Em ruína, Cine Jandaia é doado ao Estado

                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Carol Garcia/Secom-BAA deplorável situação de abandono a que chegou o Cine Teatro Jandaia

ALBENÍSIO FONSECA

O Cine Jandaia é nosso. Bem entendido, passa ao controle do Estado a partir do próximo dia 17 quando representantes da Casa Civil e do Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural confirmarão ao promotor de Justiça do Meio Ambiente, instância do MPE-Ministério Público do Estado, Antonio Sergio Mendes, a decisão de aceitar a doação do imóvel em ruínas, conforme proposta da Savinal S/A Comércio e Indústria, pertencente a Cláudio Valansi, proprietário do equipamento. Inaugurado em 1931, o Jandaia detém relevante importância histórica e arquitetônica, em seus 1.200 m² de área construída, por suas influências das artes Nouveau e Déco e pela extensa lista de artistas locais, nacionais e internacionais que se apresentaram no local.

Até então, a propriedade é de Valansi, herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, empresa nacional, que atua no ramo de exibição cinematográfica com mais de 60 salas de projeção em diversos estados do País e sede no Rio de Janeiro. Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, as negociações com o proprietário, visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014.

Após manifestação pública, há exatamente um ano, convocada pelo fotógrafo e produtor cultural Dimitri Ganzelevitch, através de redes sociais na Internet, em ato que envolveu um “abraço” ao prédio em ruínas, na Baixa dos Sapateiros, o governador Rui Costa optou por baixar decreto tornando o antigo “Palácio das Maravilhas”, de “utilidade pública para fins de desapropriação”. Segundo a assessoria do Ipac, “já existe um pré-projeto para contenção imediata da estrutura” que se encontra sob ameaça de desabamento, embora não haja, ainda, recursos alocados para a intervenção. “Nosso objetivo é que o novo centro seja voltado para a promoção de artistas locais”, disse o governador.

A decisão de proceder a doação ocorreu no início de setembro, quando da última audiência promovida pelo MPE com o proprietário e representantes do Estado. Considerando a decisão de “aceitar a doação”, confirmada à Tribuna pela assessoria da Casa Civil, o promotor Sérgio Mendes disse que “caberá elaborar a documentação necessária”. Mendes adiantou “já dispor de uma minuta pronta para tal propósito que envolverá, ainda, um TAC-Termo de Ajuste de Conduta a ser firmado pelas partes envolvidas no processo”. Cláudio Valansi não aceitou participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento.

Em estado deplorável internamente, o imóvel vem sendo ocupado, sob respaldo do proprietário, há mais de 20 anos pelo ferreiro Valdemir Nascimento Costa. Ele tem oficina na Ladeira do Alvo, ao lado do cine-teatro e mesmo dispondo da chave que dá acesso às instalações, só permite a entrada de pessoas previamente autorizadas por Cláudio Valansi. O ferreiro disse ser “remunerado para manter o espaço sob controle”, embora garantisse não receber qualquer valor há bastante tempo. “O que me interessa é garantir a moradia. Para me tirarem daqui terão que oferecer algum lugar para morar, seja o dono ou o Estado”. Conforme Nascimento, “muitos estudantes universitários vêm aqui querendo conhecer a estrutura interna, mas como não têm autorização não libero a chave”, disse.


Vitral foi retirado pelo temor de desabamento do prédio

O vitral da fachada do Cine Teatro Jandaia, de 5 x 3,5 metros, foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, dado o risco de desmoronamento do prédio e face ao extraordinário valor artístico da peça a ser restaurada. “Parte dos vitrais chegaram intactos, outra parte recuperamos”, revelou Kathia Berbert, coordenadora de Restauro de Elementos Artísticos do órgão. A remoção foi orientada pelo professor da Universidade Federal da Bahia, José Dirson Argolo. As partes que compõem o vitral foram forradas com isopor e permanecem acondicionados em caixas de madeira. A peça artística foi idealizada pelo fundador do Jandaia, João Oliveira, tendo uma ave, a jandaia, em uma das mãos de uma figura feminina típica da Art nouveau

O prédio do Cine Jandaia é uma exemplar referência da arquitetura proto-moderna na Bahia. Concebido a partir de elementos da Art Déco, suas linhas seguem uma simetria com integração e articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Na decoração interna, alguns elementos decorativos recorrem, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia. A edificação foi erguida em estrutura de concreto armado, com fachadas revestidas em pó de pedra, sob grande quantidade de janelas venezianas, com bandeiras de vidro. Art Decó consiste em conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coeso, que se iniciou na Europa e se difundiu pelas Américas do Norte e do Sul, chegando ao Brasil, a partir da década de 20.

Os espaços internos registram a preocupação com a ornamentação estética do cine-teatro. O foyer recebeu revestimento de mármore rosa nas paredes, com moldura em mármore preto, guarda-corpo com desenhos em ferro, camarotes com contorno circular em metais e colunas, além de painéis em gesso com figuras mitológicas. A área da audiência possui grande rosácea no centro do forro e figuras femininas nas laterais do palco. Desde sua fundação, o Cine Teatro Jandaia foi palco de significativos eventos culturais, tanto na área da música quanto na do teatro, com apresentações de renomados artistas nacionais e estrangeiros, apesar da discriminação manifestada então pela elite soteropolitana, em decorrência de sua localização na Baixa dos Sapateiros (Rua J. J. Seabra), considerada de natureza popular quando confrontada com a Rua Chile, lugar elegante e preferido à época.

