Juventude, para sempre


“Dança da Juventude”, Pablo Picasso,1966

Juventude em

evidência

Albenísio Fonseca

Filhos de casais separados, de mães solteiras chefes de famílias, boa parte dos jovens brasileiros são verdadeiros rebeldes sem causa ou, paradoxalmente, cheios delas. Esta juventude – e considere-se aqui uma faixa etária entre 15 e 27 anos – foi tolhida em algumas das suas mais vitais capacidades de vir a oferecer contribuições eficazes, seja na resolução de suas vidas, seja no próprio desenvolvimento da sociedade brasileira como um todo.

Nascida em meio a crises econômicas, sob o signo da Internet e de uma “Constituição Cidadã”, essa geração tem como parâmetros em termos comportamentais certa indignação punk, já com direito a políticas de cotas, a extraordinário acervo de informações do repertório global da humanidade, mas é fascinada apenas pelos tipos moldados pelo sistema cíclico da moda e da mídia. Odeia a leitura.

Os tempos de mudança estariam de volta, quer a história repita-se (como farsa, tragédia) ou não? Há uma nova onda reativando as cabeças, redimensionando as aptidões? O certo é que quase não há mais tempo para reflexões e sim para respostas na ponta da língua. Entrar na vida é ter que dar respostas ao fato de estarmos inseridos num sexo, numa cultura, numa classe social, num regime político, em um sistema econômico. E a crise, cultural antes de ser política, mais pessoal que do campo das idéias, mantém-se como expressão destas situações.

O sistema fascina nossos olhos, narinas e bocas com a glamurosa tentação de que se adapta aos nossos desejos, quando na realidade são todos os nossos desejos que se adaptam perfeitamente aos ditames das suas regras, à voracidade do seu apetite de avestruz. Fazendo ingerir a coca-cola com casco e tudo.

A juventude, “made in Brazil”, nesta primeira década do século 21, tende a encarar a existência muito mais como “suporte” que como linguagem. Corações e mentes tatuados em invólucros de games, celulares, amizades-redes sociais, no cuidado excessivo com a aparência e sob o desejo de replicar tudo o que seja sucesso, seguem pelo “shoppings” preocupados com o que transcorre nas novelas da vida de personalidades estampadas na mídia.

Nesse jogo de espelhos, não é tanto a busca de identidade quanto a de uma imagem o que os jovens pretendem discernir, na superfície áspera da sociedade de consumo com seus dedos pegajosos. E, “lost”, poucos buscam investir na tarefa de suscitar a si próprios enquanto experimentação social.

A questão juventude será sempre um tema em evidência. Mais que um blábláblá, o que tende a vir à tona agora, nas polêmicas sobre o tema, é uma ira quase incontível. Longe das escolas, as primeiras hordas lotam as ruas e casas de recolhimento. A violência, as drogas, a falta de empregos e de políticas públicas, um ensino caótico, são obstáculos a serem transpostos. Que as propostas de retomar o debate sobre a condição da juventude, em Salvador, sejam bem mais que um retoque no batom ou um filete de sangue a escorrer das esquinas nas nossas faces.

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Albenísio Fonseca é jornalista
albenísio@yahoo.com.br

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