ABI-BA fará mesmo “revisão histórica” sobre omissão às atrocidades da ditadura

Foto: Albenísio FonsecaDiretoria da ABI-BA decidiu por revisão à omissão durante o regime ditatorial 

ABI-BA fará mesmo “revisão

histórica”sobre omissão às

atrocidades da ditadura

Albenísio Fonseca

A ABI-Associação Bahiana de Imprensa fará mesmo uma “revisão histórica” do comportamento da entidade durante o golpe de 1964 e no período da ditadura militar no país, que durou até 1985. A decisão foi tomada durante reunião de diretoria na manhã desta quinta-feira (10.04), após diversas análises do contexto político daquele período e sob intensos e acalorados pronunciamentos. Vários deles, a propósito, contrários à medida que envolverá pedido de “desculpas públicas” pela “omissão” da instituição frente às ações de censura contra os veículos de comunicação, dura repressão aos direitos civis e assassinatos de jornalistas.

Ficou definido, contudo, que a instituição somente emitirá uma nota pública e procederá ao registro em ata, na reunião programada para o dia 23. Até lá, uma comissão elaborará a redação da carta aberta à sociedade. A comissão será presidida pelo jornalista Samuel Celestino (em que pese ser o presidente da assembleia geral) e integrada pelos vice-presidentes Sergio Mattos, Ernesto Marques e pelos diretores Agostinho Muniz e Antonio Matos. O presidente da ABI-BA, Walter Pinheiro, considerou a reunião “extremamente importante, na medida em que envolveu a discussão sobre um tema polêmico, histórico e por deliberar sobre atos levados a efeito por diretorias anteriores”. O encontro contou com a participação de 17 dirigentes

Ex-presidente da entidade, por mais de 20 anos, Samuel Celestino estranhou que a proposta, elaborada por alguns dirigentes, tivesse vazado e sido veiculada no site “Bahia Notícias”, do qual é diretor, como uma deliberação já consumada e sem que ele tivesse conhecimento prévio. A nota, todavia, foi retirada do site algumas horas depois de publicada. Celestino considerou o pedido de desculpas uma atitude temerária: “Não quero ficar olhando para trás, mas seguir em frente”, disse.

A repressão militar, inclusive o assassinato do jornalista Wladimir Herzog, nos porões do DOI-CODI, em São Paulo, e outros 10 assassinatos de jornalistas, na Bahia, durante o regime de exceção, conforme Agostinho Muniz, “não fizeram por merecer nenhuma manifestação da entidade, até então”. Ele ressaltou, contudo, que o único reconhecimento das “atrocidades” cometidas pela ditadura, no que tange à ABI-BA, foi adotada de forma “unimonocrática”, pelo então presidente Samuel Celestino, na introdução do libreto comemorativo dos 70 anos que, todavia, não chegou a circular publicamente. “Foi recolhido a arquivo”, criticou.

Para Ernesto Marques, a ABI “não se redimiu da posição de ter defendido o golpe, nem mesmo após a adoção do Ato Institucional nº 5”, em 1968, que implicou no recrudescimento das atitudes discricionárias no país. Segundo ele, “a omissão, com o silêncio adotado, converteu a instituição em cúmplice do regime”. Marques defendeu, ainda, a “abertura da instituição junto aos profissionais nas redações e estudantes de Jornalismo”.

Na análise da conjuntura do período, o jornalista Sérgio Mattos classificou o golpe como “civil, militar e midiático”, tendo em vista o amplo apoio da imprensa. O professor de Comunicação Aloísio da Franca Rocha salientou a existência de comissões da verdade, tanto nos estados quanto em âmbito federal e associou o “cenário de violência” predominante, hoje, no país, à manutenção de uma “estrutura policial militar herdada da ditadura”. No entendimento do diretor financeiro, Geraldo Vilalva, que à época era repórter do Jornal da Bahia e cobria a movimentação no cais de Salvador, “o golpe foi movido por interesses econômicos e articulado pelo governador de Minas Gerais e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto, junto a setores da sociedade civil e aos militares”.

O também diretor, Raimundo Marinho, criticou o “vazamento” da proposta para a Imprensa, considerando que tal atitude converteria a instituição em um “clube de esquina”. Ele salientou que a decisão da adesão ao golpe pelos dirigentes daquele período “ocorreu em meio ao clima de comoção política e social” vivida, então, no Brasil, “o que não chegava, portanto, a constituir um crime”. Marinho defendeu que a redação da nota pública “deva estar vinculada à passagem dos 50 anos do golpe”. Sua preocupação, conforme destacou, era no sentido de “evitar o comprometimento da imagem da ABI-BA”.

Outro a se pronunciar foi Romário Gomes, que atribuiu a um “possível instinto de sobrevivência” a adesão ao golpe pela diretoria da entidade à época, encabeçada por Ranulfo Oliveira, Jorge Calmon (de A Tarde) e Odorico Tavares (do Diário de Notícias). Romário citou nomes como o do jornalista Anísio Félix (que presidiu o Sindicato dos Jornalistas na Bahia no período ditatorial e falecido em 2007), por “ousar bater de frente com a ditadura” e do jurista Orlando Gomes que teria “aderido ao regime ditatorial”. Já Luis Guilherme Pontes Tavares, questionou a “moda dos pedidos de desculpas por adesões ao governo dos generais“ e, como tal, disse que a instituição teria, também, que “desculpar-se pelo fim da Caixa Previdenciária”.

—————————————- Albenísio Fonseca é jornalista

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Luis Guilherme PontesTavares
    abr 11, 2014 @ 14:02:13

    Caro Albenísio, compartilhei na minha página no Facebook. Grato.

    Responder

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