Banho em Pituaçu gera controvérsias

                                                                                                                                                                                                                                                                          Fotos: Mônica Bitencourt
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Crianças tomam banho em área considerada imprópria na Lagoa de Pituaçu

 
ALBENÍSIO FONSECA

Desde há exatamente um ano, o Inema-Instituto de Recursos Hídricos vem informando sobre condições “próprias” de balneabilidade para a Lagoa do Parque Metropolitano de Pituaçu. Os boletins emitidos pelo órgão em 2016 consideraram a água “imprópria” apenas em duas segundas-feiras, 22 de fevereiro e 16 de maio. Conforme Paulo Canário, integrante do grupo Viva o Parque de Pituaçu, mantido em rede social e em encontros presenciais, o entendimento é que a balneabilidade foi atestada como uma consequência da entrada em funcionamento da Elevatória de Tempo Seco do Rio Pituaçu, [mantida pela Embasa] na altura da recém-implantada Avenida Gal Costa e que foi recentemente canalizado. Isso retirou, nesta época de seca, a contribuição dos esgotos lançados no rio e que são despejados na lagoa do Parque”.

A questão é controversa na medida em que a coleta da água para análise é feita em apenas um ponto da lagoa, exatamente na área em que ficam os pedalinhos, considerando a dimensão da lâmina de água daquele manancial, embora comprovado por laudo laboratorial e segundo critérios adotados pelo Conama-Conselho Nacional de Meio Ambiente. De acordo com o coordenador de Monitoramento do Ibama, Eduardo Topázio, “o método é o mesmo aplicado na coleta e análise das condições da água das praias”. Mas, ainda segundo ele, “é fato que com chuvas fortes o rio extravasa da elevatória e conduz resíduos sólidos para a lagoa”. Ou seja, acrescentou, “os rios que são contribuintes do de Pituaçu e, portanto, vão entrar na lagoa, já vêm poluídos de áreas densamente povoadas e sem rede de esgotos”.

Gera estranheza a comunicação de “própria para banho”, quando isso deveria ser assegurado apenas na área da coleta, em que pese os seguranças do parque serem orientados a alertar banhistas, notadamente em outros trechos (ainda que próximos da área “liberada”),  para a proibição do banho. Do mesmo modo, a administradora do equipamento metropolitano, Bernadete Bittencourt, solicitou ao Inema e, de acordo com a assessoria do órgão ambiental, “já está sendo programada”, a “instalação de novas placas alertando para a proibição do acesso à água na lagoa”. Conforme o Inema “as placas existentes e que também sinalizam a proibição estão corroídas por salitre”. Segundo Topázio, “estão aguardando apenas obter algum patrocínio para a instalação”.

Vale salientar, além do mais, que o “local dos pedalinhos” (onde se dá a coleta de água pelo Inema para análise) foi transferido da frente do píer para um ponto em frente, levando à perda do conforto para embarque e desembarque dos usuários, notadamente nos finais de semana. A mudança decorreu da “ameaça da queda de galhos” de uma árvore frondosa naquele pequeno cais, agora isolado por tapumes, à espera de uma licitação para promover a poda no vegetal, o que, convenhamos, é um inaceitável absurdo. A situação, aliás, é similar à em que se encontra o pórtico do parque – até então ocupado pelo artista plástico Mário Cravo Jr. por doação do Estado durante o Governo Antonio Carlos Magalhães – em obra de reforma, mas paralisada. O pórtico é defendido por representantes da comunidade como “local apropriado para a realização de cursos e oficinas destinados às crianças e jovens das famílias mais carentes do bairro”.

 

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Tapumes e avisos improvisados isolam o pier na lagoa do Parque Metropolitano

Ex-administrador critica tapumes e falta de salva vidas

Ex-administrador do parque, César Menezes disse de outra pesquisa da qualidade da água, realizada por estudantes da UCSal-Universidade Católica de Salvador e por integrantes da Ong SOS Mata Atlântica, que também constatou condições de balneabilidade no trecho da lagoa próximo à área doada pelo Estado à Universidade. De todo modo, ele defendeu a necessidade de se promover uma pesquisa de qualidade das condições da água por uma entidade independente. Após três anos e meio à frente do equipamento, Menezes considera “uma temeridade liberar o banho ali, tanto pelo comprometimento da água quanto pela ausência de salva vidas quanto pela existência de jacarés (dois já foram vistos ali) e cobras sucuris (que já comeram cachorros, aves), e assemelham-se a um coqueiro boiando na superfície do lago”.

