Cuba, liberdade de imprensa e a fome

Che Guevara lê “La Nacion” no início dos anos 6O

Cuba, liberdade de imprensa e a fome

 Albenísio Fonseca

Após mais de meio século sob bloqueio econômico que lhe cerceia o desenvolvimento, Cuba é uma ilha cercada por pressões políticas, econômicas e midiáticas por todos os lados. No momento em que presenciamos o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos, principal inimigo até então e o regime cubano, vale entender o quanto é fundamental conhecer um objeto, um país, mesmo um projeto ou período histórico, para nos qualificarmos a discorrer sobre eles e por maior que seja a presunção generalista.

No último dia 20 de julho, pouco antes do meio-dia, em cerimônia solene, a bandeira cubana foi içada na sede da Embaixada de Cuba em Washington.  Trata-se de um fato histórico e inesquecível, a demonstrar o quanto a resistência, a tenacidade e perseverança de um povo podem consolidar a liderança de um endereço patriótico e nos encher o peito e os olhos de emoção na superação de 53 anos de divergências políticas e ideológicas.

Ainda não conheço Cuba, mas sim a trajetória do regime revolucionário de linha marxista-leninista implantado desde 1959, a partir da luta iniciada em Sierra Maestra e que libertou os cubanos do governo ditatorial do sargento Fulgêncio Batista, subordinado aos interesses das oligarquias internacionais e dos investidores estrangeiros, entre 1933 e aquele ano.

Por mais que tenha posição contrária, é facilmente constatável ao longo da história o quanto em tempos de guerra, estado de sítio ou de extrema necessidade, tem sido facultado aos governos estabelecer limites às liberdades individuais, incluindo a de imprensa – como aconteceu nos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã, ou no Brasil sob regime militar, entre 1964 e 1985, por exemplos.

Resta claro, portanto, que em situações extremas a liberdade de imprensa é tolhida em prol do bem comum e, mesmo sem a existência dessa condição, a ação contrária à ordem estabelecida, ou de apoio ou auxílio a países inimigos, é comumente punida, mesmo no até recentemente principal inimigo de Cuba. Se diante de tais situações, a suspensão de liberdades é admitida nos mais diversos países, por que não deveria sê-lo no caso cubano?

Afinal, o bloqueio econômico, estendido por Washington a nações que mantivessem negociações com Havana, impunha a condição de um estado de sítio permanente, como se diria de uma guerra não declarada contra o povo cubano.

Como exigir, nesse sentido, que Cuba trate aqueles que dão apoio e auxiliam ao inimigo que está à sua porta, através de escritos ou outras ações, garantindo-lhes a liberdade de fazê-lo, quando nenhum outro Estado o faria, na mesma situação? A defesa da suspensão da restrição à liberdade de expressão em Cuba, sob esse ângulo, não é difícil concluir, nada mais é do que fazer o jogo do inimigo, no caso, a maior potência econômica e militar do planeta. Ao omitir o contexto no qual a referida restrição está inserida, tende-se a criar um mito sobre o qual a imprensa, supostamente livre, deixa de cumprir sua obrigação.

Sim, o que sabe o povo brasileiro sobre a realidade cubana? Quem foi informado pela imprensa de que há quase 50 anos Cuba já extinguiu o analfabetismo?  Quais reportagens da “mídia livre” enfatizaram o fato de que a Escola Latinoamericana de Medicina, em Cuba, já formou, gratuitamente, mais de cinco gerações de médicos de todos os países da América Latina, inclusive do Brasil e dos EUA, com a melhor medicina social do mundo e em caráter solidário?

A resposta do jornalista e escritor cubano Leonardo Padura à repórter da revista Veja, Nathalia Watkins, sobre a realidade de “miséria” em Cuba, no programa Roda Viva, da TV Cultura, foi a de que uma das coisas que ele tenta evitar sempre, quando lhe perguntam sobre as realidades de um país que visita, é dar sua opinião. “Porque uma realidade só pode ser conhecida por quem participa dela, vive nela. Em Cuba, é certo que há pobreza, não posso negar. Mas ninguém morre de fome em Cuba. De uma forma ou de outra, as pessoas comem e têm um teto. Há mais gente [com fome] na rua em um quarteirão aqui de São Paulo do que em toda Cuba”, reagiu.

A imprensa criou o mito de sua liberdade, mas até que ponto ela deixa de atender aos seus próprios interesses e agenda política? A experiência mostra que uma imprensa verdadeiramente livre jamais existirá de forma estável: sempre irá se degenerar e retornar à servitude. E sempre se corromperá, pois o poder corrompe e o poder da imprensa, convenhamos, é quase absoluto.

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Albenísio Fonseca é jornalista

albenisio@yahoo.com.br

 

 

 

 

 

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