Revolta dos malês faz 183 anos, em 2017

A noite do poder

Albenísio Fonseca

Madrugada de 25 de janeiro de 1835. Denúncia dos libertos Domingos Fortunato e sua mulher, Guilhermina Roza de Souza, mobiliza o aparato policial em Salvador. As autoridades tomaram conhecimento do plano, à noite, adotando de imediato medidas para a repressão.

A rebelião dos escravos malês tendia a implantar um califado como regime de governo ao decidirem rebelarem-se na alvorada daquele domingo. O movimento rebelde, contudo, e como todas as revoluções, acabara  traído, gerando o destroçamento dos revoltosos, surpreendidos pelas forças policiais do império em um sobrado na Ladeira da Praça, e com outros grupos, provenientes do Corredor da Vitória, sendo dizimados no confronto com forças policiais na área de Água de Meninos.

O fenômeno do negro muçulmano é um dos fatos mais curiosos da história social brasileira.  Trazidos a partir dos séculos XVIII e XIX, os negros oriundos do Sudão Central  compuseram significativo coeficiente no conjunto dos escravos no período regencial. Segundo Arthur Ramos, em O negro na civilização brasileira, eles eram “altos, robustos, fortes e trabalhadores. Usavam pequeno cavanhaque, mantinham vida regular e austera, e evitavam misturar-se com os demais escravos”.

Denominados de malês, os muçulmanos também eram conhecidos por mucuim, muxurimim, muçulimi, muçurumi. Monoteístas, não eram idólatras, mas usavam amuletos com versículos do Alcorão, escritos em árabe. Possuíam conselheiros ou juízes chamados de Alufás, a quem ouviam e respeitavam.

Os cinco primeiros anos da década de 1830 na Salvador escravista foram marcados por distúrbios de rua, motins antilusos, saques, revoltas federalistas – como a Sabinada – além de quarteladas e revoltas escravas, em meio à crise econômica do período regencial. Os malês, que falavam e escreviam em Árabe são tidos como responsáveis pelas revoltas de escravos na província da Bahia, em 1807, 1809, 1813, 1816, 1827 e a rebelião dos Malês em 1835.

Alguns historiadores atribuem o 25 de janeiro daquela ano ao dia de Nossa Senhora da Guia, uma das comemorações de maior atrativo popular à época, quando uma multidão deslocava-se até o Bonfim (então um bairro rural). A cidade esvaziada seria presa fácil para a tomada de assalto. Outros realizaram a conversão da data para o calendário muçulmano, correspondendo ao final do mês do jejum do Ramadã, numa data inclusive muito próxima da festa do Lailat al-Qadr, expressão traduzida para os idiomas ocidentais ora como Noite da Glória, ora como Noite do Poder. A estratégia era um “folguedo” para matar todos os brancos.

Com formação intelectual, ao contrário dos demais contingentes de escravos trazidos à Bahia, os malês dispunham de hierarquia social estruturada. O livro “Rebelião Escrava no Brasil” (Ed. Brasiliense), de João José Reis, é a maior referência de estudo sobre a rebelião. “Malês” seria um terno criado já na vivência em terras brasileiras e que designaria “aqueles que ensinam”. Outros historiadores apontam a origem na expressão “imalê” correspondente a muçulmano, em iorubá.

Embora o islã não seja uma religião étnica – por se pretender universalizante – pode ter-se tornado exatamente isso no cenário histórico de janeiro de 1835. Pela devoção dos integrantes às escrituras sagradas do Alcorão, a rebelião dos malês é vista como uma “jihad”, uma guerra santa. Na Bahia, o islã estava identificado com certos grupos étnicos, como os nagôs e haussás. Segundo João José Reis, “os filhos de orixá reservaram um lugar especial para os filhos de Alá em sua mitologia”.


Grande parte da documentação dos malês foi destruída ou extraviada, até mesmo pela própria polícia da época que sequer sabia ler. Existem ainda, arquivadas, partes do Alcorão apreendidas em mãos dos revoltosos, e tabuletas que eram apenas exercícios de caligrafias. Não há, no entanto, depoimento ou documento que sinalize o que significaria a tomada do poder sob uma hegemonia muçulmana. Há indícios de que manteriam contingentes negros como escravos. O legado da confluência de religião, política e festejo, contudo, este ficou para sempre no espírito baiano. Se você veste branco às sextas-feiras; se usa abadá no carnaval, saiba… tudo isso é herança malê.

