MAB já prepara comemoração dos 100 anos

                                                                                                                                                                                                          Foto: DivulgaçãoNenhum texto alternativo automático disponível.Dias 11, 18 e 15 de janeiro acontece um seminário para pensar o acervo do MAB
ALBENÍSIO FONSECA
 

Detentor do principal acervo museológico do estado, o MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em pleno coração da cidade, já deu início aos preparativos para as comemorações do centenário, em 23 de julho de 2018, com o lançamento do concurso, de âmbito internacional, visando a escolha da logomarca da efeméride. Para tanto, as inscrições estão abertas até 1º de fevereiro e o prêmio é de R$ 5 mil. O sociólogo, fotógrafo, curador e mestre em Artes Visuais, Pedro Archanjo, diretor da instituição, revelou a “estimativa de R$ 3 milhões para as comemorações, dos quais R$ 1, 8 milhão a serem obtidos junto à iniciativa privada para a requalificação do acervo”.

Archanjo anunciou, também, a realização nos próximos dias 11, 18 e 25 de janeiro, no auditório do museu (com capacidade para 190 pessoas), de um “grande seminário para pensar o acervo de 13.686 peças, com o levantamento inicial de subsídios teóricos e informações técnicas para a requalificação do patrimônio artístico existente”. Para tanto, constituiu uma equipe externa, composta por profissionais como os museólogos, Joseania Freitas, Suely Cerávola; o doutor em Arte Visuais, Luís freire; o antropólogo, artista plástico eprofessor de Comunicação, Renato da Silveira, todos da UFBA, cujo relatório final deve estar concluído em junho.

Conforme o diretor do MAB, “não queremos fazer apenas atividades comemorativas, mas implementar ações estruturantes”. Entre as já cogitadas ele cita a “realocação da biblioteca, disponibilização de Internet livre e em tempo real além de um restaurante-café, a ser terceirizado, na área que dá acesso ao Vale do Canela, onde já funcionaram repartições da Secretaria da Saúde e uma agência do Baneb. Vamos tornar esse espaço em área de convivência, dentro do propósito de viabilizar dotações de recursos que permitam a sustentabilidade do equipamento e a oferta de mais atrativos para o público”.

Com o calendário do centenário já vigindo desde o dia 1º de dezembro, quando foi lançado o concurso para a escolha da logomarca, o MAB planeja adotar neste primeiro semestre de 2017 programas como o Museu Escola Família, a partir de convênio a ser firmado com a Secretaria Estadual de Educação e o Irdeb, no qual alunos das redes pública e privada passarão um dia inteiro no Museu,  acompanhados por equipe do MAB. “Caberá aos estudantes definir o que pretendem filmar, para o que participarão de uma oficina de vídeo com laboratório digital para edição, tendo à disposição câmeras, microfones e spots para iluminação, além de transporte e alimentação”. O projeto tem custo estimado em R$ 110 mil, conforme o diretor.  Archanjo mencionou, ainda, a “criação de um caleidoscópio gigante que percorrerá bairros populares, não só em Salvador, mas em outros municípios”.

 
Telas de Van Gogh serão expostas por 3 meses
 

Dentre as atividades comemorativas, a serem deflagradas a partir de julho, quando festejará os 99 anos, estão sendo programadas a exibição de dois quadros do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), durante três meses – sob custo de R$ 600 mil, incluídos os seguros das duas obras pertencentes ao Masp-Museu de Arte de São Paulo – e a participação do cantor e compositor Caetano Veloso, que proferirá a palestra já intitulada “O mundo não é chato”.

Conforme o diretor, “haverá, também, uma exposição de Arte Moderna com obras de alguns dos principais artistas modernistas brasileiros que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, da Universidade de Fortaleza (CE). Segundo ele, “fotografias da Bahia antiga também deverão ganhar espaço nobre e temos, ainda, em andamento, um projeto multimídia que promoverá intervenções de fotos e vídeos, em 3D, a serem acionados por sensores de presença, dialogando com o acervo tradicional, multiplicando a capacidade expositiva e surpreendendo os visitantes”, revelou.

