Graffiti

Grafites

A cidade como ateliê

Albenísio Fonseca

(Grafite do artista britânico Banksy vendido pelo equivalente a US$ 400 mil, em um leilão no site eBay. A imagem (acima) foi feita em uma parede junto ao restaurante “Falafel King”, no bairro de Notting Hill, no oeste de Londres. Para levar a arte para casa, o comprador terá que remover a parede.
Banksy, cuja identidade nunca foi revelada oficialmente, é conhecido por seus desenhos de conotação política na capital britânica e em outras partes do mundo. Já grafitou o muro construido por Israel na Cisjordânia em 2005. Os desenhos satirizavam a vida do outro lado da barreira.
Outros dos seus grafites reproduzem um buraco na parede com uma paisagem tranqüila ao fundo. Outro, uma pomba branca vestida com colete à prova de balas. O preço de suas obras não para de subir. Veja outros belos trabalhos do artista em  http://rebobine.wordpress.com/2008/01/15/grafite-arte/ )

A exemplo de Pompéia, cidade romana que ao ser desterrada apresentou inúmeras inscrições nas amuradas dos seus prédios, Paris, em 1968, quando a prática do grafite passou a veicular conceituações anárquicas, e Nova Iorque, em 1972, com o registro de significantes vazios (desprovidos de significado), Salvador sofreu, em 1979, uma verdadeira “sanha pichadora”, estabelecendo um componente bastante distinto na paisagem da cidade.

Mas se tal prática remonta a um período indefinido ao longo da história, inscrevendo-se mesmo como um importante mecanismo de expressão sóciocultural, os elementos de que se compõe, como não poderia deixar de ser, têm sofrido mudanças consideráveis do ponto de vista das proposições, com ramificações múltiplas.

Algumas, evidenciando apenas uma “motivação publicitária”, outras, constituindo estímulos de ação, tipicamente politizadores, como na exigência de uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, ou propondo o “vote contra o governo”. Dentro deste plano, mas realizados justamente por aqueles que se destinam à ocupação de um cargo público, candidatos à Câmara, Assembléia ou Congresso, encontram-se os grafites de nomes e números de registros, na luta pelo voto dos eleitores.

Distantes das experiências de Paris e Nova Iorque, não só geográfica e cronologicamente, mas pelas próprias diferenças sociais e culturais, os grafites em Salvador, entretanto, surgiram com características próprias. No caso do grupo Baldeação, com uma tendência mais pictórica que semântica, outros grafitistas anônimos (“Mancha”, “Min”, “Jaciara”, K7, ML, Gay, tirana e Raio, entre outros), dialogaram nos muros da cidade ou expressaram-se através de construções poéticas e em nome destas:

“O desejo sobrevoa as asas da história”; “Tatuar (equivalente a erotizar) a boca do mundo com o batom das palavras”; “Uma linguagem de ação quem fala é o corpo”; “Te amei com balas nos olhos”; “Só o sério é cômico”, são alguns dos exemplos grafitados.

Paralelamente, surgiram os “Poetas da Praça”, tomando de assalto a Praça da Piedade e inscrevendo seus poemas no “chão da praça”, numa experiência inédita do país. Na realidade, o grafite, nos moldes como foi e vem sendo realizado, é uma constatação na maioria das capitais brasileiras.

Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Porto Alegre, a iniciativa alastrou-se como um exercício inevitável e generalizado, talvez por constituir uma forma mais densa e duradoura de tornar concreta a realidade do relacionamento com o mundo, anterior ao advento da Internet.

Em Salvador, além dos “slogans” político-ideológicos e contraposições religiosas (“Deus condena o candomblé” ou “Só Jesus salva”) há os que trazem a fértil marca de insinuante imaginação criadora, entre os quais encontramos como “grafiteiros tradicionais” os organizadores de blocos carnavalescos, com assídua presença nos muros a cada ano (e nesse caso, cada ano sai melhor). O fundamento principal destes é a motivação publicitária, no sentido de recrutar um maior número de integrantes para compor as suas alas.

Na falta de um veículo para divulgação das suas idéias ou estímulos e com as autoridades vez por outra “pondo as mãos” nos que insistem em “danificar o patrimônio público”, os “poetas de muro”, como chegaram a se auto intitular os grafiteiros contemporâneos, contam com a cumplicidade noturna e põem em evidência e conflito uma questão muito frágil e sutil: A liberdade de manifestação e expressão como um direito também daqueles que não dispõem de veículos de informação.

MATRIZ DO URBANO

“A cidade foi, antes de tudo, o lugar da produção e da realização da mercadoria, da concentração e da exploração industriais. Atualmente ela é, sobretudo, o lugar da execução do signo como sentença de vida e de morte. Hoje em dia, a fábrica, enquanto modelo de socialização pelo capital, não desapareceu, mas ela cede lugar, na estratégia geral, para a cidade como espaço do código.

