Zélia Gattai no Jardim de Inverno

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  A escritora Zélia Gattai (1916-2008)


As Memórias tchecas

de Zélia Gattai

Albenísio Fonseca

É uma atividade soberba, essa desempenhada por Zélia Gattai. Enquanto Jorge Amado cria ficções ela reproduz o real, a trajetória da vida atribulada de ambos. E, se por um lapso do jornalista que a entreviste não houver referência ao livro de fotografias “Reportagem Incompleta” (editado pela Corrupio), citando apenas “Anarquistas, Graças a Deus”, “Um Chapéu para Viagem” e “Senhora Dona do Baile”, todos editados pela Record, ela faz questão de corrigir, principalmente pelo caráter afetivo que envolve as fotografias feitas por ela mesma em diversas partes do mundo por onde estiveram e pelo fato de que cada uma dessas fotos tem uma história e ela as conta.

Após toda a expectativa gerada desde que lançou seu último livro de memórias, “Senhora Dona do Baile”, Zélia Gattai, lança agora, em 1988, o seu quinto livro. Esta senhora dona de uma memória privilegiada tem extrapolado em seus livros o meramente pessoal, para narrar toda a conjuntura política brasileira e mundial, após terem sido expulsos da França, em razão da perseguição oficial brasileira no final dos anos 40. Na entrevista que nos concedeu, ela conta muitos dos episódios que traz, em detalhes, neste seu novo livro: “Jardim de Inverno”.

Zélia, após “Anarquista Graças a Deus”, “Um chapéu para Viagem” e “Senhora Dona do Baile”, você está lançando agora o seu quarto livro, “Jardim de Inverno”…

Zélia Gattai – E no meio deles o “Reportagem Incompleta” que eu considero um livro de memórias porque é um livro de fotografias que eu tirei de Jorge durante quase 40 anos em quase toda parte do mundo e sobre cada uma eu conto uma história. Esse é um livro de memória falada e visual. É o lado fotográfico da memória.

(Sorri e vai folheando o livro). É o lado fotográfico e com texto meu de introdução e as histórias. Então, quero que ele seja também inserido.

Ok. Mas, por que “Jardim de Inverno”?

ZG – Porque o castelo em que nós morávamos- esse livro se passa na Tchecoslováquia- após termos saído da França, expulsos, e nosso segundo exílio foi a Tchecoslováquia. Lá nos deram para residência um castelo que pertencia a um príncipe e que, então, pertencia à União de Escritores Tchecos para os que quisessem passar férias, fins de semana, e nós, como exilados, tivemos lá residência fixa.

Por que vocês foram expulsos da França?

ZG – Era o tempo da “guerra fria”, do Maccartismo, e Jorge era membro do  bureau do Conselho da Paz, na França, e falar de paz naquela época assustava, diziam que era coisa dos russos. A guerra fria gerava isso. E aí, sem mais nem menos nos tiraram o visto de permanência.

Isso acontece exatamente quando?

ZG – Em 1949. Tanto é que no final do meu livro “Senhora Dona do Baile” eu conto todos os detalhes desta fase. E aqui está uma das personagens do meu livro, a Misette, que é francesa e já nos acompanha há muitos anos. Mas, para se ter uma idéia de como a situação estava acirrada, nós viajamos e quando ela foi pedir o visto de entrada para os tchecos, estes também não concediam visto aos franceses. Até que nós conseguimos que liberassem, mas só por um mês.
Era um clima pesadíssimo, era muito difícil viver na Europa naquele tempo. E aí, em “Senhora Dona do Baile” eu termino viajando, quando nós estávamos partindo para a Tchecoslováquia. Neste, eu começo com Jorge sendo condecorado pelo presidente Mitterrand com o mais alto grau da Legião de Honra que é o grau de comendador, em 1984. Começo com a cena de entrega do prêmio que reabilitava a França por ter feito uma coisa daquelas com ele.

E sobre o castelo?

