Dorival Caymmi, 100 anos e uma noite, na praça

Dorival Caymmi durante a inauguração da praça que leva seu nome, em Itapuã

Dorival Caymmi, 100 anos

e uma noite, na praça

Albenísio Fonseca

Na comemoração do centenário de Dorival Caymmi (30.04.1914-16.08.2008), que transcorre este ano – além da importância fundamental para a Música Popular Brasileira de todas as suas composições, notadamente as “canções praieiras”, aquelas em que cantou a Bahia, especialmente Salvador, Itapuã e o Abaeté – vale ressaltar, desde já, o que significou para este lugar, a cidade, o estado e o país, a inauguração da principal praça do bairro com seu nome.

O evento obteve repercussão nacional. A iniciativa da homenagem foi do vereador Osório Vilas Boas, cujo projeto de Indicação, após pressão favorável da opinião pública, em que pese tratar-se de pessoa viva, obteve aprovação por unanimidade. Afinal, ninguém havia oferecido  contribuição tão significativa sobre a Bahia e para todo o Brasil, quanto ele com suas canções sobre o mar, a praia, a lagoa do Abaeté, os coqueirais e a morena de Itapuã; as ruas antigas e os sobrados da velha São Salvador, as comidas, as igrejas, os orixás, as tradições e os costumes baianos, exaltando belezas que – hoje bem o sabemos e cantarolamos nas suas composições – só a Bahia tem.

A inauguração da Praça Dorival Caymmi reúne na antiga praça da Matriz, em 27 de junho de 1953, um sábado, nada menos que 10 mil pessoas, incluídas aí caravanas vindas de diversos locais do país, principalmente do Rio e São Paulo. A data foi sugerida pelos pescadores de Itapuã. Previram que não choveria. A placa da inauguração foi descerrada pelo governador Regis Pacheco e pelo prefeito Antonio Gordilho.

O ministro da Educação e Cultura, empossado na véspera e acumulando interinamente o Ministério da Saúde, também estava lá: era Antonio Balbino. Na primeira reforma ministerial do segundo governo Vargas, substituira Ernesto Simões Filho que dirigira, até então, a pasta da Educação e Saúde. Getúlio Vargas cometeria suicídio pouco mais de um ano depois. Balbino seria eleito governador da Bahia, daí a dois anos.

O presidente da Assembleia, deputados, vereadores e inúmeras outras autoridades também discursaram. Caymmi, com 39 anos, agradeceria em júbilo. Na plenitude da Era do Rádio, o extraordinário show da inauguração concentra verdadeira nata de cantores e grupos musicais de sucesso à época. Os casts de artistas da Rádio Tupi – Ademilde Fonseca, Dóris Monteiro, Odete Amaral, Leni Caldera, Trio Nagô, entre outros – e da Rádio Sociedade da Bahia, mais identificada naquele período pelo seu prefixo no dial, PRA-4, apresentam-se interpretando as belas canções de Caymmi. Nivaldo Rolemberg era um dos locutores.

O compositor e amigo Antonio Maria, o parceiro Carlos Guinle Filho nos samba-canções “Você não sabe amar” e “Tão só”, o cronista Rubem Braga, marcam presença. O jornalista Odorico Tavares noticiaria, em duas páginas na revista O Cruzeiro, a noite memorável. A TARDE e o Diário de Notícias já haviam dado matérias em destaque convocando os leitores para a efeméride.

No dia da festa, os pescadores se mobilizam na ajuda aos funcionários da Prefeitura encarregados de decorar a praça com bandeirolas coloridas, o cruzeiro adornado em flores, a igreja iluminada. O equipamento contemplava a urbanização do local – pouco mais que uma vila de pescadores, reduto ideal para veraneio, com casas típicas e fachadas pintadas em variadas cores.

A cidade estava vazia. Todos os caminhos levam a Itapuã. O lugar onde Dorival Caymmi buscou inspiração para algumas das suas principais canções fora tomado por boa parte da população. “De tudo quanto é canto tanta gente veio”. O sistema de transporte coletivo de Salvador, autorizado pela Prefeitura, circulava linhas especiais, dos cerca de 32 bairros da cidade, até a nova praça. Caymmi canta “Saudade de Itapuã” em dueto com sua mulher Stela Maris, acompanhados por um coro de 10 mil vozes.

A praça, hoje ocupada por um comércio ambulante, estava repleta e, no mar em frente, a praia, como nos atuais finais de semana, também fora tomada por tanta gente ávida em homenagear seu cantor. O farol piscava próximo e a lua cheia no alto do céu iluminava a noite radiante de Itapuã e de Dorival Caymmi, a estrela maior.

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ABI-BA fará mesmo “revisão histórica” sobre omissão às atrocidades da ditadura

Foto: Albenísio FonsecaDiretoria da ABI-BA decidiu por revisão à omissão durante o regime ditatorial 

ABI-BA fará mesmo “revisão

histórica”sobre omissão às

atrocidades da ditadura

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa fará mesmo uma “revisão histórica” do comportamento da entidade durante o golpe de 1964 e no período da ditadura militar no país, que durou até 1985. A decisão foi tomada durante reunião de diretoria na manhã desta quinta-feira (10.04), após diversas análises do contexto político daquele período e sob intensos e acalorados pronunciamentos. Vários deles, a propósito, contrários à medida que envolverá pedido de “desculpas públicas” pela “omissão” da instituição frente às ações de censura contra os veículos de comunicação, dura repressão aos direitos civis e assassinatos de jornalistas.

Ficou definido, contudo, que a instituição somente emitirá uma nota pública e procederá ao registro em ata, na reunião programada para o dia 23. Até lá, uma comissão elaborará a redação da carta aberta à sociedade. A comissão será presidida pelo jornalista Samuel Celestino (em que pese ser o presidente da assembleia geral) e integrada pelos vice-presidentes Sergio Mattos, Ernesto Marques e pelos diretores Agostinho Muniz e Antonio Matos. O presidente da ABI-BA, Walter Pinheiro, considerou a reunião “extremamente importante, na medida em que envolveu a discussão sobre um tema polêmico, histórico e por deliberar sobre atos levados a efeito por diretorias anteriores”. O encontro contou com a participação de 17 dirigentes

Ex-presidente da entidade, por mais de 20 anos, Samuel Celestino estranhou que a proposta, elaborada por alguns dirigentes, tivesse vazado e sido veiculada no site “Bahia Notícias”, do qual é diretor, como uma deliberação já consumada e sem que ele tivesse conhecimento prévio. A nota, todavia, foi retirada do site algumas horas depois de publicada. Celestino considerou o pedido de desculpas uma atitude temerária: “Não quero ficar olhando para trás, mas seguir em frente”, disse.

