ATÉ QUANDO AS MAZELAS POLÍTICAS VÃO SE SOBREPOR ÀS NARRATIVAS CULTURAIS NO BRASIL?

                                                                                                              Arte: Oswaldo Guayasamínoswaldo guayasamin - Cerca con Google

Albenísio Fonseca

Desde que entendida por gente, a sociedade brasileira convive de modo “natural” com extremos de desigualdades social e econômica a compor (com todos os seus artifícios) abismos intransponíveis entre os cidadãos em camuflada luta de classes. O mais emblemático dos sintomas a recordar é termos sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão. E não se pode deixar de recordar em quais condições ocorreu a dizimação genocida de indígenas, também submetidos à exploração, além da mão de obra de negros e negras importados da África, em que pese a abolição após mais de 300 anos. Deixados ao léu.

Desde o osso do eixo da história brasileira, constata-se o sentimento antipopular das elites, somados os altos comandos militares e as velhas camadas de oligarquias provenientes da classe média. Sim, vem desde o período colonial e com esse mesmo espírito chegaram ao século XXI. Sem temer o excesso, pode-se afirmar que a indisposição para a solidariedade só piorou diante do avanço do individualismo, onde a cultura da indiferença é regra e, por que não enfatizar, ninguém se sente verdadeiramente responsável por nada. Tendemos a transferir para outros a solução de nossos problemas; no caso do governo, contra o desejo de que haja como um Mecenas a nos bancar a sopa e a cuia, o revés do desmonte de estruturas, a exemplo da Ancine, do Inpe, universidades federais e a própria Ciência, emparedadas nessa nova órbita de presumida ordem da danação ambiental.

Em meio à controversa conjuntura de “bolsominions robotizados”, ao vencer eleições de modo controverso, dado o uso de manipuladoras fake news e “facadas emocionais”, ao assumir as rédeas da sociedade o bolsonarismo revela, nitidamente – como já delineado no golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2015 – o propósito de recapturar o Estado para recolocá-lo ao seu serviço, no berço esplêndido de recompensas e malversações, como visto, aliás, a saltar aos olhos.

Mesmo com o golpe militar que levou à proclamação da República, também motivada por notícias falsas, o Brasil continuou a ter um sistema político regido por uma elite econômica. As restrições à participação eleitoral, até a Revolução de 1930, mostram que o “direito ao voto” alcançava não mais que percentuais pífios de “homens de bem”, algo entre 2% e 5% da população. Após a restauração da democracia, contra o Estado Novo, em 1945, a proporção subiu, mas permaneceria em cerca de 15%, já computados os votos do eleitorado feminino. O cenário sobre o qual se consolidaria o golpe de 1964 era composto por apenas um terço da população adulta com representação política ou, diga-se, dois terços sem nenhuma representatividade.

Por todo o século XX, a normalidade democrática no país foi exceção. A sociedade brasileira foi submetida a duas longas ditaduras e sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado, considerando os bem e os malsucedidos. Oficiais das Três Armas não titubearam em deixar os quartéis para derrubar governos eleitos ou impedir a posse do vencedor, movidos por apelos de civis inconformados com a democracia, como revisto nos últimos anos. Não é difícil concluir, portanto, o quanto o golpismo está inscrito nos genes da cultura política brasileira.

Aqui, a tendência antidemocrática é alimentada, sobretudo, pela aversão à presença do povo no centro da vida política nacional. Continuamos no limite tênue dos quadrados da Casa Grande e da Senzala, oh Gilberto Freire. Uma das características mais destacáveis na elite e legitimada pela classe média é o culto à excepcionalidade, ou pretensa meritocracia, a exigir líderes “notáveis” e a excluir o cidadão comum como inapto para ocupar “cargos elevados”, em particular a Presidência da República. Lula da Silva é o mais reconhecido exemplo e – diante do clamor público e de extenso âmbito internacional pela libertação do ex-presidente – frente a arguida demonstração de imparcial julgamento pelo juiz Sergio Moro, surpreendentemente desmascarado pela revelação de conluio com procuradores da Operação Lava-jato, através denúncias pelo The Intercept/Brasil e outros veículos de imprensa, após ação de hackers.

