O axé sob contingência

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O axé sob contingência

Albenísio Fonseca

A força avassaladora e contagiante da axé music, com seu modelo “made in Bahia for export”  tem sofrido restrições em territórios carnavalescos país afora. Embora seus artistas e produtores sejam promotores de carnavais fora de época, em eventos como o CarNatal e Recifolia, entre outros, quando reina absoluto, o ritmo “axé” foi proibido, diria mesmo censurado, nos carnavais de Recife, Olinda e nas cidades históricas de Minas. Em Ouro Preto , Mariana e São João Del Rey a música baiana só pode ser tocada em ambientes fechados, fora do circuito oficial da festa, e sob cobrança de ingressos.

Em Olinda, por decretos do Executivo, ficaram proibidos o beijo na boca, sob a alegação de que estariam ocorrendo “arrastões de assédio” – legislação burlada, principalmente nos redutos gays da cidade em festa; e a circulação de táxis, restrita apenas à frota local. No Recife Antigo, a interdição à axé music nos fez contemplar tradicionais manifestações pernambucanas. Dorival Caymmi, se vivo estivesse, poderia reencontrar, sob a chuva intensa, sua “Dora, rainha do frevo e do maracatu”.

Em Salvador cada vez mais ficam menos tênues os limites da geografia do sagrado e do profano no ciclo de festas, vide a revitalização proporcionada por Gerônimo nas escadarias do Passo. Uma intervenção anterior ao seu reinado de Momo. Em Pernambuco, numa rota inversa à roda viva da dinâmica cultural – e mesmo cabendo a Caetano Veloso proceder à abertura da pernambucália folia esse ano – o impedimento a que o ritmo baiano passasse a “cantar de galo” compõe, muito mais que uma reserva de mercado, a legítima preservação do que há de mais genuíno nas expressões populares do estado vizinho.

Por aqui, temos a festejar o tombamento do Carnaval de Maragojipe como patrimônio imaterial da Bahia e o investimento do estado nos carnavais de Palmeiras e Rio de Contas, que têm manifestações culturais tradicionais e peculiares. Festejar, também, o toque de Midas de Carlinhos Brown, extensivo à sua magnífica presença na escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, com seus tambores campeões do Carnaval carioca, e sua quase-marcha “Vai chamar Dalila”, na voz de Ivete Sangalo, mais tocada do período momesco (e que já virou gíria no submundo), em concorrida disputa com o mega axé “Beijar na boca”, da Cláudia Leite, que irritaria o prefeito de Olinda.

Se me coube um dia, em meados dos anos 80, ostentar o então pejorativo “axé music”, em caráter positivo, como título de reportagem,  para a nova onda musical baiana, e sou dos que integram o cordão do “É probido proibir”, tenho que admitir a importância da política cultural pernambucana, acenando para o coração do pierrô Alceu Valença a cantar nossa pluralidade cultural da sacada do casarão onde mora em Olinda.

No mais, lamentar ter perdido o engarrafamento de garçons, bandejas de whisky à mão cheia, no farto (Fausto) dispêndio do openbar oferecido no camarote do governo baiano. Contingenciamento à parte, é claro. Axé!

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor

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