Carnavalização da economia

                                                                                                                                                                    Imagem relacionadaEm R$ 841, renda domiciliar per capita na Bahia se distanciou bastante da média nacional, em R$ 1.268
(Foto: Visão Cidade)

Resultados da PNAD na 

Bahia são de estarrecer

Albenísio Fonseca

Em meio à economia carnavalizada, ápice da mobilização por um faturamento por parte de famílias de baixa renda, entre outros grandes eventos da temporada de Verão e simultâneo ao anúncio de mais um irrisório PIB, em 1,1%, acontece a divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), pelo IBGE.

No que tange à Bahia, os resultados apresentados são de estarrecer, embora, mais que os dados percentuais, importe saber o que tais números tendem a revelar de crueza na sua face social real. Sim, porque mesmo por um fio há vida por trás dessa impactante aferição da economia, a exibir crescente e inaceitável desigualdade.

Aliás, do mesmo modo que por trás (ou à frente, se preferir) do PIB e seu renovado cenário de desemprego e ante as graves condições ambientais subtraídas. No Brasil, 6 pessoas têm mais riqueza acumulada do que a metade mais pobre da população, 105 milhões de pessoas. O PIB naturalmente não mede isso: mede o fluxo, não o estoque.

Vale ressaltar que, no caso da PNAD Contínua, os valores dos rendimentos domiciliares per capita, para o Brasil e unidades da Federação, são enviados pelo IBGE ao Tribunal de Contas da União (TCU) e usados como um dos critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE), de acordo com a Lei Complementar 143/2013.


Sem lugar ao Sol, renda familiar na Bahia caiu seis posições no ranking nacional
(Foto: Albenísio Fonseca)

CRISE É DE GESTÃO DA ECONOMIA

Na Bahia, os dados referentes à PNAD Contínua 2018, apresentados pelo IBGE no último dia 27 de fevereiro demonstram o quanto a crise, decorrente da gestão na economia local, fica patente não só no âmbito nacional, mas com relação à verificada na série histórica do próprio estado.

Em 2018, o rendimento domiciliar per capita médio do país (soma dos rendimentos de todas as fontes de cada morador do domicílio dividido pelo total de moradores) ficou em R$ 1.373. Na Bahia, esse rendimento foi de R$ 841. Ou seja, o rendimento domiciliar per capita na Bahia se distanciou bastante da média nacional (R$ 1.268) e se manteve como 1/3 do apurado no Distrito Federal (R$ 2.460), o maior valor entre os estados.

PERDAS DE POSIÇÃO NO NORDESTE

Em relação ao apurado em 2017 (R$ 862, em valores correntes daquele ano), a renda domiciliar per capita média no estado teve uma queda nominal de 2,4%. Com isso, a Bahia caiu seis posições no ranking nacional desse indicador, indo do 11º rendimento domiciliar per capita mais baixo em 2017 para o 5º mais baixo no ano passado, superando apenas os estados de Piauí (R$ 817), Amazonas (R$ 791), Alagoas (R$ 714) e Maranhão (R$ 605), que tinha o menor valor do país.

A Bahia também perdeu posições em relação aos demais estados do Nordeste. Em 2017 tinha o 2º maior rendimento domiciliar per capita da região, menor somente que o da Paraíba. No ano passado caiu para a 6ª posição, continuando abaixo da Paraíba (R$ 898) e tendo sido superado por Ceará (R$ 855), Pernambuco (R$ 871), Sergipe (R$ 906) e Rio Grande do Norte (R$ 956), que tem o maior valor da região.

ABAIXO DO SALÁRIO MÍNIMO

Também aumentou a diferença entre a renda domiciliar per capita média baiana e a média brasileira, de -32,0% em 2017 para -38,7% em 2018. No ano passado, o rendimento domiciliar per capita médio na Bahia se manteve como 1/3 do valor do Distrito Federal, que tem a maior renda domiciliar per capita do país (R$ 2.460).

O valor da renda domiciliar per capita no estado, no ano passado (R$ 841), manteve-se abaixo do salário mínimo (R$ 954) e recuou 2,4%, em termos nominais, com relação a 2017, quando havia sido apurada em R$ 862.

Com isso, a Bahia caiu no ranking nacional do rendimento domiciliar per capita, passando de 11º menor valor, em 2017, para o 5º menor valor em 2018, acima apenas de Piauí (R$ 817), Amazonas (R$ 791), Alagoas (R$ 714) e Maranhão (R$ 605), que tinha o rendimento mais baixo do país. Vide a tabela:

A Bahia também perdeu posições em relação aos demais estados do Nordeste, do 2º maior rendimento domiciliar per capita em 2017 para o 6º em 2018. Além da Bahia, apenas outras 4 das 27 unidades da Federação tiveram queda nominal no rendimento médio domiciliar per capita entre 2017 e 2018. O Distrito Federal teve a variação mais negativa (-3,5%).

Mas é Carnaval e ninguém parece disposto a acordar para ver o sentido caótico que contempla a expressão “carnavalização da economia”.

Todos os caminhos levam à Festa de Itapuã

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé, pessoas no palco e atividades ao ar livre
Cortejo de baianas atravessa a Orla entre Placafor e Itapuã, em evento centenário

 

 Albenísio Fonseca

Nenhuma descrição de foto disponível.Todos os caminhos levam à Itapuã nesta quinta-feira (21.02), onde acontece a 114ª edição da Festa do bairro. A expectativa é de que 400 mil pessoas participem do evento. O festejo, cujo ápice é a lavagem do adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, tem início previsto para às 11h30, quando dezenas de baianas, animadas pelo ritmo de alabês e percussionistas do afoxé Korin Nagô, são seguidas por carro alegórico conduzindo D. Ilma Nascimento e Geraldo Araújo, o Geraldão, homenageados do bairro este ano.  Os milhares de foliões e turistas se deslocam junto ao cortejo, desde Placafor até Itapuã, aliando fé e ludicidade. A festividade, em 2019, será encerrada com a participação do bloco afro Ilê Aiyê.

Marcante, também, são as alegorias que compõem o festejo. Uma verdadeira fauna adorna o cortejo com a baleia jubarte, o polvo gigante e o caramuru, criações do artista plástico Ives Quaglia.  Este ano ele introduz o “boipuã”, em alusão ao boi nelore que fugiu do Parque de Exposições, em novembro de 2018, durante a Fenagro-Feira Nacional de Agropecuária e acabou se afogando na praia de Stella Maris. Segundo o artista, a  nova alegoria simboliza a “valentia indomável da liberdade”. Há, ainda, a jibóia, o sariguê e a baleia rosa.

 

BANDO ANUNCIADOR E LAVAGEM NATIVA ABREM A FESTA

A animação do festejo, que dura cinco dias, tem programação iniciada por volta das 23h de hoje (20.02) e começa nas primeiras horas da madrugada. Sob organização da professora Ronilda dos Santos, o Bando Anunciador – uma banda de sopro e percussão – percorre ruas do bairro com centenas de foliões, convocando a comunidade para a festividade.

