A robotização do cotidiano

Foto: Divulgação
Interagimos muito mais com robôs e bem menos com humanos 

 

Albenísio Fonseca

Passamos a habitar um mundo quase que totalmente robotizado em meio à cena diária da urbanidade contemporânea. Estamos submetidos a vozes que nos comandam idas e vindas. Reconhecimentos biométricos a nos identificar na proliferação das redes de dados, indivíduos estatísticos do miraculoso universo virtual, enquanto transitamos nas ruas ou em ambientes climatizados, sorrindo para câmeras que nos perseguem a cada esquina e monitorados por centrais de monitores a vasculhar nossos passos e atitudes.

Desde os anos 70, no século XX, e já nestas últimas décadas, tudo que se presumia por interação humana ganhou novos contornos. Passamos a depender e a despender do trabalho das máquinas. De forma direta ou não, interagimos com elas e bem menos com humanos. Quem quer que se pretenda integrado ao novo cenário não terá “vida” se não dispuser de um endereço eletrônico na Internet junto a portais ou aplicativos de comunicação instantânea, configurados por um avatar (ou duplo) da sua identidade virtual. Antes, a condição da existência exigia um nome; depois, registros e cadastros; agora, ter um e-mail, WhatsApp ou Facebook, entre outros ambientes online, é imprescindível.

Desde a Revolução Industrial, quando a sociedade passou a criar e programar máquinas que pudessem desempenhar as mesmas funções dos humanos – com extrema velocidade, eficiência e de modo incessante – não raramente, o homem viu-se ameaçado ou aviltado em sua própria humanidade. As máquinas passaram a ocupar o labor de trabalhadores derrubando, de imediato, os mais idosos.

Nesse admirável mundo novo da “sociedade do controle e da informação”, consolidada por um capitalismo cognitivo, seguimos por entre sinais luminosos e sonoros a nos conduzir, mecanicamente, em veículos automotores – mega máquinas de mobilidade – no tráfego estressante de avenidas e highways ou a transitar por escadas rolantes e a atravessar portas giratórias.Faça um boot. Insira sua senha. Redigite. Coloque o dedo mais acima, para o lado, programe elevadores inteligentes que conduzem a “nuvens” de andares ou de proteção a infindáveis arquivos de computadores.

A confirmar o vaticínio de ficções literárias ou cinematográficas, falta pouco para as máquinas assumirem o controle da vida no planeta, à medida que passam a se mostrar mais e mais “humanas”. Agradecemos sua visita à armadilha eletrônica de um Deus Ex-machina desses novos tempos, ao som de “Machine Messiah” da banda Sepultura. Logo, androides, serão apenas nostalgias as características que nos diferenciavam de um robô, vez que o desenvolvimento tecnológico passa a atribuir a elas o poder de simular afetos, desejos e escolhas, nos levando a abdicar de toda presumida consciência.

——————————
Jornalista

Invasão holandesa completa 393 anos

                                                                                                                                                                                                        Fotos: ReproduçõesPintura de Hassel Gerritsz sobre a invasão a Salvador em 1624

 

Albenísio Fonseca

Salvador, 9 de maio de 1624. A cidade amanhece sob o domínio e os efeitos do bombardeio de uma esquadra holandesa composta por 26 navios, sob o comando de Jacob Willekens. Na véspera, mesmo sob fogo cruzado do Forte de Santo Antônio, eles conseguem alvejar os canhões da Ponta do Padrão e desembarcam no Porto da Barra. Grupamentos de vanguarda seguem pela Ladeira da Barra e despenhadeiros até alcançarem a Porta de São Bento. Passam a madrugada no Mosteiro “ao sabor de vinhos e confeitos” que encontram no local. Ali, esperam o dia amanhecer e tomam o centro da cidade.
Conforme Ricardo Behrens, no livro ‘Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625’, “relatos portugueses e holandeses contam que o confronto teve início no dia anterior quando os da cidade receberam com disparos um batel com bandeira de paz enviado pela frota, antes mesmo de ouvirem a embaixada. Em resposta, os invasores descarregaram seus canhões no costado da cidade, nos fortes e nos navios que estavam no porto”. A visão da armada, por si só, provoca pânico e correria na maioria dos habitantes. Por mais que soubessem da probabilidade dos ataques, a cidade não dispunha de nenhuma estratégia especial. D’El Rey não estabelecera nenhum recurso para armamentos. 
Já os holandeses – cuja armada partiu do porto de Texel em dezembro e a viagem durara, portanto, quase seis meses – estavam imbuídos do propósito de invadir a capital do Reino do Brasil e com bastante munição. Os arrasadores disparos de canhões e, depois, o vandalismo dos invasores, acarretam inúmeros prejuízos à cidade, inclusive ao prédio da Câmara onde estava instalado o Arquivo Histórico, cujos documentos são completamente destruídos pelo fogo.
De acordo com o historiador Affonso Rui, no livro ‘História política e administrativa da cidade de Salvador’ “os oficiais encarregados da documentação, como boa parte da população, fogem para Abrantes”, relata. Os 3.400 homens, entre aventureiros e mercenários que compunham a esquadra invasora, não encontram maiores resistências para render o governador-geral da colônia, D. Diogo Mendonça Furtado, e aprisioná-lo na chamada Casa dos Governadores (no que viria a ser o Palácio Rio Branco, na atual Praça Tomé de Souza), em pleno coração da urbe, uma das mais importantes cidades da América, então capital do Brasil.
O governante português houvera se mostrado preocupado com o despreparo bélico do Brasil e chegou a entrar em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade e Mendonça Furtado assina sua rendição um dia depois. É levado prisioneiro para Amsterdan, com outras 12 pessoas, entre auxiliares e jesuítas, de onde somente são libertados em 1626. Segundo Behrens em sua dissertação de Mestrado já convertida em livro, “há uma série de conferências publicadas na Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, nº 66, de 1940. Trata-se de uma publicação em comemoração à derrota de Maurício de Nassau ao tentar invadir a Bahia em 1638. Além das conferências, foram publicadas as sugestões feitas pelos membros do Instituto para comemorar a data, dentre as quais se destaca a ideia de confecção de uma série de placas comemorativas, a exemplo da que existe ainda na entrada do Mosteiro de São Bento”. 
A permanência dos holandeses em terras baianas duraria praticamente um ano. Cabe ao bispo Dom Marcos Teixeira, posteriormente denominado Bispo Guerreiro, promover a resistência. Através da tática de emboscadas impede os invasores de sair da cidade. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa-espanhola, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chega a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, obtêm a primeira rendição.
Colônia era controlado pelos espanhóis durante a União Ibérica
A colônia era controlada, então, por espanhóis, durante a denominada União Ibérica (1580-1640) que junta as duas coroas após o desaparecimento de Dom Sebastião de Avis, na Batalha de Alcácer Quibir, no Marrocos, na guerra contra os mouros, em 1578, quando ambicionava a vitória sobre os muçulmanos para a glória do cristianismo. Vale entender mais: A “morte” de Dom Sebastião provoca uma crise sucessória em Portugal, tendo em vista que o rei não deixara herdeiros. Seu desaparecimento gera o “sebastianismo”, espécie de crença messiânica que estipulava seu retorno ao reino e que se estenderia por três séculos como símbolo do nacionalismo português.
A solução encontrada para o trono é seu tio-avô, o cardeal D. Henrique (Henrique I, de Portugal), que, já bastante idoso, falece em 1580, marcando o fim da dinastia de Avis. Com isso, o trono português passa a ser disputado por outras dinastias europeias, que reivindicavam ligação de parentesco com Dom Sebastião. O então rei da Espanha, Felipe II, um dos mais poderosos monarcas da época, era neto de Dom Manuel, O Venturoso, que, por sua vez, era tio de Dom Sebastião. Essa ligação parental é reivindicada por Felipe II e usada como legitimação para a invasão de Portugal pelos espanhóis em 1580, instaurando a monarquia dualista: duas coroas sob um mesmo monarca. Portugal só readquire a independência 60 anos depois quando tem início o reinado de D. João IV, fundador da dinastia de Bragança. 
É no período da União Ibérica que ocorre também as invasões francesas. Holanda e França, que antes mantinham relação amistosa com Portugal, confrontam-se diretamente com a Espanha. A supremacia ibérica passa a ser questionada por aquelas nações europeias que desejavam também lucrar com o processo de colonização. E isso envolvia tanto razões de caráter econômico, no que pese o controle do comércio de açúcar e da extração de metais, quanto de ordem religiosa, na medida em que a Espanha era católica enquanto a Holanda e parte dos franceses haviam aderido ao protestantismo. O período conhecido como “Brasil Holandês”, em que vigorou uma sofisticada administração holandesa em parte da costa nordeste brasileira, ocorre exatamente nesse contexto. Não há registros de legados holandeses na Bahia, ao contrário dos verificados em Pernambuco, como os franceses no Rio de Janeiro e no Maranhão.
Hessel GerritszDesenho de Hassel Gerritsz sobre a Baía de Todos os Santos durante a invasão holandesa