A repressão militar, inclusive o assassinato do jornalista Wladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI, em São Paulo, e outros 10 assassinatos de jornalistas, na Bahia, durante o regime de exceção, conforme Agostinho Muniz, “não fizeram por merecer nenhuma manifestação da entidade, até então”. Ele ressaltou, contudo, que o único reconhecimento das “atrocidades” cometidas pela ditadura, no que tange à ABI-BA, foi adotada de forma “unimonocrática”, pelo então presidente Samuel Celestino, na introdução do libreto comemorativo dos 70 anos que, todavia, não chegou a circular publicamente. “Foi recolhido a arquivo”, criticou.

Para Ernesto Marques, a ABI “não se redimiu da posição de ter defendido o golpe, nem mesmo após a adoção do Ato Institucional nº 5”, em 1968, que implicou no recrudescimento das atitudes discricionárias no país. Segundo ele, “a omissão, com o silêncio adotado, converteu a instituição em cúmplice do regime”. Marques defendeu, ainda, a “abertura da instituição junto aos profissionais nas redações e estudantes de Jornalismo”.

Na análise da conjuntura do período, o jornalista Sérgio Mattos classificou o golpe como “civil, militar e midiático”, tendo em vista o amplo apoio da imprensa. O professor de Comunicação Aloísio da Franca Rocha salientou a existência de comissões da verdade, tanto nos estados quanto em âmbito federal e associou o “cenário de violência” predominante, hoje, no país, à manutenção de uma “estrutura policial militar herdada da ditadura”. No entendimento do diretor financeiro, Geraldo Vilalva, que à época era repórter do Jornal da Bahia e cobria a movimentação no cais de Salvador, “o golpe foi movido por interesses econômicos e articulado pelo governador de Minas Gerais e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto, junto a setores da sociedade civil e aos militares”.

O também diretor, Raimundo Marinho, criticou o “vazamento” da proposta para a Imprensa, considerando que tal atitude converteria a instituição em um “clube de esquina”. Ele salientou que a decisão da adesão ao golpe pelos dirigentes daquele período “ocorreu em meio ao clima de comoção política e social” vivida, então, no Brasil, “o que não chegava, portanto, a constituir um crime”. Marinho defendeu que a redação da nota pública “deva estar vinculada à passagem dos 50 anos do golpe”. Sua preocupação, conforme destacou, era no sentido de “evitar o comprometimento da imagem da ABI-BA”.

Outro a se pronunciar foi Romário Gomes, que atribuiu a um “possível instinto de sobrevivência” a adesão ao golpe pela diretoria da entidade à época, encabeçada por Ranulfo Oliveira, Jorge Calmon (de A Tarde) e Odorico Tavares (do Diário de Notícias). Romário citou nomes como o do jornalista Anísio Félix (que presidiu o Sindicato dos Jornalistas na Bahia no período ditatorial e falecido em 2007), por “ousar bater de frente com a ditadura” e do jurista Orlando Gomes que teria “aderido ao regime ditatorial”. Já Luis Guilherme Pontes Tavares, questionou a “moda dos pedidos de desculpas por adesões ao governo dos generais“ e, como tal, disse que a instituição teria, também, que “desculpar-se pelo fim da Caixa Previdenciária”.

—————————————- Albenísio Fonseca é jornalista

ABI PEDIRÁ “DESCULPAS” POR TER ADERIDO AO GOLPE DE 64

O professor e jornalista Nelson Cerqueira faz seu relato de época para um público diminuto, mas significativo, no auditório da ABI

 

ABI PEDIRÁ “DESCULPAS” POR

TER ADERIDO AO GOLPE DE 64

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa vai pedir “desculpas públicas” à categoria e à população por ter aderido (ou se mantido omissa) ao golpe de 1964. A decisão será tomada em reunião na próxima semana, três dias após a data (7 de abril) consagrada aos jornalistas.

A iniciativa foi anunciada durante o evento “Imprensa e Censura”, promovido pela entidade na manhã desta quinta-feira (3.04). A iniciativa envolveu depoimentos de Walter Lessa, Nelson Cerqueira, Emiliano José, Samuel Celestino e João Eurico Matta, sobre o golpe civil militar.

A proposta do “Mea Culpa” já estaria encampada por dirigentes como o presidente da ABI e diretor geral da Tribuna da Bahia, Walter Pinheiro, o vice, Ernesto Marques e o diretor Agostinho Muniz. À época, a associação era presidida por Ranulfo Oliveira, e tinha como diretores Jorge Calmon, também de A Tarde e Odorico Tavares, do Diário de Notícias.

Os dirigentes chegaram a publicar então, como matéria paga, uma convocação à sociedade para participar de ato público em homenagem ao golpe, programado para 17 de abril de 1964, conforme registro no livro comemorativo dos 50 anos da entidade, criada em agosto de 1930, pouco menos de um mês antes da Revolução deflagrada naquele ano.

DEPOIMENTOS

O repórter-fotográfico Walter Lessa narrou episódios sobre o governo Lomanto Júnior, empossado em 1963 e que se manteve no poder por adesão à ditadura, até 1967. O jornalista Nelson Cerqueira contou sobre sua trajetória no Jornal da Bahia e narrou ação de censura promovida por um oficial do Exército, poucos dias após a derrubada do presidente João Goulart, levando o jornal sair sem a manchete que anunciava um ato contra o regime, entre outras ameaças.

O professor e ex-deputado Emiliano José traçou toda sua trajetória de preso político e das torturas a que foi submetido, inclusive choques elétricos, no quartel do Barbalho. Mencionou nomes de torturadores como os dos coronéis Brilhante Ustra, Luiz Arthur de Carvalho e de desaparecidos como Gildo Macedo Lacerda, cunhado do jornalista Antonio Jorge Moura.

