Across the carnival (revisited) e O axé sob contingência

Across the carnival

(revisited)

Albenísio Fonseca

 

Atravessando o carnaval. O título em inglês, permita, é uma paródia à música dos Beatles “Across the universe” que em 4 de fevereiro de 2008, numa estréia absoluta, foi transmitida pela Nasa, como celebração aos seus 50 anos de fundação.
Segundo a agência espacial americana, a transmissão  fora orientada na direção da estrela Polaris, a mais brilhante da constelação da Ursa Menor, situada a 431 anos-luz da Terra. 

Mas são os ecos da folia que ainda atravessam minha cabeça dura. O impactante documentário “Cordeiros” de Amaranta Cézar e Ana Rosa Marques, ao revelar trincheiras da luta pelo exíguo território das avenidas do Carnaval, mostra o quanto a organização da festa envolve a divisão e a desigualdade na geografia urbana e na estrutura social de Salvador, em seu micro esplendor de sociedade do espetáculo. Urge que o documentário seja reexibido, inclusive pelos canais das TVs Câmara e Assembléia Legislativa, e  tendo os próprios parlamentares na audiência.

Através das imagens e vozes dos cordeiros, a corda torna-se um limite tênue, perturbador, por si só violento; um muro que explícita tensões entre incluídos e excluídos, brancos e negros, ricos e pobres. Mais que uma metáfora de navios negreiros, trios elétricos a singrar o Atlântico Sul dos circuitos da visibilidade do que se presumia, até então, apenas um grandioso festejo.

No mesmo universo, a iniciativa inteiramente legal de licitação da comercialização da festa, ganha pelo publicitário Nizan Guanaes pela soma de R$ 6 milhões, sabe-se agora, era válida por dois carnavais.

Em meio ao surto de consumo indevido com cartões corporativos por ministros do Governo Lula, outro fato estarrecedor publicado no Diário Oficial da União de 20 de dezembro de 2007, na Seção 1, página 44: duas inexplicáveis doações do Ministério da Cultura à empresa Madeirada Produções e Eventos que somaram R$ 2 milhões como patrocínio por seis shows da cantora Ivete Sangalo em vários estados do país, além de três apresentações, dela mesma, no trio-elétrico Corujas,
no carnaval 2008.

Na página 89, outra doação: mais de R$ 400 mil, feita à mesma empresa, como patrocínio ao Bloco Cerveja & Cia para seu desfile pelo circuito Barra-Ondina.     Que universo é esse? Na canção de John Lennon a atravessar estrelas, o mantra repetido: “Nada vai mudar meu mundo” é bem sintomático.
Por aqui, nada parece mudar o Brasil. Mas o carnaval baiano – como o país – precisa de um processo de organização que altere as graves distorções nas relações de trabalho que o perpassam. “Jai guru deva OM!” Ou melhor, valha-me meus orixás.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

O axé sob contingência

Albenísio Fonseca 

A força avassaladora e contagiante da axé music, com seu modelo “made in Bahia for export”  tem sofrido restrições em territórios carnavalescos país afora. Embora seus artistas e produtores sejam promotores de carnavais fora de época, em eventos como o CarNatal e Recifolia, entre outros, quando reina absoluto, o ritmo “axé” foi proibido, diria mesmo censurado, nos carnavais de Recife,
Olinda e nas cidades históricas de Minas. Em Ouro Preto , Mariana e São João Del Rey
a música baiana só pode ser tocada em ambientes fechados, fora do circuito oficial da festa, e sob cobrança de ingressos.

Em Olinda, por decretos do Executivo, ficaram proibidos o beijo na boca, sob a alegação de que estariam ocorrendo “arrastões de assédio” – legislação burlada, principalmente nos redutos gays da cidade em festa; e a circulação de táxis, restrita apenas à frota local. No Recife Antigo, a interdição à axé music nos fez contemplar tradicionais manifestações pernambucanas. Dorival Caymmi, se vivo estivesse, poderia reencontrar, sob a chuva intensa, sua “Dora, rainha do frevo e do maracatu”.

Em Salvador cada vez mais ficam menos tênues os limites da geografia do sagrado e do profano no ciclo de festas, vide a revitalização proporcionada por Gerônimo nas escadarias do Passo. Uma intervenção anterior ao seu reinado de Momo. Em Pernambuco, numa rota inversa à roda viva da dinâmica cultural – e mesmo cabendo a Caetano Veloso proceder à abertura da pernambucália folia esse ano – o impedimento a que o ritmo baiano passasse a “cantar de galo” compõe, muito mais que uma reserva de mercado, a legítima preservação do que há de mais genuíno nas expressões populares do estado vizinho.

Por aqui, temos a festejar o tombamento do Carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia e o investimento do estado nos carnavais de Palmeiras e Rio de Contas, que têm manifestações culturais tradicionais e peculiares. Festejar, também, o toque de Midas de Carlinhos Brown, extensivo à sua magnífica presença na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, com seus tambores campeões do Carnaval carioca, e sua quase-marcha “Vai chamar Dalila”, na voz de Ivete Sangalo, mais tocada do período momesco (e que já virou gíria no submundo), em concorrida disputa com o mega axé “Beijar na boca”, da Cláudia Leite, que irritaria o prefeito de Olinda.

Se me coube um dia, em meados dos anos 80, ostentar o então pejorativo “axé music”, em caráter positivo, como título de reportagem,  para a nova onda musical baiana, e sou dos que integram o cordão do “É probido proibir”, tenho que admitir a importância da política cultural pernambucana, acenando para o coração do pierrô Alceu Valença a cantar nossa pluralidade cultural da sacada do casarão onde mora em Olinda.

No mais, lamentar ter perdido o engarrafamento de garçons, bandejas de whisky à mão cheia, no farto (Fausto) dispêndio do openbar oferecido no camarote do governo baiano. Contingenciamento à parte, é claro. Axé!

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

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