REDAÇÕES EM POLVOROSA – 10 ANOS DA GREVE DO BUZU DE 2003 E A COBERTURA JORNALÍSTICA

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Capa do jornal PAUTA LIVRE, nº 39, do Sinjorba, não aprovada pela diretoria, à época

Redações em polvorosa

A insurgência dos estudantes de Salvador contra o aumento da tarifa de ônibus teve repercussão direta na rotina das redações, com o pessoal em polvorosa para a cobertura da manifestação na cidade, no que tange ao planejamento, enfoque das pautas, a logística e o trabalho de rua das equipes de reportagem.

Ao bloquearem o tráfego nos pontos estratégicos da cidade durante toda a semana que se estendeu de 2 a 7 de setembro de 2003, numa manifestação anárquica sem precedentes na história do movimento estudantil, eles transtornaram não só o cotidiano de Salvador, mas o desempenho do acompanhamento jornalístico e a vinculação política entre o senador Antônio Carlos Magalhães e o prefeito Antônio Imbassahy, ambos do PFL, a partir de um editorial do Correio da Bahia.

Ouvimos chefes de Reportagem e editores de pautas. Eles revelaram muito de tudo que aconteceu. Das agressões e vaias sofridas por equipes da TV Bahia, à emoção dos novos jornalistas e estagiários – da Tribuna da Bahia à TV Aratu. Do recurso a motoqueiros para pegar e levar fitas, como o reconhecimento à atuação dos motoristas, que nas emissoras são também assistentes de cinegrafistas. Das manchetes polêmicas de A Tarde, às estocadas de Raimundo Varela, no “Balanço Geral” da TV Itapoan, contra a concorrente  –   “quero ver a vizinha mostrar essas imagens!” – a propósito das agressões de policiais contra os jovens alunos das redes pública e privada. Leia os depoimentos.

Uma das editoras de Local de  A TARDE, Marlene Lopes, admitiu que a cobertura da mobilização gerou um “transtorno total” para a Redação. “Quem entrava pela manhã não conseguia ser rendido, até porque não tinha como outro repórter chegar a alguns locais por conta do engarrafamento. Quem ficou na redação pegou de 7h à meia-noite. Isso o pessoal de Local, porque precisamos contar com fechadores (sub-editores) de páginas de outras editorias”, contou, ressaltando que repórteres de Polícia e Política “também foram acionados”.

Sobre a paralisação na área do Iguatemi, na quarta-feira, dia 4, disse  ter precisado “fortalecer a cobertura com dois fotógrafos”. Ela salientou que no A TARDE OnLine as informações foram disponibilizadas na Internet “praticamente em tempo real, com orientações para melhorar o deslocamento das pessoas” na cidade sitiada. Marlene contou que o trabalho de monitoramento envolveu a abertura de um mapa de Salvador na redação, no qual foi sendo sinalizado os locais onde dispunham de repórter (em azul) e fotógrafo (em vermelho).

A manchete nada imparcial da edição da terça-feira, dia 3, “Estudantes na rua A luta continua” “gerou discussões internas entre os editores”. Ela confirmou terem sido compradas de um “fotógrafo profissional”, Juarez Matias, as fotos em que o Major Couto agride a estudante Diana de Sant´Anna, no trecho próximo à Estação da Lapa, na manhã do 7 de setembro.

Pauta dinâmica e senso de observação

Para Mara Campos, da TRIBUNA DA BAHIA, foi dada “prioridade total” à cobertura das manifestações. “Como temos uma equipe pequena (15 repórteres – dez  pela manhã e cinco à tarde, e quatro fotógrafos) sempre que temos um tema forte fazemos um esforço maior de reportagem”. À maioria de repórteres iniciantes, “as orientações verbais acabaram prevalecendo sobre a pauta escrita”.

Mara disse que “todo mundo teve de estender o horário”, até pela impossibilidade do deslocamento. Foi necessário superar todas as  dificuldades, “principalmente de fechamento”, com uma redistribuição de páginas. “Aliás, aqui temos sempre uma flexibilidade no funcionamento, algo que já ocorre há uns sete anos. Ninguém é editor exclusivo de um segmento, embora tenha suas especificações”.

