GERAÇÕES REBELDES

https://i2.wp.com/images.amazon.com/images/P/B000A78Z82.01._SCLZZZZZZZ_.jpg

GERAÇÕES REBELDES

A  DANAÇÃO  DA  NORMA

 Albenísio Fonseca

Um tema excessivo. O fenômeno da rebeldia tem-se manifestado em diversas modalidades no tempo e no espaço, nos diferentes estratos sociais, sempre muito bem dotados em imaginação e sensibilidade. Em todos os casos, essa rebeldia caracteriza a expressão de um choque de valores entre gerações, inserindo-se em cada período histórico como energias incertas, ambíguas e até mesmo neuróticas, dispostas a realizar a danação das normas ou a total transgressão das regras herdadas.

Contudo, e apesar de todo o caráter perverso, estamos sempre diante da mesma família, quer se trate de poetas vadios como Rimbaud e Essenine, dos jovens delinqüentes nutridos de anarquismo individualista participantes do grupo dos bandidos trágicos na Paris do começo do século 20, dos Stilyagi, da Rússia, dos Tasiozuku, do Japão, dos Teddy Boys, na Inglaterra, ou de tipos catalogados na França com a vaga denominação de existencialistas, e mesmo, em tom menor, dos adolescentes da primeira parte do livro Encontro Marcado de Fernando Sabino.

AURÉOLA DE MARTÍRIO

A este mundo heterogêneo, introvertido e agitado, frustrado e rebelde, o cinema nos forneceu o seu protótipo, o seu herói: James Byron Dean. A ele não faltaria, devido mesmo à sua morte prematura num acidente de carro, certa “auréola de martírio”. Poucas vezes houve um paralelismo tão grande entre o personagem da tela e o homem da vida real. Segundo o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, “James Dean era realmente vítima de uma insegurança obscura e profunda, de uma dilaceração entre o desejo e o medo de se comunicar. Ele protestava vestindo-se mal, não se barbeando, morando com um gato num canto do Actor´s Studio. Durante certo tempo – observa ainda Paulo Emílio – ele freqüentou um psicanalista, procurando encontrar solução para os seus problemas. Mas, se fundamentalmente a glória não resolveu nada, a colaboração de Dean, com colegas de estúdio como Elia Kazan e Nicholas Ray, serviu para oferecer ao mundo a imagem viva e documentária de um jovem rebelde sem causa pela qual lutar”. 

James Dean, em 1955, por Dennis Stock, USA. New York City.
             
De toda essa epopeia que gira em torno de James Dean (e o estilo “juventude transviada”) resta uma indagação: será tão ridículo a um jovem que não obteve resposta para suas perguntas e que morreu sem saber contra o que se rebelava, ser considerado um herói e um deus por outros jovens que ainda não encontraram uma razão digna de viver? Se, como propunha Marx, “nada do que é humano nos é estranho”, é certo que nada de cinematográfico nos deve ser indiferente. E James Dean saltara da tela para as ruas.

VERTIGEM BEAT

Entre o fenômeno comportamental e a prática artística não se pode dizer que haja uma fronteira, uma encruzilhada, mas uma vertigem. Principalmente se os protagonistas são oriundos da fascinante Geração Beat. A desesperada busca de divisão entre arte e vida, comportamento e (no caso deles) literatura, nos põe diante de uma falsa questão, de uma tentativa esquizofrênica de controle social inteiramente ultrapassada por Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder e outros.

A grande acusação que pesa sobre todos eles é decorrente do fato de terem vivido intensamente. Principalmente por não só terem experimentado drogas, cruzado diversas vezes a fronteira da loucura, delirando de várias formas, tido diversos tipos de problemas com a polícia e suas vidas sexuais serem ricas e diversificadas, mas por terem falado abertamente de tudo isso, tanto em suas obras como fora delas. Um poeta como Baudelaire (autor de “As Flores do Mal”), nesse sentido, seria facilmente tornado um precursor de toda a perversão beat,
embora não se necessite sair dos Estados Unidos para encontrar as influências literárias (e comportamentais) destes. Passante desocupado pelas ruas de Paris, apaixonado por uma prostituta e fascinado por lésbicas, Baudelaire, tradutor e divulgador de Edgar Allan Poe, na França, costumava relatar suas experiências com o haxixe.

