Religião na TV

Religião na TV ou,
o sacrifício dos cordeiros

Albenísio Fonseca

Não é só de replicação da barbárie cotidiana que vive a TV aberta no Brasil. Outro “fenômeno” que se evidencia abusivo é a ocupação dos horários, de modo intermitente, por programas religiosos, no que se tem convencionado designar por igrejas eletrônicas, notadamente as do viés evangélico, sejam a Universal, Mundial, Renascer ou da Graça de Deus.

“Em nome de Jesus”, tanto na TV quanto no rádio, país afora, o proselitismo de pastores visa acima de tudo conquistar novos adeptos. Contudo, o que se expande não são apenas os programas religiosos, exibidos nas emissoras comerciais em horários vendidos às igrejas e organizações religiosas pela considerável cifra dos R$ 500 mil a R$ 1 milhão mensais, mas, sobretudo, o número de emissoras religiosas: Rede Vida, Rede Canção Nova, Rede Família, Rede Boas Novas, Rede Gospel, Rede Super, etc, etc… Algo superior a 15 redes, com emissoras espalhadas por todo o pais, sob cobertura nacional via satélite. Sim, e em que pese as 142 possibilidades de enquadramento religioso previstas pelo censo.

Outro dado significativo é o de que, “coincidentemente”, a predominância desses tipos de programações – a que explora a violência e a que ilude sob o manto da fé religiosa – ocorrerem em emissoras vinculadas a estas igrejas, notadamente a Record – uma broadcasting da Igreja Universal do Reino de Deus.

Na conclusão a uma pesquisa feita em 114 nações e divulgada em 2010, o Instituto Gallup mostra a correlação entre o grau de religiosidade da população e a renda per capita: “Quanto mais religiosos são os habitantes de um país, mais pobre ele tende a ser”. Na contraface da pesquisa do Gallup, a sociologia sempre apostou na tese de que a pobreza é que facilita a expansão da religião.

Segundo o monitoramento da programação das redes de TV aberta da ANCINE, a religião foi o principal gênero de programação na TV aberta brasileira em 2012 –  chegando a 13,55% da programação, a frente dos gêneros variedades (10,45%), telejornais (10,43%), musical (8,48%) e o telecompras (7,51%). Em alguns casos, o problema é mais grave, como na Bandeirantes (17%), CNT (37%), Record (23%), Rede TV (38%) e Gazeta (15%).

Conforme o noticiário, desde o último sábado (9/11), a Rede 21 inseriu na programação os programas produzidos pela IURD TV, produtora da Igreja Universal do Reino de Deus, substituindo a WS Music, da Igreja Mundial do Poder de Deus. A substituição aconteceu também no espaço que o grupo possuía nas madrugadas da Band. As mudanças são mais um capítulo da briga entre o bispo Edir Macedo e o apóstolo Valdemiro Santiago por espaço na mídia brasileira.

Mundial e Universal disputavam nos últimos meses o contrato com o grupo Bandeirantes e, no fim das contas, o apóstolo Valdemiro Santiago foi desbancado pelo bispo Edir Macedo. Especula-se que o despejado tenha uma dívida de R$ 21 milhões e a inadimplência teria gerado o rompimento do contrato. O líder religioso despejado estaria pedindo R$ 200 milhões em indenização. Negocia-se também um retorno à grade em janeiro, quando as duas igrejas passariam a dividir o espaço da programação.

Antes do rompimento, a Igreja Mundial controlava 21 horas diárias de programação na Rede 21, e as madrugadas (3h-6h) da Band. Estas últimas, negociadas em 2011 em uma jogada que retirou o pastor Silas Malafaia (Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo) da emissora paulista. As noites da emissora são divididas também com a Igreja Internacional da Graça de Deus (do pastor R.R. Soares).

Projeto de Lei de Mídia Democrática, defendido pelo Movimento de Democratização da Comunicação, prevê a proibição de arrendamentos de horários em concessões públicas de TV, veda a outorga a instituições religiosas e limita o tempo de veiculação de conteúdos religiosos.

 A denominada Igreja Eletrônica expandiu-se no Brasil a partir da década de 80. Seu formato, desde sempre, preconiza a trilogia “reza, cura e salvação”. A salvação é oferecida, como diríamos de uma mercadoria, em púlpitos de templos miraculosos e na vitrine desses programas (já não mais em outro mundo).

Porém, via de regra, e até ungindo celulares, o que os pastores pretendem e têm conseguido, são as contribuições financeiras dos seus rebanhos de incautos, mas fiéis ouvintes e telespectadores – esses mesmos, os cordeiros em sacrifício.

