa luminosa.
A mercadoria visibilidade obedece também a uma produção de imagens incidentais. Descolagens. O que escapa ao pré-visto. Para quem espera ver pra crer, o olho do telescópio Humble procura por Deus no infinito. Escaneado. Vídeoclip: astronauta tomando coca-cola e discorrendo sobre o caráter interativo dos circuitos eletrônicos. Fibras óticas processando milhões de informações (imagens, sons, textos) em nanossegundos.  
A vida digitalizada. Fotoblogs. Cinema. Luz é mensagem em estado puro. O Sol inventa as cores. As noites iluminadas do planeta estendem os dias. Tudo isso alterando a inteligência, ou melhor, a inteligibilidade da retina. Prazer em ver. Em Re-v-eR, na mira.
Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor
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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Albenia Fonseca
    dez 18, 2010 @ 04:36:50

    Olá Albenísio,
    Penso que na integração desses circuitos operando imagens o homem está construindo a ponte entre o visível e o invisível, a matéria e o espírito. Parece que a imagem consiste na forma contemporânea de fazer magia. Acho até que dá prá clarificar a magia da imagem na transformação identificada por Einstein na conversão da matéria sob a forma de ponto ou onda. A matéria brincando com a limitação da nossa visão, das nossas crenças:
    – Oi Humano, o quê você está vendo é um ponto e é também uma onda?
    Título: Imagem – A Alucinação Visual-

    Responder

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