Uma alvorada de fogos celebra a abertura das comemorações e, sob o nascer do Sol, acontece a “Lavagem Nativa” do adro da igreja de N.Sra. da Conceição de Itapuã, organizada pelos filhos de D. Niçu (que promoveu a iniciativa há 30 anos), seguida de um concorrido samba de roda e de “café da manhã africano”, oferecido em congraçamento comunitário. Uma missa é celebrada às 7h. Depois, a igreja permanecerá fechada por conta do movimento.

Após a tradicional lavagem, no início da tarde, há uma recepção de confraternização aos participantes, com uma feijoada para as baianas e convidados, demonstrando a “magnitude e relevância da festa”, segundo os dirigentes da AMI-Associação dos Moradores de Itapuã, Raimundo Bujão e Ives Quaglia. Na segunda-feira (25), às 16h, na Enseadinha (Praia da Sereia), a festividade é encerrada, há 33 anos, com “o mais belo dos presentes à Iemanjá”, organizado por canoeiros e pela mãe pequena Gildete dos Santos.

A imagem pode conter: 2 pessoas, incluindo Bisa Almeida, pessoas sorrindo, pessoas em pé e atividades ao ar livrePorta-bandeira e mestre-sala da Escola de Samba Unidos de Itapuã

PROGRAMAÇÃO DE DESFILE DOS BLOCOS

O desfile prossegue, por toda a tarde, com cerca de 30 grupos de samba, o bloco afro Malê Debale, que este ano comemora 40 anos de fundação e outras manifestações típicas do lugar, em contagiante animação a mobilizar uma multidão por todo esse trecho da Orla da cidade. A festa de Itapuã é a última do calendário de eventos populares de Salvador antes do Carnaval. Veja a programação por horários e entidades:

12:00 GALERA DO MAR
12:15 ESCOLA DE SAMBA UNIDOS DE ITAPUÃ
12:30 ARRASTÃO DOS PEIXES
12:45 GALO DE BIDEIRA
13:00 KITUT COM CERVEJA
13:15 SAMBABELEZA
13:30 BLOCO ENCONTROS DAS AGUAS
13:45 ARRASTÃO DO BONITOL
14:00 BLOCO DOS CORNOS
14:15 BLOCO CHUVA DE GELO
14:30 CARA DE GATINHO & BANDA ZUMBADA  (participação Xexéu)
14:45 ECOAR DOS TAMBORES
15:00 AS SANTINHAS
15:15 BLOCO “JACUTINGA”
15:30 MALÊ DEBALÊ
15:45 CHABISC
16:00 GINGA REMANDIOLA
16:15 AREMPEPUÃ
16:30 BLOCO NEM TE CONTO
16:45 AS GANHADEIRAS DE ITAPUÃ
17:00 ARRASTÃO PODEPÁ
17:15 PUXADA ITAPUÂZEIRA

 

A imagem pode conter: 7 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas em pé, casamento e atividades ao ar livreFesta de Itapuã é a única da cidade que se mantém
organizada e executada pela própria comunidade


ESTRUTURA E FALTA DE APOIO

A estrutura para a realização do evento conta com equipamentos e efetivos da PM, Corpo de Bombeiros, Policia Civil, Transalvador e postos para atendimento de emergência, além das barracas de bebidas e comércio ambulante, no trecho entre a Sereia e a praça Dorival Caymmi. O transito, conforme acordado com a Transalvador junto os organizadores, será interditado para o acesso ao bairro, pela Orla, já na quarta-feira, à noite, com desvio para a avenida Paralela pela avenida Pinto de Aguiar. O transito volta à normalidade a partir das 18h de quinta-feira.

De acordo com os organizadores, “a festividade proporciona, além de prazer, alegria e manutenção de uma tradição centenária, um importante legado para a melhoria das condições de vida dos moradores e frequentadores do bairro, na medida em que mobiliza a gestão municipal a viabilizar operações de pavimentação, mais iluminação de ruas e coleta de lixo e entulhos, principalmente nas áreas de trajeto dos cortejos e seus entornos”.

A Festa de Itapuã é a única da cidade que se mantém organizada e executada pela própria comunidade. A falta de apoio da Prefeitura, através da Saltur, levou a AMI a requerer mediação do Ministério Público. Somente em segunda audiência, a Municipalidade admitiu um apoio da ordem de R$ 15 mil, frente a um orçamento protocolado de R$ 108 mil, o que levou os organizadores do festejo a recusar a oferta. Segundo eles, “desde 2012 a comunidade encontra resistência do poder público em dar apoio à tradição centenária, o que já gerou diversos protestos, com manifestações públicas, inclusive por calote no pagamento”.

 

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

 