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A Internet não pode ser um jardim murado

A Internet não pode ser
um jardim murado

Albenísio Fonseca

Em tramitação na Câmara Federal e sob votação adiada uma dezena de vezes, o marco civil da Internet – “mais governamental que Civil” – não pode se constituir em uma armadilha para a cidadania, a serviço de provedores, corporações e em função do poder econômico, quando o conhecimento colaborativo e a imaterialidade do trabalho se cristalizam. A neutralidade da rede – bit inegociável do projeto – importa em que a transmissão de informação pela internet permaneça a ser tratada em todos os dados, da mesma forma, sem distinção de conteúdo, origem e destino ou serviço, a resistir à conversão da rede mundial de computadores em um “jardim murado”, oh Tim Berners-Lee.

As cyberways do século 21, mesmo por atalhos, requerem tráfego em mão dupla. O advento e disseminação das redes sociais, um dos mais importantes eventos da Internet, consagra a “expressão individual”, não mais em relações hierarquizadas, mas através de conexões por pontos, na relação direta e múltipla entre as pessoas. Contra a hegemonia da construção de “realidades” por corporações da mídia, o saber compartilhado inviabiliza e transcende o monopólio da informação em mão única, da tipografia de Johannes Gutemberg à TV analógica.

Sob um cenário de vigilância, em singular “panopticon”, oh Michel Foucault, múltiplos dispositivos capturam as mensagens – como denunciado pelas mãos de tesoura de Edward Snowden e, logo, o pensamento, qual previra George Orwell e seu Big Brother, em “1984”. Embora domesticado já nos seja o desejo – devidamente cartografado, oh Gilles Deleuze. Frutos das campanhas de marketing e publicidade incutidas em nosso inconsciente – somos levados de roldão nessa “terceira onda”. Ainda que supostamente a escapar – indivíduos ou multidões rebeladas – em pranchas da inédita protagonização de desejos e devires, subordinados não mais a uma ideologia, mas sob os ditames das novas estratégias biopolíticas do “Império”, oh Antonio Negri.

 E assim, vamos surfando com Alvin Toffler, reféns da tecnologia da automação, cada vez mais desenvolvida e apropriada à sociedade de controle em que, homens-máquina, braços dados com autômatos, transitamos as pulsões dos nossos corpos sem órgãos, na “caosmose” de três ecologias (ambiental, social e subjetiva), Oh Felix Guatarri. Microeletronicamente digitalizados, Pierre Levy, qual geração supérflua, meu caro Nicholas Carr, temos cérebro e sistema nervoso central expandidos, a superar distâncias espaciais e intervalos temporais, abolindo o espaço e o tempo, oh Paul Virilio, nesse universo da terceira revolução tecnoindustrial, a la (seja louvado) Adam Schaff.

Que permaneçamos, então, oh cyberativistas, a evocar em black blocs ou serenamente a convicção de que a liberdade de expressão constitui uma das bases essenciais da sociedade democrática, condição intransferível para a concretização dos demais direitos humanos e liberdades fundamentais. A circulação livre de informação, nessa sociedade em rede, castelo de cartas marcadas, oh Manuel Castells, é fundamental para o acesso ao conhecimento e à cultura, herança comum de toda a humanidade a estar disponibilizada e tornada acessível para o beneficio de todos.

Hoje, ativos intangíveis como marcas e domínios têm valor superior aos dos bens móveis e imóveis – hegemonia possibilitada pelo acúmulo de visibilidade – como um “capital simbólico”, a estampar suas insígnias, oh Pierre Bourdieu. A etiqueta – digo, os titles tag, são os novos parâmetros de identidade, mesmo em protocolos uTorrents  – a submeter outros domínios, como o semântico e o imagético, em motores de busca, sob os índices das hashtags e Trending Topics, nos fluxos de um capitalismo cognitivo.

Sonhe: Baixe programas e filmes transmitidos em resolução 4K, quatro vezes mais alta que a Full HD. Acorde: ainda é necessária uma conexão que consiga se manter estável o suficiente para downloads sem engasgos, oh Bram Cohem. À mídia caberá render-se à disponibilização de conteúdos em multimídia, na crescente e irreversível tendência online. Mas, e nossa energia libidinal, humanoides, permanecerá contida neste lounge da cotidiana miséria simbólica? Afinal, se o futuro já passou, o que nos aguarda neste admirável mundo novo, oh Heródoto?