Se, afinal, é sutilmente visível o quanto nossos problemas envolvem graves e históricas desigualdades social e econômica, diria mesmo, como um paradoxo, que tal crise  é cultural antes de ser política, cabe perguntar até quando as mazelas políticas vão se sobrepor às narrativas culturais no Brasil de tanta e fascinante diversidade? Sim, mas, do mesmo modo, até quando a cultura, notadamente a produzida pela mídia, servirá apenas como artifício de sedução a embalar o sono da pachorrenta rotina? Até porque sabemos o quanto a Arte, como instrumento recorrível, é subversiva por nos tirar do imobilismo. O poder é coletivo e a Cultura – revolucionária como ente de agitação social – requer mobilização contra a passividade que serve sempre e apenas àqueles que defendem a perpetuação do status quo.

Precisaremos considerar nossas escolhas para a travessia dessa conjuntura pela substituição de mandatários como um exercício de identificação com propostas que prometam mais do que o emprego, mais que a subsistência, a qualidade de vida. E hoje, mais do que nunca, de modo constante, necessitamos cobrar a dívida cultural e civilizatória, contra a tendência governamental, não enquanto meros consumidores prostrados à frente da vitrine de desejos, mas sob intransferível rebeldia cidadã. Desse modo, tendo como objetivo ser anunciadores de um futuro digno para novas gerações, acreditar que a Cultura, superando o divórcio não pactuado – quiçá possa se reconciliar com os propósitos maiores da política e vice-versa.#

Sob a lógica do salve-se quem puder

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Albenísio Fonseca

 

No pós 2ª Guerra Mundial, surgiram na América Latina teorias que se propunham a analisar a economia local e sua relação com o resto do mundo. Até a década dos 60, intelectuais brasileiros, reunidos em entidades como Iseb, Cepal e na USP, divergiam nos conceitos que fundamentavam as teses de desenvolvimento para a região. A Teoria da Dependência tornou-se uma das mais emblemáticas.

O arcabouço teórico buscava entender a reprodução do capitalismo na periferia do sistema e concluía que a economia dos países periféricos era condicionada pela expansão dos ditos de centro. Defendia a industrialização para o avanço dos subdesenvolvidos, no afã de um desenvolvimento autóctone, divergindo quanto à existência de uma elite formada por industriais vinculados ao capital internacional.

Da busca de nova ordem mundial com o Brics, bloco composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, reverte-se em adesão submissa à política estadunidense, como demonstra a tendência do governo eleito em 2018.

Nos anos 40, dos 51 países que criaram a ONU, 20 eram da latino-américa. Hoje, quando a composição alcança 193 membros, vê-se a região perder relevância como bloco e não só político, mas econômico. Conforme a Cepal, a participação regional nas exportações, em 1955, era de 12%. Em 2016, caiu a 6%.

Segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, a solicitação de patentes, provenientes da América Latina, em 2006, era de 3% e se reduziria a 2%, em 2016. Na Ásia, chegara a 49,7% e aumentaria para 64,6%.

O investimento na pesquisa, em porcentagem do PIB, na região, diz o Banco Mundial, chegava a 0,6%, em 2000, e passa a 0,7%, em 2014. Na Ásia, de 2,25% passaria a 2,49%. No que tange ao poderio militar, dispara a Global FirePower, Brasil, México e Argentina, ocupavam, em 2006, as posições de 8º, 19º e 33º. Em 2018, o Brasil está em 14º, México em 32º e Argentina em 37º.

Com a China forçando a primarização das economias e após a “maré rosada” dos governos de centro-esquerda, assistimos ao retrocesso dos governos de direita, com desinteresse por ações coletivas, optando por saídas unilaterais, sob uma administração em Washington disposta a recuperar a dependência regional, em meio ao apogeu do rentismo no âmbito global, em detrimento do investimento produtivo e da distribuição de renda.