Ele citou, ainda, a estarrecedora declaração do general e presidente Ernesto Geisel (1974-1978) “nós precisamos continuar matando”, registrada no livro “A Ditadura Envergonhada”, de Élio Gáspari, e referiu-se à “crueldade do regime”, com base nos recentes depoimentos do coronel reformado Paulo Manhães às comissões da verdade do Rio de Janeiro e à federal.

Manhães revelou com detalhes as atrocidades cometidas contra prisioneiros do regime, como o corte dos dedos para “apagar” digitais; desfiguração de faces para não ter a arcada identificada e pedras amarradas aos corpos, de modo meticulosamente estudado para que não afundassem ou emergissem.

Emiliano José criticou, do mesmo modo, a cumplicidade dos jornais à época, “à exceção do Última Hora”; a adesão da CNBB à ditadura, embora ressaltando as ações de enfrentamento levadas a efeito pelos bispos Dom Helder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Waldyr Calheiros de Novaes. Para finalizar com a assertiva: “Não sou eu quem registra, é a história”.

Samuel Celestino, por sua vez, contou sobre o episódio em que estudantes de Direito foram presos, no início do fatídico abril de 1964 e lembrou o silêncio adotado pelo orador da turma de colação de grau, depois também jornalista, Gilson Nascimento, em meio às ameaças de agentes do Exército.

O presidente da ABI, Walter Pinheiro relatou situação envolvendo teaser criado pelo chargista Hélio Lage para o lançamento do suplemente “A Coisa” e que envolvia um vaso sanitário sob o texto “A Coisa vem aí”, editado ao lado de uma manchete com Ernesto Geisel chegando a Salvador.

O diretor da Tribuna teve que ir dar explicações ao SNI-Serviço Nacional de Informações, no estado. João Eurico da Matta também deteve-se em análises sobre o governo Lomanto Júnior e revelou decisão da Câmara Municipal de Chorroxó (a 510 km de Salvador) em recusar proposta de título de cidadania ao general-presidente, Emílio Garrastazu Médici, já em 1970. ###

DIRETAS JÁ!

DIRETAS JÁ!

Derrota da emenda

amplia consciência

Albenísio Fonseca

A rejeição da emenda Dante de Oliveira, no início da madrugada de 26 de abril de 1984, pela ausência de parlamentares e voto contrário de deputados do PDS, deixaria entrever situações bastante sui-generis para os milhões de brasileiros que, nas capitais estaduais e municípios por todo o país, empenharam-se na luta pela aprovação da emenda que restabeleceria o direito de eleger o presidente da República ainda naquele ano.

A eleição para a presidência estava programada, mas seria realizada de modo indireto, através de Colégio Eleitoral. Para que o pleito transcorresse pelo voto popular, ou seja, de forma direta, era necessária a aprovação da emenda constitucional proposta pelo deputado Dante de Oliveira (PMDB – MT). A última eleição direta para presidente fora em 1960.

A cor amarela simbolizava a campanha iniciada em 1983. Após duas décadas de intimidação pela repressão, o movimento das Diretas Já ressuscitava a esperança e a coragem da população. A reivindicação sinalizava mudanças não só políticas, mas econômicas e sociais.

Dois comícios marcariam o processo: Na Candelária, no Rio de Janeiro, em 10 de abril, com um milhão de presentes e, em São Paulo, dia 16, aos gritos de “Diretas Já!” mais de 1,5 milhão de pessoas lota o Vale do Anhangabau, na capital paulista. Em Salvador, ocorrera em janeiro com 15 mil pessoas na praça Castro Alves. Entre as figuras de destaque do movimento, o deputado Ulysses Guimarães (PMDB-SP) chegou a ser apelidado de “o Senhor diretas”. Outros nomes emblemáticos foram a cantora Fafá de Belém (pela interpretação magistral do Hino Nacional) e o apresentador Osmar Santos.

Na noite de 25 de abril de 1984, o Congresso Nacional se reúne para votar a emenda que tornaria possível a eleição direta ainda naquele ano. A população não pode acompanhar a votação dentro do plenário. Temendo manifestações, o governo João Baptista Figueiredo reforça a segurança ao redor do Congresso Nacional. Tanques, metralhadoras e muitos homens deixavam claro que a proposta não interessava ao regime.

A expectativa era grande. Mas os 298 votos favoráveis seriam “subtraídos” por 112 deputados que não compareceram e frente aos apenas 65 contrários e três abstenções. Para a aprovação da emenda eram necessários 2/3 a favor ou 320 votos. Uma derrota por 22 votos.

As estruturas psíquicas de uma nação são capazes de resistir a golpes bem mais duros. Sobrevivem durante muitos anos, mesmo depois de mudanças infraestruturais profundas. Trata-se de uma agonia lenta para a qual não existe golpe de misericórdia capaz de destruí-las. Preservam-se, ainda que nos mais obscuros recantos do inconsciente coletivo. Fortes o suficiente para enfrentar ou empreender revoluções sociais e combater privilégios voltados a atender interesses de grupos, contra a maioria da população brasileira.

A nacionalidade é uma vinculação existencial inevitável. Não se trata de um ardil ou um álibi. Como hoje, obscuros legisladores nos leva(va)m de roldão – e então, já durante 20 anos após o golpe de 64 – sem se darem conta de que o desejo dos novos oráculos – aos milhões agora – são imediatos e práticos. A solidariedade (mais correto afirmar a cumplicidade) estabelecida em busca de eleições Diretas Já, se traduziria no plano da sublimação por um busca comum de novos valores. A luta, não só continua. Ela é contínua. Derrotava-se uma emenda, mas não a consciência do eleitor.

Vale lembrar o quanto as ações de entidades, organizações e comunidades, através de comitês organizados por todo o país, surpreenderam pela decidida forma com que compareceram aos eventos programados a favor da causa legítima, o direito de cada cidadão votar para eleger o seu mandatário máximo. O certo é que ali se tornou impossível aos que detinham o poder manter o povo brasileiro sob a acusação de subversão e à imposição de tirânicas leis de segurança e emergência, em meio a uma economia que asfixiava a todos os setores, indistintamente. O pleito seria consumado em janeiro de 1985 no colégio eleitoral. Tancredo Neves (PMDB) derrotaria Paulo Maluf (PDS) e um novo pesadelo atravessaria a noite no Brasil, mas aí já é outro capítulo da história.