Pedro disse pretender “que a equipe externa envolvida com os estudos sobre a requalificação do acervo desenvolva, também, uma tarefa arqueológica, visando identificar quem foram os negros escravizados responsáveis pelos trabalhos de marcenaria, carpintaria e ourivesaria nas diversas peças existentes no MAB”. Criador da Bienal do Recôncavo, Archanjo fez ver a riqueza de detalhes de enormes pulseiras e braceletes de ouro usadas por negras ganhadeiras como símbolos da ostentação de status, poder e liberdade, lamentando o desconhecimento, até agora, sobre os criadores das peças.

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Pedro Archanjo, diretor do MAB
Diretor deu nova face e dinâmica ao museu
 

Desde que assumiu a direção do MAB, mesmo sem dotação orçamentária, Pedro Archanjo adotou uma dinâmica intensa de atividades com aproximadamente 20 eventos mensais. A média de público que era de 14 pessoas/dia passou à média de 90 frequentadores diários e é meta da diretoria alcançar 150 pessoas diariamente até o final do primeiro semestre de 2017 e 200 até o final do ano. Em 2016, entre as iniciativas da programação constaram exposições, lançamentos de livros, palestras, debates, seminários, cursos e oficinas.

Criamos projetos como o “Diálogos Contemporâneos“, cuja programação nas primeiras quartas-feiras de cada mês, envolveu temas diversos, desde as religiões de matriz africana à discussão da PEC 421/55, à filosofia das Artes e políticas culturais, possibilitando interação com novas ideias. “Tivemos até de instalar um telão para contemplar o público, estimado em 400 pessoas, em um dos eventos”, lembrou. De acordo com Pedro, “este foi um ano muito importante para o MAB, na medida em que pudemos conciliar questões clássicas da museologia com os desafios da contemporaneidade”, avaliou.

No momento, o MAB exibe mostras como a “Florata”, de Alba Vasco (até 3.02) e integra o Circuito das Artes, envolvendo coletivo de artistas, sob curadoria de Alejandra Muñoz e Eneida Sanchez, além de abrigar as exposições permanentes – da Escola Baiana de Pintura – com obras de Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho, entre outros (a exigir novo projeto de iluminação). Também as coleções de pintura do Conselheiro Jonatas Abbott, dos séculos XVII e XVIII, de origem europeia, onde se destaca  o quadro “David com a Cabeça de Golias”, da Escola de Caravaggio. Desde 1943, a do ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon, que reúne importantes conjuntos de artes decorativas, notadamente mobiliário de época e porcelanas orientais, como o conjunto de “louça histórica” que pertenceu a vários representantes da aristocracia brasileira.

No térreo do antigo solar, que pertencera a um rico comerciante de escravos, encontram-se, ainda, gravuras que possibilitam passeios pela Salvador dos séculos XVII, XVIII e XIX, entre mapas e aspectos da urbanização à época da invasão holandesa, em 1624. O museu conserva, além do mais, uma considerável coleção de imagens religiosas e objetos da liturgia católica como lampadários, castiçais e cruzes. Conforme Pedro Archanjo, “nosso projeto maior é o de entregar à cidade um novo museu, que dialogue com as demandas artísticas da contemporaneidade sem perder suas características históricas e as comemorações do centenário serão fundamentais para consolidarmos essa tendência”.

 

Obras de Mário Cravo sob ameaça

As obras têm sido recolhidas à Oficina no Parque  de Pituaçu

 