Em O sacrifício do carneiro – uma radiografia da presença islâmica em Salvador, livro-reportagem para graduação em jornalismo, disponível para leitura na íntegra em ww.facom.ufba.br/pex/luizcarlossouza.docLuiz Carlos Souza (tendo como orientador o professor Renato da Silveira),  faz amplo apanhado sobre a presença muçulmana e narra detalhes fundamentais do confronto. Leia:

– O movimento de saveiros vindos do Recôncavo era intenso naquele fim de tarde, 24 de janeiro de 1835. Havia um clima de expectativa. Muitos negros, escravos ou alforriados, chegavam para juntar-se a um tal Ahuna, um clérigo muçulmano de origem nagô.

O destino, contudo, inseriria sua dose de ironia. Talvez algo que remeta ao fatalismo islâmico. Maktub. Está escrito. A companheira de um dos líderes da rebelião seria aquela que levaria aos ouvidos brancos a notícia do levante rebelde.

A liberta nagô Sabina da Cruz, amigada com Victorio Sule (Salomão) tivera uma briga feia com o parceiro naquela manhã. Provavelmente, a tensão do guerrilheiro, e o voto de silêncio que os amotinados fizeram o impediam de contar o que quer que fosse à “esposa”, que provavelmente deve ter passado a conjecturar. Teria o “pai dos seus filhos” resolvido abandoná-la?

Acossada pela dúvida, a mulher foi trabalhar. Ao retornar à noite, depois de um dia de trabalho, (vendia comida na Cidade Baixa) encontrou a casa de pernas para o ar. Victorio, não estava. Fora embora levando as suas roupas. A mulher saiu desesperada na busca de Sule, e o localizou na casa de uns pretos de Santo Amaro à rua do Guadalupe.

Ela parece ter chegado à casa de Manoel Calafate, quase ao pé da Ladeira da Praça. Victorio estava ali, jantando com o maioral Ahuna, provavelmente na preparação dos últimos detalhes para a guerra prestes a acontecer.

Sabina não chegou a ver o companheiro naquela noite, mas tivera um áspero diálogo com uma negra de nome Edum:

– Só vai ver teu homem quando os africanos forem senhores desta terra!

– falou Edum, barrando a entrada de Sabina na casa.

– No outro dia eles vão ser senhores de surra, não da terra

– respondera a desafiadora companheira de Sule.

Aparentemente, não há explicação para a atitude de Sabina. Sabedora do prestígio que uma amiga, Guilhermina Roza de Souza, gozava entre os brancos foi procurá-la, para que esta prestasse serviço à ordem senhorial. Munida das informações, Roza, segundo João Reis:

dirigiu-se a André Pinto Silveira, seu vizinho branco, e lhe contou o que sabia. Na casa de Silveira, também estavam Antônio de Souza Guimarães e Francisco Antônio Medeiros, que se encarregaram de informar as novidades ao juiz de paz do 1.º Distrito da freguesia da Sé, José Mendes da Costa Coelho.

Este imediatamente correu ao palácio para denunciar os fatos ao presidente, e lá chegou acompanhado do Comandante da Guarda Municipal Permanente, coronel Manoel Coelho de Almeida Sande, e do comendador José Gonçalves Galião, um rico proprietário.

Estes acontecimentos tiveram lugar aproximadamente entre 9 e 10 horas da noite de sábado, 24 de janeiro. Precisamente às 11 horas e ‘um quarto de noite’, por exemplo, o juiz de paz da freguesia da Conceição da Praia recebia um aviso do presidente da província ordenando-lhe que rondasse seu distrito com patrulhas dobradas, em razão da denúncia

Após várias devassas em vão, os juízes de paz da Sé e suas patrulhas chegaram ao sobrado de dois andares na Ladeira da Praça. Tratava-se da casa de número dois, na qual os insurrectos davam os últimos retoques no plano.

Numa das janelas do andar térreo estava Domingos Marinho de Sá, que havia sublocado o lugar a dois africanos libertos – Manoel Calafate, de origem nagô, chamado pelos demais de “Pai Manoel”, o que evidenciava prestígio de mestre malê na maçonaria negra. O outro era Aprígio, um dos prosélitos de Calafate, carregador de cadeira e vendedor de pão.

Naquela madrugada, Domingos foi encontrado por uma patrulha sentado à uma das janelas do sobrado. O grupo, formado pelos juízes de paz da Sé e soldados, exigiram revistar a casa, mas nervosamente, Domingos dissera que os únicos africanos presentes eram seus inquilinos. Insistia no bom comportamento de ambos, mas não convenceu às autoridades. O alfaiate mulato não estava colaborando com o centro nervoso da rebelião por livre e espontânea vontade. Tentava salvar a vida da mulher e filha, e a dele próprio, tendo sido ameaçado pelos guerrilheiros.

