GERAÇÕES REBELDES

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GERAÇÕES REBELDES

A  DANAÇÃO  DA  NORMA

 Albenísio Fonseca

Um tema excessivo. O fenômeno da rebeldia tem-se manifestado em diversas modalidades no tempo e no espaço, nos diferentes estratos sociais, sempre muito bem dotados em imaginação e sensibilidade. Em todos os casos, essa rebeldia caracteriza a expressão de um choque de valores entre gerações, inserindo-se em cada período histórico como energias incertas, ambíguas e até mesmo neuróticas, dispostas a realizar a danação das normas ou a total transgressão das regras herdadas.

Contudo, e apesar de todo o caráter perverso, estamos sempre diante da mesma família, quer se trate de poetas vadios como Rimbaud e Essenine, dos jovens delinqüentes nutridos de anarquismo individualista participantes do grupo dos bandidos trágicos na Paris do começo do século 20, dos Stilyagi, da Rússia, dos Tasiozuku, do Japão, dos Teddy Boys, na Inglaterra, ou de tipos catalogados na França com a vaga denominação de existencialistas, e mesmo, em tom menor, dos adolescentes da primeira parte do livro Encontro Marcado de Fernando Sabino.

AURÉOLA DE MARTÍRIO

A este mundo heterogêneo, introvertido e agitado, frustrado e rebelde, o cinema nos forneceu o seu protótipo, o seu herói: James Byron Dean. A ele não faltaria, devido mesmo à sua morte prematura num acidente de carro, certa “auréola de martírio”. Poucas vezes houve um paralelismo tão grande entre o personagem da tela e o homem da vida real. Segundo o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, “James Dean era realmente vítima de uma insegurança obscura e profunda, de uma dilaceração entre o desejo e o medo de se comunicar. Ele protestava vestindo-se mal, não se barbeando, morando com um gato num canto do Actor´s Studio. Durante certo tempo – observa ainda Paulo Emílio – ele freqüentou um psicanalista, procurando encontrar solução para os seus problemas. Mas, se fundamentalmente a glória não resolveu nada, a colaboração de Dean, com colegas de estúdio como Elia Kazan e Nicholas Ray, serviu para oferecer ao mundo a imagem viva e documentária de um jovem rebelde sem causa pela qual lutar”. 

James Dean, em 1955, por Dennis Stock, USA. New York City.
             
De toda essa epopeia que gira em torno de James Dean (e o estilo “juventude transviada”) resta uma indagação: será tão ridículo a um jovem que não obteve resposta para suas perguntas e que morreu sem saber contra o que se rebelava, ser considerado um herói e um deus por outros jovens que ainda não encontraram uma razão digna de viver? Se, como propunha Marx, “nada do que é humano nos é estranho”, é certo que nada de cinematográfico nos deve ser indiferente. E James Dean saltara da tela para as ruas.

VERTIGEM BEAT

Entre o fenômeno comportamental e a prática artística não se pode dizer que haja uma fronteira, uma encruzilhada, mas uma vertigem. Principalmente se os protagonistas são oriundos da fascinante Geração Beat. A desesperada busca de divisão entre arte e vida, comportamento e (no caso deles) literatura, nos põe diante de uma falsa questão, de uma tentativa esquizofrênica de controle social inteiramente ultrapassada por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder e outros.

A grande acusação que pesa sobre todos eles é decorrente do fato de terem vivido intensamente. Principalmente por não só terem experimentado drogas, cruzado diversas vezes a fronteira da loucura, delirando de várias formas, tido diversos tipos de problemas com a polícia e suas vidas sexuais serem ricas e diversificadas, mas por terem falado abertamente de tudo isso, tanto em suas obras como fora delas. Um poeta como Baudelaire (autor de “As Flores do Mal”), nesse sentido, seria facilmente tornado um precursor de toda a perversão beat,
embora não se necessite sair dos Estados Unidos para encontrar as influências literárias (e comportamentais) destes. Passante desocupado pelas ruas de Paris, apaixonado por uma prostituta e fascinado por lésbicas, Baudelaire, tradutor e divulgador de Edgar Allan Poe, na França, costumava relatar suas experiências com o haxixe.

DROGAS E POLÍTICA 

A questão do uso de drogas, no entanto, parece ter ganho sensatez no âmbito da própria “Beat Generation”, com o depoimento de Gary Snyder (autor de uma nota sobre as tendências religiosas dos beats), fazendo a advertência de que “embora uma boa dose de introvisão pessoal possa ser obtida pelo uso inteligente de drogas, estar doido o tempo todo não leva a nada, porque limita o entendimento, a compaixão e a vontade; e o barato pessoal da droga não tem nenhuma utilidade para outras pessoas”.