 ALBENÍSIO FONSECA
Último modernista baiano vivo, o escultor, gravador, desenhista, pintor e ex-professor, Mário Cravo Jr., 93 anos, permanece lúcido e produtivo. Sua obra, no entanto, sob abandono, está sob ameaça de ser perdida na esvaziada contemporaneidade baiana. Nas mil e uma faces da sua produção, como se diria de um verdadeiro “rei da sucata”, Cravo tem trajetória marcante pelo reaproveitamento de materiais, como as madeiras do século XIX, provenientes do incêndio que destruiu o Mercado Modelo, no final dos anos 60 – com que produziu uma “via sacra”; cerâmica, ferro e outros metais, oriundos de desmontagens do Polo Petroquímico de Camaçari, que lhe inspirariam a Fonte da Rampa do Mercado Modelo ou o Exu mola de jipe, no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre centenas de exemplos.
O comodato firmado com o Governo da Bahia, em 1994, quando o governante era Antônio Carlos Magalhães, já se esgotou, mas envolveu a doação de 800 peças, entre esculturas expostas no Parque Metropolitano de Pituaçu, na Orla de Salvador, em cuja entrada foi criado o Parque Mário Cravo Jr, e o que ele denomina de “computações plásticas”. Há três anos, conforme o filho do artista Ivan Ferraz Cravo, 66, “a Sema-Secretaria Estadual do Meio Ambiente, responsável pela área, deixou de efetuar qualquer manutenção nas obras ou fornecer materiais, sequer a tinta para recuperação das peças”. O Museu e sua reserva técnica, na entrada do Parque, onde permanecem as obras em papel, estão se deteriorando nas gavetas ou algumas esculturas, expostas às infiltrações, sem nenhum cuidado de conservação. Segundo o filho do artista, que já presidiu a Fundação Mário Cravo Jr., “estamos buscando desesperadamente apoios para salvar o acervo”.
Agora, segundo ele, “parece que a montanha se moveu”. Convocado por Ferraz, o Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Dimus-Divisão de Museus da Fundação Cultural do Estado, decidiram proceder a um levantamento do acervo do modernista. A visita inicial de técnicos contou com a participação do diretor do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro. Embora o órgão só deva iniciar o cadastro das obras após os festejos juninos e sob a perspectiva de conclusão “até o final do ano”, já se cogita de transferir as instigantes peças – impressas e esculpidas – para ambientes climatizados no Palacete das Artes (Rua da Graça), Museu de Arte Moderna (na Ladeira da Contorno) e Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória). “O trabalho demanda minúcias e será procedido com todo o critério requerido por museólogos do Ipac”, sinaliza a assessoria do órgão.
As condições de trabalho do artista também se defrontam com as demissões dos seis funcionários que, há 12 anos, finalizam as obras criadas pela mente inquieta de Mário. “A Sema rompeu contrato com a terceirizada Preze, no final de março, exclusivamente para o fornecimento do pessoal para a Oficina de Cravo. Também o servidor João Alberto, da Conder-Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado, precisa ser transferido para a Sema para poder permanecer cuidando da Oficina”, diz Ivan. Há dois meses e de modo informal, o escultor mantém os trabalhadores que capacitou para as atividades. Muitas das peças boiam nas águas poluídas da Lagoa de Pituaçu que já abasteceu Salvador. Outras sucumbem sob a ação do salitre, escondidas em meio à vegetação sem poda do parque metropolitano.
Mário Cravo Jr, conforme o filho, se mantém com a economia de recursos provenientes da venda de suas criações. Uma de suas esculturas monumentais foi adquirida por um dos sócios da Ambev, cujo nome não recorda. Uma réplica em fibra de vidro de “Antonio Conselheiro”, permanece em meio a outras para restauração e ferramentas como tornos e soldas na Oficina. “O original está em Canudos”, enfatiza Cravo. Boa parte de sua produção dialoga com a cidade. A Sereia, em Itapuã; O Exu Mensageiro, em frente à sede central dos Correios, na Pituba; a homenagem a Clériston Andrade (na Avenida Anita Garibaldi)   e a Cruz Caída, na Praça da Sé, que toma emprestado o nome do episódio da via crucis para proceder uma crítica à derrubada da Igreja de São Pedro, demolida em 1915 pelo governador José Joaquim Seabra em sua sanha higienista da cidade e no afã de criar novas avenidas na primeira capital do País.
Frente a uma peça em fase conclusão – material procedente de equipamento para contração de temperatura para óleo – o artista decidiu dar nome ao trabalho. “Vai se chamar ‘dinâmica espacial’, batizou. Para Mário Cravo Jr., “não existe trabalho, mas diversão”. Ele reclama da “dificuldade para chegar até o Governador Rui Costa”. Sua última exposição “Esculturas” aconteceu durante o governo Jaques Wagner, em 2013 no Palacete das Artes – museu mais qualificado para absorver a extensa produção do artista.
 
