Zona Mundi, o grande final (2011)

Fotos: Ricardo Prado/DivulgaçãofotoAmbiente no encerramento do Zona Mundi, terceira edição, na área livre do MAM
COMBORAMI  dez 3
“Comborami”, liturgia tecnológica
 
Zona Mundi Vj Gabiru  Zona Mundi Andrea MayVJ Gabiru, efeitos mirabolantes               Andrea May, pós-graffitis

Zona Mundi, il grand finale. 

Ou melhor,

bem vindos ao pós-futuro

Albenísio Fonseca

Evento multimídia que promove a convergência entre música, vídeo e novas tendências da arte eletrônica e digital, a 3ª edição do projeto Zona Mundi foi encerrada no último dia 2 de dezembro, na área livre do MAM – Museu de Arte Moderna da Bahia, em Salvador, com a apresentação de artistas locais e de outros estados. O “Circuito Eletrônico de Som e Imagem”, como é definido o Zona Mundi, tem proporcionado, também, a realização de workshops e seminários.
Não se trata, portanto, de um evento meramente pontual, mas estruturante. A iniciativa tem se convertido no principal vetor de popularização da arte eletrônica nesta e em outras capitais brasileiras. A convergência estética de linguagens artísticas contemporâneas presentes no circuito envolve música eletrônica, dança, artes visuais, vídeo arte, web arte e conteúdo com base em suportes digitais móveis.
grand-finale do Zona Mundi, em 2011, teve início com apresentação do “Comborami”, experimento em vídeo, luzes, sons, ruídos e projeção da sombra dos corpos nas paredes do ambiente e em monitores, dispostos como um cenário vivo. “Comborami”, segundo seus integrantes, o videoartista Daniel Lisboa e os dançarinos Tiago Ribeiro e Isaura Tupiniquim, corresponde à junção dos termos “combo”, abreviação do inglês combination, e “rami”, de raízes.
Regidos pela eletroeletrônica, os corpos dos dançarinos funcionam como motores da obra. Reacendem sentidos numa quase eletrocussão dos significados que vão se eclipsando em penumbras e silhuetas. Eles se contorcem, gesticulam, movimentam-se frente a lâmpadas comuns posicionadas de modo a projetar a plasticidade de corpo e sombra, em jogos de claro/escuro. O áudio é produzido pelo ruído proveniente dos monitores, pretensamente elevado à categoria de som.
Daniel manipula a parafernália eletroeletrônica. Deitados, Tiago e Isaura executam movimentos de semi (ou súbitos) eletrochoques. Seus corpos sugerem convulsões ou um ato sexual, em seu estrebuchar de sensações. Isaura circunscreve a luminosidade da lâmpada em torno do corpo de Tiago, como se celebrasse um ritual, numa liturgia tecnológica, a “incensá-lo” com halos e fluxos luminosos. Tudo parece remeter à constatação de o quanto “luz” é mensagem em estado puro.
A simultaneidade do evento toma conta dos ambientes. O palco principal tem à frente placas quadradas onde imagens projetadas estilhaçam efeitos mirabolantes, como explosões de universos em cores, mandalas, formas diversas e sob acentuada psicodelia. É a arte de VJ Gabiru, artista plástico, produtor cultural e videomaker. Vale salientar: “VJ”, de videojockey (da cena noturna). Ele explora a “natureza anamórfica das imagens”, isto é, construindo-as, desconstruindo-as, criando, recriando ou desintegrando-as em efeitos de computação.
As imensas possibilidades estéticas da arte digital, em toda sua eloquência, capturam o olhar e remetem a um imenso caleidoscópio a girar. As paredes históricas do antigo Solar do Unhão ganham vida. O conjunto arquitetônico pulsa grafitado com a projeção das imagens criadas por Andrea May – “da street art à toy art” – tendências em que ela se insere. A um só tempo, no limite entre audiovisualidade, tecnologia e som, os DJs Mangaio e Junix transmutam conteúdos musicais das vertentes do trip-hop, afrobeat, dub e acid jazz, em efeitos sonoros através de suportes digitais, sem direito a audiometria.
Zona Mobile Lise dez 2
O Lise, com Daniel Nunes e Dedig
O Lise (“um sufixo, como diríamos de hemodiálise”) invade a cena. Os primeiros toques, de interfaces minimalista e atonal, convocam à audição da intervenção “co-operativa” iniciada em Belo Horizonte (MG) pelo músico Daniel Nunes. Sob a estilizada companhia do multinstrumentista Dedig, fazem convergir a “música atual” que produzem com performances sobre uma engenharia “sonoplástica” de guitarra, distorcedores, bateria e sintetizador.
Na intercena, os trabalhos de Gabiru e May tornam claro o quanto a arte tem a capacidade – como o presente voraz em que transitamos – de devorar o futuro. Música e imagens tornam-se em fascinante híbrido multifacetado a mobilizar o público e a introjetar-se nos corpos, pelos poros, em camadas musicais que o Lise sobrepõe, numa ultrapassagem por “Qualquer frágil  fio de fantasia”, título do CD lançado este ano.
O clímax é perfeito para a odisséia sonora de Rebeca Matta. Atração maior da noite estrelada de lua crescente pairando sobre a Baía de Todos os Santos, ela canta com a alma à flor da pele sua música eletrônica, seu pop industrial, rocks, trip-hops e MPB, frutos de três CDs, enquanto acena com a gravação de um DVD. A cadeia produtiva da música circulante no evento, promovido pela Rede Motiva e Maquinário Produções, conta com expositor móvel para comercialização de CDs.
Em meio a toda essa nova locução “trans-musical e imagética”, a sensação é de que o futuro… já passou. Pode-se sugerir, então, que nas próximas edições instale-se um pórtico no acesso às ruínas do velho engenho restaurado e convertido em museu, com a inscrição: “Zona Mundi – bem vindos ao pós-futuro”. #
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