Primeira tentativa de invasão acontece em 1599

Outras tentativas de invasão dos holandeses já haviam sido registradas na Bahia, mas não foram bem sucedidas. Na impossibilidade de dominar a capital do Brasil, eles conseguiram se estabelecer em Pernambuco e estendem seus domínios por grande parte do Nordeste até serem expulsos, definitivamente, da Colônia, em 1654. A primeira tentativa holandesa de conquistar Salvador ocorre em dezembro de 1599, quando o almirante van Leynssen envia sete navios ao Brasil, comandados pelos capitães Hartman e Broer. Os ataques na Baía de Todos os Santos duraram quase dois meses. Os holandeses afundam várias embarcações portuguesas e pilham engenhos no Recôncavo. Mas fracassam no objetivo de conquistar a Cidade.
Nos anos seguintes, piratas holandeses continuam atacando navios espanhóis e portugueses nos oceanos Atlântico e Índico. Em 1604, tentam novamente conquistar Salvador, dessa vez com uma esquadra de seis navios comandada por Paulus van Caerden. O ataque, similar ao primeiro, tem como resultado o mesmo fracasso. Nos anos seguintes, dezenas de navios com cargas do Brasil, são atacados pelos holandeses. Em 1621, eles fundam a Companhia das Índias Ocidentais, empresa patrocinada pelo governo holandês com participação de investidores privados e que visava, principalmente, a exploração comercial da América. No século 16, Portugal mantinha boas relações comerciais com os holandeses, mas esse quadro muda com o advento da União Ibérica em 1580.
Um ano antes, em 1579, as províncias do norte dos Países Baixos haviam formado a União de Utrecht, documento assinado por diversos estados dos Países Baixos que se debatiam para obter a independência da Espanha. Em 1581, declaram formalmente sua independência. A Espanha, entretanto, só a reconheceria em 1648, 24 anos depois de a Companhia das Índias Ocidentais decidir por invadir Salvador sob a alegação de sentir-se prejudicada em seus negócios no Atlântico pelo domínio espanhol sobre Portugal.

A expulsão dos invasores no contexto internacional

Fevereiro de 1630. Navios e canhões holandeses entram de novo em águas brasileiras. Dessa vez invadem Pernambuco, maior produtor mundial de açúcar na época. Desembarcam no litoral pernambucano e conquistam Olinda e Recife com relativa facilidade. O então governador Matias de Albuquerque retira-se para o interior com homens e armas e funda o Arraial do Bom Jesus, uma fortificação de onde partiam os ataques aos invasores.
Como na invasão da Bahia, os lusos-brasileiros adotam a guerra de emboscadas na tentativa de impedir os holandeses de penetrar nas terras onde estava a maioria dos engenhos. A resistência, no entanto, não contém o avanço holandês, que chega a receber apoio de moradores da região, como é o caso de Antônio Fernandes Calabar. A colaboração, muito mais que traição, visava livrar-se do domínio português. Derrotado, Matias Albuquerque manda incendiar os canaviais à sua volta e retira-se para Alagoas. Antes, porém, consegue prender Calabar e manda executá-lo.
Sete anos depois, em 1637, a Companhia das Índias Ocidentais decide reconstruir os engenhos com o objetivo de voltar a obter lucro com o açúcar brasileiro. Para liderar esse projeto, envia ao Brasil o conde João Maurício de Nassau-Siegen, com o título de governador-geral. A acumulação de riquezas da Companhia das Índias Ocidentais reflete-se na administração e na reconstrução de Recife, a capital do Brasil holandês. Nassau teve a habilidade de convidar alguns senhores de engenho para participar da administração.  Não lhes oferece cargos importantes, mas não ignora suas reivindicações. Mantém uma tolerância religiosa, sem obrigar os colonos luso-brasileiros a converterem-se ao protestantismo dos holandeses.
No afã compreender melhor o Brasil, Maurício de Nassau manda vir da Holanda 46 estudiosos, pintores e cientistas para estudar e registrar as características da terra,  dada a curiosidade despertada pela rica fauna e pelas belezas naturais da região. Os holandeses foram pioneiros nesse tipo de estudo sobre o Brasil. Os pintores Frans Post e Albert Eckhout deixam belíssimas pinturas da colônia holandesa nordestina. Os cientistas estudaram doenças tropicais e sua possível cura. O primeiro observatório astronômico das Américas foi construído em Recife. Maurício de Nassau tentou ainda dar maior autonomia econômica à colônia para não depender em demasia do mercado externo.
Em 1640, Portugal consegue independência da Espanha. Em agosto de 1645, os colonos luso-brasileiros conseguem importante vitória no Monte das Tabocas. O governo da Bahia envia auxílio e Recife é sitiada. A vitória, todavia, não conseguiu desalojar os holandeses, muito bem guarnecidos por mar. As lutas prosseguem por três anos. No final de 1648, os holandeses sofrem grande derrota na Batalha dos Guararapes. Ainda assim, Recife continua em poder da Companhia das Índias Ocidentais.
A situação internacional, contudo, ajuda a acabar com o impasse no conflito entre holandeses e colonos no Brasil. A Inglaterra declara guerra à Holanda, na disputa pela hegemonia dos mares. Os ingleses chegam a auxiliar os rebeldes anti-holandeses no Brasil. Os governantes portugueses aproveitam o enfraquecimento dos invasores e enviam um grande reforço para os colonos no Brasil, em fins de 1653. Finalmente, em janeiro de 1654, os holandeses se rendem. Terminava ali o período de domínio holandês no Brasil. Mas somente em 1661 o governo holandês reconhece que não tinha mais direitos sobre o Brasil.