A0s 93 anos, Mário Cravo permanece lúcido e produtivo

O que disseram dele Jorge Amado e Carybé

Sobre ele, Jorge Amado afiaria o teclado da velha máquina datilográfica para cravar a legenda: “Ferreiro coberto de fogo e aço, comido goiva e aço, os bigodes arrogantes, devasso, quase agressivos, os olhos de insônia, a boca em gargalhada, eis o guerreiro Mário Cravo em luta com o ferro bruto, a madeira pesada ilustre, a pedra morta, para sempre morta, mas de repente viva em sua mão, em seu talho, em sua forja, em seu destino deslumbrado e louco, em seu criar sem descanso (…)”. 
Carybé revelaria que “…a Bahia deve a Mário Cravo a recuperação do Solar do Unhão e a instalação nele dos museus de arte moderna e de arte popular. Foi por insistência dele que a arquiteta Lina Bo Bardi desistiu da construção de um prédio específico e tratou da restauração do Solar”. No refinado catálogo produzido para a sua última mostra o então secretário de cultura, Albino Rubim, salienta o quanto “o modernismo demorou a aparecer na Bahia. Terra de profundas e fundadas tradições, a Bahia resistiu longo tempo à modernidade cultural”. 
Lembra, ainda, que “a primeira geração, nos anos 20, inventou o modernismo no Brasil. A segunda, na década de 30, consolidou o modernismo através do regionalismo e da ampliação do seu público. Orgulhosa de sua cultura, a Bahia se mantinha contrária à modernidade. Só no final dos anos 40 o modernismo vai acontecer na Bahia. Mário Cravo, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho são protagonistas desta mudança. A obra dele está disseminada nas ruas e prédios de Salvador e de outras cidades. Encontra acolhida em relevantes museus no Brasil e no mundo”. 
Espera-se que este emblemático modernista permaneça vivo para assistir senão à criação de um museu para sua obra, que ao menos possa ver confirmado o resgate das peças sob a ameaça de um injustificado abandono em Pituaçu, no coração da Orla.

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
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Albenísio Fonseca é jornalista

O artesanato e a razão da máquina

foto

Albenísio Fonseca

Fazer alguma coisa é conhecer a fórmula mágica que permitiu inventá-la ou fazê-la aparecer de maneira “espontânea”. Por essa razão, o artesão sempre foi visto com respeito ou temor, já que é detentor de um segredo, pois todos os ofícios comportam uma iniciação que se transmite por meio de uma tradição oculta. Consta que Dédalus, arquiteto e artesão de renome, possuía movimentada oficina em Atenas, onde ensinava seu ofício a vários aprendizes. Um deles, seu sobrinho Talo, suplantou-o em criatividade a ponto de inventar o serrote, o torno de oleiro e o compasso.

Enciumado, Dédalo assassinou-o e foi condenado ao degredo. O caráter mágico do artesão, contudo, foi substituído, contemporaneamente, por uma linguagem e um saber-fazer tão estranho aos não-iniciados que cada um desses grupos continua a manter, para os demais, sua aparência de mistério. Na luta pela sobrevivência, o ser humano (ao longo do decurso histórico) teve que executar atividades penosas e que requeriam grande dose de esforço físico.

Talo, sobrinho de Dédalo, criou instrumentos cuja finalidade era tornar menos árduo o trabalho e que, inicialmente feitos de ferro, acabaram por receber a designação genérica de ferramentas. A utilização dessas ferramentas, uma extensão das mãos, exige apenas habilidade e um mínimo de adestramento. É por isso que a passagem da ferramenta para a máquina significa também rejeição a todo um caráter litúrgico do trabalho.

HISTÓRIA, HÁ 6 MIL ANOS

A inexistência ou mesmo a precariedade de instrumentos auxiliares é que certamente provocou a necessidade da domesticação de animais, e da submissão de outros homens pela força, obrigando-os a tarefas exaustivas de que se eximiam os dominadores. A limitação dessa atividade vai decorrer tanto por problemas de natureza ética quanto pela dificuldade de manter-se o controle sobre contingentes escravizados, o que não deixou, contudo, de gerar derivados, do qual a máquina é a expressão moderna.

A história do artesanato tem início com a própria história do homem, pois a necessidade de se produzir bens e utilidades de uso rotineiro, e até mesmo adornos, expressou a capacidade criativa e produtiva como forma de trabalho. Os primeiros artesãos surgiram no período neolítico (6.000 a.C) quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica e a tecer fibras animais e vegetais.