Ele também mencionou a Elevatória de Tempo Seco e o encapsulamento do Rio Pituaçu na Avenida Gal Costa, bem próximo à Avenida Paralela, como, a um só tempo, vetor de contenção e condução de lixo e esgoto. “Durante as chuvas as comportas são abertas e leva muito lixo para a lagoa”. Ele apontou, ainda, a “redução no número de visitantes” e criticou a permanência dos tapumes na entrada do parque em frente à Orla. “A sensação para quem passa e vê, além da cerca, tapumes, é a de que o Parque Metropolitano não está funcionando. Aliás, nem mesmo o nome do parque consta mais”, ressaltou. Cézar Menezes disse da “existência de registros de afogamentos na lagoa e a dificuldade em impedir o acesso, principalmente por crianças que desobedecem aos alertas dos seguranças, mas há também a imprudência de jovens e adultos”.

Vendedor de água e guloseimas, há 17 anos no parque, Pequeno (que é como ele prefere ser chamado) disse ter “muito receio de tomar banho atualmente porque a qualidade da água já não é a mesma de anos atrás, quando não só eu, mas toda a comunidade se banhava na lagoa”. Carlos Roberto Aguiar, fisioterapeuta, disse que “por nenhum dinheiro do mundo tomaria banho ali”. A avaliação dele é a de que “a aparência da água é de sujeira, mesmo que garantam estar própria para um mergulho”.


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Mais para esporte que busca de alimento, a pesca segue como opção na outrora piscosa lagoa

Local tem previsão de Parque Olímpico em 16 hectares

Dos 660 hectares (ha) que dispunha quando da inauguração, a poligonal do parque foi reduzida para 352 ha, em dezembro de 2006, no apagar das luzes do Governo Paulo Souto e teve reintegrados 40 ha, em maio de 2013, pelo Governo Jaques Wagner. Ou seja, mede hoje 392 ha. Os governantes alegavam “dificuldades para pagar indenizações a proprietários de áreas”. Existe uma programação de que o equipamento abrigue um Parque Olímpico, no entorno do Estádio Roberto Santos, com 16 ha reservados.

O Governo Jaques Wagner doou 41 ha para a UCSal-Universidade Católica de Salvador  e outros 10 ha para a Uneb-Universidade Estadual da Bahia, em trecho que incluiu o Museu de Ciência e Tecnologia, na área limite com a Avenida Jorge Amado, no Imbuí. A construção de um Quartel da Polícia de Eventos, em fase de conclusão, dentro da poligonal, é apontada por ex-dirigentes do equipamento como “decorrente de invasão”. É, também, extremamente visível o impacto causado pelas inúmeras torres construídas no entorno do Parque pela Construtora Odebrecht. 

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Design – A ilusão estratégica

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Albenísio Fonseca

Até o século 19, o derivado da filosofia era a revolução, agora é o estilo. Essa modalidade do fazer regida sob a aura do único, do exclusivo, é um atributo com características pré-industriais, mas foi resgatada para a modernidade com o advento do design. No princípio era o verbo. Hoje, tudo é design. Desenho industrial.  Designo. Design. Embalagens de produtos, escolha e disposição de cores, formas, programação gráfico-visual de jornais, revistas, decoração, moda, arquitetura – o design está em toda a parte.

Verdadeiro processo industrial do estímulo, equacão funcional dos gostos, o design é uma ilusão estratégica, um invólucro articulado sobre o ideal do objeto, uma resolução estética regida sob o cálculo racional da funcionalidade. Já não se trata de valor de estilo ou conteúdo, mas do próprio processo da comunicação e da troca que a tudo designa.

