Rodin na Bahia

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“Os burgueses de Calais” em http://www.dezpropaganda.com.br/blog/?p=125

Para ver Rodin,

além do modelado

Albenísio Fonseca

Em um país, no qual apenas 13% vão ao cinema uma vez por ano; só 17% compram livros; 78% nunca assistiram a um espetáculo de dança; mais de 75% dos municípios não têm centros culturais, museus, teatros, cinemas ou espaço cultural multiuso, e 92% nunca visitaram um museu, soa como uma dádiva a abertura e permanência por três anos da exposição “Auguste Rodin, homem e gênio”. Com 62 esculturas em gesso, do artista, no Palacete das Artes Museu Rodin Bahia, é, sem dúvida, uma das atividades mais esperadas da programação do Ano da França no Brasil.

Independente do fabuloso legado e influência da sua escultura para gerações de escultores, em todo o mundo, vamos poder constatar o fenômeno da atualidade de seu trabalho no processo mesmo da recepção estética. Tema universal da escultura, o corpo humano é o alvo de seu trabalho e foco maior de seu interesse. Nessa corporeidade, enquanto réplica do ser, suas esculturas evocam, a um só tempo, a magia e o simulacro.

Como nenhum artista, em todo o decurso histórico, François-Auguste-René Rodin (1840 -1917) faz sua obra transitar de um renovado sentido de naturalismo – sem jamais perder seu caráter totêmico e mágico – para a condição de simulacro da vida fremente de valores primitivos e universais interligados. Um simulacro da corporeidade humana em diálogo com um outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima no seu espaço circundante.

O tema do corpo humano, sua materialização em qualquer momento e circunstância da história, gera um elo simbólico entre o artista e a matéria, entre criador e criatura, aí incluso o receptor da obra. Rodin antecipa as proposições dos surrealistas nos anos 30, ao estabelecer uma ponte entre a corporeidade de suas esculturas e o corpo real e vivo do espectador que se lhe acerca – estabelecendo um diálogo de corpos.

A escultura é a ciência do modelado. Mas, diferentemente da escultura  acadêmica de seu tempo, feita para ser vista de um só ponto frontal e de baixo para cima, na escultura de Rodin todos os ângulos são importantes.

Como diríamos de uma área de impacto, de trocas sensíveis entre o espectador e a obra, um campo de força, energético, vai exigir uma “leitura” ativa, andar em volta ou em movimento pendular de aproximar-se ou afastar-se. Se preferir, ainda, em diagonais, avistando das laterais os perfis possíveis das massas modeladas.

Marcada pelo naturalismo, segundo uma “poética das massas”, a humanidade na estatuária de Rodin, apresenta-se modelada em dinâmicas representações de energia física, biológica e emocional. Pesquisador do corpo humano e suas possibilidades vitais, ele desenvolveu um método experimental de análise e de captação das posturas e aparências das superfícies dos corpos masculinos e femininos. Estes com franca exposições dos órgãos sexuais a reforçar sua feminilidade.

De forma singular, segundo a ensaísta Daisy V. M. Peccinini de Alvarado, Rodin mantinha em seu ateliê modelos despidos. “Homens e mulheres, ora em repouso, ora em movimento, com a finalidade de fornecer-lhe imagens da nudez do corpo humano, nas posturas mais comuns da vida cotidiana ou mais complexas, sob condições de acontecimentos extraordinários. E de um modo que nos permitisse ler a expressão do pensar e do sentir em todas as partes do corpo: músculos, rugas, posturas, tensões e relaxamentos, a revelar pensamentos e sentimentos”.

Rodin parecia acreditar que cada situação criada na tridimensionalidade de uma escultura corresponde a um tipo de emoção ou sensação, articulando verdadeira fisiologia das paixões humanas, em revolucionária linguagem escultórica.

E que em lugar de permanecermos como periféricos da cultura (e do pensamento), tenha essa exposição de Rodin, para umpúblico multivariado, a possibilidade de tornar mais inteligente a nossa retina, frente à Medusa excludente que insiste em nos petrificar o olhar.

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Albenísio Fonseca é jornalista, poeta e compositor 

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