A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

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PDDU 2015

Projeções de slides criticaram a primeira versão da minuta do PDDU

PDDU
depois que o
Carnaval passar

ALBENÍSIO FONSECA
Sob inúmeras controvérsias e ao clamor da plenária a reivindicar a realização de “mais audiências”, o secretário Municipal de Urbanismo, Silvio Pinheiro, deu por encerrado, na segunda-feira (26), no Centro Cultural da Câmara, o ciclo de audiências promovidas pelo Executivo para elaboração da minuta que servirá de base para o Projeto de Lei do PDDU-Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano.
Fruto de acalorados debates e muitas contribuições, mas ainda envolto no mistério da redação de uma segunda minuta, a ser confeccionada após 15 meses e 14 audiências, o documento será remetido ao Conselho Municipal da Cidade, instância consultiva composta por 41 integrantes, de onde será encaminhado à Câmara Municipal “antes do final do ano”, conforme Pinheiro.
De acordo com os vereadores Gilmar Santiago (PT) e Hilton Coelho (PSOL) e conforme o regimento da Câmara, o projeto de Lei do novo PDDU obedecerá ao prazo máximo de 75 dias para tramitação em todas as comissões do legislativo municipal. Com isso, e considerando o período de recesso em janeiro, é possível antecipar, segundo Santiago, que a ida a plenário para votação “só acontecerá após o Carnaval do próximo ano”.
Gilmar também defendeu a promoção de mais audiências para o aperfeiçoamento da minuta e Hilton disse que a precipitação do envio do projeto de lei à Câmara pode significar o “conserto de um Frankstein”. Silvio Pinheiro, no entanto, sustentou que “a Câmara tem mais atribuições e competências que o Executivo, no sentido de promover novas audiências”.
Silvio concordou com intervenção de um líder comunitário de que “o PDDU não é um BaVi” e defendeu que, “esse não é um PDDU do prefeito ACM Neto, mas da Prefeitura”. O secretário admitiu ter enfrentado problemas com o calendário programado. Lembrou que “a elaboração da minuta estava prevista para junho, depois agosto e setembro”, mas somente em meados de novembro o esboço do projeto do Plano deverá estar concluído.
Para a ouvidora geral da Defensoria Pública, Vilma Reis, “não há como tirar a tensão da plenária porque a cidade está apreensiva”. Ela divergiu do secretário sob o argumento de que “o PDDU não é do prefeito nem da Prefeitura, mas dos 3 milhões de habitantes que não sabem o que acontecerá com eles”. Vilma criticou o fato de o “documento inicial trazido às audiências dedicar apenas três parágrafos sobre a comunidade negra quando 80% da população são constituídos por negros”. Houve queixas, ainda, frente ao fato de “boa parte do tempo das audiências ter sido gasto com a leitura de atas dos encontros anteriores”, pelo que se chegou a defender a promoção de outras sete audiências.
Já a partir de hoje, o Executivo passa a responder aos questionamentos e contribuições à minuta do PDDU que ainda permanecerá aberta a avaliações e sugestões no site http://www.plano500.salvador.ba.gov.br/, através de e-mail ou por ofícios, segundo Silvio Pinheiro. Ele fez ver que todas as intervenções foram gravadas em áudio e vídeo que integram as Atas das audiências e descartou a possibilidade uma nova audiência para aprovar a segunda minuta a ser elaborada.
Cidade terá 223 Zonas Especiais de Interesse Social
De acordo com Fernando Teixeira, da equipe do Salvador 500 e Tânia Scofield, da Fundação Mário Leal Ferreira, além de terem sido revisados os limites das 116 Zeis – Zonas Especiais de Interesse Social existentes, a cidade ganhou outras 107 alcançando 223 Zeis no anteprojeto do novo PDDU. Zeis são áreas da cidade destinadas à moradia popular e protegidas por regras especiais. Como exemplos de Zeis em Salvador, Pinheiro citou a Gamboa, o Nordeste de Amaralina, a Chapada do Rio Vermelho e o Calabar. A proposta, segundo ele, “é proteger e avançar em aspectos necessários ao
desenvolvimento dessas localidades”.
Para garantir que tais áreas tenham atividades econômicas formais, gerando emprego e renda, segundo o secretário de Urbanismo, “a Prefeitura vai propor no novo PDDU a flexibilização de algumas regras que impedem a concessão de alvará de funcionamento para esses locais”. Silvio Pinheiro, que também coordenará a elaboração da LOUOS, disse que “a ideia é permitir a instalação formal de pequenos negócios, como salão de cabeleireiro, mercearias, entre outros”. A regularização dessas atividades junto ao Município, segundo ele, “permitirá o recolhimento do ISS-Imposto Sobre Serviço e, o que é mais importante, o reconhecimento da cidadania”, estipulou.
Outro ponto destacado pelo secretário é a criação da Cota de Solidariedade, um fundo destinado à arrecadação de recursos a serem utilizados na construção de moradia popular. “A Cota funciona assim: novos empreendimentos com área a ser construída acima de 20 mil m² terão que destinar 5% do valor investido para habitação social”, disse. “Esses são apenas alguns avanços sociais desse PDDU. Há outros, bem como avanços em desenvolvimento e mobilidade, enfim, é um PDDU que resgatará Salvador e a tornará uma cidade melhor para seus moradores”, acenou.
Representantes do Movimento Rio Vermelho em Ação presentearam a mesa, presidida pelo secretário e pela presidente da Fundação Mário Leal Ferreira, com um saco de cimento em alusão crítica às intervenções da Prefeitura sobre as calçadas da cidade antes pavimentadas com pedras portuguesas. Integrantes de movimentos sociais projetaram slides e filmes nas paredes do local do evento`tachando o PDDU de “racista” dada a falta de recortes sobre a questão étnica, notadamente negra, no que tange à maioria da população de Salvador.
Da audiência de ontem participaram representações de inúmeras comunidades, como as do Subúrbio, do bairro Cassange, que defende a definição da zona rural da capital e em que pese a existência naquela área das represas Ipitanga 1, 2 e 3; Comunidades do Centro Antigo de Salvador, Artífices da Ladeira da Conceição da Praia, Moradores da Gamboa de Baixo, Chácara Santo Antonio, da Ladeira da Preguiça, Vila Coração de Maria, Rio Vermelho em Ação, movimentos Nosso Bairro é 2 de Julho e dos Sem Teto da Bahia, entre outros.

Saída do Ilê Aiyê no Carnaval 2015

                                               Foto: Albenísio Fonseca"Teste fly"Band’Aiyê esquenta o couro na Ladeira do Curuzu para o desfile do bloco

Ilê Aiyê promove maior espetáculo da negritude e abre Década  Afrodescendente

 ALBENÍSIO FONSECA

A saída do Ilê Aiyê, com seus três mil integrantes e uma multidão de turistas e foliões, voltou a converter a Rua do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, na sua mais legítima passarela – e até a Praça Nelson Mandela, no Plano Inclinado (já convertida em Circuito Mãe Hilda) -na tomada de assalto cultural do Carnaval 2015, no sábado à noite. O maior espetáculo da negritude brasileira, contou, também, com as presenças do governador Rui Costa, do prefeito ACM Neto e da atriz e apresentadora de televisão, Regina Casé.

O governador e o prefeito foram recebidos por vaia, atribuídas ao “atraso e ao genocídio da PM contra a população negra”, como explicou um dos manifestantes. ACM Neto, contudo, postou-se em frente ao público expressando que as vaias não eram para ele, em desafio de popularidade, e foi intensamente aplaudido. Logo em seguida, foi necessária a ação da PM para superar um pequeno conflito de exaltados, entre o público, enquanto a Band’Aiyê esquentava os tambores e metais.

Após a cerimônia religiosa reservada, presidida pela mãe de santo Hildelice Benta, ialorixá do Terreiro Ilê Axé Jitolu, aconteceu o ritual público com a participação da Deusa do Ébano, Alexandra Amorim, de Itapuã – bairro também habitado por grande contingente de afrodescendentes da cidade – em tradicional evocação pela paz na festa, com milho branco e soltura de pombas brancas, em frente ao Terreiro. Algumas pombas voaram para posar nos turbantes das figuras femininas emblemáticas do Ilê Aiyê.

A cerimônia, por si só, é uma atração do bloco em seus 41 anos de existência. O tema do “mais belo dos belos” deste ano abordou a “Diáspora Africana – Jamaica – Afrodescendentes”. Com seu fascinante cortejo, o Ilê desfilou, inicialmente, ate a Praça Nelson Mandela, na entrada do Plano Inclinado Liberdade-Calçada. Dali seguiu para o desfile já na madrugada de domingo, no Campo Grande, o que voltou a fazer na segunda-feira, porém no início da noite. Na terça-feira, a apresentação ocorreu no Circuito Batatinha, no Centro Histórico de Salvador.