“O belo é o útil e o útil é o significado”, já estipulava o poeta Décio Pignatari, um dos criadores da Poesia Concreta. O design tende sempre a ser um conjunto estético sem lapsos, sem falhas, sem comprometer a interconexão dos elementos e, inclusive, a transparência do processo, ideal sonhado pelos manipuladores de códigos, designers ou não.

Mas o fundamento da forma (mercadoria) e da economia política, nunca é dito. O design funda o sistema do valor de uso. Para que os produtos sejam trocáveis é preciso que sejam pensados em termos de utilidade. Do mesmo modo que no valor de troca o homem (produtor) não aparece como criador, mas como força de trabalho social abstrato – no sistema do valor de uso o homem (consumidor) numa aparece como desejo, mas como força de necessidade abstrata.

O que é consumido nunca é o próprio produto, mas sua utilidade. Se com a Revolução Industrial eventualizou-se a noção de produto, com a Bauhaus (mais importante escola de desenho e arquitetura em todo o mundo, fundada na Alemanha em 1919) tudo torna-se objeto, segundo uma lógica irreversível.

Simultâneo ao surgimento do objeto funcional, ocorre o do objeto surrealista: espécie de espelho mágico ridicularizador e transgressor do primeiro. O surrealismo ilustra e denuncia o esquartejamento do sujeito e do objeto. Ao libertar o objeto da sua função, revertendo-o em associações livres, a transgressão surrealista é, ainda, um jogo com objetos formais, figurativos.

Hoje, a funcionalidade quase artesanal da Bauhaus foi ultrapassada pelo design matemático e pela cibernética do ambiente. Vide as estruturas vivas, os prédios inteligentes. O que o design nos faz ver é que nosso ambiente é um universo de comunicação. Se começou por aplicar-se apenas aos produtos industriais – antes nada era objeto, nem mesmo o utensílio cotidiano – depois tudo é, tanto o prédio, como o talher, como a cidade inteira.

Tudo hoje é circunscrito pelo design. Tudo é designado: o corpo, a sexualidade, as relações humanas, sociais, políticas. Do mesmo modo, as necessidades e aspirações. Esse universo designado, ou em outra palavra, fetichizado, é que constitui, propriamente, o ambiente. Em suma, no processo econômico de troca, hoje, já não são as pessoas que efetuam trocas, mas o próprio sistema de troca, que se reproduz através delas.

O lugar do goleiro é um terreno minado

             Foto: Divulgação  
fotoLev Yashin (1929-1990), da Rússia, o “aranha negra”, maior goleiro de todos os tempos.
“…A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro que 
joga na Seleção…”.

Como propunha Gilberto Gil no trecho citado na epígrafe, extraído da metafórica “Meio de campo”, canção do exílio (oh Gonçalves Dias) cuja letra/poema foi escrita na forma de uma carta ao inesquecível meia volante Afonsinho, nos idos dos anos 70 e refletindo sobre a “perfeição”, o lugar do goleiro é mesmo excepcional. Vale lembrar, ainda, que Afonsinho, foi o primeiro jogador a usar barba longa e rebelar-se contra a estrutura arcaica e autoritária do nosso futebol e a lutar pelo direito de trabalhar onde quisesse, ganhado o “passe livre” na Justiça.

Mas, entre todos os atletas que compõem uma equipe de futebol, somente ao goleiro é permitido o toque na bola com as mãos, como se a legitimar a prática desse esporte frente às demais modalidades esportivas praticadas com as mãos.

Todavia, a ação dos goleiros está restrita aos territórios da Pequena Área (onde é intocável) e da Grande Área, limite da sua atuação com as mãos. Na medida em que ultrapassa os limites dessas linhas, não mais lhe é permitido o toque na bola com as mãos, tornando-se idêntico aos demais, numa espécie de metamorfose por localização.

Os goleiros funcionam como os guardiães do reduto do gol. Primeira e última posição tocam-se (como extremos) na defesa da meta. Algo como a honra, a defesa da honra, é o que está colocado em jogo para o goleiro. Daí expressões como “caiu o véu da noiva”, entre tantas outras empregadas pelos locutores esportivos, a expressar o “desmascaramento” do lugar a ocultar, a proteger. Ao “arqueiro” cabe “fechar o gol”.

