A robotização do cotidiano

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Interagimos muito mais com robôs e bem menos com humanos 

 

Albenísio Fonseca

Passamos a habitar um mundo quase que totalmente robotizado em meio à cena diária da urbanidade contemporânea. Estamos submetidos a vozes que nos comandam idas e vindas. Reconhecimentos biométricos a nos identificar na proliferação das redes de dados, indivíduos estatísticos do miraculoso universo virtual, enquanto transitamos nas ruas ou em ambientes climatizados, sorrindo para câmeras que nos perseguem a cada esquina e monitorados por centrais de monitores a vasculhar nossos passos e atitudes.

Desde os anos 70, no século XX, e já nestas últimas décadas, tudo que se presumia por interação humana ganhou novos contornos. Passamos a depender e a despender do trabalho das máquinas. De forma direta ou não, interagimos com elas e bem menos com humanos. Quem quer que se pretenda integrado ao novo cenário não terá “vida” se não dispuser de um endereço eletrônico na Internet junto a portais ou aplicativos de comunicação instantânea, configurados por um avatar (ou duplo) da sua identidade virtual. Antes, a condição da existência exigia um nome; depois, registros e cadastros; agora, ter um e-mail, WhatsApp ou Facebook, entre outros ambientes online, é imprescindível.

Desde a Revolução Industrial, quando a sociedade passou a criar e programar máquinas que pudessem desempenhar as mesmas funções dos humanos – com extrema velocidade, eficiência e de modo incessante – não raramente, o homem viu-se ameaçado ou aviltado em sua própria humanidade. As máquinas passaram a ocupar o labor de trabalhadores derrubando, de imediato, os mais idosos.

Nesse admirável mundo novo da “sociedade do controle e da informação”, consolidada por um capitalismo cognitivo, seguimos por entre sinais luminosos e sonoros a nos conduzir, mecanicamente, em veículos automotores – mega máquinas de mobilidade – no tráfego estressante de avenidas e highways ou a transitar por escadas rolantes e a atravessar portas giratórias.Faça um boot. Insira sua senha. Redigite. Coloque o dedo mais acima, para o lado, programe elevadores inteligentes que conduzem a “nuvens” de andares ou de proteção a infindáveis arquivos de computadores.

A confirmar o vaticínio de ficções literárias ou cinematográficas, falta pouco para as máquinas assumirem o controle da vida no planeta, à medida que passam a se mostrar mais e mais “humanas”. Agradecemos sua visita à armadilha eletrônica de um Deus Ex-machina desses novos tempos, ao som de “Machine Messiah” da banda Sepultura. Logo, androides, serão apenas nostalgias as características que nos diferenciavam de um robô, vez que o desenvolvimento tecnológico passa a atribuir a elas o poder de simular afetos, desejos e escolhas, nos levando a abdicar de toda presumida consciência.

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Jornalista

ATÉ QUANDO AS MAZELAS POLÍTICAS VÃO SE SOBREPOR ÀS NARRATIVAS CULTURAIS NO BRASIL?

                                                                                                               Arte: Oswaldo Guayasamín

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Albenísio Fonseca

Desde que entendida por gente, a sociedade brasileira convive de modo “natural” com extremos de desigualdade social e econômica a compor (com todos os seus artifícios) abismos intransponíveis entre os cidadãos em camuflada luta de classes. O mais emblemático dos sintomas a recordar é termos sido o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão. E não se pode deixar de recordar em quais condições a exploração da mão de obra escrava, de negros e negras importados da África, teve consumada sua abolição, após mais de 300 anos. Deixados ao léu.

Desde o osso do eixo da história brasileira, constata-se o sentimento antipopular das elites e das velhas camadas de oligarquias provenientes da classe média. Sim, vem desde o período colonial e com esse mesmo espírito chegaram ao século XXI. Sem temer o excesso, pode-se afirmar que a indisposição para a solidariedade só piorou diante do avanço do individualismo, onde a cultura da indiferença é regra e, por que não enfatizar, ninguém se sente verdadeiramente responsável por nada. Tendemos a transferir para outros a solução de nossos problemas; no caso do governo, que aja como um Mecenas a nos bancar a sopa e a cuia.

