Estátuas amordaçadas

Manifesto/Arte 1977

Estátuas amordaçadas

Uma linguagem cosmética

sobre a epiderme da úrbis

Albenísio Fonseca

Monumentos em praças de Salvador foram amordaçados na ação-manifesto

Tudo pertence ao real desde que seja arte. A singularidade do gesto do artista sobrepuja os conceitos tradicionais de beleza eminente ou objetiva. Numa linguagem de ação quem fala é o corpo. Agilizar o circuito cultural requer iniciativas voltadas para a intervenção no espaço vivo da cidade. Na mitologia da modernidade as ruas e praças, paredes e muros – tornados desde a década dos 70 em ateliê para o artista contemporâneo – constituem o lugar onde o não-poder exerce a sua fala. Estátuas amordaçadas.

Uma linguagem cosmética sobre a epiderme da úrbis. Escritura plástica e selvagem. Uma quase literatura (de efeitos) demarcando a cidade. Liberando o imaginário urbano. “Texto” que recodifica a sinalética, instituindo uma gramaticalidade de ícones. As problemáticas afetivas (mais da cidade que do artista?) instrumentalizam novas relações do “ver” e do “compreender”.

A aparência das coisas também exige o direito à cidadania. Se o fundamento da vida é criar seres vivos, o da arte é de criar obras vivas. Estátuas amordaçadas. O mesmo gesto que interdita propõe a libertação.

Uma ação aberta à reflexão. Proposta em que os receptores são levados a atravessar a ação pretendida. Em lugar de serem invadidas por ela. Ao escapar do significado arbitrário – convencional e redundante – o amordaçamento das estátuas propõe a pluralidade de leituras, proporcionando novas ações e reflexões para o exercício da arte enquanto processo, enquanto transformação do universo que cerca o receptor, isto é, a razão de interferência da obra está na medida da pergunta que a ela dirige o receptor. Ainda que obedecendo aos repertórios e história individualizados dos sujeitos – é claro, menos como dados biográficos que enquanto pessoas em crise com os seus próprios valores numa sociedade em transição.

Mesmo evitando constituir-se num duplo da ideologia, o gesto de amordaçar estátuas (monumentos que sob a prerrogativa de homenagear, perenizando a existência de personalidades ou vultos históricos, que reificam o humano, petrificando-os em mármore ou bronze) – pretende:

Demonstrar o vazio a que está submetido o circuito cultural; registrar a ausência de falas voltadas para a abordagem crítica ou clínica das diversas (e específicas) práticas artísticas; questionar a falta de uma política cultural identificada com as carências e valores pertinentes ao meio.

Ao reativar criativamente o circuito (acirrando posições), aponta a exigência de críticas devidamente aparelhadas, nos meios de comunicação. Não enquanto procedimento judicativo, mas pela atividade propriamente dita de “leitura” das produções.

Agora, fiquem à volta – ou frente à frente – com este vestígio fantasmático. Estátuas amordaçadas. Onde se lê monumento, leia-se movimento. Afinal, arte é aquilo que se produz sobre a realidade e também sobre os sistemas representativos dessa realidade. E que, amordaçado ou não, fala por si só.

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Revista Sem Perfil, Nº 1, Págs. 6 e 7, Edições Tupyhanarkus Salvador, 1977

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