Amanhecer em Salvador

Foto: Albenísio Fonsecafoto
 Amanhecer em Salvador
Albenísio Fonseca
Bom Dia! Exatamente às 5h55 o Sol começa a surgir no horizonte da cidade. As nuvens cinzentas vão-se enchendo da brilhante radiação. As praias estão quase que inteiramente desertas, mas algumas pessoas já se atrevem à caminhada enquanto o transporte coletivo, malgrado a total deficiência do sistema, vai trafegando com um grande contingente de trabalhadores que se desloca a fim de cumprir a rotina de mais um dia de trabalho.
Sol nasce para todos. Nos bairros, na periferia, nos hospitais, terminais de ônibus, feiras livres, colônias de pescadores. Cruzando o ar límpido e poluído na Baía de Todos os Santos. Ilhas à deriva. No Centro Histórico, em pleno Pelourinho, os pombos vão catando alimento entre um paralelepípedo e outro, onde há mais de um século comemorou-se o centenário da Abolição da Escravatura e onde durante 300 anos o sangue escorria e o suor do escravo não era decorrência do calor, mas da tirania. Os pombos habitam os velhos casarões, algumas corujas preferem o alto das igrejas.
Mas é de manhã e as pessoas deslocam-se malemolente, espreguiçando o dia. O nascer do Sol é um espetáculo fantástico. Mas as pessoas não ligam, já vão trabalhar, estão atrasadas, vão sendo substituídos pelo repicar dos sinos. As missas, em geral, começam às 7. Salvador inteira parece um receptáculo para o Deus-Sol.  O sol ainda é o astro-rei. Dos becos e vielas, alguns dos centros das praças, boêmios surgem tentando estar atentos, quase vampirizados pela luz solar, como quem busca uma justificativa para a noite em branco. O hálito azedo, um riso num canto da boca.
D

as dezenas de invasões da cidade ouve-se o choro de crianças. As mulheres já lavam roupas e as vão pendurando nos varais ou por sobre a areia branca na Lagoa do Abaeté. O trânsito passa rente, num volume crescente. Um rastro de fumaça vai invadindo a brisa da manhã. A vida respira, intoxicando-se lentamente. Automóveis invadem o silêncio. Nos terminais de ônibus, usuários vão cruzando a roda-viva dos torniquetes. Poucos demonstram disposição. A maioria traz na face a expressão da noite maldormida. O sonho de felicidade, a busca incessante do status de consumidor (e de consumidor implacável, desses que querem comprar tudo) está presente em todos os olhos ainda sujos da noite.

I

ncessantemente condenada a ser uma cidade-verão, Salvador tornou-se também numa cidade-dormitório para os milhares que trabalham em localidades da Região Metropolitana. Os que se dirigem ao Pólo de Camaçari embarcam sonolentos, mas sorrindo.  Similares, ambulantes vão expondo seus produtos. Há toda uma logística a garantir o mercado paralelo. Vista do mar, a cidade é um plano (arquitetônico) inclinado. Os habitantes transitam no sobe-e-desce do elevador Lacerda e no charriô do Gonçalves, quando funcionam. O Sol atravessa os corpos, as avenidas, janelas, expectativas.

A

gora, na Orla, tudo é luz. Os faróis já não sinalizam as pedras e recifes aos navegantes. As plantas abrem suas folhas e flores. Jornaleiros invadem as esquinas, oferecem as notícias. Nos jornais andava todo o presente, mas, online, os fatos não cessam, enquanto as rotativas estão ociosas. Meninos de rua ofertam o destino em serviços de limpeza dos pára-brisas dos carros. Free-lancers do descaso social. Entre o subsistir e o sobreviver, sem escapatória.

A

cidade acorda feliz, mesmo que poucos saiam para ver o Sol. O espetáculo está em toda a parte, independe das nossas presenças. Tudo em volta, agora, é movimento. O Sol inventa as cores, aciona as pessoas, enche-as de vida, de beleza, de jovialidade. Energiza os corpos. Faz os homens tornarem a vida num filme de ficção. Mas é Primavera, e tudo flori. No Dique.  O café da manhã evapora seu aroma entre um suco de frutas e um copo de leite, dois ovos fritos, pão cacetinho, bananas-fritas ou cozida, poucas frutas, aipim, mingau e queijo.

C

hove. Com tempo ruim todo mundo também dá bom-dia. Combinam-se os contatos, os telefonemas, novos compromissos. Há os que só saem de casa depois de ler o horóscopo do dia. Os astros continuam a determinar nossas vidas. Lêem-se os jornais, ouvem-se as emissoras de rádio, entreolha-se os telejornais, consulta-se e-mails e entra-se nas redes sociais. Outros deixam que o dia-a-dia determine o seu estar no mundo.

O

tempo muda à toda hora. O sinal está aberto e os carros buzinam pedindo pressa. Os humanos giram em redor do próprio eixo, uma instância externa que lhes coage e exige de tudo, principalmente eficácia. Na classe média, as crianças vão despertando para o corre-corre da ida à escola. Outras acordam mais tarde e gastam todo o tempo entre brincadeiras, teimosia, televisão, internet e videogame. Jogam a bola da Copa, após o desjejum, ou disparam a fazer perguntas irrespondíveis, como se soubessem que mais vale uma pergunta certa que uma resposta perfeita à pergunta errada.

R

ápidos, como numa tendência estatística (e hoje mais valem as tendências que os fatos), milhares de desempregados procuram um lugar ao Sol no mercado sem vagas. Mulheres, e não apenas as baianas, dão o último retoque na maquiagem e deixam o rosto no espelho. Homens exercitam a boa-forma. A Turma da Madrugada ainda percorre o Parque da Cidade num cooper incansável. O calçadão do Jardim de Alá é o trecho preferido para a caminhada.

D

estino em transe. Solidão na Baixa dos Sapateiros. 15 Mistérios. O comércio desliza suas portas. Nos escritórios datilografam-se os dedos. Mas as agências bancárias só abrem às 10. Café da manhã em hotel cinco estrelas é sempre um bom programa. Exige apenas excelente companhia. Mas em algumas milhares de mesas faltam o leite e o pão. Enquanto alguns tencionam a vida na embreagem dos seus automóveis, outros tantos descontraem e planejam ações em meio a um engarrafamento no Corredor da Vitória, na Calçada, nas avenidas Oceânica, Paralela, Bonocô, San Martin. Em Brotas, na Liberdade, no Cabula ou no Rio Vermelho. O trabalho é um ardil. O que todos querem é garantir mais dias para o lazer, ensolarar a existência, eternizar o Carnaval, tornar perene o happy-hour e, no retorno, o cheiro do acarajé invadindo todas as narinas, viver num clima de lua-de-mel, como deus e o diabo gostam.

A

felicidade continua sendo uma arma quente. Longe da guerra e da revolta das multidões, a milhas e milhas do Oriente Médio, do Porto da Barra à Ribeira e daí até Stella Maris e ao Flamengo, somente os iogues saúdam o nascer do Sol com movimentos de uma ginástica ritualística. Nenhuma ética, exceto a iogue, percorre o amanhecer. Todos seguem de roldão na maré de um novo dia, perseguindo um novo final de semana. Aos poucos, gigantescas nuvens cinzentas vão cobrindo todo o céu e, quase imperceptível, uma réstia de Sol ilumina Salvador inteira.

Zona Mundi, o grande final (2011)

Fotos: Ricardo Prado/DivulgaçãofotoAmbiente no encerramento do Zona Mundi, terceira edição, na área livre do MAM
COMBORAMI  dez 3
“Comborami”, liturgia tecnológica
 
Zona Mundi Vj Gabiru  Zona Mundi Andrea MayVJ Gabiru, efeitos mirabolantes               Andrea May, pós-graffitis

Zona Mundi, il grand finale. 

Ou melhor,

bem vindos ao pós-futuro

Albenísio Fonseca

Evento multimídia que promove a convergência entre música, vídeo e novas tendências da arte eletrônica e digital, a 3ª edição do projeto Zona Mundi foi encerrada no último dia 2 de dezembro, na área livre do MAM – Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, com a apresentação de artistas locais e de outros estados. O “Circuito Eletrônico de Som e Imagem”, como é definido o Zona Mundi, tem proporcionado, também, a realização de workshops e seminários.
Não se trata, portanto, de um evento meramente pontual, mas estruturante. A iniciativa tem se convertido no principal vetor de popularização da arte eletrônica nesta e em outras capitais brasileiras. A convergência estética de linguagens artísticas contemporâneas presentes no circuito envolve música eletrônica, dança, artes visuais, vídeo arte, web arte e conteúdo com base em suportes digitais móveis.
grand-finale do Zona Mundi, em 2011, teve início com apresentação do “Comborami”, experimento em vídeo, luzes, sons, ruídos e projeção da sombra dos corpos nas paredes do ambiente e em monitores, dispostos como um cenário vivo. “Comborami”, segundo seus integrantes, o videoartista Daniel Lisboa e os dançarinos Tiago Ribeiro e Isaura Tupiniquim, corresponde à junção dos termos “combo”, abreviação do inglês combination, e “rami”, de raízes.
Regidos pela eletroeletrônica, os corpos dos dançarinos funcionam como motores da obra. Reacendem sentidos numa quase eletrocussão dos significados que vão se eclipsando em penumbras e silhuetas. Eles se contorcem, gesticulam, movimentam-se frente a lâmpadas comuns posicionadas de modo a projetar a plasticidade de corpo e sombra, em jogos de claro/escuro. O áudio é produzido pelo ruído proveniente dos monitores, pretensamente elevado à categoria de som.
Daniel manipula a parafernália eletroeletrônica. Deitados, Tiago e Isaura executam movimentos de semi (ou súbitos) eletrochoques. Seus corpos sugerem convulsões ou um ato sexual, em seu estrebuchar de sensações. Isaura circunscreve a luminosidade da lâmpada em torno do corpo de Tiago, como se celebrasse um ritual, numa liturgia tecnológica, a “incensá-lo” com halos e fluxos luminosos. Tudo parece remeter à constatação de o quanto “luz” é mensagem em estado puro.
A simultaneidade do evento toma conta dos ambientes. O palco principal tem à frente placas quadradas onde imagens projetadas estilhaçam efeitos mirabolantes, como explosões de universos em cores, mandalas, formas diversas e sob acentuada psicodelia. É a arte de VJ Gabiru, artista plástico, produtor cultural e videomaker. Vale salientar: “VJ”, de videojockey (da cena noturna). Ele explora a “natureza anamórfica das imagens”, isto é, construindo-as, desconstruindo-as, criando, recriando ou desintegrando-as em efeitos de computação.
As imensas possibilidades estéticas da arte digital, em toda sua eloquência, capturam o olhar e remetem a um imenso caleidoscópio a girar. As paredes históricas do antigo Solar do Unhão ganham vida. O conjunto arquitetônico pulsa grafitado com a projeção das imagens criadas por Andrea May – “da street art à toy art” – tendências em que ela se insere. A um só tempo, no limite entre audiovisualidade, tecnologia e som, os DJs Mangaio e Junix transmutam conteúdos musicais das vertentes do trip-hop, afrobeat, dub e acid jazz, em efeitos sonoros através de suportes digitais, sem direito a audiometria.
Zona Mobile Lise dez 2
O Lise, com Daniel Nunes e Dedig
O Lise (“um sufixo, como diríamos de hemodiálise”) invade a cena. Os primeiros toques, de interfaces minimalista e atonal, convocam à audição da intervenção “co-operativa” iniciada em Belo Horizonte (MG) pelo músico Daniel Nunes. Sob a estilizada companhia do multinstrumentista Dedig, fazem convergir a “música atual” que produzem com performances sobre uma engenharia “sonoplástica” de guitarra, distorcedores, bateria e sintetizador.
Na intercena, os trabalhos de Gabiru e May tornam claro o quanto a arte tem a capacidade – como o presente voraz em que transitamos – de devorar o futuro. Música e imagens tornam-se em fascinante híbrido multifacetado a mobilizar o público e a introjetar-se nos corpos, pelos poros, em camadas musicais que o Lise sobrepõe, numa ultrapassagem por “Qualquer frágil  fio de fantasia”, título do CD lançado este ano.
O clímax é perfeito para a odisséia sonora de Rebeca Matta. Atração maior da noite estrelada de lua crescente pairando sobre a Baía de Todos os Santos, ela canta com a alma à flor da pele sua música eletrônica, seu pop industrial, rocks, trip-hops e MPB, frutos de três CDs, enquanto acena com a gravação de um DVD. A cadeia produtiva da música circulante no evento, promovido pela Rede Motiva e Maquinário Produções, conta com expositor móvel para comercialização de CDs.
Em meio a toda essa nova locução “trans-musical e imagética”, a sensação é de que o futuro… já passou. Pode-se sugerir, então, que nas próximas edições instale-se um pórtico no acesso às ruínas do velho engenho restaurado e convertido em museu, com a inscrição: “Zona Mundi – bem vindos ao pós-futuro”. #

Carnaval invisível

Foto: Albenísio FonsecaAtuação do Conselho do Carnaval foi questionada em audiência pública da Câmara

Câmara e TCM vão investigar

Conselho do Carnaval

 Albenísio Fonseca
O vereador Alcindo da Anunciação (PT) já dispõe de 25 das 21 assinaturas necessárias dos colegas para requerer a abertura de uma CEI-Comissão Especial de Investigação – espécie de CPI da Câmara Municipal – o que garantiu fazer na sessão de segunda-feira (19.03) – para investigar o Conselho Municipal do Carnaval (Concar). Durante audiência pública para debater a festa, Anunciação obteve o respaldo da maioria das agremiações carnavalescas da cidade. Waldemar Sandes (representante dos trios independentes) revelou que o Conselho será, também, ¨alvo de auditoria¨ pelo TCM-Tribunal de Contas do Município.
O vereador Sandoval Guimarães (PMDB) apresentou projeto, em tramitação desde novembro de 2011, que prevê a criação de um fundo destinado ao patrimônio público material e imaterial do Carnaval, com destinação de 20% dos recursos auferidos sobre os valores consignados na forma de patrocínios oficias e privados para as entidades, entre outras medidas. Já a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) defendeu a realização de um seminário para ampliar o debate e definir melhor políticas públicas para a festa.
Em suma, o Carnaval 2013 já começou e, pelo visto, o embate na avenida das legalidades, com re-percussão na Lei Orgânica, deve possibilitar um novo viés ao festejo. Pronunciamento importante, também, foi o de Rogério Horle, representante de entidade não carnavalesca, que chamou a atenção para o fato de a comercialização de abadás não envolver emissão de nota fiscal, o que geraria significativa soma em ISS, por falta de fiscalização da Sefaz. Ele considera fundamental que o Concar apresente demonstrativo de prestação de contas sobre os recursos investidos e auferidos com a festa.
Otto Pípolo, carnavalesco e advogado que lidera um grupo de representantes de entidades carnavalescas a cobrar direito de arena dos camarotes que se instalam durante a festa, mostrou que ¨embora o Carnaval de Salvador seja divulgado nacional e internacionalmente como dispondo de mais de 200 agremiações, o que se constata é a evidência e controle da festa por meia dúzia de entidades¨.
Waldemar Sande disse que a Câmara de Vereadores já foi ¨alvo de chacotas¨ por parte da Comissão Executiva do Conselho do Carnaval e atribuiu a ¨culpa¨ da aberração em que se converteu a instância carnavalesca, ao ¨Governo do Estado, à Prefeitura e às próprias entidades¨. O poder público, disse, ¨tem oito votos, mas se mostra pouco representativo¨. A Câmara, por sua vez, num total desmascaramento, tem sua representação ¨terceirizada¨ naquele colegiado.
Mas coube mesmo a Arnando Lessa, ex-vereador e ex-deputado estadual, autor da lei que criou o Conselho do Carnaval, inserindo-o na Lei Orgânica do Município, disparar as afirmações mais contundentes, ao assegurar que ¨o Conselho, hoje, é um faz-de-conta. Se é conveniente a Coordenação Executiva promove reunião; se não, nenhuma decisão é tomada¨.
Lessa ressaltou, ainda, que a Coordenação Executiva age como ¨uma verdadeira ditadura¨ na organização da folia. Disse mais, que ¨o Conselho tornou-se numa ¨casa de negócios. Nos bastidores do Carnaval, ou na sua organização, o que se faz são negócios, escusos ou não, não importa¨. Sustentou, também, que, como todo mundo sabe, ¨quem manda no Carnaval de Salvador é a Central do Carnaval¨, e acentuou o quanto o Concar ¨está manietado e marginalizando as demais entidades que compõem o Carnaval nessa capital¨.
Raimundo Bujão, da Frente Comunitária e Parlamentar Mista em Defesa de Itapuã, questionou a ¨invisibilização¨ dos carnavais de bairros, que, segundo ele, ¨podem e devem ser a melhor alternativa para democratizar a festa¨.  O artista plástico Ives Quaglia criticou a supressão das decorações no Carnaval, em decorrência da ¨cultura do trio elétrico¨, e questionou a ¨injustificada presença¨ de representação da categoria no Conselho. Mas o também artista plástico e representante da categoria no Concar, Zu Campos, disse que ¨há 10 anos não há decoração na festa¨, embora tenha ¨apresentado projetos e sugestões, aprovados pela Coordenação Executiva, mas nunca implementados¨.
Já Laurinha Arantes, da Associação de Artistas Independentes, demonstrou a ¨invisibilidade¨ desse segmento durante suas apresentações. Mesmo argumento adotado por representante dos blocos afro: ¨Nosso desfile é invisibilizado, nossas músicas invisibilizadas, nossos direitos escamoteados¨.
O presidente da Associação dos Cordeiros (AssindCorda), Mateus Silva, repercutiu declaração do presidente do Concar, Fernando Bulhosa, de que pretende promover a ¨instalação de gradis nas avenidas¨, como forma de dispensar a mão de obra dos cordeiros. Mateus também defendeu assento para os cordeiros no Concar, como o fez Beto Silva, da Associação Baiana de Compositores (ABC) sob o argumento de que a festa não existe sem os compositores. Pensando bem, vai faltar cadeira.

Fórum do Pensamento Crítico

Foto: Albenísio FonsecafotoMesa do Fórum do Pensamento Crítico, no Conselho Estadual de Cultura, que abordou o tema Cidades e Festas

Fórum do Pensamento Crítico

A estratégia eleitoral da cultura 

Albenísio Fonseca

O “Desocupa Salvador” foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira de fevereiro, no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento” que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital.

Menos como artigo, mas enquanto relato crítico, vimos o evento ser aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, a justificar a iniciativa sob o propósito de que a “cultura seja inserida na agenda dos partidos”, neste ano eleitoral. Rubin salientaria, ainda, que o tema incluía “as cidades” por conta do “expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial (no século XVIII) e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX.

Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA.

 

Wlamira ilustrou sua fala com uma pintura de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu ao rei etíope Menelik II, homenageado pelo afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897, e nos fez contemplar a imagem do poderoso soberano que derrotara os italianos, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes.

“Menelik chegaria à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. A ótica da historiadora é a de que, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defende a lógica de que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”, e sugere “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano. Ele fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, senão politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e provocou o “papel cultural dos diretores de escolas”, sem relevar a crise educacional que atravessa as escolas públicas.

 

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, como o faz  nas  entrevistas que tem concedido, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”. Ao sugerir a “supressão do carro de apoio” no desfile dos blocos, para economia de espaço na avenida”, toca numa espécie de estande ou gôndola móvel, frenesi para sub personalidades e balcão de cervejaria.

Miguez deu o tom da inserção na campanha eleitoral ao criticar pré-candidatos à Prefeitura de Salvador, pelo “senso comum das opiniões emitidas”, ou seja, por não entenderem nada de Carnaval, e cravou a máxima: “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

 

Já Ordep Serra concentrou-se na Salvador em plena “desregulamentação urbana” e no quanto o Carnaval tende a “naturalizar essa situação”. Ao mencionar a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie”, com as “desigualdades sociais transbordando pelas festas”.

 

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; importância da festa de Itapuã, mobilidade urbana e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval. Planejado para ocorrer durante todo o ano como uma estratégia da cultura para a campanha eleitoral, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

 

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Albenísio Fonseca é jornalista

Mercado de Itapuã

Foto: Albenísio FonsecafotoRaimundo Bujão, da Frente Comunitária de Itapuã, revelou que o mercado está sobre um lençol freático

João Leão contraria avaliação

da Codesal e promete

reabrir Mercado de Itapuã

Albenísio Fonseca

Durante encontro com permissionários do Mercado Municipal de Itapoã, representantes da comunidade e os vereadores Aladilce Souza (PCdoB) e Moisés Rocha (PT), na manhã desta sexta-feira (02.03), o chefe da Casa Civil da Prefeitura de Salvador, João Leão, prometeu aos permissionários do Mercado Municipal de Itapuã – que teve uma laje despencada na última terça-feira, atingido gravemente quatro pessoas – uma reforma parcial no equipamento e reabertura já nesta segunda-feira. “Ele ordenou que os comerciantes dos boxes da área a ser reformada dividam espaço com os dos boxes que estariam sob condições seguras” de trabalho, conforme a comerciante Quênia Rocha, do restaurante Boa Esperança.
Uma mera reforma e a reabertura do mercado contrariam avaliações da Coordenação de Defesa Civil (Codesal), cujo representante presente ao encontro chegou a defender, junto ao próprio João Leão, a necessidade da demolição de toda a estrutura de pré moldados, fruto de projeto do arquiteto Lelé Filgueiras.  O chefe da Casa Civil, contudo, rechaçou a avaliação técnica.
A divergência foi gravada por cinegrafista que documentava o evento, ao qual Leão solicitou, em seguida, que desligasse a Câmera. Na avaliação do técnico, “caso semelhante ocorreu na Boca do Rio e o reparo não deu certo”. À intenção de Leão de “construir uma arcada” no local desabado, o técnico assegurou que “qualquer reforma que implique em pressão sobre as demais vigas e lajes de concreto, cujos vergalhões também estariam corroídos pela ação do salitre, levará a novos desabamentos”.
Inaugurado em 1990, o mercado teve questionada na Justiça a reforma efetuada em 2008 , mas a ação foi arquivada. De forma surpreendente, João Leão disse “não estar ali representando a Casa Civil, mas em caráter pessoal”. O posicionamento foi questionado pela vereadora Aladilce Souza. Segundo ela, por mais que houvesse a disposição de solidariedade com os comerciantes, as vítimas do desabamento e familiares, os representantes do Executivo não poderiam se eximir da responsabilidade pela manutenção do equipamento público. Aladilce defendeu, inclusive, que o poder público “assuma os encargos referentes aos dispêndios com os tratamentos médicos cabíveis” aos vitimados pelo desabamento da laje.
Representante da Frente Comunitária e Parlamentar Mista em Defesa de Itapuã, o filósofo Raimundo Bujão, defendeu a “demolição do mercado e a construção de um novo equipamento, compatível com a importância do bairro”. Bujão revelou que o mercado foi edificado sobre um lençol freático, o que tem acarretado permanentes inundações durante os períodos de chuva. Ele apontou também o “curto prazo de validade desse tipo de edificação”, que requer manutenção constante. Já o ouvidor da Prefeitura, Waldenor Cardoso, defendeu o “caráter pessoal” da presença de João Leão no encontro, “por não ser pertinente à sua pasta”, e criticou a “ausência de representantes do Estado”, ao qual, também surpreendentemente, imputou “responsabilidade pela manutenção do equipamento”.
O encontro, ocorrido em área do próprio mercado sob interdição, foi provocado após a ida de permissionários à Casa Civil na quinta-feira, 48 horas após o desabamento da laje, em razão de nenhuma autoridade pública ter comparecido ao local, exceto técnicos da Codesal que interditaram o acesso ao equipamento. Familiares das vitimas queixaram-se da falta de solidariedade dos representantes da Prefeitura. Impedidos de comercializar, alguns permissionários dos boxes do mercado comemoraram com fogos de artifício, logo após o término da reunião, o anúncio do chefe da Casa Civil de entrega do equipamento já na próxima segunda-feira.
Os vereadores Aladilce Souza e Moisés Rocha revelaram estar convocando uma audiência pública, a ser realizada na próxima semana em espaço da comunidade, no próprio bairro. A vereadora adiantou que encaminhará ofício ao Conselho Regional de Engenharia (CREA), através da Comissão de Planejamento da Câmara, para que proceda uma avaliação sobre as reais condições da infra estrutura do mercado municipal.
O desabamento da laje ocorreu por volta das 13h30 de terça-feira (28). Com perfuração do crânio, a adolescente Alice Francine Santos Furmanek, 13, vítima mais grave do desabamento, permanece internada na UTI do Hospital Geral do Estado.