3ª BIENAL DA BAHIA, QUEM DIRIA, FECHA PARA A COPA

Foto: Albenísio Fonseca

Abandono do Pier reflete descaso com o Solar do Unhão, tombado como Patrimônio Nacional na década de 1940

PARADOXO III

BIENAL DA BAHIA, QUEM

DIRIA, FECHA PARA A COPA

Albenísio Fonseca

A reforma do Solar do Unhão – onde está instalado o Museu de Arte Moderna da Bahia – não foi concluída para a realização da 3ª Bienal do estado (sob um lema a indagar, “Tudo é Nordeste?”). As obras – “para a Copa” – conforme anunciado em 2013 e, agora, sob um improvável horizonte de conclusão no segundo semestre desse ano, seguem no MAM-BA e com os demais museus subordinados ao IPAC-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural fechando as portas nos dias de jogos. De acordo com o diretor da unidade, Marcelo Rezende, o fechamento desses equipamentos culturais não é apenas contraproducente, como ressaltei, mas “super contraproducente”, como deixou escapar.
A face nada oculta do abandono do equipamento, apesar da reforma, agride pelo inacreditável estado a que foi relegado, como se diria de uma “instalação do caos”, em se tratando de um ambiente voltado para a Arte Contemporânea. Era demasiadamente previsível que o MAM-BA, ainda convertido em canteiro de obras, não teria possibilidade de abrigar uma bienal. As mostras do evento estão distribuídas no ICBA-Instituto Cultural Brasil Alemanha, no Mosteiro de São Bento, Caixa Cultural e por 20 cidades do interior. 
É grave constatar que o Solar, convertido em um artifício (sedutor) de simulação, no afã de ocultar o descalabro, tem a 3ª Bienal como um viés de camuflagem. O fato de fechar para a visitação pública neste período de acentuada movimentação turística, dada a realização dos jogos da Copa,  apenas ressalta os equívocos de gestores, curadores e, evidentemente, do Governo do Estado.
O expressivo conjunto arquitetônico do Solar é um bem tombado pelo então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional na década de 1940. Por mais relevante que seja sua restauração, vê-se com tristeza o quanto o descuido atenta, do mesmo modo, contra o empenho da arquiteta Lina Bo Bardi (cujo centenário transcorre este ano), para implantação do MAM, inaugurado em 1969 naquele espaço. Vale a postulação do artista belga Marcel Broodthaers, citada no projeto da bienal: “O museu normal e os seus representantes colocam em cena uma forma de verdade. Falar deste museu equivale a discorrer sobre as condições dessa verdade. Há uma verdade da mentira”.
O MAM conta com um acervo abrangente, cerca de duas mil obras. Destacam-se os trabalhos de Tarsila do Amaral, Portinari, Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Rubem Valentim, José Pancetti, Carybé, Mário Cravo e Sante Scaldaferri, pouco mostrados. Há, ainda, o Parque das Esculturas, inaugurado em 1997, com exposição a céu aberto de artistas como Bel Borba, Chico Liberato, Emanoel Araújo, Fernando Coelho, Juarez Paraíso, Mário Cravo Júnior, Mestre Didi, Sante Scaldaferri, Siron Franco, Tati Moreno e Vauluizo Bezerra. Carybé é autor do gradil que cerca o espaço.
A senzala consolidou-se em restaurante, o pátio abriga Jam Sessions, mas o píer permanece à espera de licitação para ser restaurado. A Bienal – proposta para 100 dias, sob o “eclipse” do futebol – tende a cumprir um resgate histórico, mas não vinga o compromisso de estar inserida no espaço destinado à contemporaneidade artística. Algo como ter a carroça à frente dos bois e sob a legenda: fechada em copas.
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Albenísio Fonseca é Jornalista

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Ney Sá
    jun 28, 2014 @ 02:22:52

    É realmente lamentável. Assim como, em passado um pouco mais distante, sucatearam e fecharam o Forte São Marcelo, sob o beneplácito do Iphan.

    Responder

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