O Carnaval da Tropicália

ALBENÍSIO FONSECA

tropicália rita lee, caetano e gil
Caetano, Rita Lee e Gil entre os destaques da Águia de Ouro, no Sambódromo do Anhembi, em 2012

A Tropicália é o movimento que não acabou, foi impedido de continuar. Por si só verdadeira carnavalização estética, surge com uma instalação de Hélio Oiticica, em 1967. No mesmo ano, a canção Tropicália, de Caetano Veloso. Só em 68 seria lançado o emblemático disco-manifesto. Aliás, com um erro crasso ao cravar o plural do simbólico emblema latino dos romanos “panis (em lugar de “panem”) et circenses”. Oiticica dizia que criou a Tropicália e que os demais criaram o Tropicalismo.

Sob o céu anil, havia fortes influências da pop art e do flower power norte-americanos; do processo de industrialização brasileiro e do ambiente de repressão instaurado desde o golpe de 64. Bob Dylan, Beatles, Rolling Stones, Carmem Miranda, Chacrinha e a Jovem Guarda eram alguns dos ingredientes que compunham o caldeirão cultural na efervescente antropofagia tropicalista.

O movimento se erige sobre quatro marcos inaugurais, todos transcorridos em 1967: a instalação Tropicália, manifestação ambiental, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro, em abril; a estreia do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, em maio; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, encenada em setembro pelo Grupo Oficina, sob direção de José Celso Martinez Corrêa, e as participações de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Record, em outubro, interpretando respectivamente Alegria, Alegria e Domingo no Parque, que instauravam uma nova linguagem e inseriam, definitivamente, a guitarra elétrica na MPB.

 tropicália anis et Circencis

O choque do provincianismo com o moderno gerando a síntese dialética de uma nova forma de pensamento. A um só tempo, o corte e a sutura. Algo como a Semana de 22, entre 67 e 69, converteu-se na nova ótica brasileira da transformação de costumes, valores culturais e comportamentos, liderada pela juventude daquela geração. Nossa “geleia geral”, diriam Gil, Caetano, Waly, Torquato Neto e Capinan. Toda a rede universal de comunicação hoje consolidada já estava instalada de modo embrionário naquele momento histórico. O Tropicalismo se instaura em diálogos e interinfluências, atravessando a indústria cultural em áreas profissionalizadas, como o cinema, o teatro, a TV (vide o programa Divino Maravilhoso, na Tupi, em 68); semiprofissionais, como a literatura; e as marginais: cinema super-8, escultura, música erudita.

Diante do establishment cultural erudito nacional e distinta da explícita canção de protesto, a produção musical tropicalista, face proeminente do movimento, sempre tensionando extremos, vai se relacionar com as antenas mais sensíveis da intelectualidade, os segmentos de vanguarda: Medaglia, Duprat, Cozzela, maestros da avançada música de concerto e o operístico Vicente Celestino; berimbau e guitarra; latinidade, poesia concreta e literatura de cordel; o fino e o cafona; cidade e sertão. No caleidoscópio montado pelo Tropicalismo, a cintilar também nas vozes de Gal Costa, Nara Leão ou Maria Bethânia, passamos a habitar uma nova dimensão simbólica da realidade brasileira.

Sob o fascínio irreverente dos Mutantes, nos ícones da urbanidade e do parque industrial satirizados por Tom Zé, a atualização dos paradoxos que delimita(va)m nossa brasilidade, redesenhados por Rogério Duarte. Em suma, a nova consciência crítica gerada pela estética tropicalista veio proporcionar uma ampla liberação para a criação artística que, infelizmente, o artista brasileiro, em geral, não soube dar sequência. Vale lembrar, ainda, o quanto Gil e Caetano produziram marchas e frevos antológicos para a folia.

Imagem relacionada

A instalação “Tropicália”, de Oiticica, no MAM do Rio, em 1968

Mais do que pelos militares, a Tropicália foi “derrotada” pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento brasileiro. Sem possibilidade de cooptação política à esquerda ou direita, as prisões e exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso não impediriam, contudo, que o Tropicalismo ultrapassasse o próprio rótulo como possibilidade da cultura e da vida no Brasil.  Em 2012, a Escola de Samba Águia de Ouro desfilaria na pauliceia sob o samba-enredo “Tropicália da Paz e Amor: O Movimento que não acabou”. Trazia Gil, Caetano, a roqueira e tropicalista Rita Lee entre os destaques e Cauby Peixoto e Ângela Maria como rei e rainha da MPB.