ZG – O Castelo de Dobris (emite a pronúncia em tcheco) era muito bonito. Nele havia bosques, florestas, lagos, jardim. O jardim dele era uma miniatura do jardim de Versalhes. Era todo um requinte nas louças de porcelana, nos brazões dos príncipes. Os príncipes, quando viram as tropas vermelhas se aproximando, aí eles se picaram (diz sorrindo). Foram embora para a França sem querer conversa, e, após a guerra, o governo entregou o castelo para os escritores e está lá até hoje. João Jorge, meu filho, esteve lá no ano passado e foi visitar o castelo.

Mas a situação, sabemos, não era nada fácil.

ZG – Isso, o que eu queria dizer é que nós vivemos lá nesse castelo todas essas maravilhas, mas num regime muito difícil, de racionamento, cada um tendo direito a 50 gramas de carne. Tudo era na base do tíquete: tíquete para açúcar, tíquete de farinha, tíquete para obter qualquer coisa. E olhe lá, quando tinha. Não havia frutas, não havia coisa nenhuma. E eu com uma criança pequena no colo, o João Jorge, pois quando saí do Brasil ele estava com apenas quatro meses. Era tudo muito difícil, mas nós nunca nos lamentamos, achávamos que era assim mesmo, que o país estava sofrendo uma transformação para o socialismo, éramos solidários.

Mas aconteceram muitas coisas nessa época, coisas terríveis, porque era o período do stalinismo. Politicamente começamos a ver coisas que não estávamos de acordo.

Por exemplo…

ZG – Foram presas milhares de pessoas. Dessas, muitas foram executadas e outras sofreram processos. Entre os nossos amigos que foram presos estava o
Arthur London, que só não foi morto porque tinha um cunhado que pertencia ao comitê central do partido francês. Mesmo assim pegou pena de prisão perpétua até que foi proclamada a inocência dele, sendo então reabilitado. Ele e muitos outros que já estavam mortos.

Quer dizer, nós assistimos a tudo isso, eu e o Jorge. Sofrendo como cães, sem acreditar que ele fosse culpado. Era um homem íntegro, que havia militado a vida inteira no partido, que havia feito a guerra na Espanha, sendo acusado de traição em favor dos americanos. Ele escreveu um livro, “A Confissão”, depois adaptado para o cinema e muito bem interpretado pelo Yves Montand e pela Simone Signoret. Nós não acreditávamos que ele fosse culpado, mas também não tínhamos coragem de acusar o governo porque achávamos que era o governo certo. E tudo isso eu conto no livro com todos os lances, todas as dúvidas e todas as contradições que havia. Mas nem por isso deixa de ser um livro alegre.

Agora, quanto ao trabalho da escritora Zélia Gattai, essa escritora das memórias, de transcender o meramente pessoal, demonstrando a conjuntura da época. Como é que é  fazer isso?

ZG – As minhas coisas são muito diretas e muito francas. eu nunca tomei nota de nada, mais vivi intensamente. E essas coisas que vivi, que eu conto, não precisavam ter sido anotadas porque me marcaram profundamente. E quando começo a escrever me desligo do presente e volto a dar gargalhadas. Eu chego a ver as cores, um detalhe assim que havia descoberto. Tudo volta. Eu revivo todo o passado, então tudo o que está no livro é escrito com essa presença. Tranqüilamente a coisa flui. Mas conto não apenas sobre a nossa vida na Tchecoslováquia quanto da nossa ida à União Soviética, onde Jorge foi para receber o Prêmio Internacional da Paz Stálin…

Ele recebeu o prêmio pelo livro “O mundo da Paz”, livro, aliás, de que ele não gosta, não é mesmo?

ZG – Não, claro que ele não gosta. Mas o prêmio não foi pelo “Mundo da Paz”, mas pelo conjunto de obra. Esse livro “O Mundo da Paz” foi apreendido aqui no Brasil e gerou a abertura de um processo contra ele que foi encerrado por um juiz que considero um sábio e que pronunciou assim a sua sentença:

“Esse livro não é nem subversivo, nem perigoso, apenas um livro sectário”.
Quer dizer, Jorge quando escreveu o fez com toda a sinceridade dele, era o que ele pensava. Hoje a gente vê que naquele tempo ele era sectário. Mas foi uma lição muito grande, uma experiência enorme da vida. Aprendemos que o sectarismo, de ver as coisas só por um lado, não interessa.