No Brasil, o artesanato também surgiu neste período. Os índios foram os mais antigos artesãos. Eles utilizavam a arte da pintura usando pigmentos naturais, a cestaria e a cerâmica, sem esquecer a arte plumária como os cocares, tangas e outras peças de vestuário feitos com penas e plumas de aves.

O artesanato pode ser erudito, popular e folclórico, podendo ser manifestado de várias formas como, nas cerâmicas utilitárias, funilaria popular, trabalhos em couro e chifre, trançados e tecidos de fibras vegetais e animais (sedenho), fabrico de farinha de mandioca, monjolo de pé de água, engenhocas, instrumentos de música, tintura popular. E também encontram-se nas pinturas e desenhos (primitivos), esculturas, trabalhos em madeiras, pedra guaraná, cera, miolo de pão, massa de açúcar, bijuteria, renda, filé, crochê, papel recortado para enfeite, e tantas mais.

O artesanato brasileiro é um dos mais ricos do mundo e garante o sustento de muitas famílias e comunidades. O artesanato faz parte do folclore e revela usos, costumes, tradições e características de cada região.

A produção artesanal, por si só, hoje, é uma questão complexa. Entre alguns fatores de ordem tecnológica, que o artesão (via de regra) parece desconhecer ou não aplicar no desempenho da sua atividade, podem ser arroladas as técnicas de definição da temática, da criação (considerando-se os fatores históricos e culturais), escolha de matéria-prima adequada, conhecimentos e domínio da técnica escolhida e conhecimento da técnica da fase de acabamento.

A carência de entidades de classe organizadas e conhecedoras dos valores e direitos da categoria, e que ao mesmo tempo disponham de recursos técnicos para facilitar o desempenho do desenvolvimento das atividades, seja ao nível sociológico, tecnológico, político, econômico, comercial ou jurídico – tem sido um entrave ao desenvolvimento do artesão.

TÉCNICA DERIVA DE ARTE

Técnica, é bom lembrar, deriva de “Techne”, palavra grega que significa “arte”, sentido que menos possui no entendimento atual. O certo, no entanto, é que a técnica existe desde que o homem conseguiu fabricar artefatos, ainda que rudimentares. Inicialmente, essas técnicas eram ao mesmo tempo mistérios (os “segredos do ofício”), situando o homem arcaico num universo saturado de sacralidade. Hoje, reina ainda, bem mais conceitual que arquetipicamente, uma grande confusão entre teoria, ciência e técnica, compreensível na medida em que o papel da ciência é o de fundamentar a civilização tecnológica.

Também proveniente do grego, “theoria” no entendimento original correspondia a contemplação. A separação entre teoria e prática era desconhecida no significado original. Modernamente, contudo, converteu-se em instrumento ideológico. A ciência, que não é filosofia, embora tenha se desenvolvido a partir do horizonte aberto por esta, é muito mais um ardil teórico. E, como todo ardil, é uma aparelhagem de captura.

Com isso, a própria ciência se torna tecnologia, ou seja, instrumento de apresamento da realidade. A razão da máquina – que não é uma soma de ferramentas ou uma ferramenta muito rápida – é a submissão da natureza. A distinção é clara: a ferramenta serve ao trabalho humano, que a cria em função de suas necessidades, enquanto que a máquina projeta o trabalho humano, e dele se serve.

Para o homem grego, a natureza tinha que ser compreendida e assimilada, nunca submetida. O cálculo utilitário, no entanto, converteu a produção e o consumo no próprio sentido da vida. Toda essa discussão é secular.

O abandono da herança clássica pela visão moderna pode ser resumido na afirmação, quase um vaticínio, de Charles Chaplin: “Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

A joia da crise

Bijuteria, a joia da crise

Albenísio Fonseca

Por que num tempo de crise, de arrocho salarial, o fascínio pelo supérfluo ganha tanta prioridade quanto o essencial, a vaidade sendo saciada, ainda que isso corresponda ao empobrecimento da mesa? A crise superlotou as ruas das grandes capitais brasileiras com camelôs que vendem de tudo ou quase tudo, desde relógios digitais (o tempo descartável), a inúmeras formas de utensílios e quinquilharias, consolidando o “salve-se quem puder” da geração do trabalho precário.