Em uma entrevista radiofônica de 1960, a propósito de sua expulsão  de Havana, Allen Ginsberg diz achar que “a
marijuana é um instrumento político. É um estimulante catalítico para toda consciência ligeiramente ampliada”, e, lembrando o oficial cubano encarregado da sua expulsão, “não pode haver exército se todo mundo estiver pirado”, sugerindo que “o negócio seria fornecer mescalina ao Kremlin e à Casa Branca, trancar os mandatários pelados num estúdio de televisão durante um mês e obriga-los a ficar falando em público até descobrirem o significado dos seus atos”. E sustenta: “É assim que a televisão poderia ser adaptada ao uso humano”.
O certo, contudo, é que a discussão em torno das drogas (antes, como agora) apenas tem desviado o assunto de algumas questões políticas fundamentais. 

COQUETEL DE TALENTOS

A meteórica vida de James Dean e a trajetória beat parecem algo saído das entranhas bélicas do pós-guerra. Ainda com base em relatos de Ginsberg, podemos constatar o lastro literário que sustenta as posições e existência beat. Senão vejamos os detalhes de como este (Allen Ginsberg) e Jack Kerouac conheceram William Burroughs: “Fizemos uma visita formal a Bill e eu lembro que tinha um exemplar de “A Vision de Yeats…”. Shakespeare; “O Castelo”, de Kafka; “Ciência e Sanidade”, de Korzibski; “A Decadência do Ocidente”, de Splenger; Willian Blake, Rimbaud, “Ópio”, de Cocteau. Assim, estes eram os livros que ele estava lendo e que eu ainda não havia lido. E ele me emprestou esses livros”.

No entanto, Octávio Paz, em “Solo a Dos Voces”, sustenta que “embora vários dos poetas beat tenham talento, nenhum deles inaugura uma nova tradição. Suas obras não são uma ruptura nem um começo, como foram a seu tempo as de Pound, Cummings,  Eliot. Os beats não mudaram a linguagem nem a poesia, mas continuaram uma tradição”. Segundo Reinaldo Moraes (tradutor de algumas obras desses autores), “a literatura beat é um coquetel de todas as drogas, entre as quais a vida é a mais perigosa e pirante”.

DO HIPPIE AO PUNK

O superávit financeiro norte-americano e a presença deste país na Guerra do Vietnã fariam emergir em meados da década de 60 (após a emergência de outros movimentos, como o psicodélico dos beatniks), em simultaneidade com os avanços harmônicos do rock – vide Beatles, Rolling Stones e toda a parafernália Pop – uma nova geração rebelde, a dos hippies. “Paz e Amor” eram suas palavras de luta, seus cavalos-de-batalha.

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A felicidade hippie duraria mais que uma overdose

Entre suas propostas/experimentos, estavam a vida em comunidades, a alimentação natural e a família aberta, ou melhor, o amor livre. A “contracultura” constituía o cabedal teórico de postulações contra as normas e saberes impostos pela sociedade tecnológica, em que convergiam toda a massa fabulosa de novas e velhas idéias (o computador, os transplantes, a tecnologia espacial) e um
insólito retorno à Astrologia, ao ocultismo, à cabala, às artes divinatórias, à bruxaria, ao demonismo, em suma, a velhos cultos pagãos e às religiões orientais.

Hoje, passados 40 anos do auge do movimento, as roupas coloridas se transformaram em vestes indianas (uma das terras sagradas do hippismo), que se compram em boutiques, ou como os demais adornos, em lojas e feiras. É como se toda a agressividade se tivesse estabilizado, decantado.

Os punks, por sua vez, têm até um nome para o personagem que prolonga os restos mortais do movimento hippie: hippie velho. Costumam escrever em suas camisetas: Never trust a hippie, que equivale a “nunca acredite em um hippie”. A um tempo coagindo e fazendo o cerco – como estipula a antropóloga Janice Caiafa, em sua tese de mestrado – os punks parecem haver recuado para o núcleo negro e resistente, expondo-se menos às contaminações de outras correntes, como os heavy.

No subúrbio de São Paulo, onde Janice empreendeu a sua investida de campo, “heavies e punks se cruzam frequentemente e costuma haver a maior treta. Os heavies, para marcar a diferença, têm um visual parecido com o dos punks, usam o negro e o couro, mas usam também muito jeans desbotado (característico do hippismo). Os heavies mantêm os cabelos bem compridos, braceletes bem maiores que os dos punks e os pinos não são pontiagudos, mas tachas achatadas”.