Em meio à controversa conjuntura de “marchadeiros e paneleiros”, “coxinhas e mortadelas” da atualidade, o suposto desejo de assumir as rédeas da sociedade revela, nitidamente – como delineado no golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2015 – o propósito de recapturar o Estado para recolocá-lo a seu serviço, no berço esplêndido das suas recompensas e malversações.

Mesmo com o golpe militar que levou à proclamação da República, o Brasil continuou a ter um sistema político regido por uma elite econômica. As restrições à participação eleitoral, até a Revolução de 1930, mostram que o “direito ao voto” alcançava não mais que percentuais pífios de “homens de bem”, algo entre 2% e 5% da população. Após a restauração da democracia em 1945, a proporção subiu, mas permaneceria em cerca de 15%, já computados os votos do eleitorado feminino. O cenário sobre o qual se consolida o golpe de 1964 – há 53 anos – era composto por apenas um terço da população adulta com representação política ou, diga-se, dois terços sem nenhuma representatividade.

Por todo o século XX, a normalidade democrática no país foi exceção. A sociedade brasileira foi submetida a duas longas ditaduras e sofreu mais de uma dezena de golpes de Estado, considerando os bem e os malsucedidos. Oficiais das Três Armas não titubearam em deixar os quartéis para derrubar governos eleitos ou impedir a posse do vencedor, movidos por apelos de civis inconformados com a democracia, como revisto nos dois últimos anos. Não é difícil concluir o quanto o golpismo está inscrito nos genes da cultura política brasileira.

Aqui, a tendência antidemocrática é alimentada, sobretudo, pela aversão à presença do povo no centro da vida política nacional. Continuamos no limite tênue dos quadrados da Casa Grande e da Senzala, oh Gilberto Freire. Uma das características mais destacáveis na elite e legitimada pela classe média é o culto à excepcionalidade, ou pretensa meritocracia, a exigir líderes “notáveis” e a excluir o cidadão comum como inapto para ocupar “cargos elevados”, em particular a Presidência da República. Lula da Silva é o mais reconhecido exemplo.

Se, afinal, é sutilmente visível o quanto nossos problemas envolvem graves e históricas desigualdades social e econômica, diria mesmo, como um paradoxo, que são culturais antes de serem políticos, até quando as mazelas políticas vão se sobrepor às narrativas culturais no Brasil de tanta e fascinante diversidade?

Sim, mas, do mesmo modo, até quando a cultura servirá apenas como artifício de sedução a embalar o sono da pachorrenta rotina?
A Arte é subversiva por nos tirar do imobilismo. A Cultura é revolucionária, como ente social agitado contra a passividade, que serve sempre àqueles que defendem a perpetuação do status quo.

A nossa escolha para a substituição do poder deve ser um exercício de identificação com propostas que prometem mais do que o emprego, mais que a subsistência, a qualidade de vida. E hoje, mais do que nunca, de modo constante, precisamos cobrar a dívida cultural – contra a tendência de consumidores passivos, tendo como objetivo ser os anunciadores do futuro. Só então a cultura, superando o divórcio não pactuado – quiçá possa se reconciliar com a política e vice-versa.

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

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A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

MAB já prepara comemoração dos 100 anos

                                                                                                                                                                                                          Foto: DivulgaçãoNenhum texto alternativo automático disponível.Dias 11, 18 e 15 de janeiro acontece um seminário para pensar o acervo do MAB
ALBENÍSIO FONSECA
 

Detentor do principal acervo museológico do estado, o MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória, em pleno coração da cidade, já deu início aos preparativos para as comemorações do centenário, em 23 de julho de 2018, com o lançamento do concurso, de âmbito internacional, visando a escolha da logomarca da efeméride. Para tanto, as inscrições estão abertas até 1º de fevereiro e o prêmio é de R$ 5 mil. O sociólogo, fotógrafo, curador e mestre em Artes Visuais, Pedro Archanjo, diretor da instituição, revelou a “estimativa de R$ 3 milhões para as comemorações, dos quais R$ 1, 8 milhão a serem obtidos junto à iniciativa privada para a requalificação do acervo”.