Frente ao estancamento das ações regionais de integração – Mercosul, Comunidade Andina de Nações, Aliança do Pacífico, Alba, Celac e Unasul – instaura-se a lógica do “salve-se quem puder”. As desintegrações conduzem os latinos à acentuada dependência externa, seja do poder declinante dos Estados Unidos, seja do auge da China, enquanto seguimos sob acelerada irrelevância, e sem tréguas, na política mundial.

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albenisio@yahoo.com.br

À deriva, Forte de São Marcelo será privatizado

O forte de São Marcelo está fechado a visitações há sete anos e reformas continuam pendentes

Albenísio Fonseca

Signo bélico e exótico, o Forte de São Marcelo, na Baía de Todos os Santos, permanece à deriva. O acesso a visitas continua impossibilitado há mais de sete anos, em decorrência da ausência de manutenção. Após a reforma na estrutura submersa, ou roca, o Iphan-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na Bahia, deu por concluída a obra em novembro de 2016, inclusive com festa e anúncio da transferência do equipamento à gestão da Prefeitura, após o restauro que durou dois anos e custou R$ 7,5 milhões.
Acreditou-se até que, finalmente, o equipamento histórico, arquitetônico e turístico, um dos mais emblemáticos cartões postais da cidade, fosse deixar de estar, senão invisibilizado, inacessível ao público. 
Mas a verdade é que isso não aconteceu até o momento. De acordo com o secretário Municipal de Cultura, Cláudio Tinôco, “ainda faltam proceder as reformas hidráulica e elétrica, estimada em R$ 10 milhões, além de outros acabamentos para que possa entrar em atividade”.
De todo modo, ainda segundo Tinôco, “mesmo sem ter assumido a gestão do equipamento, a Secult vem procedendo estudos de alternativas para sua ocupação”. Ele ressalta a necessidade de garantias para o deslocamento de visitantes, apesar da distância de apenas 300 metros para o cais e adoção de critérios de viabilidade econômica que possibilitem a auto sustentabilidade do forte – único em formato circular das Américas.
Ressalte-se que o Memorial do Frontispício, que também passou por obra de restauro a cargo do Iphan, por meio do PAC Cidades Históricas, foi entregue depois do Forte São Marcelo e já está aberto à população, após ser transformado em tempo-relâmpago na Casa do Carnaval.
Cláudio Tinôco adianta já existir uma empresa interessada em gerir o espaço, “de forma direta”, o que compreenderá a privatização ou terceirização do patrimônio junto à iniciativa privada, embora ainda não esteja definido se, para isso, a Prefeitura lançará ou não edital de concorrência pública. 
O secretário avalia como “muito ruim” o fato do forte permanecer fechado, “tanto para a cidade como para a Baía de Todos os Santos”. Ele destacou as “simbologias arquitetônica, histórica e o caráter bélico do São Marcelo, como das demais fortificações existentes na faixa litorânea do município, como responsáveis pelo status de cidade-fortaleza que durante séculos caracterizou Salvador”. Assinalou, também, a localização estratégica, na entrada do porto, e a proximidade com outros equipamentos turísticos como o Elevador Lacerda, a Fonte de Mário Cravo, Mercado Modelo e o Terminal Náutico.