A codificação extremamente exigente, que rege os jogos de futebol, determina também a grande área como o espaço em que qualquer falta contra o adversário seja convertida em tiro livre (o pênalti), para o qual resta apenas a esperança de defesa pelo goleiro, num frente-a-frente irrecorrível.

Todo o campo – as quatro linhas em forma retangular, mais a linha divisória e seu grande círculo – tende a revelar-se como uma mandala, à medida em que o embate entre duas equipes é levado a efeito. O retângulo é uma forma inexistente na natureza. Diversas artes – como se costuma dizer também do futebol/arte – têm no retângulo a forma, o suporte, para sua realização, na pintura, no cinema, na fotografia.

A circularidade (o meio-de-campo, a meia-lua da grande área) e a face cabalística do número quatro (as quatro linhas que delimitam o campo), tendem a estabelecer uma relação com a origem do universo, pelo menos segundo a lógica dos místicos, mas a alquimia futebolística envolve a catarse coletiva de sentimentos que, em muitos casos, extrapola os interesses imediatos do que se desenrola no gramado.

No mais, é certo que a posição do goleiro, ali, no terreno minado “onde não nasce grama”, costuma ser aquela para a qual muita gente não gostaria de estar na pele, exceto os que, singularmente, nasceram com esta aptidão.  Por conta deles é que continua “nada fácil marcar um gol nessa partida, meu irmão”.

Futebol e revolução

Futebol, um jogo revolucionário

Albenísio Fonseca

O único delírio coletivo permitido no Brasil, além do Carnaval, é a conquista da Copa do Mundo. Espetáculo coletivo, o futebol torna-se ritualístico na medida em que identifica os espectadores com o drama que se desenrola em campo. Os jogadores são como personagens de teatro com os quais nos identificamos numa relação ritualística (espetacular) em que o campo se converte num grande teatro de arena. Visto de forma simbólica, emocional e arquetípica, o futebol é uma confrontação de opostos durante a qual inúmeras emoções são elaboradas, soltas, exercidas e domesticadas.

As origens do futebol perdem-se nos subterrâneos da História. Iniciado na Inglaterra, provavelmente a partir do harpastum, jogo de bola com as mãos trazido pelos romanos da Grécia, há também a hipótese de que tenha-se originado do costume primitivo de chutar a cabeça dos inimigos para comemorar vitórias. Existe ainda a informação do futebol jogado nas terças-feiras de Carnaval em Chester, cidade inglesa fundada pelos romanos.

É possível relacionar pelo menos quatro razões para afirmar o futebol como um jogo revolucionário. Por sua associação ao Carnaval, festa visceralmente ligada à liberação das emoções e instintos. Por ser jogado com os pés, numa contrapartida para com as atividades sociais organizadas e praticadas sob o controle das mãos. Por ser um esporte coletivo e, desse modo, contrariar os esportes individualistas das elites. E, ainda, por dirigir as emoções do povo para uma disputa que acaba bem, ao contrário dos torneios que terminavam com a morte de um dos contendores.

O futebol registra episódios surpreendentes, como o de uma guerra entre a Inglaterra e a Escócia, em 1297, acabar desmoralizada porque os soldados de Lancashire, tradicionais inimigos dos escoceses, desobedeceram a seus comandantes e preferirem disputar sua rivalidade no futebol, ao invés de guerrear.

A face revolucionária do futebol diante do padrão patriarcal acabou por gerar sua repressão legal na Inglaterra, por razões militares de Estado, a partir do século 14, e motivo de ampla legislação proibitiva até o século 16. Mas o esporte floresceria e se difundiria por todas as culturas pelas mais diversas vias. Ao nos identificarmos com os jogadores nesse ritual dramático, sentimos que eles realizam por nós proezas físicas e psíquicas, que nos gratificam profundamente. Se as proezas físicas são maravilhosas de ver, as psíquicas são partilhadas e usufruídas. A imprevisibilidade do jogo faz com que toda sorte de emoções surja entre os heróis e o gol (jogadores de futebol são heróis do povo e o goleador o maior deles).

