Giovana Dantas, entre o peso e a leveza

Insustentável leveza I - 2

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 A insustentável leveza da arte

em uma videoinstalação


Albenísio Fonseca

“A contradição pesado/leve é a mais misteriosa e a
mais ambígua de todas as contradições” (Milan Kundera)


Prêmio do Edital Matilde Matos – de apoio à curadoria e montagem de exposições/2010, da Fundação Cultural do Estado da Bahia, a vídeoinstalação “A insustentável leveza”, da artista plástica Giovana Dantas, consiste em cinco obras surpreendentes na Galeria da Mansarda, no Palacete das Artes, em Salvador. Um universo onírico com sons de água, vento e maquinaria, perpassa o ambiente, como se a escorrer da luminosidade dos écrans e a movimentar pás de catavento, configurando metáforas a dialogar com os conceitos de “peso e leveza”, extraídos do romance “A insustentável leveza do ser”, do tcheco Milan Kundera.
A artista sustenta que a videoinstalação “não tem o compromisso de ilustrar o romance”. A propósito, ambientado em 1968 durante a invasão da Tchecoslováquia pela União Soviética. “Peso e leveza não são objetos, compõem o paradoxo em que um acarreta o outro, convivem num mesmo objeto”. Se, para Giovana Dantas, tudo começou ao contemplar torres eólicas na região de Aracati (CE), onde o que mais a fascinaria seria um velho catavento de madeira, marco tradicional do lugar, sua “insustentável leveza” – aberta à visitação até 29.01.2012 – já resultou, também, em palestra da dramaturga Cleise Mendes sobre o romance de Kundera e postulados filosóficos, de Parmênides a Nietzsche.
Para imersão na obra, adotamos a concepção de que videoinstalações compreendem um momento de expansão da arte – da tela ou da escultura para o vídeo; do plano da imagem para o do ambiente – em que até se poderia suprimir o olho como único canal de apreensão para a imagem em movimento. Nesse sentido, “A insustentável leveza” consolida a idéia da obra de arte como processo e do ato artístico como abandono do objeto, numa reorganização do espaço sensório.
Fotos:  Iago Dantas

Giovana Dantas

Ao configurar a instalação em linguagem videográfica, sem circunscrevê-la no ambiente midiático, mas no código eletrônico, a artista suscita uma nova gama de efeitos no pensamento sensível da contemporaneidade. Ela utiliza projetores e aparelhos de TV plasma de 32 polegadas, mas extrapola o limite tênue do equilíbrio peso/leveza, da mostra, e nos remete a dimensões e técnicas diversas da videoarte.
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Em um tributo a Van Gogh (1853-1890), dialoga com as artes visuais inserindo o vento, como animação, em uma das telas da série impressionista “Le Moulin de la Galette”, criada pelo pintor holandês quatro anos antes da sua morte. A apropriação da pintura no vídeo legitima, ainda, o uso de elementos simbólicos – moinho, catavento, movimento, água, ar – sobre os quais todo o trabalho é concebido.
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“Insustentável Leveza I”, envolve o enigma de um corpo feminino vestido de noiva, como a sugerir uma tela, filmado do alto, em movimentos fluídos. O personagem é vivido pela escritora Jamie Diamont, de Los Angeles – integrante do grupo de artistas residentes no Instituto Sacatar, em Itaparica, onde o projeto foi premiado e desenvolvido. O peso do visível tensiona a leveza da ausência na superfície (ou seria na profundidade?) de uma cuba de 2m x 1,5m, no centro da galeria, onde a imagem é projetada. O espectador não pode ver-lhe a face, o que corresponderia ao desvendamento do véu, ao decifrar do enigma.
Na “Insustentável Leveza II” a câmera (quase estática) capta operários trabalhando enquanto o vento efetua interferências, movimentando a tela de proteção da obra no prédio em construção. A imagem ressalta e interconecta elementos concretos e opostos da vida cotidiana na ação de trabalhadores, veículos e pessoas que transitam na cena. Mesmo sem problematizar a imagem eletrônica e suas especificidades, a obra converte-se em um dispositivo capaz de expor movimentos entre o que é real e o que é construção. Ao gerar ambiguidade nos faz entrar, como infiltraria a doutora em semiótica Christine Mello, em “um jogo narrativo muito mais complexo e desconcertante sobre os confrontos com a vida real e dilemas da sociedade”.
Insustentável leveza I
Giovana captura o instante (mas não a cena) em slow motion. A contemplação oferecida imobiliza o olhar do visitante, sem, contudo, cegá-lo ou aprisioná-lo em estratégias ilusionistas de produção de sentido, mas “em ordem inversa à de critérios engessados nos procedimentos de assepsia operados pela publicidade”, como frisa a artista. As imagens exercem no espectador a provocação de que se deixe imergir na adesão (inescapável) a novas percepções no contagiante processo de observação da arte.
“Desigual-em-si: algo sobre o tempo”, mais instigante obra da vídeoinstalação, insere o público em uma ambiência sonora de água e vento ativando o moinho e o estrepitar do seu ruidoso dispositivo. Três projetores nos remetem à simultaneidade do giro das pás da engenhoca, em silhuetas a atravessar nossas retinas. Sem o limite das 32 polegadas dos monitores, as imagens projetam-se aleatoriamente no espaço instalativo, numa multiplicidade de formas e ambientes imagéticos, em transmutação por toda a Mansarda.
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