Relógios digitais, o tempo descartável

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Albenísio Fonseca

Em pleno coração da sociedade utilitarista, são incontáveis os camelôs a oferecer os já consagrados relógios digitais ou movidos à pilha. Os vendedores ambulantes ocupam os pontos mais estratégicos da cidade para a comercialização de um novo conceito de tempo, o descartável. Distantes tecnologicamente dos tradicionais relógios de bolso, dos analógicos, automáticos, ou mesmo os de parede, os novos relógios induzem à reflexão sobre a própria noção de tempo desde o final de século 20.

Já não é o sino que dobra. A imediaticidade da vida na sociedade contemporânea requer dos objetos, acima de tudo, a funcionalidade, mas o uso dos relógios digitais, de baixo custo, enfatiza bem mais a função estética. Se a noção de valor de uso ainda persiste (“é preciso ter um relógio melhor e mais bonito que o dos outros”), isso ocorre porque a discriminação é uma das matérias-primas da sociedade capitalista. O acesso de consumidores dos estratos de baixa renda evidencia toda uma socialização dessas “máquinas do tempo”.

Time is money. A singularidade de um relógio proporciona uma designação de prestígio ao seu proprietário. No caso dos “digitais”, contudo, é o caráter efêmero que se consolida. O objeto/relógio sinaliza para um registro de ordenamento das atividades sociais, como um semáforo, regulamentando e cronometrando o fluxo do trabalho e dos momentos de lazer.

Produção começou nos anos 80

Os relógios digitais estão aí desde os anos 80. A sonoridade já não é a do tic-tac. Uma de suas características mais importantes é a possibilidade de troca de todos (ou quase todos) os seus componentes. Pode-se trocar pulseiras, aros e visores, em combinações de cores, bizarras ou não, com o vestuário. Esses “transplantes”, em que todos os órgãos são recambiados, foram adotados também pela indústria de tênis. A questão do engodo a que os consumidores estão submetidos na aquisição de um desses aparelhos envolve a garantia de resistência à água, que quase nunca corresponde à verdade. A garantia contra roubo parece inserir o virtual ladrão na linha de produção dos fabricantes.

Desde as mais remotas épocas, o tempo tem sido um dos principais fatores sobre os quais se formulam as visões coletivas de mundo. A própria transformação da vida é concebida diferentemente, de acordo com a noção que um povo tem da ação do tempo. Na sociedade moderna, o tempo (produto do trabalho dos relógios) é contínuo e irreversível. Sua passagem se dá em direção ao futuro. O relógio cronometra o movimento da Terra ao redor do Sol, ou mesmo do Sol sobre si próprio, que corresponde a 365 dias e seis horas. “O sol é o mesmo de uma forma relativa, mas você está mais velho”, cantaria o Pink Floyd, em Time, para nos despertar em “Dark side of the moon”, no contratempo de 1973. Mas continuamos a desperdiçá-lo e a perder as horas de forma descontrolada.

Cronos (deus do tempo na mitologia grega) é mesmo “um dos deuses mais lindos”, como poetiza Caetano Veloso na sua reverência ao Orixá “Tempo”, do panteão afro-brasileiro, fazendo-lhe um pedido pelo “prazer legítimo”. Nas sociedades antigas o passado é eleito como a principal força a atuar no tempo. Tanto o presente como o futuro são concebidos e desejados como reflexos de um passado longínquo, além, muito além, da memória, cuja ação se estende até o presente. Por esta razão, nas sociedades primitivas a vida social não tem o sentido de história mas de ritual. A vida social primitiva não é feita de mudanças sucessivas, mas da repetição rítmica do passado intemporal.

Com tecnologia made in Japan, Korea, China ou Twaian – via Zona Franca de Manaus, ou Assunção, no Paraguai, os relógios digitais compõem, na realidade, apenas um dos itens do amplo tabuleiro de importados oferecidos pelo mercado informal nas diversas capitais brasileiras. A maioria dos produtos insere grande parcela de consumidores no circuito global do avanço tecnológico. Uma fotografia estamparia a felicidade consumista: todos podem comprar um relógio, logo, tornaram-se todos felizes dominadores do tempo.


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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Héliosousa
    ago 12, 2011 @ 09:02:00

    Parabens, seu estilo só melhorou de coração

    Responder

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