A matriz do urbano não é mais a da realização de uma força (a força de trabalho) mas a da realização de uma diferença (a operação do signo). A metalurgia se tornou semiurgia (Jean Baudrillard, in “Kool Killer ou A Insurreição Pelos Signos”, ensaio sobre a prática do grafite em Nova Iorque, 1972).

A cidade tornou-se mesmo um ateliê, o “habitat” de um incessante tráfico de signos. Todos nós existimos em meio ao conjunto dessas mercadorias e signos que nos cercam e nos povoam, mantendo sempre, consciente ou inconscientemente, um diálogo com eles. Segundo o crítico de artes plásticas, Roberto Pontual, a expressão desse diálogo – realizada por qualquer um dos meios disponíveis ou inventáveis (a palavra falada e escrita, os gestos, os sons, as formas e cores, os usos de tudo que existe, o próprio jeito de viver) – já constitui, por si mesma, um ato criador independente de avaliações críticas que a rotulem ou não como artes.

LINGUAGEM PRÓPRIA

Se um livro ou um jornal pressupõem a opção entre ler ou não, isto não ocorre com a evidência do grafite. Neste caso, a comunicação se processa de maneira imediata, bastando para tanto o acesso ocasional, de um modo semelhante à enxurrada de imagens com que a tevê invade nossos lares e sentidos. A singularidade do grafite reside no fato de que seu consumidor é todo transeunte no trajeto do seu espaço visual.

Conforme nos afirmou um autor de diversos grafites, “o importante é a concisão da construção semântica ou pictórica e a disposição de sua visualidade”. Preocupado em permanecer no anonimato, o poeta disse ainda que o ideal seria trabalhar, criticamente, com formas puramente visuais, estabelecendo uma “linguagem própria”, possível de “leitura” pelos não-alfabetizados: “Mas, o que vale mesmo é a ocupação do espaço, um ‘spray’ na mão e uma idéia na cabeça”. Declarou como se fosse um oráculo da era da comunicação. Afirmavam os romanos, contudo, que “muralha é papel de canalha”, tendo em mente, por certo, o fato das proposições, naquele período, terem como objetivo a moral ou o pudor de indivíduos com função pública.

ARQUITETURA E CORPO

“Viver na cidade significa dispor de uma técnica corporal. A disciplina é a tecnologia específica da fabricação e administração de um protótipo de população (…) O aparato da disciplina, inscrito nas instituições da cidade, manipula, modela e reconstrói o corpo invertendo minuciosamente as operações pulsionais, administrando-as, impondo limitações, obediências e o desejo da exploração econômica e da submissão. Uma indústria de regulamentos atua nos inúmeros procedimentos para evitar gestos de inutilidades contrários ao processo de acumulação e para especializar, institucionalizar o próprio corpo. (Almandrade, in “A Cidade, um Aparelho Estratégico”; texto inédito).

Para Jean Baudrillard, “os grafites não se preocupam com a arquitetura, eles a profanam, eles a esquecem, a transpassam (…) Mas, a arquitetura e o urbanismo, mesmo transfigurados pela imaginação, nada podem tocar, pois eles próprios são mídia e, até mesmo, nas suas concepções mais audaciosas, reproduzem a relação social de massa, ou seja, relegam as pessoas à impossibilidade coletiva de resposta”.

Alinhemos ainda nessas referências o artigo da socióloga Maria de Azevedo Brandão, “O Capitalismo não precisa do centro da cidade. O que fazer?”, publicado no caderno Econômico de A TARDE, em 16 de setembro do 1985: “Urbano em sua essência, o capitalismo não precisa do centro das cidades. Precisou sim, e fortaleceu-os, na medida em que neles se refinaram os mecanismos da divisão do trabalho e da centralização do poder. Mas, na medida em que avançaram a mercantilização de todos os bens e serviços, no desenvolvimento das técnicas de comunicação e burocratização da vida política, o centro das cidades, como realidade política e cultural, perdeu o seu sentido…”

Concluamos essa abordagem com o próprio Jean Baudrillard. Para ele, no ensaio a que nos referimos anteriormente, publicado na revista Cine Olho, nº 5/6, “o sistema pode abrir mão da cidade fabril, produtora, espaço/tempo da mercadoria e das relações sociais mercantis. Existem signos desta evolução. Mas, ele não pode prescindir do urbano como espaço/tempo do código e da reprodução, pois a centralização do código é a própria definição do poder”.

REFRATÁRIOS

Na subjetividade do fenômeno grafite, dos anos 80, porém, além do caráter contestatório ao discurso do autoritarismo brasileiro, pós-64, é possível identificar formas de recusa à tradição tautológica e persuasiva de apreensão da realidade.

Queiramos ou não, o muro como um novo veículo para a poesia ou suporte para as artes plásticas – e até mesmo compreendendo estas manifestações como transartísticas ou transideológicas – curiosamente eventualiza um novo universo estético que transcende objetivamente a cotidianeidade dos trabalhos domésticos e instaura, não exatamente o princípio, mas o precipício do prazer.
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Jornal A TARDE, Caderno 2 – Capa, em 07.06.1980

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