Estudos buscam alternativas
de uso do equipamento 

Imagem relacionadaEspaço poderá voltar a dispor de restaurante

Uma das hipóteses cogitadas pela Prefeitura é a de instalar ali o Memorial da Baía, diz Tinôco, “de modo que permita contar a história dos inúmeros naufrágios ocorridos nas águas da Baía de Todos os Santos, os sistemas de transporte já adotados para o transporte de pessoas e mercadorias junto aos 18 municípios do entorno, além da disposição de restaurante e espaço para contemplação da capital naquele trecho”. Entre outras alternativas, há propostas como base para turismo subaquático; ponto de percurso turístico com instalação de barracas para comercialização de souvenirs, além da realização de eventos, como já contemplado naquele espaço.
A iniciativa de revitalizar o São Marcelo navega com dificuldade junto às da implantação do Museu da Música (no casarão dos azulejos azuis), integrado ao do novo prédio para o Arquivo Público Municipal (no outro casarão em ruínas ao lado). As obras estão estipuladas em R$ 40 milhões, além da requalificação da Praça Cayru, orçada em R$ 7,5 milhões, com recursos do Ministério das Cidades e do PAC-Cidades Históricas. O lançamento da licitação para as restaurações arquitetônica e viabilização do acervo museológico do Museu da Cidade, conforme o secretário, estava prevista para janeiro de 2018. Agora, a municipalidade acena com entrega dos equipamentos, mesmo sem qualquer iniciativa para deflagração de obras, em 2020. 

Transporte coletivo em Salvador: Do bonde ao trólebus, da marinete ao metrô.

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Salvador com serviço de transporte por bondes elétricos no final do século XIX 

Bondes permaneceram preferidos frente aos ônibus até meados do século XX

Sob tração animal, Gondolas inauguram o sistema de transporte coletivo em Salvador

Albenísio Fonseca

A história do transporte urbano que atravessa Salvador começa em meados de 1845, há 173 anos. Uma lei municipal concedia o privilégio de se estabelecer companhias de ônibus ou gôndolas (espécie de diligências, como vemos nos filmes de bang-bang, porém maiores e puxadas por quatro animais). Sobre um dos animais ia sempre o cocheiro. O preço da passagem era de uma pataca ou 320 réis. As cadeiras de arruá – que conduzia os aristocratas no período colonial, até podem ser arroladas na história dos sistemas de transporte, mas sem as características de condução em massa.

Os antigos guindastes, criados pelos jesuítas, que faziam o transporte de cargas e mercadorias, também no período colonial, foram transformados em planos inclinados e passaram a transportar passageiros – como o Guindaste dos Padres, transformado no Plano Inclinado Gonçalves. Somente seis anos depois de aberto a concessões, já em 1851, teria início o serviço regular de bondes com duas linhas: uma da Cidade Alta até a Barra e outra, das Pedreiras até o Bonfim.

Em 1864 foram criadas novas linhas sobre trilhos e aprovadas concessões para os serviços de passageiros entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, mas o primeiro bonde movido a energia elétrica somente viria a ser lançado em 1897. Vale destacar o quanto a cidade já era servida pelo transporte vertical, com os planos inclinados, fundamentais para a criação de um sistema moderno, numa rede de transportes urbanos integrada com os novos bondes, vez que as antigas ladeiras eram tidas como “resquícios antiquados da labiríntica cidade colonial”.
Imagem incorporadaElevador do Taboão, conhecido por “Balança”, também segue abandonado
 

Um elevador incrustado na rocha

As concessões foram transferidas, logo em seguida, para o negociante Antônio Francisco de Lacerda. Ele fez mais que explorar tal sistema. Decidiu implantar um elevador ligando as duas partes da cidade. Para tanto, importou material da Inglaterra e montou os elevadores, que funcionariam através de sistema hidráulico, cuja inauguração ocorreria em dezembro de 1873. É claro, em meio a uma grande festa popular – não esqueça que estamos em Salvador.

O Elevador Hidráulico da Conceição, conhecido popularmente como “Parafuso”, por ter sido construído “incrustrado” na rocha, seria o primeiro elevador da cidade e, para alguns, pioneiro em todo o mundo, consolidando-se em marco técnico desta rede de transportes e símbolo do processo de modernização urbana. O Elevador do Taboão, denominado de “Balança”, além de passageiros, transportava cargas e seria construído em ferro 23 anos depois, mas permanece desativado há décadas.

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Elevador Lacerda era conhecido por “Parafuso” e o Guindaste dos Padres, transformado em plano inclinado

Revolução Industrial e eletricidade alteraram
os sistemas de transportes no mundo

O aparecimento do transporte público de modo quase simultâneo em várias cidades do mundo decorreu da revolução Industrial. A produção de bens, até então feita de forma artesanal ou semiartesanal, nas próprias casas dos trabalhadores e com ferramentas rudimentares, passou a ser realizada com a ajuda de máquinas e ferramentas especiais que ficavam nas fábricas, obrigando os operários a se deslocarem diariamente de suas casas para o novo ambiente de trabalho.