Que todos divirtam-se a valer no País do Carnaval, ainda que, em Salvador, blocos como o Boca de Brasa – com autores e personagens culturais redivivos – e o da Capoeira – um dos mais emblemáticos ícones da baianidade – tenham sido excluídos do apoio do estado e das programações oficiais. Agora, 50 anos depois, face à improbabilidade de horizontes claros em nosso triste trópico e no limite tênue do nosso luxo e miséria cultural, com a Tropicália convertida em tema de carnavalização da primeira capital do país, quiçá ainda seja possível resgatar a velha audácia e perpetuar a paixão pelo moderno e a pretensão futurista dos tropicalistas em plena virtuália do blá blá blá das redes sociais nessa transdigitada era da banda larga e comunicações instantâneas.

Biblioteca Central tenta sair do caos

                                                                                                                                                   Foto: Albenísio Fonseca

Aos 205 anos, Biblioteca Pública vive piores transtornos

ALBENÍSIO FONSECA

O cenário de abandono – com ar-condicionado quebrado, grades oxidadas, falta de assinaturas de periódicos e setores funcionando precariamente – que passou a incidir este ano sobre a Biblioteca Central, nos Barris, está com os dias contados. É o que garante Zulu Araújo, diretor-geral da FPC-Fundação Pedro Calmon, instância da Secult-Secretaria Estadual de Cultura, à qual a Biblioteca está subordinada. Na última quinta-feira ele assinou contrato para o conserto do sistema de climatização ao custo de R$ 200 mil, verba de custeio liberada em caráter de urgência pela Sefaz-Secretaria Estadual da Fazenda através da Secult. Segundo Zulu, “a central de ar – tecnologia mais avançada à época – foi instalada há 20 anos e não permite funcionamento em setores isolados, acarretando enorme custo de energia nos finais de semana quando apenas um dos setores está em funcionamento, além da própria defasagem do artefato”.

Conforme Araújo, “o conserto do ar será realizado com a biblioteca em funcionamento, afim de que no Verão o problema esteja sanado”. Defendeu a necessidade de implantar um novo sistema de ar, mas lamentou que “um equipamento que atenda a todas as exigências técnicas tenha custo estimado em cerca de R$ 1 milhão”. Ele adiantou, todavia, “projeto para captação de energia solar como fonte alternativa de energia”. Quanto às assinaturas de periódicos, assegurou que em janeiro já estarão regularizadas; avaliou tratar-se de “algo momentâneo em razão de os novos contratos dependerem de processo licitatório”, mas que “o empenho dos recursos para isso já foi efetuado”. Ao desmitificar a concepção de que o segundo maior equipamento cultural do estado (o primeiro é o Teatro Castro Alves) tenha sido transformado em um complexo – na medida em que abriga, além da própria biblioteca em si, o Espaço Xisto Bahia, Galeria Pierre Verger e as salas de Cinema Walter da Silveira e Alexandre Robatto – Zulu assegurou que “isto não chegou a ocorrer de forma organizada, institucional, em que pese ter permanecido com programações desarticuladas”.

Ele disse da posse da nova diretora da Biblioteca Pública, Lívia Freitas, em 25 de novembro e adiantou a realização de convênio com a Faculdade de Arquitetura da UFBA, visando adequações arquitetônicas e espaciais, além da aquisição de mobiliário mais confortável para os usuários junto à empresa 3M, com expertise na área de bibliotecas, ao acenar com nova concepção de funcionamento e gestão, a de “biblioteca-parque”. Para qualificar a iniciativa, a FPC traz a Salvador em janeiro, para uma palestra, a filósofa Vera Saboya que esteve à frente do desenvolvimento de uma nova política de leitura no estado do Rio de Janeiro entre 2009 e 2014. Vera é apontada como uma “profissional focada em resultados, com larga experiência em administração, comércio, franquias, planejamento estratégico e análise na área da cultura”.

Ideia é converter espaço em um polo cultural

O conceito contemporâneo de biblioteca, já adotado por vários desses equipamentos em alguns estados do País, consiste em “espaço adaptado, não apenas para garantir livre acesso à informação, leitura, pesquisa ou realização de deveres escolares, mas enquanto polo de atividades culturais, informações e lazer, ambiente de convivência e convergência, que fomentem o desenvolvimento de linguagens e promovam a produção de conteúdos e técnicas em base multimídia, impressa, audiovisual e digital, além de buscar ser um lócus para encontros e desenvolvimento de atividades conjuntas”.

Conforme documento que conceitua a conversão, a biblioteca parque envolve, ainda, “oferta diária de diversas modalidades de oficinas, cursos, seminários, workshops de formação e capacitação; cursos livres (abertos a todos) de curta e média duração, voltados a ampliar o escopo da leitura, da literatura e do conhecimento. Aliás, destinados não apenas a educadores, professores, bibliotecários, agentes e mediadores de leitura, mas, sobretudo, para o público em geral”. Entusiasmado e tendo 2018 como horizonte, Zulu reforça o propósito estipulando a “criação de áreas temáticas para crianças e pessoas especiais (cegos, surdos, mudos), com o conforto de atividades culturais agregadas à função precípua do estímulo à leitura”.

Para garantir a consolidação da iniciativa, o diretor da FPC diz ser “fundamental a criação da Associação de Amigos da Biblioteca”, ainda sem caráter jurídico definido, mas visando uma gestão compartilhada no futuro. Um edital visando a implantação da entidade, segundo ele, será lançado no primeiro semestre de 2017. “O objetivo é obter apoio de setores da sociedade e recorrer a programas de estímulo como a Lei Rouanet, o FazCultura e mesmo à articulação junto à Assembleia Legislativa visando à proposição de emendas de bancadas que possibilitem o levantamento de recursos da ordem de R$ 10 milhões, ainda que em etapas”.

Prestes a assinar portaria criando uma comissão interna que vai gerir o plano de trabalho a ser cumprido, Zulu garante já dispor de uma “lista com 20 nomes de celebridades baianas que passaram pela biblioteca”. Ele mencionou a presidente da Academia de Letras da Bahia, Evelina Hoisel; o próprio secretário de Cultura, Jorge Portugal, além de citar outros envolvidos na tarefa de resgatar a estrutura física e organizacional do equipamento, como o arquiteto Nivaldo Andrade e Armando Almeida, ex-assessor especial do MinC-Ministério da Cultura nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira durante os governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Conforme o dirigente cultural, “precisamos criar uma ação macro para corresponder aos 17 mil m² de área construída da Biblioteca Central”. Com 205 anos de criada e há 46 ocupando a enorme área nos Barris, como se diria de um elefante branco, o equipamento não dispõe de orçamento específico e a própria FPC, como de resto as demais instituições culturais baianas, vive as agruras da crise econômico-financeira que atravessa o Brasil, sob os limites dos contingenciamentos determinados pelo Executivo sobre os recursos estaduais.

