Videocolagens


Nuvens (2002). Cory Arcangel. Modded Super Mario Brothers cartucho e projeção Top – detalhes (Arcangel). Bottom, instalação tiro no Museu Whitney (Knudsen).

Videocolagens

Novel, novelo. Personagem de novela. Horário nobre das paixões. A tevê funciona como um espelho mágico. Cria toda uma simulação de que o drama vivido por personagens fictícios nos envolve. Paixões irradiantes. Alucinação colorida da contemporaneidade. Faz com que tornemo-nos narcisos eletrônicos. Real e ficção contornando a sala de estar. Com vale tudo é olho por olho. Ao contrário das manifestações culturais autênticas, a mídia impõe o seu repertório, proporciona o seu próprio manancial.

Móvel, modelo. História ingênua. O bem vencendo o mal. Olhar convexo da ira mórbida. As contradições do social sendo naturalizadas na tela quente. Como juntar as peças desse mosaico? O Brasil é mesmo isso, um enorme quebra-cabeça. E a televisão, no fundo, é apenas o dado sintomático do diagnóstico mais geral. Miséria de um cotidiano produzido em frente às câmeras. Zoom total do panorama fragmentário.

Personagem surpreendente. Vai ao restaurante natural e bebe Coca-Cola com casco e tudo. O espetáculo está em toda parte. Condensação do dia-a-dia, em capítulos. Trama hilariante das nossas próprias vidas. Reflexo vivo de uma economia em crise. O espetáculo é assim, submete os humanos depois que a economia já os arrasou inteiramente. Corta, entra comercial.

Manifestações na Venezuela ou Coréia do Sul. Anos depois de Paris, Caracas, Seul, Porto Alegre, Brasília. Cairo. Na geografia dos povos, como na arte, não há fronteiras. Europa 2011. E o mundo explode longe da nossa cama. A Bahia e o Oriente Médio incendeiam suas guerras santas em pleno início do século XXI. No século passado, uma luta de boxe se converteria no menor espetáculo da história. 13 segundos. Tela fria: “Em algum lugar do passado”, o filme, serve para demonstrar o caráter cíclico da moda. O personagem retorna um século, mas sua indumentária está defasada, ainda assim. Foi moda há 10 anos um século antes.

Peças de um mesmo jogo. Mosaico. Assassinato brutal. O vídeo derrama-se em sangue. O uso de drogas convertido em um acessório para prazer e tragédia do homem moderno. Videoclipe da ilusão. É o sentido de tudo o que há de ingovernável. Tábuas da lei. Ulisses seduzido pelo canto das sereias. Quanto nos custa dar a outra face da mesma moeda?

Novel modelo. Móvel novelo. A televisão funciona. Nós funcionamos via televisão. Telerrealidade. Psicosfera do reversível. VT. Condicionamento molecular. Programação em cores, preto-e-branco. Exclusivo. Desnoticiário.

Fomentar o consumo irrefreado nas crianças. Violência juvenil. O primeiro amor, o primeiro beijo, a última novela. João Gilberto faz assim: mantém um aparelho de tevê ligado ininterruptamente, mas sem som.  Já no filme The Wall, do Pink Floyd, uma das cenas de maior impacto é quando o personagem aturdido (leia, completamente pirado) destrói todo o apartamento e lança do último andar o aparelho de tevê.

Corte abrupto. Falta de energia. O mundo fora do ar. Recorte eletrônico. Assis Chateaubriand inaugura a TV Tupi quebrando a champanhe sobre uma das duas câmaras. Naum June Paik. Um tiro do videoasta alemão Wolf Vostell num aparelho de tv, há 200 metros, em 1963. Fera radical. Orgasmo duplo em transmissão simultânea, de Nova Iorque ao Xingu.

Manifestação instantânea de telespectadores: em lugar de coquetéis molotov lançam monitores. O imaginário explode em imagens. Corta. Entra transmissão em cadeia nacional. A lua brilha sobre a janela. Minha namorada adora dormir com o aparelho ligado, principalmente depois que a programação das emissoras chega ao fim. Puxo a tomada e, olhar de videoscope, vejo a parede vir junto. Desabo de sono.

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