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Albenísio Fonseca é jornalista (à época, Editor de Municípios na Tribuna da Bahia)

GOLPE DE 1964 – O calendário revisitado

Golpe de 1964, 

o calendário revisitado

Albenísio Fonseca

Entre os principais fatos que antecederam e foram utilizados como justificativa para o golpe de estado perpetrado por militares e setores da sociedade civil, em 1964, é possível traçar ou revisitar, de modo sintético, o calendário e episódios históricos, ilustrados com imagens e fac-similes de capas de jornais e revistas da época.

Agosto/1961 – Menos de sete meses após tomar posse, Jânio Quadros renuncia à Presidência da República. Alega que “forças terríveis” tinham se levantado contra ele. Analistas políticos creem que Jânio contava com o veto dos ministros militares ao vice-presidente, João Goulart, e com uma reação popular que o levasse de volta à Presidência, dessa vez com superpoderes.

Setembro/1961 – Depois das reações ao veto dos militares, uma solução de compromisso garante a posse de Goulart sob regime parlamentarista. Com a apressada emenda à Constituição, Goulart irá dividir o poder com o primeiro-ministro. Tancredo Neves é o primeiro a assumir o cargo.

Dezembro/1962 – Apresentação do Plano Trienal, elaborado pelo ministro Celso Furtado. Os objetivos centrais do plano eram o combate à inflação sem comprometer o crescimento econômico e buscar promover a realização das reformas necessárias para um desenvolvimento sustentado.

Janeiro/1963 – O sistema parlamentarista é derrotado em plebiscito e Goulart recupera os plenos poderes da Presidência.

Setembro/1963 – Após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) suspendendo o mandato dos sargentos eleitos no ano anterior, centenas de sargentos, fuzileiros e soldados se rebelam em Brasília. Tomam vários prédios públicos e prendem o presidente interino da Câmara dos Deputados e um ministro do STF. A rebelião é sufocada em poucas horas, com o saldo de um militar e um civil mortos. A quebra da disciplina e da hierarquia causa forte reação na alta oficialidade.

Outubro/1963 – Goulart pede ao Congresso autorização para decretar o estado de sítio por 30 dias. Não consegue apoio para a medida já que tanto as forças políticas de esquerda como as de direita temiam ser alvo dos poderes emergenciais.

Janeiro/1964 – Goulart regulamenta a Lei de Remessas de Lucros, que limitava as transferências de divisas para o exterior, contrariando os interesses dos investidores estrangeiros.

13 de março – Pelo menos 200 mil pessoas comparecem ao comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, no que seria o início de uma nova campanha em favor das reformas sociais.

No comício Goulart assina dois decretos: o primeiro nacionalizava todas as refinarias de petróleo particulares, o segundo tornava sujeitas à desapropriação propriedades rurais numa faixa de 10 km à margem de rodovias ou ferrovias federais.

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19 de março – Milhares de pessoas participam da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada por várias entidades conservadoras, entre elas a SRB (Sociedade Rural Brasileira) e a UCF (União Cívica Feminina). Segundo fontes divergentes, os participantes ficaram entre 200 mil e 500 mil pessoas.

20 de março – O general Castelo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército e um dos coordenadores da conspiração contra o governo democrático, lança uma circular reservada aos oficiais advertindo sobre o que considerava como perigo latente nas recentes medidas do presidente da República.

25 de março – Ministro da Marinha, Sílvio Mota, manda prender dirigentes da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais. A tropa enviada para fazer a prisão se recusa a atacar os colegas e vários fuzileiros se juntam aos insubordinados, no episódio conhecido como a Revolta dos Marinheiros.

Mota pede demissão. Após negociações, os marinheiros se entregam e são presos, mas logo depois são libertados e anistiados.

O episódio aumenta a irritação dos militares ainda legalistas com a quebra da hierarquia e disciplina.

30 de março – Goulart discursa em reunião de sargentos, no Automóvel Clube, no Rio de Janeiro.

31 de março – O general Olímpio Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora (MG), dá início ao golpe ao movimentar – antes do esperado pelos próprios conspiradores – suas tropas em direção ao Rio de Janeiro, onde se encontrava o presidente. Goulart envia tropas do Rio para deter a sublevação e tenta articular apoio militar entre os comandantes do Exército.

1º de abril – Após a adesão aos revoltosos pelas tropas enviadas do Rio de Janeiro, Goulart decide deixar o Rio e ir para Brasília. Sem condições de organizar uma resistência efetiva, decide ir para Porto Alegre. O golpe seria perpetrado com os apoios do Congresso, através do anúncio do senador Aldo Moura Andrade, dando a vacância da presidência, embora Jango ainda estivesse no Brasil; pelo STF, reconhecendo o presidente da Câmara, deputado Ranieri Mazzili como novo presidente da República e com a mobilização da 4ª Frota dos Estados Unidos para a costa brasileira.

O presidente do STF, Álvaro Moutinho da Costa, filho de general e irmão de coronéis, foi à posse de Ranieri Mazzilli na noite de 1º de abril, rompendo, também, a constitucionalidade na medida em que João Goulart ainda estava em território brasileiro. No dia 17, 48 horas após a posse de Castelo Branco, Moutinho o receberia no Supremo. Em suma, o golpe decorreu de um cerco militar (interno e externo) sustentado pelo Congresso, pelo Judiciário e sob o apoio de setores da classe média e  da imprensa.

Dentre 19 periódicos oriundos de cinco Estados, 17 eram jornais diários, alguns dos quais já não circulam, e dois são revistas hoje extintas. Apenas três se pronunciaram em defesa da Constituição: “Última Hora”, “A Noite” e “Diário Carioca”. Nos idos de 1964, os dois últimos não tinham muitos leitores. Os outros 16, em diferentes tons, desfraldaram a bandeira golpista. photo

2 de abril – Desrespeitando a Constituição do país à época, já que Goulart se encontrava em território nacional, o presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade, declara vaga a Presidência e empossa interinamente no cargo o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli.

Em Porto Alegre, apesar dos apelos de seu cunhado e ex-governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para que resistisse,  Goulart percebeu que não havia mais condições para uma reação ao golpe.

4 de abril – Sem que houvesse renunciado ao cargo, Goulart deixa o Brasil e pede asilo no Uruguai.

11 de abril – Um Congresso Nacional já expurgado com as primeiras cassações elege “respeitosamente” o general Castelo Branco presidente da República.

