Tropicália, 45 anos luz

Capa do disco emblemático do movimento tropicalista, de 1968,
e detalhe da instalação “Tropicália”, de Oiticica, de 1967
 
     
Tropicália, 45 anos luz
 
Albenísio Fonseca
 
A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o disco emblemático. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.
 
Sob o céu anil, havia fortes influências da Pop Art norte-americana, do Cinema Novo de Glauber Rocha, das peças de Oswald de Andrade encenadas pelo Teatro Oficina. Havia o processo de industrialização brasileiro, o clima de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, os Beatles e os Rolling Stones. Chacrinha e a Jovem Guarda.
 
O choque do provincianismo com o moderno gerando uma síntese dialética, uma nova forma de pensamento. Há um corte e uma sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, a converter-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “Geléia geral”, diriam Gilberto Gil, Waly, Torquato Neto e Capinan.
 
Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada naquele efervescente momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e inter-influências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como a TV e o teatro; semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura,  música erudita.
 
Diante do establisment cultural erudito nacional e distinta da canção de protesto explícito, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico de Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, Poesia Concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão.
 
No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, sob a voz de Gal Costa, por exemplo, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira. Sob o fascínio dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial, satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade.
 
Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, certamente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar seqüência.
 
Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação  política pela esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil, desenhada por Rogério Duarte.
 
Agora, 45 anos depois, face à improbabilidade do horizonte em nosso triste trópico, pós-Gil no Minc, qual simbólica tomada do poder, quem sabe ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena banda larga?
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Ciclo econômico à deriva

Foto: Bona Beding/Mail Online
    O ritual secular da pesca de baleias persiste entre orientais

Sob o signo das baleias

Albenísio Fonseca 

Imagine Salvador e vilas do Recôncavo iluminadas durante o século XIX. As ruas têm os lampiões acesos e, nas residências, as luminárias flamejam. Mas qual combustível era esse que permitia tamanha luminosidade? Sim, em contraposição a ciclos econômicos dos períodos colonial (1500-1822) e imperial (1822-1889) proporcionados pela exploração do pau-brasil e das plantation de cana-de-açúcar e café, como nas minerações de ouro – o ciclo da pesca da baleia na Costa brasileira, notadamente na Baía de Todos os Santos, é um fato histórico da expansão exportadora que, embora de alta relevância, permanece submerso ou à deriva, relegado a parcas abordagens dos nossos historiadores.

A pesca das baleias e seus filhotes, por 300 anos – entre barcos fundeados na Baía – à média de 200 animais por ano e 10 mil litros de azeite por exemplar, consistia em dramático e trágico espetáculo assistido das balaustradas dos sobrados, subidas de morros, montanhas e praias, de onde se contemplava o embate excitante e o transbordar nas águas do sangue do pescado. Não raras vezes, estarrecidos com o naufrágio das embarcações e seus tripulantes, vencidos pela força do maior animal do planeta.

Arpoadas e rebocadas à praia ou às armações, as baleias eram retalhadas e delas extraídos os subprodutos. A carne, tida como ordinária, além de distribuída gratuitamente à gente pobre do lugar, era geralmente destinada a alimentar os escravos trabalhadores das armações e vendida às ganhadeiras, que as salgavam, moqueavam e saíam vendendo pelas ruas de Salvador e vilas do Recôncavo. Os ossos, empregados em obras ou suportes para lavagem de roupa. À beira mar, restos do “monstro” permaneciam fétidos.

A pesca da baleia consolida-se no século XIX como um sistema ecologicamente devastador para a produção do óleo ou azeite, extraído da gordura do cetáceo e que viabiliza por três séculos o combustível gerador da iluminação das cidades e residências, não só nesta capital e seus arredores como em Pernambuco, São Paulo, Rio, Santa Catarina e cidades europeias. A atividade foi introduzida na Bahia, nos primeiros anos do século XVII, quando da denominada União Ibérica – de Portugal e Espanha – entre 1580 e 1640. O rei Felipe III, em 9 de agosto de 1602, autoriza dois estrangeiros, os biscainhos (ou bascos) Pêro de Urecha e seu sócio Julião Miguel, a pescarem baleias nas costas brasileiras, pelo prazo de dez anos

Exímios pescadores de baleia, após as capturas do mamífero aquático, processavam a gordura em bases cujas localizações nunca foram identificadas e retornavam à Espanha levando o azeite do peixe e gêneros da Colônia. Antes, porém, abasteciam o Recôncavo com o combustível, conforme acerto em contrato. Entre 1602 e 1612, todavia, a Câmara Municipal de Salvador estimula a pesca do cetáceo junto aos habitantes da cidade. O episódio traz sérios prejuízos àqueles empreendedores, por conta do aumento da “produção caseira” de um azeite de baixa qualidade, resultando consequentemente em queda nos preços. Como decorrência, os biscainhos perdem o interesse em continuar pescando os cetáceos nas águas brasileiras.

Na capital, Antonio da Costa obteria o primeiro contrato de concessão para pesca da baleia e exploração dos seus derivados, em 1614.  Detentor do monopólio, expande a atividade por todo o litoral da cidade. Instala armações na Pituba, no Rio Vermelho, nas proximidades do Forte de Santo Antônio da Barra, na Pedra Furada e em Itapuã. As armações consistiam em estrutura com embarcações, fábrica, alojamentos, armazéns, fornalhas, tanques, caldeiras, escravos, terras, apetrechos de pesca e as de manufatura do azeite.

Conforme minucioso estudo de Myriam Ellis, “A pesca da baleia no período colonial” (Ed. Melhoramentos, 1ª edição, 1959) – em todas as armações do litoral brasileiro predominava mão de obra escrava. As maiores indústrias de óleo chegavam a empregar mais de uma centena de cativos, além de trabalhadores livres, a labutar dia e noite em fornalhas que derretiam o espesso toucinho do animal. Findo o monopólio, as armações da Bahia, em Itaparica e Itapuã, são vendidas a particulares que continuaram a pescar baleias nas águas da Baía de Todos os Santos. As existentes no Sul do Brasil foram tomadas pela Coroa Real e desastrosamente administradas. Ao oferecê-las em concessão a particulares, 15 anos depois, já não encontraria interessados.

Afora a escassez da espécie, pela pesca predatória, havia a concorrência estrangeira. Americanos e ingleses desenvolveram tecnologia para processar a gordura e extrair o azeite no interior das próprias embarcações, em alto mar. O fim do ciclo decorre da descoberta do petróleo, em 1859, tornando o querosene como novo combustível para iluminação. Resta-nos, contudo, em Itapuã, alegorias das baleias a festejar a influência da pesca na formação social e econômica de Salvador.