A um só tempo, o tema mantém o desenvolvimento do estudo antropológico desenvolvido pelo Ilê sobre a diáspora africana, este ano com ênfase na Jamaica e celebrou a abertura, em 2015, da Década Internacional promovida pela ONU até 2024, para “Pessoas afrodescendentes: reconhecimento, justiça e desenvolvimento”. O objetivo da Organização das Nações Unidas, segundo Antonio Carlos dos Santos Vovô, presidente da entidade, “é reforçar o combate ao preconceito, à intolerância, à xenofobia e ao racismo, razões que também norteiam os princípios da nossa atuação”.

O Ilê Aiyê voltou a homenagear a ialorixá Mãe Hilda, mãe de Vovô, sacerdotisa do candomblé e dirigente espiritual do bloco, além de guardiã da fé e da tradição africana na Bahia, falecida aos 86 anos, em 2009. Em 2015, o Ilê Aiyê confirmou a tradição como divulgador da cultura afro brasileira, tomando as ruas em forma de um espetáculo rítmico-musical e plástico, marcado pelo som de atabaques e tambores e pela alegria dos seus associados, turistas e foliões. Como outras organizações carnavalescas da cidade, o bloco mantém atividades sócio educativas, sem apoio do poder público.

 

 

 

Rei do rock tornou-se em Rei Momo no Asilo

                                                                                                              Foto: Romildo Jesus
A imagem pode conter: 1 pessoa, em pé e atividades ao ar livre
Precursor do Rock’n’roll na Bahia e radialista por 20 anos, Waldir Serrão, o Big Ben,
foi obrigado a ir viver no Abrigo Dom Pedro II, ao lado Cine Roma, um dos palcos em que reinou

Waldir Serrão

Rei do rock tornou-se em

Rei Momo no Asilo

ALBENÍSIO FONSECA
 Aos 74 anos, Waldir Serrão – precursor e Rei do Rock’n’roll na Bahia no início dos anos 60 – tornou-se em Rei Momo do Carnaval no Asilo Dom Pedro II. Na terça-feira (10.02.2015) ele comandou o Baile de Carnaval da instituição ao som da banda de Cristine e Coringa. Serrão, que boa parte do público conhece pelo nome artístico de Big Ben, está há dois anos nesse tradicional abrigo para idosos da cidade. “Mesmo sendo candidato único no concurso que o elegeu Rei Momo, para ele, ter sido eleito “foi uma surpresa”, brinca, garantindo que “quem foi rei sempre será majestade”.
Na segunda-feira (9) pela manhã, ele e a Rainha da Folia, Lúcia, comandaram o desfile de Carnaval no interior do abrigo, ao som da Banda da Guarda Municipal. Para Waldir Serrão, há uma “enorme diferença” entre Carnaval e Rock’n’roll. “Mesmo os festivais de rock eram completamente diferentes”. Segundo ele, “o Carnaval não tem a mesma variedade musical e cultural do rock. A turma do Carnaval só pensa em ganhar dinheiro, no ambiente do rock não é bem assim”, acredita.
Sem oportunidade de trabalho nas emissoras de rádio baianas, Serrão passou a enfrentar dificuldades. Graças a um irmão, conseguiu sua aposentadoria como radialista, ele que sempre foi um dublê de cantor e homem do rádio. Antes do Pedro II, passou uma temporada no Abrigo São José, na Ladeira dos Bandeirantes, de onde saiu para a casa de uma ex-namorada, Solange, no Dique do Tororó, a quem se diz muito grato. “Ela não admitia que eu viesse a passar fome e me proporcionou alimentação e abrigo durante uns oito meses”, ressaltou.
Cine Roma e Elvis Presley
“É uma enorme coincidência que eu esteja aqui, ao lado do Cine Roma, o principal palco da história do rock na Bahia. Estou no Pedro II graças à força de Carlos Pitta e Jerry Adriani. O Governo do Estado nunca me proporcionou nada”, afirma. Sobre o fato de ter não ter feito poupança para garantir um futuro tranquilo, Waldir Serrão – com a mesma voz que badalou por 18 anos o programa “O Som do Big Ben” em emissoras de rádio e tevê de Salvador – diz que gastava muito. “Banquei muitos shows que não deram o retorno imaginado. Passei um mês nos Estados Unidos. Conheci Memphis, no Tennesse, a terra em que Elvis Presley nasceu e um dos berços do rock’n’roll. Conheci a casa e o túmulo dele em Graceland. Elvis foi meu principal ídolo”, conta.
A paixão de Waldir Serrão por Elvis Presley sempre foi tanta que, pai de um casal de gêmeos, não hesitou em colocar o nome dos filhos, já com 39 anos, “Elvis” e “Sylvia” (título de uma canção, sucesso na voz do Rei do Rock mundial). Outra paixão dele foi a cantora norte-americana Barbra Streisand. “Tinha todos os discos dela”, revela. Do mesmo modo que a voz, a memória de Serrão também permanece acesa. Recordou de parceiros do tempo do Rádio, dos fã-clubes que ajudou a fundar na cidade. “Não era só de Elvis, tinha os de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Jerry Adriani”, lembra sem esforço.
Roqueiro cantando MPB
“Imagine, eu, roqueiro, agora estou cantando MPB no Coral Menino Jesus, cujas atividades estão suspensas por causa do Carnaval”. A conversa com Waldir Serrão é divertida e ele cobra a visita dos amigos roqueiros, “inclusive com doações para os demais idosos do Asilo Pedro II”. Ele revela que sempre que pode dá uma fugida. “Vou visitar meu filho Elvis, que também canta, mas na Igreja Batista de Pernambués. A mãe proibiu ele de cantar rock pois, segundo ela, é música do diabo”. Ele aproveita, também, para ir ver a namorada Nilda, “com quem mantenho uma relação afetiva há 10 anos”.
Sobre Raul Seixas, disse que “no início de toda essa aventura do rock’n’roll na Bahia, nós éramos ao mesmo tempo parceiros e concorrentes. Eu tinha a banda Waldir Serrão e seus Cometas e ele a Raulzito e seus Panteras. Tudo acontecia aqui entre Roma e a Boa Viagem. A Cidade Baixa era a capital do rock em Salvador. Tanto eu como Raul fomos influenciados pelo cinema em filmes como “Sementes do Ódio” (com James Dean) e “No balanço das horas” (com Billy Halley e seus Cometas). Tocávamos nos clubes sociais. Lembro sempre de uma apresentação nossa no Fantoches da Euterpe, no 2 de Julho”, recorda.
Pique para voltar ao rádio
Após ter atuado como radialista de 1964 a 1984, Serrão não titubeia: “Tenho pique para voltar a apresentar shows e programas de rádio. O Mário Kértesz prometeu me ajudar com um emprego na Rádio Metrópole, onde trabalhei 10 anos com o programa “Inclusão Social”, que tocava música gospel e country, mas até hoje não cumpriu a promessa”, cobrou.
Na rotina dos últimos dois anos, após o café da manhã no Pedro II, ele participa de atividades junto aos demais idosos. “Alguns preferem artesanato, aulas de canto, jogos. Eu gosto de desenhar e pintar. Aqui tenho liberdade e posso descansar, ouvir os pássaros cantando no jardim”, revela com o mesmo entusiasmo de sempre.