O regime militar

O GOVERNO DO GENERAL CASTELO BRANCO

Em 1964, o Comando Supremo da Revolução, nos primeiros dias de abril, edita o Ato Institucional nº 1, suspendendo as garantias constitucionais estabeleceu eleições indiretas e o Executivo passou a ter direito de cassar mandatos políticos e decretar estado de sítio, sem consultar o Congresso.

Essas medidas atingiram principalmente os líderes do regime deposto e as organizações que exigiam as reformas de base como a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), a PUA (Pacto de Unidade e Ação) e as Ligas Camponesas. Após estas medidas foram instaurados inquéritos seguidos de processos políticos a cargo da Justiça Militar.

O movimento vitorioso justificava-se como restaurador da economia, abalada pelas constantes greves, e favorável à definição de um padrão de desenvolvimento baseado na livre empresa e associado ao capital estrangeiro.

Politicamente, o projeto do General Humberto de Alencar Castelo Branco, escolhido como presidente, incluía o fortalecimento do Executivo e a segurança do Estado, para os quais foram criados órgãos como o Serviço Nacional de Informações (SNI). A segurança nacional foi o argumento usado para justificar as arbitrariedades praticadas.

  A repressão do regime militar configurou o nascimento de uma ditadura desde o dia 2 de abril de 1964, com a perseguição a todos que se opunham à nova ordem. Nessa data,  antes mesmo de João Goulart seguir para o exílio, foi organizado em regime de urgência o autodenominado “Comando Supremo da Revolução”, composto por três membros: o brigadeiro Francisco de Assis Correia de Melo (Aeronáutica), o vice-almirante Augusto Rademaker (Marinha) e o general Artur da Costa e Silva, representante do Exército e homem-forte do triunvirato. Essa junta permaneceria no poder por duas semanas”. 1965

Em 1965, realizaram-se eleições para governador em 11 estados e o governo perde em cinco deles. Em resposta, é editado o AI-2, decreto que permitia a intervenção do governo nos estados e municípios e que o Executivo legislasse através de “Decretos-Lei”. Também extingui os partidos políticos e cancela seus registros. A partir daí, passaram a existir apenas dois partidos, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

O

Ato Institucional nº 3 foi decretado logo em seguida, eliminando qualquer vestígio de democracia no país. Esse Ato estabelecia o fim das eleições diretas para governadores e prefeitos das capitais. A partir de então os governadores seriam indicados pelo presidente para a aprovação das Assembleias Legislativas. E os prefeitos seriam indicados pelos governadores.

Em 1966, o Congresso Nacional é fechado, o que provocou a reação de muitos que se identificavam com o movimento. As cassações de mandatos continuaram. Decretou-se também o Ato Institucional nº 4, que dava ao governo poderes para elaborar uma nova Constituição.

No início de 1967, O Congresso foi reaberto, desfalcado de alguns parlamentares, e aprovou uma nova Constituição elaborada por juristas do governo. As atribuições do poder Executivo foram consideravelmente aumentadas e a autonomia dos estados diminuída. O regime instituiu, ainda, um Tribunal Militar para julgar os civis.

Desta forma, o Marechal Castelo Branco pode contar com um Congresso bastante submisso. Foi essa submissão que possibilitou a aprovação de novos atos ditatoriais, como a limitação do direito de greve e a deposição dos governadores de Goiás, Amazonas e Rio de Janeiro.

Não foram apenas líderes políticos e sindicais os perseguidos pelo regime militar. Intelectuais, funcionários públicos, militares e artistas foram demitidos ou sofreram perseguições porque a ditadura os considerava perigosos. Acreditavam que impedindo essas pessoas de exercer sua profissão estariam combatendo o Comunismo. Ao final do governo Castelo Branco, quase quatro mil pessoas já haviam sido punidas.

Mesmo com a institucionalização da ”Revolução”, como desejava o presidente Castelo Branco, a democracia estava longe de ser garantida. Os partidos não representavam os diferentes interesses em jogo, dificultando a participação popular.

Ao nível econômico, o Governo Federal, procurou exercer controle sobre a inflação, incentivou as exportações e passou a atrair investimentos externos. Para controlar a inflação houve uma queda nos salários, o aumento das tarifas públicas e uma diminuição dos gastos do Estado. Essa política favoreceu a negociação do Governo com o FMI, obtendo empréstimos. Os EUA renegociaram a dívida externa do Brasil e várias empresas norte-americanas instalaram-se no país.

O desenvolvimento capitalista brasileiro, do qual se beneficiavam a burguesia e as empresas estrangeiras ou associadas ao capital estrangeiro, precisava das Forças Armadas e dos tecnocratas para exercer funções de controle no plano social e modernizadoras, no plano administrativo.

Ao final do governo Castelo Branco o Alto Comando Militar, escolheu como novo presidente o marechal Artur da Costa e Silva, que era o Ministro da Guerra. Essa escolha foi confirmada pelos membros da ARENA no Congresso Nacional. Para registrar seu protesto o MDB retirou-se do local da votação.

 

O GOVERNO DO MARECHAL ARTUR DA COSTA E SILVA

O Marechal Artur da Costa e Silva tomou posse em 31 de janeiro de 1967. No seu governo, foi criado o PED (Plano Econômico de Desenvolvimento), que continuaria a prática econômica do governo anterior, porem corrigindo os possíveis erros da política de combate à inflação. A política econômico-financeira era dirigida pelo ministro da fazenda Antonio Delfim Neto.

A partir de 1968 o governo Costa e Silva marcou-se pelo rigor com que reprimia as agitações. O então ministro da Justiça, Gama e Silva, desarticulou um movimento conhecido como Frente Ampla, composto por políticos cassados, representantes do MDB, do governo deposto em 64, estudantes e trabalhadores. O programa da Frente era exclusivamente político, exigindo anistia geral, elaboração de uma constituição democrática e restabelecimento das eleições diretas em todos os níveis. Devido à sua diversidade, a coesão ficou dificultada, levando-a ao fracasso. Mas era um sintoma do descontentamento que havia em relação aos caminhos que o regime estava tomando.

No Rio de Janeiro, em 1968, mais de 100 mil pessoas saíram nas ruas em passeata, protestando contra o assassinato do estudante Edson Luís , de 18 anos, no restaurante Calabouço, pela polícia. Também surgiram greves operárias, como a de Osasco, em São Paulo, e Contagem, em Minas Gerais.