Sim, tendências esteticistas, com matriz na precariedade, tendem a vicejar nos períodos de grandes depressões econômicas, num paradoxo estonteante. Há alguns anos as bijuterias vêm multiplicando-se em tipos e modelos, nas barracas ou mostruários, com uma incontável variedade de brincos, braceletes, berloques, numa oferta cuja resposta é dada pelas mulheres com avidez sintomática e excessiva.

Como a coisa anda feia, as mulheres passaram a se enfeitar como nunca. Ruas, avenidas, praças, bancos, lojas, escritórios, corredores de instituições políticas ou culturais, tornaram-se verdadeiras passarelas saturadas de “gatas”, “tigresas”, “panteras”, realistas e sonhadoras, trabalhando, consumindo ou circulando com adornos de formas abstratas, cores apelativas e materiais – latão, cobre, chifre, alpaca, madeira, penas de aves, grafite, aço, acrílico e mesmo o plástico – isolados ou numa orgia combinatória.

Em suas mil e umas formas, as bijuterias chamam a atenção para si mesmas, erigindo uma sintaxe (modo de ordenar, por em relação, combinar) autônoma que, na maioria dos casos, dispensa qualquer “diálogo” ou nexo convencional com a roupa, o calçado, ou assessórios como bolsa ou cinto. Em muitos casos, substitui até a maquiagem, num arrojo demarcado pelo exagero e pela provocação. Algo como a penúria exacerbando a estética.

Vidrilhos no olhar. Vidrilhos de quinta categoria. Formas que extrapolam supostas fronteiras artísticas para ocupar um mesmo universo de abstrações entre o bárbaro, o barroco, arranjos florais e o design ultramoderno, contemporâneo. No território dessa moda não há nostalgia, e sim uma diluição da arte dos designers de jóias o que está inscrito na morfologia das bijuterias.

À FLOR DA PELE

Submetidas à proliferação dos assaltos, as jóias – primas nobres das bijuterias – têm sido cada vez mais proscritas do cotidiano, confinadas à noite; às situações solenes, ambientes fechados, para brilharem sob a refração de luzes artificiais e serem retiradas nas suítes ou no motel. Cordões de ouro, colares, pulseiras e anéis de prata, marfim, pérola ou diamante, ao mesmo tempo em que funcionam como algo estático, tendem a insinuar zonas de atração no corpo feminino.

O que ressalta primeiro é a própria joia, sua presença maciça ou delicada, só depois é possível a oposição entre a dureza do material e a maciez do corpo, a perenidade dos materiais sendo transcendida pela classe das usuárias (sob ascendência aristocrática), num ritual de sedução que pede para ser violado, apela para a tatilidade, enroscando ou tornando fugidio os olhares. Para Dante, autor de A Divina Comédia, “ser percebido é mais humano que perceber”.

Já a bijuteria se insere num regime solar no palco do cotidiano. E se as mulheres adentram a noite com seus brincos de plástico, carregam também consigo o dia-a-dia. Esse ramo da ourivesaria não ostenta qualquer referência imediata com os materiais nobres, converteu-se numa simulação em estado puro, garantindo uma ordem autônoma, mas mantendo a oposição à joia, no que tange seu reduzido valor e sua banalidade. Se com a joia é a sexualidade que transita à flor da pele, com a bijuteria é uma erotização do cotidiano (ou dos corpos no cotidiano) o que se vislumbra.

ESTÉTICA E PARADOXO

No flerte incessante das avenidas ou no interior dos shopping centers, olhares transeuntes eclipsam paixões fantasiosas, num jogo rápido que encena casualidades de relações amorosas. Micro romances atravessam o cotidiano, ancorando apelos e respostas que se dissipam na velocidade das multidões, para renovar-se alguns passos adiante. A bijuteria erige um teatro de seduções aleatórias.

O consumo ostentatório espreita nos múltiplos espelhos do narcisismo feminino com a oferta do melhor visual. A herança ornamental, o legado decorativo, justifica o atributo cultuado pela mulher que, segundo algumas interpretações psicanalíticas, corresponderia a uma lisonja ao reflexo narcísico do homem – cujo núcleo reside, por excelência, no falo.

Como as crises precipitam o declínio da imagem fálica, ou do prestígio fálico, a sedução feminina emerge como o dado capaz de revitalizá-lo, garantir a sua reereção.

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Albenísio Fonseca é jornalista