Archanjo anunciou, também, a realização nos próximos dias 11, 18 e 25 de janeiro, no auditório do museu (com capacidade para 190 pessoas), de um “grande seminário para pensar o acervo de 13.686 peças, com o levantamento inicial de subsídios teóricos e informações técnicas para a requalificação do patrimônio artístico existente”. Para tanto, constituiu uma equipe externa, composta por profissionais como os museólogos, Joseania Freitas, Suely Cerávola; o doutor em Arte Visuais, Luís freire; o antropólogo, artista plástico eprofessor de Comunicação, Renato da Silveira, todos da UFBA, cujo relatório final deve estar concluído em junho.

Conforme o diretor do MAB, “não queremos fazer apenas atividades comemorativas, mas implementar ações estruturantes”. Entre as já cogitadas ele cita a “realocação da biblioteca, disponibilização de Internet livre e em tempo real além de um restaurante-café, a ser terceirizado, na área que dá acesso ao Vale do Canela, onde já funcionaram repartições da Secretaria da Saúde e uma agência do Baneb. Vamos tornar esse espaço em área de convivência, dentro do propósito de viabilizar dotações de recursos que permitam a sustentabilidade do equipamento e a oferta de mais atrativos para o público”.

Com o calendário do centenário já vigindo desde o dia 1º de dezembro, quando foi lançado o concurso para a escolha da logomarca, o MAB planeja adotar neste primeiro semestre de 2017 programas como o Museu Escola Família, a partir de convênio a ser firmado com a Secretaria Estadual de Educação e o Irdeb, no qual alunos das redes pública e privada passarão um dia inteiro no Museu,  acompanhados por equipe do MAB. “Caberá aos estudantes definir o que pretendem filmar, para o que participarão de uma oficina de vídeo com laboratório digital para edição, tendo à disposição câmeras, microfones e spots para iluminação, além de transporte e alimentação”. O projeto tem custo estimado em R$ 110 mil, conforme o diretor.  Archanjo mencionou, ainda, a “criação de um caleidoscópio gigante que percorrerá bairros populares, não só em Salvador, mas em outros municípios”.

 
Telas de Van Gogh serão expostas por 3 meses
 

Dentre as atividades comemorativas, a serem deflagradas a partir de julho, quando festejará os 99 anos, estão sendo programadas a exibição de dois quadros do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), durante três meses – sob custo de R$ 600 mil, incluídos os seguros das duas obras pertencentes ao Masp-Museu de Arte de São Paulo – e a participação do cantor e compositor Caetano Veloso, que proferirá a palestra já intitulada “O mundo não é chato”.

Conforme o diretor, “haverá, também, uma exposição de Arte Moderna com obras de alguns dos principais artistas modernistas brasileiros que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, da Universidade de Fortaleza (CE). Segundo ele, “fotografias da Bahia antiga também deverão ganhar espaço nobre e temos, ainda, em andamento, um projeto multimídia que promoverá intervenções de fotos e vídeos, em 3D, a serem acionados por sensores de presença, dialogando com o acervo tradicional, multiplicando a capacidade expositiva e surpreendendo os visitantes”, revelou.

Pedro disse pretender “que a equipe externa envolvida com os estudos sobre a requalificação do acervo desenvolva, também, uma tarefa arqueológica, visando identificar quem foram os negros escravizados responsáveis pelos trabalhos de marcenaria, carpintaria e ourivesaria nas diversas peças existentes no MAB”. Criador da Bienal do Recôncavo, Archanjo fez ver a riqueza de detalhes de enormes pulseiras e braceletes de ouro usadas por negras ganhadeiras como símbolos da ostentação de status, poder e liberdade, lamentando o desconhecimento, até agora, sobre os criadores das peças.