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Festa de Itapuã 2014

Foto: Albenísio Fonseca/2013
Cortejo das baianas no trajeto de Placafor até à Igreja em Itapuã

Todos os caminhos levam

à Festa de Itapuã 

Todos os caminhos levam à Itapuã nesta quinta-feira (20.02), onde acontece a 109ª edição da Festa do bairro. A expectativa, em ano de eleição, é que o evento reúna grande parte de candidatos à Assembleia Legislativa, Câmara Federal, Senado e mesmo ao Executivo estadual, antecipando o calendário eleitoral.
A festa, cujo ápice é a lavagem do adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, tem início previsto para às 11h30, quando dezenas de baianas, animadas pelo ritmo de alabês e percussionistas do afoxé Korin Nagô, seguidas por carro alegórico com os homenageados do bairro, centenas de foliões e turistas, se deslocam em cortejo, desde Placafor até Itapuã, aliando fé e ludicidade.
O desfile prossegue, por quase toda a tarde, com dezenas de grupos de samba, o bloco afro Malê Debale, que este ano comemora 35 anos de fundação e outras manifestações típicas do lugar, em contagiante animação a mobilizar uma multidão por todo esse trecho da Orla da cidade. A festa de Itapuã é a última do calendário de eventos populares de Salvador antes do Carnaval.
A animação local, contudo, começa nas primeiras horas da madrugada. Sob organização da professora Ronilda dos Santos, o Bando Anunciador – uma banda de sopro e percussão –  percorre  ruas do bairro com cerca de 500 foliões, convocando a comunidade para a festividade. Uma alvorada de fogos marca a abertura das comemorações e, sob o nascer do Sol, acontece a “lavagem nativa” do adro da igreja de N.Sra. da Conceição de Itapuã, organizada pelos filhos de D. Niçu (que promoveu a iniciativa há 25 anos), seguida de um concorrido samba de roda e de “café da manhã africano”, oferecido em congraçamento comunitário.
Após a tradicional lavagem, à tarde, há uma recepção de confraternização aos participantes, com uma feijoada para as baianas e convidados, demonstrando a “magnitude e relevância da festa”. Na segunda-feira (24), às 16h, na Enseadinha (Praia da Sereia), a festividade é encerrada, há 28 anos, com “o mais belo dos presentes à Iemanjá”, organizado por canoeiros e pela mãe pequena Gildete dos Santos.
Toda a estrutura para a realização do evento já está instalada e conta com equipamentos e efetivos da PM, Corpo de Bombeiros, Policia Civil, Transalvador e postos para atendimento de emergência, além das barracas de bebidas e comércio ambulante, no trecho entre a Sereia e a praça Dorival Caymmi. O transito, conforme acordado com a Transalvador junto os organizadores, será interditado para o acesso ao bairro, pela Orla, já na quarta-feira, à noite, com desvio para a avenida Paralela pela avenida Pinto de Aguiar. O transito volta à normalidade a partir das 16h de quinta-feira.
A Festa de Itapuã é organizada e executada pela própria comunidade com apoio da Prefeitura, através da Saltur.  A festividade proporciona, além de prazer, alegria e manutenção de uma tradição centenária, importante legado para a melhoria das condições de vida dos moradores e frequentadores do bairro, na medida em que mobiliza a gestão municipal a viabilizar operações de pavimentação, mais iluminação de ruas e coleta de lixo e entulhos, principalmente na áreas de trajeto dos cortejos e seus entornos.
Além do cantor e compositor Dorival Caymmi, cujo centenário de nascimento transcorre esse ano, a Festa homenageia o principal carnavalesco do bairro, Gilberto Menezes de Almeida (“seo” Menezes), 82 anos, e a ialorixá bantu, Zulmira de Santana França, 79 anos, que desfilarão em carro alegórico no formato de um saveiro.

Carnaval invisível

Foto: Albenísio FonsecaAtuação do Conselho do Carnaval foi questionada em audiência pública da Câmara

Câmara e TCM vão investigar

Conselho do Carnaval

 Albenísio Fonseca
O vereador Alcindo da Anunciação (PT) já dispõe de 25 das 21 assinaturas necessárias dos colegas para requerer a abertura de uma CEI-Comissão Especial de Investigação – espécie de CPI da Câmara Municipal – o que garantiu fazer na sessão de segunda-feira (19.03) – para investigar o Conselho Municipal do Carnaval (Concar). Durante audiência pública para debater a festa, Anunciação obteve o respaldo da maioria das agremiações carnavalescas da cidade. Waldemar Sandes (representante dos trios independentes) revelou que o Conselho será, também, ¨alvo de auditoria¨ pelo TCM-Tribunal de Contas do Município.
O vereador Sandoval Guimarães (PMDB) apresentou projeto, em tramitação desde novembro de 2011, que prevê a criação de um fundo destinado ao patrimônio público material e imaterial do Carnaval, com destinação de 20% dos recursos auferidos sobre os valores consignados na forma de patrocínios oficias e privados para as entidades, entre outras medidas. Já a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) defendeu a realização de um seminário para ampliar o debate e definir melhor políticas públicas para a festa.
Em suma, o Carnaval 2013 já começou e, pelo visto, o embate na avenida das legalidades, com re-percussão na Lei Orgânica, deve possibilitar um novo viés ao festejo. Pronunciamento importante, também, foi o de Rogério Horle, representante de entidade não carnavalesca, que chamou a atenção para o fato de a comercialização de abadás não envolver emissão de nota fiscal, o que geraria significativa soma em ISS, por falta de fiscalização da Sefaz. Ele considera fundamental que o Concar apresente demonstrativo de prestação de contas sobre os recursos investidos e auferidos com a festa.
Otto Pípolo, carnavalesco e advogado que lidera um grupo de representantes de entidades carnavalescas a cobrar direito de arena dos camarotes que se instalam durante a festa, mostrou que ¨embora o Carnaval de Salvador seja divulgado nacional e internacionalmente como dispondo de mais de 200 agremiações, o que se constata é a evidência e controle da festa por meia dúzia de entidades¨.
Waldemar Sande disse que a Câmara de Vereadores já foi ¨alvo de chacotas¨ por parte da Comissão Executiva do Conselho do Carnaval e atribuiu a ¨culpa¨ da aberração em que se converteu a instância carnavalesca, ao ¨Governo do Estado, à Prefeitura e às próprias entidades¨. O poder público, disse, ¨tem oito votos, mas se mostra pouco representativo¨. A Câmara, por sua vez, num total desmascaramento, tem sua representação ¨terceirizada¨ naquele colegiado.
Mas coube mesmo a Arnando Lessa, ex-vereador e ex-deputado estadual, autor da lei que criou o Conselho do Carnaval, inserindo-o na Lei Orgânica do Município, disparar as afirmações mais contundentes, ao assegurar que ¨o Conselho, hoje, é um faz-de-conta. Se é conveniente a Coordenação Executiva promove reunião; se não, nenhuma decisão é tomada¨.
Lessa ressaltou, ainda, que a Coordenação Executiva age como ¨uma verdadeira ditadura¨ na organização da folia. Disse mais, que ¨o Conselho tornou-se numa ¨casa de negócios. Nos bastidores do Carnaval, ou na sua organização, o que se faz são negócios, escusos ou não, não importa¨. Sustentou, também, que, como todo mundo sabe, ¨quem manda no Carnaval de Salvador é a Central do Carnaval¨, e acentuou o quanto o Concar ¨está manietado e marginalizando as demais entidades que compõem o Carnaval nessa capital¨.
Raimundo Bujão, da Frente Comunitária e Parlamentar Mista em Defesa de Itapuã, questionou a ¨invisibilização¨ dos carnavais de bairros, que, segundo ele, ¨podem e devem ser a melhor alternativa para democratizar a festa¨.  O artista plástico Ives Quaglia criticou a supressão das decorações no Carnaval, em decorrência da ¨cultura do trio elétrico¨, e questionou a ¨injustificada presença¨ de representação da categoria no Conselho. Mas o também artista plástico e representante da categoria no Concar, Zu Campos, disse que ¨há 10 anos não há decoração na festa¨, embora tenha ¨apresentado projetos e sugestões, aprovados pela Coordenação Executiva, mas nunca implementados¨.
Já Laurinha Arantes, da Associação de Artistas Independentes, demonstrou a ¨invisibilidade¨ desse segmento durante suas apresentações. Mesmo argumento adotado por representante dos blocos afro: ¨Nosso desfile é invisibilizado, nossas músicas invisibilizadas, nossos direitos escamoteados¨.
O presidente da Associação dos Cordeiros (AssindCorda), Mateus Silva, repercutiu declaração do presidente do Concar, Fernando Bulhosa, de que pretende promover a ¨instalação de gradis nas avenidas¨, como forma de dispensar a mão de obra dos cordeiros. Mateus também defendeu assento para os cordeiros no Concar, como o fez Beto Silva, da Associação Baiana de Compositores (ABC) sob o argumento de que a festa não existe sem os compositores. Pensando bem, vai faltar cadeira.