Ela admitiu, contudo, que “pela primeira vez tivemos toda a equipe cobrindo um único tema”, e o quanto a revolta estudantil significou uma “pauta dinâmica, em que não dava parar prever nada”. Mara salientou a importância da manifestação no sentido da produção de matérias “em que pesava muito o senso da observação jornalística, no que se revela o tino do bom repórter, ao contrário das matérias de “gabinete”, em que tudo é previsível”.

Segundo Mara, fotógrafos e motoristas mais experientes deram uma “contribuição importante” ao sucesso da cobertura. E garantiu que sempre debate internamente as dificuldades apresentadas por algum repórter, e que são socializadas. “Então este tema já vem sendo e continuará sendo ponto de discussão para o amadurecimento da nossa equipe”, frisou.

Editorial, elemento surpresa

A equipe de repórteres do CORREIO DA BAHIA, para a cobertura local – cinco pela manhã e quatro à tarde, além de oito fotógrafos – é menor que a da Tribuna, como se pode comparar. Mesmo assim a prioridade da cobertura, nos dois primeiros dias, foi para a manifestação estudantil contra o reajuste de R$ 1,30 para R$ 1,50 na tarifa dos ônibus. Um editorial hard contra a postura ligth do prefeito Antônio Imbassahy – um ataque público a um aliado e que evidenciou uma crise interna do Carlismo para a sucessão municipal em Salvador – converteu-se no principal fato político (no sentido partidário) gerado pelo jornal em decorrência do movimento dos estudantes.

Na redação, contudo, e para a chefe de Reportagem Malu Brígido, o “elemento-surpresa” foi o que mais impressionou. “A gente não esperava que a manifestação ganhasse toda aquela dimensão. Tivemos que concentrar pessoal nos pontos estratégicos bloqueados pelos estudantes. Alguns repórteres da turma da tarde tiveram que estender a atividade, e o deslocamento ficou muito complicado. Se não colocássemos equipes na rua logo cedo poderíamos ter ficado ilhados aqui na Paralela. Segundo ela, a cobertura exigiu um “pique muito grande”, e “não daria para comparar com um dia de transtorno com chuva” aqui em Salvador. Malu destacou ter sido impossível adotar a pauta escrita, “foi tudo na base da orientação verbal, no intuito mesmo de dar cobertura total, ou seja, à manifestação e tudo o que ela gerou para a cidade”.

Comparação com a greve da PM

Na TV Aratu, o próprio chefe de Reportagem, Jorge Ramos, ficou retido no engarrafamento provocado pelos estudantes na segunda-feira, na área da Calçada. “Tive que ficar comandando o trabalho por celular, de lá mesmo”, contou. Segundo ele, foi dada “ênfase especial” à cobertura da manifestação, exigindo “muita criatividade por acontecer simultaneamente em vários locais da cidade”. E mais: “Tivemos que enfrentar os engarrafamentos, a falta de lideranças para legitimar os depoimentos sobre os rumos do movimento, e de contratar mais dois motoqueiros, além do existente, para levar e trazer as fitas das equipes na rua e pegar em casa os editores dos dois telejornais (Aratu Notícias 1ª e 2ª Edições, que ganharam dois minutos a mais).

Para ele, os estudantes “não estavam apenas reivindicando” a redução da tarifa dos ônibus, “buscavam de forma alvoroçada sua inserção na cidadania, por isso buscamos produzir matérias sobre comportamento social, ouvindo especialistas”. Em termos de transtorno causado à cidade e à própria cobertura jornalística, segundo Ramos, a manifestação estudantil “só pode ser comparada à greve dos Policiais Militares”, em agosto de 2001. “A diferença é que naquela havia pessoas armadas, policiais ou não, e os atos de vandalismo e ameaça à segurança na cidade foi muito maior”.

Ele revelou que dirigentes de A TARDE chegaram a propor a divisão dos custos de um helicóptero para a cobertura aérea, mas como permaneceu preso no engarrafamento a proposta não pode ser negociada. Disse, ainda, que “nossas equipes (duas pela manhã, duas à tarde e uma à noite) foram aplaudidas durante assembléias dos estudantes, enquanto os ânimos exacerbados levaram alguns jovens à ameaçar o exercício profissional com agressões a colegas da TV Bahia”, fato inteiramente repudiável.