AVESSOS À VIRTUOSE

Mais que a indumentária, é a música que diferencia melhor as suas posturas. Enquanto as bandas heavy-metal têm muito forte a questão da boa execução, do instrumento bem tocado, com uma mítica de histórias de terror, demônios, sangue e muita fantasia, os punks são explicitamente contra isso em prol da “realidade”. Para os punks não é preciso nenhum background, se se quer tocar uma guitarra é só pegar e tocar. A música vira algo que pode ser feito a qualquer momento, se se decidir assim. Não é mais fruto do trabalho árduo, exigindo uma história de acúmulo de conhecimentos ou “antecedentes culturais” que, aliás, nenhum punk tem. Nenhum virtuosismo é desejado ou apreciado, o que vale é a intensidade do momento.

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Os punks nos trouxeram de volta à realidade?

Existem ainda, principalmente a partir da década dos 80, os skinhead, movimento que se aproxima do punk pelo som, pela dança e procedência social. Mas estes raspam a cabeça, usam visual pesado com couro e adereços militares, sendo ligados a movimentos neofascistas. Esse pessoal, todavia, mais visíveis na Europa, tem presença, também, no Brasil. Desde os beats, a música parece ser um grande pivô detonador destes rasgos sociais, destas atitudes de irreverência. Os beats estavam para o jazz como o rock-and-roll esteve para a juventude transviada, como o pop-rock para os hippies e o punck-rock para os punks.

O sistema (as estruturas sociais organizadas) passa a promover a rebeldia como um fetiche, como acessórios nas promoções de marketing. A moda dá o tom e o molde
dos novos comportamentos. Daí emergem o “new wave” (a nova onda, a beleza, o espírito jovial e descontraído), o “yuppie” (a juventude sofisticada, freqüentadora dos melhores restaurantes e magazines), o “noir” (caracteriza o romântico, suave) e se contrapõe ao “dark” (fãs do líder do grupo Joy Division, Ian Curtis, que se suicidou no início dos anos 80) que é caracterizado pela frieza e morbidez dominada por um romantismo tétrico. Os “clean” são constituídos pela juventude asséptica, todo mundo muito limpinho e arrumado. 

Zélia Gattai no Jardim de Inverno

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  A escritora Zélia Gattai (1916-2008)


As Memórias tchecas

de Zélia Gattai

Albenísio Fonseca

É uma atividade soberba, essa desempenhada por Zélia Gattai. Enquanto Jorge Amado cria ficções ela reproduz o real, a trajetória da vida atribulada de ambos. E, se por um lapso do jornalista que a entreviste não houver referência ao livro de fotografias “Reportagem Incompleta” (editado pela Corrupio), citando apenas “Anarquistas, Graças a Deus”, “Um Chapéu para Viagem” e “Senhora Dona do Baile”, todos editados pela Record, ela faz questão de corrigir, principalmente pelo caráter afetivo que envolve as fotografias feitas por ela mesma em diversas partes do mundo por onde estiveram e pelo fato de que cada uma dessas fotos tem uma história e ela as conta.

Após toda a expectativa gerada desde que lançou seu último livro de memórias, “Senhora Dona do Baile”, Zélia Gattai, lança agora, em 1988, o seu quinto livro. Esta senhora dona de uma memória privilegiada tem extrapolado em seus livros o meramente pessoal, para narrar toda a conjuntura política brasileira e mundial, após terem sido expulsos da França, em razão da perseguição oficial brasileira no final dos anos 40. Na entrevista que nos concedeu, ela conta muitos dos episódios que traz, em detalhes, neste seu novo livro: “Jardim de Inverno”.

Zélia, após “Anarquista Graças a Deus”, “Um chapéu para Viagem” e “Senhora Dona do Baile”, você está lançando agora o seu quarto livro, “Jardim de Inverno”…

Zélia Gattai – E no meio deles o “Reportagem Incompleta” que eu considero um livro de memórias porque é um livro de fotografias que eu tirei de Jorge durante quase 40 anos em quase toda parte do mundo e sobre cada uma eu conto uma história. Esse é um livro de memória falada e visual. É o lado fotográfico da memória.

(Sorri e vai folheando o livro). É o lado fotográfico e com texto meu de introdução e as histórias. Então, quero que ele seja também inserido.

Ok. Mas, por que “Jardim de Inverno”?