O Cine Teatro Jandaia atingiu a sua função cultural maior e, sem dúvida, de cunho bastante popular, com realizações de sessões de cinema pela manhã aos domingos e feriados, diariamente pela tarde (matinês) com dois filmes e à noite com exibição de apenas um único filme em duas sessões. O contador Walter Barreto disse ter frequentado a programação de cinema do Jandaia, desde criança e até a adolescência. Recordou filmes de karatê e disse que havia bastante público, inclusive competindo com o Cine Tupi, também na Baixa dos Sapateiros, que instalou ‘cinerama’, tecnologia de tela côncava com três projetores sincronizados. “Nada disso afastava o público cativo do Jandaia”, disse. Já em declínio em meados de 1970, assim como a maioria dos tradicionais cinemas do centro da capital, o Jandaia foi desativado na década de 80, estando atualmente em completo abandono. Trata-se, porém, do único dos cinemas de Salvador surgidos no período entre guerras que ainda mantém características originais. (AF)

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6 Comentários (+adicionar seu?)

  1. fgrdjr
    nov 11, 2016 @ 13:04:15

    …copiado -tá pautado! __

    Responder

  2. K
    nov 12, 2016 @ 03:23:27

    Há muito tempo, eu não lia uma matéria tão bem escrita. Em se tratando de Bahia e do ex-jornalismo brasileiro que ainda tenta se segurar, merece grande louvor. mais do que nunca, salvar o Jandaia é questão de honra para Salvador, pois é um anseio legítimo da comunidade. Além do mais, voltando a funcionar, seria alternativa para shows no entorno do Pelourinho, cujas pracinhas não comportam eventos musicais e teatrais para grandes plateias.

    Responder

  3. Sandra Almeida
    nov 15, 2016 @ 01:47:03

    Fico emocionada com a notícia pois também freqüentei o cine Jandaia nos anos 60. A herdeira do Sr João Oliveira, uma de suas filhas, Yvone Oliveira Almeida, minha tia, quem administrou o cinema com o marido na década de 40, 50, 60 e 70 até que foi forçada a vender… Onde ela estiver deve estar feliz!!!

    Responder

  4. Claudio Valansi
    nov 16, 2016 @ 19:16:33

    O Cine Jandaia é nosso: A título de esclarecimento
    A proposta de a doação do Jandaia Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural, se deu há pelo menos 10 ou 12 anos atrás, e durante este tempo entre dezenas de idas e vindas a Salvador, nenhuma resposta favorável ou desfavorável obtivemos.

    Claudio Valansi, não é herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, ou seja, outra empresa carioca da cinematografia nacional, que nada tem a ver com minha família.

    Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, com minha vênia inclusive, as negociações visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014 e desde então tenho viajado do Rio para Salvador e nunca nenhum órgão, através de oficio se interessou pela posse do Jandaia, até então, e só após a interferência MPE que o Governo se manifestou favoravelmente.

    Não aceitei participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento, pela simples razão enumerada n vezes nas audiências: eu me comprometeria nesses programas de financiamento com valores na ordem de até R$20.000.00,00 ou mais, dependendo das exigências do Ipac; e o entorno do Jandaia eu pergunto, como fica? Quem se responsabiliza? O que adianta o imóvel restaurado e envolta terra arrasada?

    Dado o risco de desmoronamento o vitral da fachada do Jandaia, não foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, e sim por técnicos indicados pelo Ipac e pago por nossa empresa, já que conjuntamente estávamos preocupados que algo ocorresse e o mesmo fosse danificado.
    Inclusive em uma das audiências a pedido de algum órgão governamental ali presente, nos foi cobrada a retirada do mesmo, quando comuniquei em audiência, que o vitral já se encontrava no Ipac há pelo menos 1 ou 2 anos. Desconhecimento.

    No mais, feliz que a cidade recupere esse ícone nacional e que os baianos o desfrutem.
    Abraços
    Claudio Valansi

    Responder

    • Albenisio
      nov 21, 2016 @ 01:09:13

      Caro Cláudio Valansi,

      Queira aceitar minhas desculpas por não tê-lo ouvido para a reportagem. Penenticio-me publicamente e
      solicito entrevista, c/c por e-mail, para esta segunda-feira, 21/11/16, diante da afirmação de que já
      houvera dado o imóvel em doação há mais de 10 anos e a fim de que esclareça dados mencionados
      incorretamente na reportagem publicada originalmente na Tribuna da Bahia.

      Grato, desde já.

      Albenísio Fonseca.

      Responder

  5. claudio valansi
    nov 20, 2016 @ 15:55:45

    Vejo que minha resposta será postada com as mesmas cerimônias temporaes das autoridades baianas dedicadas ao Cine Jandaia

    Responder

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