As ganhadeiras

Ganhadeiras e tocador de berimbau na aquarela de Jean-Baptiste Debret , em 1826.

A resistência das ganhadeiras

na reurbanização de Salvador

 Albenísio Fonseca

Discriminadas e relegadas à face obscura da história, as mulheres negras “ganhadeiras”, como se chamavam, circulavam a oferecer iguarias pelas ruas de vilas brasileiras no período colonial. Atravessaram freguesias durante o Império e mercadejaram variados tipos de comidas, doces, quitutes, carnes, frutas, louças, em tabuleiros, gamelas, cestos e quitandas nos movimentados centros urbanos da nascente República.

Exímias comerciantes, a maioria mercava de forma ambulante ou, ainda minoria, em pontos fixos na cidade. Os alimentos produzidos e comercializados por elas provinham da dieta e hábitos alimentares africanos, além dos temperados na senzala ou na Casa Grande. Com palavreado e gestos típicos, elas compuseram importante mão de obra explorada por seus senhores, ou libertas, a consolidar o incipiente mercado urbano à época.

As escravas ganhadeiras eram obrigadas a dar a seus senhores uma quantia previamente estabelecida em acordo informal. O excedente ao combinado era acumulado para gastar no seu dia a dia e, quiçá, comprar a liberdade. A partir da denominada Lei do Ventre Livre, de 1871, contudo, é facultado aos escravos o direito de acumular um pecúlio. Isso favorece aos escravos e escravas de ganho, que conseguem poupar, graças à ocupação e inseridos que estavam na economia do período.

Relatos de viajantes, como Johan Spix e Karl Von Martius, em “Viagem pelo Brasil – 1817/1820”, criticam a ganância dos senhores que impunham “tristíssima condição àquelas mulheres obrigadas a ganhar diariamente certa quantia”. Segundo a historiadora Maria Odila Dias, as ganhadeiras dispunham de uma espécie de “faro para o negócio”. Era preciso ser “muito ladina”, como exigia um anúncio no Correio Mercantil de 17.06.1840. Isto é, astuta, que falasse português e, evidentemente, dominasse o serviço.

Conforme Luís dos Santos Vilhena, em “A Bahia no século XVIII”, com frequência, as ganhadeiras se aliavam a outros escravos para receptar e revender produtos furtados. Na trama da especulação de mercado e atravessamento, a que denominavam carambola ou cacheteria, elas monopolizavam a distribuição de peixes, carnes, verduras e até produtos de contrabando.

Com trajes similares, mas em variadas tonalidades, coloriam o cenário urbano. Como na África, traziam os filhos atados às costas com “pano da Costa”, ou soltos entre tabuleiros, em meio a frutas e aves, a labutar sozinhas pela sobrevivência, como menciona a mestra em História, pela UFBA, Cecília Moreira Soares, citando relato de James Wetherell, em “Brasil: Apontamentos sobre a Bahia (1842-1857)”.

Logo após a abolição e depois do advento da República, a partir de 1912, as “mulheres de saião” (pejorativo difundido na imprensa para referir-se às trabalhadoras de rua) têm a atividade proibida, são perseguidas e até presas na Salvador do governo de José Joaquim Seabra. Não sem, antes, “rodar a baiana” contra os fiscais da municipalidade.

A “remodelação urbana” da capital, promovida por Seabra, destrói casarões coloniais e igrejas barrocas, para traçar avenidas, como a 7 de Setembro, sob críticas que permanecem. A ação envolve, ainda, tentativa de “desafricanização” de Salvador, estimulada, inclusive, por jornais de oposição ao seabrismo, como A Tarde, à época.

Se, por um lado, é possível identificar o recurso a conceitos de higienização, modernização e civilidade a incidir contra tabuleiros, gamelas e tudo que remetesse ao passado escravagista; por outro, visava à presença da mulher desvinculada do ideal de família, então em voga, cujo lugar estava restrito ao domínio das prendas do lar. Isto é, contrária à autonomia proporcionada pelo trabalho na rua e em deliberada busca de deter processos de ascensão popular.

A cidade, contudo, dispunha de características sociais e econômicas que extrapolavam as noções “civilizatórias” empreendidas por J.J.Seabra, sob alegado propósito modernizante. Hoje, seja na figura das baianas de acarajé ou cultuadas em Itapuã como um grupo cultural, as ganhadeiras perpetuam o eco do seu jeito de mercar pelas ruas de Salvador, em desobediência às posturas municipais dos seabristas e seus novos adeptos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s