Dorival Caymmi, 100 anos e uma noite, na praça

Dorival Caymmi durante a inauguração da praça que leva seu nome, em Itapuã

Dorival Caymmi, 100 anos

e uma noite, na praça

Albenísio Fonseca

Na comemoração do centenário de Dorival Caymmi (30.04.1914-16.08.2008), que transcorre este ano – além da importância fundamental para a Música Popular Brasileira de todas as suas composições, notadamente as “canções praieiras”, aquelas em que cantou a Bahia, especialmente Salvador, Itapuã e o Abaeté – vale ressaltar, desde já, o que significou para este lugar, a cidade, o estado e o país, a inauguração da principal praça do bairro com seu nome.

O evento obteve repercussão nacional. A iniciativa da homenagem foi do vereador Osório Vilas Boas, cujo projeto de Indicação, após pressão favorável da opinião pública, em que pese tratar-se de pessoa viva, obteve aprovação por unanimidade. Afinal, ninguém havia oferecido  contribuição tão significativa sobre a Bahia e para todo o Brasil, quanto ele com suas canções sobre o mar, a praia, a lagoa do Abaeté, os coqueirais e a morena de Itapuã; as ruas antigas e os sobrados da velha São Salvador, as comidas, as igrejas, os orixás, as tradições e os costumes baianos, exaltando belezas que – hoje bem o sabemos e cantarolamos nas suas composições – só a Bahia tem.

A inauguração da Praça Dorival Caymmi reúne na antiga praça da Matriz, em 27 de junho de 1953, um sábado, nada menos que 10 mil pessoas, incluídas aí caravanas vindas de diversos locais do país, principalmente do Rio e São Paulo. A data foi sugerida pelos pescadores de Itapuã. Previram que não choveria. A placa da inauguração foi descerrada pelo governador Regis Pacheco e pelo prefeito Antonio Gordilho.

O ministro da Educação e Cultura, empossado na véspera e acumulando interinamente o Ministério da Saúde, também estava lá: era Antonio Balbino. Na primeira reforma ministerial do segundo governo Vargas, substituira Ernesto Simões Filho que dirigira, até então, a pasta da Educação e Saúde. Getúlio Vargas cometeria suicídio pouco mais de um ano depois. Balbino seria eleito governador da Bahia, daí a dois anos.

O presidente da Assembleia, deputados, vereadores e inúmeras outras autoridades também discursaram. Caymmi, com 39 anos, agradeceria em júbilo. Na plenitude da Era do Rádio, o extraordinário show da inauguração concentra verdadeira nata de cantores e grupos musicais de sucesso à época. Os casts de artistas da Rádio Tupi – Ademilde Fonseca, Dóris Monteiro, Odete Amaral, Leni Caldera, Trio Nagô, entre outros – e da Rádio Sociedade da Bahia, mais identificada naquele período pelo seu prefixo no dial, PRA-4, apresentam-se interpretando as belas canções de Caymmi. Nivaldo Rolemberg era um dos locutores.

O compositor e amigo Antonio Maria, o parceiro Carlos Guinle Filho nos samba-canções “Você não sabe amar” e “Tão só”, o cronista Rubem Braga, marcam presença. O jornalista Odorico Tavares noticiaria, em duas páginas na revista O Cruzeiro, a noite memorável. A TARDE e o Diário de Notícias já haviam dado matérias em destaque convocando os leitores para a efeméride.

No dia da festa, os pescadores se mobilizam na ajuda aos funcionários da Prefeitura encarregados de decorar a praça com bandeirolas coloridas, o cruzeiro adornado em flores, a igreja iluminada. O equipamento contemplava a urbanização do local – pouco mais que uma vila de pescadores, reduto ideal para veraneio, com casas típicas e fachadas pintadas em variadas cores.

A cidade estava vazia. Todos os caminhos levam a Itapuã. O lugar onde Dorival Caymmi buscou inspiração para algumas das suas principais canções fora tomado por boa parte da população. “De tudo quanto é canto tanta gente veio”. O sistema de transporte coletivo de Salvador, autorizado pela Prefeitura, circulava linhas especiais, dos cerca de 32 bairros da cidade, até a nova praça. Caymmi canta “Saudade de Itapuã” em dueto com sua mulher Stela Maris, acompanhados por um coro de 10 mil vozes.

A praça, hoje ocupada por um comércio ambulante, estava repleta e, no mar em frente, a praia, como nos atuais finais de semana, também fora tomada por tanta gente ávida em homenagear seu cantor. O farol piscava próximo e a lua cheia no alto do céu iluminava a noite radiante de Itapuã e de Dorival Caymmi, a estrela maior.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Fernando Queiroz
    maio 02, 2014 @ 13:51:10

    Albenísio, muita informação que nos colocou de volta ao momento de 53 ( aliás, eu tinha em São Vicente, então, uns dois meses e alguns dias). Obrigado e um abração!

    Responder

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