Corrosão danifica vigas do Castelo Garcia D´Ávila

                                                                                                                                                                                                                                                 Fotos: Albenísio FonsecaVista de janela da primeira edificação portuguesa no Brasil e única
em formato de castelo medieval da América

 

ALBENÍSIO FONSECA

Vigas de ferro que sustentam escadarias e passarelas instaladas nas ruínas do Castelo Garcia D’Ávila, de estilo medieval, estão comprometidas pela corrosão decorrente do tempo e salitre. As estruturas foram inseridas na edificação, em 2002, para permitir melhor visão interna de áreas nobres, por turistas e pesquisadores.  O sítio histórico está localizado em Praia do Forte, município de Mata de São João, a 80 quilômetros de Salvador.

Solicitação para o restauro das vigas foi encaminhada pela Fundação Garcia D’Ávila, desde 2006, ao Iphan-Instituto do Patrimônio Artístico Nacional. Segundo a entidade, não houve qualquer posicionamento do órgão. O Castelo ou Casa da Torre foi um dos primeiros patrimônios arquitetônicos tombados pelo Iphan, quando ainda era Sphan, em 1937. O Castelo da Torre de Garcia D’Avila é considerado a primeira grande edificação portuguesa construída no Brasil e exemplar único de Castelo em estilo medieval construído na América.

De acordo com a funcionária da Fundação, Vanessa Rode, “mesmo com a estrutura estando em situação precária, merecendo restauro, não há nada que possa provocar acidentes”. Ela informou, todavia, que o número de visitantes nas passarelas, a cada tour, foi reduzido de 20 para 14. “Sempre que temos eventos e a presença de grupos maiores o acesso é limitado por questões de segurança”. O Castelo dispõe de 12 funcionários e suas ruínas são mantidas em ótimas condições de higiene e limpeza.

A Casa da Torre foi construída entre 1551 e 1624, a 73 metros acima do mar, no ponto mais alto de toda a região, até Sergipe. O acesso ao equipamento, a 3 quilômetros da entrada de Praia do Forte, vem sendo pavimentado pela prefeitura local. A Fundação Garcia D’Ávila administra, também, a Reserva de Sapiranga, na região de Praia do Forte. São 533 hectares de terra, caracterizados como uma área secundária de Mata Atlântica, por ter sido devastada para o plantio da monocultura do coco e para a prática de pecuária extensiva durante a colonização portuguesa. Hoje, a Mata Atlântica vem se recompondo de forma natural e exuberante na reserva.

As vigas que sustentam as passarelas estão corroídas e comprometem a segurança de visitantes

Sítio histórico será museu a céu aberto

A visita à Casa da Torre ocorre de domingo a domingo, com ingressos a R$ 10, e meia-entrada para idosos, professores e estudantes. A taxa é avaliada como “a título de contribuição, cuja arrecadação é destinada à manutenção e proteção das ruínas, gerando empregos para a população nativa”. A Casa da Torre dispõe de uma maquete de como poderia ter sido a edificação, a um só tempo residência e fortificação militar. Ganhou um Centro de Visitação com 1.700 metros quadrados, formado por um amplo salão onde está exposta a maquete do Castelo e espaços com salas para exposições históricas e arqueológicas, loja, salão para áudio visual, belvedere e centro administrativo.

Dispõe, ainda, de laboratório de arqueologia que reúne pedras, louças, materiais em estilo barroco, cerâmicas portuguesa, chinesa e indígena, além de crânios encontrados no cemitério que existia ao lado da Capela erguida em louvor a Nossa Senhora da Conceição e que passou a louvar a Todos os Santos.

O projeto de converter o espaço em um “museu a céu aberto” já deveria ter sido concluído desde 2010, conforme narrativa no vídeo exibido no local sobre a história do Castelo. As peças vêm sendo catalogadas e restauradas. Há quadros e painéis pintados pelo artista plástico argentino Mariano Artega adornando o salão.

Conforme o site da Fundação Garcia D’Ávila, o equipamento foi tornado em Parque Histórico e Cultural, “um complexo que compreende as ruínas da Casa da Torre ou o Castelo e um sítio arqueológico na área do seu entorno”. O Parque oferece espaço para eventos, como cerimônias de casamentos, comemorações, aniversários, exposições e festas de empresas, sob regras comportamentais estabelecidas pelo Iphan e pela Fundação e dos quais são obtidos recursos para a manutenção do Castelo e outras ações da entidade.


Maquete de como poderia ter sido o Castelo ou Casa da Torre, de Garcia D’Ávila

 

Sede de latifúndio do bastardo de Tomé de Souza

A propriedade era a sede do imenso latifúndio adquirido e ampliado por Garcia de Sousa D’Ávila (São Pedro de Rates, 1528 – Salvador, 20 de maio de 1609), filho bastardo de Tomé de Souza, a quem acompanhou na vinda ao Brasil como primeiro governador-geral e fundador de Salvador, em 29 de março de 1549. D’Ávila foi nomeado, em 1º de junho daquele ano, como “feitor e almoxarife da Cidade do Salvador e da Alfândega”, um cargo sem ordenado, arriscando-se a viver dos azares do negócio, tendo apenas “os prós e percalços que lhes diretamente pertencerem”.

Como os soldos e serviços eram pagos geralmente em mercadorias e muito raramente em dinheiro, Garcia D’Ávila recebeu, em 15 de junho, seu primeiro pagamento – duas vacas -, assim começando sua longa jornada de sucesso. Trabalhou com esforço austero e inexcedível energia durante a construção de Salvador e instalou-se inicialmente em Itapagipe, depois em Itapuã, vindo a se tornar o primeiro “bandeirante” do Norte. Tomé de Sousa doou a Garcia d’Ávila 14 léguas de terras de sesmaria que lhe haviam sido outorgadas pelo rei Dom Sebastião.

As terras iam de Itapuã até o Rio Real e Tatuapara, pequeno porto 50 metros sobre o nível do mar. Foi lá que Garcia D’Ávila, após derrotar tribos indígenas existentes ao norte de Salvador, ergueu sua Casa da Torre, em 1550. Em 1557 já era o homem mais poderoso da Bahia.

Grande desbravador, no final do século 16  sua propriedade já era a maior do Brasil, a se estender do Rio Itapicuru, no Norte, ao Rio Jacuípe, no Sul. Administrava seu latifúndio da Casa da Torre em Tatuapara, arrendando sítios a terceiros e fazendo uso de procuradores e ameríndios aculturados e libertos. Coube a ele ter trazido para o Brasil o gado nelore. Seu latifúndio ia de Praia do Forte até o Maranhão, perfazendo um total de 800 mil km², correspondentes a 1/10 do atual território brasileiro e com área equivalente à soma dos territórios  de Portugal, Espanha, Holanda, Itália e Suíça.

Seu herdeiro foi o neto Francisco Dias D’Ávila Caramuru, primogênito de sua filha Isabel D’Ávila (uma índia) e de Diogo Dias, filho de Genebra Álvares e Vicente Dias, neto de Diogo Álvares, o Caramuru, e Paraguaçu. Francisco foi o responsável pela conclusão da Casa da Torre, em 1624. A edificação tornou-se fundamental na defesa da costa e nas lutas contra os invasores holandeses e franceses, além de ponto de partida para os sertanistas que viriam a colonizar o Nordeste. A construção foi realizada por malfeitores (ladrões e assassinos) portugueses. O Castelo foi abandonado no final do século 19 e sua restauração iniciada em 1999.

Biblioteca Pública da Bahia faz 205 anos

ALBENÍSIO FONSECA

                                                                                        Foto: Divulgação                                              
                                       A Biblioteca Central dispõe, também, de acervo em braille
 Como se diria de uma fênix – ave mítica que renasce das próprias cinzas – a Biblioteca Pública da Bahia completa 205 anos nesta sexta-feira, 13. Os prédios que ocupou ao longo da história e as documentações que acumulara, foram quase inteiramente devastados por dois bombardeios que atingiram Salvador. O primeiro, na invasão dos holandeses, em 1624, quando ocupava dependências da Casa de Câmara e Cadeia. Depois,  em perverso ataque à cidade ordenado pelo então presidente da República, Hermes da Fonseca, em 1912, no imbróglio político que envolveu a disputa pelo governo do estado, entre J.J.Seabra e Rui Barbosa, após a renúncia do governador Araújo Pinho. Funcionava, então, no Palácio do Governo. Já a primeira sede própria, na Praça Municipal, é atingida por incêndio na Gráfica Oficial, que funcionava ao lado, em 1961. 
A instituição tem relevância, sobretudo, por ser a primeira do Brasil e da América Latina. Para marcar a data, acontece a exposição “Viagem a Timbuktu – Fotografias de Edmond Fortier – Da costa da Guiné às margens do Saara em 1906”, do fotógrafo francês Edmond Fortier (1862-1928), aberta à visitação até 22 de junho.  
A criação da Livraria Pública ou Biblioteca Pública da Bahia, acontece em 1811. A proposta do coronel Pedro Gomes Ferrão Castellobranco, intelectual baiano, residente no Solar do Ferrão, na Rua Gregório de Mattos, no atual Centro Histórico, é aceita imediatamente por D. Marcos de Noronha e Britto, 8º Conde dos Arcos.
A solenidade é realizada no salão nobre da sede do Governo e residência oficial do governador, atualmente Palácio Rio Branco. Na mesma data, o governante autoriza a criação da Tipographia Oficial de Manoel Antônio da Silva Serva, introduzindo a Bahia na Era da Imprensa. Um dia nada comum para a vida cultural e a história de Salvador, exceto para os desembargadores que, de propósito, deixam de comparecer ao ato e acabam por sofrer “áspera censura” do Governo, revelaria anos mais tarde o professor Moniz Aragão, que viria a dirigir a entidade por 21 anos.
Na proposta, Ferrão argumenta, com a grafia da época, que “…Padece o Brazil, e particularmente esta Capital, a mais absoluta falta de meios para entrarmos em relação de idéas com os Escriptores da Europa, e para se nos patentearem os thesouros do saber espalhados nas suas obras, sem as quaes nem se poderáõ conservar as idéas adquiridas, e muito menos promovelas a beneficio da Sociedade”. O Plano dele era de que “Tomar-se-há huma casa sufficiente para os fins propostos, a qual deve ser dentro da Cidade, em sitio agradavel, bem arejada, e não muito proxima aos lugares mais frequentados”. A biblioteca, contudo, enfrentaria exatamente aí seu primeiro problema: onde seria instalada? O governo decide que o melhor local é a antiga Livraria do Colégio dos Jesuítas, situada acima da sacristia na Catedral Basílica, na Freguesia da Sé, construída pelos religiosos da Companhia de Jesus, tendo à frente o padre Manuel da Nóbrega. Após passar por reforma geral, o espaço, finalmente, é franqueada ao público em 4 de agosto de 1811.
Como verdadeiro mecenas, o idealizador, organizador e primeiro administrador da instituição oferece “em dom perpétuo todos os seus livros e cinquenta mil reis para o Fundo do Estabelecimento”. Da Livraria do Colégio dos Jesuítas, a biblioteca incorpora os livros deixados pelos religiosos ao serem expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal, em 1779. Os recursos se mostrariam insuficientes, mas o Plano de Ferrão não deixava lacunas. Ele propõe a busca de cortesia de periódicos junto a outros países e, através de anúncio, recorre a doações de populares através de o Idade D’Ouro do Brazil, primeiro jornal baiano e terceiro do País, lançado também em 1811.  
O início do século 20 e a danificação do acervo
 
Em 1900, ocorrem em Salvador vários eventos culturais, desde a tradicional festa de Reis, no bairro da Lapinha, ao carnaval, marcado pelo primeiro desfile do Clube Carnavalesco Inocentes em Progresso, e a participação de membros da Embaixada Africana. É instalado no salão nobre do Teatro São João o cinematógrafo, que vinha funcionando na Rua Carlos Gomes; encena-se A ceia de Cristo e inaugura-se a Associação Dramática Xisto Bahia. 
A Biblioteca Pública, contudo, inicia peregrinação. Embora por muitos motivos necessite de novas instalações, fato já assinalado em relatórios anuais de várias diretorias. O inconcebível, porém, é que a transferência acontece sem planejamento e à revelia do seu diretor, da qual só toma conhecimento horas depois de iniciada e por intermédio do porteiro da instituição. 
Em 26 de abril, exatamente na data que assinala os 89 anos que Pedro Ferrão apresentara ao Conde dos Arcos o seu Plano para a criação da Biblioteca Pública, os livros são transportados por operários sem a devida qualificação, com inevitável danificação do acervo. Ao mesmo tempo, a escada de ingresso é derrubada a fim de possibilitar o alargamento da rua de acesso da Praça Conde d’Eu ao Plano Inclinado Isabel (hoje, Gonçalves), situado atrás da Catedral. 
Nos seis meses posteriores, a instituição mantém-se em peregrinação por vários espaços. É instalada no pavimento térreo da Casa do Senado, na Praça 13 de Maio; a seguir, para o prédio em que funcionara o Supremo Tribunal de Justiça, na Rua Chile; e, por fim, para ala do andar térreo do Palácio do Governo, hoje Palácio Rio Branco, onde permanece até o bombardeio que a atinge em 1912.
Foto: Arquivo

Parcialmente destruído, o Palácio do Governo abrigava a biblioteca em 1912
 Bombardeio de Salvador destrói livros raros
O ano de 1912 é fatal para a história da Bahia. A renúncia de Araújo Pinho ao Governo do Estado gera uma crise política de proporções alarmantes. O cônego Manoel Lourenço Galvão, presidente do Senado Baiano, a quem caberia assumir o cargo, declina da obrigação, alegando problemas de saúde. Assume, então, Aurélio Rodrigues Viana, presidente da Câmara dos Deputados. De posse do comando, o governador em exercício, numa estratégia política, por ato de 22 de dezembro de 1911, transfere a sede do Governo para Jequié, cidade então de difícil acesso, no intuito de criar obstáculo à cogitada intervenção federal, cujo governo apoiava José Joaquim Seabra. 
A atitude agrava ainda mais a crise política que culmina no dia 10 de janeiro de 1912. O general Sotero de Menezes, da 7ª Região Militar, autorizado pelo presidente Hermes da Fonseca, dá ultimatum para reabertura da Câmara. Não atendido, abre fogo com tiros de canhão dos fortes do Barbalho e de São Marcelo contra o Palácio do Governo. O bombardeio dura quatro horas. Paralisa completamente o tráfego na cidade e produz sérios danos às edificações da Intendência, no Teatro São João, na Igreja da Sé, palácios do Arcebispado e do Governo. Ali, o fogo se propaga chegando aos espaços da Diretoria de Terras e Minas, Salão Nobre e à Biblioteca Pública. Muitas casas fecham as portas e içam bandeiras de nações estrangeiras. 
O resultado do ato de selvageria fica estampado nos destroços espalhados por todo lado. A biblioteca é bastante atingida. Perdem-se quase todas as obras. Entre os livros consumidos pelo fogo do bombardeio, a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia; Ilheos, Porto Seguro, Pernambuco, Espirito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente desde 1583 a 1590, de Fernão Cardim; o Diario de navegação da armada que foi á terra do Brazil em 1530, de Pedro Lopes de Souza; a Historia geral do Paraguay, de Alfred Demersay; o Compendio historico da literatura classica latina, de Francisco Antonio Martins Bastos, uma Biblia poliglota de 1657 e inúmeras edições raras de jornais.
Depois do fogo, a pilhagem é geral: quase tudo é roubado, inclusive os móveis, sob indiferença da Delegacia de Polícia instalada nas proximidades do Palácio. O Diário da Bahia deixa bem claro o ocorrido, ao lamentar “[…] entre as consequencias deplorabilissimas do bombardeio a perda da nossa preciosa Bibliotheca Publica […] Tinha mais de 30 mil volumes, em cujo número obras rarissimas pelo assunpto, pela data de publicação e pela qualidade da edição; collecções dos jornaes os mais antigos do paiz, autographos e documentos de valor. Ouvimos que o prejuizo, propriamente pecuniario, é avaliado em cinco mil contos de réis, afóra o que, mesmo por muito dinheiro, se não poderá mais obter, como livros de edições esgotadas, manuscriptos, etc”.
Algumas preciosidades são salvas, como Os sermões, de Vieira, a Coleção de poesias minhas, de Manuel Alves Branco, visconde de Caravelas, e um exemplar original de 1836, dos Suspiros poéticos e saudades, do visconde de Araguaya, Domingos José Gonçalves de Magalhães, todo marcado de ferraduras, pisoteado que fora pelos cavalos. Dos 60 mil volumes da Biblioteca restam apenas cerca de 300, alguns por terem sido salvos do fogo ou recolhidos das ruas depois da pilhagem, outros por estarem fora do prédio por empréstimo. O que resta da Biblioteca é transferido de imediato para o prédio n° 23 da Rua Visconde do Rio Branco, atual Ladeira da Praça. Um mês depois, a instituição retorna ao Palácio do Governo, aí permanecendo por três meses. A seguir, ocupa por cinco meses uma sala do Arquivo Público, que funciona no prédio da Escola de Belas Artes. Por fim, retorna à Rua Visconde do Rio Branco, dessa vez no prédio n° 19, onde permanece até ser construída, em 1919, sua sede própria.
                                                                                                                                                                                                      Foto: Arquivo

A biblioteca, onde hoje está a Prefeitura, foi demolida em 1970
Primeira sede era réplica da Public Library de Nova Iorque
 
