O não-lugar do Palácio Thomé de Souza

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O Palácio Thomé de Souza é um projeto do arquiteto Lelé Filgueiras

Palácio Thomé de Souza
23 anos

Albenísio Fonseca

Hoje, 16 de maio, o Palácio Thomé de Souza, isto é, a versão contemporânea da sede da Prefeitura de Salvador, completa 23 anos de “edificado”, pelo ex-prefeito Mário Kertész, com base em projeto do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé.

Com a luminária frontal, expositora do dístico e logomarca do município, queimada por curto circuito, desagravo térmico e visual do escapamento do ar condicionado sob a edificação, esgotamento sanitário comprometido, desgaste dos sistemas elétricos, telefônicos e de captação da água pluvial, além de infiltrações que encharcaram carpetes e despacharam o Executivo, a Casa Civil e a Secretaria de Comunicação para outros prédios, pode ser que – “A cavaleiro do Atlântico”, como consta na placa inaugural – o palácio não resista até o final da atual gestão.

Em 1986, o prefeito Mário Kertész relocou a Prefeitura, do Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas, para a Praça Thomé de Souza (também chamada de Praça Municipal), primeira praça da cidade. Erguido em 15 dias com pré-moldados sobre a ignomínia da demolição dos prédios da Biblioteca Pública e da Imprensa Oficial, e em cujo vazio construiu-se um estacionamento subterrâneo cognominado “Cemitério de Sucupira”, o prédio contrasta seu estilo contemporâneo frente à arquitetura neoclássica do Palácio Rio Branco, a art decó do Elevador Lacerda e o caráter neocolonial da Câmara de Vereadores.

A locação seria temporária, segundo solicitação do ex-prefeito ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Kertész argumentava que o destino final da sede do Executivo seria um dos casarões abandonados do Centro Histórico. Sob tal condição, sem parecer mais detalhado, construiu-se o Palácio Thomé de Souza.

Em 2004, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública denunciando a intervenção arquitetônica, e acusando o IPHAN de omissão. O juiz deu ganho de causa, obrigando a retirada do prédio em 60 dias a contar da posse do novo prefeito.

Omisso ao longo desses 23 anos, o IPHAN falhou ao não usar os atributos e responsabilidades que a União lhe outorga, e falha a Prefeitura, seus velhos e novos ocupantes, ao desrespeitar decisão judicial, por prescindir da mesma como se acima destas questões, e dando a construção por sancionada pelo tempo, em uma espécie de usucapião à moda do poder público.

O efeito das chuvas sobre o Palácio, agora, já conta com laudo técnico estimando a restauração em dois meses, período em que o prefeito João Henrique permanecerá ao abrigo da Secretaria da Educação, em Brotas; a Casa Civil em prédio da Procuradoria Geral do Município, na Ajuda; e a Secretaria de Comunicação, no Edifício Oxumaré, na Ladeira de São Bento, onde funciona sua redação.

Sob as asas da pomba, nosso simbolismo reverência (sic) à  Arca de Noé, no limite do Sítio Histórico de Salvador, declarado patrimônio nacional em 1959, e da Humanidade, em 1985, resta citar nosso dístico para gastar o latim: Sic illa ad arcam reversa est (“Assim ela retornou à arca”).

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Albenísio Fonseca é jornalista (MTE: 2834 – DRT/BA)

albenisio@yahoo.com.br


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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Tereza
    maio 18, 2009 @ 20:34:04

    Que saga. Impressionante 23 anos depois uma reforma-relâmpago de uma edificação que devia ter sido demolida. Ou melhor, nem deveria existir. Ótima matéria.

    Responder

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