As ganhadeiras

Ganhadeiras e tocador de berimbau na aquarela de Jean-Baptiste Debret , em 1826.

A resistência das ganhadeiras

na reurbanização de Salvador

 Albenísio Fonseca

Discriminadas e relegadas à face obscura da história, as mulheres negras “ganhadeiras”, como se chamavam, circulavam a oferecer iguarias pelas ruas de vilas brasileiras no período colonial. Atravessaram freguesias durante o Império e mercadejaram variados tipos de comidas, doces, quitutes, carnes, frutas, louças, em tabuleiros, gamelas, cestos e quitandas nos movimentados centros urbanos da nascente República.

Exímias comerciantes, a maioria mercava de forma ambulante ou, ainda minoria, em pontos fixos na cidade. Os alimentos produzidos e comercializados por elas provinham da dieta e hábitos alimentares africanos, além dos temperados na senzala ou na Casa Grande. Com palavreado e gestos típicos, elas compuseram importante mão de obra explorada por seus senhores, ou libertas, a consolidar o incipiente mercado urbano à época.

As escravas ganhadeiras eram obrigadas a dar a seus senhores uma quantia previamente estabelecida em acordo informal. O excedente ao combinado era acumulado para gastar no seu dia a dia e, quiçá, comprar a liberdade. A partir da denominada Lei do Ventre Livre, de 1871, contudo, é facultado aos escravos o direito de acumular um pecúlio. Isso favorece aos escravos e escravas de ganho, que conseguem poupar, graças à ocupação e inseridos que estavam na economia do período.

Relatos de viajantes, como Johan Spix e Karl Von Martius, em “Viagem pelo Brasil – 1817/1820”, criticam a ganância dos senhores que impunham “tristíssima condição àquelas mulheres obrigadas a ganhar diariamente certa quantia”. Segundo a historiadora Maria Odila Dias, as ganhadeiras dispunham de uma espécie de “faro para o negócio”. Era preciso ser “muito ladina”, como exigia um anúncio no Correio Mercantil de 17.06.1840. Isto é, astuta, que falasse português e, evidentemente, dominasse o serviço.

Conforme Luís dos Santos Vilhena, em “A Bahia no século XVIII”, com frequência, as ganhadeiras se aliavam a outros escravos para receptar e revender produtos furtados. Na trama da especulação de mercado e atravessamento, a que denominavam carambola ou cacheteria, elas monopolizavam a distribuição de peixes, carnes, verduras e até produtos de contrabando.

Com trajes similares, mas em variadas tonalidades, coloriam o cenário urbano. Como na África, traziam os filhos atados às costas com “pano da Costa”, ou soltos entre tabuleiros, em meio a frutas e aves, a labutar sozinhas pela sobrevivência, como menciona a mestra em História, pela UFBA, Cecília Moreira Soares, citando relato de James Wetherell, em “Brasil: Apontamentos sobre a Bahia (1842-1857)”.

Logo após a abolição e depois do advento da República, a partir de 1912, as “mulheres de saião” (pejorativo difundido na imprensa para referir-se às trabalhadoras de rua) têm a atividade proibida, são perseguidas e até presas na Salvador do governo de José Joaquim Seabra. Não sem, antes, “rodar a baiana” contra os fiscais da municipalidade.

A “remodelação urbana” da capital, promovida por Seabra, destrói casarões coloniais e igrejas barrocas, para traçar avenidas, como a 7 de Setembro, sob críticas que permanecem. A ação envolve, ainda, tentativa de “desafricanização” de Salvador, estimulada, inclusive, por jornais de oposição ao seabrismo, como A Tarde, à época.

Se, por um lado, é possível identificar o recurso a conceitos de higienização, modernização e civilidade a incidir contra tabuleiros, gamelas e tudo que remetesse ao passado escravagista; por outro, visava à presença da mulher desvinculada do ideal de família, então em voga, cujo lugar estava restrito ao domínio das prendas do lar. Isto é, contrária à autonomia proporcionada pelo trabalho na rua e em deliberada busca de deter processos de ascensão popular.

A cidade, contudo, dispunha de características sociais e econômicas que extrapolavam as noções “civilizatórias” empreendidas por J.J.Seabra, sob alegado propósito modernizante. Hoje, seja na figura das baianas de acarajé ou cultuadas em Itapuã como um grupo cultural, as ganhadeiras perpetuam o eco do seu jeito de mercar pelas ruas de Salvador, em desobediência às posturas municipais dos seabristas e seus novos adeptos.