1984


Na montagem, sobre fotograma da última versão cinematográfica do livro, Pedro Bial assume a função do “Grande Irmão” ao ser o único participante do jogo a estar em contato com o mundo real e assim “instruir” os reclusos

1984 é agora, ou o

real invadiu a ficção?

Albenísio Fonseca

 A transformação da realidade e seu total controle é o tema principal de 1984, o livro de George Orwell, escrito em 1948.  A ação se passa em Oceania, um fictício bloco de países que, simulando uma democracia, vive sob o totalitarismo desde que o IngSoc (o Partido) chegou ao poder sob a batuta do onipresente Grande Irmão (Big Brother). O controle total é a norma sobre a população, numa política de subordinação implacável.

Inspirado na opressão dos regimes totalitários das décadas de 30 e 40 do século XX, o livro  (escrito na terceira pessoa) não se resume a apenas criticar o stalinismo e o nazismo, mas toda a submissão da sociedade, a conversão do indivíduo em peça para servir ao estado ou ao mercado, através do controle sobre o pensamento,  a redução do idioma e descartada toda e qualquer noção de esperança.

O personagem principal do livro, Winston Smith, membro do partido externo, funcionário do Ministério da Verdade, tem como função apagar o passado, reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Mas Winston passa a refletir e questionar a opressão exercida sobre os cidadãos. Na Oceania, se alguém pensasse diferente, cometia crimidéia (crime de ideia em novilíngua) e fatalmente seria capturado pela Polícia do Pensamento, torturado e morto ou coisa pior. Desaparecia.

Winston não sabia de qual modo, mas precisava extravasar o que sentia. Como não seria seguro comentar suas angústias e sem dispor de respostas satisfatórias, compra clandestinamente um bloco e um lápis (artigos de venda proibida, adquiridos num antiquário).

Para verbalizar seus sentimentos, Winston atualiza seu diário usando o canto “cego” do apartamento. Onde a teletela – o olhar do Grande Irmão, a vigilância do Big Brother – não pudesse vê-lo.

A primeira frase que Winston escreve é justificável e, há de se convir, permanece atual: Abaixo o Big Brother!

Winston, uma representação do homem comum – protótipo do anti-herói – também tinha dificuldades para lembrar do passado e da vida pré-revolucionária. Os esforços da propaganda do Partido com números e “duplipensamento” tornavam a tarefa quase impossível já que o futuro, presente e passado eram controlados pelo Partido.

No Miniver (Ministério da Verdade), ele alterava dados e jogava no incinerador (Buraco da Memória) os originais de tudo que pudesse contradizer as verdades do Partido.

Metáfora dos anos pós-guerra com reflexos na contemporaneidade, a função de Winston é uma crítica à fabricação da verdade pela mídia, à impossibilidade de acesso ao conhecimento e à ascensão e queda de ídolos de acordo com alguns interesses.

Seu envolvimento amoroso com Julia também constitui uma transgressão. As normas do Partido deixavam claro que membros da organização, principalmente dos sexos opostos, não deviam se comunicar a não ser a respeito de trabalho. O sexo só é permitido para a reprodução.

O Partido informa: a ração de chocolate semanal aumenta para 20g para cada cidadão. O trabalho de Winston consistia em coletar todos os dados antigos que descreviam que a ração antiga era de 30g e substituí-los pela versão oficial.

A população agradece ao Grande Irmão pelo aumento devido aos propósitos midiáticos do poder. E extravasa no lazer dos “dois minutos de ódio” um medonho êxtase de medo e vingança contra os “traidores”, a desejar que outros morram, numa explícita associação à perseguição de Stálin a Trotsky. A Oceania vive em guerra permanente contra outros dois blocos, a Eurásia e a Lestásia.

Sem perceber uma câmera oculta, Winston é preso pela polícia do pensamento ao expressar sua constatação sobre a plebe, “nós somos os mortos”. O amigo O’brien converte-se no seu torturador. Solto, rebaixado a um subcomitê, o pretenso revolucionário que acreditava na Fraternidade termina seus dias jogando xadrez sozinho no ambiente malvisto do Castanheira Café. Como se lobotomizado – à semelhança de Alex, o anti-herói de A Laranja Mecânica (livro de Anthony Burgess, publicado em 1962 e levado cinema por Stanley Kubrick, em 1971),  submetido a uma  “terapia experimental de aversão” – Winston “aprende” a amar o Grande Irmão.

Antes, escreveria um extraordinário paradoxo em seu diário: “Eles só se libertarão quando se revoltarem. Mas eles só se revoltarão quando se libertarem”.

Afinal, somente seria possível concordar com o ficcionista David Bryn, para quem “a forma mais poderosa de ficção não está num livro, num filme ou numa história que preveja o futuro, mas numa história que impeça o futuro”, na medida em que tivéssemos escapado ilesos ao vaticínio contido neste magnífico livro.