ZG – Porque o castelo em que nós morávamos- esse livro se passa na Tchecoslováquia- após termos saído da França, expulsos, e nosso segundo exílio foi a Tchecoslováquia. Lá nos deram para residência um castelo que pertencia a um príncipe e que, então, pertencia à União de Escritores Tchecos para os que quisessem passar férias, fins de semana, e nós, como exilados, tivemos lá residência fixa.

Por que vocês foram expulsos da França?

ZG – Era o tempo da “guerra fria”, do Maccartismo, e Jorge era membro do  bureau do Conselho da Paz, na França, e falar de paz naquela época assustava, diziam que era coisa dos russos. A guerra fria gerava isso. E aí, sem mais nem menos nos tiraram o visto de permanência.

Isso acontece exatamente quando?

ZG – Em 1949. Tanto é que no final do meu livro “Senhora Dona do Baile” eu conto todos os detalhes desta fase. E aqui está uma das personagens do meu livro, a Misette, que é francesa e já nos acompanha há muitos anos. Mas, para se ter uma idéia de como a situação estava acirrada, nós viajamos e quando ela foi pedir o visto de entrada para os tchecos, estes também não concediam visto aos franceses. Até que nós conseguimos que liberassem, mas só por um mês.
Era um clima pesadíssimo, era muito difícil viver na Europa naquele tempo. E aí, em “Senhora Dona do Baile” eu termino viajando, quando nós estávamos partindo para a Tchecoslováquia. Neste, eu começo com Jorge sendo condecorado pelo presidente Mitterrand com o mais alto grau da Legião de Honra que é o grau de comendador, em 1984. Começo com a cena de entrega do prêmio que reabilitava a França por ter feito uma coisa daquelas com ele.

E sobre o castelo?

ZG – O Castelo de Dobris (emite a pronúncia em tcheco) era muito bonito. Nele havia bosques, florestas, lagos, jardim. O jardim dele era uma miniatura do jardim de Versalhes. Era todo um requinte nas louças de porcelana, nos brazões dos príncipes. Os príncipes, quando viram as tropas vermelhas se aproximando, aí eles se picaram (diz sorrindo). Foram embora para a França sem querer conversa, e, após a guerra, o governo entregou o castelo para os escritores e está lá até hoje. João Jorge, meu filho, esteve lá no ano passado e foi visitar o castelo.

Mas a situação, sabemos, não era nada fácil.

ZG – Isso, o que eu queria dizer é que nós vivemos lá nesse castelo todas essas maravilhas, mas num regime muito difícil, de racionamento, cada um tendo direito a 50 gramas de carne. Tudo era na base do tíquete: tíquete para açúcar, tíquete de farinha, tíquete para obter qualquer coisa. E olhe lá, quando tinha. Não havia frutas, não havia coisa nenhuma. E eu com uma criança pequena no colo, o João Jorge, pois quando saí do Brasil ele estava com apenas quatro meses. Era tudo muito difícil, mas nós nunca nos lamentamos, achávamos que era assim mesmo, que o país estava sofrendo uma transformação para o socialismo, éramos solidários.

Mas aconteceram muitas coisas nessa época, coisas terríveis, porque era o período do stalinismo. Politicamente começamos a ver coisas que não estávamos de acordo.

Por exemplo…

ZG – Foram presas milhares de pessoas. Dessas, muitas foram executadas e outras sofreram processos. Entre os nossos amigos que foram presos estava o
Arthur London, que só não foi morto porque tinha um cunhado que pertencia ao comitê central do partido francês. Mesmo assim pegou pena de prisão perpétua até que foi proclamada a inocência dele, sendo então reabilitado. Ele e muitos outros que já estavam mortos.

Quer dizer, nós assistimos a tudo isso, eu e o Jorge. Sofrendo como cães, sem acreditar que ele fosse culpado. Era um homem íntegro, que havia militado a vida inteira no partido, que havia feito a guerra na Espanha, sendo acusado de traição em favor dos americanos. Ele escreveu um livro, “A Confissão”, depois adaptado para o cinema e muito bem interpretado pelo Yves Montand e pela Simone Signoret. Nós não acreditávamos que ele fosse culpado, mas também não tínhamos coragem de acusar o governo porque achávamos que era o governo certo. E tudo isso eu conto no livro com todos os lances, todas as dúvidas e todas as contradições que havia. Mas nem por isso deixa de ser um livro alegre.