DROGAS E POLÍTICA 

A questão do uso de drogas, no entanto, parece ter ganho sensatez no âmbito da própria “Beat Generation”, com o depoimento de Gary Snyder (autor de uma nota sobre as tendências religiosas dos beats), fazendo a advertência de que “embora uma boa dose de introvisão pessoal possa ser obtida pelo uso inteligente de drogas, estar doido o tempo todo não leva a nada, porque limita o entendimento, a compaixão e a vontade; e o barato pessoal da droga não tem nenhuma utilidade para outras pessoas”.

Em uma entrevista radiofônica de 1960, a propósito de sua expulsão  de Havana, Allen Ginsberg diz achar que “a
marijuana é um instrumento político. É um estimulante catalítico para toda consciência ligeiramente ampliada”, e, lembrando o oficial cubano encarregado da sua expulsão, “não pode haver exército se todo mundo estiver pirado”, sugerindo que “o negócio seria fornecer mescalina ao Kremlin e à Casa Branca, trancar os mandatários pelados num estúdio de televisão durante um mês e obriga-los a ficar falando em público até descobrirem o significado dos seus atos”. E sustenta: “É assim que a televisão poderia ser adaptada ao uso humano”.
O certo, contudo, é que a discussão em torno das drogas (antes, como agora) apenas tem desviado o assunto de algumas questões políticas fundamentais. 

COQUETEL DE TALENTOS

A meteórica vida de James Dean e a trajetória beat parecem algo saído das entranhas bélicas do pós-guerra. Ainda com base em relatos de Ginsberg, podemos constatar o lastro literário que sustenta as posições e existência beat. Senão vejamos os detalhes de como este (Allen Ginsberg) e Jack Kerouac conheceram William Burroughs: “Fizemos uma visita formal a Bill e eu lembro que tinha um exemplar de “A Vision de Yeats…”. Shakespeare; “O Castelo”, de Kafka; “Ciência e Sanidade”, de Korzibski; “A Decadência do Ocidente”, de Splenger; Willian Blake, Rimbaud, “Ópio”, de Cocteau. Assim, estes eram os livros que ele estava lendo e que eu ainda não havia lido. E ele me emprestou esses livros”.

No entanto, Octávio Paz, em “Solo a Dos Voces”, sustenta que “embora vários dos poetas beat tenham talento, nenhum deles inaugura uma nova tradição. Suas obras não são uma ruptura nem um começo, como foram a seu tempo as de Pound, Cummings,  Eliot. Os beats não mudaram a linguagem nem a poesia, mas continuaram uma tradição”. Segundo Reinaldo Moraes (tradutor de algumas obras desses autores), “a literatura beat é um coquetel de todas as drogas, entre as quais a vida é a mais perigosa e pirante”.

DO HIPPIE AO PUNK

O superávit financeiro norte-americano e a presença deste país na Guerra do Vietnã fariam emergir em meados da década de 60 (após a emergência de outros movimentos, como o psicodélico dos beatniks), em simultaneidade com os avanços harmônicos do rock – vide Beatles, Rolling Stones e toda a parafernália Pop – uma nova geração rebelde, a dos hippies. “Paz e Amor” eram suas palavras de luta, seus cavalos-de-batalha.

https://i2.wp.com/people.csail.mit.edu/manoli/gallery/sanfrancisco/hippies.jpg

A felicidade hippie duraria mais que uma overdose

Entre suas propostas/experimentos, estavam a vida em comunidades, a alimentação natural e a família aberta, ou melhor, o amor livre. A “contracultura” constituía o cabedal teórico de postulações contra as normas e saberes impostos pela sociedade tecnológica, em que convergiam toda a massa fabulosa de novas e velhas idéias (o computador, os transplantes, a tecnologia espacial) e um
insólito retorno à Astrologia, ao ocultismo, à cabala, às artes divinatórias, à bruxaria, ao demonismo, em suma, a velhos cultos pagãos e às religiões orientais.