Desocupa Salvador

Foto: Albenísio Fonseca                                                                                                                          fotoMáscara do filme “V de Vingança”, convertida em símbolo do Occupy Wall Street, foi adotada também pelos indignados de Salvador

As semelhanças da luta e

a tragédia do bem comum

 Albenísio Fonseca

Ainda que sob o temor do excesso, é possível comparar o “Desocupa, Salvador!”, nossa “Primavera baiana”, com outros movimentos recentes como a “Primavera Árabe”, o Occupy Wall Steet, Indignados e o #StopSOPA. Na iniciativa soteropolitana, como nas praças ocupadas do Egito, Espanha, Grécia, Londres, Nova Iorque e na Internet, os rebelados sinalizam e até já constroem com suas mãos este novo agora.

Sob disposição surpreendente, revelam o desejo de impedir que o poder econômico perpetue o saque e a tragédia sobre o que é bem comum, mesmo quando “o espetáculo submete a si os homens depois que a economia já os arrasou inteiramente”, como estipula Guy Débord em “A Sociedade do Espetáculo”.

Ao enfrentar decisões que atingem gravemente a sociedade, e que são tomadas sem nenhuma consulta a ela, de forma velada ou opaca, por “exigência” da oligarquia financeira ou, embora aí já inclusos, do capital imobiliário e da indústria cultural, as multidões (e não classes ou grupos, embora esteja cada vez mais difícil separar uma esfera social da outra) lutam contra formas autocráticas de governo ou gestores inábeis e servis, frente a medidas de ajustes fiscais ou legais, instituídas com base em conteúdo inconstitucional, discricionário ou ditatorial.

Aqui, a luta é contra uma administração caótica e sua usurpação territorial para transferência a setores privados, com manipulação da Lei de Ordenamento do Uso do Solo, sob a benevolência de executivos e parlamentares, à revelia do Judiciário. Lá, deflagradas pelo desemprego, alta no preço dos alimentos, dívida pública, democracia, plutocracia financeira ou tentativa de controle da Internet em absurda “legislação extraterritorial, a ferir o direito internacional”, como ressalta Antonio Martins em #StopSOPA: hipóteses sobre a luta pela internet livre.

2012-01-14 18.38.07

Aqui, ao converter-se praça em megacamarote e ofertar-se reserva ambiental de um milhão de m², sataniza-se, com razão, o gestor municipal, sem arguir-se, contudo, não diria a cumplicidade, mas a co-responsabilidade do executivo estadual.

Professor de Direito Internacional Comparado e autor de “Beni Comuni, um manifesti”, a seguir a economista norte-americana Elinor Ostrom – primeira mulher Prêmio Nobel de Economia, em 2009, por seu livro “La gouvernance des biens communs” – italiano Ugo Mattei defende uma Constituição baseada no bem comum: “Nenhum dispositivo jurídico protege o cidadão do Estado neoliberal quando este transfere para a esfera privada os bens da coletividade”. Afinal, “o papel do governante é o de administrador de confiança, e não de proprietário livre para abusar do patrimônio coletivo”. Em artigo no “Le Monde Diplomatique Brasil”, Ugo Mattei salienta que “a obra de Elinor não foi plenamente reconhecida na comunidade científica, dada as consequências revolucionárias de colocar os bens comuns na posição central entre as categorias do jurídico e do político”.

Nas manifestações em curso, o que está proposto, ainda que de forma difusa, embrionária, é o advento de novas formas de organizar a vida social em prol da comunidade. E é evidente o quanto os protestos articulados de modo virtual são capazes de alcançar vitórias, ainda que parciais e provisórias, porém sempre emancipatórias. Ações típicas de guerrilhas, como se diria nos anos 60/70, as flash mobs ou smart mobs (manifestações convocadas pela rede – Internet ou celulares), no século 21, passaram a ampliar suas motivações (do trivial ao político) e “contaminar”, cada vez mais, novos atores, militantes, manifestantes ou, na antiga expressão, guerrilheiros. Aqui, como lá, antes como agora, o inimigo permanece sendo o estado.

O risco maior a que o movimento em Salvador esteve exposto – o de dispor como suporte apenas a Internet e suas redes sociais – parece estar superado com a disseminação da sua relevância em setores da imprensa e na tessitura de organizações sociais e instituições acadêmicas, ao requerer “leitura” jornalística, histórica, sociológica, urbanística, cidadã. Mesmo omissos nas instâncias institucionais, mas indignados com a representatividade parlamentar, seus integrantes relutam em converter as ações, de apartidária em suprapartidária.