Agora, quanto ao trabalho da escritora Zélia Gattai, essa escritora das memórias, de transcender o meramente pessoal, demonstrando a conjuntura da época. Como é que é  fazer isso?

ZG – As minhas coisas são muito diretas e muito francas. eu nunca tomei nota de nada, mais vivi intensamente. E essas coisas que vivi, que eu conto, não precisavam ter sido anotadas porque me marcaram profundamente. E quando começo a escrever me desligo do presente e volto a dar gargalhadas. Eu chego a ver as cores, um detalhe assim que havia descoberto. Tudo volta. Eu revivo todo o passado, então tudo o que está no livro é escrito com essa presença. Tranqüilamente a coisa flui. Mas conto não apenas sobre a nossa vida na Tchecoslováquia quanto da nossa ida à União Soviética, onde Jorge foi para receber o Prêmio Internacional da Paz Stálin…

Ele recebeu o prêmio pelo livro “O mundo da Paz”, livro, aliás, de que ele não gosta, não é mesmo?

ZG – Não, claro que ele não gosta. Mas o prêmio não foi pelo “Mundo da Paz”, mas pelo conjunto de obra. Esse livro “O Mundo da Paz” foi apreendido aqui no Brasil e gerou a abertura de um processo contra ele que foi encerrado por um juiz que considero um sábio e que pronunciou assim a sua sentença:

“Esse livro não é nem subversivo, nem perigoso, apenas um livro sectário”.
Quer dizer, Jorge quando escreveu o fez com toda a sinceridade dele, era o que ele pensava. Hoje a gente vê que naquele tempo ele era sectário. Mas foi uma lição muito grande, uma experiência enorme da vida. Aprendemos que o sectarismo, de ver as coisas só por um lado, não interessa.

Tudo isso é fruto do período do Jorge Amado, constituinte de 46?

ZG – É. Com o fim da guerra veio a legalidade e, em 46, Jorge foi parlamentar, um dos constituintes de 46, Jorge e os companheiros de chapa. Mas, depois, o sectarismo era tão grande, e eu não sei de quem era a culpa, acho que, às vezes, quando a gente se sente um pouco livre esquece o passado e isso é uma coisa muito perigosa, a gente deve ter táticas em política, então o negócio foi todo por água abaixo. O partido voltou à ilegalidade e os parlamentares foram todos expulsos da Câmara e começaram as perseguições. É ai que a gente tem que ir embora para a Europa. Minha casa foi invadida pela polícia, fizeram misérias na minha casa. Pessoas eram presas por ter livros de Jorge e nós não tínhamos mais condições de ficar no Brasil. Ficar escondido feito bicho? Não, tínhamos que sair e continuar trabalhando. Então, nesse livro eu conto todos os detalhes. No Castelo de Dobris ele escreveu o “Subterrâneos da Liberdade”, livro que refletia toda a vida partidária dele, um livro enorme, verdadeiro. Você vê que até hoje resiste. E ele nunca quis modificar um palavra sequer.

Mas você dizia das outras viagens narradas no  livro?

ZG – Nós estivemos na China, estivemos na Mongólia.

Dizem que vocês foram os primeiros brasileiros a ir até a Mongólia, é verdade?

ZG – Sim, sim. Foi uma experiência maravilhosa.

Mas, e a China?

ZG – Em 1952, nós fomos pela primeira vez à China. Quando Jorge foi receber o Prêmio Stálin em Moscou, nós viajamos de lá para a China a convite dos
escritores chineses. Foi uma viagem maravilhosa, era o começo do regime socialista, estava apenas engatinhando, ainda, e para a gente era tudo novidade. Nessa viagem, inclusive, fizemos bons amigos chineses. Já a segunda vez que fomos à China foi em 57, viajamos com Pablo Neruda e a mulher dele…

era a Matilde nesse tempo?

ZG – Sim, a Matilde. E atravessamos a Índia, a Birmânia, entramos pelo sudoeste da China, enfim, fizemos uma viagem de vários dias num navio chinês.

E a terceira vez que vocês voltaram à China, já depois da “Revolução Cultural”?

ZG – Com a Revolução Cultural nós não voltamos mais à China. Sabíamos que muitos dos nossos amigos estavam presos, que havia muitas perseguições e muita miséria por lá. Só voltamos agora e encontramos apenas dois dos nossos amigos ainda vivos. Lembro que durante a segunda viagem haviam o aniversário do Neruda e a mulher dele sugeriu que fizéssemos um frango assado, inteiro, como surpresa, pois lá tudo que se come é cortadinho. Mas aí nos negaram o forno sob a alegação de que como o Mao Tse-Tung não comemorava aniversário eles também não o faziam. Então ninguém podia festejar. Mas aí eu argumentei que queríamos apenas comer o frango assado e não comemorar aniversário. Eles ficaram na maior alegria e permitiram.