Com o advento da eletricidade, o mundo mudaria ainda mais, proporcionando enorme propulsão ao desenvolvimento do transporte coletivo. Em 1897, Salvador seria contemplada com a revolução energética, possibilitando a substituição da tração animal pela eletrificação nos bondes, quando foi inaugurada, também festivamente, a primeira linha de bondes elétricos, explorada pela Companhia de Veículos Econômicos, ligando a região do Comércio a Itapagipe. É importante salientar que Salvador foi a segunda cidade do país a dispor do sistema eletrificado. Até então, o serviço fora adotado apenas no Rio de Janeiro, então capital federal.

O Elevador Lacerda também sofreria mudanças em seu mecanismo hidráulico, substituído por um elétrico em 1908. Após a inauguração do serviço elétrico na Cidade Baixa, a Cia. Linha Circular foi autorizada a utilizar o mesmo sistema na Cidade Alta. A partir daí, o traçado dessas linhas passou a determinar o direcionamento da expansão urbana na primeira capital do país. Em 1910, Salvador contava com considerável quantidade de linhas eletrificadas que atendiam às partes Alta e Baixa da cidade. Em 1911, surge o bonde-salão, um veículo de luxo para recepções a altas autoridades em visita à cidade, casamentos, batizados e solenidades diversas. Surgiram, também, os carros fúnebres e o bonde-assistência, utilizado para o transporte de doentes.

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Quebra-bondes, em 1930, resultou na queima de 87 bondes por populares 

1912 e 1930 são anos marcantes na história da capital

Ano marcado pelo bombardeio da cidade por ordem do presidente Hermes da Fonseca em decorrência da competição pela sucessão no Governo do Estado entre Rui Barbosa e J.J. Seabra – em 1912 tem início, ainda que de modo precário, a operação dos ônibus em Salvador. O bonde, todavia, permanecia como a melhor alternativa de transporte. Porém, as companhias que operavam o modal dependiam da importação de materiais e componentes e sofreriam grande abalo no período da I Guerra Mundial, de 1914 a 1918, o que acarretou considerável queda nos serviços e fortes críticas da imprensa. Em Salvador, as intervenções urbanas promovidas por J.J. Seabra, visavam “apagar os rastros da cidade escravocrata”, promover uma “higienização”, torná-la em uma pretensa urbis moderna.

Dois fatos são extremamente marcantes em 1930: a reforma do Elevador Lacerda que impingiria sua atual forma monumental – com uma nova torre externa em concreto, traços verticais art déco e duas novas cabines mais rápidas, ligada por uma ponte de acesso em aço sobre a Ladeira da Montanha e o “quebra-bonde”, promovido por usuários e populares em protesto contra os maus serviços e reajuste na tarifa. Durante dois dias, tocam fogo em cerca de 87 bondes em diversos locais da cidade. A empresa acionaria o governo pelos prejuízos e, mesmo obtendo ganho da causa não coloca mais bondes em serviço. Com isso, durante bastante tempo Salvador foi uma das cidades mais mal servidas de transportes urbanos do Brasil.

O futurismo do elevador Lacerda e as marinetes

O arquiteto e urbanista Paulo Ormindo de Azevedo, em seu parecer como membro do conselho consultivo do patrimônio histórico e artístico nacional do IPHAN, que tomba o elevador Lacerda como patrimônio nacional em 2006, enfatizaria: “O novo elevador Lacerda parece inspirado no Movimento Futurista, que buscava uma estética da máquina e da velocidade. A visita do poeta italiano Marinetti ao Brasil, exatamente em 1927, provocou um grande reboliço no Sul e em especial no Nordeste, onde os recém-lançados ônibus passaram a ser conhecidos como marinetes. O tratamento art déco dado à torre, inspirado nos princípios aerodinâmicos dos aviões, expressa bem a velocidade do elevador que fazia o percurso de 60 metros em apenas 17 segundos”.