A ação dramática transcorrida nos 90 minutos é um símbolo transfigurado do processo de luta pela vida para atingir nossas metas. Como o gol adversário (a meta) é defendido por um time igual ao nosso, para atingi-lo temos que nos defrontar com emoções intensas e atravessá-las pelo drible, pelo controle da bola, intuição, planejamento, ação conjunta,malícia, velocidade, tudo enfim que há de humano contra tudo humanamente igual.

O futebol lida com emoções da maior importância, como a agressividade, a competição, amizade, rivalidade, inveja, orgulho, depressão, humilhação, fingimento e traição, entre tantos outros. O exercício da ética no futebol é tão evoluído que trouxe até mesmo a codificação de não se marcar uma falta que beneficie o infrator. Também a regra do impedimento, que proíbe receber por trás da defesa, delimitando física, espacial e dramaticamente situações de lealdade no confronto direto, e de traição no atacar por trás.

As emoções elaboradas pelos jogadores correspondem, simultaneamente, às vividas pelos torcedores. Um time que se lança ao ataque ativa a coragem e a ambição do torcedor. As tentativas de invasão de área e realização do gol podem, de logo, ser invertidas num contra-ataque.

No mais, devemos acompanhar os jogos de campeonatos, várzeas ou nas Copas do Mundo, com um esforço de consciência para compreender seus símbolos e exercê-los, não só no âmbito das suas arenas, mas em todas as instâncias da política e da cultura.

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Albenísio Fonseca é jornalista

Sistema cicloviário

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A “magrela” é sete vezes mais eficiente que o automóvel


Albenísio Fonseca

Em meio à crise de mobilidade urbana gerada pelo excessivo número de automóveis, reduzida expansão de vias, insuficiência e má qualidade do transporte coletivo, e diante da exclusão de parcela significativa de pessoas de baixa renda, sem disponibilidade para pagar a tarifa de ônibus, é urgente a implantação de um sistema cicloviário em Salvador e macrorregião.

Governo e Prefeitura dispõem de projetos nesse sentido, mas não demonstram, ainda, a vontade política necessária para contemplar 47% da população que andam a pé, ou  (7%) de bicicleta, pelo menos meio quilômetro diariamente, conforme pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos.

A infraestrutura necessária à implantação de um sistema cicloviário é a que dispende menor custo, pelo poder público, em relação a qualquer outro sistema de transporte. Em tempos de economicidade, a bicicleta conta com fatores importantes como preço, baixa manutenção, consumo zero de combustível e nenhuma emissão de poluentes, além de possibilitar exercício físico com ganho para a saúde do usuário.

A “magrela” é sete vezes mais eficiente que o automóvel. Ou seja, a circulação de carros, por hora, numa faixa de tráfego, comporta 2 mil pessoas; por ônibus, 9 mil; enquanto de bicicletas permite 14 mil pessoas. Não há dúvida que a bicicleta representa uma solução fundamental para o transporte nas cidades. Seja por garantir o direito de ir e vir, seja por liberar a população carente da exclusão territorial e para práticas sócioespaciais ampliadas.

Iniciativas nesse sentido têm sido adotadas com êxito em diversas capitais brasileiras, e em inúmeras cidades em âmbito mundial, mas Salvador permanece na contramão desse processo. Com 2,8 milhões de habitantes, a cidade dispõe de cerca de 16 km  de ciclovias destinadas ao uso da bike, em caráter meramente de lazer. E apenas uma ciclofaixa inferior a um quilômetro de extensão. Aracaju, com 520 mil habitantes, tem 80 km; Curitiba, 120 km para uma população de 1,8 milhão. O Rio de Janeiro, 180 km, para 6 milhões de moradores. Mesmo com equívocos no traçado dos acessos, São Paulo inaugurou, esse ano, ciclovia com 14 km paralelos às linhas de trens metropolitanos.

Não se trata meramente de pintar ciclofaixas e ciclovias, mas de dotar o equipamento e seu usuário de um completo plano de mobilidade, com bicicletários e implantação de circuitos especiais, principais e secundários. O sistema requer logística específica e gestão (pública, privada ou mista) que envolvam campanhas de conscientização e proteção, além do estímulo à cadeia de produção e comercialização, incluídos serviços de manutenção e locação.

