Maio 68 – O calendário em chamas

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Estudantes franceses enfrentam a polícia, em maio de 68

Maio de 68

O calendário em chamas


Albenísio Fonseca


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Automóveis revirados serviram de barricadas

Fragmentos de utopia e racionalidade, delírios mirabolantes e o desejo em pleno fulgor, constituíram-se no principal combustível impulsionador de reivindicações em maio de 68. Na Europa, nos Estados Unidos, na China e também na América Latina, 1968 é um ano sobre o qual se pode afirmar que o calendário foi posto em chamas, tamanha foram as convulsões sociais  ocorridas no mundo.

É o ano da última apresentação do programa “Jovem Guarda”, apresentado por Roberto Carlos, e início do “Divino Maravilhoso”, apresentado por Gilberto Gil e Caetano Veloso. Marca o início da guerrilha no Brasil e da decretação do AI-5. Do assassinato de Martin Luther King e do vôo pioneiro da nave Apolo 7 em torno da Lua com três astronautas a bordo. Da invasão da Tchecoslováquia por tropas do Pacto de Varsóvia. Do início da ofensiva final do Vietnã do Norte contra as forças norte-americanas e sul-vietnamitas. Da prisão de 1.200 estudantes durante o clandestino 30º Congresso da UNE em Ibiúna (SP).

Acontecem, ainda, a estréia no Brasil do filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, e o lançamento do álbum branco dos Beatles. Mas é Paris o centro nervoso dos principais acontecimentos. Se 10 mil estudantes participam do protesto contra o fechamento da Sorbonne, no dia 6, no dia 10 cerca de 20 mil enfrentam a polícia na denominada “Noite das Barricadas”, resultando em 367 feridos e 468 presos. A CGT francesa (que reunia à época 10 milhões de trabalhadores) realiza greve de 24 horas em solidariedade aos estudantes.

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No dia 13, todas as universidades francesas são ocupadas pelos alunos. Três dias depois, uma greve surpresa deixa Paris sem jornais. O Festival de Cannes tem sua principal sala de exibição invadida por profissionais de cinema e é suspenso.

Dia 20, Paris amanhece sem serviços de metrô, ônibus, táxi, telefones,correios, pão e jornais. Seis milhões de trabalhadores ocupam 300 fábricas em toda a França. Inúmeros confrontos são verificados entre estudantes e a polícia.

Dia 30, De Gaulle dissolve o Parlamento francês com apoio do Exército e convoca eleições gerais. “O conteúdo teórico do que vivemos hoje foi desenvolvido naquele período. 68 é o auge da evidência do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade”, salientava nessa entrevista concedida em 1988, o professor de Filosofia Ubirajara Rebouças (1937-2001), presente em Paris, à época.

Para caracterizar aquilo que foi Maio de 68 e essa sua sobrevivência, vale repetir três frases muito representativas da utopia do período e que, grafitadas nos muros, circularam o mundo inteiro estampadas em jornais (principalmente “alternativos”), pôsteres e camisetas. Diziam: “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”, “A imaginação no poder” e, “É proibido proibir”. 1968, sob vários aspectos, é o começo do fim. Do sonho. Re-leia a entrevista:

Albenísio Fonseca – Professor Ubirajara Rebouças, o senhor estava na França em 1968 e pôde acompanhar de perto todas aquelas manifestações ocorridas, durante o mês de maio. Aliás, o maio de 68 começou mesmo a ocorrer em março quando os estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre, na periferia de Paris. Mas o que de fato determinou toda aquela situação, o que gerou o maio de 68?

Ubirajara Rebouças – Bom, devemos distinguir dois tipos de fatores antecedentes. Um, de imediato, que diz respeito à situação concreta da França, particularmente a situação da universidade francesa que era extremamente conservadora no que tange à relação entre docentes e estudantes, posição do professor na sociedade, crise ideológica, perda de legitimidade da instituição universitária justamente por ser conservadora, por estar muito aquém do desenvolvimento da vida social.

Naquela altura, na França, se travava intensa discussão de caráter político-ideológico, sobretudo no meio universitário, sobre democracia, sobre democratização da Universidade. Reivindicava-se ampliação do número de vagas e de construção de novas universidades, isso de um lado como causa imediata.Mas como fator de longo alcance que afetava o mundo e que está na origem do movimento de 68, era a crise da cultura contemporânea que ocorria não só na França, mas em toda a Europa Ocidental, nos Estados Unidos, na Ásia (a China naquela época vivia a sua Revolução Cultural).

Havia, então, um movimento de crise da cultura e de crítica da cultura – foi o auge do surgimento das ideologias da contracultura nascidas no final da década de 50 e início da década de 60 – e sobretudo, de um pensamento de caráter utópico, isto é, do pensamento que pretendia conceber uma nova forma de vida social, uma nova forma de sociedade e que, no ano de 68, chegou a uma espécie de maturação, não só entre os estudantes, mas em todos os que militaram naquela época, acreditando na possibilidade de materializar essa utopia. Essa aspiração utópica é muito marcante e fundamental para entender o maio de 68.

AF – E quais eram os principais ideólogos dessa utopia naquele momento?

UR
 – Em 1965, Marcuse tinha escrito um livro que foi lançado na França em 67, chamado “O Fim da Utopia”. Mas, apesar do título, propunha, ao contrário, uma luta pela realização da utopia. O pensamento de Marcuse até essa época era muito marcado pela experiência da transformação. Ele tinha certeza que era possível transformar o mundo, não transformar da maneira tradicional, que os marxistas esperavam, mediante a militância exclusivamente operária, mas recorrendo às energias revolucionárias de uma outra parte da população que envolvia operários, estudantes e técnicos, sobretudo.

AF – O que significa maio de 68, hoje?

UR – Hoje, nós temos que constatar o fracasso das expectativas que tivemos em maio de 68, isso é fundamental. As expectativas, a utopia de maio de 68 não se realizou, talvez pelo seu caráter utópico mesmo, no sentido de que sendo utópico é irrealizável, isto o balanço negativo. No balanço positivo temos o fato de que, no mundo contemporâneo, nós incorporamos, somos os herdeiros de algumas das esperanças que surgiram em 68. O conjunto das relações sociais, ou pelo menos, senão de todas as relações sociais, das relações humanas entre certas camadas da população, foi afetada ou está marcado pela luta de 68.

Acho que conseguimos eliminar ou pelo menos reduzir nas nossas vidas o peso de certos preconceitos, certos tabus, em grande parte devido à Revolução de 68. E digo “revolução”, apesar de que não se materializou, não transformou o mundo na medida em que pretendia, mas acho que transformou em outra medida, no plano das formas de vida, sobretudo nos moldes de vida eu acho que 68 ainda está muito presente.

Por isso mesmo há esse interesse muito grande por reencarar o que foi maio de 68. Para caracterizar aquilo que foi maio de 68 e essa sua sobrevivência, talvez devamos repetir aqui duas frases que circularam muito naquele período pelo mundo inteiro. Uma delas a que dizia: “É proibido proibir” e outra “Corre, camarada, que o velho mundo está atrás”. Duas frases muito representativas da utopia de 68.

AF – Esse caráter libertário que essas frases explicitam não constituiria, na realidade, uma leitura existencialista do marxismo?

UR – Em parte. Talvez mais uma leitura utópica do marxismo, aquela leitura feita por Marcuse. Acho também que há uma influência do existencialismo, mas não tão grande, é mais uma versão marxista libertária, aquela representada por Marcuse e por alguns outros como o próprio Daniel Cohn-Bendit, que era mais militante, mas que era alguém que dispunha de uma capacidade teórica muito grande, e alguns outros, que tiveram importância decisiva para a eclosão do movimento na França, como Henri Lefvbre, marxista também, mas que fazia uma crítica ao marxismo ortodoxo apontando para uma outra direção.

AF – Em 68 ocorre a publicação, inclusive no Brasil, de muitos teóricos marxista, o Luckácz, Louis Althusser, Pierre Bordieu…

UR – É verdade, mas há aí um fenômeno interessante. O Althusser, em 68 cai muito. Ele que havia realizado uma releitura de Marx teve muita evidência de 64 até o início de 68. Mas os pensadores que mais tiveram influência em 68 foram Lefvebre, Marcuse e Guy Debord (autor de “A Sociedade do Espetáculo”). O existencialismo, nessa época, já tinha perdido um pouco sua influência na sociedade francesa. Outro pensador que teve influência em 68 foi Sartre, mas, paradoxalmente, uma influência enquanto militante. Mas já não tinha compromisso com o existencialismo e recusava até o termo de existencialista e se considerava um marxista.

AF – Sei, mas havia também uma grande efervescência do estruturalismo, da lingüística, da semiologia, da antropologia, da antipsiquiatria como  verdadeiros “pratos-do-dia” das leituras acadêmicas, não é mesmo?

UR 
– Exato. Do ponto de vista teórico ocorria de fato uma revolução. Era a época do pensamento libertário. Agora havia algumas questões que se chocavam muito. O estruturalismo, por exemplo, era visto até como um pensamento muito formalista, conservador. O certo é que o conteúdo teórico de que nós vivemos hoje foi desenvolvido ali naquela época.

AF – É um período de rompimento com a noção clássica de humanismo, contra a metafísica enquanto medida do homem, propondo uma visão mais ideológica da realidade e que passou à história como um “anti-humanismo”. O que é esse anti-humanismo?

UR – Olha, o termo é até ambíguo porque, de um lado, havia uma crítica do humanismo abstrato, que é uma crítica que tinha começado com o Marx. Um certo humanismo, então, foi criticado desde o século passado e essa  tradição de crítica ao humanismo permaneceu.

Porém, quem fazia crítica ao humanismo abstrato eram aqueles que queriam reivindicar ou construir o humanismo concreto, o marxismo e o existencialismo, foram essas duas correntes filosóficas que reivindicavam um novo humanismo, tanto que Sartre escreveu um livro chamado “O Existencialismo e o Humanismo”. Mas que humanismo era esse, senão, em certo sentido, um anti-humanismo abstrato. Já a corrente estruturalista é anti-humanista em outro sentido, muito particular, em que a noção de homem e de sujeito (o homem enquanto sujeito da história) no estruturalismo perde importância e quase que desaparece em proveito da noção de estrutura. Foucault, por exemplo, no livro “As Palavras e as Coisas”, diz claramente que o estudo da história é o estudo das estruturas discursivas. É o discurso do sujeito que não é sujeito nenhum. Nesse sentido é um anti-humanismo.

AF – Qual é a condição do sujeito hoje, ele teria sofrido uma derrocada, digamos assim, e passa a constituir-se em indivíduo, nessa atomização de indivíduos como vemos hoje?

UR – Eu acho que essa atomização já vem de bem antes. Agora, o que me parece ocorre de fato (e 68 é o sintoma à mostra) é uma crise do sujeito. O desenvolvimento das sociedades capitalistas, mas não só destas, como das sociedades em transição como o Brasil e o México, tem levado ao fragmentário com a tendência da pessoa desaparecer e ocasionando o ressurgimento da figura do indivíduo. De 68 para cá temos assistido a um revigoramento da Psicanálise que é uma prática que pretende recuperar o sujeito em nível individual, de uma relação terapêutica individual. A Psicanálise seria a grande herdeira, de um lado, do estruturalismo, e de outro, de um certo humanismo, o que afirma como prioritário a realização do desejo.

AF – Questões como a diferença (afinal, não só se formulou um pensamento diferente quanto uma nova forma de pensar a diferença) e a verdade (que deixou de ser absoluta para ser individualizada) são marcantes a partir de 68, não é mesmo?

UR – A questão da verdade, da crítica à concepção de verdade é uma coisa que vem de bem antes. A crítica à verdade absoluta é feita desde a origem da Filosofia, é um tema central na história da Filosofia, entre a verdade absoluta e a verdade relativa. Em maio de 68 essa questão passou em nível da prática, na tentativa de realização prática: cada um tem a sua verdade. Agora, quanto à questão da diferença, de afirmar a diferença, também é uma questão de alguns anos antes de 68, mas que em 68 é colocada como central.

AF – Havia, ainda, a questão da diferença…

UR – Sim, Jacques Derrida, que é um filósofo também muito importante naquele período, foi alguém que vinha desde fins da década de 50 trabalhando sobre a noção de diferença. Escreveu, inclusive, o livro “A Escritura e a Diferença” e todo o grupo ligado a ele, principalmente Deleuze e Guattari vieram a aplicar essa noção na antipsiquiatria. É com eles que os chamados loucos, psicóticos, passam a ter reconhecida uma forma possível de vida humana.

~ por Albenisio em 6 06UTC maio 06UTC 2008.

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