Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

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Rei do Rock’n’roll agora é o Rei Momo do Asilo

                                                                                                              Foto: Albenísio FonsecaPrecursor do Rock’n’roll na Bahia e radialista por 20 anos, Waldir Serrão, o Big Ben, vive há dois anos no Abrigo Dom Pedro II

Waldir Serrão
Rei do rock agora é o
Rei Momo do Asilo

ALBENÍSIO FONSECA
 Aos 74 anos, Waldir Serrão – precursor e Rei do Rock’n’roll na Bahia no início dos anos 60 – agora é  o Rei Momo do Carnaval no Asilo Dom Pedro II. Na terça-feira (10.02) ele comandou o Baile de Carnaval da instituição ao som da banda de Cristine e Coringa. Serrão, que boa parte do público conhece pelo nome artístico de Big Ben, está há dois anos nesse tradicional abrigo para idosos da cidade. “Mesmo sendo candidato único no concurso que o elegeu Rei Momo, para ele, ter sido eleito “foi uma surpresa”, brinca, garantindo que “quem foi rei sempre será majestade”.
Na segunda-feira (9) pela manhã, ele e a Rainha da Folia, Lúcia, comandaram o desfile de Carnaval no interior do abrigo, ao som da Banda da Guarda Municipal. Para Waldir Serrão, há uma “enorme diferença” entre Carnaval e Rock’n’roll. “Mesmo os festivais de rock eram completamente diferentes”. Segundo ele, “o Carnaval não tem a mesma variedade musical e cultural do rock. A turma do Carnaval só pensa em ganhar dinheiro, no ambiente do rock não é bem assim”, acredita.
Sem oportunidade de trabalho nas emissoras de rádio baianas, Serrão passou a enfrentar dificuldades. Graças a um irmão, conseguiu sua aposentadoria como radialista, ele que sempre foi um dublê de cantor e homem do rádio. Antes do Pedro II, passou uma temporada no Abrigo São José, na Ladeira dos Bandeirantes, de onde saiu para a casa de uma ex-namorada, Solange, no Dique do Tororó, a quem se diz muito grato. “Ela não admitia que eu viesse a passar fome e me proporcionou alimentação e abrigo durante uns oito meses”, ressaltou.
Cine Roma e Elvis Presley
“É uma enorme coincidência que eu esteja aqui, ao lado do Cine Roma, o principal palco da história do rock na Bahia. Estou no Pedro II graças à força de Carlos Pitta e Jerry Adriani. O Governo do Estado nunca me proporcionou nada”, afirma. Sobre o fato de ter não ter feito poupança para garantir um futuro tranquilo, Waldir Serrão – com a mesma voz que badalou por 18 anos o programa “O Som do Big Ben” em emissoras de rádio e tevê de Salvador – diz que gastava muito. “Banquei muitos shows que não deram o retorno imaginado. Passei um mês nos Estados Unidos. Conheci Memphis, no Tennesse, a terra em que Elvis Presley nasceu e um dos berços do rock’n’roll. Conheci a casa e o túmulo dele em Graceland. Elvis foi meu principal ídolo”, conta.
A paixão de Waldir Serrão por Elvis Presley sempre foi tanta que, pai de um casal de gêmeos, não hesitou em colocar o nome dos filhos, já com 39 anos, “Elvis” e “Sylvia” (título de uma canção, sucesso na voz do Rei do Rock mundial). Outra paixão dele foi a cantora norte-americana Barbra Streisand. “Tinha todos os discos dela”, revela. Do mesmo modo que a voz, a memória de Serrão também permanece acesa. Recordou de parceiros do tempo do Rádio, dos fã-clubes que ajudou a fundar na cidade. “Não era só de Elvis, tinha os de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Jerry Adriani”, lembra sem esforço.
Roqueiro cantando MPB
“Imagine, eu, roqueiro, agora estou cantando MPB no Coral Menino Jesus, cujas atividades estão suspensas por causa do Carnaval”. A conversa com Waldir Serrão é divertida e ele cobra a visita dos amigos roqueiros, “inclusive com doações para os demais idosos do Asilo Pedro II”. Ele revela que sempre que pode dá uma fugida. “Vou visitar meu filho Elvis, que também canta, mas na Igreja Batista de Pernambués. A mãe proibiu ele de cantar rock pois, segundo ela, é música do diabo”. Ele aproveita, também, para ir ver a namorada Nilda, “com quem mantenho uma relação afetiva há 10 anos”.
Sobre Raul Seixas, disse que “no início de toda essa aventura do rock’n’roll na Bahia, nós éramos ao mesmo tempo parceiros e concorrentes. Eu tinha a banda Waldir Serrão e seus Cometas e ele a Raulzito e seus Panteras. Tudo acontecia aqui entre Roma e a Boa Viagem. A Cidade Baixa era a capital do rock em Salvador. Tanto eu como Raul fomos influenciados pelo cinema em filmes como “Sementes do Ódio” (com James Dean) e “No balanço das horas” (com Billy Halley e seus Cometas). Tocávamos nos clubes sociais. Lembro sempre de uma apresentação nossa no Fantoches da Euterpe, no 2 de Julho”, recorda.
Pique para voltar ao rádio
Após ter atuado como radialista de 1964 a 1984, Serrão não titubeia: “Tenho pique para voltar a apresentar shows e programas de rádio. O Mário Kértesz prometeu me ajudar com um emprego na Rádio Metrópole, onde trabalhei 10 anos com o programa “Inclusão Social”, que tocava música gospel e country, mas até hoje não cumpriu a promessa”, cobrou.
Na rotina dos últimos dois anos, após o café da manhã no Pedro II, ele participa de atividades junto aos demais idosos. “Alguns preferem artesanato, aulas de canto, jogos. Eu gosto de desenhar e pintar. Aqui tenho liberdade e posso descansar, ouvir os pássaros cantando no jardim”, revela com o mesmo entusiasmo de sempre.