Há estimativa de 20 mil usuários e dezenas de grupos de passeios organizados, em Salvador, segundo a Associação de Bicicleteiros da Bahia. Para a associação, é preciso haver ciclovias em, no mínimo, três trechos da cidade: São Cristovão/Iguatemi, Iguatemi/Estação da Lapa e Calçada/Paripe.  Há, ainda, toda a área plana da Península Itapagipana.

O ciclista não é um obstáculo nas vias, faz parte do transito, está inserido na legislação. A ele não está conectado apenas o veículo em si, mas um conjunto de acessórios que envolvem equipamentos especiais das indústrias de calçados (tênis), viseiras, luvas, capacete, além de inúmeros adereços para turbinar a bike.

Circulando por ruas, avenidas, bairros e rodovias, mas sem contar com a educação para o transito e um planejamento cicloviário, estão expostos a acidentes na guerra insana do tráfego, com estatística crescente e proporcional à ampliação do número de usuários. Dados de 2008 apontam a ocorrência de 364 acidentes com 16 mortes.

A circulação de bicicletas, em condições de segurança e maior comodidade, para amplo contingente de trabalhadores, é importantíssima nas ligações intermodais.

A transversalidade de um sistema cicloviário demonstra inúmeras interfaces. Desde a mobilidade e inclusão territorial à ampliação do universo de utilização e dos calendários desportivo e turístico; estímulo ao empreendedorismo; melhorias na condição de saúde do cidadão; ampliação da consciência ecológica.

Tudo isso pode proporcionar, sem dúvida, o advento de uma radical renovação da cultura urbana. Frente à Copa e à Olimpíada, o que falta mesmo?

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Albenísio Fonseca é jornalista – albenisio@yahoo.com.br

A face subversiva da capoeira

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Mestre Bimba, com Getúlio Vargas, em 1932. O estado
reconhece a Capoeira como esporte
“genuinamente” brasileiro

A face subversiva da capoeira
Albenísio Fonseca

Abre a roda. Da história. Deixa o berimbau ecoar. Ícone por excelência da baianidade, a capoeira é o tema do Carnaval 2008, em Salvador. Ritual , dança, luta, malabarismo desenvolvido pelos negros africanos escravizados no Brasil, a capoeira revela, nas gingas do seu microcosmo, formas de resistência aos opressores, transmissão da cultura, melhora da moral subjugada, e distingui-se de outras lutas marciais pela presença da música a dar ritmo aos movimentos.

O termo “capoeira” é atribuído à vegetação rasteira que circundava engenhos de açúcar – habitat primordial do trabalho escravo. Seu lugar na história é registrado desde os séculos XVIII e XIX. No Rio, Recife e Salvador. Mas existe uma face subversiva da capoeira, a proibida e duramente reprimida.
Início do século XIX. Rio de Janeiro. Capital do Império. “Maltas de capoeiras” são acusadas de provocar inquietação e pavor na elite carioca. São constantes episódios de confrontos com a polícia. Mesmo sem ser considerada crime, pesava sobre a prática dos capoeiras a acusação de perturbação da ordem pública e porte de armas.
Os pedidos de criminalização surgem a partir de 1870. A “civilização” elabora a necessidade de extirpar a “barbárie”, isto é, a capoeiragem. Mas seria com a  República, através do Código Penal de 1890,  que ela é proibida. O capítulo 402 do novo código, “Dos vadios e capoeiras”, já explicitava o alvo da pena.
Sob a Monarquia, muitos foram presos e deportados para Fernando de Noronha ou Mato Grosso. Outros, recrutados para o serviço militar e lançados ao genocídio da Guerra do Paraguai (1865-70). A repressão, contudo, tendia a animar a indisciplina fundamental do guerreiro, o questionamento da hierarquia, a insurgência contra o poder.
 Capaz de suportar a pressão da violência do Estado durante décadas, a capoeira sobreviveria ao pesado investimento em dispositivos para aniquilar sua prática, durante o século XIX. Contava com aliados subterrâneos, apoios ocultos, como as casas de zungus – empreendidas por africanos libertos, e que desestabilizavam as relações de dominação durante a escravidão – lugares de acolhida e passagem, pontos de fuga para quilombos rurais.