Hoje, passados 40 anos do auge do movimento, as roupas coloridas se transformaram em vestes indianas (uma das terras sagradas do hippismo), que se compram em boutiques, ou como os demais adornos, em lojas e feiras. É como se toda a agressividade se tivesse estabilizado, decantado.

Os punks, por sua vez, têm até um nome para o personagem que prolonga os restos mortais do movimento hippie: hippie velho. Costumam escrever em suas camisetas: Never trust a hippie, que equivale a “nunca acredite em um hippie”. A um tempo coagindo e fazendo o cerco – como estipula a antropóloga Janice Caiafa, em sua tese de mestrado – os punks parecem haver recuado para o núcleo negro e resistente, expondo-se menos às contaminações de outras correntes, como os heavy.

No subúrbio de São Paulo, onde Janice empreendeu a sua investida de campo, “heavies e punks se cruzam frequentemente e costuma haver a maior treta. Os heavies, para marcar a diferença, têm um visual parecido com o dos punks, usam o negro e o couro, mas usam também muito jeans desbotado (característico do hippismo). Os heavies mantêm os cabelos bem compridos, braceletes bem maiores que os dos punks e os pinos não são pontiagudos, mas tachas achatadas”.

AVESSOS À VIRTUOSE

Mais que a indumentária, é a música que diferencia melhor as suas posturas. Enquanto as bandas heavy-metal têm muito forte a questão da boa execução, do instrumento bem tocado, com uma mítica de histórias de terror, demônios, sangue e muita fantasia, os punks são explicitamente contra isso em prol da “realidade”. Para os punks não é preciso nenhum background, se se quer tocar uma guitarra é só pegar e tocar. A música vira algo que pode ser feito a qualquer momento, se se decidir assim. Não é mais fruto do trabalho árduo, exigindo uma história de acúmulo de conhecimentos ou “antecedentes culturais” que, aliás, nenhum punk tem. Nenhum virtuosismo é desejado ou apreciado, o que vale é a intensidade do momento.

https://i2.wp.com/www.vivid.ro/vivid70/Pictures70/pictures70/47London_Punks2.jpg

Os punks nos trouxeram de volta à realidade?

Existem ainda, principalmente a partir da década dos 80, os skinhead, movimento que se aproxima do punk pelo som, pela dança e procedência social. Mas estes raspam a cabeça, usam visual pesado com couro e adereços militares, sendo ligados a movimentos neofascistas. Esse pessoal, todavia, mais visíveis na Europa, tem presença, também, no Brasil. Desde os beats, a música parece ser um grande pivô detonador destes rasgos sociais, destas atitudes de irreverência. Os beats estavam para o jazz como o rock-and-roll esteve para a juventude transviada, como o pop-rock para os hippies e o punck-rock para os punks.

O sistema (as estruturas sociais organizadas) passa a promover a rebeldia como um fetiche, como acessórios nas promoções de marketing. A moda dá o tom e o molde
dos novos comportamentos. Daí emergem o “new wave” (a nova onda, a beleza, o espírito jovial e descontraído), o “yuppie” (a juventude sofisticada, freqüentadora dos melhores restaurantes e magazines), o “noir” (caracteriza o romântico, suave) e se contrapõe ao “dark” (fãs do líder do grupo Joy Division, Ian Curtis, que se suicidou no início dos anos 80) que é caracterizado pela frieza e morbidez dominada por um romantismo tétrico. Os “clean” são constituídos pela juventude asséptica, todo mundo muito limpinho e arrumado. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: