Fórum do Pensamento Crítico

Foto: Albenísio FonsecafotoMesa do Fórum do Pensamento Crítico, no Conselho Estadual de Cultura, que abordou o tema Cidades e Festas

Fórum do Pensamento Crítico

A estratégia eleitoral da cultura 

Albenísio Fonseca

O “Desocupa Salvador” foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira de fevereiro, no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento” que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital.

Menos como artigo, mas enquanto relato crítico, vimos o evento ser aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, a justificar a iniciativa sob o propósito de que a “cultura seja inserida na agenda dos partidos”, neste ano eleitoral. Rubin salientaria, ainda, que o tema incluía “as cidades” por conta do “expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial (no século XVIII) e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX.

Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA.

 

Wlamira ilustrou sua fala com uma pintura de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu ao rei etíope Menelik II, homenageado pelo afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897, e nos fez contemplar a imagem do poderoso soberano que derrotara os italianos, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes.

“Menelik chegaria à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. A ótica da historiadora é a de que, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defende a lógica de que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”, e sugere “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano. Ele fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, senão politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e provocou o “papel cultural dos diretores de escolas”, sem relevar a crise educacional que atravessa as escolas públicas.

 

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, como o faz  nas  entrevistas que tem concedido, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”. Ao sugerir a “supressão do carro de apoio” no desfile dos blocos, para economia de espaço na avenida”, toca numa espécie de estande ou gôndola móvel, frenesi para sub personalidades e balcão de cervejaria.

Miguez deu o tom da inserção na campanha eleitoral ao criticar pré-candidatos à Prefeitura de Salvador, pelo “senso comum das opiniões emitidas”, ou seja, por não entenderem nada de Carnaval, e cravou a máxima: “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

 

Já Ordep Serra concentrou-se na Salvador em plena “desregulamentação urbana” e no quanto o Carnaval tende a “naturalizar essa situação”. Ao mencionar a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie”, com as “desigualdades sociais transbordando pelas festas”.

 

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; importância da festa de Itapuã, mobilidade urbana e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval. Planejado para ocorrer durante todo o ano como uma estratégia da cultura para a campanha eleitoral, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

 

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Albenísio Fonseca é jornalista
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