A trégua entre os capoeiras e o Estado viria na década de 1930, com sua institucionalização como esporte nacional no governo Getúlio Vargas.  Em 1932, os capoeiras começam a tornarem-se capoeiristas. Mestre Bimba funda a primeira academia de capoeira, em Salvador. Acrescenta movimentos de artes marciais, cria a capoeira Regional. Mestre Pastinha, em contraponto, prega a tradição da capoeira como jogo matreiro, de disfarce e ludibriação, estilo que denominaria Angola. A capoeira deixava de ser marginalizada, se espalha da Bahia para todos os estados brasileiros, e hoje, praticada em 100 países, dá a volta ao mundo. Em 2008, Salvador abrigará uma Bienal da Capoeira e a arte será tombada como patrimônio cultural brasileiro. Abre a roda. Deixa o berimbau ecoar.

Tema do Carnaval

A capoeira foi escolhida pelo público como tema para o Carnaval 2008, em votação através da internet. Obteve 56,3% dos votos de 96.531 internautas que acessaram a página  www.carnaval.salvador.ba.gov.br . Ficou à frente dos dois outros temas sugeridos – a Revolta dos Búzios (43,4%) e a Chegada da Corte Portuguesa no Brasil (0,2%).
 
Edital, Bienal e Tombamento
O Ministério da Cultura (Minc) lançou, dia 10 de outubro, em Salvador, o novo edital do programa Capoeira Viva, que distribuirá um total de R$1,2 milhão a projetos de todo o Brasil que tenham como vértice a mistura de luta, dança e rito trazida ao Brasil pelos negros escravos, no final do século XVIII.
Realizada no Palácio Rio Branco, a solenidade homenageou o mestre capoeirista mais antigo ainda vivo, João Pequeno. Ele completa 90 anos em 27 dezembro. O ministro interino Juca Ferreira anunciou ainda que Salvador sediará, em 2008, a Bienal Mundial da Capoeira, que se converterá, também, em palco da festa de tombamento da arte como patrimônio cultural brasileiro.
O Minc premiará projetos ligados à Capoeira em quatro linhas: ações sócio-educativas de mestres capoeiristas com foco na recuperação da auto-estima, que podem receber de R$8 mil a R$18 mil cada um; projetos inéditos de pesquisa e documentação sobre o desenvolvimento da capoeira no Brasil e exterior, no valor máximo de R$20 mil; apoio a acervos documentais, cujo aporte chegará até R$50 mil; projetos de utilização de mídias e suportes digitais, eletrônicos e audiovisuais, que podem receber até R$30 mil.

Segundo o presidente da Fundação Gregório Matos, Paulo Costa Lima, “este projeto faz parte do intento do Minc em transformar a capoeira como instrumento de políticas públicas”. O órgão coordenará o processo do edital. As inscrições estão abertas até 17 de dezembro. O resultado da seleção sai em fevereiro. O valor destinado nesta edição é 29% superior ao anterior, quando foram premiados 74 projetos.
 