Apesar da resistência de Domingos, os soldados tiveram acesso ao interior do prédio, de onde saíram cerca de 60 pretos gritando em bom português: “Mata soldado”, além de palavras de ordem gritadas à maneira de sua terra. A invasão à casa de Calafate ocorreu à uma hora da manhã, quando os rebeldes contavam com pelo menos com mais três ou quatro horas até o início do levante. “Agora vamos nos levantar, por que não tem remédio”, esta foi a frase ouvida pelo escravo Pompeu, que viera do Recôncavo para se juntar ao grupo.

A guerra começara em frente ao sobrado. Embora alguns rebeldes tivessem morrido ali mesmo, conseguiram desbaratar os surpresos adversários. Os insurgentes feriram cinco pessoas, entre os quais um tenente e um soldado, o último mortalmente ferido. Um africano foi morto a cacetadas, e o outro com uma bala na cabeça. Um deles era o companheiro de Sabina da Cruz, Vitório Sule, “que morrera fazendo a guerra em Guadalupe”. Maktub.

O plano original era atacar a cidade nas últimas horas invisíveis da madrugada. A precipitação nos planos, causada pela denúncia, fez com que os grupos se dividissem e fossem bater às portas das casas, avisando aos companheiros que a rebelião estava em curso. Parte do grupo seguiu para a Rua da Ajuda, onde fez repetidas tentativas de arrombamento da cadeia. A intenção era libertar o mestre malê Pacífico Licutan. De nação nagô, Licutan estava preso como garantia de uma dívida, contraída pelo seu senhor.

Como não havia cometido nenhum crime, podia receber visitas, sem maiores restrições, o que deve ter facilitado a sua participação na organização do levante. Estimado pela comunidade muçulmana da época, a libertação do alufá era um dos objetivos do levante, por isso o ataque à cadeia.

O insucesso no assédio à prisão fez com que saíssem ao Largo do Teatro, onde puseram a correr uma pequena força formada por oito soldados regulares. A capital ainda estava aparvalhada com a ousadia dos guerrilheiros. Apesar da incompleta surpresa, as forças repressivas não esperavam estratégia similar à de 1830. Tanto é que no início da batalha, na casa de Calafate, apenas dois soldados tinham armas carregadas e prontas para atirar.

O próximo objetivo seria juntar-se ao grupo de revolucionários da Vitória, mas para isso, teriam que passar pelo Forte de São Pedro. Como a meta não era atacar o quartel, não conseguindo passar pela artilharia, protegida pelos muros do prédio, tiveram que recuar.

Foi a vez dos rebeldes da Vitória darem continuidade ao plano, vindo encontrar a primeira onda de rebeldes em frente ao Forte. O chefe de polícia, que tinha seguido para o Bomfim, recebeu aviso de que os insurrectos estavam atacando a cidade e marchavam para Água de Meninos, em direção ao quartel da cavalaria.

Após estender a cavalaria em linha de combate e aquartelado soldados armados, para fazer fogo aos insurgentes, era apenas uma questão de espera. Minutos depois, ali chegavam os guerrilheiros. A estratégia dera certo. O combate fora desigual.

Armas de fogo disparadas por soldados de dentro do quartel, contra espadas e uma ou outra garrucha, além de cavaleiros hábeis contra uma infantaria a pé e destreinada. Cerca de 40 africanos morreram no embate, ficando outros tantos feridos. Houve quem tentasse fugir a nado, muitos aparecendo depois afogados. Estava debelada a insurreição.

Os malês optaram por uma guerra contra o poderio oficial estabelecido. Não consta que matassem senhores ocultamente ou lançassem mão de artifícios como incêndios ou assassinatos da população civil, medidas desumanas, mas que talvez contribuíssem para lançar o caos sobre a cidade. Parece que a mão de Alah se estendera sobre mulheres e crianças brancas daquela Cidade da Bahia, em 1835. A harb, a autodefesa islâmica legitimada no livro sagrado, impede o ataque a indefesos.

A única notícia de incêndio é fornecida por Nina Rodrigues. “Assim, das seis para as sete horas da manhã, saíram seis negros, armados e vestidos em trajes de guerra, os quais lançaram fogo à casa do senhor e tentaram rumar para Água de Meninos, onde para logo foram mortos”. Evidentemente, tratavam-se de retardatários, que saíram às ruas ignorando o levante já sufocado. Os últimos a irem para o massacre.


Albenísio Fonseca é jornalista

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