Povoada por iniciativas contra-hegemônicas de enorme alcance, a Internet, com seu universo nômade de tecnologias móveis da era da conexão, proporciona o meio (mas não o fim) para a consolidação de um novo amanhã. Tecido sob a égide do pós-capitalismo – mais desenvolvido na rede que nas demais relações sociais – com multidões, em escala planetária, a exigir a cada dia o resgate da expropriação de parte de seus bens, notadamente a liberdade, o futuro vai deixando de existir devorado pela voracidade do trágico presente.


A Revolta dos Malês

A noite do poder

Albenísio Fonseca

Madrugada de 25 de janeiro de 1835. Denúncia dos libertos Domingos Fortunato e sua mulher, Guilhermina Roza de Souza, mobiliza o aparato policial em Salvador. As autoridades tomaram conhecimento do plano, à noite, adotando de imediato medidas para a repressão.

A rebelião dos escravos malês tendia a implantar um califado como regime de governo ao decidirem rebelarem-se na alvorada daquele domingo. O movimento rebelde, contudo, e como todas as revoluções, acabara  traído, gerando o destroçamento dos revoltosos, surpreendidos pelas forças policiais do império em um sobrado na Ladeira da Praça, e com outros grupos, provenientes do Corredor da Vitória, sendo dizimados no confronto com forças policiais na área de Água de Meninos.

O fenômeno do negro muçulmano é um dos fatos mais curiosos da história social brasileira.  Trazidos a partir dos séculos XVIII e XIX, os negros oriundos do Sudão Central  compuseram significativo coeficiente no conjunto dos escravos no período regencial. Segundo Arthur Ramos, em O negro na civilização brasileira, eles eram “altos, robustos, fortes e trabalhadores. Usavam pequeno cavanhaque, mantinham vida regular e austera, e evitavam misturar-se com os demais escravos”.

Denominados de malês, os muçulmanos também eram conhecidos por mucuim, muxurimim, muçulimi, muçurumi. Monoteístas, não eram idólatras, mas usavam amuletos com versículos do Alcorão, escritos em árabe. Possuíam conselheiros ou juízes chamados de Alufás, a quem ouviam e respeitavam.

Os cinco primeiros anos da década de 1830 na Salvador escravista foram marcados por distúrbios de rua, motins antilusos, saques, revoltas federalistas – como a Sabinada – além de quarteladas e revoltas escravas, em meio à crise econômica do período regencial. Os malês, que falavam e escreviam em Árabe são tidos como responsáveis pelas revoltas de escravos na província da Bahia, em 1807, 1809, 1813, 1816, 1827 e a rebelião dos Malês em 1835.

Alguns historiadores atribuem o 25 de janeiro daquela ano ao dia de Nossa Senhora da Guia, uma das comemorações de maior atrativo popular à época, quando uma multidão deslocava-se até o Bonfim (então um bairro rural). A cidade esvaziada seria presa fácil para a tomada de assalto. Outros realizaram a conversão da data para o calendário muçulmano, correspondendo ao final do mês do jejum do Ramadã, numa data inclusive muito próxima da festa do Lailat al-Qadr, expressão traduzida para os idiomas ocidentais ora como Noite da Glória, ora como Noite do Poder. A estratégia era um “folguedo” para matar todos os brancos.

Com formação intelectual, ao contrário dos demais contingentes de escravos trazidos à Bahia, os malês dispunham de hierarquia social estruturada. O livro “Rebelião Escrava no Brasil” (Ed. Brasiliense), de João José Reis, é a maior referência de estudo sobre a rebelião. “Malês” seria um terno criado já na vivência em terras brasileiras e que designaria “aqueles que ensinam”. Outros historiadores apontam a origem na expressão “imalê” correspondente a muçulmano, em iorubá.

Embora o islã não seja uma religião étnica – por se pretender universalizante – pode ter-se tornado exatamente isso no cenário histórico de janeiro de 1835. Pela devoção dos integrantes às escrituras sagradas do Alcorão, a rebelião dos malês é vista como uma “jihad”, uma guerra santa. Na Bahia, o islã estava identificado com certos grupos étnicos, como os nagôs e haussás. Segundo João José Reis, “os filhos de orixá reservaram um lugar especial para os filhos de Alá em sua mitologia”.

 

Grande parte da documentação dos malês foi destruída ou extraviada, até mesmo pela própria polícia da época que sequer sabia ler. Existem ainda, arquivadas, partes do Alcorão apreendidas em mãos dos revoltosos, e tabuletas que eram apenas exercícios de caligrafias. Não há, no entanto, depoimento ou documento que sinalize o que significaria a tomada do poder sob uma hegemonia muçulmana. Há indícios de que manteriam contingentes negros como escravos. O legado da confluência de religião, política e festejo, contudo, este ficou para sempre no espírito baiano. Se você veste branco às sextas-feiras; se usa abadá no carnaval, saiba… tudo isso é herança malê.

Em O sacrifício do carneiro – uma radiografia da presença islâmica em Salvador, livro-reportagem para graduação em jornalismo, disponível para leitura na íntegra em www.facom.ufba.br/pex/luizcarlossouza.docLuiz Carlos Souza (tendo como orientador o professor Renato da Silveira),  faz amplo apanhado sobre a presença muçulmana e narra detalhes fundamentais do confronto. Leia:

– O movimento de saveiros vindos do Recôncavo era intenso naquele fim de tarde, 24 de janeiro de 1835. Havia um clima de expectativa. Muitos negros, escravos ou alforriados, chegavam para juntar-se a um tal Ahuna, um clérigo muçulmano de origem nagô.

O destino, contudo, inseriria sua dose de ironia. Talvez algo que remeta ao fatalismo islâmico. Maktub. Está escrito. A companheira de um dos líderes da rebelião seria aquela que levaria aos ouvidos brancos a notícia do levante rebelde.

A liberta nagô Sabina da Cruz, amigada com Victorio Sule (Salomão) tivera uma briga feia com o parceiro naquela manhã. Provavelmente, a tensão do guerrilheiro, e o voto de silêncio que os amotinados fizeram o impediam de contar o que quer que fosse à “esposa”, que provavelmente deve ter passado a conjecturar. Teria o “pai dos seus filhos” resolvido abandoná-la?

Acossada pela dúvida, a mulher foi trabalhar. Ao retornar à noite, depois de um dia de trabalho, (vendia comida na Cidade Baixa) encontrou a casa de pernas para o ar. Victorio, não estava. Fora embora levando as suas roupas. A mulher saiu desesperada na busca de Sule, e o localizou na casa de uns pretos de Santo Amaro à rua do Guadalupe.

Ela parece ter chegado à casa de Manoel Calafate, quase ao pé da Ladeira da Praça. Victorio estava ali, jantando com o maioral Ahuna, provavelmente na preparação dos últimos detalhes para a guerra prestes a acontecer.

Sabina não chegou a ver o companheiro naquela noite, mas tivera um áspero diálogo com uma negra de nome Edum:

– Só vai ver teu homem quando os africanos forem senhores desta terra!

– falou Edum, barrando a entrada de Sabina na casa.