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Giovana Dantas, entre o peso e a leveza

Insustentável leveza I - 2

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 A insustentável leveza da arte

em uma videoinstalação


Albenísio Fonseca

“A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a
mais ambígua de todas as contradições” (Milan Kundera)


Prêmio do Edital Matilde Matos – de apoio à curadoria e montagem de exposições/2010, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, a vídeoinstalação “A insustentável leveza”, da artista plástica Giovana Dantas, consiste em cinco obras surpreendentes na Galeria da Mansarda, no Palacete das Artes, em Salvador. Um universo onírico com sons de água, vento e maquinaria, perpassa o ambiente, como se a escorrer da luminosidade dos écrans e a movimentar pás de catavento, configurando metáforas a dialogar com os conceitos de “peso e leveza”, extraídos do romance “A insustentável leveza do ser”, do tcheco Milan Kundera.
A artista sustenta que a videoinstalação “não tem o compromisso de ilustrar o romance”. A propósito, ambientado em 1968 durante a invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética. “Peso e leveza não são objetos, compõem o paradoxo em que um acarreta o outro, convivem num mesmo objeto”. Se, para Giovana Dantas, tudo começou ao contemplar torres eólicas na região de Aracati (CE), onde o que mais a fascinaria seria um velho catavento de madeira, marco tradicional do lugar, sua “insustentável leveza” – aberta à visitação até 29.01.2012 – já resultou, também, em palestra da dramaturga Cleise Mendes sobre o romance de Kundera e postulados filosóficos, de Parmênides a Nietzsche.
Para imersão na obra, adotamos a concepção de que videoinstalações compreendem um momento de expansão da arte – da tela ou da escultura para o vídeo; do plano da imagem para o do ambiente – em que até se poderia suprimir o olho como único canal de apreensão para a imagem em movimento. Nesse sentido, “A insustentável leveza” consolida a idéia da obra de arte como processo e do ato artístico como abandono do objeto, numa reorganização do espaço sensório.
Fotos:  Iago Dantas

Giovana Dantas

Ao configurar a instalação em linguagem videográfica, sem circunscrevê-la no ambiente midiático, mas no código eletrônico, a artista suscita uma nova gama de efeitos no pensamento sensível da contemporaneidade. Ela utiliza projetores e aparelhos de TV plasma de 32 polegadas, mas extrapola o limite tênue do equilíbrio peso/leveza, da mostra, e nos remete a dimensões e técnicas diversas da videoarte.
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Em um tributo a Van Gogh (1853-1890), dialoga com as artes visuais inserindo o vento, como animação, em uma das telas da série impressionista “Le Moulin de la Galette”, criada pelo pintor holandês quatro anos antes da sua morte. A apropriação da pintura no vídeo legitima, ainda, o uso de elementos simbólicos – moinho, catavento, movimento, água, ar – sobre os quais todo o trabalho é concebido.
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“Insustentável Leveza I”, envolve o enigma de um corpo feminino vestido de noiva, como a sugerir uma tela, filmado do alto, em movimentos fluídos. O personagem é vivido pela escritora Jamie Diamont, de Los Angeles – integrante do grupo de artistas residentes no Instituto Sacatar, em Itaparica, onde o projeto foi premiado e desenvolvido. O peso do visível tensiona a leveza da ausência na superfície (ou seria na profundidade?) de uma cuba de 2m x 1,5m, no centro da galeria, onde a imagem é projetada. O espectador não pode ver-lhe a face, o que corresponderia ao desvendamento do véu, ao decifrar do enigma.
Na “Insustentável Leveza II” a câmera (quase estática) capta operários trabalhando enquanto o vento efetua interferências, movimentando a tela de proteção da obra no prédio em construção. A imagem ressalta e interconecta elementos concretos e opostos da vida cotidiana na ação de trabalhadores, veículos e pessoas que transitam na cena. Mesmo sem problematizar a imagem eletrônica e suas especificidades, a obra converte-se em um dispositivo capaz de expor movimentos entre o que é real e o que é construção. Ao gerar ambiguidade nos faz entrar, como infiltraria a doutora em semiótica Christine Mello, em “um jogo narrativo muito mais complexo e desconcertante sobre os confrontos com a vida real e dilemas da sociedade”.
Insustentável leveza I
Giovana captura o instante (mas não a cena) em slow motion. A contemplação oferecida imobiliza o olhar do visitante, sem, contudo, cegá-lo ou aprisioná-lo em estratégias ilusionistas de produção de sentido, mas “em ordem inversa à de critérios engessados nos procedimentos de assepsia operados pela publicidade”, como frisa a artista. As imagens exercem no espectador a provocação de que se deixe imergir na adesão (inescapável) a novas percepções no contagiante processo de observação da arte.
“Desigual-em-si: algo sobre o tempo”, mais instigante obra da vídeoinstalação, insere o público em uma ambiência sonora de água e vento ativando o moinho e o estrepitar do seu ruidoso dispositivo. Três projetores nos remetem à simultaneidade do giro das pás da engenhoca, em silhuetas a atravessar nossas retinas. Sem o limite das 32 polegadas dos monitores, as imagens projetam-se aleatoriamente no espaço instalativo, numa multiplicidade de formas e ambientes imagéticos, em transmutação por toda a Mansarda.
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