Mega exposição

Negroamor

Entre o deslumbramento e a

estupefação

ALBENÍSIO FONSECA


Guerrinha, em busca do foco

A intervenção com imagens de uma intensa, senão pretensa, africanidade realizada por Guerrinha, o fotógrafo e publishman Sérgio Garcia Guerra, por quase toda a Soterópolis, com habitantes da Bahia e Angola, candidata ao Guiness Book como maior exposição fotográfica a céu aberto do mundo, mantém uma tradição de excelentes instalações para o coletivo urbano de Salvador em meio à complexidade da vida cotidiana.

Com a mostra, a cidade deixa de ser ateliê, vira galeria. Entre o deslumbramento e a estupefação, cidadãos e transeuntes, os públicos da mostra, talvez necessitem de mapas para percorrer a cartografia de fotos lambe-lambe das gentes desses territórios de iguais, em poses aristocráticas, sem a burocracia ou o flagrante do dia-a-dia. Vale a façanha ou o fardo das suas histórias, como diríamos das fotos de Pierre Verger ou pinturas de um Débret. Longe daqui, aqui mesmo: afro-baianos ostentando seus risos ou um mítico jeito descontraído de ser.

Ao recusar uma troca, o acréscimo da palavra, o efeito produzido pela mostra fotográfica decora mais que tensiona, frente à tentativa de descolarmos ou tornarmos mais inteligente a retina. Mantém-se sem retoques o status quo estético, para a contemplatividade dócil de um público transeunte numeroso e veloz.

ALFORRIA – Quantas mil imagens sem uma palavra, um conceito? Não seria a lenda, mas a legenda, o que falta no excesso simbólico de 1.500 fotos. Uma economia que requer outras mídias como suporte para traduzir-se. Dizer o dado, falar a cidadania muda.Em Salvador Negroamor, nome da exposição, a câmera clara do fotógrafo retrata uma positividade asséptica ao captar as imagens, espelhados photoshops de personas posadas como em estúdios, naturalizando contradições sociais em lugar de aguçá-las.

Sem a inversão da câmera escura, ganhamos uma alforria nas fotos de Guerrinha. Somos livres, anônimos parecem gritar como estátuas amordaçadas ou esfinges da contemporaneidade. Melhor a esfinge que o olhar petrificante da medusa ideológica que ainda paira sobre nós. Todos os adjetivos para a exposição qualificam apenas o caráter megalomaníaco da mostra, em seus outdoors, banners, backlights e front-ligths, CD e portal, sem temer o olhar que divide, esmiúça, relaciona, contempla numa velocidade de urbanóides.

Nos anos 70, o poeta Júlio César Lobo criou um poema-processo com 24 quadros para fotos 3×4. Identifique-se. Ali, mais que crítica, a vida sob um regime opressor. A profusão de fotos de Sérgio Guerra guarda similaridade à campanha do Banco com Nomes Pessoais, cujo primeiro presidente foi um negro. Negroamor, diria a lúbrica Carlota Joaquina.

PERSONAS E FETICHES – Maior cidade do mundo habitada por afrodescendentes fora do coração da Mama África, Salvador tem vivido megaintervenções artísticas, como as centenas de tubos de polietileno, lançados por Washington Santana, cheios do ar de 1987, a flutuar nas águas do Dique do Tororó, e que até produziam mais que uma estética, uma erótica. Ele que, depois, criaria esculturas de Cristos monumentais com o lixo coletado na usina de compostagem de Vila Leopoldina, reciclado ou transmutado em arte por praças, na São Paulo de 1991, para levar às lágrimas a prefeita Luiza Erundina.

A estética dos “orelhões” à baiana também erigiram um novo olhar, viabilizando a cidade como pólo emissor. O amordaçamento de estátuas, por este escriba, numa reação ao silêncio cultural predominante, em 1977 e 1985. Os mosaicos de Bel Borba, como ímãs, no final dos 90; a gigantografia dos monumentos de Mário Cravo Jr.; e mesmo os grafites/murais do grupo universitário BaldeAção, são alguns exemplos. Signos há muitos que se precise analisar nos detalhes e na concepção da megaexposição, vista como “fotos da negritude baiana”. Como se nos a replicar mais belos, transitamos entre personas e fetiches.

Há uma “neutralidade atuante”. Narcisos aos quais nada falta. Tantas fotos, a fruição rapta o olhar, quase o escraviza numa estranha autonomia: se a estatuária grega não individualiza, o que seria externo ao belo? Até porque nenhuma obra de arte é sobre algo, mas alguma coisa em si. O espelho, as fotos, simula telas que a mão (o olhar) do artista concretiza, como diríamos de um sonho em visibilidade máxima.

Longe da senzala, no coração da cidade grande, qual Narciso (ou seria Macunaíma?) – os baianos e outros unos – vença a sedução das imagens lacustres de mares, penínsulas, Recôncavo e Dique entre closes, contrées e contreplongées dessa antropologia atualizada do homem genérico, o da arte, síntese de muitos rostos, nesta nova caverna platônica, a paisagem urbana.

Afinal, o que significa voltar o olhar para as origens, senão uma nostalgia da unidade ou da ancestralidade perdida? Como Vênus mutilada, o que vemos nos basta? Não, porque milhares de fotos continuarão a ser apenas um fragmento da história. Sim, a pluralidade (mais que a singularidade) do gesto do artista, desde há muito, sobrepuja sua produção artística, isto é, as concepções tradicionais de beleza. Antes, quando o atavismo batia, o menino corria a tocar o tambor. Agora, use a câmera fotográfica.

Anúncios

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. forex review
    abr 21, 2011 @ 10:29:34

    Acabo de añadir a su página web a mis favoritos. Me gusta leer sus mensajes. Gracias!

    Responder

  2. appliance repair Irvine
    maio 01, 2011 @ 16:02:17

    eu gosto exatamente como você receberá o seu nível de toda

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: