O artesanato e a razão da máquina

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Albenísio Fonseca

Fazer alguma coisa é conhecer a fórmula mágica que permitiu inventá-la ou fazê-la aparecer de maneira “espontânea”. Por essa razão, o artesão sempre foi visto com respeito ou temor, já que é detentor de um segredo, pois todos os ofícios comportam uma iniciação que se transmite por meio de uma tradição oculta. Consta que Dédalus, arquiteto e artesão de renome, possuía movimentada oficina em Atenas, onde ensinava seu ofício a vários aprendizes. Um deles, seu sobrinho Talo, suplantou-o em criatividade a ponto de inventar o serrote, o torno de oleiro e o compasso.

Enciumado, Dédalo assassinou-o e foi condenado ao degredo. O caráter mágico do artesão, contudo, foi substituído, contemporaneamente, por uma linguagem e um saber-fazer tão estranho aos não-iniciados que cada um desses grupos continua a manter, para os demais, sua aparência de mistério. Na luta pela sobrevivência, o ser humano (ao longo do decurso histórico) teve que executar atividades penosas e que requeriam grande dose de esforço físico.

Talo, sobrinho de Dédalo, criou instrumentos cuja finalidade era tornar menos árduo o trabalho e que, inicialmente feitos de ferro, acabaram por receber a designação genérica de ferramentas. A utilização dessas ferramentas, uma extensão das mãos, exige apenas habilidade e um mínimo de adestramento. É por isso que a passagem da ferramenta para a máquina significa também rejeição a todo um caráter litúrgico do trabalho.

HISTÓRIA, HÁ 6 MIL ANOS

A inexistência ou mesmo a precariedade de instrumentos auxiliares é que certamente provocou a necessidade da domesticação de animais, e da submissão de outros homens pela força, obrigando-os a tarefas exaustivas de que se eximiam os dominadores. A limitação dessa atividade vai decorrer tanto por problemas de natureza ética quanto pela dificuldade de manter-se o controle sobre contingentes escravizados, o que não deixou, contudo, de gerar derivados, do qual a máquina é a expressão moderna.

A história do artesanato tem início com a própria história do homem, pois a necessidade de se produzir bens e utilidades de uso rotineiro, e até mesmo adornos, expressou a capacidade criativa e produtiva como forma de trabalho. Os primeiros artesãos surgiram no período neolítico (6.000 a.C) quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica e a tecer fibras animais e vegetais.

No Brasil, o artesanato também surgiu neste período. Os índios foram os mais antigos artesãos. Eles utilizavam a arte da pintura usando pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica, sem esquecer a arte plumária como os cocares, tangas e outras peças de vestuário feitos com penas e plumas de aves.

O artesanato pode ser erudito, popular e folclórico, podendo ser manifestado de várias formas como, nas cerâmicas utilitárias, funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais (sedenho), fabrico de farinha de mandioca, monjolo de pé de água, engenhocas, instrumentos de música, tintura popular. E também encontram-se nas pinturas e desenhos (primitivos), esculturas, trabalhos em madeiras, pedra guaraná, cera, miolo de pão, massa de açúcar, bijuteria, renda, filé, crochê, papel recortado para enfeite, e tantas mais.

O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo e garante o sustento de muitas famílias e comunidades. O artesanato faz parte do folclore e revela usos, costumes, tradições e características de cada região.

A produção artesanal, por si só, hoje, é uma questão complexa. Entre alguns fatores de ordem tecnológica, que o artesão (via de regra) parece desconhecer ou não aplicar no desempenho da sua atividade, podem ser arroladas as técnicas de definição da temática, da criação (considerando-se os fatores históricos e culturais), escolha de matéria-prima adequada, conhecimentos e domínio da técnica escolhida e conhecimento da técnica da fase de acabamento.

A carência de entidades de classe organizadas e conhecedoras dos valores e direitos da categoria, e que ao mesmo tempo disponham de recursos técnicos para facilitar o desempenho do desenvolvimento das atividades, seja ao nível sociológico, tecnológico, político, econômico, comercial ou jurídico – tem sido um entrave ao desenvolvimento do artesão.

TÉCNICA DERIVA DE ARTE

Técnica, é bom lembrar, deriva de “Techne”, palavra grega que significa “arte”, sentido que menos possui no entendimento atual. O certo, no entanto, é que a técnica existe desde que o homem conseguiu fabricar artefatos, ainda que rudimentares. Inicialmente, essas técnicas eram ao mesmo tempo mistérios (os “segredos do ofício”), situando o homem arcaico num universo saturado de sacralidade. Hoje, reina ainda, bem mais conceitual que arquetipicamente, uma grande confusão entre teoria, ciência e técnica, compreensível na medida em que o papel da ciência é o de fundamentar a civilização tecnológica.

Também proveniente do grego, “theoria” no entendimento original correspondia a contemplação. A separação entre teoria e prática era desconhecida no significado original. Modernamente, contudo, converteu-se em instrumento ideológico. A ciência, que não é filosofia, embora tenha se desenvolvido a partir do horizonte aberto por esta, é muito mais um ardil teórico. E, como todo ardil, é uma aparelhagem de captura.

Com isso, a própria ciência se torna tecnologia, ou seja, instrumento de apresamento da realidade. A razão da máquina – que não é uma soma de ferramentas ou uma ferramenta muito rápida – é a submissão da natureza. A distinção é clara: a ferramenta serve ao trabalho humano, que a cria em função de suas necessidades, enquanto que a máquina projeta o trabalho humano, e dele se serve.

Para o homem grego, a natureza tinha que ser compreendida e assimilada, nunca submetida. O cálculo utilitário, no entanto, converteu a produção e o consumo no próprio sentido da vida. Toda essa discussão é secular.

O abandono da herança clássica pela visão moderna pode ser resumido na afirmação, quase um vaticínio, de Charles Chaplin: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

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Design – A ilusão estratégica

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Albenísio Fonseca

Até o século 19, o derivado da filosofia era a revolução, agora é o estilo. Essa modalidade do fazer regida sob a aura do único, do exclusivo, é um atributo com características pré-industriais, mas foi resgatada para a modernidade com o advento do design. No princípio era o verbo. Hoje, tudo é design. Desenho industrial.  Designo. Design. Embalagens de produtos, escolha e disposição de cores, formas, programação gráfico-visual de jornais, revistas, decoração, moda, arquitetura – o design está em toda a parte.

Verdadeiro processo industrial do estímulo, equacão funcional dos gostos, o design é uma ilusão estratégica, um invólucro articulado sobre o ideal do objeto, uma resolução estética regida sob o cálculo racional da funcionalidade. Já não se trata de valor de estilo ou conteúdo, mas do próprio processo da comunicação e da troca que a tudo designa.

“O belo é o útil e o útil é o significado”, já estipulava o poeta Décio Pignatari, um dos criadores da Poesia Concreta. O design tende sempre a ser um conjunto estético sem lapsos, sem falhas, sem comprometer a interconexão dos elementos e, inclusive, a transparência do processo, ideal sonhado pelos manipuladores de códigos, designers ou não.

Mas o fundamento da forma (mercadoria) e da economia política, nunca é dito. O design funda o sistema do valor de uso. Para que os produtos sejam trocáveis é preciso que sejam pensados em termos de utilidade. Do mesmo modo que no valor de troca o homem (produtor) não aparece como criador, mas como força de trabalho social abstrato – no sistema do valor de uso o homem (consumidor) numa aparece como desejo, mas como força de necessidade abstrata.

O que é consumido nunca é o próprio produto, mas sua utilidade. Se com a Revolução Industrial eventualizou-se a noção de produto, com a Bauhaus (mais importante escola de desenho e arquitetura em todo o mundo, fundada na Alemanha em 1919) tudo torna-se objeto, segundo uma lógica irreversível.

Simultâneo ao surgimento do objeto funcional, ocorre o do objeto surrealista: espécie de espelho mágico ridicularizador e transgressor do primeiro. O surrealismo ilustra e denuncia o esquartejamento do sujeito e do objeto. Ao libertar o objeto da sua função, revertendo-o em associações livres, a transgressão surrealista é, ainda, um jogo com objetos formais, figurativos.

Hoje, a funcionalidade quase artesanal da Bauhaus foi ultrapassada pelo design matemático e pela cibernética do ambiente. Vide as estruturas vivas, os prédios inteligentes. O que o design nos faz ver é que nosso ambiente é um universo de comunicação. Se começou por aplicar-se apenas aos produtos industriais – antes nada era objeto, nem mesmo o utensílio cotidiano – depois tudo é, tanto o prédio, como o talher, como a cidade inteira.

Tudo hoje é circunscrito pelo design. Tudo é designado: o corpo, a sexualidade, as relações humanas, sociais, políticas. Do mesmo modo, as necessidades e aspirações. Esse universo designado, ou em outra palavra, fetichizado, é que constitui, propriamente, o ambiente. Em suma, no processo econômico de troca, hoje, já não são as pessoas que efetuam trocas, mas o próprio sistema de troca, que se reproduz através delas.

Rodin na Bahia

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“Os burgueses de Calais” em http://www.dezpropaganda.com.br/blog/?p=125

Para ver Rodin,

além do modelado

Albenísio Fonseca

Em um país, no qual apenas 13% vão ao cinema uma vez por ano; só 17% compram livros; 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança; mais de 75% dos municípios não têm centros culturais, museus, teatros, cinemas ou espaço cultural multiuso, e 92% nunca visitaram um museu, soa como uma dádiva a abertura e permanência por três anos da exposição “Auguste Rodin, homem e gênio”. Com 62 esculturas em gesso, do artista, no Palacete das Artes Museu Rodin Bahia, é, sem dúvida, uma das atividades mais esperadas da programação do Ano da França no Brasil.

Independente do fabuloso legado e influência da sua escultura para gerações de escultores, em todo o mundo, vamos poder constatar o fenômeno da atualidade de seu trabalho no processo mesmo da recepção estética. Tema universal da escultura, o corpo humano é o alvo de seu trabalho e foco maior de seu interesse. Nessa corporeidade, enquanto réplica do ser, suas esculturas evocam, a um só tempo, a magia e o simulacro.

Como nenhum artista, em todo o decurso histórico, François-Auguste-René Rodin (1840 -1917) faz sua obra transitar de um renovado sentido de naturalismo – sem jamais perder seu caráter totêmico e mágico – para a condição de simulacro da vida fremente de valores primitivos e universais interligados. Um simulacro da corporeidade humana em diálogo com um outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima no seu espaço circundante.

O tema do corpo humano, sua materialização em qualquer momento e circunstância da história, gera um elo simbólico entre o artista e a matéria, entre criador e criatura, aí incluso o receptor da obra. Rodin antecipa as proposições dos surrealistas nos anos 30, ao estabelecer uma ponte entre a corporeidade de suas esculturas e o corpo real e vivo do espectador que se lhe acerca – estabelecendo um diálogo de corpos.

A escultura é a ciência do modelado. Mas, diferentemente da escultura  acadêmica de seu tempo, feita para ser vista de um só ponto frontal e de baixo para cima, na escultura de Rodin todos os ângulos são importantes.

Como diríamos de uma área de impacto, de trocas sensíveis entre o espectador e a obra, um campo de força, energético, vai exigir uma “leitura” ativa, andar em volta ou em movimento pendular de aproximar-se ou afastar-se. Se preferir, ainda, em diagonais, avistando das laterais os perfis possíveis das massas modeladas.

Marcada pelo naturalismo, segundo uma “poética das massas”, a humanidade na estatuária de Rodin, apresenta-se modelada em dinâmicas representações de energia física, biológica e emocional. Pesquisador do corpo humano e suas possibilidades vitais, ele desenvolveu um método experimental de análise e de captação das posturas e aparências das superfícies dos corpos masculinos e femininos. Estes com franca exposições dos órgãos sexuais a reforçar sua feminilidade.

De forma singular, segundo a ensaísta Daisy V. M. Peccinini de Alvarado, Rodin mantinha em seu ateliê modelos despidos. “Homens e mulheres, ora em repouso, ora em movimento, com a finalidade de fornecer-lhe imagens da nudez do corpo humano, nas posturas mais comuns da vida cotidiana ou mais complexas, sob condições de acontecimentos extraordinários. E de um modo que nos permitisse ler a expressão do pensar e do sentir em todas as partes do corpo: músculos, rugas, posturas, tensões e relaxamentos, a revelar pensamentos e sentimentos”.

Rodin parecia acreditar que cada situação criada na tridimensionalidade de uma escultura corresponde a um tipo de emoção ou sensação, articulando verdadeira fisiologia das paixões humanas, em revolucionária linguagem escultórica.

E que em lugar de permanecermos como periféricos da cultura (e do pensamento), tenha essa exposição de Rodin, para umpúblico multivariado, a possibilidade de tornar mais inteligente a nossa retina, frente à Medusa excludente que insiste em nos petrificar o olhar.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

Maio 68 – O calendário em chamas

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Estudantes franceses enfrentam a polícia, em maio de 68

Maio de 68

O calendário em chamas


Albenísio Fonseca


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Automóveis revirados serviram de barricadas

Fragmentos de utopia e racionalidade, delírios mirabolantes e o desejo em pleno fulgor, constituíram-se no principal combustível impulsionador de reivindicações em maio de 68. Na Europa, nos Estados Unidos, na China e também na América Latina, 1968 é um ano sobre o qual se pode afirmar que o calendário foi posto em chamas, tamanha foram as convulsões sociais  ocorridas no mundo.

É o ano da última apresentação do programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, e início do “Divino Maravilhoso”, apresentado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Marca o início da guerrilha no Brasil e da decretação do AI-5. Do assassinato de Martin Luther King e do vôo pioneiro da nave Apolo 7 em torno da Lua com três astronautas a bordo. Da invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia. Do início da ofensiva final do Vietnã do Norte contra as forças norte-americanas e sul-vietnamitas. Da prisão de 1.200 estudantes durante o clandestino 30º Congresso da UNE em Ibiúna (SP).

Acontecem, ainda, a estréia no Brasil do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, e o lançamento do álbum branco dos Beatles. Mas é Paris o centro nervoso dos principais acontecimentos. Se 10 mil estudantes participam do protesto contra o fechamento da Sorbonne, no dia 6, no dia 10 cerca de 20 mil enfrentam a polícia na denominada “Noite das Barricadas”, resultando em 367 feridos e 468 presos. A CGT francesa (que reunia à época 10 milhões de trabalhadores) realiza greve de 24 horas em solidariedade aos estudantes.

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No dia 13, todas as universidades francesas são ocupadas pelos alunos. Três dias depois, uma greve surpresa deixa Paris sem jornais. O Festival de Cannes tem sua principal sala de exibição invadida por profissionais de cinema e é suspenso.

Dia 20, Paris amanhece sem serviços de metrô, ônibus, táxi, telefones,correios, pão e jornais. Seis milhões de trabalhadores ocupam 300 fábricas em toda a França. Inúmeros confrontos são verificados entre estudantes e a polícia.

Dia 30, De Gaulle dissolve o Parlamento francês com apoio do Exército e convoca eleições gerais. “O conteúdo teórico do que vivemos hoje foi desenvolvido naquele período. 68 é o auge da evidência do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade”, salientava nessa entrevista concedida em 1988, o professor de Filosofia Ubirajara Rebouças (1937-2001), presente em Paris, à época.

Para caracterizar aquilo que foi Maio de 68 e essa sua sobrevivência, vale repetir três frases muito representativas da utopia do período e que, grafitadas nos muros, circularam o mundo inteiro estampadas em jornais (principalmente “alternativos”), pôsteres e camisetas. Diziam: “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”, “A imaginação no poder” e, “É proibido proibir”. 1968, sob vários aspectos, é o começo do fim. Do sonho. Re-leia a entrevista:

Albenísio Fonseca – Professor Ubirajara Rebouças, o senhor estava na França em 1968 e pôde acompanhar de perto todas aquelas manifestações ocorridas, durante o mês de maio. Aliás, o maio de 68 começou mesmo a ocorrer em março quando os estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre, na periferia de Paris. Mas o que de fato determinou toda aquela situação, o que gerou o maio de 68?

Ubirajara Rebouças – Bom, devemos distinguir dois tipos de fatores antecedentes. Um, de imediato, que diz respeito à situação concreta da França, particularmente a situação da universidade francesa que era extremamente conservadora no que tange à relação entre docentes e estudantes, posição do professor na sociedade, crise ideológica, perda de legitimidade da instituição universitária justamente por ser conservadora, por estar muito aquém do desenvolvimento da vida social.

Naquela altura, na França, se travava intensa discussão de caráter político-ideológico, sobretudo no meio universitário, sobre democracia, sobre democratização da Universidade. Reivindicava-se ampliação do número de vagas e de construção de novas universidades, isso de um lado como causa imediata.Mas como fator de longo alcance que afetava o mundo e que está na origem do movimento de 68, era a crise da cultura contemporânea que ocorria não só na França, mas em toda a Europa Ocidental, nos Estados Unidos, na Ásia (a China naquela época vivia a sua Revolução Cultural).

Havia, então, um movimento de crise da cultura e de crítica da cultura – foi o auge do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – e sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, do pensamento que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade e que, no ano de 68, chegou a uma espécie de maturação, não só entre os estudantes, mas em todos os que militaram naquela época, acreditando na possibilidade de materializar essa utopia. Essa aspiração utópica é muito marcante e fundamental para entender o maio de 68.

AF – E quais eram os principais ideólogos dessa utopia naquele momento?

UR
 – Em 1965, Marcuse tinha escrito um livro que foi lançado na França em 67, chamado “O Fim da Utopia”. Mas, apesar do título, propunha, ao contrário, uma luta pela realização da utopia. O pensamento de Marcuse até essa época era muito marcado pela experiência da transformação. Ele tinha certeza que era possível transformar o mundo, não transformar da maneira tradicional, que os marxistas esperavam, mediante a militância exclusivamente operária, mas recorrendo às energias revolucionárias de uma outra parte da população que envolvia operários, estudantes e técnicos, sobretudo.

AF – O que significa maio de 68, hoje?

UR – Hoje, nós temos que constatar o fracasso das expectativas que tivemos em maio de 68, isso é fundamental. As expectativas, a utopia de maio de 68 não se realizou, talvez pelo seu caráter utópico mesmo, no sentido de que sendo utópico é irrealizável, isto o balanço negativo. No balanço positivo temos o fato de que, no mundo contemporâneo, nós incorporamos, somos os herdeiros de algumas das esperanças que surgiram em 68. O conjunto das relações sociais, ou pelo menos, senão de todas as relações sociais, das relações humanas entre certas camadas da população, foi afetada ou está marcado pela luta de 68.

Acho que conseguimos eliminar ou pelo menos reduzir nas nossas vidas o peso de certos preconceitos, certos tabus, em grande parte devido à Revolução de 68. E digo “revolução”, apesar de que não se materializou, não transformou o mundo na medida em que pretendia, mas acho que transformou em outra medida, no plano das formas de vida, sobretudo nos moldes de vida eu acho que 68 ainda está muito presente.

Por isso mesmo há esse interesse muito grande por reencarar o que foi maio de 68. Para caracterizar aquilo que foi maio de 68 e essa sua sobrevivência, talvez devamos repetir aqui duas frases que circularam muito naquele período pelo mundo inteiro. Uma delas a que dizia: “É proibido proibir” e outra “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”. Duas frases muito representativas da utopia de 68.

AF – Esse caráter libertário que essas frases explicitam não constituiria, na realidade, uma leitura existencialista do marxismo?

UR – Em parte. Talvez mais uma leitura utópica do marxismo, aquela leitura feita por Marcuse. Acho também que há uma influência do existencialismo, mas não tão grande, é mais uma versão marxista libertária, aquela representada por Marcuse e por alguns outros como o próprio Daniel Cohn-Bendit, que era mais militante, mas que era alguém que dispunha de uma capacidade teórica muito grande, e alguns outros, que tiveram importância decisiva para a eclosão do movimento na França, como Henri Lefvbre, marxista também, mas que fazia uma crítica ao marxismo ortodoxo apontando para uma outra direção.

AF – Em 68 ocorre a publicação, inclusive no Brasil, de muitos teóricos marxista, o Luckácz, Louis Althusser, Pierre Bordieu…

UR – É verdade, mas há aí um fenômeno interessante. O Althusser, em 68 cai muito. Ele que havia realizado uma releitura de Marx teve muita evidência de 64 até o início de 68. Mas os pensadores que mais tiveram influência em 68 foram Lefvebre, Marcuse e Guy Debord (autor de “A Sociedade do Espetáculo”). O existencialismo, nessa época, já tinha perdido um pouco sua influência na sociedade francesa. Outro pensador que teve influência em 68 foi Sartre, mas, paradoxalmente, uma influência enquanto militante. Mas já não tinha compromisso com o existencialismo e recusava até o termo de existencialista e se considerava um marxista.

AF – Sei, mas havia também uma grande efervescência do estruturalismo, da lingüística, da semiologia, da antropologia, da antipsiquiatria como  verdadeiros “pratos-do-dia” das leituras acadêmicas, não é mesmo?

UR 
– Exato. Do ponto de vista teórico ocorria de fato uma revolução. Era a época do pensamento libertário. Agora havia algumas questões que se chocavam muito. O estruturalismo, por exemplo, era visto até como um pensamento muito formalista, conservador. O certo é que o conteúdo teórico de que nós vivemos hoje foi desenvolvido ali naquela época.

AF – É um período de rompimento com a noção clássica de humanismo, contra a metafísica enquanto medida do homem, propondo uma visão mais ideológica da realidade e que passou à história como um “anti-humanismo”. O que é esse anti-humanismo?

UR – Olha, o termo é até ambíguo porque, de um lado, havia uma crítica do humanismo abstrato, que é uma crítica que tinha começado com o Marx. Um certo humanismo, então, foi criticado desde o século passado e essa  tradição de crítica ao humanismo permaneceu.

Porém, quem fazia crítica ao humanismo abstrato eram aqueles que queriam reivindicar ou construir o humanismo concreto, o marxismo e o existencialismo, foram essas duas correntes filosóficas que reivindicavam um novo humanismo, tanto que Sartre escreveu um livro chamado “O Existencialismo e o Humanismo”. Mas que humanismo era esse, senão, em certo sentido, um anti-humanismo abstrato. Já a corrente estruturalista é anti-humanista em outro sentido, muito particular, em que a noção de homem e de sujeito (o homem enquanto sujeito da história) no estruturalismo perde importância e quase que desaparece em proveito da noção de estrutura. Foucault, por exemplo, no livro “As Palavras e as Coisas”, diz claramente que o estudo da história é o estudo das estruturas discursivas. É o discurso do sujeito que não é sujeito nenhum. Nesse sentido é um anti-humanismo.

AF – Qual é a condição do sujeito hoje, ele teria sofrido uma derrocada, digamos assim, e passa a constituir-se em indivíduo, nessa atomização de indivíduos como vemos hoje?

UR – Eu acho que essa atomização já vem de bem antes. Agora, o que me parece ocorre de fato (e 68 é o sintoma à mostra) é uma crise do sujeito. O desenvolvimento das sociedades capitalistas, mas não só destas, como das sociedades em transição como o Brasil e o México, tem levado ao fragmentário com a tendência da pessoa desaparecer e ocasionando o ressurgimento da figura do indivíduo. De 68 para cá temos assistido a um revigoramento da Psicanálise que é uma prática que pretende recuperar o sujeito em nível individual, de uma relação terapêutica individual. A Psicanálise seria a grande herdeira, de um lado, do estruturalismo, e de outro, de um certo humanismo, o que afirma como prioritário a realização do desejo.

AF – Questões como a diferença (afinal, não só se formulou um pensamento diferente quanto uma nova forma de pensar a diferença) e a verdade (que deixou de ser absoluta para ser individualizada) são marcantes a partir de 68, não é mesmo?

UR – A questão da verdade, da crítica à concepção de verdade é uma coisa que vem de bem antes. A crítica à verdade absoluta é feita desde a origem da Filosofia, é um tema central na história da Filosofia, entre a verdade absoluta e a verdade relativa. Em maio de 68 essa questão passou em nível da prática, na tentativa de realização prática: cada um tem a sua verdade. Agora, quanto à questão da diferença, de afirmar a diferença, também é uma questão de alguns anos antes de 68, mas que em 68 é colocada como central.

AF – Havia, ainda, a questão da diferença…

UR – Sim, Jacques Derrida, que é um filósofo também muito importante naquele período, foi alguém que vinha desde fins da década de 50 trabalhando sobre a noção de diferença. Escreveu, inclusive, o livro “A Escritura e a Diferença” e todo o grupo ligado a ele, principalmente Deleuze e Guattari vieram a aplicar essa noção na antipsiquiatria. É com eles que os chamados loucos, psicóticos, passam a ter reconhecida uma forma possível de vida humana.

~ por Albenisio em 6 06UTC maio 06UTC 2008.

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