Mas Zélia, por que você demorou tanto para começar a escrever?

ZG – (Sorrindo). Não acho que demorei não. É que quem escreve memórias precisa ter as memórias. Precisa ter atingido um certo nível, uma certa maturidade, entender as pessoas, ser generosa, não ter maldade (não é maldade
que digo, mas quando a gente é mais jovem não perdoa fácil). Se eu tivesse escrito esses livros há 10 ou 15 anos eles seriam muito diferentes. Também tudo na minha vida acontece, nada é programado.

Zélia, pra finalizar, já existe plano para um outro livro?

ZG – Não, não. Quando eu escrevo um livro é como se tivesse parido uma criança, então entro em resguardo absoluto (risos).

Maio 68 – O calendário em chamas

A imagem “https://i0.wp.com/www.dhnet.org.br/desejos/images/paris68.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Estudantes franceses enfrentam a polícia, em maio de 68


Maio de 68
 
O calendário em chamas

Albenísio Fonseca

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Automóveis revirados serviram de barricada

Fragmentos de utopia e racionalidade, delírios mirabolantes e o desejo em pleno fulgor, constituíram-se no principal combustível impulsionador de reivindicações em maio de 68. Na Europa, nos Estados Unidos, na China e também na América Latina, 1968 é um ano sobre o qual se pode afirmar que o calendário foi posto em chamas, tamanha foram as convulsões sociais  ocorridas no mundo.

É o ano da última apresentação do programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, e início do “Divino Maravilhoso”, apresentado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Marca o início da guerrilha no Brasil e da decretação do AI-5. Do assassinato de Martin Luther King e do vôo pioneiro da nave Apolo 7 em torno da Lua com três astronautas a bordo. Da invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia. Do início da ofensiva final do Vietnã do Norte contra as forças norte-americanas e sul-vietnamitas. Da prisão de 1.200 estudantes durante o clandestino 30º Congresso da UNE em Ibiúna (SP).

Acontecem, ainda, a estréia no Brasil do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, e o lançamento do álbum branco dos Beatles. Mas é Paris o centro nervoso dos principais acontecimentos. Se 10 mil estudantes participam do protesto contra o fechamento da Sorbonne, no dia 6, no dia 10 cerca de 20 mil enfrentam a polícia na denominada “Noite das Barricadas”, resultando em 367 feridos e 468 presos. A CGT francesa (que reunia à época 10 milhões de trabalhadores) realiza greve de 24 horas em solidariedade aos estudantes.

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No dia 13, todas as universidades francesas são ocupadas pelos alunos. Três dias depois, uma greve surpresa deixa Paris sem jornais. O Festival de Cannes tem sua principal sala de exibição invadida por profissionais de cinema e é suspenso.

Dia 20, Paris amanhece sem serviços de metrô, ônibus, táxi, telefones,correios, pão e jornais. Seis milhões de trabalhadores ocupam 300 fábricas em toda a França. Inúmeros confrontos são verificados entre estudantes e a polícia.

Dia 30, De Gaulle dissolve o Parlamento francês com apoio do Exército e convoca eleições gerais. “O conteúdo teórico do que vivemos hoje foi desenvolvido naquele período. 68 é o auge da evidência do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade”, salientava nessa entrevista concedida em 1988, o professor de Filosofia Ubirajara Rebouças (1937-2001), presente em Paris, à época.

Para caracterizar aquilo que foi Maio de 68 e essa sua sobrevivência, vale repetir três frases muito representativas da utopia do período e que, grafitadas nos muros, circularam o mundo inteiro estampadas em jornais (principalmente “alternativos”), pôsteres e camisetas. Diziam: “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”, “A imaginação no poder” e, “É proibido proibir”. 1968, sob vários aspectos, é o começo do fim. Do sonho. Re-leia a entrevista:

Albenísio Fonseca – Professor Ubirajara Rebouças, o senhor estava na França em 1968 e pôde acompanhar de perto todas aquelas manifestações ocorridas, durante o mês de maio. Aliás, o maio de 68 começou mesmo a ocorrer em março quando os estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre, na periferia de Paris. Mas o que de fato determinou toda aquela situação, o que gerou o maio de 68?

