RECORDEL – Cordel conceitual e gráfico

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Recordel

– Cordel conceitual & gráfico –

Às memórias dos meus pais,
Albenor e Niêta, da neta Kelly Catarina e
do amigo Hermógenes Almeida.

À guisa de apresentação
deixo aos leitores
um enigma, teorema
ou equação:
No ano em que nasceu
foi ao ar o Repórter Esso
por suas memórias
de guerra
Sir Winston Churchill
ganhava o Nobel
e Érico Veríssimo,
entre o tempo e o vento,
veio a ser, qual bela cicatriz,
destinguido com o prêmio
Machado de Assis.

Para esconjurar maldição
e mesmo por fazer média
saibam todos os que lerem
que tais informações
provém da Wikipédia
Mas este livreto nasceu
bem antes de tal,
virtual enciclopédia.

A história cont®a a estória.
Seja meio, fim ou começo
Para entrar nessa briga
Vendi a casa e a biga
Soltei meu verso ao avesso

Por uma questão de ordem
Novo sentido ou razão
Lanço no meio da estrofe
A minha rima de choque
Pois tropa não é solução

Por artimanha
ou preceito
Disse outro dia
A um amigo, sem jeito,
Que o meu coração é louco
Tal como um sopro no ar

Mil paixões estancam em volta
E ele feliz a pulsar
Sem pensar que qualquer dia
Dia que nunca é este
Curando-se da hemorragia
Ao som de um apito estridente
Venha a coagular

Mas se o medo da morte é tudo
Que tenta e nos faz redimir
Não me iludo com pílulas
Ou orações pra dormir

Encaro a vida vou fundo
Como mergulha ou tece
Na superfície do riso
O saber que a dor merece

E assim supondo ter
Os pés fincados na terra
Com a cabeça na lua
adormece

Foi mesmo na ditadura
Regime de gente sádica
Que por despeito profundo
Empastelaram minha gráfica

Hoje, não ligo pra certos tipos
Que mandam da clicheria
Traço melhor papel e ponte
Com corpos dessa outra fonte
Onde afundaram minha linotipia

Porém por pura esquiva
Surpreendendo a narrativa:
Uma cigana apareceu
No sonho de um artista
Se engana quem pensar
Que TUDO só passou
de uma transa mística

Brilhante como uma estrela,
Sutil e felina,
Ela leu todo o azar,
toda a sorte, toda a sina
Deslizando naquele corpo
A volúpia da sua língua

Nos olhos trazia
uma chama viva
Nos dentes uma navalha
Nas mãos apenas carícia
E o coração transparente
De louca pra ser amada

Mas eis que feliz
E surpreendida
Ela acabou possuída
Por um amigo do artista
Que dormia ao lado

Por outro lado contudo
Embora aqui mesmo adentre
Para manter sem cessar
O fio da minha verve
Escancaro meu crânio e pulso
Desencavo urânio em teu ventre

-LeTRaS sno CaRTaS MaRCaDaS
o aLFaBeTo iLuDe a ViDa
– Cortem-se-lhes as cabeças!!!
Como a Rainha de Copas, Alice
Também eu insisto:
“Primeiro a sentença
Depois o veredicto!”

Por repique da invenção
Em meio a todo o alarme
Em lugar de fazer força
O verso faz mesmo é charme

Percutindo toda a grafia
Organiza um novo jeito
Extraindo traves do olho
Silêncio do limite estreito
Indo de trem pro Subúrbio
Atravessei o Recôncavo

Contornei parte do Atlântico
Olhei-me num espelho côncavo
Revolvi poeira e barro
Dos dedos de um Deus já pálido
Elementar, meu caro Watson,
Livrar-se desse ar suspeito?

Por tanto ou por tão pouco
Nos dias que passam hoje
A Expressão deve ser Múltipla
Para que o sonho acabe solto

Dispare-se na a-r-m-a-d-i-l-h-a
Estilhace a torto e direito
Tradição, sentido & forma
Pois com nada se conforma
E em lugar de cravar faca
Prefira meter o peito.

Repentista cego em mar revolto
converto-me em figura ibérica
hablando en español
chamem-me pliego suelto

Finalize-se o contratempo
E o delírio, invés de ofício
Do desejo faça o templo
Do prazer, o precipício

Dentro do meu coração
Toda a cidade passa
Apressada num coletivo
Envolta em prazer e desgraça

Se é real
Não há o que discutir
Se não é, não interessa
Verdade só sem suporte
Meu código é a desconversa?

Afinal, se meu cérebro Bule-Bule,
Patativa, vôo logo adiante
Com Cuíca de Santo Amaro,
Leandro Gomes de Barros
E Rodolfo Coelho Cavalcanti

Mas se tanto a mim arrostas
Ergo a cantoria, repico a viola
tendo comigo os filhos
de Agostinho Nunes da Costa

Duro, vivo pendurado
Exposto como em vitrines
Sob tema hilário ou trágico
Nas feiras-livres, mercado
– Puro realismo mágico

– Pré-tensão!! Eis o que dizem
ao ver esta forma vária
de usar tal meio de expressão
como máquina literária

Pois que a possibilidade ética
que aqui se esboça
Visa nova linguagem,
outra reflexão estética

Uma fala interior
Bossa sua Babel
Irrompe o cerco viário:
É isso o contemporâneo,
Escapar do arbitrário?

Eis o corte transversal
No modo convencional
Pra fazer cair o véu
E transformar o homem,
Quiçá a sociedade!
Re-inventando o Cordel.

———————————-
Albenísio Fonseca
é jornalista, poeta e compositor

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