Necessário lembrar que o primeiro manifesto futurista, o Manifesto del Futurismo, foi publicado em 1909 no tradicional jornal francês Le Figaro. O texto ressalta a velocidade, a juventude e o futuro: “Nós afirmamos que a magnificência do mundo enriqueceu-se de uma beleza nova: a beleza da velocidade. […] O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já estamos vivendo o absoluto, pois já criamos a eterna velocidade onipresente. […] nós não queremos mais nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas. […] Olhem para nós! Ainda não estamos extenuados! Nossos corações não sentem cansaço algum, porque se alimentaram de fogo, ódio e velocidade!…”

Imagem incorporadaCerca de 600 ônibus foram depredados contra reajuste na tarifa

Novo quebra-quebra danifica 600 ônibus e tem 10 incendiados

Somente em 1955, 25 anos após a crise de 1930, a Prefeitura baixaria decreto considerando “em crise” os serviços de transporte urbano. Seis anos depois, já em 1961, os bondes começam a entrar em extinção, sendo paulatinamente substituídos pelos ônibus. Em 1957 é inaugurado o serviço de trólebus – ou ônibus elétricos – na Cidade Baixa, em tentativa de substituição aos bondes, mas, já nessa época, a participação da iniciativa privada através de lotações e ônibus se fazia fortemente presente no atendimento à demanda de passageiros.

A expansão do sistema de transporte coletivo por ônibus se expandiria nos anos seguintes, mas a regulamentação do serviço de transporte coletivo só viria a ocorrer em 1971 e, somente a partir daí se desenvolveriam estudos, planos e projetos de transporte para a cidade. Em 1981 é iniciada a construção da Estação da Lapa. Em agosto daquele ano, a exemplo do ocorrido em 1930 com os bondes, também por conta de reajuste na tarifa, acontece o “quebra-quebra” de ônibus em Salvador, deixando um saldo de três mortos, dezenas de feridos, 600 ônibus danificados e 10 incendiados.

Como reflexo da reação popular, em novembro é criada a STU-Secretaria de Transportes Urbanos e estabelecida uma tarifa única para o serviço de ônibus. Em 1984 é implantado o sistema tronco-alimentador de integração fechada no Terminal EVA que, dois anos depois, em 1986, é substituído pela centralização com a Estação Nova Esperança. Também neste ano é lançado o projeto Bonde Moderno que teve algumas estruturas iniciadas, mas não chegaria a ser concluído.  Ainda assim, já entre 1989 e 1992, adota tráfego exclusivo por vias como Bonocô/Vasco da Gama, viadutos Posto São Jorge, Raul Seixas e Chico mendes e erguidas as primeiras passarelas de acesso ao sistema nas avenidas Bonocô e Vasco da Gama, entre outras.

Adoção da tecnologia dos cartões inteligentes

Rumo ao final do século, em 1992, o sistema de transporte por ônibus passa por intensa renovação da frota, com as empresas adquirindo novos e modernos veículos, inclusive os “duplicados” e os com ar-condicionado que ganham o apelido de “frescões”. Em 1995 é construída a Estação Pirajá e reformulado o sistema tronco-alimentador na região das Cajazeiras, por onde a cidade se expandia. Um ano depois é implantado o processo de bilhetagem eletrônica, com a adoção da tecnologia do cartão inteligente, ou Smart Card. Inicialmente era destinado aos estudantes que ganham o direito à meia-passagem; aos beneficiados pela gratuidade no transporte e, já no século 21, entraria em operação o vale-transporte.

