Política industrial

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Avenida Sudene, no Centro Industrial do Subaé, em Feira de Santana, em setembro de 2011

Pólos industriais e

o poder da beleza


Albenísio Fonseca

A criação da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, em 1960, foi o ponto de partida do projeto de desconcentração industrial no Brasil. Através de um vasto programa de incentivos fiscais, o governo Kubistchek conseguiu direcionar investimentos privados do Centro-Sul para o Nordeste. A implantação de usinas hidrelétricas de extraordinário porte no Rio São Francisco, nos anos 50, e a mão-de-obra abundante e barata funcionaram como incentivos suplementares.
Na Bahia, tal estratégia conduziria à criação do CIA – Centro Industrial de Aratu  e do Polo Petroquímico de Camaçari. O CIA, nosso primeiro sonho de desenvolvimento, concretizado em 1967, sob o signo das indústrias de bens de consumo duráveis, atraídas pelos incentivos da Sudene, defronta-se, há alguns anos, e de modo irresolúvel, com dificuldades de manutenção e incentivos, situação vivida, também, pelo CIS – Centro Industrial do Subaé, em que pese planejada expansão em seu vetor Norte.
O Polo de Camaçari, implantado em 1978, beneficiado por influência logística da Refinaria Landulfo Alves, da Petrobras, veio a consolidar-se frente às tantas crises conjunturais, mudanças de política econômica e transformações marcantes no contexto internacional, implementando ciclos sucessivos de expansão e representando alteração estrutural na economia baiana, tornando-se, aliás, desde sua origem, na principal fonte de receita tributária do Estado. A vinda da Ford, em 2002, isenções fiscais à parte, compreende a deflagração de uma nova etapa no universo do Polo.
Agora, como se diria de um novo horizonte, o complexo nos corteja com a implantação de outras indústrias, notadamente a Basf – maior empresa química do mundo – a confirmar investimento de R$ 1,2 bilhão na implantação e de até R$ 4,5 bilhões, em 2015. Na nova planta, um Polo Acrílico, serão produzidos, em escala mundial, com o propeno até então exportado pela Brasken, ácido acrílico, acrilato de butila e polímeros superabsorventes, em iniciativa pioneira do gênero na América do Sul.
Em seus números grandiosos, o investimento global realizado no Polo nesses 31 anos é superior a US$ 10 bilhões. O faturamento anual gira em US$ 9,4 bilhões e, anualmente, exporta-se o equivalente a US$ 800 milhões. A capacidade instalada para produtos químicos e petroquímicos é de 8 milhões de t/ano, 220 mil t/ano de cobre eletrolítico e 250 mil veículos anuais – além das centenas de tantos produtos constantes no portfólio do conglomerado.
Temos, ainda, a chegada do Boticário, com investimentos de R$ 355 milhões e aceno de produção – para um portfólio próximo de mil produtos – superior à da matriz em São José dos Pinhais, no Paraná. Vencida a guerra fiscal para a vinda do grupo para a Bahia, erige-se a geografia do estado como principal motivo do grupo na estratégia de alcance do seu centro de distribuição para a sedução dos consumidores do Nordeste, ainda que, em relação ao poder de consumo das famílias do Sul-Sudeste, conforme dados do IBGE, as desigualdades regionais permaneçam.
Sob os ditames do fascinante poder da beleza a girar a magnífica cifra de 25% de faturamento este ano, indiferentes às crises, a indústria de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal – desde que as mulheres aumentaram a participação no mercado de trabalho e passaram a gastar mais e melhor consigo mesmas, levando o universo masculino a cuidar mais de sua imagem pessoal – deixou de ser um acessório fútil para tornar-se assunto de homens de negócio e executivos governamentais convertidos, ou não, em garotos propaganda. Vale ressaltar, a Avon, com olhos pintados para a crescente demanda regional, está presente com um centro distribuidor, em Simões Filho, desde 2003.
No Subaé, contudo, apimentam-se as divergências para com a aparência tida como generosa e desconcentrante da política industrial do estado. Por ironia, a avenida Sudene, no complexo de Feira de Santana (vide foto), parece espelhar-se e  concorrer com as intransitáveis vias do CIA. Na dificultada mão dupla das negociações políticas, o município até obteve o compromisso governamental da pavimentação das vias, mas não confirmou a contrapartida, pasme, com a coleta do lixo.
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Albenísio Fonseca é jornalista
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DTVi

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TV digital, revolução

na plataforma

 Albenísio Fonseca

A implantação da TV digital interativa no Brasil (e na América Latina) vem sendo restringida à ideia de que essa nova multiplataforma tecnológica envolve apenas alta definição na qualidade da imagem e do som – como tem sido vendida por atacado e no varejo. Aliás, há ênfase, também, na criação de serviços comerciais (ou t-commerce), contemplando “novidades” que incrementarão lucros a iniciativas, antes restritas aos detentores das concessões de TV, em serviços interativos como previsão do tempo, resultados de jogos, pay-per-view.
Há disponibilidade, ainda, para t-banking (serviços bancários) e t-gov (interatividade entre governo e população nas áreas tributária, educacional, cultural e de serviços públicos), além da recepção e transmissão de e-mails.Mais influente meio de comunicação no Brasil, presente em 90% dos lares, a TV (analógica) sofrerá um imensurável impacto no modo passivo como nos comportamos ao assistir aos programas.
A TV digital, sob padrão nipo-brasileiro, decorre de adaptações promovidas, desde 1994, por pesquisadores em universidades brasileiras. Foi inaugurada em São Paulo, em 2.12.2007, pelo presidente Lula: “Uma TV gratuita e aberta tem que preservar a inclusão social”. Sim, a inclusão social agora propulsionada pela inclusão digital, e em caráter Hybridcast, combinando transmissão broadcast e aplicativos para Web das “TVs conectadas” (ou smart TVs) integrando e sincronizando conteúdos broadcast com os da banda larga.
A propósito, fabricantes de aparelhos de TV digital andam em polvorosa com a consulta pública promovida pelos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Indústria e Comércio sobre as regras de fabricação da TV digital, obrigando a instalação do Ginga, o middleware nacional, uma tecnologia em softwares, coração da interatividade.
Mas há, também, outro viés em cena, embora fora do foco do tele senso comum, com a recém sancionada Lei nº 12.485, que unifica as legislações das TVs por assinatura, as transmitidas através de sinais codificados por diferentes tecnologias, isto é: a cabo (TVC), por satélite (DTH) e em microondas (MMDS). A nova lei libera a participação do capital estrangeiro, limitando-o apenas nos sistemas a cabo (em 49%), sob a justificativa de “estímulo à competição e oferta de novas opções de conteúdo audiovisual de qualidade e melhores serviços, por menores preços”, sem maiores proteções ao capital e à indústria audiovisual nacional. E é claro que a TV paga compreende um mercado nada desprezível. Em 2010 o faturamento bruto contabilizou R$ 1,011 bi. Dados da Anatel sinalizam que em agosto de 2011 a TV paga já alcançava cerca de 11,6 milhões de domicílios, correspondentes a 38,3 milhões de brasileiros, ou 20% da população.
O certo é que somente com a expansão da cultura digital brasileira contaremos com novos agentes que, além de consumidores de informação, tornem-se geradores de conhecimento, alimentando o sistema e tornando-se parceiros do desenvolvimento intelectual e cultural do País. A TV digital interativa, já em 3D, é um novo e revolucionário universo, seja como suporte para convergência de outras mídias digitais – Internet e mídias móveis – seja na adoção da multiprogramação, onde hoje se transmite apenas uma de forma linear.  A inserção da hipermídia proporcionará sua conversão em meio emissor a provocar reflexão, participação, interatividade.
Muito mais que ter à mão um controle remoto – como um bumerangue – teremos a possibilidade de emissoras não só para operadores privados e estatais, mas (geridas coletivamente) por sindicatos, associações, ONGs, movimentos sociais, a consolidar esta nova galáxia plurinformativa em extraordinário mercado para novos negócios, produção (e consumo) de conteúdo, na busca de um cenário onde reine “a mais avançada das mais avançadas das tecnologias”.
Na expectativa de que as emissoras ofertem programações interativas de qualidade, saliente-se que as técnicas não têm sentido em si mesmas, dependem do uso que façamos delas. Quanto à nova legislação, o critério fundamental para sua avaliação deve ser o quanto ela possibilita de ampliação da participação de mais e diferentes vozes no debate público.
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Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br