Ubirajara Rebouças – Bom, devemos distinguir dois tipos de fatores antecedentes. Um, de imediato, que diz respeito à situação concreta da França, particularmente a situação da universidade francesa que era extremamente conservadora no que tange à relação entre docentes e estudantes, posição do professor na sociedade, crise ideológica, perda de legitimidade da instituição universitária justamente por ser conservadora, por estar muito aquém do desenvolvimento da vida social.

Naquela altura, na França, se travava intensa discussão de caráter político-ideológico, sobretudo no meio universitário, sobre democracia, sobre democratização da Universidade. Reivindicava-se ampliação do número de vagas e de construção de novas universidades, isso de um lado como causa imediata. Mas como fator de longo alcance, o que afetava o mundo e o que está na origem do movimento de 68 era a crise da cultura contemporânea que ocorria não só na França, mas em toda a Europa Ocidental, nos Estados Unidos, na Ásia (a China naquela época vivia a sua Revolução Cultural).

Havia, então, um movimento de crise da cultura e de crítica da cultura – foi o auge do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – e sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, do pensamento que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade e que, no ano de 68, chegou a uma espécie de maturação, não só entre os estudantes, mas em todos os que militaram naquela época, acreditando na possibilidade de materializar essa utopia. Essa aspiração utópica é muito marcante e fundamental para entender o maio de 68.

AF – E quais eram os principais ideólogos dessa utopia naquele momento?

UR
 – Em 1965, Marcuse tinha escrito um livro que foi lançado na França em 67, chamado “O Fim da Utopia”. Mas, apesar do título, propunha, ao contrário, uma luta pela realização da utopia. O pensamento de Marcuse até essa época era muito marcado pela experiência da transformação. Ele tinha certeza que era possível transformar o mundo, não transformar da maneira tradicional, que os marxistas esperavam, mediante a militância exclusivamente operária, mas recorrendo às energias revolucionárias de uma outra parte da população que envolvia operários, estudantes e técnicos, sobretudo.

AF – O que significa maio de 68, hoje?

UR – Hoje, nós temos que constatar o fracasso das expectativas que tivemos em maio de 68, isso é fundamental. As expectativas, a utopia de maio de 68 não se realizou, talvez pelo seu caráter utópico mesmo, no sentido de que sendo utópico é irrealizável, isto o balanço negativo. No balanço positivo temos o fato de que, no mundo contemporâneo, nós incorporamos, somos os herdeiros de algumas das esperanças que surgiram em 68. O conjunto das relações sociais, ou pelo menos, senão de todas as relações sociais, das relações humanas entre certas camadas da população, foi afetada ou está marcado pela luta de 68.

Acho que conseguimos eliminar ou pelo menos reduzir nas nossas vidas o peso de certos preconceitos, certos tabus, em grande parte devido à Revolução de 68. E digo “revolução”, apesar de que não se materializou, não transformou o mundo na medida em que pretendia, mas acho que transformou em outra medida, no plano das formas de vida, sobretudo nos moldes de vida eu acho que 68 ainda está muito presente.

Por isso mesmo há esse interesse muito grande por reencarar o que foi maio de 68. Para caracterizar aquilo que foi maio de 68 e essa sua sobrevivência, talvez devamos repetir aqui duas frases que circularam muito naquele período pelo mundo inteiro. Uma delas a que dizia: “É proibido proibir” e outra “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”. Duas frases muito representativas da utopia de 68.

AF – Esse caráter libertário que essas frases explicitam não constituiria, na realidade, uma leitura existencialista do marxismo?

UR – Em parte. Talvez mais uma leitura utópica do marxismo, aquela leitura feita por Marcuse. Acho também que há uma influência do existencialismo, mas não tão grande, é mais uma versão marxista libertária, aquela representada por Marcuse e por alguns outros como o próprio Daniel Cohn-Bendit, que era mais militante, mas que era alguém que dispunha de uma capacidade teórica muito grande, e alguns outros, que tiveram importância decisiva para a eclosão do movimento na França, como Henri Lefvbre, marxista também, mas que fazia uma crítica ao marxismo ortodoxo apontando para uma outra direção.

AF – Em 68 ocorre a publicação, inclusive no Brasil, de muitos teóricos marxista, o Luckácz, Louis Althusser, Pierre Bordieu…

UR – É verdade, mas há aí um fenômeno interessante. O Althusser, em 68 cai muito. Ele que havia realizado uma releitura de Marx teve muita evidência de 64 até o início de 68. Mas os pensadores que mais tiveram influência em 68 foram Lefvebre, Marcuse e Guy Debord (autor de “A Sociedade do Espetáculo”). O existencialismo, nessa época, já tinha perdido um pouco sua influência na sociedade francesa. Outro pensador que teve influência em 68 foi Sartre, mas, paradoxalmente, uma influência enquanto militante. Mas já não tinha compromisso com o existencialismo e recusava até o termo de existencialista e se considerava um marxista.