O Congresso Nacional foi fechado e, a 13 de dezembro de 1968, editado Ato Institucional nº 5, o mais severo de todos. O AI-5 dava ao presidente da República poderes totais para perseguir e reprimir as oposições. Podia decretar estado de sitio, intervir nos estados e municípios, cassar mandatos e suspender direitos políticos, demitir funcionários, confiscar bens.

Tamanho passou a ser o poder do presidente que seus atos não necesitavam sequer ser submetidos à apreciação do Judiciário. Utilizando o AI-5, o governo prendeu milhares de pessoas em todo o país, entre elas o ex-governador Carlos Lacerda, o marechal Lott e o ex-presidente Juscelino Kubistchek. Fechou o Congresso Nacional por prazo indeterminado. Cassou os mandatos de 110 deputados federais, 160 deputados estaduais, 163 vereadores, 22 prefeitos. Afastou quatro ministros do Supremo Tribunal Federal.

Mesmo sendo um militar linha-dura, Costa e Silva não queria passar para a história como o criador do AI-5. por isso, confiou ao seu vice-presidente Pedro Aleixo, que fora contrário ao AI-5, a missão de elaborar uma nova constituição que substituísse toda aquela legislação arbitrária.

A nova Constituição estava praticamente concluída, quando Costa e Silva ficou gravemente doente e afastou-se da presidência. Uma Junta militar, composta pelos ministros do Exército, da Marinha, e da Aeronáutica, impediu o vice–presidente Pedro Aleixo de assumir o poder. Não confiava no político civil. A Junta Militar governou durante dois meses, de 31 de agosto a 22 de Outubro de 1969.

Nesse curto período, alterou profundamente a Constituição de 1967, dando origem ao novo texto constitucional de 1969, que reforçava ainda mais o poder do Executivo, o mandato presidencial era de cinco anos, foram mantidos todos os atos institucionais decretados depois de 1967, foi estabelecida a pena de morte e o banimento do território nacional para os casos de subversão.

Reconhecendo a impossibilidade de Costa e Silva recuperar a saúde, a junta militar declarou a extinção de seu mandato. E indicou o seu sucessor: o general Emílio Garrastazu Médici. Em 22 de Outubro de 1969, o Congresso foi reaberto depois de 10 meses. Nele não mais estavam presentes os antigos deputados federais, pois haviam sido cassados pelo AI-5.

O GOVERNO DO GENERAL EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI

O general Médici foi eleito indiretamente, ou seja, escolhido pelo Congresso Nacional, tomando posse em 30 de Outubro de 1969. Seu mandato caracterizou-se pelo endurecimento político, com a implantação de censura. A censura tinha como objetivo impedir a divulgação de qualquer notícia que comprometesse a imagem do governo ou mostrasse os problemas do país.

Alguns jornais, como o Estado de São Paulo, por exemplo, não aceitavam a imposição da censura, e em vez de substituir matérias censuradas, deixavam o espaço em branco ou colocavam poesias, em sinal de protesto à decisão do governo. Os jornais que desobedecessem eram proibidos de circular. Dessa forma o povo tinha uma imagem falsa do país, e era levado a acreditar que vivíamos no melhor dos mundos e que seus governantes eram sábios e honestos.

A censura não atingiu somente os meios de comunicação. Também as artes sofreram nas mãos dos censores. Compositores como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gilberto Gil e muitos outros, foram impedidos de gravar ou tiveram suas músicas proibidas de tocar no rádio e na TV. Vários filmes estrangeiros, que os militares consideravam subversivos, foram impedidos de ser exibidos. Textos de teatro foram vetados e montagens suspensas.

Até mesmo a TV sofreu cortes na programação. A censura não tinha limites. Sobre a classe operária, era exercida forte vigilância policial, a fim de evitar qualquer manifestação de protesto. Sobre os estudantes e professores, pairava o ameaçador decreto 477, mediante o qual o governo podia expulsar e demitir professores considerados “perigosos”.

Para estimular o patriotismo, o governo empreendeu agressivas campanhas publicitárias e introduziu no currículo escolar, matérias como Educação Moral e Cívica, Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Estudo dos Problemas Brasileiros (EPB).

A ditadura não admitia criticas nem oposição pacifica. Em meio a isso, um setor da oposição partiu para o enfrentamento armado com o regime. Surgiram vários grupos clandestinos que praticavam ações armadas em algumas cidades. Entre esses grupos estava a Ação Libertadora Nacional (ANL) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8). Liderada por Carlos Marighella, e a Vanguarda Popular Revolucionaria (VRP), comandada por Carlos Lamarca. Um outro grupo, vinculado ao PC do B, organizou no inicio da década de 70 um movimento guerrilheiro no Araguaia, sul do Pará. Esses grupos realizaram diversos assaltos a bancos, em busca de dinheiro para financiar a luta política.

Sequestraram diplomatas estrangeiros para trocá-los por companheiros presos, que estavam sendo torturados nos porões dos órgãos de segurança. Todos os lideres desses grupos foram esmagados pela repressão militar. Os militares queriam passar a ideia de que eram patriotas.

O patriotismo foi usado como arma ideológica para combater as oposições. Foi o tempo do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. No plano econômico, o governo Médici foi marcado por um período de desenvolvimento que a propaganda oficial chamou de ”Milagre Econômico”. A base dele foi uma gigantesca expansão do setor industrial. Desde 1967, o governo já vinha tomando inúmeras medidas para promover o desenvolvimento econômico.

As industrias foram beneficiadas com isenções de impostos e a ampliação do credito para os consumidores. Com a redução dos custos e o aumento das vendas, as indústrias prosperavam, Além disso, o governo vendia títulos, e com o dinheiro arrecadado, financiava grandes obras. O setor da construção civil foi estimulado com a edificação de milhares de residências, através de financiamentos do Banco Nacional de Habitação (BNH).

Assim, desde o final de 1967, a economia brasileira vinha apresentando grandes índices de crescimento. Esse crescimento beneficiou enormemente os empresários de todos os setores. Mas beneficiou também a classe média, pois significou mais possibilidade de empregos e maiores salários. Com a ampliação dos lucros dos empresários e da renda da classe media, cresceu a demanda por bens industriais, especialmente automóveis.