                                                                                                 Foto: Divulgação
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Pedro Archanjo, diretor do MAB
Diretor deu nova face e dinâmica ao museu
 

Desde que assumiu a direção do MAB, mesmo sem dotação orçamentária, Pedro Archanjo adotou uma dinâmica intensa de atividades com aproximadamente 20 eventos mensais. A média de público que era de 14 pessoas/dia passou à média de 90 frequentadores diários e é meta da diretoria alcançar 150 pessoas diariamente até o final do primeiro semestre de 2017 e 200 até o final do ano. Em 2016, entre as iniciativas da programação constaram exposições, lançamentos de livros, palestras, debates, seminários, cursos e oficinas.

Criamos projetos como o “Diálogos Contemporâneos“, cuja programação nas primeiras quartas-feiras de cada mês, envolveu temas diversos, desde as religiões de matriz africana à discussão da PEC 421/55, à filosofia das Artes e políticas culturais, possibilitando interação com novas ideias. “Tivemos até de instalar um telão para contemplar o público, estimado em 400 pessoas, em um dos eventos”, lembrou. De acordo com Pedro, “este foi um ano muito importante para o MAB, na medida em que pudemos conciliar questões clássicas da museologia com os desafios da contemporaneidade”, avaliou.

No momento, o MAB exibe mostras como a “Florata”, de Alba Vasco (até 3.02) e integra o Circuito das Artes, envolvendo coletivo de artistas, sob curadoria de Alejandra Muñoz e Eneida Sanchez, além de abrigar as exposições permanentes – da Escola Baiana de Pintura – com obras de Presciliano Silva, Alberto Valença e Mendonça Filho, entre outros (a exigir novo projeto de iluminação). Também as coleções de pintura do Conselheiro Jonatas Abbott, dos séculos XVII e XVIII, de origem europeia, onde se destaca  o quadro “David com a Cabeça de Golias”, da Escola de Caravaggio. Desde 1943, a do ex-governador Francisco Marques de Góes Calmon, que reúne importantes conjuntos de artes decorativas, notadamente mobiliário de época e porcelanas orientais, como o conjunto de “louça histórica” que pertenceu a vários representantes da aristocracia brasileira.

No térreo do antigo solar, que pertencera a um rico comerciante de escravos, encontram-se, ainda, gravuras que possibilitam passeios pela Salvador dos séculos XVII, XVIII e XIX, entre mapas e aspectos da urbanização à época da invasão holandesa, em 1624. O museu conserva, além do mais, uma considerável coleção de imagens religiosas e objetos da liturgia católica como lampadários, castiçais e cruzes. Conforme Pedro Archanjo, “nosso projeto maior é o de entregar à cidade um novo museu, que dialogue com as demandas artísticas da contemporaneidade sem perder suas características históricas e as comemorações do centenário serão fundamentais para consolidarmos essa tendência”.

 

Biblioteca Pública da Bahia faz 205 anos

ALBENÍSIO FONSECA

                                                                                        Foto: Divulgação                                              
                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
 Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 205 anos nesta sexta-feira, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Para marcar a data, acontece a exposição “Viagem a Timbuktu – Fotografias de Edmond Fortier – Da costa da Guiné às margens do Saara em 1906”, do fotógrafo francês Edmond Fortier (1862-1928), aberta à visitação até 22 de junho.  
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

Pasquale de Chirico

As esculturas que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina são de 1909

PASQUALE DE CHIRICO

Escultor dos principais
monumentos 
de Salvador
é relegado ao esquecimento

Mesmo sendo o maior criador individual dos principais monumentos existentes em Salvador, o escultor italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) não mereceu, ainda, sequer ser lembrado como nome de rua ou praça da cidade. Após mais de um século das suas primeiras contribuições para o acervo artístico do mobiliário urbano da primeira capital do país e embora as monumentais intervenções estéticas dele componham os principais cartões portais desta urbe, o artista permanece banido do reconhecimento, seja pela Municipalidade ou demais órgãos responsáveis pelo patrimônio cultural e artístico, seja da maioria da população. Suas esculturas, vale ressaltar, não se restringem à capital da Bahia.