– No outro dia eles vão ser senhores de surra, não da terra

– respondera a desafiadora companheira de Sule.

Aparentemente, não há explicação para a atitude de Sabina. Sabedora do prestígio que uma amiga, Guilhermina Roza de Souza, gozava entre os brancos foi procurá-la, para que esta prestasse serviço à ordem senhorial. Munida das informações, Roza, segundo João Reis:

dirigiu-se a André Pinto Silveira, seu vizinho branco, e lhe contou o que sabia. Na casa de Silveira, também estavam Antônio de Souza Guimarães e Francisco Antônio Medeiros, que se encarregaram de informar as novidades ao juiz de paz do 1.º Distrito da freguesia da Sé, José Mendes da Costa Coelho.

Este imediatamente correu ao palácio para denunciar os fatos ao presidente, e lá chegou acompanhado do Comandante da Guarda Municipal Permanente, coronel Manoel Coelho de Almeida Sande, e do comendador José Gonçalves Galião, um rico proprietário.

Estes acontecimentos tiveram lugar aproximadamente entre 9 e 10 horas da noite de sábado, 24 de janeiro. Precisamente às 11 horas e ‘um quarto de noite’, por exemplo, o juiz de paz da freguesia da Conceição da Praia recebia um aviso do presidente da província ordenando-lhe que rondasse seu distrito com patrulhas dobradas, em razão da denúncia

Após várias devassas em vão, os juízes de paz da Sé e suas patrulhas chegaram ao sobrado de dois andares na Ladeira da Praça. Tratava-se da casa de número dois, na qual os insurrectos davam os últimos retoques no plano.

Numa das janelas do andar térreo estava Domingos Marinho de Sá, que havia sublocado o lugar a dois africanos libertos – Manoel Calafate, de origem nagô, chamado pelos demais de “Pai Manoel”, o que evidenciava prestígio de mestre malê na maçonaria negra. O outro era Aprígio, um dos prosélitos de Calafate, carregador de cadeira e vendedor de pão.

Naquela madrugada, Domingos foi encontrado por uma patrulha sentado à uma das janelas do sobrado. O grupo, formado pelos juízes de paz da Sé e soldados, exigiram revistar a casa, mas nervosamente, Domingos dissera que os únicos africanos presentes eram seus inquilinos. Insistia no bom comportamento de ambos, mas não convenceu às autoridades. O alfaiate mulato não estava colaborando com o centro nervoso da rebelião por livre e espontânea vontade. Tentava salvar a vida da mulher e filha, e a dele próprio, tendo sido ameaçado pelos guerrilheiros.

Apesar da resistência de Domingos, os soldados tiveram acesso ao interior do prédio, de onde saíram cerca de 60 pretos gritando em bom português: “Mata soldado”, além de palavras de ordem gritadas à maneira de sua terra. A invasão à casa de Calafate ocorreu à uma hora da manhã, quando os rebeldes contavam com pelo menos com mais três ou quatro horas até o início do levante. “Agora vamos nos levantar, por que não tem remédio”, esta foi a frase ouvida pelo escravo Pompeu, que viera do Recôncavo para se juntar ao grupo.

A guerra começara em frente ao sobrado. Embora alguns rebeldes tivessem morrido ali mesmo, conseguiram desbaratar os surpresos adversários. Os insurgentes feriram cinco pessoas, entre os quais um tenente e um soldado, o último mortalmente ferido. Um africano foi morto a cacetadas, e o outro com uma bala na cabeça. Um deles era o companheiro de Sabina da Cruz, Vitório Sule, “que morrera fazendo a guerra em Guadalupe”. Maktub.

O plano original era atacar a cidade nas últimas horas invisíveis da madrugada. A precipitação nos planos, causada pela denúncia, fez com que os grupos se dividissem e fossem bater às portas das casas, avisando aos companheiros que a rebelião estava em curso. Parte do grupo seguiu para a Rua da Ajuda, onde fez repetidas tentativas de arrombamento da cadeia. A intenção era libertar o mestre malê Pacífico Licutan. De nação nagô, Licutan estava preso como garantia de uma dívida, contraída pelo seu senhor.

Como não havia cometido nenhum crime, podia receber visitas, sem maiores restrições, o que deve ter facilitado a sua participação na organização do levante. Estimado pela comunidade muçulmana da época, a libertação do alufá era um dos objetivos do levante, por isso o ataque à cadeia.

O insucesso no assédio à prisão fez com que saíssem ao Largo do Teatro, onde puseram a correr uma pequena força formada por oito soldados regulares. A capital ainda estava aparvalhada com a ousadia dos guerrilheiros. Apesar da incompleta surpresa, as forças repressivas não esperavam estratégia similar à de 1830. Tanto é que no início da batalha, na casa de Calafate, apenas dois soldados tinham armas carregadas e prontas para atirar.

O próximo objetivo seria juntar-se ao grupo de revolucionários da Vitória, mas para isso, teriam que passar pelo Forte de São Pedro. Como a meta não era atacar o quartel, não conseguindo passar pela artilharia, protegida pelos muros do prédio, tiveram que recuar.

Foi a vez dos rebeldes da Vitória darem continuidade ao plano, vindo encontrar a primeira onda de rebeldes em frente ao Forte. O chefe de polícia, que tinha seguido para o Bomfim, recebeu aviso de que os insurrectos estavam atacando a cidade e marchavam para Água de Meninos, em direção ao quartel da cavalaria.

Após estender a cavalaria em linha de combate e aquartelado soldados armados, para fazer fogo aos insurgentes, era apenas uma questão de espera. Minutos depois, ali chegavam os guerrilheiros. A estratégia dera certo. O combate fora desigual.

Armas de fogo disparadas por soldados de dentro do quartel, contra espadas e uma ou outra garrucha, além de cavaleiros hábeis contra uma infantaria a pé e destreinada. Cerca de 40 africanos morreram no embate, ficando outros tantos feridos. Houve quem tentasse fugir a nado, muitos aparecendo depois afogados. Estava debelada a insurreição.

Os malês optaram por uma guerra contra o poderio oficial estabelecido. Não consta que matassem senhores ocultamente ou lançassem mão de artifícios como incêndios ou assassinatos da população civil, medidas desumanas, mas que talvez contribuíssem para lançar o caos sobre a cidade. Parece que a mão de Alah se estendera sobre mulheres e crianças brancas daquela Cidade da Bahia, em 1835. A harb, a autodefesa islâmica legitimada no livro sagrado, impede o ataque a indefesos.

A única notícia de incêndio é fornecida por Nina Rodrigues. “Assim, das seis para as sete horas da manhã, saíram seis negros, armados e vestidos em trajes de guerra, os quais lançaram fogo à casa do senhor e tentaram rumar para Água de Meninos, onde para logo foram mortos”. Evidentemente, tratavam-se de retardatários, que saíram às ruas ignorando o levante já sufocado. Os últimos a irem para o massacre.


Albenísio Fonseca é jornalista

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