A grande expansão das vendas no setor automobilístico teve efeitos sobre outros setores industriais. Mas, alem do crescimento recorde no setor industrial, um outro fator que contribuiu para o Milagre Econômico foi a construção de gigantescas obras publicas, como a ponte Rio-Niterói, a duplicação da ponte Ercílio Luz (SC), os metrôs do Rio e de São Paulo, o elevado Costa e Silva, a Rodovia dos Imigrantes, a Transamazônica e a Hidrelétrica de Itaipu.

A construção das grandes obras acelerou o ritmo da expansão econômica. As obras significaram emprego para milhões de pessoas e encomendas para as industrias e empresas de prestação de serviço. Mais gente empregada e mais lucro para as empresas significaram mais consumo p-ara a industria de bens de consumo duráveis, não-duráveis e para a agricultura.

O comércio também se expandiu. Os supermercados e os shoppings centers passaram a fazer parte do cenário das grandes cidades.

Se o comercio interno ia bem, o externo ia ainda melhor. O Brasil deixou de ser essencialmente um país exportador de produtos primários. Uma grande parte das nossas exportações era de manufaturados.

Evidentemente, com todos os setores da economia vivendo um período de grande expansão, o clima só poderia ser de euforia. Otimismo reforçado pela conquista, em 1970, do tricampeonato mundial de futebol.

 

Mas mesmo com todo o crescimento da economia, já havia, entre muitas pessoas, a percepção de que nem tudo andava bem. Afinal, foi o próprio presidente Médici quem afirmou que a economia ia bem, mas o povo ia mal.

A principal vitima do milagre econômico foi a classe operária. Durante o governo Médici, o arrocho salarial foi mantido. O governo manipulava os índices oficiais de inflação de modo que os aumentos salariais sempre ficassem bem abaixo da inflação real.

A região amazônica também foi outra grande vitima do milagre econômico. A pressa de fazer do Brasil uma grande potência levou o governo a permitir uma ocupação desordenada e predatória da região. O governo abriu a Amazônia aos grandes projetos agropecuários. Milhares de hectares da floresta foram queimados e deram origem à enormes propriedades onde o boi ocupava o espaço do homem.

Mas o milagre econômico trouxe problemas graves para a economia brasileira. O financiamento das grandes obras foi feito através de um crescente endividamento externo e interno. A divida externa, alem de aumentar o poder dos banqueiros internacionais sobre a economia brasileira, obrigava o país a consumir uma parcela enorme das suas receitas de exportação a titulo de pagamento de juros. Isso ia colocando obstáculos ao prosseguimento do nosso desenvolvimento.

O governo recorreu também ao endividamento interno. Como gastava bem mais do que arrecadava, freqüentemente tinha que lançar mão da venda de títulos ou emitir dinheiro. O resultado desses dois expedientes foi o retorno da inflação.

 Em 1947, já estava claro que o Brasil necessitaria de outro milagre para sair da crise provocada pelo primeiro.

 Euforia na ditadura

Em 1970, no domingo em que o capitão Carlos Alberto fez o quarto gol contra a Itália, na Copa do México, e deu à seleção a Taça Jules Rimet, e o cobiçado tricampeonato mundial, andar de carro nas ruas brasileiras sem uma bandeira verde-amarela tornou-se uma imprudência.

Os adesivos “Brasil: ame-o ou deixe-o” grudaram em todas as faces de um país em que o PIB subia 10% ao ano, as bolsas disparavam, as obras da Transamazônica começavam e 160 milhões de dólares eram torrados na compra de 16 aviões supersônicos Mirage.

O Brasil estava contagiado pela emoção. Mas o momento inesquecível de autoestima nacional estava aplicado sobre um fundo falso. O “Brasil Grande” era apenas imaginário. Assim, Médici chorou diante da seca nordestina, ao descobrir que a economia ia bem, mas o povo ia mal. A Transamazônica até hoje é uma miragem de empreiteiro.

A classe média, entretanto, comemorava as novas possibilidades de consumo. O paraíso nos anos 70 consistia em tirar o automóvel Corcel da garagem, fazer compras no supermercado, ver futebol na maravilha do ano, a TV em cores, e sonhar com a nova viagem à Bariloche, na Argentina.

GOVERNO GEISEL 1974-1979

O sucessor do presidente Médici foi outro general, indicado pelo alto comando militar e referendado pela ARENA. Ernesto Geisel integrava um grupo dos oficiais militares favoráveis à devolução gradual dos poderes aos covis. Quer dizer, o novo presidente estava disposto a promover conforme suas palavras, um processo gradual, lento e seguro de abertura democrática.

O governo começou sua ação democratizante diminuindo a severa ação de censura sobre os meios de comunicação. Depois garantiu a realização de eleições livres para senadores, deputados e vereadores em 1974. O MDB, único partido de oposição, alcançou uma vitória significativa sobre a ARENA, o partido do governo. Os militares de linha-dura assustaram-se com a vitória das oposições. Os comandantes dos órgãos de repressão do regime militar não suportavam a ideia de uma abertura democrática. Por isso, continuavam agindo com a mesma violência do período anterior.

Em São Paulo foram presos e mortos, nas dependências do II Exercito, o jornalista Vladimir Herzog (1975) e, posteriormente, o operário Manuel Fiel Filho (1976). A sociedade brasileira ficou escandalizada com os atos brutais dos órgãos militares, que diziam agir em nome da “Segurança Nacional”.

O presidente Geisel afastou o general comandante do II Exercito para por fim à onda de violência que indignava a nação. Em abril de 77, prevendo a derrota que o governo sofreria nas eleições de 1978, Geisel decretou um conjunto de medidas que ficou conhecido como Pacote de Abril, colocando o Congresso em recesso temporário, para que fossem feitas respostas políticas. Criou a figura do senador biônico, onde 1\3 do Senado passou a ser composto por senadores nomeados pelo presidente, como forma de garantir a maioria de votos favoráveis ao governo.

O pacote também aumentou o mandato presidencial para 6 anos. A política econômica de Geisel foi desenvolvimentista. Para isso recorreu-se, como de praxe, a empréstimos externos (o Brasil tornou-se um dos maiores devedores do mundo) e ao aumento de impostos, acentuando o descontentamento da população.

Em outubro de 1978, o presidente Geisel extinguiu o AI-5 e os demais atos institucionais que marcaram a legislação arbitrária da ditadura. Ao final do governo Geisel, pode-se dizer que houve certa disputa na eleição indireta para Presidente da República.