Incitação e agressões

No domingo, dia 7, quando anônimos ligaram para o Jornalismo da TV Bahia informando da ocorrência de agressões de policiais militares contra estudantes nas cercanias da Lapa, era o próprio chefe de Reportagem Genildo Lavinsky quem estava no plantão. Ele conta que deslocou imediatamente uma equipe para o local. Ao chegarem, os repórteres nada encontraram, mas souberam que haviam pessoas presas e rumaram para a 1ª DP. Na troca de equipes, contudo, continua Lavinsky, “nossos profissionais foram cercados, não sei se por estudantes ou não, e agredidos com tapas, socos e pontapés”.

Sobre se atribuía o fato a alguma motivação política pelo fato da emissora pertencer a familiares do senador ACM, disse entender tratar-se de uma “ação gerada pela incitação de certo profissional de outra emissora”, sem mencionar nomes.

Ele defendeu o “trabalho social” feito pela TV Bahia, mencionou que o telejornal “Bahia Meio-dia” “dobrou a audiência durante toda aquela semana”, e que a atividade jornalística é realizada “sem qualquer pressão interna”. Lavinsky apontou seu “amplo conhecimento da cidade” como “decisivo” para o deslocamento das equipes em meio aos engarrafamentos. Ele encarou a manifestação dos estudantes como um “fato normal numa grande cidade como Salvador”, embora admitisse ser “relevante” do ponto de vista jornalístico. “A diferença foi a dificuldade de locomoção para as pessoas”. O que importa, contudo, ainda segundo Genildo, é que “temos uma linha editorial a seguir e o fizemos de forma inteiramente satisfatória”. De todo modo, a cobertura da TV Bahia para a manifestação estudantil implicou a mobilização de suas seis equipes, os dois estagiários da Produção, além de envolver a equipe de Esportes, retida num engarrafamento quando se deslocava para o Barradão.

Emoção, pique e relevância

Há seis meses na chefia de reportagem da TVE, a paulista Silvana Oliveira disse que a cobertura foi “muito emocionante” e que acarretou um trabalho “verdadeiramente de equipe – do estagiário que fazia a ronda e checava informações, ao motoqueiro integrado à reportagem pela primeira vez na tarefa de levar e trazer as fitas”. Mesmo assegurando que se buscou manter o pessoal dentro dos seus horários normais, admitiu que a equipe com Gil Rocha teve que estender a jornada da manhã à tarde. “Nos mantivemos ao vivo por longo período do telejornal, com o Gil informando sobre a mobilização estudantil a situação do tráfego e entrevistando o secretário de Transportes, Ivan Barbosa, o superintendente da SET, Raimundo Paiva e oficiais da PM, além de realizarmos pautas sobre outros temas”.

Para Silvana, a manifestação foi um “fato excepcional”, tanto para o movimento estudantil quanto do ponto de vista jornalístico. “O grande lance era saber aonde iria pipocar a próxima paralisação, já que não havia lideranças ou alguma agenda organizada”.

Na TV BAND, Fernanda Santana liberou as equipes para a rua, no trabalho coordenado por Zuleika Andrade. No início do movimento, no Rio Vermelho, na segunda-feira, dia 2, “ainda se conseguia obter declarações de supostas ou pretensas lideranças”. Mas, de acordo com Fernanda, “à medida que a manifestação foi se espalhando por outros pontos não havia mais essa coisa da liderança e aí tivemos que mobilizar três equipes em pontos diferentes da cidade”. Na quarta-feira, com a paralisação do trânsito no Iguatemi, a BAND viu a importância de entrar ao vivo. Para tanto, mobilizou dois cinegrafistas e um repórter.

A cobertura, segundo Fernanda, exigiu “prioridade total” do Jornalismo, “embora tenhamos cumprido também outras pautas até para editar o jornal com a variedade de fatos que lhe é peculiar”. O transtorno gerado pela manifestação estudantil, para ela, ocorreu no sentido do “pique total, da dificuldade de locomoção e na relevância do fato fora do comum”. (AF)

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