Trechos de Lutas“Quando faziam uma qualquer marcha, que é um partido ir de encontro a outro para brigar, procedia-se sempre a um aviso à casa contrária, afim de que reunisse o bando. Na ocasião da ”pegada” (briga), era costume cantarem versos em uma toada sertaneja…
Manuel Preto foi um capoeira temível, chefe do bando de Santana. Os capoeiras que na ocasião da pegada fugiam por cobardia eram navalhados pelos próprios companheiros.
A notícia da saída de uma banda de música corre com rapidez de relâmpago entre os bandos de capoeiras. Desde logo, começam a reunir-se nas fortalezas à espera da hora em que devem tomar a frente do batalhão ou sociedade, e ali combinam o que devem fazer. Quase sempre a miuçalha é incumbida de levar as navalhas e mais armas…
Quando, por exemplo, a banda de música sai do centro da cidade, isto é, da terra dos guaiamus, e dirige-se para os lados da Lapa, ou Cidade Nova, os capoeiras que pertencem àqueles partidos acompanham o batalhão, prevenidos para o encontro com os nagoas, visto irem em terra alheia.
Estes já os esperam e, chegada a música ao local onde se acham, sai o carrapeta (pequeno, esperto e atrevido) de entre os companheiros com direção aos guaiamus e brada.
– É a Lapa !… é a Espada! Quando é daquela província.
– É a Senhora da Cadeira!… Quando é de Santana.
– É o Velho Carpinteiro… Quando é de São José. E assim por diante.
Então trava-se a luta.
…Houve festa na igreja de Santa Rita. Os nagoas “arrebentaram” por volta de uma hora da tarde naquele foco de guaiamus; estes os receberam na ponta da faca e destacando-se de entre eles Jorge, chefe da Marinha, agarrou um nagoa pelos cabelos e cravou-lhe por três vezes a faca no coração, deixando-o cair na calçada todo ensangüentado e de bruços”.(ABREU, Plácido de. Os capoeiras. Rio de Janeiro: Tip. da Escola Seraphim Alves de Brito, 1886. In: SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Op. cit.)

“Passava pouco das sete horas da noite de domingo, 8 de março de 1874, quando uma malta de capoeiras, composta de ‘crioulos, mulatos e brancos’ atravessava a rua da Lapa, vinda dos lados da Glória. Na frente da malta vinha o preto Oscar, escravo do Dr. Taylor, morador na Rua da Lapa 88… Entre outros se destacava no grupo o menor Isaías, escravo de Maria Taylor, filha do mesmo Dr. Taylor, copeiro, nascido na província do Rio, e Henrique, africano, com cerca de quarenta anos, cozinheiro…
A malta atravessou o largo da Lapa, onde ficou Isaías, na confeitaria do largo. Em seguida, o grupo atravessou a rua dos Barbonos, atual Evaristo da Veiga, subiu a rua da Ajuda, passou pelo largo da Carioca, e adentrou o território guaiamu, ao chegar à rua dos Ourives, em frente à igreja de Nossa Senhora do Bom Parto.
Uma malta contrária ali se colocara. Na esquina da rua São José, uma grande taverna seria palco do encontro. Em pouco tempo os dois grupos, tendo de uma lado as maltas da Marinha (região do cais Pharoux) e Santa Rita, e do outro a malta da Glória, se digladiavam, jogando cacos de garrafas uns nos outros. O conflito transbordou para a rua em frente, alarmando moradores e autoridades da área.
…Em minutos o som dos apitos era ouvido por toda a redondeza, mas tardou para surgir alguma autoridade policial. Quando começaram a aparecer policiais, os dois grupos se dispersaram. Enquanto a malta da Glória seguiu pela rua da Assembléia, os “partidos” de Santa Rita e Marinha foram em direção à rua dos Ourives, no sentido da Candelária.
Neste momento, um dos assistentes da cena da pancadaria, Nemésio Ferreira da Costa, da janela do Salão dos Acadêmicos, na rua São José, veio à rua para apitar, perseguindo um integrante do bando de Santa Rita, chamado Zeferino… Na esquina de Ourives com Assembléia, este desafiou o outro com o grito tradicional – entra! – e foi surpreendido com o gesto de prisão de Nemésio. De acordo com a testemunha, ele não resistiu a prisão.
Mas o desfecho do conflito já estava consumado. Oscar, chefe da malta da Glória, estava morto, vítima de uma perfuração no pulmão esquerdo. Quanto a Henrique, o africano de César Farani, acabou vítima de uma punhalada no estômago, dada pelo capoeira conhecido como Coruja, vendedor de pescados na praia do Peixe, reduto do lendário Manduca da Praia. Do lado dos guaiamus também houve baixas: ficou ferido no braço direito Raimundo, preto, escravo de…” (RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1987, p. 80. (Coleção Biblioteca Carioca v. 4). In: SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Op. cit.)

Albenísio Fonseca é jornalista
albenisio@yahoo.com.br

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