                                                                                                                                      Fotos: Albenísio Fonseca
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Monumento ao poeta Castro Alves na praça que o homenageia

São criações dele os monumentos a Castro Alves, de 1923, na praça que homenageia o poeta; ao barão do Rio Branco, inaugurada na Praça de São Pedro em 1915; o Relógio de São Pedro, de 1916, também naquela praça (na Avenida Sete); o extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru, na praça em frente ao Mercado Modelo, inaugurado em 1934; o Jesus Salvador, ou Cristo da Barra, de 1920, no Morro do Ipiranga, próximo ao Farol da Barra, anterior ao Cristo Redentor do Rio de Janeiroo busto do General Labatut, de 1923, no Largo da Lapinha; a fonte com um índio a enfrentar um dragão, no Largo dos Aflitos; as 13 esculturas a personalidades que contornam o anfiteatro da antiga Faculdade de Medicina, de 1909, apontadas como as primeiras obras de Pasquale na Bahia. 

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Detalhe do extraordinário conjunto de esculturas ao Visconde de Cayru

O amplo acervo, listado por Bartolo Sarnelli, neto de De Chirico, envolve, ainda, o monumento a Almeida Couto, inaugurado em 1924, em Nazaré (mas desaparecido); o conjunto em homenagem ao Barão de Macaúbas, também de 1924; o busto do médico Julio David e o seu mausoléu, de 1926; busto de Rui Barbosa, em Alagoinhas, de 1935; o busto ao Irmão Joaquim do Livramento, na Igreja dos Órfãos de São Joaquim, em 1936; busto ao padre Manoel da Nóbrega, em frente à Igreja da Ajuda; a estátua ao educador Góes Calmon, na Academia de Letras da Bahia, trabalho de 1938; o busto do benemérito Francisco Caminhoá, instituidor do Premio de Viagem Donativo Caminhoá, da então Academia de Bellas Artes da Bahia, através de verba testamentária, para proporcionar viagem de aperfeiçoamento à Europa, então centro de referência nas artes plásticas mundiais, de 1927. Há, também, quatro trabalhos no Palácio Rio Branco cujas datas não foram definidas.

                                                                                                                                                                                                                                                                                           Foto: DivulgaçãoBartolo Sarneli, neto de Pasquale, ao lado da obra O Remorso

Em toda essa cartografia icônica das esculturas criadas por Pasquale de Chirico, há, ainda, “O Remorso”, com duas cópias originais: uma na Escola de Belas Artes da UFBA, no Canela e outra no MAB-Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Existe, também, o monumento ao Conde dos Arcos, inaugurado em 1932, na praça que tem o seu nome; figuras na fachada da Catedral Basílica, no Terreiro de Jesus; o monumento a D. Pedro II, de 1937, sob restauração, na Praça Almeida Couto, em Nazaré; o Medalhão a Eurycles de Mattos, também daquele ano, que era incrustado em uma coluna de granito mas, desaparecido, parece ter sido furtado, no Rio Vermelho; busto de D. Pero Fernandes Sardinha, de 1942, na Praça da Sé; estátua de Thomé de Sousa, na Praça Municipal e a escultura do primeiro governador-geral desnudo, no Palácio Rio Branco (provavelmente por volta de 1919, ano da reinauguração do Palácio), além de outras como o Cristo, em Ilhéus e Nossa Senhora Aparecida, na Praça da Basílica, em Aparecida (SP).