Em 28 de setembro de 1919 é inaugura a primeira sede própria da Biblioteca Pública da Bahia – uma réplica da Public Library de Nova Iorque – na Praça Rio Branco, depois Praça Municipal, atual Tomé de Souza, pelo governador Antonio Ferrão Moniz de Aragão. A abertura conta com presenças de secretários de Estado, presidentes do Senado e da Câmara, senadores, deputados, desembargadores, intelectuais e representantes da imprensa. Dois fatos marcam a inauguração: a surpresa dos convidados e visitantes ao encontrarem as estantes quase vazias, e a manifestação da desavença entre o diretor Oliveira Campos e o governador Moniz de Aragão.
Após inúmeros fatos relevantes, tanto do ponto de vista administrativo quanto a aquisição de mais livros, periódicos e criação da sala de exposições, entre outras ações, em 4 de dezembro de 1961 um incêndio irrompe no galpão da Imprensa Oficial, que funcionava ao lado, atinge a Biblioteca Pública da Bahia e faz lembrar a tragédia de 1912. Perde-se, uma vez mais, praticamente todo o acervo de inúmeros livros e coleções de revistas. O prejuízo causado pela perda envolve o elevador utilizado para o transporte dos livros, então calculado em Cr$ 700.000. Tratava-se de uma tragédia anunciada.
Dois anos antes, em 25 maio de 1959, sob o título “Ameaçadas de destruição mais de cem mil obras da Biblioteca Pública”, o jornal A Tarde alertava: “(...) muitas delas esgotadas e de valor histórico incalculável, poderão deixar de existir da noite para o dia. Isto porque um simples curto-circuito em qualquer das suas dependências poderá alastrar o fogo a todo o edifício. De construção antiga, o prédio da Biblioteca não possui laje de cimento armado para separar seus pavimentos. Predominam em seu interior construções de madeira. O teto, o piso, as escadas, etc, são todos de madeira já gasta pelo tempo e de fácil combustão”.
                                                                                              Foto: Divulgação                                           Biblioteca Central, espaço mais moderno e funcional
 Biblioteca Central chega aos Barris em 1970
Em 1968, o governo desapropria terreno na Rua General Labatut, Barris, e abre Concurso Nacional de Projetos através do Instituto dos Arquitetos do Brasil, visando construir novo espaço, mais moderno e funcional para a biblioteca. 69 projetos de todo o País participam da seleção, mas apenas quatro classificam-se como finalistas.
O júri fora composto pelos arquitetos Acácio Gil Borsoi, Paulo Antunes Ribeiro e Marcos Konder Neto e pela bibliotecária Adalgisa Moniz de Aragão, conta ainda com o arquiteto consultor Walter Velloso Gordilho e o professor Nelson de Souza Sampaio. O vencedor é o projeto dos arquitetos Ulrico Zurcher, Enrique Alvarez, Rodrigo Pontual.
Concluída a construção nos Barris em 15 de setembro de 1970, as portas da Biblioteca na Praça Municipal são fechadas. Abandonada é, por fim, demolida por implosão juntamente com as edificações da Cadeia Pública e da Imprensa Oficial, situadas na mesma área. Do antigo prédio resta unicamente a porta principal, testemunho artístico de uma época. No local é construído um jardim, popularmente conhecido como Jardim de Sucupira, em alusão ao folhetim novelesco O bem amado, de Dias Gomes. Mais adiante, sob projeto do arquiteto Lelé Filgueiras, é edificado o prédio que abriga atualmente a Prefeitura Municipal de Salvador.
Finalmente, em 5 de novembro de 1970, Dia Nacional da Cultura e data do nascimento de Ruy Barbosa, é inaugurada a Biblioteca Central do Estado da Bahia, em ato solene presidido pelo governador Luiz Viana Filho, com presença de autoridades, políticos e intelectuais. A partir de setembro de 1980, a Fundação Cultural do Estado ocupa espaços importantes, abrigando todas as coordenadorias no 3º andar e no subsolo do prédio, descaracterizando o atendimento ao público leitor, que encontra salas reduzidas.
Controvérsias à parte, vale ressaltar que o milenar termo latino “biblioteca”, originalmente, tinha como conceito ser um “depósito de livros”. Contemporaneamente, como se diria de uma usina produtora de conhecimento em espaço multicultural, foi redefinida para “ambiente físico ou virtual destinado à coleção de informações com a finalidade de auxiliar pesquisas e trabalhos escolares ou para praticar o hábito de leitura, seja em material impresso em papel ou digitalizado e armazenado em outros tipos de suportes, como fitas VHS, CD, DVD, arquivos ou bancos de dados em Pdf ou Doc”.
Além de contemplar exposições e lançamentos de publicações, atualmente a Biblioteca Central é subordinada à Fundação Pedro Calmon. Em 2015, cerca de 67 mil pessoas visitaram o espaço de leitura.

Um novo estatuto para os museus

   Foto: Divulgação
Museu Casa do Rio Vermelho, de Jorge Amado e Zélia Gattai, sob curadoria de Gringo Cardia,         um ótimo exemplo de nova concepção museológica

Um novo estatuto
para os museus

Albenísio Fonseca 
 
Uma nova concepção na atuação dos museus, já há alguns anos, vem sendo implementada tanto no Brasil quanto em diversos países.  Dentre as intervenções propostas, destaque-se a que propõe “demolir” a ideia de divisão do mundo da cultura em camadas, assim como a oposição abrupta entre o tradicional e o moderno, o culto, o popular e o massivo.
Os museus passam por significativo processo de transformação oriundo de diversos fatores, entre eles, a concorrência com outros equipamentos culturais. As grandes transformações em curso refletem elementos das novas demandas sociais decorrentes, dentre outras, da grande presença das tecnologias comunicacionais no cotidiano.
 
As novas tecnologias de comunicação revolucionam nosso cotidiano e impõem aos museus a aplicação de um discurso de imagens, sons, luz e cores. A necessidade de novas posturas na concepção de museu, mais dialogadas, representa um desafio de criação e de ousadia na construção de novos espaços de aprendizagem, sejam formais, não formais ou informais.
Os museus, ainda que em complementaridade aos espaços formais de ensino, promovem hoje uma aprendizagem social do conhecimento. Exatamente pelo fato de o museu não ser a sala de aula, ele requer olhares, novos ou velhos, de pesquisa sobre as práticas educativas que pode propor. 
 
Enquanto local de patrimônio, de coleções de objetos, de artefatos e instância de comunicação, os museus devem converter-se, também, em local de lazer, de prazer, de sedução, de encantamento, de reflexão, da busca de conhecimentos. Em oposição à instituição elitista e estática que se estendeu desde o século XVII, o novo museu deve abrir suas portas ao público e conquistar a rua e todos os espaços sociais de encontro e troca de conhecimento.
O museu deixa de ser um “mero” local de memória e deleite estético para se tornar referência na paisagem e no convívio urbano, com oferta de atrativos que proporcionem interação e mobilidade, visando não só atrair e ampliar público, quanto fidelizar a presença desse contingente nos espaços e eventos programados.
 
Além da educação patrimonial e suas vinculações com manifestações culturais, o novo museu deve viabilizar funções sociais, por si só interativas, em intercâmbio com outras linguagens, disponibilizando espaços para promoção de espetáculos musicais, cênicos e de dança, lançamento literários, além da oferta de cursos, sem abdicar do caráter expositor e com um lounge para a oferta de Café e lanches ou petiscos típicos da culinária brasileira. Promoverá, desse modo, o acesso e a interação na convergência de encontros e dos conhecimentos em um universo aberto para o transito do passado, do presente e do futuro.
 
Em meio a essa nova concepção dos espaços dos museus, o projeto para esta nova era se define na valorização do multiculturalismo, das múltiplas inteligências, saberes e linguagens. O novo “estatuto” do Museu, portanto, deve passar a conferir significado aos encontros de olhares e busca de experiências sensíveis entre e para o seu público, deixando a definição do atributo singular para converter-se, em suma, em um território plural.
 
————————-
Albenísio Fonseca é jornalista

Entradas Mais Antigas Anteriores