AF – Sei, mas havia também uma grande efervescência do estruturalismo, da lingüística, da semiologia, da antropologia, da antipsiquiatria como  verdadeiros “pratos-do-dia” das leituras acadêmicas, não é mesmo?

UR 
– Exato. Do ponto de vista teórico ocorria de fato uma revolução. Era a época do pensamento libertário. Agora havia algumas questões que se chocavam muito. O estruturalismo, por exemplo, era visto até como um pensamento muito formalista, conservador. O certo é que o conteúdo teórico de que nós vivemos hoje foi desenvolvido ali naquela época.

AF – É um período de rompimento com a noção clássica de humanismo, contra a metafísica enquanto medida do homem, propondo uma visão mais ideológica da realidade e que passou à história como um “anti-humanismo”. O que é esse anti-humanismo?

UR – Olha, o termo é até ambíguo porque, de um lado, havia uma crítica do humanismo abstrato, que é uma crítica que tinha começado com o Marx. Um certo humanismo, então, foi criticado desde o século passado e essa  tradição de crítica ao humanismo permaneceu.

Porém, quem fazia crítica ao humanismo abstrato eram aqueles que queriam reivindicar ou construir o humanismo concreto, o marxismo e o existencialismo, foram essas duas correntes filosóficas que reivindicavam um novo humanismo, tanto que Sartre escreveu um livro chamado “O Existencialismo e o Humanismo”. Mas que humanismo era esse, senão, em certo sentido, um anti-humanismo abstrato. Já a corrente estruturalista é anti-humanista em outro sentido, muito particular, em que a noção de homem e de sujeito (o homem enquanto sujeito da história) no estruturalismo perde importância e quase que desaparece em proveito da noção de estrutura. Foucault, por exemplo, no livro “As Palavras e as Coisas”, diz claramente que o estudo da história é o estudo das estruturas discursivas. É o discurso do sujeito que não é sujeito nenhum. Nesse sentido é um anti-humanismo.

AF – Qual é a condição do sujeito hoje, ele teria sofrido uma derrocada, digamos assim, e passa a constituir-se em indivíduo, nessa atomização de indivíduos como vemos hoje?

UR – Eu acho que essa atomização já vem de bem antes. Agora, o que me parece ocorre de fato (e 68 é o sintoma à mostra) é uma crise do sujeito. O desenvolvimento das sociedades capitalistas, mas não só destas, como das sociedades em transição como o Brasil e o México, tem levado ao fragmentário com a tendência da pessoa desaparecer e ocasionando o ressurgimento da figura do indivíduo. De 68 para cá temos assistido a um revigoramento da Psicanálise que é uma prática que pretende recuperar o sujeito em nível individual, de uma relação terapêutica individual. A Psicanálise seria a grande herdeira, de um lado, do estruturalismo, e de outro, de um certo humanismo, o que afirma como prioritário a realização do desejo.

AF – Questões como a diferença (afinal, não só se formulou um pensamento diferente quanto uma nova forma de pensar a diferença) e a verdade (que deixou de ser absoluta para ser individualizada) são marcantes a partir de 68, não é mesmo?

UR – A questão da verdade, da crítica à concepção de verdade é uma coisa que vem de bem antes. A crítica à verdade absoluta é feita desde a origem da Filosofia, é um tema central na história da Filosofia, entre a verdade absoluta e a verdade relativa. Em maio de 68 essa questão passou em nível da prática, na tentativa de realização prática: cada um tem a sua verdade. Agora, quanto à questão da diferença, de afirmar a diferença, também é uma questão de alguns anos antes de 68, mas que em 68 é colocada como central.

AF – Havia, ainda, a questão da diferença…

UR – Sim, Jacques Derrida, que é um filósofo também muito importante naquele período, foi alguém que vinha desde fins da década de 50 trabalhando sobre a noção de diferença. Escreveu, inclusive, o livro “A Escritura e a Diferença” e todo o grupo ligado a ele, principalmente Deleuze e Guattari vieram a aplicar essa noção na antipsiquiatria. É com eles que os chamados loucos, psicóticos, passam a ter reconhecida uma forma possível de vida humana.