A exemplo do ocorrido no final dos anos 60, quando a cidade passou a ser servida por kombis para o transporte coletivo, em 1998 é implantado o subsistema de transporte complementar operado por vans. Em 1999 é realizada a concorrência pública para a construção do metrô de Salvador que, após controvérsias judiciais e inúmeras paralisações nas obras, teria sua primeira etapa inaugurada em 2014. Evidentemente, a expansão do serviço de transporte por ônibus deve-se ao aumento da demanda e, ainda, à sua maleabilidade operacional, com melhor adaptação às grandes transformações ocorridas nas cidades brasileiras e, especialmente, em Salvador. Mas é certo que a alimentação por combustível derivado do petróleo vem relegando o modal à condição de um sistema ultrapassado, como se pode constatar na tentativa da Municipalidade em construir um BRT (sistema de ônibus rápidos), com grave impacto ambiental,  a cidade segue de metrô enquanto aguarda o VLT-Veículo Leve sobre Trilhos.
Resultado de imagem para metrô de salvadorMetrô, inaugurado após muitas interrupções e denúncias nas obras

 

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Biblioteca Pública da Bahia faz 207 anos

ALBENÍSIO FONSECA

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                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 207 anos neste domingo, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Em meio a grave crise de manutenção, nenhuma atividade está programada para marcar a data.
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

178 ANOS DEPOIS Para que serve e para onde vai a arte da fotografia

Está cumprido o vaticínio do pintor belga Antoiene Wiertz no início dos anos 40 do século 19: “Tem pouco tempo de idade a glória de nossa época, uma máquina que dia a dia nos surpreende. Dentro de um século ela será o pincel, a paleta e as cores, a habilidade, a experiência, a paciência, a agilidade, a precisão, o verniz, o esboço e a arte final. Quando este bebê gigante crescer, quando todo o seu poder e sua arte estiverem desenvolvidos, o gênio vai aparecer de repente, agarrá-lo pelo colarinho e dizer: Ouça bem, de hoje em diante você me pertence. Vamos trabalhar juntos”.


Albenísio Fonseca

A câmera fotográfica – como se diria de um artefato selvagem que aponta e dispara – completa 178 anos de inventada em 2017. O dia oficial de nascimento da fotografia – e que assinala a data comemorativa, em âmbito mundial – é 19 de agosto de 1839. Naquele dia o primeiro daguerrótipo foi apresentado à Academia de Ciências de Paris. Louis Jacques Mandé Daguerre, que o patenteou, lançou mão das pesquisas de muitos que o antecederam, inclusive as de Joseph Nicephore Niépce, seu sócio, que morreria pouco antes do projeto estar inteiramente pronto.


O princípio da câmera escura

O princípio da câmera escura, por exemplo, já era conhecido há séculos, usado por desenhistas e astrônomos, entre os quais o multiartista Leonardo da Vinci. Considerando a ambiência histórica, vale registrar também a contraposição à fotografia levada a efeito pelo poeta francês Charles Baudelaire: “Se se permitir que ela tome lugar ao lado da arte, logo irá suplantá-la e corrompe-la pela aliança natural que fará com a burrice das massas. É preciso que ela volte para o seu verdadeiro lugar que é o da mais humilde serva das ciências e das artes”, reagiria.

Nos próximos dias 20 e 21 de setembro, no Palacete das Artes, na Graça, em iniciativa conjunta da Escola de Belas Artes e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, acontece a exposição das fotos vencedoras, palestras e debates que marcarão o I Colóquio de Fotografia Pierre Verger. Como diagnostica a iniciativa o professor de Filosofia Antônio Saja, “vivemos em um entreato, numa intermitência histórica. Num período de rupturas estéticas, de quebra de paradigmas, de abandono de referenciais prévios. Estamos em uma época de mudança e numa mudança de época”.

Um evento para além da imagem

Afinal, conforme o professor José Mamede, da Escola de Belas Artes da UFBA, “como compreender a fotografia neste contexto de incertezas? De uma prática solidamente legitimada no território da Comunicação, a fotografia expandiu-se pelos universos da Arte e da Cultura”, contextualiza. O I Colóquio é definido, também por Mamede, como uma “ação que visa interrogar a imagem fotográfica da perspectiva dos seus usos sociais, artísticos e culturais”.

— Que Fotografia é essa que hoje se propaga por redes sociais, festivais, feiras, museus, galerias, editais e prêmios? Quais gêneros de trabalhos fotográficos estão sendo selecionados para Festivais de Fotografia e Bienais de Arte? E nos editais, as políticas públicas estão legitimando que tipo de foto? Tais questões estarão no centro do I Colóquio de Fotografia da Bahia.

Vale ressaltar, ainda, o quanto os aparelhos celulares absorveram a tecnologia das câmeras fotográficas digitais e, mesmo inferiores em termos de resolução, praticamente as levaram à obsolescência. O certo é que, 178 anos depois, a presença das fotos e vídeos (com áudio), em formato digital, invadiu nossas vidas e consolidou, em grande parte, a instauração da civilização da imagem.

Desde o advento do celular e sua popularização nas duas últimas décadas do século 20, e já em plena era do selfie, do narcisismo inescapável a um click, ou dos efeitos photoshop de que nos tornamos ardilosos produtores de imagens, a humanidade orbita, agora, seu olhar telescópico, com o Humbble, universo adentro.

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Albenisio Fonseca é jornalista

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A robotização do cotidiano

Foto: Divulgação
Interagimos muito mais com robôs e bem menos com humanos 

 

Albenísio Fonseca

Passamos a habitar um mundo quase que totalmente robotizado em meio à cena diária da urbanidade contemporânea. Estamos submetidos a vozes que nos comandam idas e vindas. Reconhecimentos biométricos a nos identificar na proliferação das redes de dados, indivíduos estatísticos do miraculoso universo virtual, enquanto transitamos nas ruas ou em ambientes climatizados, sorrindo para câmeras que nos perseguem a cada esquina e monitorados por centrais de monitores a vasculhar nossos passos e atitudes.

Desde os anos 70, no século XX, e já nestas últimas décadas, tudo que se presumia por interação humana ganhou novos contornos. Passamos a depender e a despender do trabalho das máquinas. De forma direta ou não, interagimos com elas e bem menos com humanos. Quem quer que se pretenda integrado ao novo cenário não terá “vida” se não dispuser de um endereço eletrônico na Internet junto a portais ou aplicativos de comunicação instantânea, configurados por um avatar (ou duplo) da sua identidade virtual. Antes, a condição da existência exigia um nome; depois, registros e cadastros; agora, ter um e-mail, WhatsApp ou Facebook, entre outros ambientes online, é imprescindível.

Desde a Revolução Industrial, quando a sociedade passou a criar e programar máquinas que pudessem desempenhar as mesmas funções dos humanos – com extrema velocidade, eficiência e de modo incessante – não raramente, o homem viu-se ameaçado ou aviltado em sua própria humanidade. As máquinas passaram a ocupar o labor de trabalhadores derrubando, de imediato, os mais idosos.

Nesse admirável mundo novo da “sociedade do controle e da informação”, consolidada por um capitalismo cognitivo, seguimos por entre sinais luminosos e sonoros a nos conduzir, mecanicamente, em veículos automotores – mega máquinas de mobilidade – no tráfego estressante de avenidas e highways ou a transitar por escadas rolantes e a atravessar portas giratórias.Faça um boot. Insira sua senha. Redigite. Coloque o dedo mais acima, para o lado, programe elevadores inteligentes que conduzem a “nuvens” de andares ou de proteção a infindáveis arquivos de computadores.

A confirmar o vaticínio de ficções literárias ou cinematográficas, falta pouco para as máquinas assumirem o controle da vida no planeta, à medida que passam a se mostrar mais e mais “humanas”. Agradecemos sua visita à armadilha eletrônica de um Deus Ex-machina desses novos tempos, ao som de “Machine Messiah” da banda Sepultura. Logo, androides, serão apenas nostalgias as características que nos diferenciavam de um robô, vez que o desenvolvimento tecnológico passa a atribuir a elas o poder de simular afetos, desejos e escolhas, nos levando a abdicar de toda presumida consciência.

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Jornalista

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