 

Se é certo que as esculturas compõem um simulacro da corporeidade humana no corpo urbano, mais importante ainda é contatar o quanto elas estabelecem um diálogo com outro corpo real e vivo, o daquele que se aproxima do seu espaço circundante. Nesse sentido, como se disséssemos de um Auguste Rodin, oextraordinário legado de Pasquale de Chirico para Salvador, onde é mais notória e pública suas criações, constituem um ‘panteon’ significativo da memória da cidade, a requerer preservação e mesmo o tombamento como forma de ressaltar a face escultórica do patrimônio cultural, em seu aspecto material e, sobretudo, dado ao seu caráter estético e histórico.

 

O Relógio de São Pedro ocupa lugar da igreja demolida para abertura da Av. Sete

Quadros, maquetes, desenhos e bustos a serem listados

Sarnelli lamenta que “muitos trabalhos não puderam ser pinçados”. Entre os quais menciona quadros, desenhos, maquetes, como é o caso do monumento a Ruy Barbosa. Segundo o neto do escultor, “Pasquale venceu a concorrência para a execução do monumento em homenagem ao Águia de Haia, mas o trabalho não foi realizado por falta de verba”.

De todo modo, observou que a maquete ganhadora do concurso “existe e está exatamente na Casa de Rui Barbosa”, mantida pela ABI-Associação Bahiana de Imprensa, no Centro Histórico de Salvador. De acordo com Sarnelli, “há bustos, muitos bustos de personalidades espalhados pela cidade”, sobre os quais Bartolo disse ter enfrentado dificuldades para relacionar. Ele destacou, entre outros, o de Theodoro Sampaio, no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

Por enquanto, a única homenagem ao velho mestre é proporcionada pela Universidade Federal da Bahia ao consagrar a ele o Salão Pasquale de Chirico, nome da sala onde os alunos da Escola de Belas Artes assistem às aulas de Escultura. Em suma, suas obras, notáveis e públicas, estão espalhadas pelos quatro cantos de Salvador e em outros pontos do estado, do país e mesmo na cidade natal dele.

 

Pasquale de Chirico

 Artista veio para Salvador em 1903, aos 30 anos

Escultor, desenhista e professor, o italiano Pasquale de Chirico (1873-1943) nasceu na cidade de Venosa, Sul da Itália, emigrou para São Paulo aos 20 anos, em 1893, e ali viveu por dez anos com uma fundição que instalou, casou-se e teve duas filhas. Em 1903, mudou-se para Salvador a convite de Theodoro Sampaio (então engenheiro civil, urbanista, geólogo, cartógrafo, geógrafo, historiador e político) para confeccionar as esculturas da Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, que passava por reforma após um incêndio que atingiu a histórica edificação.

Aqui, montou ateliê na antiga Rua do Tijolo, atual 28 de Setembro, que dá acesso ao Viaduto da Sé, no Centro Histórico. De 1918 a 1942, foi professor de Escultura e Desenho na então Escola de Belas Artes da Bahia, onde atuou, inicialmente, como contratado até se tornar titular da instituição. Pasquale morou de aluguel por vários anos até construir sua casa própria no Rio Vermelho,  com projeto de sua autoria, onde hoje funciona o restaurante Sukiyaki e na qual veio a falecer em 31 de março de 1943.

Homenagem foi barrada pela legislação


Na tentativa de corrigir a injustiça para com o escultor italiano, em 2014 a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) conseguiu aprovar projeto de lei na Câmara Municipal com a indicação do nome de Pasquale de Chirico para redenominar a Praça da Santa Cruz, no Rio Vermelho. Mas ocorreu de a iniciativa ter sido vetada pela Sucom, com base no Artigo 5º da Lei 3.073/79, segundo o qual não é permitida a alteração de nomes de logradouros já oficializados.
A vereadora deverá encaminhar novo projeto visando a denominação de outro logradouro a fim de que a homenagem com o nome dele, 
em sua memória e no reconhecimento às suas monumentais contribuições artísticas para a cultura visual de Salvador sejam finalmente, reverenciadas. 

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
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Albenísio Fonseca é jornalista

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