Em nome da ARENA disputaram os candidatos a presidente o general João Baptista de Oliveira Figueiredo e como vice Aureliano Chaves. Em nome do MDB, disputaram os candidatos a presidente o general Euler Bentes Monteiro e como vice Paulo Brossard. O Colégio Eleitoral conferiu 335 votos ao general Figueiredo contra 266 dados ao general Euler.

GOVERNO FIGUEIREDO 1979-1985

O presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo iniciou seu governo num momento em que crescia no país a critica política às decisões autoritárias e centralizadas do governo militar. Diversos setores da sociedade brasileira passaram a reivindicar ardentemente a redemocratização do país.

Diante das pressões de toda a sociedade, o presidente Figueiredo assumiu compromisso de realizar a abertura política e devolver a democracia ao Brasil.

Nesse clima de abertura democrática, os sindicatos voltaram a se fortalecer e ressurgiram as primeiras greves operarias contra o achatamento dos salários. Dentre elas, destacavam-se as greves dos operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo, sob a liderança sindical de Luis Inácio Lula da Silva.

A campanha da sociedade obteve os primeiros resultados positivos:

A Lei da Anistia, que como dizia o nome anistiava a todos aqueles que foram punidos pela ditadura militar. Assim, muitos cidadãos brasileiros que ainda estavam no exílio puderam, finalmente, regressar ao país. Pessoas que tiveram seus direitos políticos cassados foram reabilitadas na sua cidadania. Mas a anistia não foi irrestrita, milhares de militares punidos não puderam voltar normalmente às forças armadas.

E também o fim do bipartidarismo restrito à ARENA ao MDB. Foram criados novos partidos para disputar as próximas eleições. Surgiram então o PDS (no lugar da ARENA) e o PMDB (no lugar do MDB). Apareceram ainda partidos como o PT, PTB e outros. Foram restabelecidas as eleições diretas para governadores.

No plano econômico, o ministro do planejamento, Delfim Neto, procurou executar o III PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) que tinha como principais preocupações promover o crescimento da renda nacional, controlar a divida externa, combater a inflação e desenvolver novas fontes de energia.

Quanto ao setor energético, o governo buscou através do Proálcool (Programa Nacional do Álcool) substituir progressivamente petróleo importado por uma fonte de combustível nacional, o álcool.

Os outros grandes objetivos do III PND não foram alcançados de forma satisfatória como a Divida Externa e a Inflação. O Brasil, tinha feito empréstimos do FMI, teve que se submeter às exigências dos banqueiros internacionais que passaram a ditar regras de ajustamento da nossa economia.

Sem poder pagar os empréstimos obtidos, o Brasil caiu numa ciranda sem fim. Passou a pedir novos empréstimos pra saldar a divida anterior. Já a inflação foi provocada por uma serie de desequilíbrios econômicos, a inflação começou a explodir no governo de Figueiredo. Bateu recorde histórico, superando a cifra de 200% ao ano. A classe social mais prejudicada com a inflação foi a operária, que teve seu salário corroído dia a dia pela alta absurda do custo de vida.

Outro problema foi o desemprego foi o desemprego, provocado pela falta de investimentos no setor produtivo (expansão das empresas) resultou numa redução do crescimento econômico, cuja conseqüência social mais importante foi o aumento do desemprego.

Em 1983, os níveis de desemprego em são Paulo, Rio de Janeiro e outros estados atingiram uma situação desesperadora. Grupos de desempregados, para não morrer de fome, chegaram a saquear padarias e supermercados para conseguir comida para suas famílias.

Com o agravamento da crise econômica, cresceu também a insatisfação popular contra o governo. Nas eleições de 1982, o povo manifestou eu descontentamento elegendo um grande número de candidatos das oposições nos principais estados brasileiros.

Depois de 18 anos de ditadura, em 15 de março de 1983, assumiram o poder nos estados novos governadores eleitos diretamente pelo povo.

O regime militar se aproximava do fim. Com a renovada força, as oposições políticas passaram a exigir eleições diretas para a presidência da República. A Campanha pelas Diretas foi um dos maiores movimentos político-populares da nossa historia. Nas ruas, nas praças, multidões entusiasmadas, reunidas em grandes comícios, gritavam o lema DIRETAS JÁ! e cantavam o Hino Nacional.

Entretanto, uma serie de manobras de políticos ligados à ditadura militar impediu a realização das eleições diretas para presidente. O principal grupo que sabotou a emenda das diretas foi liderado pelo então deputado paulista Paulo Maluf.

Contrariada a vontade do povo brasileiro, teve prosseguimento o processo das eleições indiretas, criado pelo regime militar. Nessa fase, concorreram para a presidência dois candidatos, Paulo Maluf e Tancredo Neves.

Paulo Maluf era o candidato oficial do PDS, o partido do governo. Entretanto não contava com o apoio efetivo das forças tradicionais que estavam no poder.

Tancredo Neves então governador de Minas Gerais, era o candidato de uma confusa aliança política, composta por ex-integrantes do PDS e membros do PMDB, que se apresentava como a alternativa concreta para que a sociedade brasileira alcançasse o fim do regime militar.

Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral reuniu-se em Brasília para escolher entre Tancredo e Maluf. Resultado: 480 votos para Tancredo contra 180 para Maluf e 26 abstenções. O presidente eleito, todavia, há menos de 12 horas da posse, apresenta fortes dores abdominais, febre alta, dificuldade respiratória e tremores, Tancredo Neves é internado às pressas no Hospital de Base de Brasília.

Atônito, o país assiste pela TV ao comunicado do secretário de imprensa do novo governo, Antônio Britto, informando que o presidente sofrera uma cirurgia no intestino. Trinta e oito dias e sete cirurgias depois, morria, em São Paulo, o presidente Tancredo Neves. Em seu lugar assume o vice, José Sarney.

Somente em 1989 aconteceria a primeira eleição direta para a Presidência da República após a ditadura militar e desde 1960. O pleito foi disputado por 22 candidatos – entre eles, Fernando Collor, Lula, Leonel Brizola, Mário Covas, Paulo Maluf, Ulysses Guimarães, Aureliano Chavez, Guilherme Afif Domingos, Roberto Freire, Enéas e Fernando Gabeira. Lula e Collor se enfrentaram no segundo turno. Collor venceu.