Tudo isso é fruto do período do Jorge Amado, constituinte de 46?

ZG – É. Com o fim da guerra veio a legalidade e, em 46, Jorge foi parlamentar, um dos constituintes de 46, Jorge e os companheiros de chapa. Mas, depois, o sectarismo era tão grande, e eu não sei de quem era a culpa, acho que, às vezes, quando a gente se sente um pouco livre esquece o passado e isso é uma coisa muito perigosa, a gente deve ter táticas em política, então o negócio foi todo por água abaixo. O partido voltou à ilegalidade e os parlamentares foram todos expulsos da Câmara e começaram as perseguições. É ai que a gente tem que ir embora para a Europa. Minha casa foi invadida pela polícia, fizeram misérias na minha casa. Pessoas eram presas por ter livros de Jorge e nós não tínhamos mais condições de ficar no Brasil. Ficar escondido feito bicho? Não, tínhamos que sair e continuar trabalhando. Então, nesse livro eu conto todos os detalhes. No Castelo de Dobris ele escreveu o “Subterrâneos da Liberdade”, livro que refletia toda a vida partidária dele, um livro enorme, verdadeiro. Você vê que até hoje resiste. E ele nunca quis modificar um palavra sequer.

Mas você dizia das outras viagens narradas no  livro?

ZG – Nós estivemos na China, estivemos na Mongólia.

Dizem que vocês foram os primeiros brasileiros a ir até a Mongólia, é verdade?

ZG – Sim, sim. Foi uma experiência maravilhosa.

Mas, e a China?

ZG – Em 1952, nós fomos pela primeira vez à China. Quando Jorge foi receber o Prêmio Stálin em Moscou, nós viajamos de lá para a China a convite dos
escritores chineses. Foi uma viagem maravilhosa, era o começo do regime socialista, estava apenas engatinhando, ainda, e para a gente era tudo novidade. Nessa viagem, inclusive, fizemos bons amigos chineses. Já a segunda vez que fomos à China foi em 57, viajamos com Pablo Neruda e a mulher dele…

era a Matilde nesse tempo?

ZG – Sim, a Matilde. E atravessamos a Índia, a Birmânia, entramos pelo sudoeste da China, enfim, fizemos uma viagem de vários dias num navio chinês.

E a terceira vez que vocês voltaram à China, já depois da “Revolução Cultural”?

ZG – Com a Revolução Cultural nós não voltamos mais à China. Sabíamos que muitos dos nossos amigos estavam presos, que havia muitas perseguições e muita miséria por lá. Só voltamos agora e encontramos apenas dois dos nossos amigos ainda vivos. Lembro que durante a segunda viagem haviam o aniversário do Neruda e a mulher dele sugeriu que fizéssemos um frango assado, inteiro, como surpresa, pois lá tudo que se come é cortadinho. Mas aí nos negaram o forno sob a alegação de que como o Mao Tse-Tung não comemorava aniversário eles também não o faziam. Então ninguém podia festejar. Mas aí eu argumentei que queríamos apenas comer o frango assado e não comemorar aniversário. Eles ficaram na maior alegria e permitiram.

Mas Zélia, por que você demorou tanto para começar a escrever?

ZG – (Sorrindo). Não acho que demorei não. É que quem escreve memórias precisa ter as memórias. Precisa ter atingido um certo nível, uma certa maturidade, entender as pessoas, ser generosa, não ter maldade (não é maldade
que digo, mas quando a gente é mais jovem não perdoa fácil). Se eu tivesse escrito esses livros há 10 ou 15 anos eles seriam muito diferentes. Também tudo na minha vida acontece, nada é programado.

Zélia, pra finalizar, já existe plano para um outro livro?

ZG – Não, não. Quando eu escrevo um livro é como se tivesse parido uma criança, então entro em resguardo absoluto (risos).

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